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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

10
Out21

600 mil mortes no Brasil: "liberou geral" pode fazer curva da Covid-19 voltar a subir

Talis Andrade

 

Estádios de futebol com mais público, cidades cogitando o fim do uso obrigatório de máscaras, espaços de lazer liberados em condomínios. O Brasil, que chega aos 600 mil mortos por Covid 19 nesta sexta-feira (8), já pode mesmo se dar ao luxo de afrouxar as medidas sanitárias contra o coronavírus?

Com cerca de 450 óbitos diários pela doença, o país de fato tem o que comemorar porque já teve índices bem piores, chegando a 4 mil mortes por dia no auge da pandemia este ano e ao dramático platô de mil vidas perdidas diariamente durante vários meses.

Hoje, mais da metade dos municípios brasileiros celebra o fato de não ter registro de óbitos, graças ao avanço da vacinação. Mas especialistas dizem que o ‘liberou geral’ que muitos querem para ontem pode colocar a perder esse quadro que, finalmente, parece caminhar para a redenção pandêmica coletiva.

A especialista em saúde pública e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ligia Bahia disse à RFI que o foco deve ser o retorno consistente das atividades essenciais como as aulas nas escolas e universidades, com as medidas sanitárias respeitadas. “A gente nunca teve um quadro tão favorável na pandemia. Entretanto, ainda não dá para dizer que acabou. Nós demoramos muito tempo para chegar a esse patamar de vacinação e, mais de oito meses depois, a gente ainda não tem 70% da população com duas doses”, explica. "Além disso, o número de novos casos e de mortos ainda é relativamente alto. Então não podemos bobear agora. Não estamos num patamar seguro ainda e a variante delta circula por aqui.”

O epidemiologista Julival Ribeiro, da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirmou à RFI que a falta de cuidado nesse momento pode trazer consequências imprevisíveis. “Essa falsa impressão de que a pandemia acabou é muito preocupante. A pandemia está aí presente e temos que observar o que pode acontecer nos meses vindouros, não só aqui no Brasil, mas também no mundo inteiro. Lembrar que Israel, mesmo com a vacinação da população adiantadíssima, está sugerindo a terceira dose para toda população por causa da variante delta”, ressalta o especialista.

 

CPI na reta final

No Congresso, a CPI da Covid deve finalizar os trabalhos, com a votação do relatório final até o dia 20. Nessa fase derradeira, parlamentares se concentram no tenebroso caso da operadora de saúde Prevent Senior, que virou símbolo do descaso com a vida e da insistência fatal em remédios sem eficácia contra a doença. O paciente Tadeu Andrade, de 65 anos, contou no Senado que quase morreu porque a empresa convencia parentes a aceitar tratamento paliativo, encerrando a internação na UTI, mesmo quando ainda havia chance de sobrevivência.

Minha família não concordou, nessa reunião, com o início dos cuidados paliativos, se insurgiu, ameaçou ir à justiça para buscar uma liminar e impedir que eu saísse da UTI, ameaçou procurar a mídia. Nesse momento, a Prevent recuou e cancelou o início do tratamento paliativo, ou seja, eu, em poucos dias, estaria vindo a óbito e hoje eu estou aqui”, disse, emocionado, à CPI.

O último a ser ouvido deve ser o ministro da saúde Marcelo Queiroga, que já está de volta ao Brasil depois da quarentena que fez nos Estados Unidos por contrair Covid 19. Ele foi convocado pela terceira vez após um órgão técnico subordinado à sua pasta ter adiado a análise de um parecer que contraindica o uso da cloroquina e outras drogas no tratamento da Covid. O adiamento se deu por pressão do Planalto.

 

09
Set21

Frente ampla contra ataques golpistas de Bolsonaro pode desbloquear pedidos de impeachment

Talis Andrade

 

Analista diz que mobilização deve envolver instituições mas também a sociedade civil. No meio político, ataques do presidente contra o Supremo Tribunal Federal (STF) reacenderam o debate sobre o impeachment.

 

 

Raquel Miura /RFI 

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Os discursos de Bolsonaro nas manifestações de 7 de setembro geraram reações em diversos setores. Nos corredores de Brasília, a leitura é que o presidente mostrou que está cada vez mais isolado, que não tem capacidade de gerir um país com tantos desafios e reavivou o debate em torno do seu impeachment e até de sua inelegibilidade em 2022.

“O presidente não fez nenhum esforço em se dirigir à nação como um todo. O país passa por vários problemas, como desemprego, fome, pandemia, apagão elétrico, risco de falta de água e nada disso foi abordado por Bolsonaro. Ele falou apenas aos seus apoiadores, num isolamento evidente, mostrando que, na vida real, o país está sem rumo”, afirmou à RFI o cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo.

Ministros do STF se reuniram ontem mesmo para analisar como vão se posicionar diante dos ataques a Alexandre de Moraes, chamado de canalha por Bolsonaro. O presidente da corte, Luiz Fux, deve fazer um pronunciamento sobre as ameaças reiteradas pelo presidente antes da sessão desta quarta-feira (8). No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os ministros discutem que ações poderiam inviabilizar a candidatura de Bolsonaro em 2022.

“Eu acredito que haverá uma ampla mobilização de partidos democráticos e instituições, como STF, Congresso, mas não só. Acredito que a reação virá também da sociedade civil, das pessoas, em defesa da democracia. Mais importante hoje do que ver quem serão os candidatos é assegurar a democracia no país. E o momento, por tudo que estamos acompanhando, é grave. Considero que o risco se mostrou mais forte a partir de agora”, disse Moisés.

 

Impeachment

Ainda que não houvesse até agora votos suficientes para cassar o presidente, a forma como Bolsonaro conduziu toda essa retórica golpista até o 7 de setembro trouxe o tema de novo à tona. Partidos que até aqui não tinham se manifestado, como PSDB e PSD, já marcaram reuniões para discutir internamente a questão. É como uma faca no pescoço, a depender dos próximos capítulos, pode se usar a arma.

“Eu não havia me posicionado sobre o impeachment, mas depois do que vimos neste dia, digo que nós, o PSDB, somos favoráveis ao impeachment. E que devemos ser um partido de oposição ao governo Bolsonaro”, disse o governador de São Paulo e presidenciável tucano, João Doria.

A oposição vai aproveitar para engrossar as críticas à atual gestão.

“Bolsonaro foi para o tudo ou nada e saiu de mãos vazias. Mostrou que não tem as mínimas condições de governar o país. Só lhe resta duas opções, o impeachment ou a renúncia. Como ele não faria tal gesto em favor da nação, caberá ao Congresso. E já passou da hora do Legislativo analisar os pedidos”, afirmou o senador petista Jean Paul Prates.

