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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Set21

Em quarentena nos EUA, Marcelo Queiroga receberá R$ 34 mil por diárias

Talis Andrade

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Ministro do governo brasileiro tem direito à diária de US$ 460 por dia, quando viaja a serviço

 
 
A quarentena do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em Nova York, custará R$ 34 mil em diárias ao governo brasileiro. Queiroga testou positivo para a Covid-19 nesta terça-feira (21/9), durante viagem à Assembleia Geral da ONU. Sem poder voltar ao Brasil, ficará isolado nos Estados Unidos pelas próximas duas semanas.
 

Segundo decreto de 2008, cada ministro do governo brasileiro tem direito à diária de US$ 460 por dia, quando viaja a serviço. O valor é o mais alto da tabela.

Como ficará em quarentena nos próximos 14 dias, Queiroga receberá US$ 6.440, o equivalente a R$ 34 mil.

Comitiva

O secretário de Comunicação da Presidência, André Costa, informou, nesta quarta-feira (22/9), que a comitiva que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) tinha cerca 50 pessoas.

Durante pronunciamento, no Palácio do Planalto, Costa afirmou que todos os integrantes, incluindo o mandatário do país, estão assintomáticos e devem fazer um teste para detectar se foram infectados pela Covid-19 no fim de semana. Durante esse tempo, permanecerão em isolamento.

As medidas sanitárias foram adotadas depois que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, testou positivo. O ministro, que integrou a comitiva, está em isolamento nos Estados Unidos.

“Bolsonaro mandou mensagem falando que vai ficar de casa”, diz Mourão

 
 

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) disse, nesta quarta-feira (22/9), que não conversou com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) depois que ele voltou da viagem aos Estados Unidos.

“Ele só me mandou uma mensagem dizendo que vai ficar em casa”, declarou Mourão, após ser questionado por jornalistas na saída de seu gabinete, nos anexos do Palácio do Planalto.

Mais cedo, nesta quarta, o secretário de Comunicação da Presidência, André Costa, informou que tanto Bolsonaro quanto a comitiva que o acompanhou durante a viagem aos Estados Unidos estão assintomáticos e serão submetidos, no fim de semana, a um teste RT-PCR para detectar se foram infectados pela Covid-19. Durante esse tempo, permanecerão em isolamento.

As recomendações foram adotadas após diagnóstico positivo do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para Covid-19. Segundo o secretário, Bolsonaro e a comitiva seguirão o Guia de Vigilância Epidemiológica da Covid-19, do Ministério da Saúde, que determina, para indivíduos assintomáticos, coleta do exame no período mínimo de cinco dias após o último encontro com o caso suspeito ou confirmado da doença, o que, neste caso, deve ocorrer entre sábado (25/9) e domingo (26/9).

“A comitiva que acompanhou o presidente da República nessa visita à Organização das Nações Unidas também foi toda orientada a permanecer seguindo o Guia de Vigilância Epidemiológica, publicado desde abril deste ano. […] O presidente da República encontra-se no Palácio da Alvorada, assintomático. Totalmente assintomático e seguirá, então, essas orientações”, informou o secretário.

Segundo André Costa, no caso de resultados negativos, os integrantes serão acompanhados por um médico até o 14º dia após o último contato com o ministro Queiroga. “Permanecendo, então, assintomático, está descartado o caso de Covid”, disse.

 

 

22
Jun21

Os sonhos de um país em destruição

Talis Andrade

Ilustração: Márcia Tiburi

 

Pesquisadores e psicanalistas analisaram mais de 1.500 sonhos de brasileiros durante a pandemia. Constataram forte presença da casa e a sensação do infamiliar: o sentimento paradoxal de estranhar o que deveria parecer habitual

 

por Juliana de Moraes Monteiro e Gilson Iannini /OutrasPalavras

- - -

Mas eu estava estarrecida. Minha roupa ainda estava manchada de sangue. Aproveitei que ainda não tinha sido vista por ninguém, me encolhi e fui me esconder atrás de uma árvore. Minha mão também estava manchada de sangue, porque eu tinha comido pedaços de carne que estavam caídos no chão daquele celeiro. Eu tinha esfregado o sangue vermelho da carne crua e mole na gengiva e no céu da boca. O reflexo dos meus olhos estava brilhando na poça de sangue no chão do celeiro. Foi tudo tão real. A sensação de mastigar carne crua, o meu rosto, o brilho dos meus olhos. Parecia o de alguém que conheci pela primeira vez, mas era meu rosto. Quero dizer, pelo contrário, parecia tê-lo visto tantas vezes, mas não era meu rosto. Difícil explicar. Era familiar e desconhecido ao mesmo tempo… essa sensação real e esquisita, terrivelmente estranha.”

Publicado no Brasil em 2018, o romance A vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang, narra a história de uma mulher que, após ser acometida por sonhos terríveis, decide parar de comer carne. Yeonghye, descrita como a pessoa mais comum do mundo, é uma personagem de ficção, mas poderia ser uma mulher brasileira narrando seus sonhos para a pesquisa Sonhos confinados em tempos de pandemia, desenvolvida por universidades brasileiras com o intuito de investigar os efeitos psíquicos do confinamento na vida de indivíduos anônimos – dos quais cerca de três quartos se declararam do sexo feminino. Os sonhos fictícios dessa protagonista são relatados ao longo do livro e trazem para o primeiro plano, como evidencia a passagem aqui transcrita, esse afeto “familiar e desconhecido ao mesmo tempo”, essa “sensação real e esquisita, terrivelmente estranha” vivida pela personagem nas imagens que aparecem em seu sono e que trazem, a partir das descrições do conteúdo onírico, a marca do que Sigmund Freud nomeou como infamiliar em seu célebre ensaio de mesmo nome, cerca de cem anos antes: “tudo o que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que veio à tona”.

A narradora de A vegetariana vê o próprio rosto como se estivesse vendo alguém pela primeira vez ou, inversamente, como se não pudesse mais reconhecê-lo – o que mostra que o caráter paradoxal do conceito freudiano de infamiliaridade não tem a ver com o desamparo diante de algo externo ao psiquismo, com um outro maligno que nos assusta e afeta, mas com uma experiência singular diante de nossa própria disjunção: “um não se sentir em casa em casa”, como escreveu a filósofa francesa Barbara Cassin. 

É importante ressaltar o contexto histórico do romance coreano. Em 1919, ano de publicação do ensaio O infamiliar, a Primeira Grande Guerra havia terminado pouco antes (1914-18) e a pandemia de gripe espanhola se alastrava (1918-20), chegando depois a levar Sophie, filha de Freud. As similitudes entre aquele contexto e o nosso são inegáveis. Estamos, de novo, em meio a uma doença epidêmica que já ceifou centenas de milhares de vidas ao redor do mundo e desmantelou grande parte de nossos quadros referenciais, denunciando o caráter inegavelmente frágil do que entendemos como “realidade”. As imagens ficcionais da narradora do romance dão indícios de uma sensação indeterminada entre a familiaridade e o desconhecimento – propriamente o que Freud chamava de “infamiliar”. Essa indeterminação entre o eu e o outro, esse outro íntimo e próximo, é vivida por Yeonghye de forma cada vez mais avassaladora ao longo do livro, como se, através do conteúdo onírico da personagem, o infamiliar pudesse ser alçado à condição paradigmática da existência na contemporaneidade, para a qual a arte operaria como um sismógrafo, detectando movimentos e abalos ínfimos que só serão sentidos ou percebidos a posteriori no mundo factual.

