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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Jan21

Em apoio a Vianna: a história de um Exército que massacra seu povo e não poupa mulheres e crianças

Talis Andrade

Brasil acima de tudo - 20/10/2019 - Opinião - Folha

por Mauro Lopes

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Aviso de gatilho - o artigo a seguir relata a história do Exército e para isso faz descrição de cenas de torturas e massacres em larga escala.

Em 17 de janeiro, o jornalista  Luiz Fernando Vianna publicou na revista Época um artigo sob o título “Na pandemia, Exército volta a matar brasileiros”. O texto provocou reação imediata do Exército Brasileiro. Sob ordem direta do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, o também general Richard Fernandez Nunes, chefe de comunicação da Força, enviou uma carta à revista em tons jamais vistos desde o fim da ditadura, com ordem explícita de retratação. Você pode ler a carta aqui e avaliar a dimensão das agressões e ameaças do Exército contra o jornalista, a revista e a liberdade de imprensa no país.

O que escreveu Vianna que provocou a ira verde-oliva?

Nada demais. Uma expressão tímida e parcial do caráter do Exército Brasileiro. O jornalista registrou o massacre de Canudos, em 1897, quando “nem as crianças foram poupadas” pelos militares brasileiros - o que é pura expressão da verdade. Depois, mencionou a Comissão Nacional da Verdade, que apontou as centenas de mortos durante a ditadura militar, “quando as Forças Armadas se uniram às polícias para torturar e assassinar”. Aqui há uma imprecisão histórica de Vianna. Não foram as Forças Armadas que se uniram às polícias na missão de tortura e assassinatos em série. Elas foram as líderes do morticínio, com o apoio das polícias. 

Uma das mortes mais emblemáticas do período ditatorial, do jornalista Vladimir Herzog, aconteceu nas dependências do DOI-Codi do II Exército, no que parecia ser um bucólico bairro de classe média paulistana em 1975, significativamente com o nome de Paraíso. Milhares de homens e mulheres e várias crianças foram torturadas em dependências oficiais ou clandestinas das Forças Armadas durante a ditadura e centenas deles morreram - não há registro da morte de crianças. O irmão da jornalista Hildegard Angel, hoje colunista da rede Jornalistas pela Democracia, cujos artigos são veiculados no 247, o jovem Stuart Angel Jones, foi sequestrado por militares, torturado por eles na Base Aérea do Galeão e assassinado de maneira quase indescritível. Stuart foi amarrado a um carro e arrastado por todo o pátio do quartel. Para se divertirem, os militares colocavam a boca do jovem de 25 anos no escapamento do veículo fazendo com que ele aspirasse todos os gases tóxicos. Após ser desamarrado, Stuart foi abandonado no chão, com o corpo  bastante esfolado e seguiu clamando por água noite adentro. Até hoje não se sabe se morreu naquela noite ou em novas sessões de tortura executadas pelos militares da Aeronáutica.

Em seu artigo, Vianna salta aos dias de hoje para falar do papel dos militares na pandemia do coronavírus. Digitou o jornalista que o ministro-general Eduardo Pazuello, que ele qualifica de “lambe-botas do presidente”, soube “com dias de antecedência que os hospitais de Manaus entrariam em colapso por falta de oxigênio para os pacientes. Nada fez, a não ser prescrever a inútil cloroquina” e o comprovadamente ineficaz “tratamento precoce” . A afirmativa é tão veraz que o procurador-geral da República, Augusto Aras, enviou neste sábado (23) ao Supremo Tribunal Federal um pedido de abertura de inquérito para apurar a conduta do general Pazuello durante a crise em Manaus. A seguir, o jornalista afirma que “os generais de Brasília (Mourão, Augusto Heleno, Braga Netto, Azevedo e Silva) pouco fazem além de inscrever seus nomes na história como operadores de um morticínio – não se pode usar a palavra genocídio porque algumas damas da intelectualidade ruborizam”.

Morticínio e genocídio, por sinal, são duas palavras correntes nos fóruns internacionais a respeito de Jair Bolsonaro - ele foi denunciado por esses dois motivos ao Tribunal Penal de Haia.

O que então incomodou tanto o Exército?

Sabemos a razão, quem não sabe? 

O que incomoda é o fato de Vianna ter levantado ainda que de maneira parcial e tímida, o manto sobre o qual o Exército procura esconder sua história. 

Vamos a ela que é este, afinal, o motivo deste artigo: apresentar a você, que talvez ainda não conheça, a história do Exército Brasileiro.

A história do Exército Brasileiro

Na verdade, talvez seja mais apropriado falar em história das forças armadas a serviço da elite, constituídas sob diversas denominações desde a ocupação colonial do território que viria a ser chamado de Brasil a partir do século 16.

Toda a constituição destas forças levaram, ao fim e ao cabo, à criação do Exército Imperial Brasileiro em 1822.

Mas, muito antes disso as forças armadas (com letras minúsculas) das elites conformaram-se como atos preparatórios para a formação do Exército. O que importa reter aqui é que ao longo de toda esta história, até hoje, essas forças armadas cultivaram a doutrina do “inimigo interno”, que foi crescentemente explicitada a partir de 1935 (no levante alcunhado de Intentona Comunista pela liderança militar) e formalizada depois do golpe militar de 1964.

Este espírito presidiu a “guerra aos bárbaros”, que dizimou os povos originários na segunda metade do século 17 no Nordeste e no massacre do Quilombo dos Palmares, complexa organização de comunidades de negros e negras rebeldes fundadas a partir de 1580 e que chegaram a ter 20 mil pessoas e foram também dizimadas em 1710.

Eram os primórdios do que viria a ser o Exército Brasileiro.

Caxias, o carniceiro

Hoje já é atestado de maneira inequívoca que Luís Alves de Lima e Silva, patrono reverenciado pelo Exército Brasileiro, referência militar no Brasil, foi um carniceiro. Ele mesmo, o Duque de Caxias, que recebeu este título de Barão de Caxias de Dom Pedro II em 1841 por ter massacrado impiedosamente a revolta popular da Balaiada no Maranhão - foi promovido a conde e depois marquês conforme crescia a pilha de cadáveres em sua trajetória, até chegar a duque em retribuição pelo massacre do povo paraguaio - incluindo mulheres e crianças, como sempre.

Um ano antes de ser barão, ainda como Luís Alves, Caxias projetou-se no cenário imperial brasileiro por ter liderado o massacre ao quilombo de Manuel Congo e Mariana Crioula, em Vassouras (RJ). 

No Maranhão, Luís Alves, futuro Caxias, foi o líder das tropas a serviço dos grandes proprietários de terra e de escravos. A rebelião foi articulada por uma ampla unidade popular entre diversos segmentos que ficaram conhecidos como balaios, apelido de um dos líderes do movimento: uniram-se vaqueiros, artesãos, lavradores, escravos, sertanejos, índios e negros libertos, sem direito à cidadania e nem ao acesso à propriedade da terra - eles lutaram de 1838 até 1841.

A repressão foi um massacre em larga escala. Um ano antes do morticínio, Luís Alves foi nomeado presidente da Província do Maranhão, com esta missão: o massacre. E ele a cumpriu. Matou 12 mil pessoas. Milhares de participantes sobreviventes foram exilados, expulsos do Maranhão e do Piauí.

Engana-se quem pensa que foram apenas esses os dois massacres perpetrados por Caxias. 

