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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

22
Mai22

A resistência da democracia (por Gustavo Krause)

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

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A irreverência de Nelson Rodrigues definiu o prazer da releitura: “Deve se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três a quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obstinada pertinácia”.

Carinhosamente, retirei da biblioteca um livro com as marcas de frequentes consultas – O Tempo da Memória – De senectute e outros escritos autobiográficos – do admirável pensador Italiano (Turim), Noberto Bobbio (1909-2004).

“A velhice é um tema não-acadêmico. Sou um velho professor. Permitam-me falar, desta feita, não como professor, mas como velho”, à época, com 84 anos, dizia que ultrapassara a terceira se encontrava na quarta idade.

O livro é um emocionante tratado de sabedoria humana. Filósofo da Política e do Direito, Bobbio foi, também, “um filósofo militante” no enfrentamento à monstruosidade das ditaduras, a exemplo do fascismo que assassinou Carlo Rosselli, jovem autor de: “O socialismo liberal”.

Paradoxal, era um “dualista impenitente”; declarava fervorosa afeição pelos clássicos; pertencia a linhagem dos que acreditam que “a virtude está no meio”; exerceu, sempre, a moderação na função mediadora do intelectual diante de dogmatismos opostos; rejeitava os “ismos”, porque “os ismos fecham”, o que conferiu a Bobbio a singularidade de ser moralmente liberal, radicalmente democrata e teleologicamente socialista.

Ao longo da releitura, fiquei a imaginá-lo, defensor da democracia, dos direitos humanos e da paz, testemunhando as graves ameaças da sedução populista, do desrespeito aos direitos do indivíduo e à paz mundial.

Os índices que medem o estado da democracia no mundo não são animadores. O relatório do Instituto V-DEM sobre a variação das democracias, ligado à Universidade de Gotemburgo num ranking de 202 países, 450 indicadores, revelou que a população mundial, sob regimes ditatoriais, subiu, na última década de 49% para 70%. O Brasil foi o quarto que mais se afastou da democracia.

Por sua vez, o Índice de Democracia, criado pela revista The Economist, avalia 167 países, com base em cinco critérios, para definir democracia plena, democracia imperfeita, regimes híbridos e regimes autoritários. O Brasil se enquadra na categoria imperfeita em 52% lugar.

É preciso resistir às reiteradas tentativas de retrocesso democrático.

Com a experiência de “filho do século XX”, Bobbio diria: “Prefiro falar de transformação e não de crise, porque ‘crise’ nos faz pensar num colapso iminente. A democracia não goza no mundo de ótima saúde, como de resto jamais gozou no passado, mas não está à beira do túmulo”.

Charge: tribunadainternet.com.br

15
Abr22

Documentário “O canto livre de Nara Leão”

Talis Andrade

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Há uma unidade na obra toda. E o trabalho de montagem foi então o fundamental. Mas é o olhar de uma pessoa que conhecia a entrevistada, como a filha, que permitiu que isso acontecesse

 

por Celso Marconi

 

Há dias que estava pensando em assistir à série “O canto livre de Nara Leão” e resolvi fazer isso ontem no meu novo computador. E fiz vendo os cinco episódios em continuação. Não quero analisar o trabalho da equipe da Globo, pois como não acompanho as séries que eles apresentam, apenas sei do bom nível que é considerado inclusive “o padrão global”. O que mais me interessa é o aspecto político. Como estaria sendo apresentada culturalmente essa excepcional artista brasileira Nara Leão?

Quero declarar que tive um prazer muito grande na imagem e na expressão que a série me colocou para ver. Em vários momentos, me senti revivendo minha própria vida. Como vivi na luta cultural como jornalista e com posição ideológica clara desde os anos 50 do século passado, uma figura como Nara Leão me faz reviver o tempo. E cada situação da sua vida faz parte da minha vida. Bossa Nova. Tropicalismo. Chico Buarque. Roberto e Erasmo. Tenho a impressão de que foi a presença da filha Isabel Diegues na coordenação da série que a transformou num documento não só da maior importância cultural, mas também dos mais prazerosos de ser assistido.

É importantíssima a presença física da artista na série. Certamente, as muitas entrevistas apresentadas não foram feitas com o intuito de fazer parte de uma série, mas foram bem aproveitadas e assim o espectador tem então uma continuidade. Há uma unidade na obra toda. E o trabalho de montagem foi então o fundamental. Mas é o olhar de uma pessoa que conhecia a entrevistada, como a filha, que permitiu que isso acontecesse. E também a sensibilidade criativa dessa filha.Ninguém pode com Nara Leão: Uma biografia | Amazon.com.br

A melhor entrevista feita especificamente para a série é certamente da atriz Marieta Severo, que foi amiga da Nara durante os dois anos em que viveram na França. Como a atriz Marieta Severo diz, se aproximavam muito por necessidade emocional. Estavam vivendo lá os dois casais por impedimento político durante a ditadura de 64. E Marieta Severo se mostra alguém de bem conhecer uma amiga. Uma grande atriz de teatro, vivendo convivendo com outros artistas como Nara, Chico e Cacá. Aspectos da personalidade de Nara são revelados, buscando mostrar a mulher integral que Nara Leão foi. Cantora e pessoa consciente.

De certa forma, Nara Leão assumiu na sua vida cultural política uma posição que artistas como um Caetano também fizeram. E Nara talvez por questão de temperamento e por condição socieconômica pôde viver e expressar, e então mudar de posição do ponto de vista artístico sem mudar de ideologia. Nara fez Bossa Nova como musa, mas não se prendeu ao movimento como muleta. Passou para cantar samba. Cantou canções românticas de Chico Buarque. E interpretou músicas da Jovem Guarda com a mesma criatividade. Não quis nunca ser uma funcionária da interpretação musical. Se pode dizer que fez isso porque tinha condições econômicas, mas muitos quanto mais têm riqueza menos se libertam. A posição de Nara foi declaradamente inteligente e honesta.