Lançado em 2014 na Coreia do Sul, A vegetariana se tornou um fenômeno e parece antecipar ecos de uma situação que se radicalizaria ao longo da pandemia. Se a “casa” é o lugar no qual supostamente nos sentiríamos seguros e protegidos diante das ameaças do mundo externo, o que aconteceria com os indivíduos em uma situação imposta, na qual fossem impedidos de sair de casa? Esperávamos, então, que as imagens oníricas narrassem um pouco a virada trazida por esse evento que atravessou as sociedades em escala global. 

Valendo-se do uso de ferramentas de processamento de linguagem natural, a pesquisa mostrou que casa é o significante por excelência dos sonhos em tempos de pandemia, sendo a palavra mais recorrente e mais conectada em uma quantidade expressiva de sonhos recolhidos em uma base de dados. Foi a partir dessa constatação que pudemos pensar uma ideia de sonhos infamiliares por meio de uma releitura contemporânea do conceito freudiano. Grosso modo, o infamiliar é um sentimento paradoxal, quando estranhamos o que nos é familiar, quando sentimos desconhecer o que conhecemos há muito. Nesse sentido, podemos pensar como o infamiliar, ou mais precisamente como uma experiência generalizada do sentimento de infamiliar, é uma chave que possibilita ler os sonhos pandêmicos. Neste momento em que as fronteiras entre ficção e realidade parecem se dissolver e se embaralhar, o conceito freudiano pode operar como paradigma de nossa condição contemporânea, ao mesmo tempo que o acontecimento pandemia teria explicitado essa generalização – como se, a cada dia, dispuséssemos de menos indícios de compartilhar uma mesma e única realidade. 

Assim, muitas de nossas
experiências subjetivas
mostram-se instáveis,
reiteradamente submersas
em novas espacialidades,
virtualidades, rupturas
espaço-temporais.

Há, também, dimensões traumáticas que se tornaram feridas ainda mais expostas durante a pandemia, evidenciando a enorme desigualdade social brasileira, os racismos e as violências contra corpos diversos – pesadelos que invadem o sonho e a vigília.

“Sonhei que estava em casa, muito real, muito mais real que a maioria dos meus sonhos, nesse tinha cores vivas e um ambiente íntegro, diferente de outros sonhos confusos, em preto e branco, que normalmente tenho. Minha casa estava cheia de gente, como normalmente ela fica quando tem gente da célula da igreja aqui, e havia dois dos meus melhores amigos que não vejo desde antes da quarentena. Um deles estava bebendo água na geladeira, eu falava com ele e depois atirava nele, em primeira pessoa, e ele se escondia atrás da porta da geladeira, aí meu outro melhor amigo corria pro quintal, onde estava cheio de gente, e eu dava dois tiros à queima-roupa nele também, ainda em primeira pessoa, e ele caía ensanguentado. As pessoas olhavam indiferentes pra morte, meu pai dizia como meu amigo era legal. Aí eu me dava conta do que fiz, ia até o banheiro correndo pra dentro de casa, daí para frente o sonho mudou para terceira pessoa, e a ‘câmera’ focava em mim enquanto eu não via o que estava à frente pois corria em direção à ‘câmera’, então surgia no banheiro chorando e dizendo isso é só um sonho, só pode ser um sonho, não é real, não é real, mas falando isso acreditava que era real mesmo assim, aí acordava.” (Mamute, 20 anos, 12/6/2020)

O infamiliar, nesse sentido, não é a perda do familiar, a perda do lar. Trata-se de uma operação mais sofisticada, na qual o significante casa, costumeiramente relacionado à ideia de amparo e de acolhimento, já não garante a experiência de habitar uma morada segura ou sólida. Do mesmo modo como a personagem do livro de Han Kang, Mamute sonha com uma casa, “muito mais real que a maioria dos meus sonhos”, sublinhando essa diluição das demarcações trazidas pelo infamiliar. “Alguém matou uma pessoa e outro alguém escondeu o corpo, sem deixar rastros. No momento em que acordei, porém, me esqueci do sonho, fui eu que cometi o crime? Ou fui eu a vítima? Se era a assassina, quem matei? Você, talvez? Era alguém muito próximo. Ou então foi você que me matou…? E quem terá sido a pessoa que escondeu o cadáver? Com certeza não era eu nem você”, lemos nas páginas do romance que, em muito, se confundem com o relato do sonho de Mamute – um indivíduo, uma pessoa que existe de fato.

Em outro sonho, ela relata estar em um prédio “aparentemente sólido”, do qual teve que sair às pressas por algum motivo desconhecido. Em um primeiro momento, a solidez do prédio nos remete à ideia de um local seguro. Todavia, ao sair com urgência, o local apresenta a primeira falha à sonhadora: o elevador não estava funcionando. Esse elemento desconhecido, esse inimigo sem rosto e sem nome, é uma das características mais preponderantes dos sonhos confinados. Tomada pela urgência da situação ela se direciona à escada, que subitamente estava inacessível:

“fiquei muito chocada, pois o prédio havia se virado em seu eixo… tipo invertido os lados… e a escada ficou virada para parede…”. O local inicialmente seguro se tornou uma armadilha e voltou-se contra a sonhadora, ao criar uma situação em que ela se vê em impossibilidades reduplicadas de agir diante do perigo. A casa, frequentemente, é ao mesmo tempo o lugar onde nos sentimos protegidos e seguros, mas também desprotegidos e aprisionados. Assim, a impossibilidade de se sentir em casa traz, nas imagens dos sonhos, a marca do desconforto diante de algo assustadoramente invisível: um vírus contagioso cuja única imagem que conhecemos ou podemos simbolizar foi produzida por ilustradores médicos em um laboratório. Desse modo, a pandemia esgarçou o sentimento contemporâneo desvelado pelo infamiliar como condição paradigmática para a vivência dos sujeitos na passagem para o século 21. A imagem, portanto, não é um elemento apaziguador, ela é atravessada por traumas, sintomas e cisões da cultura. Não por acaso, as imagens oníricas raramente nos tranquilizam: o prédio gira em torno do próprio eixo, o elevador não funciona e a escada vira para frente.

