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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

10
Jun21

A impunidade de Eduardo Pazuello

Talis Andrade

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Eduardo Pazuello durante passeio de moto, que gerou aglomeração na cidade do Rio de Janeiro.

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Eduardo Pazuello durante passeio de moto, que gerou aglomeração na cidade do Rio de Janeiro. (Foto: Alan Santos/PR)

 

por Luis Felipe Miguel /A Terra é Redonda

A impunidade de Pazuello é um indicador poderoso da posição dos militares e da complexidade da conjuntura política no Brasil para quem sonha com a restauração do caminho democrático.

Dissipa-se de vez a ilusão de que os generais podem servir de freio a Bolsonaro. Para não brigar com ele, assumiram um vexame homérico: aceitar a desculpa esfarrapada de um general embusteiro, num caso que atraiu os olhares de toda a nação, avacalhando de vez a hierarquia (que, segundo o discurso oficial, seria a marca distintiva dos militares) e escancarando a partidarização dos quartéis. Para Bolsonaro, que cultiva hoje, como cultivou no passado, a agitação política do baixo oficialato, é uma vitória e tanto. Seus adeptos mais aguerridos ganharam carta branca para fazer o que bem entenderem. Para o generalato covarde, é a absoluta desmoralização.

Desde o começo do governo, Bolsonaro tem se estranhado com alguns chefes militares. Há os que são seus caudatários fiéis, como Augusto Heleno ou Eduardo Villas Bôas. Com outros, a relação é sujeita a atritos, permanecendo em estado de constante tensão (caso do vice-presidente Hamilton Mourão) ou chegando ao rompimento (caso dos ex-ministros Carlos Alberto dos Santos Cruz e Fernando Azevedo e Silva). São divergências quanto a políticas pontuais e lutas por espaço no governo, não incompatibilidades de fundo. Por vezes, analistas da imprensa vestem estes desafetos com as fantasias do “apreço à democracia”, do “legalismo” ou do “medo da politização das Forças Armadas”, mas há pouca base para isso. Todos eles, afinal, foram avalistas do golpe de 2016, agentes da fraude institucional que levou à vitória de Bolsonaro em 2018, entusiastas de primeira hora de um governo com nítido fedor fascista e que entregou a gestão do Estado brasileiro a oficiais militares. Diante disto, como sustentar a imagem de generais democratas e profissionais?

Não há um setor legalista expressivo na cúpula do Exército desde o expurgo ocorrido logo após o golpe de 1964. Os governos da Nova República ficaram encantados com a relativa paz que reinou nos quartéis depois da devolução do poder dos civis. Houve resmungos por parte de generais de pijama, manifestações desabridas de comandantes da ativa em ocasiões específicas (como a promulgação da Constituição e durante os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade) e turbulências eventuais entre oficiais de baixa patente, destacando-se o plano para atentado terrorista preparado no Rio de Janeiro por um jovem tenente de limitadas luzes, descoberto em 1987. Pouco, em comparação com os frequentes tumultos militares do período democrático anterior a 1964. A relativa calmaria permitiu que os governos posteriores a 1985 se desinteressassem da questão e quase nada fizessem para adequar as Forças Armadas ao controle civil e à convivência democrática. Elas jamais foram instadas a produzir uma autocrítica da ditadura. Pelo contrário, aferraram-se a um universo paralelo em que a “Revolução” de “31 de março” tinha livrado o Brasil da ameaça comunista e a tortura e a corrupção não tinham existido.

Não se trata de uma corporação militar apenas antidemocrática. Ela o é, profundamente, mas no cerne de sua rejeição à democracia está sua crença fervorosa no valor das hierarquias sociais, seu repúdio categórico ao valor da igualdade. Trata-se de um sentimento antipovo. Por isso, além de seu caráter antidemocrático, esta corporação não se percebe como parte do povo ao qual deveria servir – e este é o outro elemento importante para compreender sua posição diante da conjuntura. O sofrimento dos trabalhadores, a privação dos miseráveis, a desesperança dos jovens, nosso meio milhão de mortos na pandemia, nada disto a comove porque ela se vê como pertencendo a outro lugar. Neste sentido, a elite militar é bem parecida com as outras elites brasileiras, incapaz de qualquer solidariedade com a massa dos que estão abaixo e, portanto, incapaz de alcançar um verdadeiro sentimento nacional.

