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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

10
Mai20

Brassanini (do FBI) recebe tour VIP (de Moro) em Foz do Iguaçu

Talis Andrade

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V- No Ministério da Justiça, Sergio Moro abriu as portas para o FBI

por Natalia Viana

Agência Pública

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O Centro Integrado de Operações na Fronteira é o projeto dos sonhos da embaixada americana, que, há pelo menos dez anos, pressiona o governo brasileiro para investigar suspeitas de atividades terroristas na região – atitude que enfrentava resistência dos governos petistas, conforme revelaram documentos diplomáticos publicados pelo WikiLeaks. Em janeiro de 2008, por exemplo, o embaixador reclamava que o governo de Lula “se recusa a classificar, de forma oficial ou até retórica, grupos considerados terroristas pelos Estados Unidos, como o [palestino] Hamas, [o libanês] Hezbollah e [a guerrilha colombiana] Farc”, que estariam na região da Tríplice Fronteira.

O centro foi finalmente inaugurado em 16 de dezembro no Parque Tecnológico da Usina de Itaipu, em Foz do Iguaçu. Um mês antes, Brassanini fez um tour especial às instalações, guiado por ninguém menos que Sergio Moro.

Em 6 de novembro de 2019, o ex-ministro levou uma pequena comitiva americana para apresentar o projeto. Estavam o cônsul americano, Adam Shub, e membros do FBI – entre eles David Brassanini, conforme mostra foto publicada pelo site G1. “Os Estados Unidos têm sido um grande parceiro do Brasil nessa atividade, ou em outras também, e nós estamos aproveitando o modelo que já foi construído. Nós pedimos ajuda em treinamento e equipamentos”, disse Moro.

O centro vai manejar bancos de dados unificados a partir da atuação conjunta de membros da PF, Polícia Rodoviária Federal, Agência Nacional de Inteligência (Abin), Ministério da Defesa, Unidade de Inteligência Financeira (UIF, antigo Coaf), Receita Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Científica para combater o crime organizado na Tríplice Fronteira, em Foz do Iguaçu. Estarão também presentes “adidos [policiais] de outros países”, segundo Moro afirmou ao jornal local Tarobá News.

De acordo com o ministério, o centro vai atuar principalmente no combate ao tráfico de armas e drogas. As equipes vão monitorar também movimentações financeiras ilegais.

No dia seguinte à visita, Moro anunciou a assinatura de um acordo com o Paraguai, o Uruguai e a Argentina que permite que policiais possam cruzar a fronteira para atuar nos países vizinhos durante uma perseguição. Sem o acordo, a atuação de forças policiais estrangeiras em outro país é ilegal, uma vez que não têm jurisdição em solo estrangeiro.

“É como se houvesse uma força-tarefa permanente, com o objetivo de prevenir e reprimir crime de fronteira (contrabando, tráfico de drogas e armas, financiamento ao terrorismo e proteção de estruturas críticas para o país). Por isso, a localização estratégica em Itaipu”, afirmou Moro, no dia da inauguração, um mês depois.

Na mesma semana, o FBI criou uma equipe especializada em temas como terrorismo e tráfico de drogas para atuar no Paraguai, segundo a agência Associated Press.

 

 

09
Mai20

“Fusion Center” na Tríplice Fronteira

Talis Andrade

 

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Jason Smith no I Encontro dos Profissionais da Segurança da CSB em 29 de março de 2017

 

IV - No Ministério da Justiça, Sergio Moro abriu as portas para o FBI

por Natalia Viana

Agência Pública

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O “Fusion Center” – ou Centro Integrado de Operações na Fronteira (Ciof) – é um escritório de inteligência na Tríplice Fronteira de Foz do Iguaçu que pretende reunir agentes de 16 instituições e unificar bancos de dados. O modelo é inspirado no centro comandado pela DEA, a agência antidrogas americana, na fronteira com o México, que Moro visitou em junho do ano passado – no auge da polêmica da Vaza Jato. Na época, especulou-se que a visita de Moro teria a ver com a publicação dos vazamentos no dia 9 de junho pelo The Intercept, uma vez que a agenda não foi divulgada à imprensa.

A agenda oficial de Moro começou no dia 24 de junho de 2019. Ele estava acompanhado por Maurício Valeixo, pelo diretor executivo da Polícia Rodoviária Federal, José Lopes Hott Júnior, e pelo assessor especial do ex-ministro, o agente da PF Marcos Koren.

O roteiro incluiu, no primeiro dia, uma visita ao Centro de Inteligência de El Paso, liderado pela DEA, que conta com uma dúzia de agentes do FBI para monitorar a fronteira americana com o México. Depois da visita, Moro anunciou que destacaria permanentemente um delegado da PF para operar no centro de inteligência norte-americano, ampliando a troca de informações.

A seguir, no dia 25 de junho, fez uma visita às Forças-Tarefa Conjuntas de Combate ao Terrorismo do FBI. Mas teve de reduzir o tempo de viagem para retornar ao Brasil. A visita estava sendo negociada desde maio com Brassanini, segundo documentos entregues em resposta a um pedido de informações do deputado federal Márcio Jerry, do PCdoB do Maranhão, ao qual a Pública teve acesso.

Desde o dia 2 de maio – antes portanto do vazamento dos diálogos pelo The Intercept –, Brassanini discutia reservas de hotéis para os brasileiros. Inicialmente, a visita ocorreria no começo do mês. O pedido oficial para a viagem foi feito por Moro três dias antes da publicação do vazamento, no dia 6 de junho.

Segundo o documento do ministério, a agenda foi conduzida pelo adido policial Jason Smith, o mesmo que estaria em agosto em reuniões na esplanada.

Em Setembro, Moro voltou a falar do Fusion Center com uma delegação americana no Palácio da justiça em Brasília, dessa vez com o Diretor-Geral Adjunto do Departamento de Segurança Interna dos EUA, David Peter Pekoske. (Continua)

 

 

07
Mai20

Valeixo assinou acordo que dá ao FBI acesso a dados biométricos de “suspeitos”

Talis Andrade

 

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III - No Ministério da Justiça, Sergio Moro abriu as portas para o FBI

por Natalia Viana

Agência Pública

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Enquanto em 2018, durante o governo de Michel Temer, Brassanini fez apenas uma “visita de cortesia” a Rogério Galloro, então secretário nacional de Justiça Nacional, foram pelo menos quatro agendas oficiais em 2019.