“Eu estava com um grupo de amigos, dentre eles alguns com os quais moro […], em um lugar branco, muito iluminado, de um jeito que nunca sonhei antes. Eu e as pessoas que estavam comigo observávamos uma presença feminina na casa, algo meio humano, meio espírito, do lado de uma barra branca que parecia uma arara de roupas, ela aparentemente fazia algo que outras presenças parecidas já haviam feito. Ela conversava com alguém e eles estavam com o rosto quebradiço, parecia que eles iriam morrer de forma frágil a qualquer momento. É como se os rostos deles começassem a cair e desse pra ver o cérebro, a carne, os ossos, lá dentro. Nós olhávamos pra eles com aflição pois obviamente eles iriam morrer a qualquer momento, até que a presença feminina de fato ‘deixou o rosto cair’, revelando o que havia lá dentro, e algo encostou no que havia dentro da cabeça dela e ela morreu. Foi horrível, pois foi de uma forma muito fácil, frágil, evitável. Eu e meus amigos ficamos meio em choque, até que a cena mudou um pouco e de repente tinha um espelho atrás dessa presença. Essa figura feminina ‘ressuscitou’ e se transformou em uma figura mais humana, magra e de cabelo curto, e eu tinha receio de olhar pra ela. Ela se olhou no espelho e minha amiga me disse: ‘B., tá vendo? Essa é você’ e eu entendi que aquela era minha imagem em vidas passadas. Ao perceber isso parei de olhar pra ela, não podia mais saber como eu fui em outras vidas, isso era um tabu pra mim naquele momento. Fui embora e deixei as pessoas lá na casa. Acordei em seguida.” (B., 25 anos, 29/6/2020)

O cenário pandêmico só veio confirmar a experiência contemporânea devastadora do infamiliar freudiano: a angústia e o mal-estar advindos do fato de não sermos mais senhores em nossa própria casa, nem tampouco nos sentirmos de novo em casa. A narradora de A vegetariana nos oferece um exemplo magistral da generalização contemporânea do infamiliar.  Há um estranho em nosso íntimo – um estranho que habita nossa própria casa, como uma outra pessoa que “sai de dentro de mim e me devora”, como nos diz Yeonghye. Os sonhos confinados nos indagam sobre a anatomia de um país em dissolução, como rostos quebradiços que mostram nosso cérebro, nossos ossos, nossa carne. O limiar entre a vida e a morte é tênue, quase imperceptível: “foi horrível, pois foi de uma forma muito fácil, frágil, evitável”, diz o relato. As escadas estão logo ali, mas inacessíveis: uma parede nos separa delas e uma fenda nos separa das paredes. Só pode ser um sonho, “não é real, não é real”! Mas enunciar isso não era suficiente: “era real mesmo assim”. A morte fácil, frágil, evitável. Só despertaremos quando alguém nos disser: “B., tá vendo? Essa é você”.


Este artigo teve a colaboração de Ana Cláudia Castello Branco Rena, Ana Luisa Sanders Britto, André Gil Alcon Cabral, Débora Ferreira Bossa, Fídias Gomes Siqueira, Gustavo Andrade Soares, Isa Gontijo Moreira e  Olívia Ameno Brun.

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01
Nov20

Bolsonaro é a epidemia

Talis Andrade

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por Cristina Serra

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O ano está quase no fim e me pergunto: como resumiria este 2020 que mudou nossas vidas para sempre? As covas coletivas abertas por escavadeiras encerram numa única imagem a nossa desventura. Mais de 155 mil mortos.

Não precisava ser assim. Mas o capitão cloroquina fez o que pôde para ajudar o vírus. Sabotou a quarentena, promoveu aglomerações, boicotou as máscaras e distribuiu perdigotos. Demitiu ministros, não testou o suficiente, menosprezou a ciência. Como continua fazendo, ao questionar a qualidade de uma vacina e estimular um surreal movimento contrário à imunização. 

Mais de um século nos separam do episódio que ficou conhecido como a Revolta da Vacina. Em novembro de 1904, um motim popular explodiu no Rio de Janeiro em rejeição à obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Houve mortos, feridos e prisões. O contexto era de protestos contra uma reforma urbana e sanitária imposta a ferro e fogo.

Entre a sublevação de 1904 e hoje, o Brasil foi capaz de construir sólida reputação no combate a doenças infecciosas, com as mentes brilhantes de Oswaldo Cruz, Carlos e Evandro Chagas, Vital Brazil e Adolfo Lutz, para citar apenas alguns. O Programa Nacional de Imunizações tornou-se patrimônio nacional. Criado nos anos 1970, fortaleceu-se com o SUS, universalizou a vacinação e erradicou doenças. 

Pouco importa se Bolsonaro ataca a vacina de origem chinesa por vassalagem a Trump ou cálculo eleitoral contra um adversário político, no caso, Doria. Muito mais grave é saber que a confusão e o descrédito que tenta lançar contra a imunização se inscrevem num ataque amplo e ininterrupto contra a ciência e o conhecimento que salvam vidas. 

O mundo inteiro espera a vacina, seja qual for sua procedência, porque é a única maneira de voltarmos a viver em algum nível de normalidade. Em sua parvoíce profundamente entranhada e da qual se orgulha, Bolsonaro tornou-se um agente da infecção, um parceiro do vírus. Tornou-se, ele próprio, a epidemia.

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13
Out20

Invasão zumbi na Havan

Talis Andrade

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Lola Aronovich
@lolaescreva
Muito realista. Retrato de uma das cenas mais lamentáveis q vimos na pandemia (pra quem não entendeu, é o Véio da Havan acenando pra multidão q foi à inauguração da loja em Belém atraída por disparos de Whatsapp prometendo descontos de 90%).
 

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11
Ago20

Governo federal é responsável pelas mais de 100 mil mortes de Covid no Brasil

Talis Andrade

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Patricia Moribe entrevista Natalia Pasternak
 

RIF - O Brasil ultrapassou a triste marca dos 100 mil mortos, vítimas da Covid-19. Para a microbiologista Natalia Pasternak, muitos óbitos poderiam ser evitados, se o governo tivesse tomado medidas imediatas.

 

A mídia internacional acompanha atentamente o desenrolar da pandemia pelo mundo. Nos últimos dias, o Brasil foi um dos destaques, ao ultrapassar a barreira dos cem mil mortos, oficiais, vítimas da Covid-19. Qual é a sua sensação, fazendo parte da comunidade de especialistas que tenta justamente lutar contra a doença com bases científicas diante de um governo como o do Brasil?

É um número que poderia ter sido evitado. Não completamente, claro, mas pelo menos diminuído ou até cortado pela metade, com boas medidas de quarentena, se elas tivessem se elas tivessem sido implementadas pelo governo federal. Se tivesse havido um esforço do governo em constituir uma liderança forte, orientar os estados e municípios e, principalmente, uma comunicação transparente e honesta com a população. O governo não mostrou nada nesse sentido, pelo contrário.  Mostrou um esforço em desinformar e confundir a população, dizendo sempre que era uma “gripezinha”, e ainda promovendo curas milagrosas. O governo federal é responsável por essas 100 mil mortes, com certeza.

 

 

E o Brasil não tem ministro da Saúde desde o dia 15 de maio. Existe algum canal no governo para a ação de institutos como o seu ou só indo pela tangente, pelas mídias e redes sociais?

É bem pela tangente. Acho que qualquer ONG hoje em dia, o Questão de Ciência não é uma exceção, tem bastante dificuldade de conversar com o governo, apesar de essa ser a nossa função. O instituto foi criado justamente para fazer a ponte entre academia, sociedade e governo. Estamos e estaremos sempre à disposição dos chefes do executivo e membros do legislativo, para orientá-los sobre políticas públicas baseadas em evidências científicas. Mas é uma conversa que não tem acontecido. A nossa atuação então tem sido muito mais focada em informar a população e alguns parlamentares que estão interessados em ajudar, além de membros de estados e municípios.

