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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

08
Set18

SOBRE O MAIS FAMOSO SONETO DE TODOS OS TEMPOS

Talis Andrade

 

por Rafael Rocha

félix arvers.jpg

 Félix Arvers

 


O poeta francês Félix Arvers escreveu este soneto no álbum de uma jovem de 19 anos, comprometida, recatada e dotada de muita inteligência, Marie Mennessier-Nodier.



SONNET – Félix Arvers


Mon ame a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour eternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j'ai dú le taire,
et celle qui l'a fait n'en a jamais rien su.


Helas! j'aurai passé près d'elle inaperçu
Toujours à ses côtés et toujours solitaire;
et j'aurai jusqu'au bout fait mon temps sur la terre,
n'osant rien demander, et n'ayant rien reçu.


Pour elle, quoique Dieu l'ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d'amour elevé sur ses pas;


à l'austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle,
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas.



A primeira tradução em português no Brasil do célebre soneto foi feita por Pedro Luiz no ano de 1880.


SONETO DE ARVERS


Guardo um mistério n'alma e na vida um segredo,
um sempiterno amor que há muito me enlouquece;
não tem remédio o mal – por isso o oculto a medo
e aquele que o causou jamais quis que o soubesse.


Perpasso junto dela e abafo ardente prece!
Ao seu lado respiro e sempre em um degredo.
A romagem da vida acabarei bem cedo,
sem que eu nada pedisse e nada ela me desse.


Terna formou-a Deus, mas – bela peregrina –
na trilha do dever não vê, não imagina
que eu – mísero – sagrei-lhe amores imortais.


E, um dia, talvez, diga ao ler em doce calma
estes versos que assim vibraram de sua alma:
– “E essa mulher quem é?” – Não cismará jamais.


Muitas outras traduções foram feitas por brasileiros e portugueses, mas melhor deixar por aqui aquela duas mais aceitas pelos estudiosos, a de Guilherme de Almeida e Olegário Mariano:


SONETO DE ARVERS

Tradução de Guilherme de Almeida


Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a, pois, escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.


Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento.
E chegarei ao fim da existência esquecida,
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.


E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.


A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá, lendo estes versos, com certeza:
— "Que mulher será esta?" — E não compreenderá.



SONETO DE ARVERS
Tradução de Olegário Mariano


Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
e aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.


A seu lado serei sempre a sombra esquecida
de um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
certo de que dei tudo e ele nada me deu.


E ela que Deus formou terna, pura e distante,
passa sem perceber o murmúrio constante
do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.


Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
perguntará, lendo estes versos cheios dela:
- "Que mulher será esta?" - E não compreenderá.

 

Marie_Nodier.jpg

Marie Nodier 


Aparentemente, o soneto passou despercebido à moça dos sonhos do poeta. Félix Arvers nasceu em 23 de julho de 1806 e morreu em 7 de novembro de 1850. Sua musa, Marie Nodier, faleceu muitos anos depois do poeta. Félix Arvers entrou na galeria dos imortais com este soneto de amor e sem jamais saber que Marie Nodier tinha respondido ao soneto com um de sua autoria em seu próprio álbum, mas que os estudiosos da obra de Arvers consideram apócrifa. E que dizia assim:

 

REPONDRE AU SONNET


Ami, pourquoi nous dire, avec tant de mystère,
que l'amour éternel en votre âme conçu
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
et comment supposer qu'Elle n'en ait rien su?


Non, vous ne pouviez point passer inaperçu,
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
Parfois, les plus aimés font leur temps sur la terre,
n'osant rien demander et n'ayant rien reçu.


Pourtant Dieu mit en nous un coeur sensible et tendre
Toutes, dans le chemin, nous trouvons doux d'entendre
le murmure d'amour élevé sur nos pas.


Celle veut rester à son devoir fidèle
s'est émue en lisant vos vers tout remplis d'elle.
Elle avait bien compris... mais ne le disait pas.


E eis aqui a tradução de Edmundo Lys da pretensa resposta ao SONETO DE ARVERS por parte da musa Marie Nodier:


RESPOSTA AO SONETO


Meu amigo, por que, de forma tão sentida,
dizeis que o eterno amor nascido num momento
é uma dor sem remédio, e há de estar escondida,
e como supor que ela ignora esse tormento?