Além delas, a reportagem localizou mais cinco reuniões de membros do Ministério da Justiça com adidos da embaixada americana, incluindo um “coquetel” oferecido pelo FBI durante a reunião de policiais de 12 países para discutir criptografia, evento chamado “Going Dark” e promovido por Moro em fevereiro.

A primeira visita ocorreu logo no começo do governo. Em 17 de janeiro de 2019, o ministro Sergio Moro recebeu uma delegação de autoridades norte-americanas para discutir maneiras de aprofundar a cooperação jurídica do Brasil com os Estados Unidos, segundo o site do Ministério da Justiça. Moro falou sobre seu pacote anticrime, que ainda não havia sido apresentado ao Congresso (uma versão mais branda acabou sendo aprovada em dezembro). Além de Brassanini, estavam na reunião assessores de políticas do Tesouro dos EUA, o encarregado de negócios Doug Koneff, o diretor econômico Frank DeParis e a conselheira política Kristin Kane, todos funcionários da embaixada.

Na semana seguinte, no dia 24, Brassanini reuniu-se durante toda a manhã com Jorge Barbosa Pontes, da Diretoria de Ensino e Estatística do Ministério da Justiça, assim como o General Theophilo, então secretário da Secretaria Nacional de Segurança Pública. Segundo a agenda oficial do diretor, a pauta da reunião foi uma parceria para capacitação na Academia Nacional de Segurança Pública do ministério.

No dia anterior quem havia visitado a Diretoria de Ensino e Estatística foi o adido policial americano Jason Smith, acompanhado de dois outros representantes da embaixada.

Em 12 de agosto, Brassanini voltou a se reunir com Jorge Pontes e com outros secretários, entre eles o de operações integradas do Ministério da Justiça, Rosalvo Ferreira; o coordenador-geral de combate ao crime organizado, Rodrigo de Sousa Alves, o secretário adjunto José Washington Luiz Santos, o diretor de inteligência da Secretaria de Operações Integradas, Marcos Aurélio Pereira de Moura, e o diretor de inteligência, Fábio Galvão da Silva Rêgo.

Estavam presentes nessas reuniões o adido de segurança regional da embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Jason Smith, e uma delegação de agentes especiais do Serviço de Segurança Diplomática do Departamento de Estado. As reuniões giraram em torno de dois projetos de parceria: “Discussões sobre o projeto de biometria e criação do fusion center”, segundo registro oficial.

As informações biométricas estão no centro de um acordo assinado em 18 de março de 2019, durante visita oficial de Moro e do ex-diretor-geral da PF Maurício Valeixo a Washington, na qual acompanharam a primeira visita oficial do presidente Jair Bolsonaro. Moro teve reunião com a então secretária de Segurança Interna Kirstjen Nielsen e com o diretor do FBI, Christopher A. Wray. Ele almoçou com membros do FBI e da PF na churrascaria The Capital Grille, segundo a Folha de S.Paulo, de acordo com a agenda oficial, o almoço foi oferecido pelo diretor adjunto do FBI, Charles Spencer.

O acordo assinado entre Valeixo e Christopher A. Wray, obtido pela Pública via LAI, visa à troca de informações sobre grupos criminosos e terroristas a partir do compartilhamento de impressões digitais de cidadãos dos dois países para fins de investigações criminais.

Qualquer uma das polícias pode pedir impressões digitais e outros dados identificadores, como nome, número de seguro social, número de CPF e de identidade, local e data de nascimento em casos que envolvem “indivíduo sobre o qual exista suspeita razoável de que seja terrorista” ou “indivíduos sobre os quais existe a suspeita de terem cometido crimes graves ou atividades criminosas transnacionais”. Crimes graves, segundo o acordo, são todos aqueles cuja pena seja superior a um ano de prisão.

As impressões digitais serão inseridas pelo FBI em bases de dados nacionais americanas, às quais outras agências do governo federal dos EUA e governos estaduais têm acesso, segundo o documento.

Em outubro do ano passado, Bolsonaro assinou um decreto estabelecendo uma base de dados única, o Cadastro Base do Cidadão, que vai interligar diferentes bases de dados sobre os cidadãos brasileiros, incluindo números de registros e documentos, dados biográficos e biométricos, como “palma da mão, as digitais dos dedos, a retina ou a íris dos olhos, o formato da face, a voz e a maneira de andar”. O decreto surge ao mesmo tempo em que avança a coleta de dados biométricos da população, como a biometria para as eleições, por exemplo, que alcançou 120 milhões de eleitores este ano.

“Dados biométricos, de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados, são dados sensíveis. O compartilhamento desses para formar esse Cadastro Base do Cidadão permite que mais dados, sensíveis ou não, sejam utilizados, de maneira a extrapolar os fins para que foram coletados”, diz Joana Varon, diretora da organização Coding Rights, que defende a privacidade de dados.

Joana afirma que o acordo assinado por Valeixo pode levar a abusos, já que a definição do que seria um “suspeito” é bastante ampla. “Acordos de cooperação policial, que envolvem troca de dados sensíveis, como os dados biométricos, precisam ser mais específicos e delimitados para garantir que essa troca de informação seja realmente necessária e proporcional aos fins que se destinam, ainda mais no momento político em que vivemos.”

Segundo ela, o tratado pode ter mais peso num contexto de ameaça institucional à PF. “Esses limites são ainda mais importantes se considerarmos que o governo Bolsonaro conduz uma política de total subserviência ao governo norte-americano, bem como se levarmos em conta que vivemos momentos de crise democrática e de ameaças de interferências políticas na Polícia Federal”, conclui.

Na mesma ocasião, Maurício Valeixo também assinou um acordo com o Chefe de Alfândega e proteção de Fronteira dos EUA, Kevin K. McAleenan, para permitir que um delegado da PF brasileira fique lotado no Centro Nacional de Identificação de Ameaças, e, ao mesmo tempo, que um agente do Departamento de Segurança Interna dos EUA fique lotado junto à PF no Brasil, para coordenar ações de segurança de fronteiras.

Leia aqui, na íntegra, o Acordo de Cooperação Interinstitucional entre a Polícia Federal do Brasil e a Agência Federal de Investigações dos Estados Unidos. 

Leia aqui, na íntegra, o Termo de Cooperação Interinstitucional entre o Departamento de Segurança Interna dos Estados e a Polícia Federal do Brasil Para facilitar a troca de Oficiais de Ligação. 

