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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

12
Mai22

Entidades criticam derrubada de monumento a 28 mortos em operação policial no Jacarezinho; organizações avaliam recorrer à Justiça

Talis Andrade

Policiais da Core destruíndo o monumento que ficava sobre uma ponte da comunidade

 

por Rafael Nascimento de Souza /Extra
 

Movimentos sociais protestaram contra a derrubada de um memorial – inaugurado na última semana na Favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio – em memória aos 28 mortos em uma operação da Polícia Civil no ano passado. Na tarde desta quarta-feira, agentes da 25ª DP (Engenho Novo) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) usaram picaretas e um veículo blindado para pôr abaixo a estrutura erguida por entidades como o LabJaca e o Instituto de Defesa a Ação Negra. Em nota conjunta, instituições como Associação Juízes para a Democracia (ADJ), Casa Fluminense, Instituto Marielle Franco, Voz das Comunidades, Federação de Favelas do Rio, Observatório Cidade Integrada e Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) criticaram a ação policial e destacaram que receberam “com surpresa” a derrubada. Elas deverão acionar a Polícia Civil na Justiça.

Um ano depois: MP denuncia 2 policiais por mortes de 2 homens no Jacarezinho em operação mais letal do RJ

Veja a derrubada do memorial em homenagem aos 28 mortos em ação policial no Jacarezinho

De acordo com trecho do comunicado, “o memorial foi uma ação concreta para lembrar as 28 vidas perdidas durante a chacina, sejam elas de civis ou policiais, vítimas da política de violência que os governos do estado do Rio vêm aplicando contra a população de favela, em sua maioria composta por pessoas negras”. Ainda de acordo com o documento, “a violência não pode ser o único caminho para o estado se fazer presente nas favelas”.

O advogado de várias das vítimas Joel Luiz Costa, que morou na comunidade, destacou que “não basta banalizar o derramamento de sangue, eles ainda tripudiam da nossa resistência”.

Operação letal: Polícia produziu laudo após fim da investigação para defender agentes sobre mortes no Jacarezinho

Segundo a Federação das Associações de Favelas do Rio (Faferj), “não existe apologia a nada, pois há liberdade de expressão”. Ainda de acordo com a instituição, “os 28 mortos na chacina no Jacarezinho, sequer foram julgados ou condenados. Apenas executados com aval do estado”.

Para justificar a derrubada, a Polícia Civil afirma que o monumento faria apologia ao tráfico de drogas, já que "27 mortos tinham passagens pela polícia e envolvimento comprovado com atividades criminosas, além do fato de que a construção do mesmo não tinha autorização da prefeitura do Rio de Janeiro".

Ainda de acordo com a justificativa da Polícia Civil, o nome do policial civil André Leonardo de Mello Frias, também morto na operação, foi incluído no memorial sem a autorização da família, e isso teria sido mais um motivo para a ação.

Em nota, a assessoria da Polícia Civil reforça que o memorial é ilegal:

"Investigação da 25ª DP comprova que o memorial era ilegal, pois além de não ter autorização da prefeitura, e nem da família do policial morto, também fazia apologia às drogas. Essa apologia é comprovada com a própria frase estampada no memorial, que afirmava que o tráfico local era 'apenas um comércio varejista de drogas', quando é sabido por todos que o Jacarezinho era comandado pela maior facção criminosa do estado e que os 27 criminosos mortos em confronto com a polícia tinham envolvimento comprovado com o tráfico.

O programa Cidade Integrada, que retomou o território para o estado, não admite nenhum tipo de nova construção sem as autorizações necessárias, como é exigido em qualquer área formal da cidade. Além disso, o Cidade Integrada comprova o tamanho da quadrilha do Jacarezinho, pois desde o início do projeto o prejuízo financeiro ao tráfico já é da ordem de R$ 60 milhões".ImageImageImage

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01
Fev22

'Vivi para contar': ‘Mataram meu filho aqui como matam em meu país’ (Congo)

Talis Andrade

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Foi morto pela milícia 

O quiosque na Barra da Tijuca tinha o selo de "contribuinte" da milícia. Era território "protegido".