Três anos depois, na Guerra dos Farrapos, 1845, Caxias foi o grande articulador do Massacre de Porongos, o último conflito da guerra, uma emboscada aos Lanceiros Negros, o corpo de negros libertos e escravos que lutaram sob promessa de liberdade e paz. Em 14 de novembro de 1844, praticamente desarmados, mais de 100 lanceiros negros foram assassinados e os que sobreviveram foram enviados à corte brasileira. 

Veio depois a Guerra do Paraguai, celebrada com toda pompa pelo Exército Brasileiro. Morreram 50 mil brasileiros no conflito, no qual Caxias assumiu o comando da segunda etapa da guerra, de 1866 a 1869. O Paraguai foi dizimado: estima-se em mais de 300 mil mortes, mais da metade da população do país, e 80% da população masculina e masculina-jovem,  com milhares de crianças assassinadas nos combates.

O massacre de Canudos

O Exército Brasileiro não precisou de Caxias para seus massacres. O Duque morreu em 1880, mas os massacres continuaram e o Exército, que se tornou uma força política decisiva no Império, deu o golpe que derrubou o sistema e instituiu a República dos Marechais, em 1889.

E estreou em “grande estilo” como força armada do novo regime na repressão ao Belo Monte de Antônio Conselheiro, uma experiência comunitária popular original, que terminou no massacre conhecido como Guerra de Canudos (1896-97).

As duas primeiras expedições conduzidas pelo governo baiano fracassaram, derrotadas pelo povo organizado ao redor de Conselheiro, composto por sertanejos e sertanejas miseráveis, negros e negras libertos e lançados igualmente à miserabilidade, bem como indígenas do povo Kaimbé - a primeira indígena vacinada contra a Covid no Brasil, em São Paulo, Vanuzia Costa Santos, presidente do Conselho do Povo Kaimbé, nasceu na região do massacre.  

O Exército assumiu a repressão na terceira expedição, que fracassou igualmente. A quarta expedição foi comandada por dois generais e os militares quase foram derrotados, mais uma vez. Foi preciso que o Ministro da Guerra, marechal Carlos Bittencourt, levando mais três mil soldados, fosse em socorro dos generais, para finalmente derrotar a comunidade de Conselheiro, que sempre fora pacífica. 

O marechal Carlos Bittencourt é outro carniceiro considerado herói do Exército Brasileiro. Sob sua ordem direta foram assassinados centenas de prisioneiros de guerra, entre homens, mulheres e crianças, inclusive pessoas que haviam se rendido com bandeira branca e que haviam recebido promessas de proteção em nome da República. Alvim Martins Horcades, médico do Exército e testemunha ocular, escreveu sobre a ação do marechal: "Com sinceridade o digo: em Canudos foram degolados quase todos os prisioneiros. (…) Assassinar-se uma mulher (…) é o auge da miséria! Arrancar-se a vida a criancinhas (…) é o maior dos barbarismos e dos crimes monstruosos que o homem pode praticar!" Pode parecer exagero afirmar que o assassino Bittencourt seja herói do Exército. Não é. Em vez de apurar as centenas de denúncias contra ele, o Exército, em 1940, proclamou-o oficialmente "herói de guerra e mártir do dever, que sublimou as Virtudes Militares de Bravura e Coragem". Não bastante, o marechal degolador de mulheres e crianças foi consagrado como Patrono do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro.

Guerra do Contestado: outro massacre

A série de massacres perpetrados pelo Exército Brasileiro adentrou o século 20 - e prossegue no 21. 

No início do século 20, o Exército perpetrou outro brutal massacre que ficou conhecido como Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916 em Santa Catarina e Paraná. Os líderes militares designados para o morticínio foram o general Carlos Frederico de Mesquita, veterano do massacre de Canudos, e o general Setembrino de Carvalho, que se tornaria ministro da Guerra de um dos presidentes mais repressivos da história, Arthur Bernardes (1922-26). O episódio mais marcante da campanha militar foi o massacre de Taquaruçu. O vilarejo, uma das sedes dos seguidores do monge José Maria e de Maria Rosa, foi cercado pelos militares brasileiros com apoio de tropas locais. O povoado foi bombardeado por canhões e granadas que atingiram principalmente mulheres, crianças e idosos, pois a maior parte dos homens havia partido para formar outro reduto, o de Caraguatá. Como em Canudos, um médico militar deixou o registro da ação do Exército Brasileiro para a história. Seu nome era Cerqueira César, e ele relatou o que viu:

“O estrago da artilharia sobre o povoado de Taquaruçu era tremendo: grande número de cadáveres (…); pernas, braços, cabeças juncavam o chão; casas queimadas ruíam por toda parte. Fazia pavor e pena o espetáculo que então se desdobrava aos olhos do espectador: pavor de destroços humanos; pena das mulheres e crianças que jaziam inertes por todos os cantos do reduto. De nada lhes serviram as trincheiras feitas de pinheiro, nem as 105 cavidades quadradas que fizeram no chão onde se metiam para se abrigarem da metralha.”

Depois de derrotar a rebelião popular, com um saldo estimado em 20 mil mortos, o Exército entregou armas e munições para que as elites locais “terminassem o serviço”.

Menos de 10 anos depois, o Exército bombardeou São Paulo em 1924, no contexto da segunda revolta tenentista. As cenas lembravam as da Primeira Guerra Mundial. Mas era o Exército Brasileiro, sob a Presidência de Bernardes e tendo o mesmo Setembrino de Carvalho do massacre de Contestado como ministro da Guerra, destruindo parcialmente São Paulo no maior conflito bélico urbano da história do Brasil e da América Latina no século 20.

Estima-se em 800 mortos, boa parte civis, pelo menos 1.500 edificações em toda a capital destruídas, o comércio saqueado, os hospitais sem dar conta de tantos feridos.

Bombas contra os herdeiros de Padre Cícero

Em 1937, o Exército Brasileiro encerrou, com outro massacre, uma das mais belas experiências de vida comunitária da história brasileira, na fazenda Caldeirão de Santa Cruz do Deserto. Onze anos antes, o Padre Cícero havia alojado o líder betado João Lourenço e sua comunidade em uma grande fazenda denominada Caldeirão dos Jesuítas, situada no Crato, no Ceará. A base do movimento era o trabalho comunitário inspirado pela religiosidade popular. Era uma sociedade igualitária. Toda a produção do Caldeirão era dividida igualmente, o excedente era vendido e, com o lucro, investia-se em remédios e querosene.

A elite local identificou a iniciativa como uma ameaça a seus negócios, pois os sertanejos de toda região começaram a mudar-se para a fazenda, e denunciaram a experiência como “comunismo”. Em 1937, sem a proteção de Padre Cícero, que falecera em 1934, a comunidade foi massacrada pelo Exército, com ataque de artilharia e bombardeio por aviões. Foram mais de mil mortos, dentre eles centenas de mulheres e crianças. Até hoje o Exército Brasileiro não informa onde enterrou os mortos em vala comum. Todos eram seguidoras e  seguidores do beato José Lourenço, que buscavam retomar a tradição cristã original de vida em comunidade.

O massacre dos waimiri atroari

Na ditadura militar, além da mobilização do Exército (com apoio da Aeronáutica e Marinha) nas cidades para prisão, tortura e morte dos opositores, houve os massacres nos campos e especialmente dos povos originários.  

Bombardeios em ataques aéreos, chacinas a tiros, esfaqueamentos, decapitações de homens, mulheres e crianças e destruição de locais sagrados foram as ações do Exército Brasileiro contra o povo waimiri atroari a partir de 1974 para a construção da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista), feita pelos militares. De acordo com a Funai, a população dos waimiri atroari era de 3 mil pessoas em 1972. Em 1983, depois do tratamento dispensado pelo Exército Brasileiro ao povo, apenas 350 haviam sobrevivido aos massacres.

