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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

09
Jul23

Cinco anos depois, um brinde com Lula

Talis Andrade
Arquivo de Luiz Carlos da Rocha
 

 

Quando entramos na cela e anunciamos o mandado de soltura o Presidente Lula brincou: “quanto tempo eu vou ficar lá fora?”

10
Mar23

Canção para Soledad Barrett

Talis Andrade
Soledad Barret - lustração: Ral

 

Se remorso houver em relação a Soledad, e a todos os socialistas que a tortura destruiu, se remorso houvesse, ele deveria perseguir o Cabo Anselmo.

 

Para o Dia Internacional das Mulheres, recupero algumas páginas do romance “A mais longa duração da juventude”. Nele está uma tentativa musical para a guerreira Soledad Barrett Viedma. Mas bem sei que este compositor é precário, então lhe deem por favor o perdão de ter escolhido tão alta musa.

“Nestes dias, obedecendo a impulso incontrolável, tentei compor esta canção para Soledad Barrett:

‘Quando te vi pela primeira vez, Soledad
Me deu vontade de cantar.
Lá no Pátio de São Pedro
Correu um fogo em meu coração
Que me dizia
Haveria incêndio se eu tocasse as tuas mãos.

Mas em 1973, Sol, o amor era uma alienação.
E a canção que não vinha me torturava assim:
‘Como posso tocar a sua alma? Como posso tê-la junto a mim?’

Em 73, no calor dos teus olhos, Soledad,
havia um fogo irresistível para todos
Não sei se era uma alucinação
Pois sentia o perfume dos jasmins,
Como se as pétalas do teu corpo
batessem num feitiço em cima de mim

Os beija-flores, mais educados que os amantes,
sabem que podem tocar a intimidade da flor
e por isso são felizes.
Diferente de ti, Soledad, que eras flor vermelha
e não recebeste o carinho de acender a centelha.

Por isso minha lembrança evitou a dor da tua morte,
Por isso pude ouvir o canto da criança guarani:
‘Filha do paraíso azul / entra para mim’.

Ainda ontem, em um ato público, ao gritarem o teu nome, Soledad,
a minha voz ao responder ‘presente’ fraquejou,
como se fraqueja diante de quem se ama
pois o teu nome em meu coração não cessou

As santas do Paraguai carregam o filho nos braços
e a aos pés delas têm anjos,
até lua em quarto minguante.
Mas um feto nos pés e sangue na fogueira
Somente Soledad, a guerreira

Por isso estás presente hoje nas cordas do violão
E para a tua nova vida eu fiz esta canção’.

Perdoem o lugar-comum da rima e o quanto fui tosco. Talvez importe mais o não-dito, que desejou apenas dizer ‘a voz fraqueja porque a tua presença não terminou em meu coração’. Não é nem ‘continuou’, porque a pessoa agora é melhor compreendida, e nesse entendimento o nosso afeto cresce. É próprio do homem crescer com humanos. Por que ela acorda e nos acorda dessa maneira? Toda a gente, quando simplifica histórias de terror, pensa que um remorso persegue o criminoso. Mas não é assim que a realidade nos toca. Se remorso houver em relação a Soledad, e a todos os socialistas que a tortura destruiu, se remorso houvesse, ele deveria perseguir o Cabo Anselmo. Mas esse anda, gargalha, palita os dentes e chega a reclamar dinheiro da Anistia, porque afinal teria sido perseguido pela ditadura. Dizer o quê diante do cinismo endurecido? Não, a ele o remorso não fere.’“Você dorme bem?’, um repórter lhe perguntou. ‘Putz, tranquilamente’. E o repórter: ‘Você dorme tranquilo?! Nunca sentiu pesadelo durante a noite? Não tem remorso pelo que fez?’. E Anselmo: ‘Absolutamente. Não tenho’. E riu. Se o remorso persegue uma pessoa, talvez atinja as que nada fizeram, ou calaram depois do massacre de militantes contra a ditadura no Recife. Mas a esses mesmos, penso, o remorso ainda não fere. Loucas e tortuosas são as voltas da consciência. Ela é esperta e só quer a sobrevivência confortável. Não, a essa gente a verdade ainda é vedada.