 

E nessas condições que o Brasil vive hoje, o que seria uma política pública ideal? Ou que possa ser aplicada?

O ideal seria investir em testagem. Foi o que fizeram os países que saíram da pandemia com êxito. Conseguindo testar uma grande parte da população, você identifica e isola os doentes, rastreia os contatos e isola os que tiverem contaminados. É a melhor maneira de rastrear e barrar a transmissão. O Brasil poderia ter investido mais em testes, mas optou por não fazê-lo, foi uma decisão do governo federal, que não se preparou o suficiente para adquirir os testes-diagnósticos. Mas nós temos outras opções no Brasil. Temos o SUS e o treinamento de agentes comunitários de saúde que é fantástico, mas que não foi usado. Poderíamos tê-los treinado para fazer rastreamento de contatos e o isolamento dos doentes. Não usamos nem as ferramentas que temos. Os agentes comunitários de saúde fazem dois papéis: eles identificam os surtos e eles informam, conversam diretamente com as pessoas. Esse tipo de comunicação é extremamente valioso para a contenção de uma pandemia. As pessoas precisam entender o que está acontecendo, qual a conduta adequada a ser tomada.

 

Existe uma grande falta de coordenação por parte do governo. Seria o caso de uma ação mais centralizada, como foi na França?

Pelo tamanho, o Brasil precisa de políticas públicas locais. Decisões vão ter de ser tomadas por municípios, por estados, por região. Cada região é afetada em momentos e com intensidades diferentes. Temos agora Minas Gerais e o sul do Brasil sendo fortemente afetados. São Paulo, Rio, Manaus foram cidades que tiveram epicentros bem pronunciados, agora com casos diminuídos. São momentos diferentes que exigem decisões locais. Mas uma boa coordenação nacional poderia orientar as decisões. Não é porque o país é grande e as decisões locais precisam acontecer, que isso exime o governo federal de ter uma boa coordenação nacional.

 

Como você vê a insistência de Bolsonaro em promover a cloroquina?

Eu já não consigo mais entender se é simplesmente uma insistência pessoal ou se é algo realmente arquitetado para conseguir abrir a economia mais cedo, dizendo que existe uma cura. Todas as evidências cientificas já foram reunidas, não sei onde mais podemos testar a cloroquina. Ela já foi testada em células respiratórias e provou-se que não funciona. Em animais, tanto camundongos, como macacos, e não funciona. Já foi testada exaustivamente em humanos, temos agora onze estudos controlados e randomizados, que são o padrão ouro dos testes de medicamentos, que mostram que ela não funciona. Não sei mais como dizer ao presidente Bolsonaro que a ciência já provou a ineficácia da cloroquina. Virou uma questão simplesmente política.

 

A vacina é viável?

O Brasil fechou dois acordos internacionais com técnicas diferentes de tecnologia. A Sinovac, da China, fechou com o Instituto Butantã, aqui em São Paulo, uma vacina de vírus inativado, que a gente chama de vacina de primeira geração. É uma vacina à moda antiga, bastante simples de se fazer, mas que requer uma logística e investimentos bastante robustos. E tem a vacina de Oxford, com um contrato internacional com o Instituto Fiocruz, no Rio de Janeiro, e a Unifesp, de São Paulo. São dois acordos bem interessantes que garantem ao Brasil alguns milhões de doses das vacinas, caso elas funcionem, e que vão ser testadas aqui no Brasil. Imagino que até o final do ano teremos uma resposta a respeito da eficácia dessas vacinas, que entraram agora na fase 3, que é justamente quando vamos ver se funcionam, até agora não sabemos ao certo. Talvez, até o meio do ano que vem, teremos uma produção suficiente para vacinar a população.

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08
Ago20

Brasil tem 100 mil mortos por covid-19: uma tragédia anunciada

Talis Andrade

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À época da primeira morte, em março, doença já havia provocado devastação em países como a Itália. Mesmo assim, governo Bolsonaro preferiu desprezar riscos, lançando o país numa aventura que só poderia acabar mal

 

por Jean-Philip Struck / Deutsche Welle

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Menos de seis meses depois de registrar oficialmente sua primeira morte por covid-19, o Brasil ultrapassou neste sábado (08/08) a marca de 100 mil óbitos pela doença. Foram mais 905 mortes registradas nas últimas 24 horas, elevando o total para 100.477, segundo dados Ministério da Saúde. No mesmo dia, o país ainda cruzou a marca de 3 milhões de casos identificados da doença, com o registro de quase 50 mil novas infecções.

Contudo, especialistas e instituições de saúde alertam que os números reais de casos e mortes devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

Mas mesmo os números oficiais já representam um dos maiores desastres sanitários da história brasileira. Desde a morte do primeiro paciente por covid-19 – uma mulher de 57 anos em São Paulo, em 12 de março – é como se metade da população de Itajaí (SC) tivesse desaparecido. Em poucos meses, a covid-19 matou no Brasil praticamente o mesmo número de pessoas que a tuberculose vitimou no país em mais de duas décadas.

Desde maio, o país vem registrando com regularidade cerca de mil mortes por dia. Em meados de julho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que a epidemia no Brasil seguia em expansão, mas que seu crescimento parecia ao menos ter estabilizado e chegado a um platô. Ainda assim, trata-se de uma estabilização com altos números de mortes e de novos casos, que ainda não começaram a baixar.

Segundo a OMS, aquele seria o momento de iniciar esforços para derrubar esses índices e finalmente controlar a doença. No entanto, não há nenhum sinal de que haja vontade política para que isso ocorra em breve. É como se essa rotina de centenas de mortes diárias tivesse sido incorporada ao cotidiano.

Na quinta-feira, dois dias antes da marca de 100 mil mortos ter sido cruzada, o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez mostrou que seu governo se resignou com os números. "A gente lamenta todas as mortes, vamos chegar a 100 mil, mas vamos tocar a vida e se safar desse problema", disse.

Não é um comportamento muito diferente daquele que o presidente adotou em março, quando o país registrou oficialmente sua primeira morte por covid-19. Em seis meses, o presidente intercalou minimização do perigo, indiferença, zombaria, desprezo, sabotagem das medidas de isolamento social, propaganda de remédios sem comprovação científica e disseminação de notícias falsas.

Apenas um país acumula mais mortes e casos do que o Brasil: os EUA, também governados por um líder populista, Donald Trump, a quem o presidente brasileiro emula, seja na inação, no negacionismo e na promoção de remédios "milagrosos", seja nos ataques a organismos internacionais.

Previsões erradas e desprezo pelo isolamento

Em 22 de março, Bolsonaro disse que o número de mortes por coronavírus no Brasil não ultrapassaria os 800 óbitos pela gripe H1N1 em 2019. À época, a doença já avançava com força em países como a Itália, que já registrava mais de 600 mortes por dia. Dois dias depois, seria a vez de Bolsonaro chamar pela primeira vez a covid-19 de "gripezinha” e estabelecer o padrão de minimização da doença pelo seu governo.