A desfaçatez militar não teve limites em relação ao povo waimiri atroari.

O general de brigada Gentil Paes assinou o seguinte ofício em 1974: “Esse Comando, caso haja visitas dos índios, realiza pequenas demonstrações de força, mostrando aos mesmos os efeitos de uma rajada de metralhadora, de granadas defensivas e da destruição pelo uso de dinamite”. 

Já o coronel Arruda, comandante do 6º Batalhão de Engenharia e Construção, disse em 1975 que “a estrada é irreversível como é a integração da Amazônia ao país. A estrada é importante e tem que ser construída, custe o que custar. Não vamos mudar o seu traçado, que seria oneroso para o Batalhão apenas para pacificarmos primeiro os índios. […] Não vamos parar os trabalhos apenas para que a Funai complete a atração dos índios”.

São incontáveis os massacres perpetrados contra o povo brasileiro pelo Exército. Eles são o fio que amarra as contas da história militar no Brasil. A lista acima está longe de esgotar os episódios em que, ao longo da história, os militares massacraram parcelas expressivas do povo brasileiro.

Diante das críticas, os militares levantam rapidamente a bandeira das “tropas brasileiras na II Guerra” para afirmar uma farsesca tradição de luta em defesa do país e da democracia, mas a participação nos campos da Europa contra o nazi-fascismo foi apenas a exceção que confirma a regra. A respeito deste episódio, os militares comportam-se como Bolsonaro o fez com o auxílio emergencial: eram contra e tentam faturar depois que a ação foi bem sucedida. Sobre isso escreve o mestre Roberto Amaral: “Fomos à guerra contra a insistente resistência dos generais Eurico Gaspar Dutra, Ministro do Exército, e do todo poderoso general Góes Monteiro, chefe do estado maior da força, como está fartamente documentado. Aliás, na reunião do ministério 27 de janeiro de 1942) que decidiu pela beligerância, a proposta foi apresentada pelo civil Getúlio Vargas, contra o parecer do ministro da Guerra”.O Exército Brasileiro, como afirmou corretamente o jornalista Luiz Fernando Vianna, sabe muito bem matar brasileiros: homens, mulheres e crianças.

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21
Nov20

Viver num jogo roubado

Talis Andrade

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Poetisa, escritora e atriz Elisa Lucinda fala sobre o racismo estrutural no Brasil no momento em que mais um negro é assassinado por "seguranças"de um supermercado
 
 

Por Elisa Lucinda, especial para os Jornalistas Livres

Hoje comemoramos 18 anos do Parem de Falar Mal da Rotina em cena e nesse tempo o conteúdo e suas formas foram também se transformando. Quem acompanha o espetáculo desde que nasceu, sabe que dentro dele há o tema do racismo e é parte importantíssima do roteiro. Me lembro que quando começamos esse trabalho os ouvidos eram mais turvos, as cabeças mais obtusas, os egos mais encastelados numa redoma em que era mais difícil se admitir o racismo. Já na primeira versão o Parem falava de cabelo ruim versus cabelo bom e protestava: “Meu cabelo é ruim por que, fez alguma coisa com o senhor?” De lá pra cá a “piada” ainda provoca riso mas algo mudou. Acredito que nas grandes cidades e nos espaços intelectuais e acadêmicos começa a ser admitida a possibilidade de assumir essa triste condição de racismo estrutural que infelizmente está entranhada na vida brasileira. Quero dizer que não é mais tempo para adiar o tema no divã de cada um. Não dá mais. É rasteira nas pernas dos progressistas, é uma grave contradição no discurso dos revolucionários. Quem no Brasil lutou contra a desigualdade e não fez nessa luta um recorte racial e de classe, me desculpe, mas não lutou contra a desigualdade. Ou ao menos deixou de ver o óbvio e essa não visão fez falta na análise final. Tornou fajuta aquela grande dissertação, aquela tese. Estou falando que só agora, grandes amigos meus, inteligentes, respeitados, alguns famosos, têm me confessado o quanto passaram grande parte de sua vida achando que raramente encontrar negros gerentes de banco, de empresas, protagonistas de novelas, dirigindo cinema, parlamentos, cidade, Estados e país era mera coincidência. Muita gente até aqui acreditou que 56 % da população brasileira estava desconsiderada e excluída unicamente por por falta de mérito próprio, por falta de competência. Creia-me, existe uma certa “inocência” branca, uma nebulosa visão sobre toda a injustiça exercida contra indígenas e negros desde o começo de nossa história em que é vista como uma simples coincidência.

André Rebouças, o mesmo que construiu o que é hoje a sede carioca da Ação e Cidadania, na Barão de Tefé, o primeiro prédio feito por mão de obra negra remunerada, era um engenheiro abolicionista, que fez muito mais que o Túnel Rebouças, sua proposta era uma república nova com a abolição: cada negro liberto, receberia uma terra para plantar, seria alfabetizado, seria indenizado pela escravização e teria acesso aos estudos. O bravo abolicionista e seus colegas perderam essa batalha. Não venceu a sensatez e, embora em nome de Deus tenha sido feita a nossa colonização, também não venceu a bondade. Ainda que, na sequência à imigração européia tenha sido oferecido terra e trabalho remunerado, o mesmo não se deu com a população negra, nem com a indígena. A branquitude sempre foi genocida com esses povos desde os primeiros contatos. Portugueses desembarcaram aqui doentes, sujos, famintos, perdidos em terras estrangeiras. Foram pelos indígenas curados, alimentados, banhados. Quando se viram recuperados trataram de trair os nativos. Quem nos colonizou sequestrou negros, estuprou indígenas, matou tribos inteiras na base do engano e da discrepância de recursos. Cheio de covardia e violência é o passado, cheio de covardia e violência é o presente. O que não se esperava era esse Brasil novo, disposto a botar fogo no parquinho a partir da morte de George Floyd, o que não se contava era com o resultado do sistema de cotas que fez com que os desconsiderados sociais entrassem nas universidades e derramassem dentro dela o seus saberes. Afinal, negros trazem a honra de terem sido os primeiros homens da Terra. Por muito fomos só nós, nos primórdios. O branco veio depois. Para dar só alguns exemplos, negros trazem a medicina, a arquitetura, a aritmética, a geometria, a engenharia, o papel, a escrita na bagagem de suas criações. Exigimos respeito. Há um Brasil recente feito de cidadãos que cresceram com seus cabelos crespos, conscientes de suas belezas, seguros de sua nobreza.Um Brasil que sabe que é diáspora, que veio do continente africano, que veio do Congo, país exemplar na arte da diplomacia, antes do sangrento negócio nos mares. Antes da carnificina, do sequestro e tráfico de pessoas negras, a África já tinha seu funcionamento coletivista e até monarquias à sua maneira. Hoje temos um Brasil que sabe que não descende de escravizados mas antes, de uma África anterior a essa safadeza. Cruel foi o nosso holocausto. Esse Brasil está disposto a mudar a cara das eleições. Esse Brasil se candidatou. Esse Brasil também tem sido eleito.