Fica explicado porque a Polícia, isto é, o governo do Rio de Janeiro, todo dominado, demorou 37 horas para avisar o linchamento para a família do morto Moïse (Mugenyi Kabagambe)ImageImageIvana Lay, mãe do congolês Moise Kabamgabe, que morreu espancado em quiosque na Barra, fala que o filho foi vítima da mesma violência que o fez fugir do Congo Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Ivana Lay, mãe do congolês Moise Kabamgabe, que morreu espancado em quiosque na Barra, fala que o filho foi vítima da mesma violência que o fez fugir do Congo Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
 
Mãe do jovem congolês espancado em quiosque na Barra, onde trabalhava, quer justiça e pede ajuda
 
 

A gente chegou aqui e os brasileiros sempre foram pessoas boas. Mas, hoje, não sei mais. Moïse trabalhou nessa barraca antes da pandemia e durante a pandemia. Conhecia todos lá do local. Eles conheciam o meu filho e tiraram a vida dele. Se houve algum problema, eles não poderiam matá-lo. Moïse conhecia tudo na praia. Quando queriam alguma coisa, eles chamavam: “Angolano, angolano”.

Ajuda no aluguel

Na segunda-feira (dia 24), ela foi cedo para o quiosque com um amigo dele que também trabalha lá. Moïse vinha reclamando com esse amigo da situação. Dizia que eles estavam fazendo sacanagem com ele.

Ele era trabalhador e muito honesto. Ganhava pouco, mas era dele. No final, chegava com parte do dinheiro e me dava para ajudar a pagar o aluguel. E reclamava, dizendo que ganhava menos que os colegas.

Às 7h da terça-feira, o meu filho me ligou e disse: “Oi, mãe, o Moïse?”. Depois, outra chamada perguntando se ele tinha chegado. E eu disse que não. Eu perguntei o que tinha acontecido, e eles disseram que era para eu ter calma. O meu outro filho chora. Em nenhum momento, eu tinha pensado que o meu filho estava morto. Pensava num acidente ou algo parecido. Às 11h, um africano me ligou e disse que o Moïse havia falecido e estava no IML (Instituto Médico-Legal, no Centro do Rio).

Que vergonha! Meu filho que amava o Brasil. Por que eles mataram o meu filho? Moïse tinha todos os amigos brasileiros. Aí vêm os brasileiros e matam o meu filho.

Olha a foto do meu filho, meu bebezinho. Era um menino bom. Era um menino bom. Era um menino bom. Eles quebraram o meu filho. Bateram nas costas, no rosto. Ó, meu Deus. Ele não merecia isso. Eles pegaram uma linha (uma corda), colocaram o meu filho no chão, o puxaram com uma corda. Por quê? Por que ele era pretinho? Negro? Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano.

A gente vem para cá achando que todo mundo vai viver junto. Que é todo mundo igual, mas não. Eu só quero justiça. E peço: por favor, me ajudem. Eu não tenho nada. Não tenho parente nenhum aqui. Eu não sei o que vai acontecer. Não sei aonde vamos parar.

‘Dor terrível’

Queremos processá-los para que isso não aconteça com outra pessoa. Eles não tinham o direito de fazer isso com o meu filho. Espero que esse caso não caia no esquecimento, como tudo cai. Quando meu povo, no Congo, soube, eles fizeram um protesto. Eles gritaram contra isso. A todo tempo recebo mensagens de lá. A todo instante, revivo essa dor terrível que foi a partida do meu filho. Se eu saio lá fora, eu vejo o Moïse. Tudo no Brasil me lembra dele. Ele estava novinho. Havia acabado de fazer 24 anos. Ele só queria viver como todo mundo.

Não podem matar as pessoas assim. Eles quebraram as costas do meu filho, quebraram o pescoço. Eu fugi do Congo para que eles não nos matassem. No entanto, eles mataram o meu filho aqui como matam em meu país. Mataram o meu filho a socos, pontapés. Mataram ele como um bicho.

Eu vi na televisão que, aqui no Brasil, se um cachorro morrer, há várias manifestações. Então, eu quero que todo mundo me ajude com justiça. Eu não sei mais como será a minha vida. Por favor, me ajudem.

