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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Dez20

“O governo se finge de idiota para esconder que é idiota”, diz Aroeira

Talis Andrade

 

 

Em hora e meia de conversa, Aroeira falou de tudo. Da luta de classes ao feminismo, da religião ao fracasso do capitalismo, de terror e de esperança.

A entrevista foi destaque de capa na quarta edição do jornal Micuim - "suprimento" de humor do Brasil de Fato RS.

Fraga - Tens a noção que és o artista que mais usa contundência? Tens uma corrosão a teu serviço e atinges os teus alvos de uma maneira como ninguém atingiu até hoje. Pega no cerne, onde dói mais em cada um. Tens plena consciência desse alcance da tua arte?

Aroeira - Têm alguns chargistas que são realmente muito eficientes ou contundentes: a Laerte, a turma da Folha, o Montanaro, um craque também. Esses meninos do Sul, o Santiago, Vasques, e a turma toda. São craques. Gosto do Dahmer, do Coimbra. Gosto dessa mistura de cartoon/filosofia e charge que a Laerte faz hoje em dia.

A consciência que tenho é que a charge cumpre um papel importante hoje nessa movimentação social. Desde muito cedo fui aprendendo, como chargista, a respeitar quem apanha. Perderam a graça para mim piadas sexistas, homofóbicas e racistas. Fui tendo noção do que era a vida, que era uma pessoa branca, heterossexual, cisgênero, de classe média.

Tem muita graça fazer piada com o opressor. A charge surge durante o Iluminismo. Os desenhos eram parte do pacote. Começa tomar a sua forma. Ela já nasce batendo.

A charge sempre teve um grande papel. A religião hoje é algo que não pode ser criticado. A maior parte das religiões, por mais bondade que tenham, costumam ser opressoras, sexistas, homofóbicas, castradoras. Não posso mais criticar isso. Você pode ser decapitado, apanhar na rua ou ser processado. Fazer charge passou a ser assustador para quem faz.

 

Ayrton - Já fostes ameaçado?

Aroeira - Muitas vezes.

 

Ayrton - Virtualmente ou pessoalmente?

Aroeira - Virtualmente, judicialmente e pessoalmente.

 

Ayrton - Como foi a pessoal?

Aroeira - O cara chega e fala assim em um lugar onde eu tocava (NR. – Aroeira é saxofonista): ‘Esse negócio que você está falando é perigoso para você. Quem fala o que quer, sofre o que não quer’. Era uma ameaça. E coisas similares por mensagem.

Acusam o Charlie Hebdo de ser islamofóbico... Ele é islamofóbico, como é também cristofóbico e judeufóbico. Eles (a turma do Charlie) detestam as religiões. Fizeram charges sobre tudo, todas elas, da forma mais escrachada. Eu não faria. Mas são franceses e tem um histórico enorme aí atrás de anticlericalismo e tudo mais.

Quando estourou o negócio do processo, minha gastrite foi parar nas orelhas. Nunca melhorei desde então.

Acho engraçado, como diz o Chico Caruso, “brigar com a piada”. Parte da esquerda muitas vezes reclama. Se eu fizer charge, por exemplo, criticando a liderança do Hamas, provavelmente vou ser criticado dentro da esquerda. E sou um comunista roxo, de carteirinha (risos), trotskista de raiz.

 

Ayrton - Por falar em crítica, ameaça e censura, a questão que apareceu naquela charge do Bolsonaro com o Netanyahu, que formavam uma suástica, está resolvida ou houve apelação?

Aroeira - Está resolvida porque o Ministério Público nem aceitou a denúncia. Uma outra charge do Bolsonaro com a suástica, eu ganhei em primeira instância, mas eles apelaram. Não sei como está.

 

Ayrton - É a da cruz vermelha transformada na suástica?

Aroeira - Não. Essa é da Lei de Segurança Nacional. Essa outra era do Bolsonaro candidato ainda. A cruz virava uma suástica. Ele era uma suástica, os braços e as pernas. Aí começava a rolar e eu perguntava ´ninguém vai parar isso?´ Ninguém parou. Olha aí no que deu.

Décadas atrás, quando Bolsonaro era ainda um tenente imbecil expulso do exército, deu entrevista para a Veja dizendo que ia explodir um quartel. Era como se o cabo Anselmo casasse com o Hulk, os dois tivessem um filho e virasse aquilo. Desenhei ele como um Estupidossaurus bolsonaurus, a maior besta que já caminhou sobre a face da terra, um dinossauro enorme de coturno.

 

Stela - Tens 66 anos, começastes a desenhar com 17 e transitastes ali pelo período da ditadura militar. Te sentes mais inseguro do que aquela época?

Aroeira - Comecei mais cedo, lá pelos 16. Nem sabia que era para me sentir tão inseguro na outra ditadura. Me sinto muito inseguro agora, mas poderia ter me sentido inseguro naquela época se eu tivesse noção do perigo.