Meses depois, dois ministros que tentaram aplicar medidas para conter a doença foram forçados a sair, e o país segue sem um titular da Saúde desde meados de maio. A União parece ter desistido há muito tempo de tentar implementar uma política nacional de enfrentamento da doença em colaboração com estados e munícipios. No final de julho, relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que o Ministério da Saúde havia gastado somente 29% do dinheiro que recebera para as ações de combate ao coronavírus.

Diante desse quadro, o governo federal tem preferido transferir o fracasso do combate ao coronavírus para a conta dos governadores e prefeitos, que já haviam sido alvos de ataques do presidente à época da imposição das primeiras medidas de isolamento, em março. 

Entre as autoridades municipais e estaduais, muitas também sucumbiram à pressão incentivada por Bolsonaro e vêm implementando políticas erráticas de flexibilização do isolamento, mesmo com os casos continuando a aumentar, facilitando ainda mais a propagação do vírus. Os governos também têm falhado em ampliar o número de testes e rastrear doentes e seus contatos. Outros políticos, como o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, são suspeitos de simplesmente desviarem recursos destinados ao combate à doença. Assim, velhas mazelas brasileiras, como a corrupção e a ineficiência de autoridades, amplificaram o perigo.

Com esse vácuo na liderança, tornaram-se comuns cenas de multidões nas grandes cidades brasileiras, com pessoas agindo como se o pior já tivesse passado. Outras se refugiam no negacionismo, repetindo mentiras propagadas por redes de apoio ao governo, entre elas a de que o número de mortes estaria sendo inflado artificialmente por prefeitos sedentos por recursos.

Considerando como a ação política contra o vírus se desenvolveu nos últimos meses, não é exagero afirmar que esse marca de 100 mil mortes era uma tragédia anunciada.

Maus exemplos e negacionismo

O Brasil teve inicialmente a vantagem de ter sido atingido pela pandemia semanas depois de várias nações europeias, o que poderia ter proporcionado mais tempo para se preparar.

Mas em vez de olhar para casos bem-sucedidos, como a Alemanha ou a Nova Zelândia, a liderança do país preferiu justificar sua inação elogiando os modelos de países como o Reino Unido e a Suécia, que inicialmente evitaram adotar medidas amplas de isolamento. As duas nações continuaram a ser elogiadas mesmo após a explosão dos seus índices de casos e mortes.

O governo Bolsonaro chegou até mesmo a copiar uma malfadada campanha lançada em fevereiro na cidade de Milão e que pregou a reabertura do comércio poucos antes da explosão no número de mortes no norte da Itália. 

E quando os casos começaram a se acumular, o governo federal, além de estimular a boataria sobre números inflados, ainda adotou uma postura "otimista" sobre a crise, preferindo propagandear um "número de curados" da doença, minimizando a contagem de mortos e não procurando saber se os que se livraram da doença não ficaram com sequelas. "O Brasil tem o maior número de curados", alardeou um cínico "Painel da Vida" do governo na primeira vez em que o país registrou mais de mil mortos num dia.

No início de junho, esse comportamento se tornou mais extremo quando o Ministério da Saúde, agora com um general interinamente no comando – mas na prática sob o controle total de Bolsonaro – passou a esconder os números da pandemia. A medida só foi revertida dias depois por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), mas levou o Brasil a se juntar, mesmo que por um breve período, a países autoritários como o Irã e o Uzbequistão, que sistematicamente escondem seus números.

Com os militares ocupando todos os postos-chave do ministério e obedecendo Bolsonaro sem questionamentos, o comando da pasta abandonou ainda a defesa do distanciamento social. O general Eduardo Pazuello, que comanda a pasta interinamente, ainda tentou emplacar amadores para alguns cargos, como o criador de um curso de inglês, que desistiu após conceder uma entrevista catastrófica. O general foi mais bem-sucedido ao arrumar um posto para uma amiga de décadas em Pernambuco. Durante a gestão interina de Pazuello, iniciada em 15 de maio, o país registrou mais de 84 mil mortes por covid-19 e de 2,6 milhões de casos.

A pandemia como arma política

O governo Bolsonaro ainda instrumentalizou a pandemia para promover sua agenda extremista. Em vez de tratar a doença como um problema sanitário, ela se tornou mais uma frente da "guerra cultural" do bolsonarismo. É o principal símbolo dessa tática é a hidroxicloroquina, um remédio contra a malária, que foi inicialmente promovida em círculos radicais de direita na internet e pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

Transformada em arma política, a cloroquina não demonstrou sucesso contra a covid-19 em estudos pelo mundo. Mas a falta de comprovação científica não inibiu Bolsonaro. No dia 29 de março, ele afirmou que a droga seria uma "cura". "Deus é brasileiro, a cura tá aí", disse. "Está dando certo em tudo que é lugar." Meses depois, ele ergueria uma caixinha do remédio como se fosse uma hóstia para um grupo de apoiadores.

Para Bolsonaro, a existência de um suposto tratamento eficaz se encaixa na sua estratégia de instar os brasileiros a voltar ao trabalho, propagandeando que a doença poderia ser facilmente tratada com um fármaco barato no caso de uma infecção. Mas a entrada em cena do remédio também permitiu que seus apoiadores e seu círculo radical rotulassem os críticos da estratégia do governo como "torcedores do vírus” e desviassem o foco sobre a falta de ações efetivas do Planalto, como se o avanço dos casos e mortes fosse culpa dos céticos da cloroquina.

Nenhuma mudança de rumo à vista

O desleixo do governo federal se reflete até mesmo dentro do Palácio do Planalto, que virou um local de surto do vírus, com 70 casos registrados entre servidores em julho. Oito ministros já foram infectados, além do casal presidencial.

Nesta semana surgiu mais um sinal de como o Ministério da Saúde – que atualmente tem o Exército como sócio – continua a encarar a pandemia.

Na segunda-feira, a agenda do ministro interino tinha apenas duas audiências. A primeira era um encontro com defensores de aplicação de ozônio pelo ânus para tratar covid-19 – prática sem nenhuma comprovação e que foi ridicularizada após o prefeito de Itajaí defender sua adoção.

O segundo item da agenda: uma visita do deputado Osmar Terra (MDB-RS), um notório negacionista da pandemia, difusor de fake news sobre a doença e que conspirou para derrubar o primeiro ministro da Saúde de Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta. Terra já afirmou, entre outras coisas, que a epidemia no Brasil terminaria em abril (depois atualizou a previsão para junho) e que apenas 2 mil pessoas morreriam de covid-19 no país.

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05
Ago20

A cloroquina e a fé do rebanho

Talis Andrade

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por Wilson Gomes/ Cult

- - -

Bolsonaro não consegue ter um titular no ministério da Saúde na fase mais grave da pandemia. Bolsonaro sequer consegue usar os recursos que o Congresso lhe autorizou a empregar para salvar vidas durante esta interminável crise de saúde pública, ao ponto de ter sido solicitado a dar explicações ao TCU por tão espantosa atitude. O presidente não conseguiu nem mesmo manter-se em isolamento social, para dar exemplo ao país, nas semanas em esteve infectado com o Sars-Cov-2. Tantas fez o moço que assim o descreveu a jornalista Vera Magalhães: “O presidente passeou de moto e sem máscara, cumprimentou garis e mostrou caixa de hidroxicloroquina para as emas do Alvorada. Pode parecer uma piada, mas não: esse foi o dia do presidente em isolamento”. Rá!