Pessoalmente, só encontrei uma vez Nara Leão, numa ocasião de um show que aconteceu no Geraldão no Recife, não me lembro bem como. A verdade é que ela estava dando uma coletiva na ocasião, e eu comecei uma conversa grande após. Então ela me disse não poder demorar mais, embora gostasse de participar dessa conversa, pois havia me achado parecido com “um grande amigo meu” (dela). Certamente, nenhum dos que aparecem na série da Globo.

Olinda, 20. 03. 22

Ainda sobre a série de Nara Leão

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A gente sabe que a empresa Globo de comunicação, desde que foi criada, vem servindo para criar em nosso país uma consciência negativa e de submissão. Até mesmo quando estava em vigor a ditadura de 64 e nesse período principalmente. Mas nem sempre um produto deles pode ser desprezado como negativo. Uma série como essa tem a necessária garra de realização para mostrar o outro lado da nossa vida, mesmo dentro desse período. E a vida de uma mulher como Nara Leão é capaz de representar esse lado de importante resistência que vivemos na segunda metade do século XX. E a série consegue ser tecnicamente correta.

Que sequência magnífica temos quando é apresentada a crônica de Carlos Drummond de Andrade em defesa da liberdade de Nara Leão. Naquela época, eu não era muito simpatizante de Drummond, e claro que pela sua posição pessoal de ligação com o pessoal do poder. E nem mesmo sou grande leitor de Drummond, embora hoje o considere como todo mundo um maravilhoso poeta. Mas o que penso que deve ser realçado é o aproveitamento que conseguiram fazer da crônica. Mesmo hoje a emoção é demais presente.

Outro aspecto que deve ser destacado da série é a entrevista com Chico Buarque. Ela foi montada de maneira muito inteligente. Por exemplo, quando Chico fala sobre quando conheceu o apartamento de Nara, e então vem a declaração da própria cantora. Cria-se um elo entre os dois de forma correta e dinâmica. Chico Buarque inclusive mostra a importância que a cantora teve no seu sucesso como compositor. O trabalho criado pelos realizadores da série levou em conta não a sequência em si, mas como ela seria importante para a sua continuidade na história.

Também conseguiram manter uma narrativa dinâmica e muito explícita nas situações com Erasmo e Roberto Carlos. E até a simples declaração de Bethânia dizendo que Nara era namoradeira ganha um sentido dinâmico na série. Talvez tenha faltado mais empenho na última sequência em que aparece Roberto Menescal.

Enfim, claro que a cultura brasileira não está morta e certamente no próximo ano voltará a brilhar.

Olinda, 20. 03. 22

 

27
Fev22

Por que a guerra?

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

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Gelei quando o noticiário mostrou imagens do exercício militar de armas hipersônicas e nucleares do exército russo, em Belarus, fronteira com a Ucrânia. Dias depois, a insanidade do conflito começou. Como se não bastasse o estresse dos últimos dois anos de pandemia virótica e pandemônio político, veio-me à lembrança a trágica estética das guerras: o mortal cogumelo atômico em Hiroshima e Nagasaki.

O século XX deixou as marcas de dois conflitos mundiais e, segundo John Gray, “Desde 1950, ocorreram perto de vinte genocídios; pelo menos três deles tiveram um milhão de vítimas (Bangladesh, Camboja e Ruanda)” (Cachorros de palha, p. 108).

Autêntico baby boomer, vivi os tempos da Guerra Fria; senti na pele o ambiente ameaçador e os momentos de risco para a paz universal: os blocos pautavam as relações internacionais no pragmatismo econômico e no equilíbrio do medo da catástrofe universal.

Por sua vez, o século XXI é um vendaval de inovações: quebra paradigmas em todas as dimensões sociais: ultrapassa limites convencionais de tempo e espaço; coloca na agenda global enormes desafios; aterroriza a humanidade com o destino escatológico.

Foi precisamente a combinação tempo/imagem/comunicação instantânea que me assustou, bombardeado pela mídia, redes sociais, sobre várias questões: pandemia, pobreza, desastres ambientais, violência, racismo, homofobia, feminicídio, enfim, uma carga de informações rasas e duvidosas que inibem o debate consistente e permitem estridente cacofonia de opiniões.

Agora, testemunhar a monstruosidade da barbárie. Evitei o ansiolítico, quando recordei a leitura de uma preciosidade: “Por que a Guerra?” indagações entre Einstein e Freud (cartas, 1932) em que o gênio da física consulta o gênio da psicologia, cortês e humildemente: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?” “É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?”

Por serem geniais, ambos têm mais dúvidas do que certezas. Freud caminha pelo conflito das pulsões de vida e da morte. Acredita na força civilizatória e, concordando com Einstein, afirma: “As guerras só serão evitadas se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o poder de arbitrar todos os conflitos de interesses”.

A Liga das Nações fracassou. Porém, não há outro caminho para paz, senão a Política na concepção de Hannah Arendt: “A Política se baseia na pluralidade de homens […] A Política trata da convivência entre diferentes […] O sentido da Política é a liberdade”. E adverte: “A guerra, quando posta em andamento, será necessariamente conduzida com as armas que estiverem à disposição das potências que a estão travando”.

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21
Jan22

Os muitos déficits de Moro

Talis Andrade

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Moro o bolsonarismo sem Bolsonaro

 

por Pedro Serrano

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Em recentes declarações à revista Veja e em suas redes sociais, Sergio Moro teceu críticas a advogados que criticaram a atuação dele enquanto juiz. Moro atacou especialmente o grupo Prerrogativas, dizendo, entre outros absurdos, que os advogados que o integram trabalham pela impunidade de corruptos.

O discurso de Moro, pela sua agressividade e total descompasso com a realidade, não pode ficar sem resposta, e é por isso que ocupo este espaço para, assim como fizeram outros colegas advogados, também refutá-lo.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que a fala do ex-juiz revela uma grave deficiência cognitiva em uma área do conhecimento que ele deveria dominar minimamente. Mais do que uma visão de mundo autoritária, a crítica feita por ele demonstra desconhecimento do que sejam a advocacia, os direitos e o Direito. 