Leia também: Soledad Barrett, presente

Cabo Anselmo 

 

Então, como volta a pessoa que foi separada de modo brutal da vida? É como se não a procurássemos, é como se delas até quiséssemos fugir, mas de repente, por caminhos imprevisíveis, ela retorna. Penso e creio que ela está conosco, sempre, e fazemos de conta que nem mais existia. Assim aconteceu comigo, no cemitério, ao acompanhar o enterro da tia de um amigo. Súbito, me apareceu uma senhora de cabelos branquinhos, que falou me conhecer desde menino. A idosa me conhecera desde o tempo em que eu possuía mãe viva. E se pôs a falar e despertou numa avalanche tudo que estava submerso em mim. De modo igual ocorre quando fingimos não estar com a pessoa querida, para assim ignorar o nosso próprio corpo. Andamos com ele, com ele vamos à feira, ao bar, à livraria, às festas, como se nos transportasse um fluido imaterial. Mas ele está conosco, e só lhe prestamos atenção quando no íntimo nos pula uma dor. ‘Ah, este meu corpo existe’, e não mais podemos correr, ver o mar, inspirar o azul, porque o seu peso e aflição nos prendem. Assim também com as pessoas fundamentais, elas são o nosso corpo, estão conosco, com elas vamos à cama, à mesa, enquanto a sua presença sussurra e segreda em nós. Discreta, fundamental e silenciosa. Mais forte e senhora do nosso corpo que um câncer, porque ela nos vence com a ternura daquilo que nos funda. Assim, de repente, quando penso que Soledad está morta e sepultada não se sabe onde, de repente me aparece à frente um senhor baixinho, cabelos prateados, olhos vivos como os possuem os militantes comunistas que muito viveram. Ele me considera de modo firme e fala

– Eu conheci Soledad.

Eu recebo o golpe e de imediato não o compreendo. Estou no Teatro Hermnilo Borba Filho, acabo de ver o monólogo sobre Soledad no palco. Então tudo é meio vivo, meio teatro, não sei, o momento em que estamos é o da suspensão da lógica mecânica.

– Eu conheci Soledad.

‘Será que ele se refere ao conhecimento que teve dela nesse espetáculo, ou ao livro que escrevi?’, penso, mas não consigo falar. Estou naquelas zonas de estupefação em que a gente pensa e perde a fala. Mas de tal modo ele repete a frase, que num esforço de gentileza articulo:

-Foi? – E ele responde:

 Ela foi à minha casa. – E se aproxima de nós uma senhora, que venho a saber depois ser a sua esposa. E fala: – Muitas vezes. – E volta o senhor: – Conheci os dois. Ela e Anselmo.

Enquanto ele fala, se acerca de nós a jovem senhora Ñasaindy, filha de Soledad. E num impulso o abraça, calorosa. Então o senhor lhe fala.

-Parece que estou abraçando a sua mãe.

Leia também: “Em busca de Anselmo” e a gravidez de Soledad Barrett

E saímos da sala de recepção do teatro. Eu estou tonto, porque saltam de repente os fenômenos adormecidos. Vamos para o pátio e conversamos como velhos amigos, aquela conversa em que estamos com toda a nossa pessoa. Só atenção, fraternidade e conhecimento antigo. Amigo será irmão de antigo? Aliás, as palavras que não saíam vêm num atropelo. O senhor com quem converso, que tem o nome de Marx, fala da sua prisão, de como caiu a máscara do infiltrado Anselmo. De um fusca verde que Anselmo usava sempre “com gasolina pela boca”, e de como um vizinho reconheceu o carro, propriedade de um coronel do Exército anticomunista. Mas para mim resulta mais a lembrança da esposa de Marx:

– A gente fazia sapatinhos de bebê com Soledad.

– Sapatinhos para quem? – pergunto.