Quanto a isto, é possível dizer que até regredimos, da ditadura empresarial-militar de 1964 para cá. Os generais que empalmaram o poder há quase 60 anos eram, muitos deles, guiados pela fantasia do “Brasil potência”. Tinham, lá, o seu nacionalismo antipovo. A frase antológica de Garrastazu Médici indica um pouco seu programa: “O país vai bem, mas o povo vai mal”. Depois que largaram o governo, no entanto, eles foram abandonando o desenvolvimentismo. Aderiram ao credo neoliberal: “livre mercado”, “vantagens comparativas”, o pacote completo. Abandonaram também a noção de soberania nacional. Ficam satisfeitos com uma posição de subordinação canina diante dos Estados Unidos e estão, alguns deles, chegando perto de Paulo Guedes no campeonato de entreguismo.

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É também por isso, por virar as costas a um povo com o qual faz questão de não se identificar, que a cúpula militar pode se mostrar tão insensível ao sofrimento, tão cúmplice do descalabro, tão bolsonarista. Tem seus cargos, suas verbas, suas mordomias, suas muitas vantagens – e o que importa o resto?

A decisão sobre Pazuello, pela alta visibilidade que teve, vale por uma declaração do Alto Comando do Exército. Mesmo que motivada não por genuíno apreço, mas por conveniência, é uma declaração de fidelidade a Bolsonaro e a seus métodos – o desrespeito às regras estabelecidas, o desprezo pelas aparências, o vale-tudo. E uma declaração de compromisso. Eles estão indicando, sem margem para dúvida, de que lado estão hoje e de que lado permanecerão em 2022.

Vão dar um golpe? Acho difícil pensar numa quartelada clássica. Falta liderança, falta coragem e falta coesão – a impressão é de que existe uma disputa interna muito grande, grupos se digladiando para saber qual pode auferir maiores vantagens. O mais provável é a continuidade do comportamento adotado desde a preparação do golpe de 2016: ações e declarações para manter a temperatura política elevada, demonstrações localizadas de truculência, pressão indisfarçada sobre as “instituições” (que já mostraram o quão acovardadas estão).

“Pressão” é a palavra-chave também para o nosso lado. O que a decisão sobre Pazuello enterra é a ilusão de que teríamos, no ano que vem, um processo eleitoral razoavelmente “normal” – e, com ela, a ilusão paralela de que basta ganhar as eleições (com Lula?) para pôr o país nos trilhos da retomada democrática. Ganhar as eleições é o mais fácil, ainda que não o seja. Antes disso, temos que garantir que a esquerda possa escolher livremente suas candidaturas. Depois, temos que garantir a posse dos eleitos e sua capacidade de efetivamente governar. Para tudo isso, precisamos de capacidade de pressão. Isto é, de organização e de mobilização.

As circunstâncias são desafiadoras; a pandemia, cúmplice do governo, é nossa inimiga. Mas as manifestações do domingo passado mostraram que há, na sociedade, energias esperando ser canalizadas para esta tarefa. O reforço do trabalho político permanente, de resistência hoje e acúmulo de forças para o futuro, é imprescindível e urgente.

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11
Mai21

Coletivo João Cândido: 'Chacina do Jacarezinho é prática regular das forças repressivas'

Talis Andrade

Operação no Jacarezinho foi 2ª maior chacina no RJ, diz ONG Fogo Cruzado -  Amambai Notícias

 

por Juca Simonard

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“A gente precisa se organizar para lutar pelo direito de autodefesa das comunidades pobres”, afirmou o coordenador do coletivo de negros João Cândido e dirigente do PCO, Juliano Lopes, durante ato em São Paulo, no sábado, 8, contra a Chacina do Jacarezinho.

“A comunidade e o povo trabalhador tem o direito legítimo e democrático de reagir à altura diante dos ataques cometidos pela polícia”, emendou. “Nesse sentido, toda a reação violenta é legítima contra os órgãos de repressão que estão matando a população pobre nos becos, nas favelas e nas ruas”.