Qualquer estudante de primeiro ano de Direito sabe que advogado nenhum defende corrupto ou bandido; defende os direitos da pessoa – veja, nem a conduta e nem a pessoa, mas os direitos dela. Direitos que qualquer um, mesmo tendo cometido crime, possui, pelo simples fato de que é um ser humano. Relacionar a advocacia à defesa de crimes revela uma interpretação anti-humanista do Direito, que Moro reproduziu enquanto juiz, atuando contra os direitos dos acusados que julgou.
 

Vale lembrar que a hostilidade do ex-juiz com a advocacia não é novidade. Durante audiências de processos da Lava Jato, em vários momentos, ele entrou em conflito com advogados dos réus, confundindo o exercício ético da advocacia com obstaculização de investigações, e escancarando sua total ausência de imparcialidade. 

Ao atacar os advogados e não compreender que as pessoas são detentoras de direitos, Moro descortina também um déficit moral democrático, pois os direitos são os mais relevantes valores morais de uma democracia, aquilo que lhe confere civilidade. Uma sociedade civilizada é justamente uma sociedade que respeita os direitos – o que, aliás, não se viabiliza sem advogados.

Moro disse ainda que os advogados aos quais critica se arvoram uma superioridade moral em relação ao Ministério Público e aos juízes que participaram da Lava Jato. Mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Eles é que reivindicaram para si a figura do que Hans Kelsen chama de líder populista, que se apresenta como superior à moralidade da sociedade e que tem força para trazer a ordem. Uma visão avessa à ideia de democracia e de quem enxerga a sociedade como complexa e fragmentada, reconhecendo a necessidade de se criar procedimentos para resolver conflitos por meio do Direito e da política.

O populista de direita crê numa ordem e numa homogeneidade social em que todos pensam da mesma forma e em que aqueles que se opõem devem ser tratados como inimigos. Moro é esse tipo de liderança política, que foi se constituindo desde quando era juiz. 

O agora candidato à Presidência da República perseguiu ferrenhamente Lula não por um desejo genuíno de combater a corrupção, pois sempre soube que Lula era inocente. Ele perseguiu Lula por preconceito. Assim como boa parte da elite sulista eurocêntrica do nosso país, ele não aceita que um homem sem educação formal, originário das classes mais pobres e nordestino, tenha feito um dos melhores governos da nossa história. 

Moro executou um processo fraudulento contra Lula para impedi-lo de ser candidato novamente. Aliás, é bom que se diga, não há processo no plano filosófico-político mais corrupto do que um juiz criar um processo falso, enganoso, para interferir na democracia. Como juiz, Moro se apropriou do sentido dos direitos da nossa Constituição, interpretando-os conforme seus interesses. O resultado disso, como vimos, foi a eleição de Bolsonaro, que lhe recompensou com o ministério da Justiça. 

A hostilidade do ex-juiz contra os advogados, especialmente contra os do grupo Prerrogativas, certamente está calcada no fato de que foram eles que demonstraram ao STF a total parcialidade e suspeição de Moro. Evidenciaram que ele agiu politicamente, o que, para quem ainda tinha alguma dúvida, se comprova agora com sua candidatura e a de seus pares. Os advogados aos quais Moro critica conhecem os processos e sabem exatamente o que ele fez – os abusos, os mecanismos políticos e a persecução contra Lula –, que agiu com dolo, manipulando o processo para gerar uma condenação injusta. 

Se Sergio Moro fosse um juiz isento, jamais teria aceito o cargo de ministro de Bolsonaro e, agora, empreendido essa candidatura, contrariando, inclusive, o que afirmou na época em que ainda estava na magistratura. Mas o fato é que Moro nunca foi um juiz, no sentido material da expressão; foi um militante político que se valeu da jurisdição para alcançar notoriedade e chegar ao poder, o que é moralmente inaceitável. 

Vale observar que o grupo Prerrogativas não é uma entidade, uma instituição, uma associação civil, mas uma reunião de advogados, de diferentes matizes ideológicos, que se dispôs a discutir, inicialmente em um aplicativo de mensagens, o momento do país. 

No entanto, a agressividade de Moro contra esse grupo não está relacionada a qualquer representatividade institucional, mas sim à força que esse grupo tem ao professar valores multisseculares, como a ideia de garantia dos direitos, de que o ser humano merece proteção, de que ninguém pode ser torturado e morto pelo Estado, nem perder a liberdade sem que tenha de fato cometido crime, comprovado em processo com direito de defesa. 

Ao atacar os advogados, portanto, Moro ataca os direitos, algo que remonta ao século XV e vem sendo construído com luta e sacrifício, com sangue nas calçadas, por lideranças políticas e também por pessoas comuns interessadas no desenvolvimento da civilização e da humanidade. 

Por fim, é bom que entendamos que Moro não é terceira via, mas o bolsonarismo sem Bolsonaro – uma fração do mesmo bloco de poder, que compartilha uma visão de mundo profundamente autoritária e extremista de direita, e que está em disputa por hegemonia. O bloco que representa e expressa tudo que a elite aporofóbica desse país é – racista, classista e preconceituosa.

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05
Jan22

Depois da terra plana tem um rio

Talis Andrade

 

O Horto Florestal, na zona norte da metrópole, criado em 1896, por decreto, no governo de Bernardino de Campos, por iniciativa do botânico sueco da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, Albert Löfgren, me revelou que a política e a ciência, encontro de gente com clareza no pensamento, produz suas pérolas, um legado para gente futura.

Mais de um século após,  num parque estadual deserto, livre, fiz meu ritual para o ano que se inicia, escrevi nas águas da lagoa e da chuva, um FORA BOLSONARO, às aves e peixes entreguei o desejo de um mundo pleno para aqueles que virão.

O que há de novo nas árvores, seres tão velhos que encontro por aí? Ou numa lagoa, em um rio, o que nos faz pensar as águas?

Como um rio ou árvore aprendi a entender o tempo, alegorias boas para essas dimensões em que vivemos mergulhado. 2@22 anuncia-se assim, espaço e tempo, um período determinado onde as águas se juntam, dividem margens, leito comum num tempo que escorre, percorre, avoluma-se num leito entre floresta. Selvagens, vivas, arcaicas, as imagens dos anos recentes denunciam delírios na barbárie, mais que o moderno, moderna guerra de redes.

