Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Abr21

CPI da Covid assombra o Planalto, que fez tudo para atrasar processo

Talis Andrade

Confirmada pelo STF, comissão de inquérito vai atrás de detalhes administrativos para mostrar descaso da equipe de Bolsonaro na pandemia. Governistas tentarão focar nos governadores, mas composição eleva preocupação no Executivo

Raquel Miura /RFI 

Alguns assessores tentam amenizar a irritação de Jair Bolsonaro dizendo que a CPI da Covid talvez se converta num lenga-lenga morno, pior para os governadores, mas a temperatura no Palácio do Planalto subiu nos últimos dias com a instalação da Comissão de Inquérito e por lá existe um clima não só de revolta, mas de apreensão no ar. A velha máxima “CPI ninguém sabe como termina” pode ter contornos preocupantes para o presidente frente aos números monstruosos da Covid no Brasil e à composição que se desenha na comissão de inquérito.

“É uma derrota para o governo, que não queria ou que queria pelo menos postergar o máximo que fosse a instalação dessa CPI. Nós estamos hoje com uma curva pandêmica muito maior do que no ano passado. Então tudo isso se soma a uma espécie de comoção pública por respostas. A CPI vai expor ao Brasil uma série de problemas de percurso no enfrentamento à pandemia do ponto de vista burocrático, do ponto de vista governamental. Expor todos os meandros que circundaram essas decisões tende a gerar uma leva de informações e percepções negativas ao governo”, disse à RFI o cientista político Leonel Cupertino.

Alguns partidos já indicaram, outros sinalizaram as escolhas dos membros do colegiado que deve contar com dois senadores de oposição ao governo Bolsonaro, quatro governistas e cinco considerados independentes, que votam às vezes com o Executivo, mas expõem críticas em alguns assuntos, como a pandemia. Além deles, são sete suplentes indicados pelas bancadas.

“Os partidos optaram por indicações mais independentes. Acho que o governo não conseguirá, com cargos ou emendas, atrapalhar ou prejudicar as investigações. Há uma margem para garantir os trabalhos. As práticas desse governo podem configurar inclusive crime, serão reforçadas e vão desgastar ainda mais o presidente”, afirmou o petista Humberto Costa (PE), que fará parte da comissão.
 

Já o senador Jorginho Mello (PL/SC), aliado do Planalto, deixa claro ao comentar a CPI uma das estratégias do governo, de tentar avançar a apuração sobre repasses de recursos federais a estados e municípios, mirando governadores: “Vamos responsabilizar quem tiver de ser responsabilizado. Vamos investigar governo federal e transferência para os entes federados. CPI não pode ser palanque eleitoral para ninguém. Temos que cuidar da saúde e da economia do país.”

A briga agora é para decidir o comando da CPI. O governo acionou quem desse guarida para tentar impedir que Renan Calheiros (MDB/AL), pragmático, até aqui crítico da atual gestão, assuma a relatoria.

A mando da justiça

Nessa quarta-feira o Supremo Tribunal Federal confirmou em plenário a decisão do ministro Roberto Barroso, que semana passada determinou a instalação da CPI. Barroso lembrou que houve investigação política em momentos delicados em praticamente todos os governos, como a CPI do PC Farias na gestão de Fernando Collor, a CPI do Sistema Financeiro no mandato de Fernando Henrique, a CPI dos Correios e tantas outras nas administrações do PT. Barroso, relator do caso, frisou que pela Constituição Federal essas investigações são prerrogativas da minoria, ou seja, da oposição, por isso se exigem apenas 27 assinaturas no Senado, que tem um total de 81 membros. Assim, não se pode admitir que o presidente da Casa, como fez o senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), sente em cima do pedido com base numa opinião individual, que não é a melhor hora para esquentar o cenário com uma CPI. O ministro Roberto Barroso também defendeu o STF, atacado pelo presidente Bolsonaro e por seus apoiadores:

"Diversos países do mundo vivem hoje uma onda referida como recessão democrática. Exemplos conhecidos são Hungria, Polônia, Turquia, Rússia, Geórgia, Venezuela, para citar apenas alguns. Todos eles, sem exceção, assistiram a processos de ataques e esvaziamento dos seus tribunais constitucionais. Quando a cidadania daqueles países despertou, já era tarde. Reafirmar o papel das supremas cortes de proteger a democracia e os direitos fundamentais é imprescindível ato de resistência democrática.”