Vós não fostes jamais sombra despercebida,
nem deveis vos julgar num triste isolamento:
os mais amados vão, às vezes, pela vida,
sem nada receber e sem um só lamento.


Deus, entanto, à mulher, deu uma alma complacente
e ela por seu caminho irá mais docemente,
se um murmúrio de amor a segue onde ela vá.


Aquela que ao dever deseja ficar presa,
os versos, cheios dela, os sentiu, com certeza,
e tudo compreendeu... mas nunca ela o dirá.

 

 

31
Mai18

E não sobrou ninguém 

Talis Andrade

por Martin Niemöller 

 

intervenção militar.png

 

 

primeiro levaram os comunistas
mas não me importei com isso
eu não era comunista;
em seguida levaram os sociais-democratas
mas não me importei com isso
eu também não era social-democrata;
depois levaram os judeus
mas como eu não era judeu
não me importei com isso;
depois levaram os sindicalistas
mas não me importei com isso
porque eu não era sindicalista;
depois levaram os católicos
mas como não era católico
também não me importei;
agora estão me levando
mas já é tarde
não há ninguém para
se importar com isso.

 

 

---

Trancrito do jornal Humanitas

Seleta de Rafael Rocha

12
Abr18

Poema de Rafael Rocha

Talis Andrade

rafael rocha.jpg

 

 

 

Em fileiras pelas ruas

capacetes e viseiras

botas negras

fuzis aos ombros

marcham os soldados.

 

Jovens faces

em extremos de respeitos.

Jovens mentes

sem tempos ideológicos.

Jovens vigilantes

marchando aos enganos.

Jovens camaradas

defensores de cofres-fortes.

 

Em fileiras pelas ruas

capacetes e viseiras

desfilam jovens enganados.

Carne para canhão

na defesa de banqueiros

marcham

e marcham e marcham...

 

Pobres zumbis sem paz!

25
Jan18

Palavras de Ateop reveladas por Rafael Rocha

Talis Andrade

escritor rafael rocha.jpg

 

 

O Grande Ateop nasceu do choque de uma constelação fantástica de treze estrelas lá nos limites insondáveis do universo. Seu planeta possuía todas as cores do arco-íris e girava solitário em torno de um grande sol azul.

 

O Grande Ateop não teve pai nem mãe e nenhum deus ou deusa para gerar sua vida. Nasceu do grande choque entre as treze estrelas. Sua idade é de bilhões e bilhões de anos e seus escritos estão em todos os murais das civilizações humanas e universais.

 

O planeta Terra recebeu o Grande Ateop em formato de um pequeno meteorito que se dividiu em várias miríades de estratos e que resolveu habitar nas mentes de alguns descendentes da raça humana.

 

Até hoje o Grande Ateop vaga no planeta Terra, cantando e escrevendo seus poemas através das inteligências desses descendentes. Os seguidores do Grande Ateop podem agora curtir suas palavras infinitas aqui neste espaço. Palavras criadas pelos seus filhos, filhas e irmãos terráqueos.

23
Set17

Cúpula da Pedra em Jerusalém

Talis Andrade

 

 

 

 

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dome-of-the-rock-2.jpg

 

 


Em Jerusalém uma pedra

 

Dos judeus a convicção
a criação do mundo
a partir de uma pedra

 

A pedra que estava Abraão
quando falou com Deus
A pedra de onde Maomé
ascendeu ao céu
para rezar com Deus

 

Em Jerusalém uma pedra
divide duas religiões
em uma guerra santa

 

Em Jerusalém uma pedra

 

 

---

Poesia do livro inédito O Judeu Errante. 

Leia mais poesia de Talis Andrade in Palavras de Ateop, editado por Rafael Rocha,

jornalista, poeta e romancista

15
Jul17

Paranoias de Leonardo

Talis Andrade

 

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por Rafael Rocha

 

 

 

 

Leonardo tinha um problema sério.