Tudo tão rápido, mas nessa passagem me deparo com um ciclo que se conclui, tanta chuva assim após as queimadas imensas.

De 2015, recordo, entre artistas amordaçados, acordamos todos em 2022. Despertos estamos, mais espertos, incrédulos habitantes, após Mariana, Brumadinho, as cinzas e a pandemia .

Parece ontem, mas 7 anos decorridos, tão emocionante, ricas, anunciam-se as nuvens, céus e seus turbilhões.

 
28
Dez21

A MAIOR HONRA DE UM CRAQUE

Talis Andrade

Carlos Caszely, o goleador que ajudou a derrotar Pinochet | Esportes | EL  PAÍS Brasil

 

por Urariano Mota

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Na volta da democracia ao Chile, que estava ameaçado pelo terror fascista neste 2021, retomo um texto escrito muito antes, que o ZonaCurva republicou.

 

Um gol inesquecível contra Pinochet

Entre as imagens que nos vêm a partir do 11 de setembro de 1973, do dia em que houve o golpe militar contra Salvador Allende, entre tantas imagens vivas, uma poderia ser, com razão, do presidente Allende resistindo de capacete em último recurso, com alguns fiéis militantes às portas do palácio La Moneda. Essa imagem fala de um socialista democrata, que pela força das urnas julgava ter o poder, que é destruído ao fim, derrotado com a eloquência maior de bombas e crimes.

Outra imagem poderia ser também a que correu mundo, dos livros sendo queimados por soldados do Exército nas ruas do Chile. Em um país de grandes poetas e tradição humanista, essa foto escapou do paradoxo, porque ela se fez coerente com o assassinato do poeta Pablo Neruda pela ditadura. E depois, essa imagem dos livros no fogo é tão simples e pornográfica, ao mesmo tempo de tamanho didatismo sobre a ideologia fascista no seu carbono Pinochet, que um comentário passaria pelo já visto, ao lembrar e repetir ações de Hitler a Franco, todos ótimos queimadores de escritores, livros e inteligência.

Então falo rápido sobre uma imagem e personagem que marcam também. Não são muito divulgados no Brasil um gesto, a pessoa e o valor de Carlos Caszely. Ele foi um craque do futebol chileno. A wikipédia informa que Carlos Caszely é o jogador mais popular e querido da história do Colo-Colo e do Chile. Até hoje é chamado de El Chino, El Rey del Metro Cuadrado, ou de El Gerente. Mas o seu maior feito é este: astro da seleção de futebol do Chile, em cerimônia oficial dentro do palácio, no vigor de mortes e fuzilamentos de opositores, Carlos Caszely se negou a apertar a mão do ditador Augusto Pinochet.

Ou como ele próprio fala desse momento raro e belo, anos depois: “Eu ouvi passos. Foi pavoroso. De repente as portas se abriram. Apareceu uma figura vestindo uma capa, de óculos escuros e quepe. Tinha uma cara amarga, suja, dura. Ele foi cumprimentar cada um dos jogadores qualificados para a Copa. Quando ele se aproximou, eu botei minhas mãos atrás das costas. Ele estendeu sua mão, mas recusei a apertar. Como ser humano aquela era minha obrigação. Tinha todo um povo sofrendo nas minhas costas”. Mas que coisa.

As razões do gesto, desse heroísmo, são anteriores. Não foi um impulso louco. Antes, o jogador havia sido ligado ao ex-presidente Salvador Allende. Ele próprio, o jogador, socialista como o presidente morto. Depois do golpe, Caszely se transferiu para o futebol espanhol. E o que faz a canalha do regime no Chile? Perto da Copa de 1974, os militares sequestram, prendem e torturam a mãe do jogador. Supõe-se que isso era uma tentativa de calar Caszely e obrigá-lo a jogar pela seleção chilena. Entre os perseguidos da ditadura, ele era o principal jogador do futebol chileno, estrela do Colo-Colo e da seleção. Caszely achou o ato de tortura na mãe tão estúpido, que declarou recentemente:

“Ainda hoje não está claro por que fizeram aquilo. Eles a prenderam e torturaram selvagemente, e até hoje não sabemos de que ela era acusada. Recordo um país triste, calado, silencioso, sem risos. Uma nação que entrava nas trevas. Eu sabia o que viria de cima. Eu tinha medo. Não por mim, mas por meus amigos e por minha família. Eu sabia que estavam em perigo por minhas ideias”.

Então sua mãe é presa, torturada e solta, sem qualquer acusação. E pouco depois o jogador se encontra cara a cara com o ditador, na despedida para a Copa de 1974 na Alemanha. Este é o momento em que Caszely põe as mãos para as costas, enquanto Pinochet se aproximava a cumprimentar um a um. Caszely foi o único a rejeitar o ditador.

Enquanto escrevo, ao lembrar esse ato, sinto um cheiro de perfume, daqueles inesquecíveis, cujo cheiro e composição química vêm apenas da lembrança que cerca um gesto. Naquele maldito e mágico ano de 1973, quando o mundo conhecido vinha abaixo, no momento exato em que grandes eram as esperanças, houve esse gesto de Caszely tão pouco ou nada divulgado. Soube faz pouco tempo. Mas que coragem, podíamos dizer. E aqui, se espaço houvesse, deveríamos discutir o quanto estão errados os que julgam ser a coragem um atributo de valentões, de homens que zombam do perigo. Não é. A coragem é a fidelidade ao sentimento de honra, dever ou amor. Por isso dizemos: que afeto e grandeza em ser fiel ao mais íntimo sentimos naqueles braços para trás de Caszely, enquanto avançava contra ele o ditador. Com certeza, o jogador tremia, mas não podia ainda assim ceder à mão de Pinochet no cumprimento.

Não sei, mas esse me parece o maior gol de placa da história.

 

     

 
10
Nov21

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol nunca fizeram política, mas canalhice e devastação do Brasil

Talis Andrade

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Os canalhas Moro e Dallangnol são políticos desde sempre e o partido deles é a lava jato, organização criminosa e golpista formada desde os interesses imperialistas e mafiosos de poderosos grupos imperialistas, de olho no nosso petróleo

 

por Dom Orvandil

 

Prezada Professora Mirian Preto

Cruz Alta, RS.