Enquanto vários políticos se manifestavam nas redes sociais contra a postura de Bolsonaro, o presidente da Câmara, Arthur Lira, preferiu o silêncio, mas esteve em Brasília, no domingo, para discutir com líderes uma posição da Casa diante das declarações de ataque do presidente da República, especialmente ao STF.

Bolsonaro disse que não irá cumprir nenhuma decisão do ministro Alexandre de Mores, que conduz o inquérito das fake news, e tentou emparedar a Suprema Corte. “Ou o chefe desse poder enquadra o seu (ministro), ou esse poder poderá sofrer o que não queremos”, disse Bolsonaro em cima de um carro de som, ouvindo como resposta da multidão um coro de “Fora, Alexandre”. Entre os que acompanhavam o presidente estavam o vice Hamilton Mourão e o ministro da Defesa, general Braga Netto.

O Centrão foi afagado com cargos e emendas volumosas, mas, mesmo entre muitos parlamentares, a avaliação é de que há risco de ruptura e que isso não pode ficar no colo eleitoral do grupo.

“A Câmara precisa se posicionar urgentemente em favor da democracia. Acredito que há risco sim. Até entendo que pode haver uma ou outra decisão mais invasiva do STF, mas isso não justifica a postura do presidente”, avaliou à RFI o deputado Fausto Pinato, do Progressistas, mesmo partido de Arthur Lira. Pinato disse que a Câmara, além de posição firme contra o discurso golpista, deve atuar como conciliadora para o equilíbrio entre os poderes. Se isso não ocorrer e se o presidente insistir nessa retórica, Pinato disse que os pedidos de impeachment podem ganhar força.

O MDB discutirá se integrantes da sigla poderão continuar com Bolsonaro, a exemplo do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra.

28
Ago21

“PMs são apaixonados por Bolsonaro, mas é impensável que apoiem um golpe”

Talis Andrade

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Ex-integrante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) destaca o apoio das forças de segurança brasileiras ao presidente Jair Bolsonaro, mas diz que falta de liderança e de organização nacional dificultam uma ação orquestrada para apoiar uma eventual ruptura. Cientista político prevê uma "guerra institucional" até depois das eleições de 2022. 

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A participação de policiais em atos pró-Bolsonaro no dia 7 de setembro é um dos assuntos mais comentados nos grupos de aplicativos utilizados pelas forças de segurança. Fontes que integram esses grupos relataram à RFI que muitos policiais confirmaram presença nas manifestações, alegando que estarão de folga.

O apoio que agentes e principalmente militares dão a um presidente que todo dia questiona o sistema eleitoral do país deixa um incômodo ponto de interrogação no ar sobre a eventual adesão de policiais a um golpe de Estado, caso Bolsonaro perca as eleições do ano que vem.

O ex-comandante de uma equipe do Bope, sociólogo e autor do filme "Tropa de Elite", Rodrigo Pimentel, falou à RFI da presença forte do bolsonarismo entre os policiais, classificando esse engajamento como uma "paixão". No entanto, ele diz não acreditar em apoio organizado à ruptura.

“Quase todos os policiais militares são eleitores de Bolsonaro e pessoas apaixonadas por ele. A classe policial militar brasileira foi abandonada pelos políticos ao longo de décadas. Jair Bolsonaro, ainda quando era do baixo clero da Câmara dos Deputados, defendia do plenário os policiais militares. Mas são corporações independentes, que não são subordinadas ao governo federal, mas aos governadores estaduais, e são 27 corporações distintas. Então é pouquíssimo provável uma organização desses policiais militares para ações golpistas. Isso é uma coisa impensável.”

"Meio milhão de brasileiros armados"

Nesta semana o governador de São Paulo e rival político de Bolsonaro, João Dória, afastou um coronel que usou as redes sociais para convocar militares a participar dos protestos em defesa do presidente. Pimentel diz que muitos colegas de farda irão levantar bandeiras e faixas em favor do presidente. 

“É meio milhão de brasileiros armados, com seus familiares, esposas, filhos, pais, que estão nas ruas na condição de cidadãos participando de manifestações e atos a favor do governo Bolsonaro, mas não representam uma ameaça golpista, porque são desarticulados, não estão organizados, estão descentralizados e não possuem liderança. Existem sim grupos de Whastapp, de redes sociais, que se comunicam e combinam o comparecimento em massa em eventos que apoiam o presidente.”

Policiais ouvidos pela RFI não escondem irritação com decisões do Superior Tribunal Federal (STF), como a que “soltou Lula, mas mandou prender apoiadores de Bolsonaro”, nas palavras de um deles. Um outro afirmou que “xingar Bolsonaro de genocida, tudo bem, mas atacar a Suprema Corte, aí pega”.

Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirmou à RFI que a postura política de policiais pode refletir na atuação deles nas ruas. No entanto, ele descarta a possibilidade de uma ação orquestrada para assegurar poder ao atual presidente.  

“É pouco provável que as polícias militares, articuladamente, elaborem um golpe a favor do Bolsonaro. Acredito que o policial possa ser bolsonarista, pode gostar do Bolsonaro, mas aí é um caminho muito longo até que use suas armas, use a instituição para realizar um golpe a favor do Bolsonaro. O que pode acontecer, eu acho, é uma omissão na hora em que houver uma invasão de prédio público, de alguma residência de autoridade. Acho que essas coisas podem acontecer”.

O analista social também prevê que o cenário de instabilidade pode aumentar com a pauta corporativa dos policiais, que costumam pressionar governadores por reajustes salariais no último ano de mandato.

“Eu acredito também que pode ter motim por contas dos salários. A gente pode ter uma tentativa de policiais, que estão de fato vivendo com salários baixíssimos em São Paulo, por exemplo. Aí eles apoiam o presidente da República e nesses motins acabam pressionando os governadores, tentando reduzir a representatividade deles. A terceira coisa que eu acho que pode acontecer é um lobo solitário, que esteja mais radicalizado, atentar contra a vida de alguma autoridade, embora eu ache que esse cenário seja menos provável.”

União de forças contra narrativa bolsonarista

Para o cientista político André Rosa, o clima de tensão, agravado com o pedido de impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes, protocolado pelo presidente Bolsonaro, mostra que o cenário de crise não dá trégua.

“Eu vejo que o país vai viver uma guerra institucional até as eleições ou até após as eleições. É um problema muito sério, é uma guerra que o presidente trava com o Judiciário, nunca vista antes. A única forma de tentar conter essa narrativa é através da união das instituições. É preciso uma grande união de forças entre essas instituições: Câmara dos Deputados, Senado Federal, Tribunal Superior Eleitoral, Supremo Tribunal Federal, tribunais regionais eleitorais, tudo para combater uma narrativa bolsonarista que é muito forte. A imprensa também é um veículo muito importante para levar informações e derrubar o falso discurso bolsonarista de que as urnas eletrônicas não são confiáveis”, avalia.