Concomitantemente, a cada hora uma pessoa branca se revela antirracista e quer mexer no seu lixo. Está disposta a meter a mão na própria cumbuca. Sabe que vai encontrar a deslealdade no jogo. Sabe que não é por acaso que nem ela e nem ninguém da família dela pode se casar com negro, sabe que muitas fortunas vieram de mão de obra praticamente escravizada. E estão correndo atrás. Concordo. Paga um mico imenso o racista hoje. E eu quero que fique constrangedor, que as pessoas de “bem” que vão às festas de aniversário de criança levando as babás dos seus filhos uniformizadas ainda por cima, se sintam constrangidas. A cada hora destampa-se mais um bueiro. Por exemplo, no ano passado eu fiz vários filmes, nove, precisamente, e nos últimos tempos, felizmente, tenho recebido muitos convites para o audiovisual. Então me vejo pela primeira vez com uns oito roteiros para ler. Agora depois de trinta e quatro anos vivendo na Cidade Maravilhosa! Imediatamente me lembrei de amigas minhas da mesma geração, só que brancas, e que há muitos anos estão sempre dizendo “que têm muitos roteiros para ler.” Eu me perguntava por que eu não recebia a mesma quantidade de convites? Por que era raro? Se eu contasse para uma amiga branca isso ela dizia que era paranoia minha. E quando eu perguntava a um produtor de elenco sobre a possibilidade de eu fazer esse ou aquele filme, a resposta era sempre a mesma “é difícil papel pra você; não tem papel pra você”.

Aviso ao leitor, isso aqui não é mimimi, isso aqui não é vitimismo, isso aqui é aquilo chamado fato acontecido do qual, por muito tempo, não havia nem espaço para falar. Felizmente há brancos abrindo suas redes para ocupações e há brancos dispostos a falarem os seus salários. Sim, dos seus salários, e por que? Há uma discrepância gigantesca entre o salário profissional negro e do profissional branco. Ponto. É verdade, ninguém inventou essa informação. A gente sempre soube que era diferente mas não sabíamos da proporção. Ninguém é obrigado a falar publicamente quanto ganha, mas podemos conversar pontualmente cada um com nossos amigos e estarmos preparados para a ajustar descalabrosa diferença. Se algum sindicato levasse a sério o tema, daria até cadeia, penso eu. Eu mesma tive um produtor que me disse logo que veio trabalhar comigo, quando soube do valor do meu cachê: “Nossa, isso é cachê de…” e citou uma atriz branca. Me lembro que fiquei chocada. O que será que ele queria me dizer? Somos duas artistas no mesmo mercado e eu ainda com o diferencial de ser escritora. De que será que ele falava? O que é que esse infeliz queria me dizer? Abriu-se a caixa de Pandora. Rompeu-se aquele silêncio e não somos mais tão poucos no corredor das vozes ouvidas. Estamos cada vez mais em bando e se cada um de nós é obrigado a se superar, a ser exímio em cada trincheira, nos imagine em grupo.Há muito tempo os movimentos sociais, em especial o movimento negro, vêm empunhando essas bandeiras e denunciando os mesmos absurdos que escrevi aqui. Mas só agora a branquitude parou para ouvir e descobriu que era ignorante, descobriu que quando estudou literatura, filosofia e cultura universal, ficou faltando a África. Descobriu que ser conhecedor somente da mitologia grega sem saber distinguir Exu de Oxum como bem mostra a mitologia negra, revela um déficit imenso na sua subjetividade. Toda a cultura universal ocidental que só se referenciou na sabedoria europeia é capenga, deficitária. É uma teoria falha porque falta-lhe um pedaço. Arrogante, o colonialismo ainda insiste em chamar a língua nativa dos povos de dialeto. E a voz dominadora de língua. Pois é, meus amigos, essa é a bagunça que temos nas mãos para organizar o caminho do que poderia se chamar o futuro de uma civilização. Para isso precisamos cuidar do presente.

Agora, nesse mês da Consciência Negra, algumas vezes eu tive que dizer: “Não aceito esse trabalho, não faço esse trabalho escravo, principalmente no mês da Consciência Negra, minha consciência não deixa! Fico achando sádico ser chamada para trabalhar de graça, para falar de antirracismo de graça, num mercado chefiado por brancos onde já valemos menos, e que nos obriga a lutar direitos all the time. Tem hora que dá cansaço. Flávia Oliveira costuma dizer quando perde a paciência com o que chamamos de white fragility: “Ai, gente, não é isso que eu queria dizer, será que isso é racismo? Eu não tive a intenção, minha babá é negra.” É quando Flavinha responde: “Ah, meu bem, o bloco de ensino fundamental é noutro prédio”.

Por fim, fiquei estarrecida ao concluir mais uma obviedade: Ora, a ideologia escravocrata justificou o domínio sob nossos corpos acorrentados com uma teoria genética de inferioridade étnica. E tentou-se inutilmente embranquecer o Brasil com base nessa teoria eugenista. Ora, mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: Se somos geneticamente inferiores, por que será então que é preciso roubar no jogo? Os brancos não ganhariam num jogo limpo? Enquanto fica a pergunta, chamo a branquitude esperta para a luta, para o aquilombamento contemporâneo. Por que não estudamos o Quilombo do Palmares é que não sabemos que nele viviam abolicionistas brancos, poetas, revolucionários, gays, humanistas, artistas, bravos anti escravagistas que se embrenhavam na luta contra aquele cancro social instalado. O racismo e sua necro política é um problema dos brancos e possui muitas formas de matar os pretos. Por isso é coisa para ser tratada imediatamente nesta hora furuncular. O cineasta Joel Zito Araújo sugere que todo dia é preciso matar o racista que existe dentro de cada um. Pois até quando vamos permitir e colaborar com o apartheid onde vivem os filhos brancos de tanta gente “bacana” brasileira? Quando Marthin Luther King fala contra o silêncio dos bons, é disso que ele estava falando, da grande omissão que muitas pessoas evoluídas, instruídas oferecem secularmente a essa causa. Eu vou repetir: No “esporte” da disputa econômica e social brasileira, os competidores não saem da mesma raia, não recebem o mesmo treino. De modo que os que não têm técnicos nem vitaminas, nem mestres, nem intercâmbios ficam predestinados pela sujeira do jogo, a limpar os sapatos dos campeões. Chega. A justiça, meus atentos leitores, é uma questão matemática. E o erro nosso não acontece na conta de somar, nem de multiplicar, nem de diminuir. O erro, minha cara gente branca, é na conta de dividir. Enquanto escrevo mais um negro é assassinado na porta do Carrefour.Todo racista está envolvido neste crime.

20 de novembro, pelo Direito ao direito, fim de primavera, 2020.

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30
Ago20

Papo de bar XIX! MST, Lava Jato, PGR, MP, Pré-sal e Paulo Guedes.

Talis Andrade

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por Emanuel Cancella

Quilombo Campo Grande:

A polícia não fez nenhuma investida contra os criminosos  fazendeiros, madeireiros e garimpeiros que estão envenenando, desmatando e tacando fogo na Amazônia, no Pantanal e nas matas atlânticas. Já contra os trabalhadores rurais, aqueles que respondem por mais de 70% dos alimentos que vão para a mesa dos brasileiros, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, bolsonarista,  ataca com despejo, bombas, caveirão e balas (1).

Lava Jato:

A Operação, fortalecendo seu lado criminoso, apresenta sua facção do “B”. Agora temos a Lava Jato que ataca os Marinhos, da Globo, aliada a Bolsonaro. Há também a Lava Jato do Moro, aliada aos Marinhos.

O mesmo acontece no Ministério Público, que há muito deixou de ser público: temos o ex-ministério público, aliado ao PGR Aras, e o ex-ministério público aliado à Lava Jato.

