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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

19
Jun21

PMs são servidores dos estados e organizados sob hierarquia e disciplina

Talis Andrade

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Por Ricardo Lewandowski /ConJur

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Artigo originalmente publicado na edição desta sexta-feira (18/6) do jornal Folha de S.Paulo.

Saber quem comanda as Polícias Militares é uma pergunta que não se restringe apenas à questão da responsabilidade última pela formulação das políticas de segurança pública, mas diz respeito ao próprio cerne da forma federativa de Estado, adotada por nós desde a proclamação da República, em 1889, e que figura como cláusula pétrea da atual Constituição.

Em interessante estudo denominado “Pequeno Exército Paulista”, Dalmo de Abreu Dallari, a propósito, relata que, quando a economia paulista começa a desenvolver-se nas últimas décadas do século 19, “ocorre a modernização e o crescimento da Força Pública do estado de São Paulo, elemento que se tornou decisivo para impedir intervenções federais que foram muito frequentes em outros estados da Federação”.

De fato, a corporação teve um papel decisivo na Revolução Constitucionalista de 1932, impedindo, ao menos temporariamente, que o governo central tivesse êxito em esmagar a autonomia estadual. No entanto, tal acabou ocorrendo em 1937, com o advento da ditadura getulista, e depois novamente a partir de 1964, com a implantação do regime militar.

Em 2 de julho de 1969, conforme lembra Dallari, por meio do decreto-lei 667, assinado pelo general Costa e Silva e ainda hoje vigente, “o governo federal colocou todas as Polícias Militares sob o controle do Ministério do Exército”. Na sequência, o governador paulista, Abreu Sodré, extinguiu a Força Pública mediante o decreto-lei 217/1970, transformando-a em Polícia Militar.

A Constituição de 1988, todavia, recolocou as Polícias Militares sob o comando das autoridades civis, estabelecendo com minúcias, nos artigos 42, 142 e 144, a sua disciplina jurídica. Neles consta que os integrantes dessas corporações são servidores militares dos entes federativos, organizados com base na hierarquia e disciplina, cabendo-lhes a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública.

Como militares que são, não podem filiar-se a partidos políticos e sindicatos, sendo-lhes proibido fazer greve. E, muito embora constituam forças auxiliares e reserva do Exército, subordinam-se, assim como os bombeiros militares, aos governadores — os quais, inclusive, conferem aos seus oficiais as respectivas patentes.

Apesar de classificadas como forças auxiliares e reserva do Exército, o recrutamento dessas milícias locais pela União só pode ocorrer em situações extraordinárias, como estabelece o próprio decreto-lei 667/1969, em seu artigo 3º, quais sejam, “em caso de guerra externa ou para prevenir ou reprimir grave perturbação da ordem ou ameaça de sua irrupção”. Tais situações coincidem com aquelas que autorizam o estabelecimento do estado de defesa e do estado de sítio, cuja decretação, contudo, sujeita-se à anuência do Congresso Nacional, nos termos dos artigos 136 e 137 da Lei Maior.

A competência privativa da União, prevista no artigo 22 para legislar sobre normas gerais de convocação e mobilização das polícias e bombeiros militares, não tem o condão de elidir o princípio basilar da democracia, segundo o qual todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos.

Por isso, qualquer ato do governo federal que retire ou atenue o controle dos governadores sobre essas corporações, salvo nas hipóteses excepcionais acima indicadas, e respeitadas as salvaguardas pertinentes, não só contrariaria disposição constitucional expressa como também vulneraria o próprio princípio federativo, concebido justamente para impedir a concentração do poder — no caso, do poder armado.

04
Jun21

VÍDEOS: policiais negam socorro a homem que perdeu olho ao ser atingido por bala de borracha em protesto pacífico

Talis Andrade

Daniel Campelo pediu socorro a policiais militares e foi ignorado — Foto: Reprodução/TV GloboCrueldade. Desumanidade. Daniel Campelo pediu socorro a policiais militares e foi ignorado — Foto: Reprodução/TV Globo

por Bruno Grubertt /TV Globo

Imagens inéditas mostram o momento do resgate de Daniel Campelo, adesivador de táxis de 51 anos que perdeu o olho esquerdo após ser atingido por uma bala de borracha durante a repressão violenta da Polícia Militar no protesto pacífico contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ocorrido no sábado (29) no Recife. Os PMs negaram socorro à vítima.