O cientista político disse à RFI que a crise institucional também afasta investimentos estrangeiros, pois gera dúvidas sobre os rumos do país, em uma escolha política de Bolsonaro de difícil compreensão.

“Na história do presidencialismos, vários chefes de Estado se espelham em nomes de autoridades do passado, alguns em Abraham Lincoln, outros em Ronald Reagan, Margareth Thatcher. Agora Bolsonaro foi se espelhar em Donald Trump. E numa narrativa de contestar o resultado das urnas parece já prevendo, a olhar pelas pesquisas, que ele pode perder a reeleição, e até mesmo nem estar no segundo turno. Estranho é que ele se espelha num modelo que claramente fracassou nos Estados Unidos, pois não se conseguiu derrubar o resultado das urnas”, finaliza. 

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14
Ago21

Pacote eleitoral aprovado pela Câmara traz mais instabilidade para as próximas eleições

Talis Andrade

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Enquanto Bolsonaro não aceita derrota do voto impresso e usa Forças Armadas como ameaça, Congresso avança em reforma eleitoral e pode mudar novamente as regras do jogo.

 

por Raquel Miura /RFI 

Não bastasse a narrativa agressiva do presidente da República, com ataques ao sistema eleitoral, os deputados deram esta semana sua cota de contribuição para deixar mais instável o ambiente jurídico das próximas eleições. No pacote aprovado pela Câmara em primeiro turno, há desde facilidade para que partidos atinjam as cláusulas de desempenho, como a inclusão de senadores que não disputaram as urnas no cálculo, até a retirada de poder do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF), cujas normas ou interpretações só terão validade se vierem um ano antes do pleito.

Os deputados incluíram também a volta das coligações, o que favorece os partidos de aluguel e deixa o eleitor confuso, já que ele vota no deputado de um partido e acaba ajudando nomes de outras siglas.

“É muito difícil a sociedade civil ter segurança com essa situação que o Brasil enfrenta. Essa questão das coligações, que a Câmara colocou de forma abrupta, pelas votações de vários partidos, que inclusive não são da base do governo, parece se tratar de uma busca por sobrevivência e de adaptação a esse contexto bastante instável”, disse à RFI a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“As votações sem nenhum debate são mais um problema para a nossa democracia. Já estamos vivendo um dos momentos mais complexos desde 1988. E sem a população participar dessas decisões que afetam o sistema eleitoral, e portanto afetam a forma como vamos eleger nossos representantes, isso é realmente preocupante”, afirmou a pesquisadora diante de mais uma reforma eleitoral.

As mudanças foram aprovadas em primeiro turno na Câmara e, por se tratar de emenda constitucional, terão de passar por uma segunda votação. Depois seguem para o Senado, que esta semana aprovou a Nova Lei de Segurança Nacional, cujo texto antigo, da época da Ditadura Militar, vinha sendo usado para enquadrar críticos do presidente Bolsonaro.

Mais transparência às urnas eletrônicas

As medidas eleitorais aprovadas vieram a reboque da proposta que propunha o voto impresso nas eleições, mas que não atingiu o mínimo exigido, de 308 votos, entre os deputados. Ainda assim surpreendeu o número de parlamentares que apoiaram a ideia, quase 230. Tanto que o presidente do TSE, Roberto Barroso, anunciou medidas para aumentar a transparência, como a abertura aos partidos, um ano antes da eleição, do código-fonte das urnas, o sistema que processa os votos.

“Não há como fraudar o programa uma vez lacrado. E nós queremos fazer isso com a participação e na frente de todos os partidos políticos, além do Ministério Público e da Polícia Federal, que já participam”, disse Barroso, lembrando que nos últimos pleitos nenhuma sigla enviou técnicos ao TSE para fazer a auditoria das urnas. “Não é porque eram contra as urnas. Não enviaram representantes justamente porque confiam no sistema”.

O presidente da Câmara Arthur Lira (PP/AL) tem sido cobrado a endurecer o discurso contra o Executivo porque levou o tema para o plenário sob argumento de que, rejeitado o voto impresso na Casa, Bolsonaro lhe teria assegurado que acolheria a decisão. Porém o presidente tem insistido na retórica contra o atual modelo. Depois de participar de uma exibição de tanques militares na Esplanada no dia da votação, o que foi visto como ameaça política, nesta quinta-feira (12) ele disse que conta com apoio total das Forças Armadas para tomar decisões em favor do país.

“Nas mãos das Forças Armadas está a certeza da garantia da nossa liberdade, da nossa democracia e o apoio total às decisões do presidente para o bem da sua nação”, discursou o presidente.

Postura que o aproxima de presidentes populistas e autoritários de outros países, na visão da analista da UFSCar: “Sem apoio popular, Bolsonaro vai cada vez mais insistir em descreditar instituições. Esse na verdade é um traço comum dos autoritários populistas de países de regimes híbridos ou democracias liberais que a gente vem acompanhando no mundo. Bolsonaro então encontrou um meio de tentar minar a democracia brasileira questionando a legitimidade dessas instituições. Mas a gente aguarda os próximos passos. Me parece que a classe política tem mecanismos e meios de coibir essa tentativa.”

Críticas ao presidente

Num debate na noite dessa quinta-feira com nomes de possíveis candidatos à presidência em 2022 do chamado centro democrático, houve críticas à postura do presidente.

“A falta de respeito, o despudor, a falta de decoro com que se comporta Jair Bolsonaro tem que ter um reparo duro, sóbrio e firme das instituições. Os militares não podem desservir à pátria brasileira, transformando-se numa manipulação odienta de uma milícia a serviço do bolsonarismo boçal”, atacou Ciro Gomes (PDT/CE).

Também nesse evento promovido pelo Centro de Liderança Política, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), que foi o primeiro ministro da Saúde no governo Bolsonaro, comentou a semana tensa no país: “Não existe qualquer estratégia de melhorar a eficácia pública sem democracia. Tivemos uma semana em que o Brasil temeu pela ruptura, mais uma vez pelo tensionamento das instituições democráticas.”

E o tucano Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que no segundo turno em 2018 apoiou Bolsonaro, também falou sobre a crise institucional: “O presidente ataca as urnas. Na verdade nós temos é que resistir, apresentar a partir de nossas instituições, como o Congresso o fez, a resistência democrática.”