TRF suspende investigação contra Paulo Guedes por fraudes em fundos de pensão (2).

Paulo Guedes, quando ainda em campanha com o então candidato Bolsonaro, montou uma quadrilha com seu assessor, Esteves Colnago e outros, que deu rombo de 6.5 BI nos fundos de pensão das estatais, entre eles o da Petros (4,5).

Com a omissão criminosa da operação Greenfield, que investiga os fundos de pensão das estatais, e da Lava Jato, que investiga a Petrobrás, Guedes ainda ganhou de Bolsonaro o ministério da Economia.   Em resumo, Paulo Guedes não foi preso e nem paga pelo rombo.

E os petroleiros, mesmo sem nunca terem sido gestores da Petros,  estão pagando, no mínimo com 13% de seu salários de forma vitalicia, por rombo na Petros.  

Fundo do Pré-sal: Senado aprova projeto que retira R$ 242 bilhões da saúde e educação (3).

Estão roubando o futuro de seus filhos e netos. Nos royalties do pré-sal, 75% iriam para a educação e 25% para saúde.

Fonte: 1 - https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2019/07/agricultura-familiar-alimento-resistencia/

2 - https://www.brasil247.com/economia/trf-suspende-investigacao-contra-paulo-guedes-por-fraudes-em-fundos-de-pensao

3 - https://www.brasil247.com/brasil/fundo-do-pre-sal-senado-aprova-projeto-que-retira-r-242-bilhoes-da-saude-e-educacao

4 -  https://oglobo.globo.com/brasil/mpf-investiga-paulo-guedes-assessor-de-bolsonaro-por-suspeita-de-fraudes-em-fundos-de-pensao-de-estatais-23145487

5 - https://revistaforum.com.br/politica/paulo-guedes-promove-assessor-denunciado-por-rombo-de-r-55-milhoes-em-fundos-de-pensao/    

24
Mai20

Bolsonaro 7 x 1 Moro: nem quando poderia ajudar o lavajatismo prestou pra alguma coisa

Talis Andrade

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The Intercept
 

SERGIO MORO saiu do governo atirando não por motivos republicanos, mas porque foi traído. Aceitou ser ministro de Bolsonaro porque se via maior que o presidente – e de fato era, em popularidade e aceitação entre a classe média que se mantém minimamente longe da psicopatia. Moro, com a ideia de uma vaga no STF e a garantia de independência no ministério, levou toda a turma de Curitiba. Durou pouco e colecionou derrotas.

Seu principal projeto, o perigoso ‘pacote anti-crime’, foi decepado, com aval de Bolsonaro, que sancionou o cargo de juiz de garantias – sob protestos públicos de Moro – e tirou das mãos do ex-herói o Coaf, onde Moro e seus procuradores já costumavam ter um amigo para espiadelas ilegais em contas alheias. Queria um governo seu, paralelo; Bolsonaro pagou com o que se espera: traição.

Em depoimento à Polícia Federal, o ex-herói passou oito horas no prédio e pediu pizza. Gerou expectativa de delação premiada, disse que um vídeo confirmaria tudo. A imprensa cozinhou expectativas. E o vídeo não confirma muito. Na verdade, a sequência de frases dita por Bolosnaro durante a reunião o tira, por enquanto, das cordas. Nós sabemos que Jair queria, sim, controlar a PF no Rio para proteger o filho Flávio, mas isso não está absolutamente dado no vídeo chocado por Celso de Mello até ontem.

As promessas de Moro foram requentadas ainda mais pela parcela amiga da imprensa. Moro fala, publique-se. É assim, vocês sabem. Mas a montanha pariu um rato.

Na verdade, enquanto se estapeia publicamente com seu ex-ministro, Bolsonaro usa o episódio para reenergizar a base. Fora as frases escandalosas de sempre – quem se importa se ele fala palavrão? – o vídeo é ouro aos eleitores que ainda não abandonaram a gangue. Tem defesa demagógica do povo, tem palavrão (claro), tem armamentismo, ataque à imprensa e aos prefeitos e governadores, tem mentira sobre liberdade de expressão. Tem muito mais. É o enredo completo do plano extremista de destruição do que resta do país.

Gritamos na sala, mandamos áudios indignados pros amigos, mas perdemos a noção de como se cria de fato uma peça de propaganda positiva no seio do radicalismo da terra plana. Eles já fizeram carnavais em condições muito mais adversas. O vídeo já está sendo usado nas redes, com óbvio sucesso.

Ou: o que vocês acham de frases como essa?

“E o que me fez, naquele momento, embarcar junto era a luta pela … pela liberdade. Eu não quero ser escravo nesse país. E acabar com essa porcaria que é Brasília. Isso daqui é um cancro de corrupção, de privilégio.”

– Ela foi dita por Abraham Weintraub.

E que tal essa?

“São pessoas aqui em Brasília, dos três poderes, que não sabem o que é povo. Eu converso com alguns, não sabe o que é o feijão com arroz, não sabe o que é um supermercado. Esqueceu.”

– Ela foi dita por Jair Bolsonaro.

E essa?

“Os nossos seringueiros são em números maiores do que a gente imagina no Brasil. Então, tudo que nós fomos construir, nós vamos ter que ver, ministro, a questão dos valores também. A questão, os nossos quilombos estão crescendo e os … e os meninos estão nascendo nos quilombos e seus valores estão lá. Então, tudo vai ter que ver a questão dos valores.”

– Ela foi dita por Damares Alves.

Os clips já estão sendo espalhados pela internet, mostrando que até mesmo a portas fechadas “o governo está com o povo”. É falso, mas funciona. Sergio Moro fez um favor ao bolsonarismo. Quem acha o ex-juiz um gênio estrategista precisa repensar tudo.

 

 

 

 

03
Jan19

A posse

Talis Andrade

bandeira laranja bolsonaro .jpg

 

 

 

Não irei à sua posse,
Pq sou negro cotista,
Sou filho da diarista,
Daquela cuja empregada,                                                                                                                          que a carteira assinada
Vc queria negar.
Não irei à sua posse,
Pq sou homoafetivo,
Filho do índio nativo,
Dono desse lugar,
Cujas terras demarcadas
Vc reluta em tomar.

.

Não irei à sua posse,
Pq sou mulher educada,
Não nasci de fraquejada,
E luto por igualdade,
E isso me engrandece.
Mas respeito e liberdade
não é coisa pra covarde,
Isso vc desconhece.

.

Não irei à sua posse,
Pq sou trabalhador,
Se sem direitos estou
É pq vc contribuiu
Pra reforma trabalhista.
Assassinou o sindicato,
E o povo pagará o pato
Do modelo escravagista.

Não irei à sua posse,
Pq eu sou um retirante,
Filho de um imigrante,
Imitante de Jesus,
Que também por um instante,
foi um simples imigrante,
Pra cumprir com sua cruz.

.

Não irei à sua posse ,
Pq sou deficiente,
Sou humano, sou valente,
Mas tenho vergonha na cara.
Minha cadeira de rodas
Segue outra direção:
A do respeito, inclusão,
A direção bem contrária,
Dessa farsa anunciada.

.

Não irei a sua posse,
Pq eu sou a poesia,
Sou poeta sou folia,
Sou a cantiga de rodas.
Sou quilombo, sou favela,
Sou a pipa da janela,
Voando a favor do vento,
Caindo na plantação
De uma reforma agrária.
Sou a raça libertária,
Sou alegria perene,
Por isso não me condene!                                                                                                                                                                                                           Sua graça é temporária.    