Novamente nos encontraremos nesta quarta feira no Programa Leitura Profética.

Com esta carta objetivo refletir contigo sobre a dividida que significa a horrorosa e nojenta participação de Sérgio Moro e de seu comparsa Deltan Dallagnol no processo eleitoral como candidatos nas próximas eleições.

Desde já nos é claro que Moro e Dallagnol jamais entrarão para a política, como desinformadamente se alardeia por aí.

A ignorância sobre o que é política, confundindo isto com filiações partidárias e candidaturas eleitorais, leva à confusão de que os pilantras lavajatistas ingressam na vida política ao se disporem a oficializar candidaturas, seja lá ao que for.

Nada, os canalhas Moro e Dallangnol são políticos desde sempre e o partido deles é a lava jato, organização criminosa e golpista formada desde os interesses imperialistas e mafiosos de poderosos grupos imperialistas, de olho no nosso petróleo.

Desde os gregos se sabe que política é a arte de debater e de decidir sobre os interesses em conflitos na cidade estado, depois nos impérios, nas repúblicas, nas nações e supranacionalmente pelo imperialismo.

De um lado, a política dominante defendia os interesses da tirania no massacre dos escravos e na extração de suas riquezas no sustento das orgias a que sempre se entregaram as elites na sua maldade.

Os setores dominantes e preguiçosos nunca titubearam em usar instituições como o estado, desde sua origem como cidade, até chegar à complexidade moderna, as instituições de ensino como privilégios na formação de suas descendências e o judiciário, com todas as leis a proteger a tirania, a exploração, as mentiras e as máscaras das maldades dos atores do horror.

Em Atenas a elite usou o judiciário para caluniar e matar Sócrates, que nunca morreu em sua obra filosófica. Em Jerusalém  o império romano usou a pretoria e a religião para destruir e matar Jesus, que renasceu na páscoa de um mundo justo. Em Minas e no Rio de Janeiro a mídia, a religião e o judiciário serviram para martirizar Tiradentes, que vive na luta pela libertação e independência do Brasil.

Portanto, política é síntese de atos humanos que representam o lado que cada pessoa assume. Os canalhas Sérgio Moro e Deltan Dallagnol alinham-se na perspectiva política dos tiranos, mentirosos, assassinos e mafiosos, sempre a favor dos mais poderosos e obscuros negócios.

Moro e Dallagnol, dirigentes do partido golpista lava jato, não entram para a política coisa nenhuma. Sempre foram da pior política possível.

A essa dupla e a toda a gangue lavajatista se deve escumalhas hediondas como os golpes mensalão, o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, a  prisão  do ex Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para  eleger o fakeada sua excrescência miliciana genocida Jair Bolsonaro, a miséria dos ossos secos e sem carne, da fome, do desemprego, da destruição da Petrobras, do rebaixamento dos melhores intelectuais da engenharia naval e do petróleo, como também a ascensão do nazifascismo, retirando dos esgotos fétidos o que há de pior no povo brasileiro.

Os canalhas de Curitiba sempre agiram politicamente na busca corrupta de nacos no poder econômico do capitalismo neoliberal decadente. Inscrições em partidos balcões de negócios e golpistas e candidaturas são apenas estações de passagem do trem desgovernado desses demônios. Se, por desgraça e estupidez de cociente eleitoral, se elegerem nada mais farão nos cargos ocupados do que oficializarem a tirania, a grossa sujeira e golpes que sempre praticaram. No rastro de tudo isso alinhava-se sucessão de crimes, de roubos e de corrupção.

Por outro lado, na luta política, que não ocorre somente com filiações partidárias e disputas eleitorais, é preciso que os escravos, os que catam comida nos lixos,  carne nos ossos que os canalhas da politica da tirania nos oferecem, @s trabalhadores/as de todas as atividades, vocações e dons nos organizemos na militância permanente, intensa, mobilizada em massa, no enfrentamento da canalhice lavajatista, neoliberal, imperialista, capitalista e mafiosa,  transformando o conteúdo do poder.

O atual conteúdo é o neoliberal,  que dá cria monstros como os canalhas aqui em pauta e a tantos outros que se escondem às sombras e nos subterrâneos imorais. É preciso impor o conteúdo que os gregos primitivamente chamavam de “tikós” – politikós – ou política do bem comum.

Esse bem comum não pode jamais contar com monstros na prática de monstruosidades como os lavajatistas fizeram e fazem. Esse bem comum hoje se chama democracia socialista.

Esse é o nome do paradigma econômico e político duro com a tirania e a injustiça, mas inclusivo e fraterno com toda a classe trabalhadora nas relações dignas de quem realmente produz e transforma o planeta.

Abraços proféticos e revolucionários,

Dom Orvandil.

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16
Ago21

Denúncia infundada contra ministros do STF pode configurar crime de responsabilidade

Talis Andrade

 

 

Bolsonaro diz que pedirá ao Senado abertura de processo contra Barroso e Moraes

Um bom conceito de Constituição é: estatuto jurídico do político. Quer dizer que, para uma democracia funcionar, a política tem de pagar pedágio para o direito. Caso contrário, já não haverá direito. Logo, não haverá democracia.

Leio que o presidente Bolsonaro quer fazer, junto ao Senado, pedido de impeachment de dois ministros do Supremo. Alguém dirá: sem problemas, porque é um gesto do campo da política.

O problema é que gestos políticos, quando transgridam as fronteiras do campo jurídico, tem de ser limados.

Explico: embora a Constituição Federal estipule que o Senado é o foro para processar e julgar, nos crimes de responsabilidade, ele mesmo, o presidente e ministros do STF, isto não quer dizer que o presidente ou qualquer pessoa possam sair escrevendo qualquer coisa.

O que isto quer dizer? Simples. Que o ato político tem consequências jurídicas. Há uma lei recente que trata do abuso de autoridade, cujo artigo 30 diz: “Dar início ou proceder à persecução penal, civil ou administrativa sem justa causa fundamentada ou contra quem sabe inocente: Pena – detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos”.