Na verdade não só parece como é uma piada. É tudo uma piada de mau gosto. Por pavor do PT e desprezo à política, os brasileiros resolveram eleger e empossar uma piada como presidente da República. Devem ter achado que estariam punindo alguém, os políticos em geral e o PT em particular, mas finalmente se revela que estavam gostosamente pregando uma peça em si mesmos e infligindo-se uma autopunição. 

Antes disso, correu o mundo uma foto do mandatário maior da República, segurando com as duas mãos uma caixa de cloroquina sobre a cabeça, diante de seguidores devotos e compungidos no que parecia uma missa campal no gramado do Palácio do Planalto. Quem está acostumado à missa católica, sabe que o gesto copiou o momento do ritual litúrgico, depois da consagração do corpo de Cristo, em que a hóstia é mostrada aos fiéis enquanto o sacerdote profere solenemente “eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”. Pois “eis a cloroquina divina, que tira a Covid do mundo”, repetiu o grão sacerdote do bolsonarismo, para a adoração da sua igreja. 

Claro, se você é um sujeito razoável e sensato, não estará entendendo por que a qualquer pergunta sobre o que fazer durante a pandemia se obtém de Bolsonaro uma única resposta: tomem cloroquina. E, o que é pior, vai considerar incrível como tem gente que acredita em cloroquina, ivermectina e hodroxicloriquina como soluções mágica para a Covid-19, contra a OMS e toda a ciência médica disponível. Mas, meus caros, as pessoas acreditam em alma imortal, reencarnação e em inferno, por que não acreditariam em pseudofármacos só porque a ciência os nega?

Mas, professor, o que tem a ver religião com cloroquina? A fé, meus amigos, a crença. O bolsonarista radical é hoje um sujeito com tamanha fé no seu líder que é capaz de acreditar no que ele diz mesmo que o conteúdo da sua crença seja absurdo e até por isso mesmo. Credo quia absurdum, já dizia a máxima de Tertuliano. Se Bolsonaro trocasse cloroquina por creolina ou jujubas, a crença dos seus seguidores mais radicais mudaria automaticamente de conteúdo, mas o suicídio intelectual e o fervor dos crentes seriam o mesmo.

E como em toda seita, há o pastor do rebanho, há os que compartilham com ele o sacerdócio e há os seus profetas. Alexandre Garcia, um ex-jornalista convertido de primeira hora ao bolsonarismo, estreou na CNN Brasil esta semana, declarando ser Bolsonaro a comprovação científica de que a cloroquina funciona e que “seus colegas repórteres” só falam mal da droga santificada porque alguém lhes manda dizer isso. 

Alexandre Garcia gosta de dar-se ares de um homem logicamente refinado e culto, quando a sua principal habilidade consiste em torcer ou esculpir os dados até que eles pareçam se encaixar com plausibilidades nas suas opiniões preconcebidas. O “raciocínio lógico” usado por Garcia para “provar cientificamente” que a cloroquina é a cura da Covid-19 que os pagãos do mundo não querem que seja do conhecimento de todos, é o fato de Bolsonaro ter tomado o remédio e sobrevivido. Só que isso que ele chama de lógica é geralmente refutado no primeiro dia de aula de Falácias Argumentativas. É uma falácia descarada, para dizer o mínimo. É como dizer que uma vez que quando o galo canta, o sol nasce, é o canto do galo que faz o sol nascer. É ridículo. 

A estatística, que não costuma fazer escolhas políticas, diz que a taxa de letalidade do Sars-Cov-2 no mundo é de cerca de 2% em média. Quer dizer que se todos os infectados tomarem água de coco gelada com abará é provável que 98% se recuperarão, mas se trocarem o delicioso medicamento por caldo de cana e pastel de feira o milagre será exatamente o mesmo. No caso do Brasil, a taxa de letalidade, uma das mais altas do mundo, está em torno de 7%.  A notícia deveria ser, então, que pelo menos 5% dessas mortes poderiam ter sido evitadas, se quem governa o país tivesse adotado as políticas públicas testadas e comprovadas como eficazes em toda parte. Mas não, no estilo Garcia de jornalismo tribal teríamos o seguinte comentário: “A prova científica da competência do Ministério da Saúde de Bolsonaro é que estamos curando 93% dos infectados pela Covid-19”.

O mundo está tão louco que a posição ideológica das pessoas passou a orientar decisões com relação a que remédio tomar, se usamos ou não máscara em público, se vacino ou não os meus filhos. A modernidade consistiu exatamente em vetar que a religião pudesse exorbitar, quer dizer, sair do ambiente onde os crentes precisamos dela, a saber, na nossa relação com o sobrenatural, com a morte e com o sentido da existência. Para as demais necessidades da vida temos outros recursos, como a ciência, a política e a economia. A extrema-direita, entretanto, transformou-se em uma nova religião civil: o seu sumo sacerdote é considerado infalível em matéria de política, economia e, vejam só, medicina e saúde pública. Deus se apiede de nós.

 

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29
Jul20

COVID-19: desrespeito ao isolamento no Brasil é 'histórico' e 'patológico', revela psicanalista

Talis Andrade

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Os frequentes atos de desrespeito dos brasileiros das medidas de isolamento em meio à pandemia da COVID-19 possuem explicações históricas e até mesmo patológicas, de acordo com uma psicanalista ouvida pela Sputnik Brasil.

No último final de semana, várias capitais litorâneas registraram forte fluxo de pessoas nas praias – mesmo com a conhecida proibição por parte das autoridades municipais e estaduais em alguns casos. O mesmo se viu em bares e restaurantes.

As aglomerações são abertamente censuradas pelos governantes e profissionais da saúde, uma vez que a proximidade entre as pessoas é um dos elementos para disseminação do novo coronavírus, que já infectou mais de 16 milhões de pessoas em todo o mundo.

De acordo com a psicóloga clínica e psicanalista Katia Quiala, a "transgressão das orientações das autoridades sanitárias no Brasil é resultante de um processo histórico", que remonta aos primeiros anos da República Velha no início do século XX.

"Naquela época, o setor de saúde não era organizado em uma estrutura capaz de enfrentar os graves problemas de saúde, e os instrumentos de combate às pestilências como a varíola e a febre amarela, por exemplo, eram justamente campanhas de vacinação obrigatória, cuja condução foi considerada arbitrária devido a violência física e psicológica à qual a população foi submetida", relembrou ela à Sputnik Brasil.

A especialista ainda comentou que há hoje uma situação mais definida, protagonizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas isso não significa uma possibilidade de maior esclarecimento e acesso a saúde e informação - em um país com quase 88 mil óbitos pela doença.

"Hoje, o setor de saúde é organizado, estruturado, porém encontra-se enfraquecido justamente pelo choque de interesses sociais, políticos e econômicos, que além de descredibilizar as autoridades, ainda influenciam negativamente a população no exercício dos seus direitos e deveres", afirmou.

A psicanalista ouvida pela Sputnik Brasil reforçou a questão da informação para ajudar a compreender o desrespeito por parte de parte da população das orientações em prol da saúde e da vida. Segundo ela, o volume de dados e posições tem ajudado não a esclarecer, porém muitas vezes a desorientar os cidadãos.

"A informação é importante, mas em um momento de crise mundial, o esclarecimento se torna essencial e nós vemos hoje uma população que deveria estar sendo orientada e esclarecida sendo alvo de informações, do excesso de informações, informações contraditórias, informações divergentes, no âmbito da saúde, no âmbito político, social e econômico", sentenciou.

Questionada se o desrespeito do isolamento social poderia ser classificado como uma doença, Katia Quiala esclareceu que sim. De acordo com a psicanalista, muitos têm prazer em transgredir aquilo que está estabelecido como o correto, algo que possui um viés patológico.

"Sim, existem estrutura psíquicas que reagem com prazer ao ato de transgredir, de infligir, de burlar as leis e isso pode ser sim considerado um transtorno e, portanto, patológico", concluiu.

 

17
Jul20

A hegemonia da crueldade: Como uma elite raivosa enfiou uma faca no coração da democracia

Talis Andrade

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Prefácio do livro Relações Indecentes que traça o cenário de um pais solapado pela Lava Jato e colocado às claras pela Vaza Jato

por Maria Inês Nassif

- - -

Quarta, 27 de maio de 2020. No momento em que escrevo o prefácio ao “Relações Obscenas”, um pouco mais da metade do Brasil assiste pela televisão e pela internet, confinada em uma prolongada quarentena contra o vírus Covid-19, grupos ralos e ruidosos que invadem as ruas e, protegidos por coturnos, clamam por ditadura e incitam aos correligionários que se armem; carros e buzinas transformados em instrumentos de guerra; ações policiais contra a direita dissidente do regime extremista de direita; e, enfim, uma reação do Poder Judiciário contra a escalada antidemocrática empreendida pelo presidente eleito em 2018, Jair Messias Bolsonaro, com a ajuda de seus “enfants terribles”, os número 01, 02, 03 e 04 [1], todos eles atendendo pelo sobrenome do Nero brasileiro que incendeia o país enquanto grita alegremente impropérios, delira e destrói. Nesse dia 27 de maio, já se registram mais de 25 mil mortos pela Covid-19 e a indiferença oficial aos vitimados pelo vírus é o dado definitivo desse momento da história em que os brasileiros vivem sob a hegemonia da crueldade.

“O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz”[2], afirmou Bolsonaro em março de 2019, pouco mais de três meses depois de sua posse, num jantar na embaixada brasileira em Washington com a nata da extrema-direita mundial: Steve Bannon, o ex-estrategista de Donald Trump; o acadêmico Walter Russell Mead; a colunista do Wall Street Journal Mary Anastasia O’Grady; e o editor da revista literária The New Criterion, Roger Kimball. Manteve do seu lado Olavo de Carvalho, a quem apresentou como um inspirador. “Em grande parte, devemos a ele a revolução que estamos vivendo”, disse.

Bolsonaro tem cumprido rigorosamente o que prometeu. A destruição é a marca do governo de extrema-direita cujo advento coroa uma articulada ação reacionária, pacientemente construída desde a eleição do primeiro presidente de esquerda no Brasil, o petista Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. O protagonista da solução final é um presidente de extrema-direita alucinado, atormentado por delírios paranoicos, avesso a qualquer traço de humanidade e um inconteste comandante de um exército de enlouquecidos, extasiados pela possibilidade de ascensão ao poder. E ele apenas existe porque antes dele existiu Mensalão e Lava Jato; porque antes pontificaram a Justiça injusta e a Constituição inconstitucional dos togados Joaquim Barbosa, Luís Roberto Barroso, Alexandre Morais, Edson Fachin, Carmen Lúcia, Dias Toffoli e seus pares; porque usurparam de seus poderes juízes como Sérgio Moro e procuradores como Deltan Dallagnol. Porque os “heróis” da luta contra a corrupção não eram heróis, apenas uma troupe que encenava roteiros moralistas de uma peça de propaganda ultraconservadora.

Bolsonaro apenas existe porque antes dele houve a tessitura do clima do horror: a criminalização de setores da esquerda, o ativismo político do Judiciário e a militância golpista da imprensa tradicional do país. A Casa Grande montou cada peça desse xadrez, e mais uma vez com a ajuda da direita internacional – assim foi no pré-1964, com a ajuda do Ipes e do Ibad, financiados pela extrema-direita e pelos serviços de inteligência norte-americanos; assim é desde os preparativos para o tiro final contra o PT em 2015, quando um Congresso fortemente financiado para golpear as instituições feriu de morte a democracia brasileira, interrompendo o mandato da presidenta Dilma Rousseff.

Nesses dias que se sucederam a uma escalada bolsonarista contra o Supremo Tribunal Federal (STF), em resposta a denúncias feitas por Sergio Moro, a história mostra ao ex-juiz que aceitou rapidamente um ministério no governo extremista de direita a ironia que envolveu suas escolhas políticas. Moro é agora o perseguido pelo staus quo – e se conta agora com a proteção da Suprema Corte, tem contra si um clima permanente de crise institucional alimentado pelo bolsonarismo para constranger as instituições e, se necessário, intervir com o uso da força. Foi esse o clima mantido permanentemente pela Lava Jato desde o seu início, em 2014 (não por coincidência, o ano de eleição presidencial). A ironia da história é que, ao fim e ao cabo, o Moro que denunciou Bolsonaro e por ele é ameaçado é o mesmo que o elegeu.[Continua]

 

 

 

12
Jul20

"A GUERRA CIVIL BRASILEIRA COMEÇOU HÁ ANOS, SÓ NÃO SAIU AINDA NO DIÁRIO OFICIAL."

Talis Andrade

 

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Entrevista de Luis Fernando Verissimo para o jornal 'Extra Classe', por Moisés Mendes

 

Porto Alegre - O mundo que teremos depois da pandemia é uma incógnita para o maior cronista brasileiro. Luis Fernando Verissimo diz fazer tudo o que os protocolos determinam para se proteger do coronavírus, enquanto se dedica a arrumar os livros em casa. Perto de completar 84 anos (no dia 26 de setembro), o escritor está comemorando 50 anos de crônicas com uma novidade. O livro que marca a data é apenas virtual, por enquanto. É o e-book Verissimo Antológico – Meio Século de Crônicas, ou Coisa Parecida, da Objetiva, com 316 textos. A versão impressa ainda está em estudos, por causa das indefinições provocadas pela pandemia. Nessa entrevista, o cronista conversou com o Extra Classe por e-mail. Admitiu que ainda teme um golpe e confessou que, se tiver que fugir, vai para a Nova Zelândia.

 

EC - A ameaça de golpe foi embora?

Verissimo – O Planalto está cheio de militares. Na hora do cafezinho, que outro assunto eles podem ter? Acho que a ameaça continua.

 

EC - Deu pra imaginar o que poderia vir depois de um golpe? Seria como em 64?

Verissimo – O golpe de 64 foi um pouco como a Revolução Francesa. Começou com o Castelo Branco dizendo que a intervenção seria por pouco tempo e todos seriam bonzinhos, e logo veio o Terror. Mas como os atuais generais já ocuparam o poder sem dar um tiro, desta vez talvez seja diferente.

 

EC – O que pode chegar antes, a vacina ou a queda de Bolsonaro?

Verissimo – O ideal seria uma vacina de ação dupla, contra a volta do coronavírus e contra a reincidência de bolsonaros.

 

EC – Anunciam vacinas que podem custar até R$ 100. Poderemos ter a guerra da vacina?

Verissimo – O perigo é os americanos comprarem tudo, o que tornaria a questão acadêmica.

 

EC – E o que vem depois de Bolsonaro?

Verissimo – Depois do Bolsonaro o dilúvio, praga de gafanhotos ou, quem sabe, uma boa surpresa, como o despertar de uma esquerda viável.

 

EC – Uma guerra civil ainda é uma ameaça? Foi uma hipótese levantada numa crônica.

Verissimo – A guerra civil brasileira começou há anos, só não saiu ainda no Diário Oficial.

 

EC – Há um debate em torno do que seria uma dúvida acadêmica, se esse governo é ou não fascista. Essas definições ainda importam?

Verissimo – Há filofascistas, protofascistas, fascistas que negam que são fascistas e são os piores, e fascistoides, que ainda podem ser recuperados, pela hipnose ou tratamento com águas.

 

EC – Uma hipótese a ser sempre considerada nessas circunstâncias: o golpe acontece e descobrimos que a única saída é fugir. Mas fugir pra onde?

Verissimo – Nova Zelândia. Tenho me informado sobre o país, prevendo o pior, e sei que para imigrar você precisa provar que tem uma fonte de renda fixa e que tolera cordeiro cozido até no café da manhã, mas em compensação os militares não se metem em política.

 

EC – Qual é o personagem mais engraçado desse governo?

Verissimo – Mandaram embora o Weintraub, grande talento cômico, justamente quando ele planejava invadir o Supremo arrebanhando porcos vestindo togas, por puro preconceito. Depois o Olavo reclama e não sabem por quê.

 

EC – E o mais sem graça?

Verissimo – O Bolsonaro.

 

EC – Dos nomes que se apresentam como saída pós-Bolsonaro, quem te entusiasma?

Verissimo – Tem gente boa no horizonte. O problema é que o horizonte fica longe. É melhor esperar o pessoal chegar mais perto para ver quem entusiasma.

 

EC – Sempre diziam que alguém como Bolsonaro nunca seria eleito e que o Internacional nunca seria rebaixado. O que falta acontecer?

Verissimo – Pois é. Também disseram que o Titanic não naufragava, o Terceiro Reich duraria mil anos e o Gabiru nunca faria nada que prestasse.

 

EC – Há quatro anos, escreveste que faltava o cadáver, o primeiro morto na guerra aberta pela direita.

Verissimo – Se eu disse isso, retiro. Um cadáver já é demais, ainda mais nestes tempos de peste e intolerância.

 

EC – O que é bom e o que é ruim na quarentena?

Verissimo – O bom é o pretexto para arrumar os livros, o ruim é a impressão de que estaremos fazendo isto pelo resto da vida.

 

EC – Tem muita gente desafiando a clausura. Qual foi a arte que fizeste na quarentena?

Verissimo – Sou cardíaco, diabético e velho, quase um garoto propaganda para a necessidade de quarentenas. Sigo rigorosamente todas as instruções para driblar o corona.

 

EC – O mundo ficará pior ou melhor depois da pandemia?

Verissimo – Ficará certamente diferente, só não sei como. Vai unir a humanidade, consciente, pela primeira vez em gerações, da sua fragilidade e da necessidade de uma repaginação moral da espécie, ou vem aí mais barbárie? Não tenho a mínima ideia.

 

EC – Alguns estão prevendo que todos trabalharão em casa, com exceção dos entregadores de pizza. Isso é bom?

Verissimo – Tenho a impressão que o primeiro impulso da turma depois do cativeiro forçado será cada um correr para um lado e só se reencontrarem quando der saudade, ou nunca mais.

 

EC – As pessoas ainda se aglomeram na orla do Guaíba ou nas praias da Europa. Isso é só negacionismo ou tem mais alguma coisa?

Verissimo – Se não for um ímpeto de suicídio coletivo, é falta de informação. É impossível saber das mortes pelo vírus, que diminuem, mas nos Estados Unidos e no Brasil ainda estão em nível de massacre, e achar que só vai acontecer com o vizinho.

 

EC – Escreveste esses dias que estamos proibidos até de ver o sorriso das pessoas. O que veremos quando tirarem as máscaras?

Verissimo – As máscaras são miniburkas, que realçam os mistérios e as promessa dos olhos sem o resto do rosto para atrapalhar. Talvez vire moda quando tudo isto passar. Por enquanto sua função é impedir a propagação de perdigotos, claro.

 

EC – Há uma exibição nas redes sociais de novos talentos pessoais, de gente que aprendeu a cozinhar ou a tricotar. Qual foi a tua habilidade descoberta na quarentena?

Verissimo – Tenho exercitado muito o dedão para trocar o canal da televisão. Não sei se vale como contribuição à sociedade.

 

EC – E a sensação de viver sem futebol?

Verissimo – O lado bom da proibição do futebol é que o Inter não perdeu nenhum jogo até agora, este ano.

 

EC – Está saindo o Verissimo Antológico, em e-book, pela Objetiva, com meio século de crônicas. Qual é a sensação de ver tantos textos de tanto tempo reunidos?

Verissimo – Muitas crônicas eu já tinha esquecido, outras eu gostaria que ficassem esquecidas. Mas a seleção não fui eu que fiz. Sou inocente.

 

EC – Quais ficariam esquecidas?

Verissimo – Muitas, muitas.

 

EC – Por que os teus personagens ficaram de fora da antologia?

Verissimo – Foi uma decisão editorial. Não dei nenhum palpite.

 

EC – O que tu achas que nunca escreveste, o tema que nunca foi abordado?

Verissimo – Certos assuntos a gente evita, até por uma questão de escrúpulo pessoal. Mas aí entra a velha questão: o humor deve ou não ter limites? Uma discussão que vai longe.

 

EC – E aquele personagem que quase foi criado.

Verissimo – Eu sou do tempo em que a gente escrevia o que queria, na esperança sempre renovada que o próprio jornal não deixaria sair. Mas às vezes se distraiam e deixavam passar. Uma vez censuraram um texto meu sobre o Darwin. A teoria da evolução era proibida, junto com o Brizola e o dom Helder Câmara.

 

EC – Afinal, aconteceu finalmente a tua adesão à bengala?

Verissimo – Sei não, mas acho que a bengala será uma espécie de rendição.

 

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