O cineasta Pedro Severien e o fotógrafo Hugo Muniz estavam entre os presentes no ato e disseram que ficaram horrorizados ao ver a manifestação se transformar em um "cenário de guerra" após a PM disparar balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

"Estava tudo muito na paz, tudo muito tranquilo, de repente se tornou um cenário de guerra. Está sendo muito difícil ainda digerir tudo isso que aconteceu. Você vê as imagens circulando por aí e [...] você volta para aquele momento, aquela situação", afirmou Muniz.

Ele conseguiu capturar um dos momentos mais chocantes da ação truculenta da PM: a imagem de Daniel Campelo, que não participava do protesto, ensanguentado segurando com a mão o olho atingido pelo disparo.

"Eu estava fotografando alguma situação quando, de repente, eu escutei alguns disparos de tiro. Eu olhei na ponte e estava Daniel no chão com a mão no olho, gritando e pedindo ajuda. [...] Ele falava que era pai de família, que era trabalhador. O desespero daquele momento foi muito complicado, foi difícil conseguir presenciar aquele momento", contou o fotógrafo.

 

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Daniel da Silva perdeu o olho após ser atingido por bala de borracha atirada pela PM em protesto contra Bolsonaro — Foto: Hugo Muniz

Daniel da Silva perdeu o olho após ser atingido por bala de borracha atirada pela PM em protesto contra Bolsonaro — Fotos: Hugo Muniz

Nas imagens que ele capturou, aparece uma mulher ao lado de Daniel, ajudando-o a sair do local onde foi atingido pelos policiais militares. A advogada Isabela Freitas fazia parte da comissão de segurança do protesto e contou que não viu o momento do disparo, apesar de estar perto de Daniel.

 

"Eu escutei alguém falar que tinha um ferido com a mão pra cima. [...] De imediato, eu olhei e vi o rapaz com o rosto todo sangrando. Corri e abracei ele pelo lado [...] e fui amparando ele até o [Cinema] São Luiz. Ele dizia: 'Socorro, socorro, eu não estou enxergando'", contou Isabela.

Ela também disse que, diante da adrenalina do momento, só pensou em levar Daniel para longe da violência policial. "Eu comecei a gritar 'Alguém de saúde’, porque eu não sabia o que fazer", declarou.

O produtor cultural Hudson Wladimir, que mora próximo ao local onde a ação truculenta da PM aconteceu, afirmou que também prestou apoio às pessoas que foram atingidas pelas balas de borracha e bombas de efeito moral.

“Um amigo que foi baleado de raspão na perna me mandou mensagem pedindo ajuda. Eu coloquei a primeira camisa e desci com um pote enorme de água, desesperado", contou.

O cineasta Pedro Severien disse que foi ao protesto para fazer um registro do ato, além de concordar com a pauta reivindicada, que pedia o impeachment do presidente, mais vacinas contra a Covid-19 para a população e a retomada do auxílio emergencial de R$ 600.

 
PMs atiraram balas de borracha e gás lacrimogêneo contra participantes de protesto contra Bolsonaro no Recife — Foto: Agência JCMazella/Sintepe/Divulgação

PMs atiraram balas de borracha e gás lacrimogêneo contra participantes de protesto contra Bolsonaro no Recife — Foto: Agência JCMazella/Sintepe/Divulgação

"Foi muito impactante ver como a manifestação estava bem organizada, com distanciamento entre as pessoas, todo mundo de máscara, distribuição de álcool em vários pontos.[...] A minha ideia era só fazer um breve registro desse momento”, contou.