 

---

Da página de Maria Lucia

no Faceboox

02
Jan19

HADDAD SOBRE SALÁRIO MÍNIMO MENOR: AGORA É SELVA, E SEM COITADISMO

Talis Andrade

clayton ministério trabalho.jpg

 

 

Fernando Haddad comentou a primeira decisão do presidente Jair Bolsonaro, que foi tirar 8 reais dos trabalhadores mais pobres, ao fixar o novo salário mínimo em R$ 998, abaixo do Orçamento da União para este ano aprovado pelo Congresso Nacional - o mínimo passaria dos atuais R$ 954 para R$ 1.006.

"Povo começou a se libertar do socialismo: salário mínimo previsto de R$ 1006,00 foi fixado em R$ 998,00. Sem coitadismo. Selva!", escreveu Haddad em sua conta no Twitter.

A ironia de Haddad, ao falar em "coitadismo", faz referência a declarações de Bolsonaro durante a campanha eleitoral e mesmo antes de ser candidato a presidente sobre acabar com o que ele mesmo chama de coitadismo das minorias, ao dependerem de políticas inclusivas do governo federal.

Haddad tem postado no Twitter diversos críticas em tom irônico ao governo Bolsonaro. Antes da posse, ridicularizou Bolsonaro ao desejar "feliz ano bozo" e usar o "taoquei" do presidente. Também nesta quarta, disse que irá "torcer para dar certo" com a demarcação de terras nas mãos dos ruralistas, já indicando que certamente não dará. "Ministério do Agronegócio cuidará de reforma agrária e da demarcação de terras indígenas e quilombolas. Vamos torcer para dar certo", disse ele no Twitter.

custo de vida corte inflação salário Anne Deren

 



16
Out18

PASTORAIS SOCIAIS DA CNBB: BOLSONARO USA DEMOCRACIA PARA DESTRUÍ-LA

Talis Andrade

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Pastorais Sociais, Pastorais do Campo e outras entidades da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tornaram pública a nota "Democracia: mudança com Justiça e Paz" alertando para possíveis retrocessos sociais com uma eventual eleição de Jair Bolsonaro (PSL); "A Constituição sai ferida com esta intolerância que nega a diversidade do povo brasileiro, estimula preconceitos e incentiva o conflito social"

 

LAVA-PES.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

Pregam a tortura e a pena de morte, sustentam que as mulheres podem ter menos direitos que os homens, usam de violência contra a população LGBT, discriminam negros, índios e quilombolas com insultos, racismo e xenofobia

 

 

coroação.jpg

Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius  (Jo 19, 1)
 
 
 

 

Pastorais Sociais, Pastorais do Campo e outras entidades da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tornaram pública nesta segunda-feira (15) a nota "Democracia: mudança com Justiça e Paz" alertando para possíveis retrocessos sociais com uma eventual eleição do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL).

 

"A Constituição sai ferida com esta intolerância que nega a diversidade do povo brasileiro, estimula preconceitos e incentiva o conflito social. Estes candidatos e seus seguidores, que pregam a tortura e a pena de morte, sustentam que as mulheres podem ter menos direitos que os homens, usam de violência contra a população LGBT, discriminam negros, índios e quilombolas com insultos, racismo e xenofobia. Em resumo, atacam a democracia pelo desprezo dos seus valores republicanos", diz o texto.

 

De acordo com a nota, "nosso Brasil pode ter divergências, porém sem ódio". "Há necessidade do crescimento da economia com diminuição da desigualdade. Com base nestes valores, temos o dever fraterno de alertar a todos os nossos concidadãos e concidadãs, para que sua escolha no 2º turno contemple os princípios aqui defendidos e o candidato que os representa, integrante de uma ampla frente democrática pluripartidária, para assegurar um futuro de Justiça e de Paz para o Brasil".

 

 Os ricos estão cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres

 

Há trinta anos a Constituição Federal entrou em vigor. Os constituintes objetivaram instituir "um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias".

 

No processo eleitoral em curso, um movimento antidemocrático fere estes valores supremos assegurados pela Constituição e apela ao ódio e à violência, colocando o povo contra o povo. Demoniza seus opositores, classifica-os de comunistas e bolivarianos, menospreza a população do nordeste brasileiro e tenta semear o ódio e o medo. Esta atitude já se concretiza por meio de agressões e assassinato contra os que manifestam posições divergentes.

 

A Constituição sai ferida com esta intolerância que nega a diversidade do povo brasileiro, estimula preconceitos e incentiva o conflito social. Estes candidatos e seus seguidores, que pregam a tortura e a pena de morte, sustentam que as mulheres podem ter menos direitos que os homens, usam de violência contra a população LGBT, discriminam negros, índios e quilombolas com insultos, racismo e xenofobia. Em resumo, atacam a democracia pelo desprezo dos seus valores republicanos.

 

O candidato deste movimento quer se valer de eleições democráticas em sentido contrário para dar legalidade e legitimidade a um governo que pretende militarizar as instituições, garantir impunidade aos abusos policiais, armar a população civil e reduzir ou cortar programas de direitos humanos e sociais. Em poucas palavras, é o abandono do Estado Democrático de Direito.

 

O Brasil é um país de desigualdades sociais profundas em que os ricos estão cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres. Estes candidatos antidemocráticos atendem às imposições do sistema financeiro e da política neoliberal que atacam direitos sociais, ambientais e o patrimônio do país. As possíveis consequências deste programa são: o fim do décimo terceiro salário, a diminuição do Bolsa Família, a extinção das cotas nas universidades e a privatização sumária das estatais. Na verdade, tais medidas constituem a intensificação do Governo Temer, que está produzindo desemprego, sofrimento e abandono da população.

 

Tais políticas, já receberam veemente condenação do reconhecido líder mundial, o papa Francisco: "Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata." (Evangelii Gaudium, 53).

 

Este movimento apoia um candidato que pretende ser um político novo, salvador da pátria, que está no Congresso há quase trinta anos, trocou de partido oito vezes e não aprovou um projeto sequer para melhorar as condições de vida do nosso povo, votando contra todas as políticas sociais que beneficiariam os trabalhadores e trabalhadoras, principalmente, os mais pobres.

 

Por tudo isso, nós, integrantes de organizações da sociedade civil, portadores da convicção da inafastável dignidade da pessoa humana, fundamento dos direitos humanos, não podemos nos omitir. Respeitamos todos aqueles que, por motivos variados, tenham votado no 1º turno sem atentar para estes valores, mas queremos dialogar francamente com todos. A possibilidade de se instalar um governo como esse movimento deseja, retoma o passado de ditadura já superado.

 

Nosso Brasil pode ter divergências, porém sem ódio. Há necessidade do crescimento da economia com diminuição da desigualdade. Com base nestes valores, temos o dever fraterno de alertar a todos os nossos concidadãos e concidadãs, para que sua escolha no 2º turno contemple os princípios aqui defendidos e o candidato que os representa, integrante de uma ampla frente democrática pluripartidária, para assegurar um futuro de Justiça e de Paz para o Brasil.