– Para o bebê que ela estava esperando.

 Mas Anselmo fala que Soledad não estava grávida.

Marx sorri fino. A sua esposa o acompanha, negaceando com o queixo. E sinto que falam sem palavras: ‘Quanto cinismo. Que canalha’. Mas o movimento de condenação ao criminoso passa por ele e se dirige para a mãe que espera o filho, encostada ao muro do quintal da casa. Então a sua pessoa volta, desce e falamos sobre Soledad, como se ela estivesse presente e lhe prestássemos um reconhecimento. Na verdade, essa é uma sensação que temos presente. Quando eu falava para Hilda Torres, a atriz que a reencarna no palco, quando eu falava para Hilda lá na Ilha de Kos, eu lhe disse:

– Eu sinto Soledad como se ela entrasse agora por aquela porta. Eu sou ateu, mas sinto a sua presença viva.

Soledad Barret

 

É um vivo sem a matéria do corpo, eu poderia ter dito. Mas isso podia ser interpretado de um modo tão espírita, que cairíamos numa discussão de gênero Allan Kardec. Mas a pessoa de Soledad é real, a pessoa que nos acompanha é real, e se nela não tocamos com os dedos, podemos sentir o seu cheiro, as pernas, o rosto, o riso, sentir quase sem ver, se me entendem. Sabem a luz da estrela que vemos e não pegamos? A pessoa que amamos se toca, se pega, mas sem o tato, ou melhor, com um longo e total sentido, ainda que não o queiramos. É um imperativo do coração. É como se o sentimento se desprendesse da nossa vontade e autônomo nos desse uma ordem. Age, anda e voa. E o ser limitado que éramos ganha o espaço para abarcar o valor que não tínhamos sido. Mistura de empatia, solidariedade e sentimento oculto. É como se estivéssemos bêbados de amor, enfim. Então o beijo em Soledad voltou, lá do fundo daquela tarde de antes. Com mais precisão, voltou aos lábios que abraçam a sua pessoa”.

Trecho do romance “A mais longa duração da juventude”.

soledad urariano.jpg

06
Fev22

A pressa da fome

Talis Andrade

ral fome.jpg

 

por Gustavo Krause

- - -

O efeito mais devastador da pandemia foi o aprofundamento da desigualdade social. No Brasil, ¼ da população vive na Escala da Insegurança Alimentar. Mesmo diante da humilhação da fome, o conluio entre os poderes Executivo e Legislativo sequestram o Orçamento para financiar a farra dos privilégios e o despudorado gastos em benefício de projetos eleitorais.

Há grande convergência sobre os efeitos da pandemia na Humanidade. De forma distinta, afetou pessoas, nações e, mais gravemente, os pobres. Fez sentir uma dor universal e nos jogou nas profundezas do luto. São perdas que não se medem e serão sentidas para sempre.

A arrogância do poder global foi testada. A pandemia deixou valiosas lições. Milhões de vítimas não são meros dados estatísticos frente à tragédia da morte de uma pessoa, como pensam os tiranos, são eventos que ameaçam, traiçoeiramente, a existência humana. A tecnologia e os avanços do progresso científico mostraram-se insuficientes para vencer a dimensão do inesperado, sem a força da solidariedade humana e da cooperação internacional

Estes valores, permeados pela compaixão, serão capazes de enfrentar o maior dano da pandemia: o aprofundamento da desigualdade econômica acrescida pelo enorme contingente de miseráveis em contraste com os números assustadores da concentração de renda: 2.153 bilionários do mundo detêm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas, 60% da população mundial (Fonte: relatório da ONG Oxfram – Tempo de Cuidar, em 19/01/20).

Em 06/4/21, a lista da Forbes disparou com 2.755 bilionários, 660 a mais do que no ano anterior. No Brasil, segunda maior concentração de renda do Planeta, a Forbes registrou 42 novos bilionários.

Neste quadro de desequilíbrio estrutural, a novidade foi a carta de uma centena milionários autointitulados “Milionários Patriotas”, pedindo, no encontro virtual de Davos, que os países os forcem a pagar mais impostos (18/01/22).