Aliados do governo tentaram e alguns ainda insistem que não dá para apurar nada  em CPI no auge da crise sanitária, mas Barroso disse que o Senado não pode dizer quando instalar, apenas como a CPI vai funcionar: o que será feito de forma virtual, como audiências, e o que exigirá a presença dos senadores em Brasília

Caso Lula

Além de confirmar a instalação da CPI da Covid, o STF também analisou outro tema relevante politicamente. Os processos que envolvem o ex-presidente Lula. Será o Plenário do Supremo Tribunal Federal que vai analisar o recurso do Ministério Público que tenta reverter o envio de investigações contra Lula para a primeira instância em Brasília, o que tornou Lula ficha limpa e apto a disputar as próximas eleições.

No ninho petista há muita gente apreensiva, achando que pode haver uma decisão intermediária, e que até as eleições o cenário não está claro para o ex-presidente. Ontem a defesa de Lula sofreu uma derrota, porque queria que o caso continuasse na segunda turma do STF, composta por cinco ministros e onde o petista teve uma importante e recente vitória: a suspeição de Sérgio Moro.

Mas o relator Edson Fachin conseguiu apoio da maioria para levar o caso ao Plenário. Não pôde no entanto evitar críticas. Ministros como Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski criticaram o vaivém dos processos contra Lula, ora decididos na turma, ora levados pelo relator ao plenário

“Dos milhares de habeas corpus que a Primeira e Segunda Turma julgam durante o ano todo, por que justamente o caso do ex-presidente é submetido ao plenário desta Suprema Corte? Isso causa estranheza. Da última vez em que isso se fez, custou ao ex-presidente 580 dias de prisão, e o impediu de candidatar-se à Presidência da República”, disse Lewandowski.

O ministro Alexandre de Moraes discorda: “E não acredito, presidente, não posso realmente acreditar que qualquer que seja o paciente possas se sentir ou achar que será prejudicado porque o julgamento será feito no plenário da Suprema Corte de seu país. Acompanho o relator”, disse Moraes.

E o presidente do STF Luiz Fux tentou justificar a decisão sobre o processo de Lula: “Aqui cuidei de manter a higidez do regimento e manter os poderes que o regimento concede aos relatores.”

O mérito desse recurso sobre Lula deve começar a julgado nesta quinta no STF.

02
Mar21

Sem lockdown, várias cidades podem repetir drama de Manaus, alerta infectologista

Talis Andrade

No primeiro dia de lockdown, Pernambuco atinge maior índice de isolamento  social do País, diz governoJustiça nega pedido do MP para decretar "lockdown" em Pernambuco - Roberta  Jungmann

Recife

O médico Julival Ribeiro diz que há um risco muito alto de várias cidades repetirem o drama de Manaus e critica inanição do governo Bolsonaro que, segundo ele, nada fez até aqui para combater a pandemia. O especialista também alerta que novas variantes têm levado pacientes cada vez mais novos para os hospitais

 

por Raquel Miura /RFI 

Os números de brasileiros mortos e infectados pelo novo coronavírus não param de subir, levando muitos prefeitos e governadores a temer pelo pior. O drama de Manaus, onde pacientes morreram sem oxigênio, pode se generalizar Brasil afora. “Eu sou totalmente a favor do lockdown em algumas cidades. Você já tem o número de leitos com a capacidade quase toda ocupada, o número de casos aumentando assustadoramente. Temos que tanto ter retaguarda de leitos, quanto impedir a transmissão", diz o infectologista, à RFI.

"Além das medidas preventivas, temos que fazer de uma maneira ou de outra o lockdown, parar mesmo o que for possível, para a gente frear na realidade essa transmissão. Será que nós vamos esperar um milhão de mortes para a sociedade acordar? Para que vejam que todos estamos no mesmo barco? Nós precisamos de medidas duras para dar um basta ao vírus, se não a própria economia não se recupera”, atesta.