Se há dúvida se Bolsonaro, por pedir o impeachment, comete o crime de abuso, dúvida não há se Rodrigo Pacheco entrar nessa roubada, porque, se tocar para a frente, fica claro crime de abuso da nova lei.

Como sabemos, o presidente tem a Advocacia-Geral da União que o assessora. Na verdade, a AGU sempre se disse “advocacia de Estado”. Esperamos que a AGU não banque essa aventura antijurídica, típica e culpável.

Além disso, uma “denúncia” infundada ao Senado contra ministros do STF, dependendo do teor, também pode configurar crime de responsabilidade, artigo 6, inciso V, da Lei 1079.

Sim, sei que o Rubicão brasileiro, de tantas vezes atravessado, já tem até ponte. Mas sempre é bom lembrar à sociedade, à grande imprensa e à comunidade jurídica que o direito é que limita a política, e não o contrário.

Por último e dentro da mesma linha, leio nas redes sociais insuflamentos ao cometimento de crimes —o que já por si é crime— tratando de fechamento de rodovias e marcha sobre Brasília para “buscar fechamento do STF” e quejandices.

Por trás das vivandeiras está um cantor-político, quem diz estar apoiado pelos maiores plantadores de soja e outros grãos. Nunca houve tantas vivandeiras no país.

Duas coisas sobre isso. Se queremos, mesmo, uma democracia, tentativas golpistas –e por isso o STF acertou ao prender Roberto Jefferson– devem ser punidas com rigor.

Não há um direito fundamental a extinguir os próprios direitos fundamentais. Instituições são notáveis invenções, que são como limpadores de para-brisa: só tem boa serventia se colocados do lado de fora do carro. Sob pena de inutilidade.

A segunda coisa é sobre o cantor sertanejo insuflador-instigador. Há um livro do grande Fausto Wolf, cujo título é “Matem o Cantor e Chamem o Garçom”, romance sátiro-trágico-político.

Pois é. Expulsemos o cantor e chamemos o primeiro advogado que entenda um pouco de direito e de Constituição. Claro, enquanto ainda houver Constituição.

Há algum tempo li que em uma livraria de Buenos Aires há uma caixa de vidro e, dentro dela, uma constituição. Por fora, um martelo e os dizeres: em caso de crise e perigos golpistas, quebre o vidro!

 

31
Jul21

“Chefes militares, oficiais e soldados não podem se imiscuir em decisões políticas”

Talis Andrade

Image

 

É o diz José Álvaro Moisés sobre a fala do general Braga Neto, referente à proposta de introdução do voto impresso na Constituição e ao desrespeito ao processo democrático brasileiro

 

por José Álvaro Moisés / Rádio USP

Nesta coluna A Qualidade da Democracia, o professor de Ciência Política José Álvaro Moisés avalia o disparo do ministro da Defesa, o general Braga Neto, contra o voto eletrônico. Na ocasião, o ministro “fez uma ameaça de que, caso a Câmara dos Deputados não vote a introdução do voto impresso, como está proposto pelo presidente Jair Bolsonaro, não haverá eleições em 2022”, comenta.

Conforme a avaliação de Moisés, o comentário feito em uma reunião no Palácio do Planalto deveria ser direcionado ao presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lira, o que representa uma ameaça à qualidade da democracia. “É muito grave porque afeta o princípio mais fundamental e basilar do regime democrático”, destaca, “segundo o qual é através de eleições que as pessoas comuns, os cidadãos brasileiros, exercem a sua soberania”. Para Moisés, há o impedimento do cidadão de exercer sua função democrática e soberana através da eleição: “Frauda-se, de uma maneira muito drástica, a soberania e um princípio básico do regime democrático, em que as pessoas comuns são iguais perante a lei e têm esse direito fundamental de escolher governos e políticas públicas”, avalia.

Em reação à intimidação do general Braga Neto houve muita preocupação por parte de agentes políticos e pela própria sociedade civil em relação à intervenção das Forças Armadas na política, “o que seria muito grave para a democracia brasileira”, ressalta. Também expressiva foi a reação de deputados e dos membros da comissão que analisam a Emenda Constitucional para viabilizar o voto impresso, “de que a ameaça do general Braga Neta enterrou de vez a aprovação da proposta na Câmara”, revela.

De acordo com o professor, houve também uma outra reação ainda mais importante do ponto de vista da qualidade da democracia: o convite dirigido ao ministro da Defesa, por uma comissão da Câmara dos Deputados, para depor no dia 17 de agosto. “Isso é muito importante porque, em todo o debate teórico sobre o processo de democratização, uma das condições mais importantes é de que a democracia se consolide sem qualquer força externa que corrompa e se aplique ao sistema político. Deste ponto de vista, o depoimento do general perante o Congresso Nacional é um passo importante para que se organize o funcionamento do regime de tal modo que quem tome decisões políticas sejam os políticos eleitos a essa missão. Chefes militares, oficiais e soldados não podem se imiscuir em decisões políticas, embora como cidadãos possam votar, mas essa é outra questão que não diz respeito as suas funções fundamentais”, finaliza.Image


17
Jul21

‘O Brasil tem muito a crescer nos quadrinhos’

Talis Andrade

Claudinei Plaza/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

por Sérgio Ribeiro Lemos
- - -

Gilmar Machado, 52 anos, nasceu em Presidente Dutra, na caatinga baiana, em 1965, a cerca de 400 quilômetros ao Norte de Salvador. Com 8 anos, antes mesmo de entrar na escola, Gilmar deixou a roça onde trabalhava com seus cinco irmãos e sua mãe para se juntar a seu pai, que tinha saído de lá um ano antes para trabalhar no Grande ABC a convite de um tio vindo de São Paulo, cidade que nenhum deles imaginava existir. No pau de arara – meio de transporte precário utilizado no Nordeste –, Gilmar lembra que passou três dias e três noites vomitando após comer frango com farofa dentro de uma lata de leite em pó.