Aquela construção toda do Iluminismo, a empatia que a literatura criou, tudo aquilo, aqueles anos, séculos disso, quase desapareceram. A gente está agarrado a restos. Há muitas causas. É a naturalização de coisas absurdas como a exploração, desregulamentação, esse escambau todo que os anos 1970/80 viram: Thatcher, Reagan... A desconstrução da ideia de que o outro é importante.

Agora a gente tem que construir isso de novo. No meio da pandemia ficou evidente também o limite. Estava claro com a questão ecológica e agora com a questão da saúde. Assim mesmo, você olha para os resultados das eleições e pensa: será que a gente tem tempo para fazer o juízo entrar de volta na cabeça das pessoas?

 

Kátia - Já que estamos falando de eleição, em 2018 fizestes uma charge que bombou nas redes. Era o Aécio Neves se maquiando e virando o Luciano Huck. Então, a gente vê nas eleições municipais um fortalecimento dessa direita centrista, o dito centrão, mais do que o bolsonarismo. Está se construindo isso para 2022?

Aroeira - O Aécio é grosseiro, disparou um processo e foi engolido. Não foi preso, que é uma coisa milagrosa. Huck não desistiu do negócio. Estava conversando com meu sobrinho, que é historiador, menino de esquerda, humanista, e ele fala, ‘A verdade é que a população, a história, as instituições, são todos conservadores, no geral’. Só empurrando, esclarecendo e durante situações revolucionárias, de opressão extrema, condições objetivas raras, em que tudo vai naquela explosão. Normalmente é tudo devagar, precisa-se construir. É o momento da gente agora. Estou olhando com mais atenção para as câmaras do que para os executivos.

 

Fraga - Queria voltar para a charge. Qual é a dificuldade em eleger a charge que importa fazer naquele determinado dia?

Aroeira - É difícil. Nunca achei que o governo sequer tivesse inteligência para ser diversionista. Nesse sentido, é difícil escolher qual das grandes bobagens, quais das aparentes cortinas de fumaça, que algumas não são, algumas são - é o governo fingindo de idiota para esconder o fato de que é idiota.

A Damares é uma ministra que eu aprendi a respeitar no sentido da periculosidade dela. Ela é um dos eixos de sustentação ideológica do governo com essa catequização e essa mão em um ministério tão sensível.

O Salles, por méritos próprios, é um assassino, um devastador, um incendiário. Minha escolha é pegar o chefe geral e vou tentando destroçá-lo e mostrar quão ridículo é. Até que enjôo. Desenhar esse estropício todo dia não dá. Tento variar e pego um dos outros. E, às vezes, sou obrigado a parar e fazer uma homenagem a alguém que se foi do nosso campo. Alguns são assassinados, outros morrem da covid. A reforma da Previdência dos sonhos desse pessoal mata velhos, pobres, professores, músicos, artistas. Mata todo mundo que eles querem matar.

 

Stela - Ainda sobre a eleição. Foi eleito o primeiro quilombola prefeito. A gente teve pouquíssimo crescimento da eleição de mulheres, que ficou em 12%, enquanto a população é 52% de mulheres. Vinte e cinco trans foram eleitos. E, em Belo Horizonte, uma trans foi a mais votada. Tem também a questão negra. Em Curitiba, foi eleita a primeira vereadora negra. Aqui, no Rio Grande do Sul, quatro vereadoras negras, mais um negro. Dos candidatos apoiados pelo Bolsonaro, poucos foram eleitos. Dá para interpretar alguma coisa? É disso que tu falas de empurrar um pouco?

Aroeira - Sim. Crescemos em qualidade. Tem um empurrão acontecendo que, na verdade, é surfar uma onda que está acontecendo aqui e no mundo. Liderança não inventa, liderança aproveita a onda. Parte boa da esquerda brasileira está compreendendo o que está acontecendo.

Vejo o crescimento da direita organizada em cima do bolsonarismo, também uma boa notícia. Prefiro enfrentar esses caras do que essa horda de loucos. A questão da saúde é uma delas. Amiga de minha esposa trata câncer no SUS e o aviso que o médico deu para ela foi: ´Guarda dinheiro pra comprar remédio para dor porque cortaram aqui pra gente`. É horrível saber disso. Me tirou o sono.

É preciso entender o que acontece quando há um desgoverno total. Mesmo com um golpista (Michel Temer) no poder, a saúde se administrava razoavelmente dentro das condições objetivas brasileiras. Aí esses sujeitos chegaram lá e destruíram tudo.

 

Ayrton – És um grande cronista gráfico desses tempos tenebrosos que estamos vivendo, especialmente de 2016 para cá. Teu trabalho circula na internet. Já publicastes em jornal, hoje não mais, correto?

Aroeira - Não existe mais jornal, quer dizer, o meu jornal está aos trancos e barrancos lá.

 

Ayrton – Quando alguém for estudar o Brasil do Bolsonaro ou o Brasil do golpe vai ter que se referir ao trabalho do Aroeira. Qual é o retorno que recebes?

