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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

09
Fev22

A bicicleta nazista

Talis Andrade

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Por Eric Nepomuceno /Jornalistas pela Democracia

Por esses dias andei lembrando da minha primeira adolescência, quando a vida era mais fácil. Tudo parecia dividido em dois, à nossa escolha: Guaraná ou Crush (que depois virou Fanta), Renault Dauphine ou Renault Gordine, DKW ou Volksvagen, bicicleta Caloi ou bicicleta Monark.

A lembrança da bicicleta – em casa todos tínhamos Monark – voltou graças à descoberta de uma figura dantesca que atendia pelo nome de Bruno Aiub até virar quem virou. Como não frequento as tais redes sociais, nunca tinha ouvido falar desse Monark com milhões e milhões de seguidores.

Vi e revi suas declarações defendendo a criação de um partido nazista. Depois, tentando se desculpar, argumentou que estava bêbado. Pois se estava, não parecia. Na verdade, estaria embriagado da própria cretinice. 

Fiquei pensando como é que semelhante modelo de estupidez insuperável conseguiu atrair tanta gente e se entupir de dinheiro. E constatei o óbvio: os tais meios digitais, as redes sociais, esses instrumentos atuais abrem espaço para qualquer coisa.

O melhor exemplo disso talvez seja um embusteiro, jornalista e astrólogo autodenominado “filósofo”, chamado Olavo de Carvalho, que há pouco partiu desta para a pior. A disseminação de aberrações semelhantes não fez mais do que crescer. 

Acabo de ficar sabendo que um tal de Adrilles Jorge foi demitido da Jovem Pan por ter feito o que se considerou saudação nazista. Bem, ser demitido da Jovem Pan, reduto do bolsonarismo mais deslavado – verdadeira voz oficial da mais extrema-direita imbecil deste país destroçado – é um feito e tanto.  Mais intrigante é saber como essa figurinha, saído do nada, foi parar lá e ter tido o espaço que teve. 

Os chamados meios alternativos de comunicação, que pululam mundo afora, são o pântano para esse amontoado de dejetos mergulharem à vontade.

No episódio do tal Monark, a bicicleta nazista e suas pedaladas grotescas, havia outra figurinha nascida da ignorância, da manipulação e da maldição da política tradicional despejada pela atuação do juiz manipulador Sérgio Moro e sua turma, com a cumplicidade do comportamento poltrão do Supremo Tribunal Federal, dos meios oligopólicos de comunicação, de boa parte da classe política e das Forças Armadas.

Estou me referindo a Kim Kataguiri, deputado federal por São Paulo, integrante do Podemos e um dos principais apoiadores justamente de Sérgio Moro. Para o referido parlamentar, nazismo não deveria ser considerado crime no Brasil. E pelo que mostrou até agora, apoiando Moro, o ex juiz manipulador também não cometeu nenhum crime.

Foram, pois, feitos um para o outro. Com Monark e tudo.     

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01
Fev22

Genocida, não

Talis Andrade

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por José Horta Manzano /Crreio Braziliense

A validade de um estudo científico só é autenticada depois de ele ter sido avaliado e abonado por um conjunto de reconhecidos cientistas da mesma área. É o que os ingleses chamam "peer review'". Costuma-se traduzir essa expressão como revisão por pares, revisão paritária ou até, um tanto desajeitadamente, arbitragem. A tradução flutuante vem do fato de não ser comum, entre nós, designar de "pares" os que exercem a mesma função ou os que pertencem à mesma categoria. Assim, qualquer tradução literal periga sair meio manca. Mas, pela atual tendência de integração de conceitos estrangeiros a nossa língua, a solução foi encontrada: mantém-se a expressão inglesa, com casca e tudo.

A organização MedRxiv, cujo estranho nome se deve pronunciar "med-archive" ('arquivo médico') é um repositório on-line de preprints da área médica, clínica e de saúde. Como o nome sugere, é a publicação prévia de artigo científico ainda não validado pelos pares.

Agora vamos aos fatos. Alguns dias antes do fim de dezembro de 2021, uma dezena de cientistas brasileiros assinou, sob forma de preprint, um alentado estudo sobre a correlação entre vacinação, hospitalização e morte de maiores de 60 anos. A primeira constatação, como se imaginava, é de que a taxa de óbitos decresce à medida que a vacinação se generaliza.

Em seguida, os signatários do estudo valeram-se de fórmulas complicadas demais para serem descritas por não iniciados como este escriba. O que interessa são as conclusões. E elas são comprometedoras para o governo brasileiro. O incrustado negacionismo, gerado pela ignorância presidencial, custou caro ao país. Em vidas humanas.

O estudo estima que milhares de idosos brasileiros foram salvos pela vacinação: um total de 75 mil, só no ano de 2021. Não fosse a vacina, esse contingente não estaria mais entre nós. Essa é a parte decente da história. Em paralelo, há um lado bem mais sombrio.

Todos se lembram dos esforços envidados pelo capitão para frustrar — ou, pelo menos, retardar — a compra de vacinas anticovid. Baseados em análise dos dados e em cálculos atuariais, os cientistas chegam à conclusão de que, se a vacinação tivesse começado oito semanas antes, 48 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Quarenta e oito mil mortes! Para efeito de comparação, essa hecatombe equivale à queda de 185 Boeings modelo 767 lotados, com 260 passageiros cada um, sem nenhum sobrevivente para contar a história. Ou 4.800 desastres como o de Capitólio (MG), que ocupou as manchetes com suas 10 vítimas — um Capitólio por dia, durante 40 meses sem parar. Estamos falando apenas das mortes evitadas.

Muitos chamam Bolsonaro de genocida. Estão errados. Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 1940 e oficializada por convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1948. A definição é rigorosa: exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. É, portanto, limpeza étnica — um ato extremado levado a cabo por motivos religiosos ou por loucura.

Os atos de Bolsonaro não correspondem à definição. Sabe-se que ele não gosta de pobre, mas a negação da pandemia não causou morte só de pobres. Sabe-se que ele tem medo de comunista, mas o atraso na compra das vacinas não mandou só comunistas para o cemitério. Sabe-se que ele é misógino, mas a louvação da cloroquina não matou só mulheres.

Bolsonaro tem alguns parafusos soltos. Sua loucura é apimentada por ignorância, poltronice e preguiça — condimentos explosivos, mas que não chegam a configurar um genocida que se preze. Genocidas verdadeiros não houve tantos assim. O século 20 conheceu alguns dos grandes, tais como Hitler (Alemanha), Pol Pot (Cambodja) e Stalin (URSS). Há outros menos conhecidos. Por mais que tenha feito, nosso capitão não entra nessa categoria.

Genocídio requer método e planejamento, conceitos que não frequentam o universo mental de Bolsonaro. Ele não passa de um ser perturbado, atrasado, sem instrução, paranoico, que chegou à Presidência numa esquina da história que não se repetirá. Está mais para patacão que para genocida.

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