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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

20
Set23

Além da pauta: como a campanha #Chacina11doCurió contribui para qualificar a cobertura do caso

Talis Andrade

Imagem: Samuel Setubal/Jornal O Povo

A campanha  

Passados oito anos desde a chacina, a primeira sessão do julgamento dos 44 réus (todos policiais militares) estava marcada para 21 de junho de 2023. Em meados de abril, as equipes de comunicação da Defensoria Pública do Estado, do Ministério Público do Ceará, do Comitê de Prevenção e Combate a Violência da Assembleia Legislativa e do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca/Ceará) se reuniram. “Era preciso unificar a comunicação e criar uma unidade visual que retratasse os crimes”, conforme texto disponível no site da Defensoria, a fim de mobilizar a sociedade para buscar a responsabilização dos crimes. 

Além de um site que reconta os fatos daquela noite trágica e resgata as histórias de cada um dos 11, a campanha incluiu um perfil no Instagram e uma identidade visual que se estenderia em banners, adesivos, camisas e faixas usados por aqueles que se uniam às mães para pedir justiça para as vítimas do Curió. O bairro, curiosamente, leva o nome de um pássaro. “É um canto bonito este que se une em solidariedade e em rede por justiça. Embora cheias de dores e de ausências, essas Mães conseguiram selar na história – graças a sua mobilização – o nome dos 11 do Curió, em favor da justiça. Assim como elas se reuniram, as instituições também se unem para um somatório de forças”, continuam em nota os assessores que assinam as peças. 

 

Além das inserções na mídia

Em 12 de maio, o perfil na rede social foi lançado e, de forma inteiramente orgânica, chegou a alcançar quase 60 mil contas em 30 dias. Entre os conteúdos, a história das vítimas, mobilização de parceiros, a cobrança por justiça, orientações para quem pretendia acompanhar presencialmente o julgamento e um balanço diário do júri. A iniciativa passou a concentrar as informações sobre o caso, unificando a comunicação e fortalecendo a mobilização social, sempre na perspectiva das mães das vítimas e não de uma ou outra instituição. 

A imprensa, especialmente a local, que acompanhava o caso com grande atenção desde 2015, ganhou um novo fôlego para a cobertura. Mais do que revigorar a pauta, que com o início dos julgamentos seria naturalmente retomada, a campanha deu mais visibilidade ao caso — contabilizando mais de 60 reportagens em menos de 15 dias, incluindo reportagens no Fantástico e no Jornal Nacional — e ampliou o debate para além dos 11 do Curió, localizando a tragédia dentro de um contexto nacional vivido nas periferias do País. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, entre as 47.508 mortes violentas ocorridas em 2022, 91,4% das vítimas eram do sexo masculino, 76,9% eram pessoas negras e 50,2% tinham entre 12 e 29 anos. Somente no ano passado, 6.429 pessoas foram mortas em intervenções policiais, uma média de 17 por dia. 

No último sábado (16), saiu a sentença do terceiro julgamento da Chacina do Curió. Até agora, seis policiais foram condenados à prisão e 14 foram absolvidos. No primeiro Tribunal do Júri, as penas de quatro réus somaram 1.103 anos e 8 meses de reclusão, com regime inicial de cumprimento fechado, e neste último julgamento as penas chegaram a 223 anos. Ainda restam cerca de 30 réus a serem julgados e não há novas datas para os julgamentos. 

A campanha #11doCurió deve seguir acompanhando a luta de familiares, mães e sobreviventes da chacina, colocando na prática aquela ideia aparentemente ingênua de quem ainda acredita que é possível transformar a realidade, partindo dos instrumentos do ofício para dar protagonismo a quem e ao que de fato precisa ser colocado em evidência.

04
Abr23

Golpe militar, bolsonarismo e o que a imprensa parece ainda não ter aprendido

Talis Andrade
 
 
 
 
 
 
Imagem
 
 

por Raphaelle Batista /objETHOS 

Na última sexta-feira, 31 de março, completaram-se 59 anos da deposição do então-presidente João Goulart (1919-1976) pelas Forças Armadas. O golpe militar instituiu, no Brasil, uma ditadura que durou 21 anos, de 1964 a 1985, e cassou direitos políticos, fechou o Congresso Nacional, retirou dos brasileiros o direito de votar para presidente da República, torturou e matou opositores (foram 434 mortos e desaparecidos, segundo a Comissão Nacional da Verdade) e, ainda, censurou a imprensa, as artes e todos os setores da produção de pensamento que pudessem denunciar o regime ditatorial. 

No mesmo dia, a Folha de S. Paulo, um dos principais jornais do país, publicou um editorial (leia na imagem abaixo) sobre a volta de Jair Bolsonaro ao Brasil, após ele ter se recusado a passar a faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva, eleito para seu terceiro mandato. Ao longo do texto, o jornal aponta a “chegada melancólica” do ex-presidente, critica o “propósito mesquinho” da viagem aos Estados Unidos, comenta o ineditismo da situação em que um ex-morador do Palácio do Planalto se coloca no dia a dia da oposição ao governo e, no fim, conclui: “o bolsonarismo até poderia, se abandonasse a violência e o autoritarismo, liderar uma oposição saudável ao PT. Esse não é, infelizmente, o desfecho mais provável.”.