 

Era paranoico. Ele tinha muito cuidado com os caminhos por onde andava e pisava, bem como com a própria sombra.

 

Se as calçadas fossem lisas e sem risco ele caminhava por sobre elas normalmente. Se visse alguma fissura ou algo quebrado, tinha o cuidado de não pisar nessa fissura ou risco, passando os pés cuidadosamente por cima até alcançar o outro lado.

 

O maior cuidado era com a própria sombra. Por onde andasse, a sombra tinha sempre de ficar atrás dele e jamais na frente.

 

Achava que se desse um passo com a sombra na frente poderia cair em um buraco negro.

 

Assim quando saía do trabalho, à noite, sempre estava armado com uma lanterna a iluminar o caminho onde a sombra aparecesse.

 

O horário de meio-dia era o que ele mais gostava, porque não via a sombra nem atrás nem à sua frente.

 

Toda essa paranoia e excentricidade criavam para Leonardo problemas variados.

 

As calçadas do Recife não eram de confiança, pois muitas delas destacavam-se por terem fissuras e outros riscados.

 

Mas gostava de caminhar durante o dia pela Avenida Guararapes por baixo daquelas marquises dos prédios afrancesados, já que a sombra não aparecia de jeito algum para incomodar.

 

Leonardo viveu cerca de setenta anos.

 

Foi cliente de muitos psicólogos e psiquiatras do Recife e de Olinda, cidade onde morava.

 

Mas não era louco. Tinha apenas uma paranoia generalizada com a própria sombra e com as fissuras das calçadas das cidades.

 

Um dia Leonardo morreu.

 

Seu enterro ocorreu exatamente quando um eclipse total do sol escureceu por completo o céu do Recife em pleno meio-dia.

 

 

===

do livro

CONTOS DELIRANTES COM VERSOS EM BOLERO

do jornalista, poeta e escritor Rafael Rocha,

a ser lançado este ano 

 

 

 

 

13
Jul17

Precisamos trazer de volta a dignidade da revolução

Talis Andrade

rafael rocha a revolução .jpg

 

CANÇÃO DA LUTA

 

Necessário lutar, amigos, a história

vive em todos os instantes do presente

não dá licença a mudanças descabidas

nem mercantiliza as memórias.

 

Amigos meus, aceitar momentos de terror

e acatar juízos de merda

é viver a ideologia da casa grande.

Necessário lutar, amigos, nossas vidas

são maiores e são ternas e são limpas.

 

Os pensamentos das verdades vivem para nós

e em nós e sobre nós

e trazem objetivos amplos para nossa existência,

eu luto e nós lutamos e nesse verbo

as ruas nos esperam para desfraldar as bandeiras.

 

É preciso recordar, amigos,

o tempo de caos do antanho

e os outros amigos idealistas assassinados.

É preciso, sim, amigos, respeitar suas memórias

e fazer a nova história da pátria

com as mais fortes cores da liberdade.

 

E, meus amigos, jamais esquecer

a luta gloriosa

pelo direito de ser humano

e pelo direito de viver.

 

....

 Poemas do livro, no prelo, Contos Delirantes com Versos em Bolero

Leia mais Rafael Rocha aqui

 

 

01
Jul17

44 poetas selecionados por Rafael Rocha

Talis Andrade

muses.jpg

 

 

 

No jornal Humanitas, agora na internet Nas Páginas de Ateop, uma seleta de 44 poetas.

 

Apesar dos prestigiados meios de comunicação, o importante que a coletânea de poetas internacionais tem a assinatura de Rafael Rocha, historiador, antiteólogo, romancista, jornalista, também poeta consagrado.

 

Além dos versos, testemunhais, fotografias e entrevistas com os poetas que Rocha encontrou em vida. Assim acontecendo, temos um rico arquivo para pesquisadores, historiadores da Literatura, críticos literários, estudantes de Letras e amantes da Poesia. 

 

O gosto de Rocha difere dos ratos de biblioteca por ele ser boêmio, ativista político e ateu.

 

Vale conferir. O amor de Rafael Rocha pela Arte livra suas escolhas das simpatias, dos modismos e aprovações oficiais.