 

Gilmar Machado e o Diário

Como tantos outros retirantes que vieram parar no Grande ABC com suas famílias e progrediram profissionalmente, o nordestino Gilmar Machado, que teve duas passagens pelo Diário, não só descobriu na região seu dom para o desenho de humor como também atuou e militou no jornalismo sindical em época de repressão militar, quando o simples fato de entregar panfleto em portas de fábricas era motivo suficiente para tomar um ‘chá de cadeira na delegacia’. “Estava em frente a uma empresa em greve para desenhar detalhes do movimento quando veio um policial e me deu uma borrachada que não esqueço até hoje.”

 

Sérgio Ribeiro Lemos entrevista Gilmar MachadoImage

Quando o senhor descobriu a vocação para o desenho?

Desde 1974 morava em Mauá e foi lá que, aos 12 ou 13 anos, fiz os primeiros traços por conta de uma série que tinha na televisão chamada Bang-Bang à Italiana, que passava todas as quartas-feiras. Eu também gostava muito de futebol e desenhava num campo de terra, que parecia grande tapete. Pegava um pedaço de madeira e ia traçando os caubóis gigantes que depois eu contemplava de cima de um morrinho para ver o resultado dos traços antes de o resto do time chegar. Eu gostava desses filmes e isso aconteceu de maneira instintiva.

 

Geralmente é na adolescência que surge o talento. O que o senhor fez depois disso?Depois, com 15 anos, fui trabalhar em fábrica de porcelana em Mauá. Era bizarro, porque a empresa contratava muitos menores de idade. E o que acontecia chegava a ser medonho. A garotada entrava lá e acabava mutilada. Todo mundo que trabalhava na fábrica acabava perdendo um membro. E comigo não foi diferente, perdi pedaço do dedo. Era cruel, pois a gente estudava à noite e dava aquele sono durante o dia. Se distraía e trocava os movimentos. Em vez de tirar as peças da prensa, a gente coloca a mão nela. E esse tipo de acidente era coisa normal. Vira e mexe um garoto sofria acidente. Não tinha isso de leis de trabalho. Eu ficava sozinho num departamento onde fazia massa de cerâmica. Tinha muita poeira e a parede ficava inteiramente branca. Aí eu desenhava nas paredes com os dedos e viajava nas figuras. Num determinado dia, um encarregado entrou, viu aquilo e brigou comigo. Eu voltei para casa revoltado e decidido a não retornar para trabalhar lá. Eu já fazia vários rafes (esboço) e fui procurar trabalho como desenhista. Nem sabia para onde ir, não tinha a menor perspectiva ou objetivo. Trabalhei em agência de publicidade em Santo André, sem salário. O teste foi assim: ‘Desenha o João Figueiredo (último presidente militar do Brasil)’, disse o dono. Desenhei o general com caneta esferográfica mesmo. Eles gostaram. Fiquei seis meses sem ganhar nada. Mas também não fazia nada. Alimentava trabalho que não existia.

 

Qual foi seu primeiro contato com jornal impresso?

Publiquei pela primeira vez no jornal A Voz de Mauá. Era charge sobre a morte de Tancredo Neves. Publiquei mais alguns desenhos. Aí os caras me indicaram o Diário. Me falaram: “Vai lá procurar trabalho. Lá tem o Juarez (trabalhou no Diário de 1981 a 1991), tem o Fernandes (é ilustrador no Diário desde 1982). Eu gostava muito do trabalho dos dois. Recortava os desenhos deles e tenho até hoje. Quando fui lá, encontrei os dois no elevador. Aí fui até a Redação e vi que tinha uma coisa aberta, isto é, existia a apresentação das ideias das charges de todos os caras para uma editora e a que fosse aprovada seria publicada no dia seguinte. No fim do mês eram somados os trabalhos publicados e o chargista recebia por isso. Quando cheguei lá já tinha uma equipe inteira: Juarez, Adelmo, Pathé, Fernandes, Luiz Gustavo, tinha uma equipe bastante grande que ficava ali revezando os espaços, iam produzindo e formavam um salário no fim do mês. Eu nem lembro exatamente quem era contratado efetivamente e quem não era. Fiquei muito intimidado, pois achei um clima já muito preenchido. Até consegui publicar uma charge no espaço nobre do jornal, no Editorial. Foi uma grande realização. Mas não peguei muito bem essa coisa da disputa por espaço. Então fui embora na primeira semana. Procurei outro caminho.

 

Foi o caminho do cartum sindical?

Achei um jornal do PT regional e fui lá mostrar meus desenhos. Nisso apareceu o jornalista Nilton Hernandes, que trabalhava no Sindicato dos Condutores de Veículos e me falou que estavam precisando de um desenhista. Fui contratado logo de cara, sem muita conversa. Passei a fazer as charges dos boletins diários. Enfim, foi meu primeiro trabalho registrado.

 

O desenhista sindical, além de auxiliar na montagem dos jornais, chegava a militar junto aos operários. Isso aconteceu com o senhor também?

Teve um episódio curioso. Fiquei preso durante cinco horas. Houve greve em uma empresa em São Bernardo e fomos entregar os boletins do sindicato para os representantes das entidade. Ficamos na calçada em frente ao piquete. Nem deu tempo. A polícia chegou e já me prendeu ali. Me jogaram no camburão me acusando de portar material subversivo, incentivando a greve e coisa e tal. Em outra oportunidade estava em frente a uma empresa em greve para desenhar detalhes do movimento quando veio um policial e me deu uma borrachada que não esqueço até hoje. Depois disso, trabalhei por dez anos na maioria dos sindicatos do Grande ABC e de São Paulo produzindo boletins e charges. Durante um período me tornei cartunista fixo no Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, que depois foi unificado com o de São Bernardo, onde montou-se grande departamento de imprensa, com 25 profissionais entre fotógrafos, jornalistas redatores e cartunistas. Eu e o Paulo César, o PC, nos revezávamos entre tiras e charges. Lembro que um dos jornais que produzíamos, A Tribuna Metalúrgica, tinha tiragem de 45 mil exemplares. Nessa época, aprendi muito, pois nunca tive formação acadêmica nem nada. Sempre fui autodidata. Com essa experiência em sindicato aprendi muito sobre ética, sobre aquelas coisas que você pode ou não fazer, enfim, toda essa questão social do trabalho.