Brasília, 15 de Outubro de 2018

Cáritas Brasileira
CBJP - Comissão Brasileira Justiça e Paz
CCB - Centro Cultural de Brasília
CIMI - Conselho Indigenista Missionário
CJP-DF - Comissão Justiça e Paz de Brasília
CNLB - Conselho Nacional do Laicato do Brasil
CPT - Comissão Pastoral da Terra
CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil
FMCJS - Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
OLMA - Observatório De Justiça Socioambiental Luciano Mendes De Almeida
Pastoral Carcerária Nacional
Pastoral da Mulher Marginalizada
Pastoral Operária
SPM - Serviço Pastoral do Migrante

21
Set18

Bolsonaro, um imbecil político

Talis Andrade

Por que não praticou crime de ódio no caso quilombolas


Infelizmente o preço da democracia é aceitar que até contra ela um parlamentar eleito pelo povo possa falar



por Thiago Gomes Anastácio

___

 

Minha opinião sobre Jair Bolsonaro é pública.

 

Pois bem: tenho-o como um imbecil político. Experiente por causa do tempo parlamentar, sempre esteve nos seus vinte anos de Congresso apoiando ora partidos de esquerda e candidatos de esquerda quando estavam no Poder e ao outro lado, dizendo-se de direita, quando interessou ao seu marketing pessoal. Projeto legislativo ou atuação relevante? Nenhuma.

 

Confessou transar com galinhas e bodes na adolescência, embora se tivesse um filho gay considerasse que “foi por falta de porrada”. Parece anterior aos Sapiens.

 

Hoje convalesce no hospital e como já escrevi, espero que melhore o mais brevemente possível. Não odeio o homem e torço por seu bem estar e de seus familiares, mas sou absolutamente contrário à sua mentalidade.

 

Mas uma coisa é uma coisa, outra é outra.

 

Parece-me impossível, no caso Quilombolas, assentar que Jair Bolsonaro pudesser ser acusado por crime de ódio. Sua fala, como soi acontecer, foi inculta, desonesta, estúpida e beirou a insanidade, mas impossível afirmar que não estava, naquele momento, dentro do proselitismo político de quem é contrário à demarcação de terras quilombolas ou dos índios – o que aceitável (aceitar não é concordar) dentro do espectro político dicotômico.

 

Infelizmente o preço da democracia é aceitar que até contra ela – a democracia – um parlamentar eleito pelo povo possa falar.

 

E Bolsonaro representa parcela relevante da população que (não)pensa como ele. Assim é o país que sabe que uma Presidente foi deposta por ilícito em desuso (já que outrora iguais governantes praticaram o mesmo ato e não houve interesse de agir, embora fossem obrigados a…), pois que perdera o controle político da Nação.

 

Ou seja, atitudes parlamentaristas no presidencialismo, ilegalidades do presidencialismo com legalidades que não aceitamos no plebiscito sobre o parlamentarismo. Não me referirei novamente como gostamos de mentirinhas e o caso dos penduricalhos dos juízes. Tema antigo já que está resolvido por Michel Temer e Luiz Fux, relator do caso no STF.

 

Bom, siga-se.

 

Existe, em análise simples, apenas uma hipótese de afastamento da imunidade parlamentar no caso de lançamento de ofensas à terceiros. E qual seria ela? Quando a ofensa não se relacionar às ideias políticas nas circunstâncias do debate em trava, ou seja, quando os atos do cidadão por detrás da imunidade parlamentar visar atingir desafetos, inimigos, descordantes de ordem pessoal e não político-representativa.

 

E como não desequilibrar os Poderes? Seria interessante, até mesmo, consulta do Judiciário ao Legislativo, com prazo de poucas horas, pedindo opinião seja de qual Casa sobre se estaria, segundo seu decoro, o parlamentar em atos parlamentares/políticos. Um filtro do Congresso, a quem primeiramente o bem estar político é protegido com a imunidade constitucional.

 

Em outro lado, como no caso de Maria do Rosário, Bolsonaro deveria ter sua imunidade afastada pelo simples e exclusivo motivo de não estar agir:

 

a) Dentro de um debate público, de ideias;

 

b) Ter ofendido uma pessoa em sua sexualidade e gênero e não o seu pensamento, contrapondo-o como poderia até mesmo com um palavrão, ironia, ou qualquer outra forma de denegrir a mensagem alheia. Aqui um ponto: se ele estivesse falando sobre posições políticas como aborto e casamento de homoafetivos, estaria imune.

 

Também não se confunda o locus da imunidade: um parlamentar, no debate político, em atos públicos dentro e fora do parlamento, continua exercendo legitimamente um mandato popular – que deveria ser – sobre ideias. Se discursar do banheiro num mega-fone para duas pessoas a imunidade deve o proteger.

 

Pode-se destacar uma historieta inventada:

 

a) Jair Bolsonaro desce do seu apartamento no Rio de Janeiro e com sua eloquência de Demóstenes e cultura de Ruy Barbosa e começa a discutir com o porteiro do seu prédio, a quem imediatamente chama de “preto, viado, nordestino” e outras coisas que não nos espantariam de ouvir da boca dele.

 

Que correlação haveria entre as proteções parlamentares das liberdades políticas com esse fato? Nenhuma.

 

Mas dentro de um comício o discurso de ódio deve ser abarcado por essa imunidade? Bom, aí temos um problema real que precisa de melhor análise.

 

Pegue-se esses dois exemplos seguintes.

 

Um comício:

 

b) “Senhores aqui da Hebraica-RJ, temos que ter um maior controle sobre as finanças da comunidade judaica e suas relações culturais com doleiros, já que boa parte dos nomes apontados como dessa atividade são judeus e muitas das repatriações feitas foram feitas por judeus. E quem disse isso foi meu futuro Ministro, Marcelo Bretas, presidente da Operação Câmbio Desligo. Outra coisa, tome-se cuidado com Israel, país de métodos nazistas que talvez esteja praticando crimes contra a humanidade na Faixa de Gaza”. (trata-se de uma alegoria, ok?).

 

Esse o primeiro exemplo e provocador sim, diante do apoio que a comunidade judaica concede a um político com esse tipo de ideais e dizeres, ainda mais pelos horrores vividos por tão espetacular povo nos últimos séculos.

 

Estaria nosso novo Ruy Barbosa, imune? Sim. Sem dúvida alguma. Agiria através do proselitismo para fazer compreender seu ponto de vista de assunto que, até por ser penal inter e fora pátria brasileira, interessa a todo o público, não apenas aos presentes.

 

E este segundo, que num jantar para seis pessoas:

 

c) “Meus amigos, fico espantado de vocês falarem de Holocausto na minha frente. Vocês judeus é que pensaram o comunismo e aceitaram um Pastido Nacional SOCIALISTA. Mereceram!”.

 

Ele age como um parlamentar nesse segundo exemplo?

 

Não, mas como um homem inculto, despreparado, sem conhecimento histórico e o mínimo de razoabilidade humana. Age com o intuito de ofender pessoas, uma cultura, um povo apenas tendo por base o nome socialista e um fato histórico: os grandes pensadores do comunismo terem sido judeus (se bem que quase todos os grandes pensadores de tudo eram desse maravilhoso povo). Trata-se, pois, de crime.

 

Entendo as posições mais xiitas sobre as imunidades parlamentares e das liberdades políticas, pois é evidente o quadro de insegurança jurídica que se observa nos Tribunais e as motivações políticas desses mesmos Tribunais e as razões de decidir das Casas parlamentares.

 

O que não se pode é passar por momento fático tão importante, trazidos pelas delicadezas desse “senhor” e perdermos a oportunidade de estabelecermos critérios para que coisas desiguais continuem sendo tratadas como se iguais fossem.