A declaração destoou do restante das organizações de esquerda que estiveram presentes no ato. Na maioria dos casos, além de importantes denúncias que foram feitas, os movimentos e partidos presentes faziam apelos emocionais, como “parem de nos matar”, ou imitavam a luta nos Estados Unidos, com “vidas negras importam”. 

Os gritos revelam que boa parte da esquerda carece de um programa para combater a política, cada vez mais recorrente, de chacina da classe operária brasileira, de maioria negra. Os que têm alguma reivindicação, pedem “justiça” e a “desmilitarização” da Polícia Militar.Não tem outro nome que não seja chacina', diz jornalista sobre mortes no  Jacarezinho - Ponte Jornalismo

Ilusões na "Justiça"

No primeiro caso, Juliano Lopes tratou de esclarecer o problema: “A Justiça é o Sergio Moro. A Justiça arquivou os processos do Carandiru, vai arquivar os de Osasco, vai arquivar os da Candelária. O policial que mais mata é promovido”.

10
Mai21

Bolsonaro, o truculento da motocicleta, exalta massacre. E as milícias?

Talis Andrade

por Reinaldo de Azevedo

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Vamos falar, como propôs o presidente Jair Bolsonaro, sobre o "povo que é refém da criminalidade?"

Não é, obviamente, surpreendente que o truculento da motocicleta tenha aplaudido o massacre no Jacarezinho, no Rio, perpetrado por um grupamento da Polícia Civil. Foram assassinadas 27 pessoas. E morreu um policial. Levantamento publicado pelo Estadão mostra que nove delas não tinham a tal "passagem pela polícia". Se eram ou não investigadas, não se sabe até agora. O que se tem? Dos 21 mandados de prisão expedidos pela Polícia, três foram cumpridos; três outras pessoas da lista foram mortas. E 15 não se encontram entre as vítimas. Isso diz bastante sobre o rigor técnico alegado.

Já abordei aqui todos os evidentes despropósitos. Quero me fixar na mensagem que Bolsonaro publicou no Twitter. Escreveu:

"Ao tratar como vítimas traficantes que roubam, matam e destroem familías, a mídia e a esquerda os iguala ao cidadão comum, honesto, que respeita as leis e o próximo. É uma grave ofensa ao povo que há muito é refém da criminalidade. Parabéns à Polícia Civil do Rio de Janeiro! Nossas homenagens ao Policial Civil André Leonardo, que perdeu sua vida em combate contra os criminosos. Será lembrando pela sua coragem, assim como todos os guerreiros que arriscam a própria vida na missão diária de proteger a população de bem. Que Deus conforte os familiares!"

Eis aí um texto que expressa com clareza a opção pela necropolítica, que consiste em usar a morte como um instrumento da luta política, pouco importando se o tema é saúde ou segurança pública. Sim, havia peixinhos do narcotráfico entre os mortos — nenhum chefão. Mas também há pessoas que não tinham vinculação nenhuma com o tráfico.

E isso não diz tudo. Ainda que todos os mortos fossem criminosos, abundam os sinais de execução sumária, e esse não é o trabalho da polícia. Não há pena de morte no Brasil. Se houvesse, teria de ser precedida de um julgamento, com direito de defesa assegurado, e condenação. Então ficamos assim: ou se está diante de um massacre indiscriminado — e aí é preciso ver a serviço de quem foi executado (não foi em benefício da segurança pública) — ou se está diante de um esquadrão da morte aboletado no Estado.

Em qualquer caso, trata-se de uma abominação. Tanto pior quando há sinais de que há uma determinação em setores da segurança pública do Rio de desafiar uma decisão do Supremo. O delegado Rodrigo Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), discursou abertamente contra o tribunal, como se essa fosse uma atribuição sua. A Core já foi protagonista dos massacres da Maré — realizado com auxílio de helicópteros, deixando oito mortos, em maio do ano passado — e do Salgueiro, em novembro de 2017, com outros oito. Em três operações, 43 vítimas. Virou uma máquina de matar.