28
Dez21

MP investiga se delegado acusado de chefiar quadrilha usou indevidamente equipamento de escuta telefônica da Polícia Civil

Talis Andrade

 

 

Delegado Maurício Demétrio é acusado de tentar armar duas operações falsas, uma delas contra Eduardo Paes

por Vera Araújo e Rafael Nascimento de Souza /Metrópoles

 

A investigação e a análise de três dos 12 telefones celulares apreendidos na casa do delegado da Polícia Civil Maurício Demétrio Afonso Alves, preso desde junho, revelaram que o policial levava uma vida de luxo, não compatível com sua renda. Ainda de acordo com promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), na análise de uma comunicação entre o delegado e o policial civil Adriano Santiago da Rosa, seu braço-direito na Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), ficou demonstrado que ele receava interceptações em seus telefones e os de seus policiais. Segundo a denúncia, Demétrio pediu Santiago a lista de telefones de agentes que trabalhavam com ele.

A Justiça concedeu o pedido de prisão preventiva dos dois policiais feito pelo MPRJ. Demétrio já estava detido por força de um mandado anterior. Santiago foi preso na última quarta-feira em casa, em Copacabana, RJ. 

Aos promotores, Santiago contou acreditar que a listagem seria utilizada pelo delegado para saber se algum dos telefones de seus policiais estava sendo interceptado. O braço-direito de Demétrio disse ainda ao Gaeco que era provável que o chefe dele passasse os números para um “contato em operadora de telefonia ou alguém que trabalhasse no Guardião (equipamento que faz escutas telefônicas em grande quantidade)”.

 

Viagens internacionais

O delegado também chegou a pagar a uma agência de detetives particulares americana para investigar a vida de sua amante, em Miami, nos Estados Unidos. Para manter seu estilo de vida, o delegado usava a máquina pública para investigar empresários, comerciantes e autoridades públicas, segundo o MPRJ.

Os promotores descobriram, com a quebra do sigilo telefônico, que o policial fez com toda a família rotineiras viagens internacionais em classe executiva pagas em espécie. Também foram constatados, durante a investigação, hospedagens em hotéis de luxo, aluguel de mansões na Costa Verde do Rio e de carros de luxo no Brasil e no exterior, além de festas promovidas por ele.

Foi numa dessas viagens para fora do país que Demétrio teria contratado três detetives para vigiar e investigar, por oito dias, uma amante na Flórida. No contrato, encontrado num dos celulares do delegado, consta o pagamento de U$ 9.900 (em valores atuais, cerca de R$ 56 mil) para que a amante fosse monitorada 24 horas por dia. O acordo teria sido firmado com a Salazar Investigations em dezembro de 2019. A mulher teria tido a vida investigada entre os dias 3 e 8 daquele mês.

O documento foi assinado por Demétrio e Eduardo “Eddy” Salazar, dono da empresa. No contrato, o detetive declarou que o valor poderia sofrer acréscimos caso os detetives precisassem prosseguir nas buscas.

 

‘Bolinhos de R$ 30 mil’

O que também chamou a atenção dos promotores foi uma viagem do delegado à capital paulista. Em uma conversa encontrada no celular dele, os investigadores descobriram que Demétrio pagou quase R$ 35 mil entre os dias 10 e 14 de dezembro do ano passado para a ida a São Paulo. A troca de mensagens aconteceu entre o policial e um profissional de uma agência de viagens.

Nos aparelhos periciados, os investigadores encontraram ainda fotos de Demétrio no Condomínio Portobello, em Mangaratiba. Uma recepcionista do local, em mensagens, afirmou que o delegado chegou a pagar as despesas à vista “em bolinhos de R$ 30 mil”.

Ao GLOBO, o advogado Raphael Mattos, que representa Demétrio, “acha que pode haver uma perseguição de cunho pessoal” por parte “de um promotor que ele denunciou no Conselho Nacional do Ministério Público — CNMP”. O promotor citado pelo advogado é Celso Quintella Aleixo, de Petrópolis, contra quem o delegado move uma ação judicial:

— Acho que pode haver (uma perseguição) de cunho pessoal, porque as provas são fraquíssimas e não se sustentam. Pode ser que esse Celso o esteja perseguindo.

Em nota, o promotor Celso Quintella Aleixo afirmou que “ao contrário do alegado pelo advogado, as provas dos processos contra o delegado Maurício Demétrio são numerosas e robustas, sendo esse o motivo de estar preso e sendo processado criminalmente”. Ainda de acordo com o comunicado, o promotor diz que “o advogado, na falta de melhores argumentos para defender seu cliente, usa do velho golpe de tentar desacreditar a atuação dos promotores de justiça, levantando, de forma leviana e irresponsável, acusações de perseguição desprovidas de fundamento”.