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05
Ago21

“Bolsonaro faz bravata, mas precisa ser contido até para evitar um cenário de violência”

Talis Andrade

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Analista diz que ataques de presidente a instituições são graves e que chefe do Executivo deve ser punido se necessário até com impeachment, mas não vê componentes para um golpe. Em defesa do voto impresso, Bolsonaro diz que sua briga direta é com o presidente do TSE.

A investigação aberta pelo TSE contra o presidente Jair Bolsonaro por ataques ao sistema eleitoral brasileiro, que pode ter desdobramentos também no Supremo Tribunal Federal, não foi apenas um recado de um poder para outro, mas pode servir como uma faca no pescoço: se o presidente insistir no discurso de que as próximas eleições não terão validade sem voto impresso, poderá ser responsabilizado e mesmo ficar de fora do pleito de 2022.

Para o cientista político Cláudio Couto, da FGV São Paulo, não há qualquer base nos argumentos do presidente e tampouco ambiente para um golpe de Estado. Porém ele teme um acirramento dos ânimos daqui até a campanha no ano que vem e, por isso, disse à RFI que não apenas a Justiça, mas o Congresso também não pode ficar parado.

“Se o presidente da República realmente perpetrar uma situação de ataque às instituições, de não aceitação do resultado, isso pode levar a uma onda de violência. Eu acho que o Congresso, não só o Judiciário, tem que agir. E agir no sentido de impor limites ao presidente da República. Inclusive, se possível, fazendo seu impeachment. Porque um presidente que se comporta dessa maneira, atacando as instituições, não tem a menor condição de estar no cargo”.

 

Discurso vazio

O estímulo a um cenário de descontrole, na visão do analista, vem de um discurso vazio, mas que pode encontrar eco nos fiéis bolsonaristas. “Ele está sinalizando, a meu ver muito mais como um blefe, como bravata, que, se seu capricho não for satisfeito, ele vai para um golpe, já que, se não houver eleição ano que vem, isso significa uma ruptura institucional. Acho, no entanto, que não há perigo de um golpe pelo fato de que as condições objetivas, a posição do empresariado em relação ao governo, dos grandes veículos de comunicação, dos políticos no Congresso, dos governos estaduais e municipais, mesmo no cenário internacional, nada disso contribuiu para a possibilidade de um golpe. Bolsonaro ficaria isolado nacional e internacionalmente”.

Na quinta-feira (5) deve ser lido o parecer da proposta de mudança constitucional que impõe o voto impresso junto com a urna eletrônica. Aliados de Bolsonaro dizem ainda ter esperança de que o tema passe na comissão especial, embora reconheçam que as chances são pequenas e tentam atribuir a derrota à pressão do TSE.

O que não significa manutenção das atuais regras eleitorais. Partidos políticos se articulam com a presidência da Câmara para votar medidas que reduzem a fiscalização sobre gastos dos partidos nas campanhas e proíbem a divulgação de pesquisas nas vésperas do pleito, o que para alguns pode abrir caminho para uma enxurrada de fake news sobre as intenções de voto.

“Estamos num estado de vale tudo no Congresso, onde querem tirar o que puderem dessa relação com o Executivo. Uma lei da selva no cenário político, inclusive pela ausência de um governo que conduza projetos e programas, que tome à frente. Já se tem um fundo eleitoral bem maior que na eleição passada. E podemos ter um controle menos efetivo desse dinheiro, que é público”, condena Cláudio Couto, numa referência a artigos da reforma eleitoral que, se aprovados, podem liberar gastos de partidos até com hotéis de luxo.

“Não é caso de ver quem é mais macho”

Mesmo após o TSE ter aberto a apuração, o presidente voltou a defender o voto impresso, com ataques ao ministro Roberto Barroso, que preside a corte eleitoral. “É uma luta direta com uma pessoa apenas: ministro Luís Barroso, que se arvora como dono da verdade, uma pessoa que não possa ser criticada. Se Barroso acha que pode passa por cima do artigo 5º da Constituição, das nossas garantias e direitos individuais, ele tá enganado. Não é o caso de eu ou ele mostrar quem é mais macho. O negócio é sério. A alma da democracia é o voto. E o povo tem que ter a certeza absoluta de que o voto dele foi para aquela pessoa”.

A Comissão de Trabalho da Câmara aprovou a convocação do ministro da Defesa, general Braga Netto, para que explique o recado que fez chegar ao presidente da Câmara, Arthur Lira  (PP/AL) de que, sem voto impresso, não haverá pleito em 2022. “Não serão admitidas eleições duvidosas ano que vem. O Brasil vai ter eleição ano que vem. Eleições limpas, democráticas. Quem votar vai assumir em 23. Dizer mais, encerrando. O Brasil mudou. Jurei dar minha vida pela pátria. Não aceitarei intimidações. Vou continuar exercendo meu direito de cidadão, de liberdade de expressão, de criticar, de ouvir, e atender, acima de tudo, a vontade popular. Pode ter certeza: o Brasil está mudando e não haverá retrocesso. Queremos eleições limpas, democráticas e auditadas,” voltou a afirmar Bolsonaro a um grupo de apoiadores em Brasília.

"Desgoverno"

No meio político, muitos veem que a tática do presidente mostra um "desgoverno" com poucas chances de reeleição, acuado com a perda de apoio eleitoral, precisando vencer uma grave crise econômica e reduzir o desgaste provocado pela ineficiência na pandemia. E, no meio disso, a CPI da Covid no Senado, que tem incomodado bastante o Planalto, voltou esta semana a realizar sessões após o recesso.

“Neste novo momento da CPI, voltamos aos trabalhos com a certeza de que já temos provas dos crimes cometidos pelo governo Bolsonaro contra os brasileiros. São 557 mil mortos, decorrentes da forma como o governo se conduziu no combate à pandemia”, afirmou o senador Rogério Carvalho (PT/SE) que na reunião desta terça-feira denunciou que estaria sendo monitorado por integrantes do Exército, a mando do ministro da Defesa.

O líder do governo, senador Fernando Bezerra (MDB/PE), tentou fazer o contraponto: “Queria destacar – acho que esta é uma conquista de todos nós do Parlamento, da CPI, do governo, da sociedade brasileira – os índices alcançados no último mês de julho: nós tivemos a redução de 40% dos casos e 40% dos óbitos. A campanha de vacinação avança, e nós estamos vendo diversos governadores e, inclusive, o próprio ministro da Saúde anunciarem que, no mês de setembro, toda a população adulta com mais de 18 anos já terá recebido pelo menos uma dose.”

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08
Jul21

Escândalos derrubam bandeira anticorrupção de Bolsonaro, mas impeachment segue incerto

Talis Andrade

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Mesmo com apoio desidratado, fiéis escudeiros digitais do presidente brasileiro são ferramentas importantes na disputa. No Congresso Nacional, o grito de Bolsonaro contra a urna eletrônica acende sinal de alerta.