Em operações assim, sempre se exibem armas apreendidas para justificar a truculência. As investigações acabam dando em nada. E é o que vai acontecer de novo se ficarem entregues à própria Polícia Civil do Rio. O Ministério Público do Estado tampouco se mostra eficaz. Um quarto massacre, o do Morro do Fallet, com 15 mortos — este perpetrado pela Polícia Militar em fevereiro de 2019 — foi para o arquivo. Mas quero voltar ao presidente.Pacote de Bolsonaro é incentivo à bandalheira no trânsito |  bloglimpinhoecheiroso

ENTÃO FALEMOS DE REFÉNS

Bolsonaro, este gigante moral em defesa dos bons costumes, da lei e da ordem diz que a criminalidade torna refém a população que está sob o seu jugo. Sim, isso costuma acontecer. E é claro que o Estado tem de enfrentar a bandidagem.

Ocorre que o narcotráfico dá as cartas em pouco mais de 15,4% do território na cidade do Rio, onde vivem pouco mais de 1,5 milhão de indivíduos. É um despropósito? É, sim. Mas as milícias dominam uma área correspondente a 57,5%, e estão sujeitas às suas decisões quase 2,2 milhões de pessoas.

Por que não se veem helicópteros da Core atirando contra milicianos nem incursões nas suas fortalezas? E não! Não estou defendendo que se repita o padrão "Salgueiro-Maré-Jacarezinho". Sei, claro!, que não aconteceria. Com raras exceções, milicianos são ex-policiais ou policiais ainda na ativa.

Um dos mais famosos era Adriano da Nóbrega, ex-membro do Bope, que chefiava o "Escritório do Crime". Foi condecorado pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro, que, adicionalmente, contratou em seu gabinete a mãe e a mulher do criminoso.

Flávio já teceu elogios rasgados às milícias, que não se limitam a comandar o tráfico nas áreas sob o seu domínio: também administram o transportepúblico, cuidam do "gatonet", encarregam-se do fornecimento de gás, cobram taxa dos comerciantes, criam suas próprias regras de segurança pública, atuam como imobiliárias e se dedicam à construção civil.

Nada presta: nem milícia nem facções, é evidente. Mas só um deles está infiltrado no Estado brasileiro, particularmente nas polícias. Todos os decretos de armas baixados por Bolsonaro, note-se, facilitam a compra de armamentos pesados por civis, retirando do Estado os mecanismos de controle. Adivinhem quem sai ganhando com isso. O tráfico pode até se beneficiar também, mas é sócio menor da esbórnia.

As facções têm, sim, de ser combatidas. Mas foram as milícias a criar um Estado paralelo e criminoso nas áreas sob seu controle. Se Supremo e Procuradoria Geral da República concorrerem para a impunidade dos que perpetraram o massacre de quinta-feira, outros ocorrerão. A milícia sempre quis tomar do Comando Vermelho o Jacarezinho. Para impor a ordem? Não! Para generalizar o terror. Até agora, não conseguiu.

 

CHARGE – Blog do Cardosinho

O TRUCULENTO DA MOTOCICLETA

No dia em que fez essas declarações asquerosas, Bolsonaro reuniu um grupo de motoqueiros e fez um desfile por Brasília. Forças de segurança garantiram a livre circulação da turma, deixando o trânsito bloqueado. Depois provocou aglomeração com seus "parças". Sem máscara, claro.A cavalo e sem máscara, Bolsonaro avança para seu triunfo, o triunfo da  morte - 10/06/2020 - Contardo Calligaris - Folha

O presidente prometeu fazer o mesmo no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte. Disse ser uma homenagem ao Dia das Mães — quando mães, viúvas e órfãos choraram os seus mortos. A plástica e a mímica da patuscada lembravam, claro!, uma espécie de milícia motorizada.

Não deixa de ser curioso: na Venezuela, milícias governistas costumam desfilar em motocicletas, usadas por lá também para intimidar manifestações de protesto, com brutamontes armados. Por aqui, Bolsonaro quer garantir o porte de até seis armas por indivíduo. Diz que assim se faz um povo livre.

Tão livre como as pessoas que hoje estão submetidas à ditadura dos milicianos no Rio.

Gilmar Fraga: a curva | GZH

Cris on Twitter: "#BolsonaroGenocida #churrasco10kdobolsonaro #Covid_19… "

 

 

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