Aroeira - Antigamente tinha retorno por carta no jornal. Depois os e-mails. Cansei de ser chamado de desrespeitoso. `O senhor foi desrespeitoso com o seu governador.` Eu respondia: ´Desrespeitoso é meu nome do meio` (risadas). Quando publicava em jornal, desenhava hoje para sair amanhã. Agora não tem esse intervalo. Está acontecendo naquele momento. Publica na rede e o bolsominion vem te ameaçar, o amigo vem te apoiar e começa a briga no seu perfil.

 

Stela - Teve a tentativa de te enquadrar na Lei de Segurança Nacional, que foi essa questão da charge continuada, do crime continuado e depois veio o Vladimir Herzog continuado, que é o prêmio de jornalismo que premiou pela primeira vez 110 (chargistas). Fala da sensação de receber esses apoios da categoria.

Aroeira - São duas coisas aí. A organização que me apoiou, a revista Pirralha, já existia antes disso acontecer. Um grupo de 70 e tantos chargistas e chargistos, tinha muita menina e muito rapaz. Quando aconteceu, o Duke (chargista) sugeriu: ´Vamos fazer uma charge continuada. Usa a ideia do Aroeira`. E o Bruno (chargista) organizou, distribuiu, avisou por email, organizou um site, instagram e tal. Tinha 400 e tantas charges, mas depois, em outra contagem, deu algo em torno de mil.

Foi uma noite em que dormi bem. Me senti abraçado, um montão de gente fez escudo humano comigo. Mostrou o enorme tiro no pé que foi a tentativa do governo.

O cartunista hoje em dia, publicando na rede, busca sua forma de autofinanciamento, publica as coisas e busca maneiras do público colaborar. É uma evolução sair de um jornal de dono e passar para o crowdfunding, onde meu salário, que diminui bastante por conta disso, é pago pelas pessoas que colaboram com os (sites) Jornalistas pela Democracia ou (Brasil) 247, onde publico, ou o Távola, programa (no Youtube) que tenho com o Miguel Paiva, a Regina Zappa e o Sérgio (Sbragia).

Quando eu comecei a fazer charge tinha (na atividade) três ou quatro meninas, um negro e dois gays. Hoje é completamente diferente. Na Pirralha, tem uma briga maravilhosa. Um dia, as meninas falaram assim: ‘Vamos sair da Pirralha`. Mas por quê? ‘Sou mulher e não posso ficar em um lugar onde eu sou minoria porque não existe isso. Não sou minoria, ora essa’. Esse tipo de cobrança vem para melhorar muito. A Pirralha é um empreendimento, mas não tem dono. É um coletivo. Não tinha conhecido isso ainda no Brasil.

 

Katia - Temos no Micuim duas páginas que chamamos de ´Querela` dedicada às mulheres cartunistas. Vamos pra terceira edição e já tivemos entrevistas com Bruna Maia, no último número saiu a Fabiane Langona, a Helô D´Angelo, a Samanta Flôor. No próximo, vamos ter mais três. Como tu estás vendo isso?

Aroeira - Só posso ficar muito feliz. Foi mais suave, para mim, a percepção disso. Fui bem treinado desde cedo. Peguei uma geração de companheiras do movimento estudantil que batiam na gente, nos machismos. Vejo ainda dentro da esquerda, na nossa categoria, no jornalismo, o machismo, a homofobia, um certo paternalismo racial e assim por diante. Mas está acabando porque os protagonistas foram ocupar os seus espaços. É melhor do que lugar de fala. É lugar de ação. A pessoa chega lá e faz.

 

Fraga - Uma pergunta técnica: vejo você meio solitário na sua técnica, na sua arte. Você usa muito o computador e os outros usam menos no sentido de misturar fotografia, desenho e usar os recursos.

Aroeira - Eu uso isso aqui (mostra), uma canetinha. Desenho com a canetinha em uma superfície que, por impedância, recebe aquele sinal. Essa caneta é sensível para inclinação e pressão. Parece muito com a pena de nanquim. Uso muito o computador, uso muito o lápis. Usava coisas como scanner, mas nem isso uso mais. Eu desenho no papel, às vezes, uma coisa, fotografo com o celular e dou o acabamento no computador.

Quando eu saio do computador, raramente uso papel e aquarela. É óleo. Vou pintar à óleo. Demora semanas para fazer. É um outro tempo, uma outra maneira.

 

Fraga - E por que você acha que não tem mais gente praticando da mesma maneira?

Aroeira - Tem muita gente. Tem o negócio chamado caricaturama na internet. Têm vários concursos de caricatura. São milhares de pessoas concorrendo. Tem também o contrário: você só desenha em papel e tinta durante 30 dias. Faz um desenho por dia, fotografa, escaneia e publica.

A quantidade de Mozart que existe no mundo é inacreditável. Por outro lado, não somos os donos desses meios de produção, algoritmos e redes. O que aumenta a sensação de injustiça. Não sou daqueles caras que acha que a arte piorou. Bendita juventude, cada vez que vem entra e sacode tudo.