O presidente Jair Bolsonaro vive um dos momentos mais tensos de seu governo. A acusação, com direito a áudio de ex-cunhada, de que ele teria embolsado parte do salário dos funcionários de seu gabinete quando era deputado elevou ainda mais a temperatura na fogueira da instabilidade política, que já estava quente em razão das denúncias de irregularidades na compra de vacinas.

Além disso, Bolsonaro vê sua popularidade cair, a pressão subir com a CPI da Covid e protestos de rua atraindo milhares de pessoas Brasil afora. O cientista político Humberto Dantas, doutor pela USP e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), disse à RFI que Bolsonaro perdeu várias bandeiras de campanha, inclusive a do combate à corrupção, e hoje se sustenta apenas no conservadorimo.

“Um presidente que tem dificuldades de se relacionar com o Poder Legislativo, que vai perdendo sua sustentação junto à opinião pública, que tem severos problemas na relação com a mídia, tem problemas com órgãos de justiça, é um presidente que em algum momento perde sustentação. Pode simplesmente ficar à deriva ou pode ser retirado do poder.”

Para Dantas, no entanto, o trauma das últimas eleições nacionais, com a negação da política, pode ajudar Bolsonaro a continuar na cadeira de presidente. “Eu acho improvável que ocorra hoje um processo de impeachment no Brasil por conta de tudo aquilo que o processo contra Dilma Rousseff fez com a política em geral, levando para o buraco praticamente toda a política tradicional. E eu não sei se os políticos gostariam de se ver diante de mais um risco. Bolsonaro já é a negação da política. Ter a negação da negação pode ser um risco muito significativo para a democracia”.

Postura de Bolsonaro pode abalar relação com aliados

O pilar de sustentação política do presidente vem de um aglomerado de siglas que tem se deleitado com a liberação de emendas parlamentares e definido a pauta de votações no Congresso. A analista política Mayra Goulart, coordenadora da Pós-Graducação em Ciências Sociais da UFRJ, afirmou à RFI que o governo tem conseguido agradar seus aliados, mas destaca que algumas posturas do presidente têm potencial para abalar essa relação, inclusive num eventual processo de impeachment.

“O primeiro fator, que eu acho menos importante, é a chegada de escândalos de corrupção aos líderes do Centrão, um deles Ricardo Barros. Isso, é claro, gera instabilidade. O segundo fator, que já tem mais importância, é a síndrome do pato manco, que é o esvaziamento do poder de uma liderança no final do mandato, conforme vão diminuindo suas chances de reeleição. O terceiro fator, que eu acho mais importante, são os sinais que Bolsonaro dá de que está almejando uma radicalização autoritária, principalmente se perder as eleições. Temos aí a tentativa de reforma no sistema eleitoral e as declarações pelo voto impresso, mostrando que não aceitará uma derrota”.

Para a pesquisadora da UFRJ, esse discurso incomoda bastante não apenas opositores, mas a própria base de apoio do governo hoje, que gosta de fazer parte de um governo com as regras atuais. “Essa radicalização autoritária não é do interesse do Centrão. O Centrão prefere que as coisas continuem como estão, com pouca atenção para essa farra do boi das emendas parlamentares.”

Queda de popularidade

Bolsonaro tem perdido apoio de eleitores, como mostram pesquisas, e mesmo fiéis seguidores não esconderam nos últimos dias o incômodo nas redes sociais frente ao somatório de escândalos. Porém, ele ainda é o presidenciável com o maior número de seguidores na internet, 40 milhões, de acordo com a plataforma MonitoraBR, que aponta dez milhões nas redes do ex-presidente Lula.

Mesmo narrativas falaciosas, como a contestação de vacinas em detrimento de tratamentos sem comprovação científica para a Covid-19, continuam reverberando entre apoiadores do atual presidente. O cientista político Max Stabile, diretor do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, disse à RFI que esse barulho nas redes pode ajudar, ao menos por enquanto, a garantir a sobrevida do presidente.

“A militância digital sempre foi um porto seguro da condução da dinâmica do bolsonarismo desde antes das eleições. Dificilmente essa militância das redes vai cair, mesmo com aprovação do presidente caindo. Já há bons estudos mostrando que são eleitores muito fiéis. Na minha opinião, isso vai ser importante para segurar uma parte desse apoio, um núcleo duro muito fiel ao bolsonarismo, e que pode, obviamente, reverberar em momentos de positividade."

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02
Jul21

“Não dá para prever como vai terminar o ano”, diz cientista político sobre o superpedido de impeachment de Bolsonaro

Talis Andrade

Protesto em frente ao Congresso para exigir a demissão do presidente, em Brasília, Brasil, quarta-feira, 30 de junho de 2021. Um novo pedido de impeachment foi feito contra o presidente Jair Bolsonaro por corrupção relacionada à compra de vacinas COVID-19 foi apresentado na quarta-feira à Câmara dos Deputados, aumentando a pressão que o líder enfrenta enquanto prosseguem as audiências no Senado sobre seu tratamento da pandemia.

Protesto em frente ao Congresso para exigir a demissão do presidente, em Brasília, Brasil, quarta-feira, 30 de junho de 2021. Um novo pedido de impeachment foi feito contra o presidente Jair Bolsonaro por corrupção relacionada à compra de vacinas COVID-19 foi apresentado na quarta-feira à Câmara dos Deputados, aumentando a pressão que o líder enfrenta enquanto prosseguem as audiências no Senado sobre seu tratamento da pandemia. AP - Eraldo Peres

Protestos e escândalos elevam pressão contra o governo, mas a avaliação é de que hoje os protagonistas políticos do processo, agraciados com emendas e cargos, seguram Bolsonaro no poder. A pergunta é: até quando?

Políticos e analistas frisam advérbios temporais como ‘ainda’, ‘por enquanto’, ‘no momento’ para dizer que não existe hoje ambiente para cassar o mandato do presidente Jair Bolsonaro, mas que a situação pode virar e que é difícil prever como findará o cenário político de 2021.

“Depende de fatos novos, de pressão popular, de pressão sobre os atores políticos. Não podemos dizer que o impeachment está dado, mas também não podemos dizer que ele não acontecerá. A política é um processo e é preciso acompanhá-lo", disse à RFI o cientista político Carlos Melo. Ele lembra que novos protestos contra o presidente estão marcados para o fim de semana e, na CPI, o caso dos irmãos Miranda e a suspeita em torno da compra da Covaxin abriram nova frente de apuração. "Pode surgir mais coisa? Pode. Então não dá para afirmar que teremos ou não impedimento de Bolsonaro.”