 

Como apareceram as tiras para a grande imprensa?

Nessa época conheci muitos profissionais de grandes jornais, pois eles iam aos sindicatos cobrir pautas sobre os trabalhadores e economia. Dessa forma conheci um jornalista do Diário Popular, o Antonio Diniz, que me contou que o contrato de antigos colaboradores estava terminando. Fui lá e logo de cara foi aprovada minha tirinha que se chamava Ócios do Ofício e fui fazendo as peças sem personagem fixo. Eu não tinha que ir ao jornal, mandava as tiras de casa diariamente. O curioso é que depois de uma semana fui demitido do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo por motivos econômicos e administrativos. Publiquei no Diário Popular cerca de sete anos e acabei gostando muito dessa linguagem das tiras, tanto que criei um patrimônio em torno de 2.500 tiras, que me renderam quatro livros de coletâneas. Depois, o Dipo (apelido do Diário Popular) mudou de nome e de dono. Fui demitido.

 

Nas redes sociais, se intitula o ‘Cartunista das Cavernas’. Explica isso.

Eu passei a trabalhar em casa e percebi que dessa forma poderia produzir muito e atender vários jornais. Passei a publicar tiras no suplemento Folhateen da Folha de S.Paulo. As tiras que eu produzi no Diário Popular passei a distribuir para jornais de outros Estados e do Interior de São Paulo e também Portugal. Fiz dois livros pela editora Devir que depois foram adquiridos pelos governos federal e estadual através de programas de incentivo cultural. Lembro que tivemos boas tiragens por meio desses programas. Na época, em 2004 e 2005, quem vendeu muito para o governo na Devir fomos eu, o Will Eisner e o Fernando Gonsalez. Foram 33 mil exemplares, um marco bem significativo para venda de livro no Brasil. Fiz também tiras para outras editoras, como a Globo, Abril. Sempre tirinhas, uma linguagem que dominava bem.

 

Ainda não explicou o ‘Cartunista das Cavernas’.

Estava conversando com o Fernandes e decidimos trabalhar juntos, entrando em contato com editoras. Achei o máximo trabalhar junto com ele, pois já era fã de seu trabalho. Abrimos a Boitatá Ilustrações em maio de 2005 e começamos a fazer livros didáticos para editoras como a Moderna, FTD e outras durante muito tempo. Um dia ele me perguntou se não queria trabalhar no jornal. Na época, em 2007, o Ricardo Girotto, outro ilustrador, havia saído e fiquei com receio, pois estava muito estabilizado produzindo sozinho sem muita relação com seres humanos (risos). Tenho dificuldade de me relacionar. Somatizo muito os problemas periféricos. Mas era coisa que eu precisava resolver, pois se você mora em uma região que tem um grande jornal e é ilustrador, logicamente vai querer trabalhar naquele veículo. Tinha chegado a hora de resolver essa questão. Topei. Aí fui ilustrar para o Diário, fazendo coisas para o Diarinho, outras ilustrações para colunas e revezando as charges com o próprio Fernandes e o Seri.

 

Por que saiu do jornal?

Por problemas pessoais, depois de dois anos e dois meses resolvi sair. Tem aquela coisa turbulenta de um jornal. Acho que tem caras que são de redação. Eu não sou e descobri isso ali. Caras como o Fernandes e o Seri têm dispositivo para se dar bem, fazendo piadas. É dispositivo para sobreviver à pressão de uma redação. Senti que não consegui. Primeiro que para fazer as criações é muito barulho, televisão ligada, repórter saindo correndo, aquele frisson, adrenalina e eu agitado por conta disso. Aí voltei para casa como colaborador do Diário por mais algum tempo. Fiz tiras e ilustrações para outras revistas e jornais, até que a coisa degringolou para o lado da imprensa. Vários jornais fecharam, alguns ainda respiram por aparelho, todo o mercado editorial em crise e isso afetou muito a gente, cartunistas e ilustradores. Hoje são poucos veículos como o Diário, que mantêm ilustradores contratados trabalhando na própria redação. Isso praticamente não existe mais em lugar nenhum. É muito raro.

 

E daqui para a frente, quais são as suas perspectivas?

O lance é se readaptar, reciclar, ver novos caminhos para se manter vivo no mercado. Agora mesmo estou encarando desafio que é o de fazer história em quadrinhos, projeto de HQ de 120 páginas junto a um roteirista. Já fiz livros em quadrinhos em parceria com o Fernandes, dividindo tarefas, mas pegar a peteca sozinho é novidade para mim.

 

Por que quadrinhos?

Participei de muitos eventos de quadrinhos nestes últimos anos, como o Festival Internacional de Quadrinhos em Minas gerais (FIQ), outro em Curitiba (Gibicom), em São Paulo (CCXP) e no Rio. Quis sentir isso de perto. Era uma coisa meio estranha para a gente, ter o autor ali em frente aos fãs, coisa que já acontece há muito tempo na Europa e nos Estados Unidos. Novidade por aqui. Agora estes acontecimentos deram uma esfriada porque muitos autores apareceram, gente nova, muito boa, mas o mercado não ofereceu crescimento de leitores de quadrinhos. Não houve aumento no consumo. Então, você produz um livro em quadrinhos para público de 1.000 pessoas. O que se precisa fazer é ampliar o leque de leitores. A gente está esperando retomada nesse setor, pois o Brasil ainda tem muito que crescer nesse mundo dos quadrinhos. Minha expectativa é que isso se renove nos próximos anos.

 

Como o senhor vê o mercado de desenho de humor no Grande ABC?

O mercado do Grande ABC é muito fraco. Tem muita gente boa. Mas eles não têm onde exibir seus trabalhos. Os artistas daqui fazem o que se faz no Interior: vão para fora. Temos artistas daqui que fazem quadrinhos para os Estados Unidos. Aqui deveria ter mais exposições, mais contato com o público. A região segue muito carente no aspecto artístico. Acho que as pessoas nem sabem que existem cartunistas. Mas quem é que vai fazer isso? Quem vai produzir tudo isso? A nossa tarefa é ali na prancheta, produzindo. 

 

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