 

Katia - Quais artistas gráficos te inspiram hoje?

Aroeira - Estão lá no começo da minha vida. São todos quadrinhistas. Era a Marge, que fazia a Luluzinha. Era a autora, ele é que inventou. O Charles Schulz com o Charlie Brown. A Mafalda veio explodir a minha cabeça. Era mais que a psicanálise do Charlie Brown ou a coisa deliciosa que era a infância da Luluzinha. Depois, o Carl Barks, inventor do Tio Patinhas, o desenhista do mundo Disney, o maior dele. As aventuras do colonialismo que ele desenhou me fascinaram. Contou para o mundo o que era o capitalismo. A gente é que não entende direito porque estava disfarçado sob o traço e roteiros de um gênio. Na caricatura, os irmãos Caruso, (David) Levine, os franceses como (Jean) Mulatier e outros, fizeram também a minha cabeça, até que eu descobri Toulouse-Lautrec. Toulouse era um genial caricaturista.

Ayrton - Estamos chegando ao final de um ano ruim por causa da pandemia e da bozodemia que vivemos desde 2018. Ano novo tem aquela expectativa que as coisas vão melhorar. Vão melhorar mesmo? Como desenharias isso, o que simbolizaria isso?

Aroeira - Vai melhorar porque estamos lutando para melhorar e nada é de mão beijada. O mundo não está dividido de forma igual e tem um montão de inverdades que viraram pedras angulares, como, por exemplo, o direito à propriedade privada. As próprias lutas de agora e a maneira como o mundo encarou os flagelos Trump e Bolsonaro mostram que há reação.

Sou otimista e o que queria desenhar era uma presidente negra no Brasil. Uma presidente negra nos Estados Unidos. Uma mulher negra comandando os destinos do mundo. Novo começo seria isso, um renascimento. Sou usuário do planeta e os atuais donos estão me dando uma dor de cabeça tremenda.

Stela - Assim como o Micuim, sabes que teu sobrenome é da Aroeira brava, dá muita coceira, dá muita inquietude...

Aroeira – Eu, jovem, estava tentando achar um nome de cartunista. Tinha 17 anos, estava com o Lor, o Nilson, o Afo e o Dirceu (cartunistas mineiros). Estava lá bolando nome: Real, Renato, Aroeira, Rear, Rela... Então, o Lor disse: ´Você se chama Aroeira. Já tem nome de cartunista`.

Stela - Em uma entrevista no Brasil de Fato falastes que o capitalismo não deu certo. Tenho a impressão que boa parte das pessoas não se dão conta disso...

Aroeira - Não se dão conta. O pior tipo de escravidão é aquela em que o escravo não sabe que é escravo e ainda acha que pode virar um dos senhores. É o que a gente vive: a ilusão do empreendedor. É mais eficiente do que correntes visíveis. Por outro lado, informação é o olhar. Você olha e enxerga correntes quando começa a se informar. Minha função é explicar para as pessoas porque o capitalismo não deu certo.

Sempre que alguém traz esse assunto, vou mostrando. Será que deu certo o sistema onde isso acontece, aquilo acontece? O que acontece no entorno de Los Angeles, naqueles bairros de casas móveis ou de carros? Aí, você vai para bairros de papelão, onde nem (há) casa, nem carro, nem trailer nem nada. As pessoas moram em caixas de papelão. E é lá, nos Estados Unidos, no centro do capitalismo que deu certo, ora essa!

Nunca foi tão fácil mostrar que o capitalismo não deu certo por causa da maneira como os gestores agem: salvar o dinheiro primeiro, depois as pessoas. Se salvarem. Todo mundo é dispensável. A forma de enfrentar isso não é a força. Cadê a Sierra Maestra? Cadê o Palácio de Inverno? Não há nada parecido no horizonte. O que vejo é outra coisa. Vamos ter que explicar porque esse sistema não funciona e está destruindo o planeta, deixando você triste sem nem perceber. A maior parte das pessoas chega em casa e quer morrer e não sabe disso.

Quando você faz uma atividade não fordista é que percebe o horror que é a vida de outro jeito. Quando você tem um trabalho desse tipo mecânico não sabe o seu lugar no mundo. Vai para casa pensar bobagem, querer matar o vizinho porque ele é gay ou porque é preto ou porque pegou uma cota na universidade do seu filho que não estuda e não pegou a vaga.

Essa é a pior parte do capitalismo. Ele te deixa tão infeliz que você quer matar alguém e acaba matando.

Katia - O que achas da proposta de tributar os super-ricos?

Aroeira - Tem super-rico que é menos burro do que os outros que já está se propondo se autotributar por aí. Sabem que está ficando perigoso. O embate final em uma situação em que você não para de aumentar a desigualdade é distopia das piores.

Um amigo meu português, sociólogo, veio para o Brasil e trabalhou no governo da Benedita, na tentativa de humanizar a polícia: ´Estudo para não ser um cara pendurado em um pensamento do século XIX originário nas contradições do século XVIII, mas qualquer que seja o problema em cima do qual me debruço como cientista social, a culpa é da porra do capitalismo. Não tem outra`. E eu estou terminando minhas conversas desse jeito: a culpa é da porra do capitalismo. E, olha, estou convencendo as pessoas.

Katia - Já temos a nossa manchete: “A culpa é da porra do capitalismo” [risadas]

Aroeira - A culpa é da porra do capitalismo. E o pessoal ainda vende isso como uma panacéia, essa merda que espoliou todo mundo. Vou fazer para vocês o desenho da Marielle governando o mundo. Vou botar assim, o pessoal pediu para desenhar o desenho que eu queria poder fazer, a Marielle, ou alguém como a Marielle.

 

16
Dez20

CEF deve vender sede e fechar Teatro da Caixa em Curitiba

Talis Andrade

Centro Cultural poderá ser transferido, mas em formato menor, para outra sede

Pelos votos de uma minoria racista, nazi-fascista, pelos votos de uma maioria branca, direitista, lavajatista e bolsonarista, Curitiba merece, o Paraná merece: 

O Teatro da Caixa e demais espaços da Caixa Cultural na sede do banco da rua Conselheiro Laurindo deverão ser fechados. O banco estatal está estudando a venda de sua sede no local e transferência de toda administração da empresa para a sede da praça Carlos Gomes.

Com isso, a cidade irá perder um de seus espaços culturais mais tradicionais. Além do espaço, a Caixa Cultural era um grande financiador da arte na capital.

A informação foi apurada pelo Plural junto a pessoas familiarizadas com o projeto.

Atualmente fechado por conta das medidas de restrição impostas pela prefeitura de Curitiba devido a Bandeira Laranja de alerta para Covid-19, o espaço cultural tem, além do teatro (que tem 125 lugares), duas galerias e um espaço para oficinas.

Oficialmente, a assessoria da Caixa não confirma a informação. E informa que o espaço será reaberto assim que a prefeitura da cidade liberar eventos e atividades culturais.

Mas o Plural ouviu três pessoas com acesso a informações internas do banco que confirmaram que na administração da Caixa em Curitiba a venda do prédio e o fechamento do teatro são dados como certos. Um estudo interno avalia a reabertura do espaço em outro local, em formato menor. Talvez só com uma galeria.

Apesar de menor que seus vizinhos do Centro Cultural Teatro Guaíra, o Teatro da Caixa é um espaço tradicional de shows e da cena teatral local e nacional. Seu palco recebeu parte das principais peças exibidas nas edições passadas do Festival de Teatro da cidade.

Além disso, o espaço é sede de um painel de Poty Lazzarotto chamado “O Construtor”. A obra foi inaugurada em 1978.Poty Lazzarotto - Monumento ao 1º Centenário de Emancipação Política do Paraná - Praça 19 de Dezembro - Curitiba Space

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Nota deste correspondente: O painel está avaliado por quantos trocados? Será que ele vai como brinde? Deviam doar o painel para a autodenominada Liga da Justiça da autodenominada República de Curitiba da autodenominada Lava Jato

Poty Lazzarotto - Monumento ao 1º Centenário de Emancipação Política do Paraná - Praça 19 de Dezembro - Curitiba Space

Do Paraná, o grito de José Millán-Astray: «Morra a intelectualidade traidora! Viva a morte!». Um grito profético. Para estes tempos de morte. Da necropolítica de Bolsonaro. 

 

15
Dez20

Pacto racial da branquitude começa a ruir em Curitiba?

Talis Andrade

Carol Dartora na praça Zumbi dos Palmares: primeira negra eleita vereadora em Curitiba

A eleição da primeira vereadora negra em Curitiba é um sinal animador de que o pacto racial da branquitude começa a ruir em um de seus principais bastiões

20
Nov20

Primeira mulher negra eleita vereadora em Curitiba, Carol Dartora (PT)

Talis Andrade

Carol Dartora (PT)

"Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação", diz Carol Dartora. Foto Joka Madruga

 

"A eleição de uma mulher negra parecia um muro intransponível". Carol Dartora fala sobre o racismo na cidade, o exemplo de Marielle e a necessidade de a esquerda abraçar lideranças negras e mulheres

 

Nascida e criada em Curitiba, a professora Carol Dartora, de 37 anos, sempre precisou responder a uma pergunta incômoda: de onde você veio? Entre praças e monumentos que homenageiam países europeus, suas tranças e turbantes afro faziam dela uma estrangeira em sua própria terra.

A sensação de não pertencimento serviu de combustível para Carol entrar na política e tentar, assim, construir uma cidade mais democrática. No último domingo (15/11), ela se tornou a primeira mulher negra eleita para a Câmara dos Vereadores de Curitiba, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Foram mais de 8 mil votos, a terceira maior votação entre os vereadores eleitos na cidade.

Em entrevista à DW Brasil, ela fala sobre a decisão de ingressar na política, o exemplo da vereadora carioca assassinada Marielle Franco, o debate sobre racismo em sala de aula, o preconceito dentro do próprio campo progressista e questiona o mito do "Sul civilizado". Nesta quinta-feira, véspera do Dia da Consciência Negra, um homem negro morreu após ser espancado por seguranças de um supermercado no Rio Grande do Sul. Em Joinville (SC), a professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira mulher negra eleita na cidade, recebeu ameaças de morte nas redes sociais após a vitória nas urnas.

"O racismo está no Brasil inteiro, mas aqui em Curitiba realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa", diz ela, apontando que o fato de a cidade nunca ter elegido uma mulher negra parecia ser um "muro intransponível".

João Pedro Soares entrevista Carol DartoraCarol Dartora VOTE 13133 on Twitter: "Partiu beber a bera que cuida da  gente #SextaFeira13… "

DW: Como veio a decisão de entrar para a política?

Carol Dartora: Por ser historiadora, fui convidada para dar uma aula de história da mulher na política brasileira num curso de formação política para mulheres. Eu vim mostrando todas as ondas do feminismo, o quanto as mulheres foram galgando esses passos com muita dificuldade, por toda a dificuldade de gênero, chegando à questão racial, com as mulheres negras ainda mais excluídas desse processo. Eu falava especificamente de como as mulheres fazem muita política na base, sobretudo as negras, mas não são vistas como lideranças para ocupar esses cargo e têm dificuldade nos partidos, que também são atravessados pelo racismo e machismo estruturais. Essas disputas são feitas inclusive internamente, com muita dificuldade.

Falaram, então: "Nossa, Carol, você faz todos esses debates, atua há tanto tempo, e quantas vezes já se candidatou?" Aí foi o estopim: de que adianta ficar a vida inteira sem botar o pé na porta e sem falar "não, agora é nossa vez"? O coletivo político que eu integro entendeu também que era hora de fazer essa disputa.

 

Como primeira mulher negra eleita em Curitiba, você sente que o racismo é mais forte no Sul do Brasil?

O racismo está no Brasil inteiro, mas já estive no Rio de Janeiro e em São Paulo, e sinto que estas e outras capitais são mais democráticas, com menor hostilidade. Aqui em Curitiba, realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa. No meu cotidiano, indo para a escola dar aula, já começa quando você pisa na rua, e as pessoas vêm perguntar: "De onde você veio?" O mesmo acontece entre colegas de trabalho. Essa pergunta pressupõe a ideia de que, se você é negro, com certeza não deve ser daqui.

Acontece mesmo isso, e a cidade tem umas assimetrias muito grandes. Há bairros em que os índices de qualidade de vida se comparam aos da Europa, enquanto outros apresentam uma precariedade grande, com IDH super baixo. Curitiba tem essas desigualdades e tenta esconder isso, desde a forma como o território da cidade é ocupado.

A população pobre e negra é empurrada para as periferias e outras cidades da região metropolitana. A região norte é mais valorizada, então um imóvel é muito mais caro, embora não tenha o mesmo tamanho que outro da região sul. Curitiba é segregada racialmente. Aqui, todo mundo sabe em que lugares você encontra os negros e onde não encontra.

Quem vem de fora para fazer turismo na cidade fica com a impressão de que não tem negros e é uma cidade europeia. Na volta turística, a pessoa vai ver a Praça da Espanha, a Praça da Ucrânia e o Bosque Alemão, vai sair com essa impressão que a cidade causa e cria. Eu sinto arrepios quando ouço esse discurso de que Curitiba é "civilizada”. A gente sabe o que está por trás disso. É uma política higienista que se empreende aqui. Tentam esconder a população em situação de rua, e dizem que Curitiba é "limpa”. É uma cidade pesada mesmo nesse sentido.

Minha campanha foi trazendo todas essas denúncias da falta de direito à cidade, democratização dessa vida urbana tão complicada, da violência policial contra a juventude negra e o apagamento das expressões culturais.

O Carnaval em Curitiba sempre foi muito atacado. É uma festa com pouco aporte e muita organização popular, que sempre precisou resistir muito para existir. É pequeno perto das outras capitais, mas justamente por essa razão. Curitiba é tudo isso.

Foi fazendo essas denúncias que atingi tantas pessoas, e elas se sentiram representadas. Na campanha, usei a mensagem de que deveríamos ter uma vida urbana que nos faça sentir pertencentes e felizes. Esse sentimento é uma linguagem que a cidade constrói, é como ela se organiza e nos impõe esse sentimento de não sermos acolhidos pela cidade em que nascemos. Eu sou uma mulher preta curitibana, como vina (salsicha), falo "leitE quentE”, e espera-se que eu me sinta parte da cidade. Muitas pessoas se viram nessa construção — ou desconstrução, na verdade.

 

Como você leva essas questões para sala de aula?

