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O CORRESPONDENTE

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O CORRESPONDENTE

24
Abr20

Identifica-se muitas vezes com deuses, jesuses e napoleões

Talis Andrade

 

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III - Pandemia, presidência, psicanálise

Por Cezar Tridapalli

- - -

 

Em situações-limite, de tensão, restrição, de confronto com a castração, o neurótico pode sublimar, pode simbolizar, falar a respeito, lamentar, enlutar-se. O psicótico, por sua vez, pode apagar esse capítulo da vida e substituí-lo por outro, inventado. Entramos no território do delírio. Se o psicótico não consegue simbolizar uma realidade que se lhe apresenta, pode inventar outra para si. Se o não do pai não se inscreveu, ele pode inventar um Pai que lhe dê ordens, que fale em seus ouvidos – por isso identifica-se muitas vezes com figuras fálicas, potentes, como deuses, jesuses e napoleões.

Chegamos então à última das estruturas psíquicas descritas pela psicanálise: as perversões.

Repetindo para retomar a partir daí: o neurótico inscreveu o não e dá um jeito de contorná-lo. Não se pode matar, mas pode xingar, boicotar, dizer que tem vontade de esganar. Não se pode ter relações incestuosas com a mãe, mas há tantas outras mulheres no mundo. É proibido fazer muitas coisas que o neurótico não fará porque sabe que é proibido. Ele pode testar um ou outro limite – às vezes sob duros golpes de culpa –, mas se conterá em algum momento, desviará, fará outras coisas da vida, sublimará.

E o que faz o perverso? Em relação ao não, a psicanálise afirma que ele foi inscrito no sujeito, o não proibidor foi implantado e compreendido, como na neurose. Mas será renegado, desafiado, muitas vezes cinicamente provocado. É como se o perverso dissesse, em tom de deboche: “ah, não se pode matar? Quem disse? Posso sim”, e vai lá e mata. “Oh, eu não posso fazer sexo com animais? Será que não mesmo?” E vai lá e faz. “Puxa, então quer dizer que estuprar é proibido? Não parece, porque eu estupro”. “Que feia que é a pedofilia, não? Um horror. Impossível? Pois para mim não é”. “Não se pode torturar, é proibido, é? Então veja isso”. “Quer dizer que não podemos sair de casa…?”. Enquanto o neurótico é sujeito do desejo, pois tem inscrito e respeita (às vezes como prisioneiro ou refém) o não, o perverso é sujeito do gozo, do tudo posso naquilo que me faz gozar. Serial Killers com estruturas perversas conseguem geralmente ser pegos por serviços de inteligência, pois são previsíveis em sua demanda por gozo mortal e irrefreável, inadiável, não dosado pela castração, que foi renegada.

Estou traduzindo um romance belíssimo, da escritora italiana Rossana Campo, chamado Onde Você Vai Encontrar um Outro Pai Como o Meu, e que deve sair esse ano pela editora Âyiné. Veja só esse trechinho inédito:

Várias vezes me vejo em cenas como essa, várias vezes tentei sentir de novo aquilo que eu sentia quando era menina. Ele promete que vamos fazer alguma coisa juntos, é domingo ou feriado de Páscoa ou Natal, eu estou contente, faço planos, imagino tudo que eu gostaria de fazer ou ver com ele. Na maior parte das vezes, porém, vamos parar num bar, dentro de uma espelunca mal iluminada, um dos tantos lugares que ele conhece, botequins espalhados pelo interior da Ligúria, com velhinhos dos vilarejos jogando baralho ou sinuca, com a bituca do cigarro entre os dentes, e aquele cheiro de boteco decadente, inconfundível, mistura de vinho, cerveja, mijo, suor e cigarro. Quando entramos, pelos olhares que recebo, entendo na hora o que pensam de nós: chegou o biruta com aquela pobre coitada que, quis o destino, teve um pai assim.

Porém, quando ele me leva pra passear pelos seus lugares, eu fico também curiosa, e o fato de estarmos em locais nos quais não deveríamos estar, de estarmos fazendo algo que todos dizem ser errado, que não se deve fazer, injeta em mim um senso de desafio, de alegria e de rebelião diante do mundo. Mas fico também inquieta quando as coisas começam a demorar muito, quando penso que mamãe está nos esperando em casa ou imagina que estamos em outro lugar, em algum jardinzinho respirando ar puro, brincando com outras crianças.

Ou seja, a personagem narradora experimenta fascínio diante da exploração do limite, força-o um pouco, mas tem algo que o pai não tem: o não inscrito e operante, que faz com que ela se preocupe e queira dar um basta no exagero do gozo, dosificando-o, querendo voltar para casa e acalmar a mãe.

Portanto, pensar apenas no gozo próprio, desconhecendo/foracluindo ou desdenhando/renegando a castração são posições ligadas às estruturas psicóticas e perversas, respectivamente.

***

Comecei falando de pandemia e de formas de nos suportarmos nesse evento extraordinário de nossas vidas: olhando para dentro, para os outros ao nosso lado, e para cima – para o Outro exteriorizado, seja ele um deus ou outra variação de governança e tutela. Cheguei ao presidente, cuja estrutura mental já foi diversas vezes questionada, não sem razão. Não condeno quem o chame de louco, psicopata, perverso, mas todos esses rótulos ganharam sua versão popular, de sentido mais amplo e difuso. Aproveitei a ocasião para tentar sistematizar – para mim mesmo, inclusive – termos psicanalíticos que tratam das nossas estruturas psíquicas.

Foi um passeio errante, peripatético. Numa redação escolar minha nota cairia muito nos critérios de sequência lógica e coesão. Espalhei-me, saí dos limites neuróticos, mas eis-me aqui, justificando-me, punindo-me, sofrendo de culpa e supondo olhares inquisidores.

Abraços feitos de palavras, obrigado a quem me seguiu à deriva nesse desraciocínio.

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