Pergunta este Correspondente: Esses acordos e essas cooperações assinadas por Maurício Valeixo tiveram a aprovação doutros poderes da República, inclusive do Itamaraty (Ministério do Esterior) e das Forças Armadas do Brasil (Ministério da Defesa)? [Continua]

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06
Mai20

A geopolítica para entender o perigo

Talis Andrade

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IV - Porque Moro é mais perigoso até do que Bolsonaro

por Carlos Tautz

Córtex Político

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Moro é de outra qualidade. E para entender em toda a sua extensão o perigo que ele representa para o Brasil é necessário partir da chave conceitual da geopolítica, disciplina que, em resumo, orienta o estudo dos Estados assentados em largas  porções de territórios – como no caso brasileiro.

Os comprovados vínculos de reiteirada submissão, seus e de seus comandados na LJ, ao Departamento de Justiça, órgão subordinado à Casa Branca e que, nos EUA, tem funções semelhantes às do Ministério Público Federal no Brasil, colocam sobre Moro enorme desconfiança. Ele aparenta ser uma espécie de Cavalo de Tróia dos interesses estadunidenses. O grande problema é que esse Cavalo de Tróia tem reais chances de chegar à Presidência da República no Brasil, seja em 2022 ou depois, porque o ex-juiz tem pouca idade (47 anos), o que lhe permite disputar várias eleições.

Eleger Moro teria importância geopolítica sem igual para os EUA, que sempre se sentiram em alguma medida ameaçados pela simples existência na América do Sul (o primeiro círculo da sua hegemonia global) de um País como o Brasil: extenso e unificado territorialmente, com uma população de centenas de milhões de habitantes que falam a mesma língua, possuem moeda única e que nunca enfrentaram separatismos nacionais que efetivamente ameaçassem a sua unidade territorial. Tudo reunido em um País que possui em enorme escala elementos da natureza (água doce, diversidade biológica, insolação, petróleo, minerais etc) indispensáveis à reprodução do capital em forma acelerada e, a rigor, indispensável até à reprodução da própria espécie humana.

Em outra palavras. Mais do que ter apoiar um governo títere, seria muito mais estruturante para os EUA escolher um Presidente do Brasil que compartilha de seus valores e tem a capacidade de articular a seu favor amplos setores da população brasileira, de fração majoritária da burguesia que se hospeda por aqui, do ecossistema de comunicação historicamente anti-brasileiro e de Forças Armadas cujas elites há décadas se associam de forma subserviente à lógica global de Washington.

Nesse ambiente, tudo passa a ser possível. Inclusive, fracionar o território Brasileiro ou, pelo menos, ter uma presença política e militar institucionais muito mais intensa e extensa dentro desse território (como um enclave a laGuantánamo). Que  ninguém se espante, mas os exemplos da Coréia e do Iraque mostram que esta se  coloca para os EUA como opção real.

E, para o Brasil, como enorme risco à integridade de seu território e à soberania nacional. (Continua) 

17
Mar20

Dallagnol burlando a lei

Talis Andrade

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IV - Vazajato apresenta a prova final da corrupção da Lava Jato

por Luis Nassif

 

Há inúmeras passagens em que Deltan Dallagnol omite dados das autoridades brasileiras e da imprensa, para burlar a lei. Apesar dos alertas sobre as ilegalidades, especialmente por Vladimir Aras – que aparentava ser o mais centrado dos procuradores da Lava Jato – em nenhum momento se vê um recuo de Dallagnol.

DRCI (departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional) é o órgão do Ministério da Justiça incumbido da formalização dos acordos de cooperação. Quando o diretor fica sabendo da visita dos americanos e solicita informações, o que faz a Lava Jato?

“No mesmo email, enviado para o então chefe do DRCI, eles decidem amenizar o conteúdo da visita e dizer que ela se limita a “reuniões de trabalho”, como “apresentação de linhas investigativas adotadas pelo MPF e pela PF e pelos norte-americanos no caso Lava Jato”, e não “diligências de investigação no Brasil, o que seria irregular”.

Documentos oficiais do Itamaraty obtidos pelo The Intercept contradizem a versão defendida por Dallagnol na resposta ao Ministério da Justiça. Segundo esses documentos o DOJ pediu vistos para pelo menos dois de seus procuradores – Derek Ettinger e Lorinda Laryea – detalhando que eles planejavam viajar a Curitiba “para reuniões com autoridades brasileiras a respeito da investigação da Petrobras” e com advogados dos delatores da Lava Jato. “O objetivo das reuniões é levantar evidências adicionais sobre o caso e conversar com os advogados sobre a cooperação de seus clientes com a investigação em curso nos EUA”.

Ou seja, o Ministério da Justiça queria informações sobre a vista dos americanos. O Ministério das Relações Exteriores tinha em detalhes. E Cardozo se contentou com as não-explicações dadas pela Lava  Jato. E não era pouca coisa. O DoJ mandou o estado maior das investigações ao Brasil, além do chefe Patrick Stones.

Além dele, estavam presentes dois procuradores-chave nos casos da Petrobras e Odebrecht, Christopher Cestaro e Lorinda Laryea. Ambos continuam atuando na divisão de FCPA do DOJ. Em 2017, Cestaro foi nomeado chefe-assistente da divisão e, em julho do ano passado, tornou-se o chefe de FCPA, comandando todas as investigações de corrupção internacional contra empresas americanas e estrangeiras.

Do lado do FBI, George “Ren” McEachern liderou até dezembro de 2017 a Unidade de Corrupção Internacional do FBI em Washington, com mais de 40 agentes, supervisionando todas as investigações de corrupção ligadas à Lava Jato. A agente Leslie Backschies, que também esteve na comitiva, era supervisora da Divisão de Operações Internacionais do FBI no continente e acompanhou de perto todas as investigações no Brasil. Ela atualmente ocupa o antigo cargo de “Ren” e supervisiona os três esquadrões do FBI dedicados a investigar corrupção pelo mundo afora.

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05
Ago19

COLONIALISMO E TRAIÇÃO Lava Jato entrega às empreiteiras dos EUA as bilionárias obras de infra-estrutura do Brasil

Talis Andrade

A proposta abre as portas do Brasil para empresas como a Halliburton e suas subsidiárias, consideradas as mais corruptas do planeta

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por Evilázio Gonzaga

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Os governos do Brasil e dos Estados Unidos assinaram dia 01 de agosto de 2019 um memorando, para entregar bilionárias obras de infraestrutura do país a construtoras estadunidenses (https://oglobo.globo.com/economia/eua-brasil-assinam-parceria-para-investimentos-em-infraestrutura-no-pais-1-23847825).

O acordo foi possível porque a Lava Jato destruiu as empreiteiras brasileiras, que chegaram a ser as mais avançadas e competitivas do mundo, o que é comprovado pelas frequentes vitórias em concorrências internacionais.