Eu sempre fiz todos os debates que achava que tinha que fazer em sala de aula, e acredito totalmente no poder da educação. A minha principal proposta de campanha é promover a educação social. No fazer político, informando e politizando a sociedade, uso muito da prática que já tenho em sala de aula.

As pessoas me perguntam muito se é possível superar o racismo e o machismo. Pela minha experiência em sala de aula, eu digo que sim. Tive muitos alunos entrando em sala sem entender por que políticas de cotas e reparação são importantes. Construindo novas consciências e trazendo a realidade histórica, é possível mudar muita coisa. Tive a grata satisfação de ter visto isso nos meus alunos. Além de dar aula, palestras e formações que faço pela cidade em coletivos universitários e feministas.

Acredito muito mesmo no poder da educação e que o professor deve ter a perspectiva da superação e da esperança. Sem isso, a gente também não alcança nada. Não adianta você trabalhar sem achar que determinadas situações podem ser superadas. Se você não tiver essa perspectiva da superação, perde o sentido. Foi isso que me trouxe até aqui.

Eu fiz a denúncia de que Curitiba nunca tinha eleito uma mulher negra, um muro que parecia intransponível. Todo mundo que olhava para a campanha no início dela pensava: nossa, como fazer para superar essa barreira? Pensando que sou uma mulher do Partido dos Trabalhadores (PT), feminista, negra, e que Curitiba nunca elegeu uma mulher negra, pareciam barreiras intransponíveis.

Mas o que a gente tinha era a superação, sem perder a esperança, fazendo essa denúncia e construindo a possibilidade. Porque aí a gente falava: Curitiba nunca teve uma vereadora negra, vamos mudar essa história. E no fim da campanha, quando a gente sentiu que ela estava grande, crescendo, as pessoas me viam na rua e falavam: "Carol, vou votar em você, a gente vai fazer história".

Eu já promovi reeducação social na campanha. Acredito totalmente no poder da educação. Sou professora e sempre defendi a educação pública. Estudei em escola pública, fiz faculdade e mestrado em universidade pública, e agora sou doutoranda. É este o poder do professor, da palavra, o poder de ensinar. São estes os nossos mecanismos, nossos canais.

 

Para o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, o debate de ideias deve ficar de fora da sala de aula, que deve ser um espaço livre de "doutrinação". Como você reage a isso?

Com esse tipo de coisa, a gente não conversa. Como conversar com o ódio? Tem que haver minimamente uma abertura para estabelecer um diálogo. Não tem como dialogar com esse tipo de postura, de alguém que está fechado para aprender. Tem uma coisa maravilhosa que vejo na infância e juventude, que é o lugar de semear a transformação, por conta da mente aberta para a possibilidade de aprender novas coisas. Quando você tem uma criatura fechada para qualquer coisa, não adianta insistir.

E acho que o Bolsonaro tem sido pedagógico, ele também ensina. Por incrível que pareça, muitas pessoas vieram falar comigo na rua dizendo que iam votar em mim, mas tinham votado no Bolsonaro. Elas diziam ter consciência do erro que cometeram, sem saber o que estavam fazendo, por estarem cansadas da política. Não foram nem uma, nem duas pessoas que falaram isso, dizendo ter percebido a importância de olhar para o projeto político da pessoa.

Tudo aquilo do Bolsonaro parecia brincadeira, mas não existe nada da boca pra fora, né? As pessoas se iludiam pensando que era assim. Tanto não era, que ele está empreendendo essa política de morte, de deixar morrer e não fazer nada. Vimos isso na pandemia. A gente está batendo números altíssimos de desemprego e voltando para o Mapa da Fome, com a juventude negra sendo exterminada. E ele falando que não está nem aí, tem que matar mesmo, armar a população.

As pessoas estão vendo, então ele é pedagógico. É claro que ele deu voz a esses discursos de ódio, mas a gente está nesse momento de conflito social e de valores na sociedade brasileira. Temos esses discursos e contra-discursos postos na sociedade. É um momento de transformação, e por isso vemos coisas como Curitiba me elegendo a primeira vereadora negra da cidade, ao mesmo tempo que reelege o prefeito que representa tudo o que estou tentando desconstruir. O conflito está posto, e sem ele a gente não avança.

As eleições municipais já mostraram uma maior compreensão das pessoas quanto à necessidade de superar algumas exclusões, tanto que tivemos mulheres, inclusive trans, eleitas pela primeira vez em várias cidades. Foi um show, e acredito que isso vá avançar para as eleições presidenciais.

 

Após essa onda de mulheres negras eleitas, como é possível aumentar a capilaridade de novas candidaturas? No Rio de Marielle Franco, apenas duas mulheres negras foram eleitas.

Acho que esse movimento tende a se fortalecer. A partir do momento que se quebram algumas barreiras, as próximas mulheres não vão ter que quebrar esse muro tão grande que eu enfrentei, por exemplo, essa pecha de que nunca teve alguém antes. É uma porta que já foi aberta. O movimento tende a crescer, mas ainda encontra muita resistência.

A professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra eleita em Joinville, já sofreu uma série de ameaças e ataques racistas. Como já falei, a gente tem esse conflito social, essa crise de valores no Brasil. Porém, precisamos avançar. Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação, tantas pessoas excluídas desse processo. Isso não é democracia. Se a gente tem como perspectiva buscar a igualdade no país, com cidades melhores para todos viverem, vamos ter que superar essa barreira.

Acho uma pena que o Rio não tenha eleito mais que uma mulher. É possível que a violência policial e o medo do crime político contra a Marielle desestimule candidaturas.

 

Nesse contexto, você sente medo?

Eu sou muito otimista e corajosa, e já estou recebendo mensagens para eu parar de falar o que estou falando devido a esse caso de Joinville. Eu falei: não quero nem pensar nisso, porque não me passa pela cabeça que alguma coisa ruim vá acontecer, e espero que não.

 

A Marielle foi uma inspiração para você entrar na política?

A Marielle é um exemplo em muitos sentidos. Começa pelo fato de que eu não sabia quem era ela. Foi um sinal para mim ela ser a potência que era, quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, e eu só ficar sabendo quando ela foi assassinada. É a amostra de tudo o que a gente diz sobre a invisibilidade da nossa atuação, das mulheres negras e tudo o que a gente constrói.

O primeiro sinal foi este: como eu não sabia dessa mulher e fico sabendo só agora, com este crime horrível? Ela também foi um fator de indignação. Então, quando a gente consegue chegar lá, com muito esforço, a gente tem que ser apagada e, nossa voz, silenciada, para não falar o que precisa ser dito.

Para todas as mulheres negras e todos que, no mundo, têm esse entendimento, causou muita indignação. Nesse sentido, a gente se uniu, conseguimos fazer conexões e criar uma rede para sustentar essas candidaturas de mulheres que estão se colocando em um espaço tão violento que é a política.

Aqui em Curitiba, a gente tem um movimento de mulheres negras, e todo mês de julho a gente faz debates a respeito do que é a vida da mulher negra, do quanto a gente é sub-representado e precisa estar nesses espaços. É uma construção que vem sendo feita há quatro anos e, depois da morte da Marielle, intensificou-se mais ainda. Sem dúvidas, ela é um exemplo e tem uma influência em vários sentidos. Essa ligação mal explicada do governo Bolsonaro com a morte da Marielle causa muita indignação e nos coloca em movimento.

 

Você foi a candidata mais votada do PT e puxou outros dois nomes do partido. Apesar desse desempenho, você recebeu a menor verba de campanha entre os três. Como você sente o racismo dentro do campo progressista?

Eu tenho dito que o campo progressista tem que abraçar a pauta racial e as lideranças negras. O machismo e o racismo também passam pelo interior dos partidos. É claro que a minha candidatura não era tida como a mais viável, e não fui vista como a aposta. Por isso que minha verba era menor e não era acreditada por todas as dificuldades que apresentei aqui. Foi preciso muita estratégia para construir minha campanha. E a esquerda vai ter que entender que, se a gente não falar daquilo que toca a vida das pessoas e não oferecer a elas o que as pessoas querem, colocando legitimidade em nosso discurso, a esquerda vai morrer. É preciso abraçar as lideranças negras e mulheres. Somos nós que estamos na base.

Eu falo na importância da legitimidade, porque quantos anos mais a esquerda vai ficar falando na boca de um homem branco, com mais de 45 anos, que é preciso superar o racismo e o machismo? É diferente eu falar que a gente tem que superar o racismo, construir políticas antirracistas, superar desigualdades. O discurso fica mais forte, ganha legitimidade. O anseio das pessoas é este, ver a transformação acontecendo. É o que acontece quando elas me veem nesse lugar.

Se a esquerda quiser continuar com seus caciques históricos, sem nunca se mover, querendo falar de desigualdade, sem promover de fato a transformação, para que as pessoas possam ver isso esteticamente, fica complicado. Esses 8 mil votos na terra da Lava Jato mostram que eu consegui superar o antipetismo e não tive voto só de pessoas que se declaram de esquerda. É a transformação que as pessoas querem ver.

 

Você está sempre sorridente. É possível encontrar leveza em meio a tantas lutas?

A luta é para ser feliz. É muito simples. A luta é para se sentir bem, e é isso que venho trazendo em minha trajetória. O meu sentimento de infelicidade, de não pertencimento a essa cidade, foi me levando em busca de ser feliz, me sentir bem, e política serve para isso, promover o bem-estar das pessoas. Se não é este o objetivo, qual é? Política é muito simples, é basicamente isso.

O problema é que a gente tem a não promoção do bem viver, do bem-estar. Isso é a antipolítica, a necropolítica, a política do deixar morrer. Eu quero ser feliz e compreendi que essa minha busca por felicidade é a de várias outras pessoas. Porém, temos que construir instrumentos e mecanismos, como a administração pública. Foi isso que eu compreendi e tento mostrar para as outras pessoas.

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