 

 

 

 

 

 

26
Jun17

2017 do poeta Rafael Rocha

Talis Andrade

Nas livrarias e premiações, este ano, três livros inéditos do poeta Rafael Rocha:

Poemas Escolhidos

Poemas dos Anos de Chumbo

e

 

AO TRIBUTO A BUCK.  rocha.jpg

felizes na dor (*)

 

ponham os copos na mesa
acendam seus cigarros
tem litro de cachaça e muita cerveja
para rolar esta noite
estão cansados?
não existe cansaço para os notívagos.
a eles é dada a solidão dos felizes na dor

duas horas da manhã
e vocês querendo mulheres e fodilanças?
eu serei bondoso mesmo que vocês fiquem bêbados.
se alguém pegar aquele violão
abandonado lá no canto
e resolver cantar uma canção qualquer
conseguiremos espantar nossas mágoas de ébrios

elas não virão hoje (puta merda!)
fiquem certos disso
elas são sombras decaídas e nos odeiam
por sermos tão honestos e sensíveis
e por bebermos a vida e por fumarmos a vida
ainda quero que alguém pegue o violão abandonado
e dê voz a uma canção cheia de putaria

e tu ainda diz - meu deus que grande farsa!?
- bebe o líquido amargo de tua cerveja, porra!
estás mais perto do nada que esse deus
esse abominável!

esse trágico comediante das esferas celestes
que prega a morte como culto
e deixa matar o próprio filho
para salvar os homens de suas merdas

na verdade, vos digo, na verdade
e agora sou eu o vosso profeta
“se quer saber onde está deus, pergunte a um bêbado”
(essa frase é do bukowski, outro amigo desta merda de vida!)
o bêbado tem mais consciência
da localização da mentira que um homem sóbrio

deixa que o violão toque sozinho
todas as canções do mundo
elas não cabem em nossas cabeças
que só pensam em mulheres
nos cigarros e nas cervejas
e nas ingratidões da vida
mas continuem a encher os copos
quero todos bêbados e voláteis
dançarinos de suas próprias infelicidades.

 

 

tereza


na rua chamada

imperatriz tereza cristina

morava a tereza

maltrapilha

a louca do bairro

da boa vista

cantora

de rua

e pedinte

dos botecos

fétidos

feia como

uma maldição

de bruxa

 

tereza

da rua imperatriz

todas as manhãs

ficava nua

e mergulhava

no rio capibaribe

às 7 da manhã

fazendo chuva

ou fazendo sol

ria e ria e ria

brincando na água

sem ligar

aos passantes

na ponte de ferro

e mostrava

o dedo médio

em riste

a quem mandasse

ela sair da água

 

tereza da imperatriz

lavava os peitos

a bunda

e a buceta

com a água do rio

e depois

saía cantando

pela lama

do manguezal

trazendo caranguejos

entre os dedos...

 

(um dia

tereza da imperatriz

sumiu nas águas

entre as baronesas

de uma enchente

e nunca mais foi vista).

 

 

final

 

casualmente

tinha de ter um poema mais velho que o diabo

para oferecer em algum altar

e infelizmente

tinha de terminar de poetar com uma palavra simples

obrigado! obrigado!

e agradecer os aplausos

verdadeiramente

tinha de falar gritando para esses obtusos e vadios

intelectuais inventados pelo poder

- uns merdas do pedaço!

digo, sim:

vão tomar no cu!

felizmente, sim!

tenho saco roxo para dizer isso!

vão se fuder!

se não gostam do que escrevo

felizmente, ah, felizmente!

estou livre de todos!

tenho uma estrada aberta só para mim!

e meus verdadeiros leitores me amam!

 

 

 

rafael rocha.jpg

 

Nota do editor: Dos livros Poemas Escolhidos e Poemas dos Anos de Chumbo já divulgamos alguns versos. Comprove a beleza in tags.

Do poema Felizes na Dor, o autor faz o seguinte comentário:

(*) Escrito e falado por mim na bela cidade do Recife no bar Mansão do Fera no louco ano de 1980, quando as merdas da vida eram mais reais que as merdas religiosas

 

 

 

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