A proposta abre as portas do Brasil para empresas como a Halliburton e suas subsidiárias, consideradas as mais corruptas do planeta.

 

UM PAÍS DERROTADO EM UMA GUERRA

Os sintomas de que o Brasil foi derrotado em uma guerra duríssima, invisível para a maioria dos brasileiros, são cada vez mais evidentes.

O mais recente sinal é a abertura do mercado brasileiro de infraestrutura para empresas dos EUA.

O fato guarda impressionantes paralelismos com episódios que ocorreram no Iraque, após a Segunda Guerra do Golfo, quando o país foi atacado, com base na mentira, propagada pelo governo Bush filho, de que aquele país estaria desenvolvendo armas de destruição em massa.

Logo que as forças iraquianas – combalidas por mais de uma década de bloqueio econômico – foram derrotadas, começaram os negócios.

Firmas dos Estados Unidos assumiram o controle sobre as ricas jazidas de petróleo do país, a 5ª maior do planeta, e passaram a ser o único fornecedor de praticamente todos os produtos consumidos pelos iraquianos. Da comida ao reequipamento das novas forças armadas do Iraque, tudo vem diretamente dos Estados Unidos, ou passa por intermediários estadunidenses.

Um dos melhores negócios para as empresas dos EUA é a reconstrução da infraestrutura do país, destruída pelas guerras.

Uma das principais beneficiadas, mas não a única, é a Halliburton – que foi administrada pelo vice-presidente americano, Dick Cheney, entre 1995 e 2000, quando ele se afastou formalmente para assumir a candidatura de vice-presidente na chapa de George W. Bush.

A Halliburton entrou no Iraque oficialmente para “apagar incêndios em poços de petróleo”, através de um contrato “de emergência” sem licitação.

Porém, segundo a BBC, em matéria de 07 de maio de 2003, um militar estadunidense confessou a parlamentares do seu país, que  cláusulas secretas do contrato incluíam também “operação e distribuição de produtos”, o que significa extração e distribuição de petróleo.

A investigação de congressistas e senadores dos EUA descobriu também, que a empresa anteriormente dirigida pelo vice-presidente dos Estados Unidos  havia burlado a legislação do país, assim como as boas práticas empresariais, ao servir como funil, para levar outras firmas para atuar no Iraque, sem o inconveniente de uma licitação.

O processo, que inclui as mentiras espalhadas para viabilizar o conflito, representa uma série de crimes graves, porém muito bem remunerados.

Até 2003, os contratos previam pagamentos para a Halliburton de US$ 7 bilhões, relativos a apenas dois anos de contrato.

Governos de outros países, inclusive alguns dos que se aliaram aos Estados Unidos na aventura suspeita do segundo ataque a Saddam Hussein, como o Reino Unido e o Japão, acusam o governo de Washington por conceder as tarefas de reconstrução do Iraque a apenas um seleto grupo de empresas americanas.

De acordo com o insuspeito Financial Times (https://www.ft.com/content/7f435f04-8c05-11e2-b001-00144feabdc0), a guerra foi um excelente negócio para as empresas estadunidenses:

“Os EUA arcaram com o peso dos custos militares e de reconstrução, gastando pelo menos US$ 138 bilhões em empresas de segurança privada, logística e de reconstrução, que forneceram tudo, desde segurança diplomática até usinas elétricas e papel higiênico. As empresas americanas e estrangeiras lucraram com o conflito – com os 10 principais empreiteiros assegurando negócios no valor de pelo menos US $ 72 bilhões. Nenhum se beneficiou mais do que a KBR, antes conhecida como Kellogg Brown e Root. A polêmica ex-subsidiária da Halliburton recebeu pelo menos US $ 39,5 bilhões em contratos federais relacionados à guerra do Iraque na última década”.

O que ocorreu no Iraque somente é possível em um país derrotado em uma guerra.

Aconteceu o mesmo na Europa Ocidental, principalmente na Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos lançaram o Plano Marshall (https://www.estudopratico.com.br/plano-marshall-objetivos-beneficios-e-contexto-historico/) para reerguer o velho mundo.

Independente da discussão do altruísmo ou não da iniciativa, a iniciativa transformou a maior parte da Europa em um mercado cativo dos EUA, situação que durou até, pelo menos, a década de 1980, quando a indústria de alguns países europeus e, também, do Japão amadureceu o suficiente para competir e superar suas concorrentes estadunidenses.

 

UM PAÍS QUE PRETENDEU SER POTÊNCIA

O Brasil vive uma situação semelhante, que somente se verifica em um país derrotado em uma guerra.

A economia brasileira está destroçada. O governo federal perdeu o controle sobre a maior riqueza nacional, o petróleo do pré-sal – os estadunidenses não conseguiram tal nível de controle nem mesmo no Iraque.

Todas as bases de uma economia moderna e competitiva – do ponto de vista de um país que ambiciona ter um papel de relevância mundial – estão sendo paulatinamente demolidas.

O mercado interno está sendo destruído, a base industrial vai sendo empurrada à falência, a ciência é desprezada, a universidade sofre ameaças, a cultura teme ser banida, as forças armadas perdem a capacidade de defender o Brasil em uma guerra moderna e o setor desenvolvimentista do capitalismo brasileiro foi castrado no seu potencial de intervir na economia.

O memorando assinado pelo Brasil, para facilitar negócios e investimentos em infraestrutura, é um exemplo clássico das relações entre uma potência que venceu uma guerra e o país derrotado. O derrotado abre todo o seu mercado para o vencedor.

Além de oferecer o imenso potencial de obras de infraestrutura, para as empreiteiras estadunidenses, há inda o engodo do reconhecimento do Brasil, como aliado extra OTAN dos EUA.

Na prática, os Estados Unidos obtêm reserva de mercado, para vender produtos obsoletos ou semi-sucateados de sua indústria militar às forças armadas do Brasil.

Como a geopolítica dos EUA prevê impedir o fortalecimento militar de potencias regionais, especialmente no seu quintal da América Latina, o Brasil jamais terá acesso aos itens mais avançados do complexo industrial-militar estadunidense.

Aliás, foi exatamente por isso, que o general Geisel rompeu o acordo militar com os Estados Unidos, que vigorava desde a Segunda Guerra Mundial.

Em um esquema de extra OTAN, acordos de transferência de tecnologia, como o que viabilizaria a construção de um submarino capaz de ser movido por um reator nuclear ou aviões de caça no estado da arte, são absolutamente descartados.