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20
Set18

RACISTA Bolsonaro diz que negros "não fazem nada" e "nem para procriadores servem mais”

Talis Andrade

Deputado Jair Bolsonaro, em discurso no Clube Hebraica, no Rio, comparou negros quilombolas a animais de carga, usando o termo "arrobas" para se referir ao seu peso, e os chamou de inúteis, dizendo que "não fazem nada"

 

Jair  Bolsonaro é denunciado pelo crime de racism

 

 

Bolsonaro mostrou que é racista, dizendo que os negros quilombolas são inúteis. Ele se referiu aos negros usando a mesma linguagem que é usada para animais de carga: fala sobre seu peso em "arrobas", e diz que "nem para procriadores servem mais". Essa é a mesma linguagem que usavam os senhores de engenho e donos de escravos. Os quilombolas foram justamente os negros escravizados que fugiram e criaram suas próprias comunidades, enfrentando a escravidão. Talvez seja por isso mesmo que Bolsonaro os considere "inúteis".

 

Certamente, Bolsonaro não pensa se ele próprio, seus filhos ou seus ídolos militares são "úteis" se baseando em seu peso ou se eles tem filhos ("procriam") ou não. Essa forma de julgar ele só usa com os negros, porque é um racista que os vê como animais, e não como gente.

 

Para quem acha que foi o primeiro caso de racismo de Bolsonaro, vale lembrar outros episódios. O vídeo abaixo foi tirado do programa CQC em 2011. Ao 1:00 do vídeo podemos ver Bolsonaro responder à pergunta "se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?". Ele diz que não corre esse risco porque seus filhos "foram muito bem educados". Ele diz que namorar uma mulher negra seria "promiscuidade", que é uma mistura confusa, desordenada e imoral. Ele acha imoral justamente porque pensa que os negros são animais que só servem para "procriar", e por isso seria uma mistura imoral colocar um filho seu, branco, junto com uma mulher negra, que considera um animal de carga.

 

Se não há mais declarações públicas de Bolsonaro que mostrem explicitamente seu racismo, como nesses dois casos, isso é porque ele sabe que muitos de seus eleitores - principalmente no Rio de Janeiro - são negros. E, como qualquer político oportunista, ele quer em primeiro lugar seus votos. Mas as declarações da Hebraica não deixam mais nenhuma dúvida: Bolsonaro é um racista. | Edição do dia 5 de abril de 2017. Leia mais: “Nem pra procriar eles servem mais” diz Bolsonaro sobre afrodescendentes de quilombos

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16
Set18

Grupo ‘Mulheres Unidas Contra Bolsonaro’ publica carta contra o fascismo

Talis Andrade

O tratamento desrespeitoso dirigido às mulheres, aos negros, indígenas, homossexuais, o culto à violência, a agressão contra adversários, a defesa da tortura e de torturadores, constituem manifestações que devem ser combatidas por aqueles que acreditam nos princípios civilizatórios que possibilitam a existência de uma sociedade democrática e plural

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Grupo 'Mulheres Unidas Contra Bolsonaro', organizado na rede social Facebook, publicou carta 

 

CARTA DAS BRASILEIRAS EM DEFESA DA DEMOCRACIA, DA IGUALDADE e RESPEITO À DIVERSIDADE

 

mulheresunidas por Schröder.jpg

 

 

O Brasil vive um momento especialmente dramático de sua história. Nas eleições mais conturbadas após o fim da Ditadura civil militar, assistimos à perigosa afirmação, por um dos candidatos à Presidência, de princípios antidemocráticos, expressos num discurso fundado no ódio, na intolerância e na violência.

 

Se a posição deste candidato era pública, tendo sido reiteradamente manifesta ao longo dos 27 anos em que vem atuando na Câmara Federal, causa perplexidade a adesão a tais princípios por parte significativa da sociedade brasileira.

 

O tratamento desrespeitoso dirigido às mulheres, aos negros, indígenas, homossexuais, o culto à violência, a agressão contra adversários, a defesa da tortura e de torturadores, constituem manifestações que devem ser combatidas por aqueles que acreditam nos princípios civilizatórios que possibilitam a existência de uma sociedade democrática e plural.

 

Neste contexto, nós, mulheres, vítimas de agressões e desqualificações por parte deste candidato, viemos à público expressar nosso mais veemente repúdio aos princípios por ele defendidos, conclamando a população brasileira a se unir na defesa da democracia, contra o fascismo e a barbárie.

 

Somos muitas, para além de UM MILHÃO que integra este grupo. Defendemos candidatos e candidatas distintas, dos mais diferentes matizes político- ideológicos. Temos experiências e visões de mundo diversas, assim como são distintas nossas idades, orientações sexuais, identidades étnico- raciais e de gênero, classe social, regiões do país em que vivemos, posições religiosas, escolaridade e atividade profissional.

 

Na verdade, nos constituímos como coletivo a partir de uma causa comum, expressa nesta carta: a rejeição à prática política do candidato e aos princípios que a regem. Nos constituímos nas redes sociais, unidas numa corrente crescente e ativa, pela necessidade de tornar pública nossa posição no exercício da cidadania e participação, a partir da identidade feminina que nos congrega.

 

Nós, mulheres, historicamente inferiorizadas e marginalizadas, sujeitas a toda sorte de violência e desrespeito, recusamos hoje o silêncio e a submissão, herdeiras de uma luta há muito travada por mulheres que nos antecederam.

 

Somos aquelas que constituem a maioria do eleitorado brasileiro, ainda que sub-representadas na política partidária. Somos aquelas que, gestando e alimentado novas vidas, defendemos o direito de todos e todas a uma vida digna. Somos aquelas que, temendo pelas nossas vidas, pelas vidas de nossos filhos, filhas, companheiros e companheiras, diante da violência que assola e corrói a sociedade brasileira, somos contra a liberação do porte de armas, que só irá piorar o já dramático quadro atual.

 

Somos aquelas que, recebendo salários inferiores, com menor chance de contratação e progressão nos espaços de trabalho, entendemos que cabe aos governantes, à semelhança do que já ocorre em muitos países, construir políticas de igualdade salarial entre homens e mulheres.

 

Somos aquelas que , vítimas de assédio, estupro, agressão e feminicídio, defendemos o direito à liberdade no exercício da vida afetiva e sexual, demandando do Estado proteção e punição aos crimes contra nós cometidos.

 

Somos aquelas que protestam contra a perseguição e violência contra a população LGBTQ, porque entendemos que cada ser humano tem direito a viver sua identidade de gênero e orientação sexual.


Somos aquelas que se insurgem contra todas as formas de racismo e xenofobia, que defendem um país social e racialmente mais justo e igualitário, que respeite as diferenças e valorize as ancestralidades.

 

Somos aquelas que combatem o falso moralismo e a censura às expressões artísticas, que defendem a livre manifestação estética, o acesso à cultura em suas múltiplas manifestações.

 

Somos aquelas que defendem o acesso à informação e a uma educação sexual responsável, através de livros, filmes e materiais que eduquem as crianças e jovens para o mundo contemporâneo.

 

Somos aquelas que defendem o diálogo e parceria com escolas, professores e professoras na educação de nossos filhos e filhas, sustentados na laicidade, no aprendizado da ética, da cidadania e dos direitos humanos.

 

Somos aquelas que querem um país com políticas sustentáveis, que respeitem e protejam o meio ambiente e os animais, que garanta o direito à terra pelas populações tradicionais que nela vivem e trabalham.

 

Somos muitas, somos milhões, somos:

#MULHERES UNIDAS CONTRA BOLSONARO
CONTRA O ÓDIO, A VIOLÊNCIA E A INTOLERÂNCIA

 

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