Ribeiro ressalta que a situação já é dramática em vários Estados, como Goiás, Bahia, Distrito Federal e São Paulo. Imagine com essas novas variantes, que têm maior volume de transmissão, o que vai acontecer com o sistema de saúde?", frisa o especialista. Ele chama a atenção para um estudo recém publicado, que mostra que a carga viral da variante de Manaus "é altíssima".

"Com maior número de transmissão, precisamos de mais hospitalizações, mais leitos de terapia intensiva, e infelizmente, cresce o número de mortos. É esse o período que estamos vivendo”, sublinha o infectologista.

Mais jovens internados

Julival Ribeiro diz que, em princípio, as mutações do vírus não têm capacidade de provocar uma infecção mais severa, porém médicos têm observado que pacientes cada vez mais jovens têm sido acometidos pela doença. “Conversando com colegas de vários estados brasileiros, todos infectologistas, o que está se vendo é: o período de incubação que vai de dois a 14 dias está mais curto, uma média de cinco, seis dias. E a doença acomete mais jovens, sobretudo casos de jovens com pneumonia, ocupando maior parte do pulmão. Essas mutações estão ocorrendo na parte mais importante do vírus, chamada proteína ‘spike’. É onde se faz a ligação do vírus com as células humanas”, explica.

Para o enfrentamento dessa situação, o médico é favorável a medidas restritivas e mesmo ao fechamento total em alguns lugares, mas acha que as escolas poderiam continuar abertas, desde que sigam rigorosamente os protocolos de higiene. Ele defende que cada turma viva numa espécie de bolha nos colégios, com intervalos específicos para cada classe, separadamente.

“Assim, se tivermos alguém contaminado numa turma, as aulas serão suspensas apenas para esse grupo, e não para o restante. Mas é preciso, repito, haver um protocolo muito firme de higiene”, insiste.

Ribeira ressalta que, até o momento, as pesquisas não apontam contágio maior das novas cepas entre as crianças. Entretanto, a disseminação das novas linhagens ameaça as campanhas de vacinação em curso em diversos países. "O mundo está muito preocupado porque essas variantes podem realmente diminuir a eficácia da vacina ou mesmo evadir a resposta da vacina.”

Governo inerte

Para explicar como o país chegou a esse nível de transmissão, Ribeiro aponta para a Esplanada dos Ministérios e não poupa críticas ao governo Bolsonaro. “Na realidade, desde o primeiro momento que começou a pandemia na China, depois para os outros países, nós nunca tivemos neste país qualquer planejamento estratégico em relação à Covid. E o mais grave: nós nunca tivemos uma coordenação que deveria ser ocupada pelo Ministério da Saúde, com direcionamento para estados e municípios", critica.

"Desde o início da pandemia, infelizmente o Brasil não fez o papel que deveria ter feito para evitar a atual situação. O que nós vimos no decorrer de um ano foram troca de ministros no governo federal e uma verdadeira campanha política em cima da Covid. E hoje, estamos vendo o resultado", lamenta o especialista. 

O país já registra mais de 250 mil mortes e a vacinação avança devagar na maioria do país, ressalta. "O cenário é realmente dramático. Eu diria que é muito alto o risco de um colapso geral ou de outras cidades repetirem Manaus”, reitera.

O infectologista também condenou as declarações do presidente da República, que além de desdenhar o tempo inteiro da pandemia, chegou a condenar o uso de máscaras no dia em que o Brasil batia recorde de mortos. “Ninguém tem dúvida:  hoje, há estudos mostrando que as máscaras têm impacto, sim, na transmissão. Na Europa, além dos Estados Unidos, através do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, estão recomendando usar duas máscaras, devido a essas variantes.  Você usa uma máscara cirúrgica por baixo e depois uma máscara de pano por cima", explica. "Portanto, enquanto um renega e debocha da máscara, o presidente Joe Biden está liberando 25 milhões de máscaras para americanos que não têm condição de comprar esse item importante. Veja a grande diferença de atitude entre os presidentes daqui e de lá: um defende a vida, o outro defende a contaminação."

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub