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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Out20

Essas mulheres psicólogas: o cipó e o jerimum

Talis Andrade

psicologas taquiprati.jpeg

Madame, vous confondez ceinture avec cul et vigne avec citrouille

(Sagesse populaire. Aparecida, quartier de Manaus) 

-

 

por José Ribamar Bessa Freire/ Taquiprati

- - -

Eu não confio em psicóloga mulher. Você confia? Entre um cirurgião e uma cirurgiã, quem você escolheria para te operar?   

A frase contundente, dita em francês pela mãe de uma colega de doutorado na EHESS de Paris, tinha o desplante de cobrar minha cumplicidade na negação da competência feminina em qualquer profissão. Foi em 1982. A filha Louise, envergonhada, se arrependeu de ter me apresentado sua mãe que, se fosse brasileira, votaria em Bolsonaro. Uma pobre coitada! Juro que deu vontade de contra-atacar em português do bairro de Aparecida:

- Minha senhora, não confunda cinto com bunda, nem cipó com jerimum.

Considerando o meu francês macarrônico, o tradutor oficial do Taquiprati, Pascal Foucher, regiamente pago, traduziu assim: 

Madame, vous confondez ceinture avec cul et vigne avec citrouille.  Só não fui grosseiro porque a “salade d’asperges aux pignons” que ela fez estava supimpa e também porque madame havia falhado, felizmente, na educação da filha que era – vejam só! – feminista e militante da Lutte Ouvrière liderada por uma mulher, a sindicalista Arlette Laguiller.

Por que lembrei agora dessa história? É que acabo de ler o belo artigo “Oito de outubro - Dia da psicóloga latino-americana: mulheres na luta” escrito por Ana Jacó, publicado na Rede Iberoamericana de Pesquisadores em História da Psicologia. A data, instituída em 2006 na Assembleia da União Latino-americana de Psicologia, é uma homenagem a Ernesto Che Guevara, assassinado neste dia e que se tornou símbolo da luta pela liberdade e contra o imperialismo.

As torturadas

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No entanto, Ana Jacó, que reverencia o Che, faz uma pergunta inquietante que desconcertaria a mãe da Louise: por que homenagear em pleno séc. XXI um homem, que não é da área de psicologia, numa profissão que é majoritariamente feminina? O próprio homenageado certamente faria o mesmo questionamento.

Diretora do Instituto de Psicologia da Uerj e com pós-doutorado em História e Historiografia da Psicologia na Universidade de Barcelona, Ana Jacó, apoiada em documentos e em uma bibliografia consistente, compõe trajetórias de luta de psicólogas e estudantes de psicologia que enfrentaram as ditaduras em diferentes países latinos, mas permanecem no olvido. Entre elas, as psicólogas brasileiras Iara Iavelberg, Pauline Reichstul e as estudantes de psicologia Marilene Villas-Boas Pinto e Aurora Maria Nascimento Furtado, assassinadas quando tinham pouco mais de vinte anos”.

Na clandestinidade ou na prisão, elas souberam usar o que haviam aprendido na formação profissional. “Lúcia Maria Salvia Coelho (um pouco mais velha, nascida em 1937) realizou acolhimento psicológico de presas que haviam acabado de ser torturadas, isto dentro da cela que dividiam, enquanto ela mesma estava presa”. Outro exemplo foi Iara que “defendeu o cuidado psicológico em relação aos militantes na luta armada” e “sugeriu que a organização criasse um local onde pudessem descansar das tensões a que eram submetidos”.

Não podia ficar de fora da lista a Madre Cristina, pioneira na criação de cursos de especialização para formação de psicólogos, que abrigou perseguidos políticos e apoiou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e as Diretas-já. Mas a autora cita ainda profissionais que enfrentaram a repressão em outros países como a argentina Beatriz Perosio, presidente da Associação de Psicólogos de Buenos Aires, sequestrada e “desaparecida” em agosto de 1978. A colombiana Viviana Muñoz Marin, que cuidava da transição à vida civil de ex-combatentes e foi assassinada em 2018.

Urucum e jenipapo

Rede Psicologos Indigenas.png

 

Essa história pode ser enriquecida com a abertura dos arquivos das ditaduras militares no nosso continente. Por isso, o artigo nos convida a lembrar outras mulheres de luta como Cecília Coimbra, doutora em Psicologia pela USP, diretora do Grupo Tortura Nunca Mais e docente da Universidade Federal Fluminense, que batalha pelo acesso à informação negada pelos militares. Se o torturador coronel Ulstra foi mesmo brilhante, um “herói” como quer Bolsonaro, porque não permitir que o povo brasileiro conheça seus feitos?

Cecília Coimbra continua atuante e apesar de ter sido barbaramente torturada não perdeu a alegria de viver. Em depoimento à Comissão da Verdade, ela identificou 11 torturadores que a submeteram a choques elétricos no bico dos seios, na vagina e por todo o corpo, enquanto gritavam palavrões. O delegado Mário Borges do DOPS/RJ berrava: “Fale sua puta comunista, com quantos você trepou”.

Em especial, a tortura perpetrada à mulher é violentamente machista. Inicialmente são os xingamentos, as palavras ofensivas e de baixo calão, ditas agressiva e violentamente como forma de nos anular – disse Cecilia em seu depoimento. Cecilia vive. Borges, que precisava de tratamento, está morto, menos um voto para Bolsonaro.

Por fim cabe destacar a recente criação, em maio de 2020, em plena pandemia, da Articulação Brasileira dos Psicólogos Indígenas (ABIPSI), “que luta por uma psicologia pintada de urucum e jenipapo”. Eles estão buscando “uma nova forma de pensar a psicologia e agir ativamente na construção de políticas públicas”, que levem em conta os códigos culturais indígenas.

Uma das psicólogas da ABIPSI, Itaynara, da etnia Tuxá - um povo com mais de duas mil pessoas que vivem na Bahia, Alagoas e Pernambuco - deu um chega-pra-lá na mãe de Louise ao escrever:

- “A inserção da mulher indígena na história trouxe incômodos ao sistema patriarcal, filho do colonialismo, que de uma forma sistemática e opressora, tenta deslegitimar e inferiorizar esse protagonismo e corpo geopolítico”. 

A psicóloga Tuxá chama ainda atenção para o fato de que a psicologia nasceu no berço do capital cultural monopolizado e construiu suas teorias e práticas a partir de uma realidade que não considerava a diversidade, contribuindo assim para tornar invisível qualquer sujeito que não se enquadrasse nessas exigências sociais.

De fato, não podemos confundir “ceinture avec cul et vigne avec citrouille”. Ofendido pessoalmente por me colocar na pele das minhas nove irmãs, todas elas competentes em suas áreas, respondi à mãe de Louise que conheço psicólogos competentes, incluindo dois sobrinhos, mas competência por competência, fico com as psicólogas, de preferência indígenas. Não entregaria minha alma a qualquer marmanjo.

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P.S. – Lucilene Marques, professora do Colégio Lato Sensu, de Manaus, morreu de Covid-19, nesta terça (6). Deixou esposo, irmã e sobrinhos. Os professores reivindicam a suspensão das aulas que foram retomadas no dia 6 de julho, de acordo com cronograma determinado pelo Estado. Enquanto isso, a Polícia Federal investiga desvio de recursos destinados ao combate à Covid-19 e superfaturamento de contratos, cujo principal suspeito é o vice-governador Carlos Almeida (PTB vixe vixe). Que sacripantas! O governador Wilson Lima (PSC vixe vixe) também é investigado. O inspirador de todos eles, Amazonino Mendes, que ameaça voltar para a Prefeitura, está garimpando votos entre as Louises de Manaus. Não terá um voto sequer das Lucilenes.