Não julgo os propósitos do gesto inédito. No entanto, traz embutido o fracasso da Política, a ação pensada para transformar realidades.

No caso brasileiro, além de mais de 12,4 milhões de desempregados, ¼ dos brasileiros (Datafolha, 24/12/21) vivem a Escala de Insegurança Alimentar, conceito técnico para definir a humilhação da fome. Não nos faltam talentosos formuladores de políticas sociais. Sobram, porém, maus gestores dos gastos socais no combate aos diversos níveis de pobreza.

Vencer a pobreza, ensina a experiência histórica, é o primeiro passo da libertação para que os indivíduos possam fruir liberdades reais. Dois grandes obstáculos, no Brasil, dificultam a efetividade das políticas públicas e ações redistributivistas: não se sabe como vivem os “invisíveis” e o sequestro do Orçamento, especialmente este ano, para financiar a farra dos privilégios e o gasto despudorado em benefício de projetos eleitorais, graças ao conluio entre os Poderes Executivo e Legislativo.

No país de miseráveis, cabe lembrar aos candidatos, a advertência de Betinho: “Quem tem fome, tem pressa!”

fome aumenta por tomas.jpeg

27
Jan22

A verdadeira cremação de Olavo

Talis Andrade

_cau olavo bolsonaro.jpg

 

por Eric Nepomuceno

Leio o anúncio do sepultamento do jornalista e astrólogo Olavo de Carvalho no cemitério St. Joseph na cidadezinha de Petersburg, estado de Virgínia, onde ele vivia refugiado há uns dezesseis anos. 

Leio e sinto que há no anúncio um grande equívoco.

 Aprendi com meu avô paterno, o velho patriarca José Augusto Nepomuceno, que não se deve celebrar morte de ninguém – exceto as de Adolf Hitler e Benito Mussolini.

Cada vez que, ao longo da minha já um tanto longa vida, senti vontade de festejar alguma das tantas mortes, lembrei do meu avô José Augusto. Assim que não vou festejar, para nada, o sumiço dessa figura dantesca e abominável chamada Olavo de Carvalho, que se autodenominou filósofo.
 

Tropecei com ele lá por 1967 ou 68, quando me juntei à equipe do então revolucionário, no sentido de formato e conteúdo, “Jornal da Tarde”. Foram contatos ocasionais, rapidíssimos, e mal e mal lembro dele. 

Tornei a tropeçar com essa figura quando ele desandou a publicar nos principais jornais e revistas deste pobre país, e foi demitido de um em um não só porque escrevia muito mal, mas porque era de um reacionarismo sem pé nem cabeça. E aí ele virou um fenômeno nas tenebrosas redes sociais.

Virou “o professor”, o “filósofo”, virou qualquer coisa que teve um espaço enorme dentro desta catástrofe que vivermos a cada segundo de cada minuto de cada dia das nossas vidas.

 É bem verdade que essa influência veio perdendo espaço no governo, mas entre os seus seguidores, não. E esses seguidores continuam absolutamente leais a Jair Messias, apesar do distanciamento.

bolsonaro guedes moro olavo.jpg

 O que Olavo de Carvalho fez depois que descobriu e utilizou de maneira intensa as redes sociais foi espalhar mentiras, absurdos, pura escatologia, cinismo soberano. E trouxe para a superfície um poderoso contingente de extremistas não apenas da direita, mas da elevadíssima ignorância que estava abrigada em armários e nos últimos anos saiu não para a luz do dia, mas as trevas do absurdo. 

Não, eu seguirei a lição de meu avô e não celebrarei a morte dessa figura abjeta e perigosa que deixa como herança um imenso bando de seguidores tão fanáticos quanto imbecis. 

Apenas corrijo o anúncio de seu funeral: depois de enterrado, Olavo de Carvalho será de imediato cremado no fogo do inferno. Que o Diabo o tenha para sempre.

 

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