Série Pistoleiros: Os sucessores do Escritório do Crime e a guerra sem fim do jogo do bicho

Em relação a representação feita por Demétrio ao CNMP, Aleixo disse que ela “foi arquivada à unanimidade pelo Conselho Nacional do Ministério Público, eis que não identificada qualquer falta funcional”. Por fim, o promotor afirmou que “o delegado já era investigado mesmo antes dela ser protocolada”.

 

‘Vagabundo’

Nesta segunda-feira, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), usou as redes sociais para comentar a denúncia contra Demétrio. O delegado é acusado de tentar armar duas operações falsas, uma delas contra Paes, então candidato a prefeito, com a intenção de influenciar no resultado das eleições.

No Instagram, Paes chamou o delegado de “vagabundo travestido de ‘Estado’ e defensor da lei”. O delegado é acusado de criar dossiês com dados sigilosos. Os desdobramentos das investigações sobre a quadrilha chefiada pelo ex-titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), preso em junho, foram exibidos no domingo pelo Fantástico, da TV Globo.

A reportagem mostrou que, em 23 de novembro de 2020, às vésperas do segundo turno, Demétrio, por intermédio do advogado Thalles Wildhagen Camargo, fez chegar ao conhecimento do delegado da Polícia Federal Victor Cesar Carvalho dos Santos a notícia de que, no dia seguinte, um portador entregaria a Paes dinheiro de origem desconhecida. Nas mensagens, Demétrio mandou uma foto do suposto envelope que seria entregue, com notas de R$ 50 e R$ 100. Os promotores descobriram que foi o próprio delegado que tirou a foto de um dos seus 12 celulares. Em depoimento, Santos diz que desistiu da operação ao saber quem era a fonte. Procurado, Paes preferiu nada comentar.

Em junho deste ano, Demétrio foi alvo da operação Carta de Corso, realizada pelo Gaeco. O policial foi acusado de comandar um esquema que exigia propina de lojistas da Rua Teresa, em Petrópolis, para permitir a venda de roupas falsificadas. Na ocasião, foram apreendidos na casa do delegado R$ 240 mil em dinheiro, celulares e três carros de luxo blindados. Maurício Demétrio responde pelos crimes de organização criminosa, obstrução de Justiça, concussão — que é a cobrança de propina — lavagem de dinheiro e violação do sigilo funcional.

A Polícia Civil informou que “A Corregedoria da Polícia Civil já demitiu 19 servidores desde o início desta gestão, número superior ao de todas as demissões de 2019 e 2020 somadas. Quanto ao delegado Maurício Demétrio, está afastado de suas funções por ordem judicial, recebendo parte do salário, cumprindo a legislação em vigor”.

Ainda segundo a nota, “Sobre prazos do Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) contra o delegado Maurício Demétrio, a Corregedoria esclarece que todos os processos estão sendo observados e cumpridos dentro do rito e prazos legais. Vale destacar que os fatos investigados pelo MP ocorreram antes da gestão atual da Polícia Civil, não cabendo à Instituição se manifestar sobre suposições feitas ‘em off’”.

A Polícia Civil termina informando que “Todas as consultas realizadas por policiais são registradas no sistema da Polícia Civil. Ou seja, exatamente graças a este absoluto controle das consultas é que houve base para a presente investigação”.

24
Nov21

Laudos revelam moradores foram mortos por tiros de fuzil na cabeça e no tórax

Talis Andrade

      Rio de Janeiro, zona de guerra, e pobreza de um povo vítima da peste, da pobreza, da fome e morte matada         

 

por Rafael Nascimento de Souza /Extra            

A Polícia Civil informou na manhã desta quarta-feira que a Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí (DHNSGI) recebeu os laudos de necrópsia dos nove mortos na operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) no Complexo do Salgueiro, no último domingo. Segundo a instituição, “os resultados dos laudos apontam que as mortes foram provocadas por projéteis de arma de fogo (PAFs), sem indícios de facadas ou outro tipo de arma com ação cortante ou perfurocortante”, destacou o comunicado.

Crimes anterioresComplexo do Salgueiro foi palco de outras mortes em série durante operações policiais em São Gonçalo

Ainda de acordo com a Civil, projeteis foram encontrados nos corpos de três das vítimas. Os objetos foram arrecadados e passarão por confronto balístico. A Polícia Civil informou ainda que “as armas dos policiais militares que participaram da ação e a lista dos nomes dos agentes devem ser entregues ainda nesta quarta-feira".

 

Moradores do Salgueiro denunciam que PMs invadiram casas e fizeram churrasco

Moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, denunciam que durante a operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) na localidade das Palmeiras, no último fim de semana, policiais militares invadiram casas, agrediram moradores e até usaram um espaço de festas como bunker – entre sábado e domingo – para fazer churrasco e consumir bebidas alcoólicas. A operação terminou com nove suspeitos mortos e ficou marcada pela cena de moradores retirando corpos de um mangue da comunidade. Após as denúncias das supostas invasões, moradores temem possíveis represálias dos agentes que teriam entrado no local e permanecido lá por quase 24 horas.

Morador denuncia ação no Salgueiro'Resgatamos os corpos e não achamos nenhuma arma. Fizeram uma chacina'

A informação das invasões das casas foi divulgada nesta quarta-feira pela “Folha de São Paulo” e confirmada pelo O GLOBO. A associação de moradores do Complexo do Salgueiro confirmou o suposto fato e afirmou que a “invasão dos PMs foi uma arbitrariedade e um abuso de autoridade". Jaqueline da Silva, presidente da associação de moradores do Salgueiro, disse que o local supostamente arrombado pelos militares é um espaço de festas da comunidade. Ela critica a atuação dos PMs.

Operação no Salgueiro: Polícia Civil quer saber quem são os PMs que estavam na ação que matou ao menos nove pessoas

– Os moradores contaram que eles passaram o dia lá. Ali é um espaço de festas particular. As pessoas alugam para festas. Eles entraram, beberam e comeram o que tinha lá dentro. Inclusive, teriam feito churrasco e consumiram a bebida alcoólica do local – conta a presidente da associação, que destaca:

– Com medo o dono não registrou o boletim de ocorrência. Infelizmente, aquilo foi um abuso de autoridade e não pode ficar assim.

Procurada, a Polícia Civil afirmou que nenhum morador registrou boletim de ocorrência e que “se de o fato aconteceu, caberá a Corregedoria da PM investigá-lo”. A Civil destacou que esse é um crime militar. A Polícia Militar informou que “até o momento não recebeu nenhum registro formal sobre o fato”. É um estado sem lei, zona de guerra, e massacres de um povo miserável. 

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22
Nov21

Falta resgatar todos os corpos da chacina de São Gonçalo

Talis Andrade

Corpos foram retirados de mangue pelos próprios moradores

Há feridos no mangue e os bombeiros se recusam a entrar', diz presidente de associação

 

por Rafael Nascimento de Souza /Jornal Extra

Pouco depois das 21h deste domingo, moradores da localidade da Palmeira, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, começaram a localizar os corpos que estavam num mangue da região. Quem vive na localidade, pobre e com barracos humildes, afirma que as vítimas foram executadas após a Polícia Militar entrar na comunidade — horas após a morte do sargento da PM Leandro Rumbelsperger da Silva, de 40 anos, do 7º BPM (São Gonçalo). Na manhã desta segunda-feira, quem vive no bairro ainda procura por outros corpos. Familiares velavam as vítimas à espera da perícia da Polícia Civil. Até as 9h30, oito homens haviam sido encontrados. Populares dizerem que as vítimas foram torturadas antes de serem mortas.

Só às 11h12m, quase 15 horas após as mortes, agentes da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSGI) da PM chegaram ao local para fazer a perícia. A Corregedoria Interna da PM e um promotor do Ministério Público do Rio acompanham o procedimento.

Um leiturista de 45 anos, e que mora há 25 anos na favela, diz que “a morte de um policial militar gerou essa operação mal sucedida”.

— Vieram de qualquer maneira e o resultado é esse. Eles deram tiro para todos os lados e chefes de família ficaram em risco. E o resultado é esse: nove corpos e muitos outros que podem estar no mangue — diz o homem que reclama da falta de estrutura básica da região. — Não existe segurança pública no Rio. Eles tratam a gente com a morte. Aqui não tem nada. O estado não dá condições para a gente sobreviver. Nós somos manipulados pelo governo e eles fazem isso com a gente.

Quem vive no bairro diz que “tinham pais de família” entre as vítimas. Mas eles relatam que criminosos também estão entre os mortos. No entanto, moradores destacam que “os bandidos não precisam ser mortos”.

— Tinham pessoas envolvidas com o crime? Tinham. Mas a grande maioria não tem nada com o fato. Muitas pessoas estão desfiguradas. Se eles tivessem a intenção de prender, não teriam feito isso. Quem correu se salvou. Essas mortes aconteceram de ontem para hoje. (Os policiais militares) passaram de sábado para domingo e ontem durante o dia eles saíram e voltaram. Se fosse troca de tiros, os jovens não estariam assim. Eles fizeram uma chacina. Resgatamos os corpos e não achamos nenhuma arma. Morreu um PM em um dia e no outro eles fizeram uma chacina — diz um morador.

Outro morador relata a sensação de insegurança de quem mora na região.

— É uma sensação horrorosa. Infelizmente, a polícia só entra para matar. Eles não podem chegar aqui e fazer essa chacina — diz um mototaxista de 43 anos que mora na região.

Até as 9h50, os corpos estavam no local cobertos por lençóis. A todo momento, familiares e amigos chegam e se desesperam com a situação dos corpos.

'Há feridos no mangue e os bombeiros se recusam a entrar', diz presidente de associação

A associação de moradores do Salgueiro, por nota, denunciou que o Corpo de Bombeiros tem se recusado, desde este domingo, dia 21, a retirar vítimas que estão dentro do terreno pantanoso à margem da baía. A presidência disse que a ordem da corporação é de não entrar na favela.

“Desde ontem estamos tentando resgatar os moradores que estão feridos dentro da vegetação e estão machucados. Recebemos a informação que eles (o Corpo de Bombeiros) estão proibidos de entrar. Temos pessoas que precisam de socorro. Além disso, precisamos que eles retirem os corpos. Esse é um desrespeito para as famílias. Ninguém aceita o erro, mas aqui tem moradores que não tem nada a ver. O Corpo de Bombeiros não vem porque alegam tiroteio. Onde tem tiroteio aqui? A gente só quer o respeito. Tem gente que está viva lá dentro. Mais tarde vamos apresentar essas arbitrariedades para os órgãos competentes. Vamos apresentar pra OAB esse desrespeito e o sofrimento do pai, da mãe, de filho que morram aqui”, diz em nota a associação.

As viaturas do Corpo de Bombeiros estão no local, segundo a assessoria de imprensa da corporação, que informou ainda que o "serviço de recolhimento de cadáveres atua após a perícia da polícia e liberação da guia de recolhimento. Em nota, o Corpo de Bombeiros explicou que "o acionamento do serviço de remoção de cadáveres da Defesa Civil é feito, exclusivamente, pela Polícia Civil (delegacia da área), que emite um documento chamado GRC (Guia de Recolhimento de Cadáver). A retirada de um corpo pela equipe de militares depende da emissão da documentação citada, que, podemos dizer, funciona como uma autorização legal para o recolhimento. Inclusive, a GRC é imprescindível para a entrada no IML".

"Meu pai está lá dentro", afirma uma manicure

Uma jovem de 21 anos, manicure e que mora no bairro há cinco anos, diz que o pai, um comerciante de 43 anos, está entre os desaparecidos e feridos dentro do manguezal. Ela conta que falou com o pai por telefone. No entanto, o aparelho do comerciante ficou sem sinal.

— Meu pai é trabalhador e moramos há mais de cinco aqui. Ele estava voltando do trabalho por volta de 15h desse domingo. Na hora do tiroteio, meu pai correu para dentro do mangue. Ele diz que ficou no meio do tiroteio. Só estava tentando vir para casa. Disse que outras pessoas estavam dentro do mangue. Estou com medo e creio que ele esteja vivo. Desde ontem, ele manda mensagem. Mas agora de manhã ele perdeu o sinal. Acreditamos que muitas pessoas estejam mortas — lamentou a jovem.

"Meu cunhado foi tirado de dentro de casa e executado", relata moradora

Uma moradora de 27 anos diz que seu cunhado, David Wilson da Silva Oliveira Antunes, de 23 anos, pai de duas meninas, de 4 e 5 anos, estava dentro de casa, quando foi retirado e assassinado.

