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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

02
Out23

O humor e a política

Talis Andrade

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Nos dias atuais, relacionar humor à política é uma heresia enorme. A experiência demonstra que, somente a mordacidade, a sátira, daria alguma graça ao espetáculo circense da antipolítica. Os sentimentos que prevalecem em relação aos “atores” são de rejeição, ressentimento, raiva, no mínimo indiferença ou, nos extremos ideológicos, o fanatismo com o forte tempero da bajulação.

As circunstâncias históricas deram um tom raivoso, odiento sobre, pasmem, os escolhidos como nossos representantes. Porém, o ambiente, ainda que com certa hostilidade, nunca chegou, como agora, ao “horror político”, alimentado pelo humor cáustico, em pílulas digitais, tendo como fonte inesgotável a natureza humana e sua capacidade de ser razão do ridículo e da satisfação do riso.

Nos círculos do poder, o humor se manifesta ora como virtude, senso de humor, ora como um risco permanente de produzir cenas patéticas que, somente, os poderosos são capazes ser, ao mesmo tempo, autor e vítima do bizarro.

“Não se leve muito a sério”. Mais do que um conselho esta advertência é uma lição de sabedoria. Soma leveza, uma das “Seis propostas para o próximo milênio” (Companhia das Letras, 1990 – O autor faleceu antes de pronunciar as palestras) à seriedade. E inspira a definição de senso de humor.

Na vida pública, em especial, o senso de humor é a virtude-chave para enfrentar crises recorrentes. Elas entram no gabinete da Excelência com um tamanho gigantesco e saem reduzidas e, muitas vezes, resolvidas.

No primeiro impacto, é fundamental não entrar no clima. Arrodeia. Puxa por um assunto capaz de baixar o ímpeto da adrenalina. Em seguida, deixa que o suplicante esvazie a cabeça cheia de problemas para dividir com ele as alternativas de soluções, se houver.

Assim se tratam assuntos com seriedade o que não se confunde com sisudez, a máscara da hipocrisia. O sisudo tem por hábito esconder por traz da cara fechada de brabo, muita sacanagem. E se acha o cara mais honesto do mundo; declama loas à moralidade e, na verdade, é um grande sacana. O rigor da sisudez é um mecanismo de defesa que alimenta mitos e encobre grandes mentiras interiores

De um deles, ouvi uma sincera confissão em virtude da Lei 6091 de 15 agosto de 1974 – Lei Etelvino Lins que adotava providências moralizadoras sobre a oferta de transporte e alimentação aos eleitores. “E agora, Deputado, está mais difícil “comprar” voto no “curral”! Ele, calmamente, respondeu: “Tô tranquilo. Não compro, vendo”. Naquele tempo, não se comprava por atacado. Era um modesto varejo.

12
Jun23

A sociedade em rede e a política

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

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Em 1999, Manuel Castells, publicou uma robusta trilogia – A era da informação: economia, sociedade e cultura, complementados pelo Fim do milênio e pelo Poder da identidade (Ed. Paz e Terra. São Paulo).

A partir de então, acompanhou, com admirável dedicação, a natureza e os impactos produzidos pela revolução tecnológica da informática sobre as várias dimensões da vida social. Dispensou o olhar pretensioso do preditor e, até mesmo, a sólida percepção do cientista social. As mudanças eram vertiginosas, profundas e de consequências imprevisíveis.

No prefácio do excelente, Redes de indignação e esperança, publicado em 2013, há exatos 10 anos das “Jornadas de Junho” – os movimentos sociais na era da internet ocorridos no Brasil em mais de 500 cidades – Castells que pesquisou e analisou o começo de tudo na Islândia, janeiro de 2009, a revolução egípcia, as insurreições árabes, indignados na Espanha, do Occupy Wall Street, eventos posteriores incluídos na 2ª edição (Brasil, Turquia), começa com um modesto diagnóstico: “Ninguém esperava”.

Prossegue numa sucinta descrição do ambiente: “Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio cultural e desesperança, aquilo apenas aconteceu”. Porém, o mundo, jamais, seria o mesmo.

Neste sentido, é fundamental, a despeito das peculiaridades históricas das insurgências globais, observar elementos convergentes das erupções: (I) integração do espaço cibernético ao espaço real o que cria o espaço público e torna visível o movimento nas ruas, praças e acampamentos); (II) a emoção coletiva que gera raiva, induz ao enfretamento mas, ao mesmo tempo, acende a emoção positiva da esperança (III) os movimentos são locais com repercussão global; (IV) os movimentos não têm líderes, são guiados pela não-violência e por uma pauta de problemas negligenciados pelo poder público; (V) os movimentos, sem perder a visão prática, valorizam fortemente e elevação da consciência cidadã e a ampliação das possibilidades de deliberação participativa.

Sobre a política na sua versão tradicional de democracia representativa, a sociedade em rede causa um enorme impacto, digital, algorítmico e, ao enfatizar a crise de representação, defende uma interação positiva capaz de ampliar os canais de participação política e limitar a influência dos lobbies e grupos de pressão sobre os processos decisórios.

Por sua vez, a conectividade entre as pessoas e o empoderamento do cidadão que com um clique, espécie de editor invisível, podem e vêm sendo explorados por um modus operandi do algoritmo que identifica e explora tendências emotivas associadas aos afetos de raiva e indignação.

Se na origem, as redes digitais foram decisivas para confrontar, derrubar ditaduras e, até mesmo, apontar questões éticas, ineficiência das governanças, e ressaltar a necessidade de estabelecer laços de confiança entre governantes e governados, seu modus operandi do algoritmo no mundo político fez crescer a extrema direita e o risco de captura do poder por populismos autoritários, messiânicos, independentes de rótulos ideológicos.

A propósito, este modus operandi do algoritmo no mundo político foi introduzido por Steve Bannon, em experiências bem-sucedidas, o que lhe conferiu a notoriedade de uma espécie de oráculo de fascistoides, apesar de alguns episódios humilhantes.

A “Máquina do caos”, obra de fôlego do Max Fisher, repórter do New York Times, narra com propriedade e clareza, como são produzidas as “mentes gerenciadas” pelas plataformas manipuladas por falanges antidemocráticas. A rigor, a autonomia individual e a liberdade de expressão sofrem a permanente ameaça da opressão e da falsificação da realidade.

No Brasil, decorridos 10 anos dos movimentos de junho de 2013, em ambiente propício para enviar mensagens fortes, verdadeiras, o clamor das ruas não foi ouvido pelas instituições, lideranças e, assim, seguimos feridos com as veias abertas da radicalização.

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