O objetivo, para os Estados Unidos é comercial e os efeitos militares são quase nulos – um exemplo é a Argentina, que não tirou nenhuma vantagem do status de “aliado extra OTAN”.

 

UMA DERROTA PREPARADA PELA LAVA JATO

As bases para a assinatura do memorando, que abre o mercado de infraestrutura brasileiro para as empresas estadunidenses, foi cuidadosa e pacientemente preparado através da Lava Jato.

A operação que oficialmente tinha o objetivo de combater a corrupção, na verdade visava remover do poder um governo desenvolvimentista; desorganizar politicamente o país; enfraquecer uma economia que avançava para se consolidar como uma das maiores do mundo; e remover da disputa planetária o ramo mais competitivo da indústria brasileira – as grandes construtoras, que derrotavam suas rivais dos EUA nas concorrência internacionais em todos os continentes.

 

MAIOR SUCESSO GEOESTRAÉGICO DOS EUA EM DÉCADAS

A submissão do Brasil foi o maior sucesso geoestratégico dos Estados Unidos nas últimas décadas. Todos os objetivos foram atingidos e o país, antes independente e orgulhoso de seu crescimento, hoje está completamente submetido economicamente, politicamente e diplomaticamente aos interesses dos EUA.

A destruição das empreiteiras não só removeu um poderoso competidor internacional das firmas estadunidenses, como também, abriu um dos maiores mercados de infraestrutura para empresas como a Halliburton e suas filiais, assim como para outras grandes construtoras dos Estados Unidos.

Curiosamente, o mecanismo de operação internacional das construtoras dos EUA é o mesmo utilizado pelas empresas brasileiras: os financiamentos de agências governamentais, que fornecem os recursos para a execução de obras.

No caso das empresas brasileiras, os financiamentos vinham do BNDES; as dos Estados Unidos recorrem aos recursos da OPIC, uma agência do governo para financiar obras fora do país.

Os empresários dos Estados Unidos consideram esse arranjo uma ótima maneira de exportar serviços, equipamentos, materiais e outros insumos, que melhoram a balança comercial do país.

No Brasil, este mesmo modelo foi acusado de ser desperdício de dinheiro público e corrupção, pelos integrantes da Lava Jato, pela mídia corporativa, por políticos neoliberais e de extrema direita e até mesmo por empresários.

É interessante ver que os críticos que criminalizavam os projetos de exportação de serviços das empreiteiras, financiados pelo BNDES, na mídia ou que hoje estão no governo, aplaudem com entusiasmo a chegada das empreiteiras dos EUA, em um modus operandisemelhante.

 

EMPRESAS DOS EUA SÃO SUSPEITAS DE CORRUPÇÃO

Segundo Wilbur Ross, Secretário de Comércio dos Estados Unidos, seu país quer ser “o parceiro preferencial (https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/08/eua-querem-ser-parceiro-preferencial-para-projetos-na-america-latina-diz-secretario-de-comercio-de-trump.shtml; https://exame.abril.com.br/economia/secretario-de-comercio-dos-eua-elogia-planos-de-infraestrutura-do-brasil/) para projetos na América Latina porque nossas empresas oferecem a expertise, a inovação, a ‘integridade’ e valor demandado para a infraestrutura crucial e oportunidades destacadas aqui”.

Sobre a frase do secretário estadunidense, não custa lembrar que as construtoras brasileiras estavam acostumadas a derrotar as firmas dos EUA em inúmeras concorrências internacionais – no que comprovam superior expertise, inovação e, também, competência.

Além disso, a menção à integridade é uma palavra vazia e falsa, quando se refere às empresas estadunidenses.

Elas estão envolvidas nos mais suspeitos, criminosos e graves episódios de corrupção, que ocorreram nas últimas décadas, inclusive porque envolveram a morte de milhares de pessoas – um exemplo é a Halliburton.

06
Mai19

A forma mentis

Talis Andrade

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Algo me inquieta muito, o silêncio das ruas

por Nino Carta

 
Sabíamos que Jair Bolsonaro é um iletrado primitivo, tosco até o extremo limite da ignorância e do desconhecimento do mundo, mas temos de admitir que, na Presidência da República, consegue se superar. Quanto aos filhos, as três cabeças do Cérbero do nosso Inferno, sabíamos seguirem os passos paternos, com a obsessiva disposição a empunharem armas leves e pesadas e a simpatia declarada por torturadores do passado e as gangues do presente, ditas milícias. Eles também conseguem superar-se. Quem os orienta é autor de um livro intitulado O Mínimo Que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota. Aplicado a ele próprio, mostra uma condescendência terrificante: Olavo de Carvalho, trânsfuga do manicômio, é matto da legare, louco para a camisa de força, como caberia dizer em italiano. Isso também era do conhecimento até do mundo mineral, mas reencontrá-lo hoje como ideólogo do bolsonarismo diz tudo a respeito da situação de absoluta demência em que o País precipita.
 
 
 
A ilustrar melhor a personalidade do “astrólogo”, como o define o vice-presidente Mourão, ele acaba de atacar os militares chamados a sustentar o governo com a cavalaria da sua verborragia de Napoleão de hospício. Trata-se, neste caso, de mais uma prova de sua gravíssima enfermidade mental. Nesta moldura aterradora sem deixar de ser cômica, o que mais me impressiona e me dói é a tranquilidade das ruas, a indiferença, a insensibilidade, a tibieza gerais, sem excluir a inércia de agremiações consideradas vermelhas, ou comunistas, pelos governantes atuais do nosso peculiar país. Até a mídia, ao se afastar de Bolsonaro, encarado com maus olhos pelo deus mercado, não altera o inesgotável apoio ao ódio social e racial.
 
 
 
A pantomima encenada pelo STJ ao meter sua colher prepotente no caldeirão do julgamento de Lula confirma que a prisão do ex-presidente é o único motivo de união entre os envolvidos no golpe que começa pelo impeachment de Dilma Rousseff e deságua na eleição de Bolsonaro, e eleva Sérgio Moro à condição de deus ex machinada operação encomendada por Tio Sam, no momento descabelado debaixo da cartola. A contenda que opõe o bolsonarismo apoiado pela Lava Jato e o Supremo exibe nas pregas do seu desenvolvimento as evidências do totalitarismo em marcha. Se o conge de dona Rosângela é o vilão-mor, a tanto merece ser alçado graças à conivência criminosa do STF, partícipe fatal do golpe de fio a pavio. E está claro o porquê do denominador comum chamado Lula: voltasse ele à Presidência, conforme certamente se daria, seria o entrave decisivo ao propósito de Washington de recolocar o Brasil no centro do seu quintal. Eliminá-lo à força da ribalta eleitoral foi a saída e o capitão levou com o beneplácito dos senhores da casa-grande, dispostos, na emergência, a agarrar em fio desencapado, como diria Plínio Marcos.
 