Fosse publicado em qualquer data, o pequeno trecho que encerrava o editorial já seria alvo das críticas de muitos leitores, mas especialmente neste dia que é um marco triste para a história da democracia brasileira, o peso foi ainda maior. Após intensa repercussão nas redes sociais, o jornal publicou um Erramos corrigindo a versão final para: “Opondo-se ao petismo, o bolsonarismo pode dar vigor à política brasileira — desde que abandone a violência, a atitude antidemocrática e a polarização irracional”. A justificativa para a troca do texto, de acordo com a errata, foi a de que “por erro da Redação, foi publicada uma versão anterior deste editorial, com uma conclusão diferente da aprovada para a edição impressa.”

A emenda saiu pior que o soneto: se antes, o jornal afirmava que era possível esperar do bolsonarismo uma oposição saudável ao Partido dos Trabalhadores; na nova versão, diz que o bolsonarismo pode dar vigor à política brasileira — tudo condicionado a não pactuar com a violência, o autoritarismo e a polarização irracional, ou seja, alguns dos principais elementos da chamada extrema direita. No entanto, basta lembrar da destruição das sedes dos três poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro deste ano, e do ataque ao Capitólioamericano, em janeiro de 2021, para reparar na impossibilidade de um cenário como o traçado pelo editorialista. 

Atentados explícitos às democracias dos dois países, os episódios foram promovidos por apoiadores radicais das ideias autoritárias, violentas e polarizadas de seus líderes: Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil. Mais uma vez, muitos leitores não perdoaram e lembraram a relação da Folha com os militares, a data da publicação do editorial e o caráter antipetista assumido no segundo texto. 

Neste domingo (2), o ombudsman do jornal, José Henrique Mariante, destacou em sua coluna (leia na imagem abaixo), entre outros problemas da cobertura durante a semana, a agressão que o editorial representou para os leitores ao “normalizar o bolsonarismo”. Uma crítica importante que prometia mais ao longo do texto, mas que se contentou a criticar menos o conteúdo e mais a redação da Errata. Em pouco mais de três parágrafos dedicados ao editorial, o ombudsman não esquece de pontuar que meses atrás a Folha “ruidosamente denunciava as investidas do bolsonarismo contra a democracia”, lembrando que não há opção de bolsonarismo sem violência e autoritarismo, como “gritam” os leitores. O problema é que o jornal parece não ouvir. 

Relativização política 

Ao usar o editorial para defender que o bolsonarismo poderia fazer oposição “saudável” ao novo governo, a Folha de S. Paulo concede o mesmo grau de legitimidade a um governo democrático, progressista e que acaba de começar, e a um fenômeno político de extrema direita. Fenômeno este que se notabilizou por um governo cujas inúmeras omissões ou mesmo ações deliberadas resultaram, para citar um exemplo, em mais de 700 mil mortes de brasileiros durante os dois primeiros anos de pandemia de Covid-19. Muitas dessas mortes, evitáveis, não fossem a omissão e mesmo a atuação deliberada de Bolsonaro e de seus apoiadores para dissuadir a população a se proteger por meio do isolamento social e, posteriormente, da vacinação. 

E se a condição para dar “vigor” à política brasileira está em abandonar a violência, a polarização e o autoritarismo, talvez seja preciso recordar os atos violentos que o bolsonarismo incentivou antes mesmo das eleições, resultando em mortes como a de Moa do Katendê, em 2018, e a de Marcelo Arruda, em 2022; os ataques em massa a jornalistas como a repórter Patrícia Campos Mello, prata da casa; e o constante questionamento dos outros poderes da República, em especial do Supremo Tribunal Federal (STF), além da campanha de difamação e invalidação de outros atores da política.

Há que se lembrar, ainda, que o editorial não é um espaço qualquer dentro da lógica opinativa/informativa de um jornal. Ele é destinado à manifestação do ponto de vista da empresa jornalística e carrega os interesses da instituição como agente político. A pesquisadora Camila Mont’alverne aponta, em sua tese, duas funções principais a serem cumpridas pelos editoriais: a mercadológica, que contribui para a construção da imagem do periódico e de suas diferenciações em relação à concorrência; e, em segundo lugar, a tentativa de colocar-se como um participante das discussões públicas, “com objetivo de influenciar os leitores (alguns segmentos mais que outros) ao explicitar uma agenda pertencente à publicação” (PESSOA, 2020, p. 78). 

Assim, é mais do que válido o questionamento dos leitores sobre “o que a Folha pensa”, especialmente num dia em que todos deveríamos repudiar a ditadura militar e seus entusiastas. Esse questionamento tem o potencial de ensinar uma lição ainda não aprendida, mesmo décadas depois do horror ditatorial e apesar dos últimos quatro anos: a de que a democracia é frágil demais para qualquer relativização política e o jornalismo tem (ou deveria ter) compromisso em defendê-la diante das mínimas ameaças. 

Referência

PESSOA, Camila Mont’Alverne Barreto de Paula. A imprensa como agente interessado na reforma política: um estudo sobre a cobertura noticiosa e editorial da Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo (1989-2017). 2020. 262 f. Tese (Doutorado) – Curso de Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2020. Disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/67307. Acesso em: 03 abr. 2023.

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