Uma das análises que circula nos corredores de Brasília é a de que a suspeição do líder do governo, Ricardo Barros (PP/PR), trazido ao cerne do escândalo das vacinas após o depoimento de Luis Miranda, reforçou o poder do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP/AL), na base de apoio a Bolsonaro. Os dois eram pilares do governo no Legislativo e ao mesmo tempo se contrabalanceavam. Enfraquecido um, alarga-se o ombro do outro.

 

Depende de Lira o seguimento dos processos políticos contra o presidente. Pragmático, ele dá a entender que vai esticar a corda o quanto der, aproveitando recompensas orçamentárias gordas que têm sido garantidas aos amigos do rei em apuros, mas sempre de olho no nível da água em torno do barco, para decidir se chegou ou não hora de pular fora.

Outros fatores pesam no "clima" para impeachment

O cientista político Leonardo Barreto também falou à RFI e avalia que, além das tratativas políticas, a situação econômica do país terá peso no desfecho dos pedidos que querem retirar Bolsonaro do poder. Apesar de todo o desgaste que o presidente tem sofrido, Barreto afirma que ainda não há ambiente político para o impeachment por causa de três pontos principais:  

"O primeiro é que existe governabilidade. O Congresso está funcionando, reformas econômicas estão sendo discutidas, então é difícil nesse estágio construir consenso, especialmente no meio empresarial, de que vale interromper um mandato", explicou. "Segundo, porque o governo tem mantido as pontes com as forças políticas, não mede esforços para atender sua base, com um orçamento quase que todo dedicado a pagar emendas e liberar recursos a seus aliados. E em terceiro, há uma expectativa de crescimento econômico este ano, na casa de 5%. Muitos formadores de opinião acham que um impeachment agora poderia comprometer a recuperação econômica”, ponderou Barreto.

Rejeição aumenta

O documento apresentado nessa quarta-feira à Câmara dos Deputados foi apelidado de superpedido de impeachment, por contar com apoio de parlamentares de direita e de esquerda, juristas e entidades civis, além de reunir argumentos de documentos anteriores, já protocolados contra Jair Bolsonaro, que se somam aos escândalos mais recentes. “Ele unifica os 123 pedidos de impeachment que já tramitam na Casa; reúne 23 tipos penais diferentes praticados pelo presidente da República; reúne dezenas de entidades da sociedade brasileira e traz a assinatura de parlamentares das mais diversas correntes da nossa política”, ressaltou Alessandro Molon (PSB-RJ).

Do líder dos sem teto Guilherme Boulos (PSOL/SP) à deputada Joice Hasselmann (PSL/SP), o superpedido foi protocolado na Mesa Diretora da Câmara com 46 signatários, mas depois outras pessoas, em especial políticos, assinaram a peça.

“É algo histórico, uma causa suprapartidária, contra um presidente criminoso, corrupto. É uma questão de moral, de valores, de rechaçar uma ação criminosa que levou a mais de 500 mil mortos”, afirmou o deputado Kim Kataguiri (DEM/SP), que fez ampla campanha para Bolsonaro em 2018.

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21
Jun21

CPI da Covid-19 avança sobre aliados do Planalto com lista de investigados

Talis Andrade

 

O relator da CPI da Covid-19, senador Renan Calheiros (MDB/AL), apresentou nesta sexta-feira (18) uma lista com 14 pessoas, de autoridades a médicos, que não serão mais consideradas apenas testemunhas, mas sim investigadas pelos parlamentares. O presidente Jair Bolsonaro diz que comissão de inquérito "só faz palhaçada".

Entre as pessoas visadas estão o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, devido à omissão na crise de oxigênio em Manaus e a outras falhas na pandemia; o ex-chanceler Ernesto Araújo, por dificultar a aquisição de vacinas; o empresário Carlos Wizard, que faltou à convocação na CPI e é acusado de integrar o comitê paralelo pró-cloroquina e o ex-secretário de Comunicação do Planalto Fábio Wanjgarten, suspeito de esconder informações da CPI acerca das ações do governo na crise sanitária.

Esses nomes já eram pressentidos. Já o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, foi um acréscimo conquistado pela insistência de Calheiros. Queiroga passa a ser investigado por causa de um documento em que ele sugere à Organização Mundial da Saúde (OMS) um debate sobre tratamento precoce.

O advogado criminalista Paulo Suzano disse que a mudança no status dessas pessoas no âmbito da comissão de inquérito tem um peso político, já com os contornos do que deve vir num relatório final, e que pode facilitar também a apuração, como a quebra de sigilos: “Toda decisão judicial precisa estar fundamentada, como exige a Constituição. Por analogia, toda decisão da CPI também precisa de uma justificativa plausível. Você não pode fazer uma devassa na vida de quem é apenas testemunha, que foi arrolada para contar o que viu. Mas isso muda quando essa pessoa se torna investigada”.

 

Além do espetáculo trágico de muitos depoimentos, outra frente da CPI da Covid ganhou reforço técnico esta semana. É a análise de mais de um terabyte de documentos que podem substanciar as conclusões do colegiado. “Que é um caldeirão político, isso é mesmo. Mas o relatório final será encaminhado ao Ministério Público e os senadores sabem que por isso é preciso que as conclusões tenham um mínimo de respaldo técnico, jurídico. Porque é com base no que estiver ali que os procuradores vão decidir posteriormente se pode haver responsabilização criminal ou cível dos citados”, explicou Suzano.

Outros nomes da lista 

Outros nomes, como o ex-deputado Osmar Terra, que ainda não depôs, podem vir a integrar a lista de investigados. A oposição, que é maioria, diz que muita coisa já veio à tona, como e-mails insistentes da Pfizer ignorados pelo governo Bolsonaro e depoimentos diversos. E que os fatos descritos permitem dizer que as atitudes do governo foram decisivas para o número assombroso de mortes por Covid 19, que hoje se aproxima de meio milhão de brasileiros.

“Não houve um esforço para se obter vacinas, como por exemplo as dezenas de mensagens da Pfizer que foram ignoradas pelo governo Bolsonaro. Os depoimentos e muitos documentos têm mostrado isso. Nós poderíamos ter começado a imunização antes e poderíamos contar com um volume maior de doses. Com isso teríamos um número bem menor de mortes. Então estou segura para dizer que o governo negligenciou a compra de vacinas, negligenciou medidas restritivas para frear a disseminação do vírus. Isso é muito grave. Isso é criminoso”, afirmou à RFI a senadora Eliziane Gama (Cidadania/MA), que participa dos interrogatórios pela bancada feminina

Já senadores mais alinhados às teses do governo, em minoria na CPI, insistem na defesa da cloroquina, dizem que não faltou dinheiro para estados e municípios e que a escassez de vacina acontece em quase todos os países, não só no Brasil. “Essa CPI é uma politicagem. As pessoas estão vendo isso. Esta semana mesmo parecia jogada ensaiada o questionamento do ex-governador do Rio Wilson Witzel”.

presidente Jair Bolsonaro também atacou a CPI na transmissão ao vivo dessa quinta-feira: “Não está servindo para nada, só para fazer barulho. Que diferença do Senado dos Estados Unidos, que está apurando como surgiu o vírus, se veio de laboratório, de um pangolim, do morcego, com acusações pesadas contra outro país, além de discutirem o tratamento inicial. Já aqui no Senado brasileiro a CPI faz palhaçada o tempo todo".

Capa do jornal Agora 20/06/2021

Capa do jornal Extra 20/06/2021

Capa do jornal Meia Hora 20/06/2021

Capa do jornal O Dia 20/06/2021

Capa do jornal Folha de Pernambuco 19/06/2021

 

15
Abr21

CPI da Covid assombra o Planalto, que fez tudo para atrasar processo

Talis Andrade

Confirmada pelo STF, comissão de inquérito vai atrás de detalhes administrativos para mostrar descaso da equipe de Bolsonaro na pandemia. Governistas tentarão focar nos governadores, mas composição eleva preocupação no Executivo

Raquel Miura /RFI 

Alguns assessores tentam amenizar a irritação de Jair Bolsonaro dizendo que a CPI da Covid talvez se converta num lenga-lenga morno, pior para os governadores, mas a temperatura no Palácio do Planalto subiu nos últimos dias com a instalação da Comissão de Inquérito e por lá existe um clima não só de revolta, mas de apreensão no ar. A velha máxima “CPI ninguém sabe como termina” pode ter contornos preocupantes para o presidente frente aos números monstruosos da Covid no Brasil e à composição que se desenha na comissão de inquérito.

“É uma derrota para o governo, que não queria ou que queria pelo menos postergar o máximo que fosse a instalação dessa CPI. Nós estamos hoje com uma curva pandêmica muito maior do que no ano passado. Então tudo isso se soma a uma espécie de comoção pública por respostas. A CPI vai expor ao Brasil uma série de problemas de percurso no enfrentamento à pandemia do ponto de vista burocrático, do ponto de vista governamental. Expor todos os meandros que circundaram essas decisões tende a gerar uma leva de informações e percepções negativas ao governo”, disse à RFI o cientista político Leonel Cupertino.

Alguns partidos já indicaram, outros sinalizaram as escolhas dos membros do colegiado que deve contar com dois senadores de oposição ao governo Bolsonaro, quatro governistas e cinco considerados independentes, que votam às vezes com o Executivo, mas expõem críticas em alguns assuntos, como a pandemia. Além deles, são sete suplentes indicados pelas bancadas.

“Os partidos optaram por indicações mais independentes. Acho que o governo não conseguirá, com cargos ou emendas, atrapalhar ou prejudicar as investigações. Há uma margem para garantir os trabalhos. As práticas desse governo podem configurar inclusive crime, serão reforçadas e vão desgastar ainda mais o presidente”, afirmou o petista Humberto Costa (PE), que fará parte da comissão.
 

Já o senador Jorginho Mello (PL/SC), aliado do Planalto, deixa claro ao comentar a CPI uma das estratégias do governo, de tentar avançar a apuração sobre repasses de recursos federais a estados e municípios, mirando governadores: “Vamos responsabilizar quem tiver de ser responsabilizado. Vamos investigar governo federal e transferência para os entes federados. CPI não pode ser palanque eleitoral para ninguém. Temos que cuidar da saúde e da economia do país.”

A briga agora é para decidir o comando da CPI. O governo acionou quem desse guarida para tentar impedir que Renan Calheiros (MDB/AL), pragmático, até aqui crítico da atual gestão, assuma a relatoria.

A mando da justiça

Nessa quarta-feira o Supremo Tribunal Federal confirmou em plenário a decisão do ministro Roberto Barroso, que semana passada determinou a instalação da CPI. Barroso lembrou que houve investigação política em momentos delicados em praticamente todos os governos, como a CPI do PC Farias na gestão de Fernando Collor, a CPI do Sistema Financeiro no mandato de Fernando Henrique, a CPI dos Correios e tantas outras nas administrações do PT. Barroso, relator do caso, frisou que pela Constituição Federal essas investigações são prerrogativas da minoria, ou seja, da oposição, por isso se exigem apenas 27 assinaturas no Senado, que tem um total de 81 membros. Assim, não se pode admitir que o presidente da Casa, como fez o senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), sente em cima do pedido com base numa opinião individual, que não é a melhor hora para esquentar o cenário com uma CPI. O ministro Roberto Barroso também defendeu o STF, atacado pelo presidente Bolsonaro e por seus apoiadores:

"Diversos países do mundo vivem hoje uma onda referida como recessão democrática. Exemplos conhecidos são Hungria, Polônia, Turquia, Rússia, Geórgia, Venezuela, para citar apenas alguns. Todos eles, sem exceção, assistiram a processos de ataques e esvaziamento dos seus tribunais constitucionais. Quando a cidadania daqueles países despertou, já era tarde. Reafirmar o papel das supremas cortes de proteger a democracia e os direitos fundamentais é imprescindível ato de resistência democrática.”

Aliados do governo tentaram e alguns ainda insistem que não dá para apurar nada  em CPI no auge da crise sanitária, mas Barroso disse que o Senado não pode dizer quando instalar, apenas como a CPI vai funcionar: o que será feito de forma virtual, como audiências, e o que exigirá a presença dos senadores em Brasília

Caso Lula

Além de confirmar a instalação da CPI da Covid, o STF também analisou outro tema relevante politicamente. Os processos que envolvem o ex-presidente Lula. Será o Plenário do Supremo Tribunal Federal que vai analisar o recurso do Ministério Público que tenta reverter o envio de investigações contra Lula para a primeira instância em Brasília, o que tornou Lula ficha limpa e apto a disputar as próximas eleições.

No ninho petista há muita gente apreensiva, achando que pode haver uma decisão intermediária, e que até as eleições o cenário não está claro para o ex-presidente. Ontem a defesa de Lula sofreu uma derrota, porque queria que o caso continuasse na segunda turma do STF, composta por cinco ministros e onde o petista teve uma importante e recente vitória: a suspeição de Sérgio Moro.