 
 
O país da casa-grande e da senzala chegou à Idade Média mais profunda e as duas entidades funcionam com crescente pontualidade. Belos versos escreveu Orestes Barbosa: a porta do barraco era sem trinco/ e a Lua furando nosso zinco/ salpicava de estrelas nosso chão/ e tu pisavas os astros distraída. E lá vem a punhalada instigada pelo senhor feudal: sem saber que a ventura desta vida/ é o barraco, a cabrocha e o violão. Quando adolescente me irritava a cantoria: Mangueira, seu cenário é uma beleza. Visto de qual ângulo, caras-pálidas? O que me inquieta na zona miasmática situada entre o fígado e a alma é a forma mentis a nutrir tanta inércia e tanta resignação, como se a desigualdade estivesse escrita nas estrelas.
 
 
 
Penso nos condimentos da receita. A crença na ginga incomparável, na malemolência, na picardia matreira, e também no passa-moleque, no “levar vantagem”, no golpismo miúdo e graúdo, no maldito jeitinho. Acrescentem o sorriso de superioridade do sambista e do futebolista e a convicção de que a glória da pátria amada, idolatrada, salve, salve, está no gramado e no batuque carnavalesco fadado a encantar o mundo. Ao cabo de 519 anos de existência, insuficientes nas nossas plagas para criar uma nação, tamos aí a padecer Bolsonaro na cabeça enquanto o povo, quase sempre abandonado por quem haveria de iluminá-lo, trafega pelo Limbo.
 
 
05
Mai19

Os 80 tiros disparados no Rio simbolizam à perfeição o cataclismo que varre o feroz manicômio chamado Brasil

Talis Andrade

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Salve-se quem puder

por Nino Carta

---Diz Eduardo Bolsonaro, chanceler in pectore do papai Jair, que também os anjos carregam espadas e flechas porque sabem ser preciso andar armado. Estou no aguardo de que asas surjam espontaneamente dos ombros dos policiais nativos e dos milicianos cariocas, tão chegados à família do capitão, bem como dos militares prontos a disparar 80 balas contra um carro inofensivo, para matar um inocente e ferir mais dois.

 

O episódio é altamente representativo do alcance terrificante do cataclismo que se abate sobre todos nós, tenhamos ou não consciência da monstruosa intensidade do fenômeno gerado pela demência em estado puro transformada em forma de governo. O fato haveria de gerar, além do espanto geral, a pronta intervenção do presidente da República, do ministro da Justiça, do Supremo Tribunal Federal, do comandante do Exército, etc., etc. Estamos, porém, no país que elegeu Bolsonaro, inescapável resultado do golpe de 2016. E quem porta armas tem licença para matar. No fim do ano verificaremos que nossa guerra interna multiplicou brutalmente o balanço dos homicídios.

 

 

Aqueles que haveriam de condenar o acontecido apressam-se a tomar distância. As chamadas autoridades preferem deixar que a Justiça Militar apure e decida, graças à medida antidemocrática de Michel Temer ao lhe entregar poderes para tanto. O congede dona Rosângela lamenta em entrevista na Bandeirantes, e confia no julgamento dos fardados pelos fardados. Enquanto isso, entrevistado pela Jovem Pan, o capitão que governa pela internet declara: “Quero explorar a Região Amazônica em parceria com os EUA”. Sublinha Guilherme Boulos de bate-pronto: “Ou seja, quer entregar a Amazônia como entregou a Base de Alcântara”. O jovem líder em quem vale a pena apostar clama contra o escândalo e propõe o indiciamento do capitão por crime de lesa-pátria.

 

Como encarar este Brasil passivo, inerte, insensível diante de sua própria desgraça? De certa maneira, tem o que merece. Em boa parte, receio, o que deseja. De resto, não há como escapar a uma triste consideração: o primeiro aniversário da prisão de Lula, único líder popular brasileiro de dimensão nacional, um ano de infâmia, passa quase despercebido, inclusive pelo próprio PT. CartaCapital continua a enxergar no Nordeste a terra prometida do retorno à saúde mental.

 

Dois aspectos da situação apontam para a sua imensa gravidade. De um lado, a vitória do avanço tecnológico que mais contribui para a imbecilização coletiva. Do outro, o nacional-entreguismo de um governo que depena progressivamente o País. De minha parte, digo alto e bom som, como os editoriais do velho Estadão, que não tenho celular e jamais me aproximei de um computador, na certeza de que me engoliria com sua bocarra escancarada. Certo é que engoliu o Brasil e foi instrumento fatal da eleição de Bolsonaro. Sempre convém evocar Umberto Eco, um pensador capaz de apontar como o avanço é, de verdade, o atraso, em primeiro lugar porque no espaço virtual todos podem proclamar besteiras inomináveis ou mentiras desbragadas para formar com êxito opinião pública. E, não esqueçamos, o Brasil é comprovadamente um dos países mais mal-ensinados do mundo.

 

Bolsonaro, por exemplo, é um atilado usuário do instrumento, ignorante ele e ignorante a plateia, com satisfação recíproca. E vamos em frente, de velas cheias de vento, e a cabeça também. Na outra frente do desastre em progressão, os efeitos da prática desassombrada do nacional-entreguismo, que nada tem a ver com o neofascismo que alguns analistas brasileiros atribuíram ao capitão. Muitos, aliás, cuidam de perpetuar o engano, o qual, como tantos outros, se deve ao desconhecimento das coisas da história e do mundo. Teimamos estupidamente em medir as circunstâncias com um metro inadaptável ao Brasil medieval da casa-grande e da senzala. Deste ponto de vista, cabe acentuar a eficácia do desempenho dos lacaios de Washington, capitaneados por Sérgio Moro, o vilão-mor.

 

Os EUA apoderam-se do País entregue de graça, e com intenções bem mais profundas do que qualquer previsão pessimista. Não soa impossível o abastecimento de armas ao nosso Exército de ocupação para torná-lo apto à invasão da Venezuela e a funcionar como um cão de guarda no quintal de Tio Sam. Há razões para crer que a CIA já elabora planos para incentivar o nosso nacional-entreguismo. Atenção, contudo: o torquemadazinho curitibano não é candidato a um assento no STF, muito menos à chefia da Central de Inteligência, que frequenta com assiduidade, e sim à Presidência da República.

 

Está de pé a pergunta: Bolsonaro chega até o fim? Há óbvias dúvidas a respeito, mesmo porque, despida das benesses do apoio publicitário governista e outras mais ao sabor do toma lá dá cá, uma porção importante da mídia nativa assume uma posição, às vezes até irada, em relação ao capitão e o seu governo. Nada destinado, está claro, a abrandar o preconceito social e racial nutrido por ricos e aspirantes à riqueza, o ódio desvairado e visceral a uni-los contra a senzala e contra aqueles que apontam no insuportável desequilíbrio o maior problema do Brasil. Mas a vocação golpista permanece em todos os sentidos e patamares, donde, de improviso, pode alvejar o capitão, por ora protegido pela militarização do seu governo, conquanto ali more também o seu risco.

 

Impossível, de todo modo, imaginar por enquanto um desfecho positivo, o lado negro da força, diria George Lucas, está contra os cidadãos ainda habilitados a pensar e almejar um Brasil melhor. E a perceber a interferência do ridículo e do grotesco no desenvolvimento de um enredo de inaudita parvoíce. Temo que não sejam muitos, mas continuo a voltar meus olhos e minha esperança na direção do Nordeste.

 

Permito-me, ao cabo, citar o capitão, o novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, e, dulcis in fundo, Sérgio Moro. “Queremos uma garotada que não se interesse por política”, diz Bolsonaro. E o ministro, abençoado por Olavo de Carvalho: “Em 1964, houve ruptura, mas dentro das regras”. Enfim, o conge de dona Rosângela usa a palavra rugas em lugar de rusgas. Eis um pessoal credenciado para educar o País.

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27
Abr19

'Nunca vi presidente ficar batendo continência para a bandeira dos EUA': 12 frases da entrevista de Lula

Talis Andrade

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Opera Mundi - A entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Folha de S.Paulo e ao jornal El País, concedida na última sexta-feira (26/04), teve momentos marcantes, como as críticas ao governo Jair Bolsonaro, ao processo que o levou à cadeia e críticas à política externa da atual administração.

Veja 12 das melhores frases do ex-presidente durante a conversa com os jornalistas:

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Complexo de vira-lata
“Lamento profundamente o desastre que está acontecendo neste país, e é por isso que eu me mantenho em pé. No dia que eu sair daqui –eles sabem--, eu estarei com o pé na estrada para, junto com este povo, levantar a cabeça e não deixar entregar o Brasil para os americanos. Acabar com esse complexo de vira-lata! Eu nunca vi um presidente ficar batendo continência para a bandeira norte-americana. Eu nunca vi um presidente ficar dizendo: ‘Eu amo os Estados Unidos!” Alguém acha que os Estados Unidos vão favorecer o Brasil?”

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Americano pensa em americano
“Americano pensa em americano em primeiro lugar, pensa em americano em segundo lugar, pensa em americano em terceiro lugar (...) e, se sobrar tempo, pensa em americano. E ficam os lacaios brasileiros achando que os americanos achando que os americanos vão fazer alguma coisa por nós. Quem tem de fazer por nós somos nós!”

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FHC nunca aceitou meu sucesso
“O Fernando Henrique Cardoso não tem jogado no papel o que o nome dele deveria merecer. Ele fala muito sobre quase tudo desnecessariamente. Eu sinceramente acho que ele poderia ter um papel de grandeza para quem já foi presidente da República, para quem já foi chamado de príncipe da sociologia. Ele poderia ter um papel mais respeitoso com ele mesmo, não comigo. O problema do Fernando Henrique Cardoso é que ele nunca aceitou o meu sucesso.”

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Sem lideranças
“Sinceramente acho que o mundo está precisando de lideranças. E nós não temos lideranças mundiais. Não temos. Então precisamos tentar, no campo da política, dizer o seguinte: quem vai resolver o problema do mundo é você ter uma classe política séria, com partidos sérios, organizados seriamente, para poder consertar o país.”

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Situação do Brasil
“Eu fico preocupado é com a situação do Brasil. Não consigo imaginar os sonhos que eu tive para esse país, quando a gente descobriu o pré-sal, para fazer esse país virar gigante. Eu tenho orgulho e sonhei grande, porque passei a ser um presidente muito respeitado. Aqui na América do Sul, o Brasil era referência.”

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Avacalhação
“Fui o único presidente a ser chamado para todas as reuniões do G8. Eu digo eu porque eu era o presidente, mas o Brasil foi muito importante no G20. Tudo isso desmanchou. Agora o prefeito de Nova York não quer fazer um jantar com o presidente do Brasil. O dono do restaurante se recusa. A que ponto chegamos? Que avacalhação! “

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Planos para quando sair da prisão
“Adoraria poder um dia fazer um debate em uma universidade com Moro e Dallagnol juntos. Adoraria um debate. Eles levando as milhares de páginas que contaram mentiras e eu levando a minha verdade. Eu adoraria. Com a cara boa, tranquila, bonitão como eu tô hoje. Para discutir. Mas na verdade eu [quando sair da prisão] quero comer um churrasco, uma bela de uma picanha, uma panceta bem passadinha e tomar um, como diria o José Alencar, um golo.”

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Obsessão
“Eu tenho tanta obsessão de desmascarar o [Sergio] Moro, em desmascarar o [Deltan] Dallagnol e a sua turma e aqueles que me condenaram, que eu ficarei preso cem anos, mas eu não trocarei a minha dignidade pela minha liberdade. Eu quero provar a farsa montada. Eu quero provar. Montada aqui dentro, no departamento de Justiça dos Estados Unidos com depoimento de procuradores com filme gravado e agora mais agravado com a criação da Fundação Criança Esperança do Dallagnol, pegando 2,5 bilhões de reais da Petrobras para criar uma fundação para ele. Fora 6,8 bilhões da Odebrecht e fora não sei quantas outras coisas.”

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Consciência tranquila
"Eu tenho certeza que eu durmo todo dia com a minha consciência tranquila. Tenho certeza que o Dallagnol não dorme e que o Moro não dorme. E aqueles juízes do TRF-4 que nem leram a sentença. Fizeram um acordo lá, era melhor que um só tivesse lido e falado 'todo mundo aqui vota igual'."