— O meu cunhado é trabalhador. Eles tiraram ele de dentro de casa, mataram ele dentro do mato — acusa a mulher.

Corpos foram recolhidos por moradores da comunidade
Corpos foram recolhidos por moradores da comunidade Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

 

Até as 9h50, os corpos estavam no local cobertos por lençóis. A todo momento, familiares e amigos chegam e se desesperam com a situação dos corpos.

Em entrevista ao "Bom Dia Rio", da TV Globo, na manhã desta segunda-feira, o porta-voz da Polícia Militar, major Ivan Blaz, disse que havia uma ocupação do 7º BPM na região.

— Nós tínhamos uma ocupação do 7º BPM motivada para estabilizar a região após denúncias de bandidos estarem fazendo o uso de escolas, inclusive, para o tráfico. Após a morte do sargento, o Bope foi para a região. Houve vários confrontos durante o final de semana na área do mangue. Tivemos a apreensão de vários materiais usados em combate. Deduzimos que houve inúmeros feridos entre policiais e traficantes, [justifica o policial. Ninguém acredita]

A Polícia Militar informou que, após o conhecimento de corpos localizados em área de mangue na região do Complexo do Salgueiro, a corporação dará início a uma ação no local e permanecerá na região para garantir o trabalho de perícia da Polícia Civil.

 
Moradores recolheram corpos numa área de mangue, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo
Moradores recolheram corpos numa área de mangue, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

 

Familiares de mortos denunciam ação truculenta

A desempregada Milena Menezes Damasceno, de 35 anos, é irmã do ajudante de pedreiro Rafael Menezes Alves, 26 anos,conhecido como Bob. Segundo a mulher, o irmão está entre os mortos. Desde as primeiras horas do dia, ela vela o corpo do irmão caçula de cinco filhos:

— Meu irmão era nascido e criado aqui. Ele era ajudante de pedreiro e estava na rua quando tudo aconteceu. Ele estava bebendo com os amigos quando os policiais arrastaram ele e fizeram isso.

A funcionária pública Cleonice da Silva Araujo, de 56, veio de Maricá, para acompanhar a retirada do corpo do irmão Hélio da Silva Araujo, de 53. Ela afirma que o irmão foi morto.

— Aqui ninguém tinha nada contra ele. Se fosse um tiro eu até aceitava. Mas eles degolaram o meu irmão. Infelizmente, a justiça funciona assim. Ele morava aqui há 10 anos. Enquanto continuarem assim, muitas vítimas serão mortas desse jeito — denunciou.

Moradores fazem placa pedindo “paz” (pedido de trégua na guerra do fim do mundo)

No começo da manhã, homens e mulheres da localidade escreveram em um lençol branco mensagens pedindo paz. “Os moradores pedem paz. Pedimos socorro por favor”, dizia a mensagem. A todo tempo, familiares dos mortos chegavam ao local. Muito deles passavam mal e chegavam a desmaiar.

Por volta das 10h20, agentes da DHSGI chegaram à entrada do Complexo do Salgueiro, na BR-101. Os investigadores esperam o terreno ser estabilizado. Às 11h12, os investigadores conseguiram entrar no local.

Idosa baleada

Uma idosa foi baleada no fim da manhã deste domingo no Complexo do Salgueiro. Em nota, a Polícia Militar informou que o 7º BPM foi verificar uma ocorrência envolvendo a entrada de uma pessoa ferida no Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT), em São Gonçalo. O órgão afirmou que a situação foi constatada na unidade de saúde e que não havia informações sobre as circunstâncias da ocorrência, que foi encaminhada para a 72ª DP (São Gonçalo).

[Falta coragem para atuar nos territórios das milícias

A polícia é implacável contra os negros pobres favelados. Contra os traficantes civis. E não tem nenhuma coragem para atuar contra os traficantes fardados, as milícias. Nem na intervenção militar do general Braga Neto, no governo de Temer, o Exército jamais invadiu território das milícias. Muito menos, a polícia. Que seria cortar na própria carne. Que a polícia civil, a polícia militar, bombeiros, ex-soldados do Exército são mercenários milicianos. É uma guerra sem fim]

 

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