 
10
Jan20

Países como o Brasil não produziram a memória da ditadura justamente para absolver os assassinos, sequestradores e torturadores de Estado

Talis Andrade

OS CÚMPLICES (segunda parte)

memória história 1-DE-ABRIL .png

 

 

por ELIANE BRUM

El País
 

Géraldine Schwarz escreveu um premiado livro chamado Os amnésicos(Flammarion), infelizmente sem tradução no Brasil. A historiadora, cuja família foi uma dessas que obteve vantagens no nazismo, mas se considerava inocente do Holocausto, deu uma excelente entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg, em O Globo. Ela aponta como a adesão aos déspotas do século 21 mantém a estrutura da adesão aos totalitarismos do século 20:

“No imaginário coletivo, temos tendência a dividir a sociedade em três categorias históricas no século 20: heróis, vítimas e carrascos. Na verdade, a maioria da população não se reconhece em nenhuma delas. É a via mais fácil não se incluir em nenhuma das três categorias, mas apenas seguir a corrente. Há o magnífico filme baseado no romance de Alberto Moravia [O conformista, de Bernardo Bertolucci], que mostra muito bem como o conformista acaba aceitando o que antes era inaceitável. No ensino da história, muitas vezes por meio da ficção ou de comemorações, temos uma visão um pouco distorcida do passado. Se tem a impressão de que a população não teve nenhum papel nessa história. E teve, muitas vezes, um papel de pilar e consolidador de ditaduras. É nisso que a democracia tem um papel importante, pois o povo tem os meios de impedir um golpe e a instalação de um regime criminoso. Eleger Bolsonaro, por exemplo, para mim, é brincar com o fogo, pois parece alguém capaz de tudo.”

A historiadora defende a memória como um dos principais instrumentos de defesa da democracia. “O importante é tomar consciência de nossa falibilidade e reconhecer que podemos nos transformar também em um bárbaro”, afirma. "A história não se repete, mas os métodos de manipulação, sim, porque a psicologia humana não muda. Em um contexto de crise, em meio a um grupo, o homem terá reações similares. Um dos métodos é difundir o medo, muitas vezes exagerado em relação à realidade. [...] Trata-se de confundir a fronteira entre o verdadeiro e o falso, desorientando totalmente as pessoas. Perde-se as referências, não se sabe mais no que acreditar. E, como dizia [a filósofa alemã] Hannah Arendt, quem não acredita em mais nada é manipulável à vontade. Ao ponto de inverter seus valores: o que era bom ontem já não o é mais hoje. É o que se observa em várias sociedades do mundo. As pessoas que, hoje, apoiam Jair Bolsonaro, há dez anos provavelmente defendiam os direitos humanos. Por isso que o ensino do Terceiro Reich é capital. Na história há muito poucos exemplos de uma sociedade tão civilizada, moderna, intelectual, que derivou rapidamente para a barbárie. É um ensinamento universal, que serve de alarme a todo mundo.”

O problema é que países como o Brasil não produziram a memória da ditadura justamente para absolver os assassinos, sequestradores e torturadores de Estado. A condição da retomada da democracia foi o perdão ao imperdoável. Essa política de amnésia resultou, em 2018, na eleição de um presidente que tem como herói um torturador e assassino de civis. Diante de uma população desmemoriada, ao final do primeiro ano do governo do déspota eleito vimos um roteiro semelhante se repetir, com as necessárias adaptações a uma época impactada pela Internet. Ainda que a memória no Brasil seja frágil, porém, ela existe. Não há desculpa para omissão. Nem há qualquer inocência no suposto conformismo. [Continua]

justiça memória.jpg

 

02
Nov19

Pedido de 'impeachment urgente' contra Bolsonaro está no topo do Twitter

Talis Andrade

aroeira ai 5.jpg

 

Por Pablo Rodrigues
Sputnick
 

Internautas parecem estar dispostos a subir ainda mais uma hashtag contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Trata-se de um pedido de impeachment urgente.

O Brasil já chegou ao décimo mês da presidência de Jair Bolsonaro, que divide a população entre apoiadores, desaprovadores e os que não preferem comentar política.

Pelo visto, esta quarta-feira (9) está sendo o dia dos desaprovadores, que lançaram a hashtag no Twitter #ImpeachmentdoBolsonaroURGENTE. Com rápido crescimento, a tag já conseguiu atingir a primeira posição dos assuntos mais comentados do Twitter de hoje.

veto de Bolsonaro à obrigação de assistências psicológica e social nas redes públicas de educação básica foi acentuado por internauta indignada.

Jandira Feghali
@jandira_feghali
Bolsonaro vetou integralmente, o PL 3.688/00 que obrigava que as redes públicas de educação básica dispusessem de serviços de psicologia e de serviço social. Mais um retrocesso. A luta agora é pela derrubada do veto!

 

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