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Não vou me entregar
"Quem tem 73 anos de idade, quem construiu a vida que eu construí neste país, quem estabeleceu as relações que eu estabeleci, quem fez o governo que eu fiz neste país, quem recuperou o orgulho e autoestima do povo brasileiro como eu, não vou me entregar. Eles sabem que tem aqui um pernambucano teimoso. Eu digo sempre, quem nasceu em Pernambuco e não morreu de fome até os cinco anos de idade não se curva mais a nada."

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Preocupação só com a Justiça
“Haverá um dia em que as pessoas que irão me julgar estarão preocupados com os autos do processo, com as provas contidas no processo e não com a manchete do Jornal Nacional, com as capas das revistas, não com as mentiras do fake news. As pessoas se comportarão como juízes supremos de uma Corte, que é a única coisa que a gente não pode recorrer. (…) Só quero, pelo amor de Deus, que as pessoas julguem em funções das provas. Eu tenho certeza, o Moro tem certeza. Se as pessoas não confessarem agora, no dia da extrema unção vão confessar. Ele tem certeza que eu sou inocente. O Dallagnol tem certeza que é mentiroso. E mentiu a meu respeito.”

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Regulamentação da mídia
“Eu, por exemplo, acho que tive um erro grave. Eu poderia ter feito a regulamentação dos meios de comunicação. Fizemos um Congresso em 2009, só participou a Bandeirantes e a Rede TV se não me falha a memória, sabe, nenhuma outra TV participou, muitas rádios participaram, e em junho de 2010 nós preparamos uma regulamentação dos meios de comunicação. Ao invés de dar entrada no Congresso porque iria ter eleição eu pensei ‘não, vou deixar para o novo governo’. A razão pela qual a Dilma não entrou não sei. Então essa é uma autocrítica que eu faço.”

 

22
Abr19

Prisão injusta de Lula o eleva ao status de preso político sequestrado por juízes e militares

Talis Andrade

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Por Davis Sena Filho

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A prisão de Lula é uma inominável e covarde injustiça perpetrada por homens e mulheres de togas, que colocam em xeque a Justiça como instituição moral e moralizante, bem como joga por terra a credibilidade de juízes, delegados e procuradores que, sem dúvida, agiram de forma orquestrada em todas as esferas do Judiciário, desde a primeira à última instância.

No decorrer do processo que levou à deposição uma presidente legítima e constitucional eleita pelo povo brasileiro até a prisão do ex-presidente e líder popular, percebeu-se que juízes e procuradores de direita, que participaram como ativistas do Direito e militantes políticos em contraposição nas redes sociais aos mandatários Lula e Dilma Rousseff, edificou-se a derrota da esquerda, não pela via democrática e eleitoral, mas sim por meio de lawfare, quando a Lei é usada como arma de guerra por determinados grupos contra seus adversários políticos.

Lula não foi somente vítima de lawfare, mas também da teoria do domínio do fato, que foi amplamente usada para perseguir violentamente o ex-ministro José Dirceu, uma das lideranças de esquerda e do PT, que sofreu durante anos e ainda sofre com as consequências brutais efetivadas por juízes e procuradores compromissados em derrotar a esquerda, porque perceberam que a direita, principalmente os tucanos do PSDB, não tinha a menor condição de derrota o PT, já que derrotados em quatro eleições consecutivas, sendo que certamente Lula venceria a quinta eleição por parte do campo progressista.

O Brasil caminhava em direção de sua independência e soberania, a ser um dos principais protagonistas da diplomacia internacional, a liderar o Mercosul e a ser importante integrante de Brics, G-20 e Unasul, além de realizar forte diplomacia com a China, que se tornou o mais importante parceiro comercial, a superar os EUA Oriente Médio, assim como efetivou as relações Sul-Sul, a ter os países africanos como parceiros comerciais e culturais.

A inserção do Brasil no mundo e sua política internacional agressiva e ampla, porque aberta para todos os países incomodou demais os Estados Unidos e a burguesa brasileira pária dos yankees, a exemplo dos oligopólios dos meios de comunicação privados, além do agronegócio e federações de indústrias a exemplo da Fiesp. Somado aos empresários, evidentemente os meganhas e togados, que trabalham e agem como lacaios das plutocracias internacionais e da casa grande brasileira, esta adepta de escravidão, atraso e retrocesso.

O que mais incomoda a milhões de brasileiros que sempre votaram em Lula e no PT após a redemocratização é saber que sua prisão é uma jogada baixa e suja da política, cujos partidos de direita levaram a cabo a desconstrução da Nação e a demolição do pequeno estado de bem-estar social, que foi a duras penas edificado a partir dos direitos sociais implementados a partir dos governos do líder estadista Getúlio Vargas.

A movimentação do Brasil em direção à sua independência e o descolamento diplomático em relação aos Estados Unidos causou transtornos aos interesses geopolíticos e econômicos da potência imperialista, a mais agressiva e violenta da história da humanidade. Um país sempre em guerra e que sabota violentamente a nação que ousar tentar sair das amarras de seu quintal, como o é tratada a América Latina, cujos sócios dos estadunidenses são os inquilinos da casa grande escravocrata brasileira.

A prisão de Lula o engrandece como liderança injustiçada por juízes e meganhas que jamais comprovaram que o maior líder popular e de esquerda da história do País tenha cometido qualquer malfeito, que o levasse à condição degradante de prisioneiro de um estado policialesco e já militarizado.

Afinal, o presidente fascista Jair Bolsonaro nomeou para os primeiros e segundos escalões da República dezenas e dezenas de militares subalternos aos milicos dos EUA e sem noção de soberania, que apenas intervieram mais uma vez na política e que estão rapidamente a rumar para um retumbante fracasso em suas tristes e desditosas histórias de golpistas e interventores da vida brasileira.

Entristece profundamente perceber que o presidente Lula está preso sem culpa e verificar que os juízes burgueses e ricos do Supremo Com Tudo (SCT), que vem a ser a vergonha, o vexame e a desgraça do Brasil, não tomem as devidas providências, libertem o presidente Lula, pacifiquem o Brasil e punam duramente os juízes irresponsáveis e levianos, que levaram uma pessoa inocente à cadeia.

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Juízes da Lava Jato, do TRF-4 e do STJ, pois seletivos, partidários e militantes de direita, como comprovam suas lamentáveis atuações políticas nas redes sociais, a fazerem campanha contra os líderes petistas, inclusive a irem às ruas, o que denota o partidarismo e a ação política desses togados golpistas, que já entraram para a vala imunda da história. Lula Livre não é apenas uma questão de retórica política, mas, sobretudo, o resgaste dos marcos civilizatórias em desfavor da barbárie que tomou conta do Brasil. Lula Livre! É isso aí.

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