Mas o relator Edson Fachin conseguiu apoio da maioria para levar o caso ao Plenário. Não pôde no entanto evitar críticas. Ministros como Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski criticaram o vaivém dos processos contra Lula, ora decididos na turma, ora levados pelo relator ao plenário

“Dos milhares de habeas corpus que a Primeira e Segunda Turma julgam durante o ano todo, por que justamente o caso do ex-presidente é submetido ao plenário desta Suprema Corte? Isso causa estranheza. Da última vez em que isso se fez, custou ao ex-presidente 580 dias de prisão, e o impediu de candidatar-se à Presidência da República”, disse Lewandowski.

O ministro Alexandre de Moraes discorda: “E não acredito, presidente, não posso realmente acreditar que qualquer que seja o paciente possas se sentir ou achar que será prejudicado porque o julgamento será feito no plenário da Suprema Corte de seu país. Acompanho o relator”, disse Moraes.

E o presidente do STF Luiz Fux tentou justificar a decisão sobre o processo de Lula: “Aqui cuidei de manter a higidez do regimento e manter os poderes que o regimento concede aos relatores.”

O mérito desse recurso sobre Lula deve começar a julgado nesta quinta no STF.

02
Mar21

Sem lockdown, várias cidades podem repetir drama de Manaus, alerta infectologista

Talis Andrade

No primeiro dia de lockdown, Pernambuco atinge maior índice de isolamento  social do País, diz governoJustiça nega pedido do MP para decretar "lockdown" em Pernambuco - Roberta  Jungmann

Recife

O médico Julival Ribeiro diz que há um risco muito alto de várias cidades repetirem o drama de Manaus e critica inanição do governo Bolsonaro que, segundo ele, nada fez até aqui para combater a pandemia. O especialista também alerta que novas variantes têm levado pacientes cada vez mais novos para os hospitais

 

por Raquel Miura /RFI 

Os números de brasileiros mortos e infectados pelo novo coronavírus não param de subir, levando muitos prefeitos e governadores a temer pelo pior. O drama de Manaus, onde pacientes morreram sem oxigênio, pode se generalizar Brasil afora. “Eu sou totalmente a favor do lockdown em algumas cidades. Você já tem o número de leitos com a capacidade quase toda ocupada, o número de casos aumentando assustadoramente. Temos que tanto ter retaguarda de leitos, quanto impedir a transmissão", diz o infectologista, à RFI.

"Além das medidas preventivas, temos que fazer de uma maneira ou de outra o lockdown, parar mesmo o que for possível, para a gente frear na realidade essa transmissão. Será que nós vamos esperar um milhão de mortes para a sociedade acordar? Para que vejam que todos estamos no mesmo barco? Nós precisamos de medidas duras para dar um basta ao vírus, se não a própria economia não se recupera”, atesta.

Ribeiro ressalta que a situação já é dramática em vários Estados, como Goiás, Bahia, Distrito Federal e São Paulo. Imagine com essas novas variantes, que têm maior volume de transmissão, o que vai acontecer com o sistema de saúde?", frisa o especialista. Ele chama a atenção para um estudo recém publicado, que mostra que a carga viral da variante de Manaus "é altíssima".

"Com maior número de transmissão, precisamos de mais hospitalizações, mais leitos de terapia intensiva, e infelizmente, cresce o número de mortos. É esse o período que estamos vivendo”, sublinha o infectologista.

Mais jovens internados

Julival Ribeiro diz que, em princípio, as mutações do vírus não têm capacidade de provocar uma infecção mais severa, porém médicos têm observado que pacientes cada vez mais jovens têm sido acometidos pela doença. “Conversando com colegas de vários estados brasileiros, todos infectologistas, o que está se vendo é: o período de incubação que vai de dois a 14 dias está mais curto, uma média de cinco, seis dias. E a doença acomete mais jovens, sobretudo casos de jovens com pneumonia, ocupando maior parte do pulmão. Essas mutações estão ocorrendo na parte mais importante do vírus, chamada proteína ‘spike’. É onde se faz a ligação do vírus com as células humanas”, explica.

Para o enfrentamento dessa situação, o médico é favorável a medidas restritivas e mesmo ao fechamento total em alguns lugares, mas acha que as escolas poderiam continuar abertas, desde que sigam rigorosamente os protocolos de higiene. Ele defende que cada turma viva numa espécie de bolha nos colégios, com intervalos específicos para cada classe, separadamente.

“Assim, se tivermos alguém contaminado numa turma, as aulas serão suspensas apenas para esse grupo, e não para o restante. Mas é preciso, repito, haver um protocolo muito firme de higiene”, insiste.

Ribeira ressalta que, até o momento, as pesquisas não apontam contágio maior das novas cepas entre as crianças. Entretanto, a disseminação das novas linhagens ameaça as campanhas de vacinação em curso em diversos países. "O mundo está muito preocupado porque essas variantes podem realmente diminuir a eficácia da vacina ou mesmo evadir a resposta da vacina.”

Governo inerte

Para explicar como o país chegou a esse nível de transmissão, Ribeiro aponta para a Esplanada dos Ministérios e não poupa críticas ao governo Bolsonaro. “Na realidade, desde o primeiro momento que começou a pandemia na China, depois para os outros países, nós nunca tivemos neste país qualquer planejamento estratégico em relação à Covid. E o mais grave: nós nunca tivemos uma coordenação que deveria ser ocupada pelo Ministério da Saúde, com direcionamento para estados e municípios", critica.

"Desde o início da pandemia, infelizmente o Brasil não fez o papel que deveria ter feito para evitar a atual situação. O que nós vimos no decorrer de um ano foram troca de ministros no governo federal e uma verdadeira campanha política em cima da Covid. E hoje, estamos vendo o resultado", lamenta o especialista. 

O país já registra mais de 250 mil mortes e a vacinação avança devagar na maioria do país, ressalta. "O cenário é realmente dramático. Eu diria que é muito alto o risco de um colapso geral ou de outras cidades repetirem Manaus”, reitera.

O infectologista também condenou as declarações do presidente da República, que além de desdenhar o tempo inteiro da pandemia, chegou a condenar o uso de máscaras no dia em que o Brasil batia recorde de mortos. “Ninguém tem dúvida:  hoje, há estudos mostrando que as máscaras têm impacto, sim, na transmissão. Na Europa, além dos Estados Unidos, através do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, estão recomendando usar duas máscaras, devido a essas variantes.  Você usa uma máscara cirúrgica por baixo e depois uma máscara de pano por cima", explica. "Portanto, enquanto um renega e debocha da máscara, o presidente Joe Biden está liberando 25 milhões de máscaras para americanos que não têm condição de comprar esse item importante. Veja a grande diferença de atitude entre os presidentes daqui e de lá: um defende a vida, o outro defende a contaminação."

 

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