Segundo ele, a motivação dos registros em vídeo mudaram quando os manifestantes chegaram na Ponte Duarte Coelho e encontraram policiais militares emparelhados. "Foi muito rápido que começou um ataque da Polícia Militar com bomba de gás lacrimogêneo, sem nenhum tipo de ação que justificasse isso. Então, para mim, foi muito chocante que isso tenha começado assim", relatou.

 

SDS

 

Por meio de nota, a Secretaria de Defesa Social (SDS) informou que a Corregedoria-Geral "ampliou o raio das investigações e está apurando novos fatos relativos à manifestação do último sábado, 29 de maio, no Centro do Recife".

Segundo a secretaria, está sendo investigada possível omissão de socorro a Daniel Campelo, ferido no olho por um disparo de elastômero, cuja autoria também esta sendo alvo de inquérito policial.

"Os disparos efetuados contra manifestantes nas proximidades do Parque Treze de Maio, assim como o uso de spray de pimenta contra a vereadora Liana Cirne, estão sendo alvo dos trabalhos da corregedoria. Há a possibilidade de a mesma guarnição policial estar envolvida nesses atos", disse a SDS.

Outra Investigação iniciada, de acordo com o estado, trata da postagem em uma rede social , por parte de um perfil não-oficial de um batalhão da PMPE, "supostamente enaltecendo a violência empregada".

O governo informou que, "se houver elementos suficientes", a corregedoria poderá instaurar "Procedimentos Administrativos Disciplinares em desfavor dos policiais envolvidos, com espaço para ampla defesa e o contraditório".

 

Violência policialVídeos mostram como foi a repressão da PM a protesto pacífico no Recife com  balas de borracha e gás lacrimogêneo | Pernambuco | G1Manifestações contra Bolsonaro seguem em todo o País; Recife tem repressão  da PM - Jornal de Brasília29M: Polícia Militar reprime com bombas ato pacífico contra | Geral

Moradores de prédios do centro acompanharam a violência dos policiais da janela

A ação truculenta deixou pessoas feridas e duas delas tiveram perda parcial da visão. A vereadora Liana Cirne (PT) foi atingida por spray de pimenta no rosto. O cantor Afroito foi preso na manifestação e disse que temeu ser sufocado. Um advogado foi atingido por quatro balas de borracha disparadas pelos policiais.

Ainda no sábado (29), a vice-governadora Luciana Santos (PCdoB) declarou que o estado não tinha determinado a ação. O governador Paulo Câmara (PSB) informou, no mesmo dia, que tinha afastado o comandante da ação e policiais envolvidos na agressão à vereadora.

São investigados, até o momento, um major, um capitão, um tenente, dois sargentos e três soldados.

Na segunda (31), o secretário de Justiça, Pedro Eurico, repetiu que a ordem não partiu do governo e disse que "não há uma Polícia Militar paralela em Pernambuco". Na terça (1º), o secretário de Defesa Social Antonio de Pádua esteve na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

Ele participou de uma reunião na Comissão de Direitos Humanos, mas saiu sem falar com a imprensa. Para os parlamentares, falta esclarecer de onde partiu a ordem para atirar nos manifestantes.

A presidente do colegiado, Jô Cavalcanti, do coletivo Juntas (PSOL), disse que ficaram faltando respostas. O presidente do Legislativo, Eriberto Medeiros (PP), afirmou que o secretário disse que a ordem não teria partido dele, mas não informou quem determinou a repressão.

O Ministério Público de Pernambuco abriu um inquérito civil. Na terça-feira (1º), o MPPE disse que o secretário Antônio de Pádua foi alertado para o protesto de sábado (29) pela 7ª Promotoria de Justiça e Direitos Humanos, que solicitou que ele orientasse a Polícia Militar para “evitar eventuais excessos”.

 
04
Jun21

Delegada bolsonarista quer que vereadora Liana Cirne, agredida em Recife, seja investigada por 'abuso de autoridade'

Talis Andrade

Liane Cirne e Patrícia DomingosLiane Cirne e Patrícia Domingos

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Informa o portal Brasil 247: A delegada bolsonarista Patrícia Domingos pediu, nesta terça-feira, 2, para que o Ministério Público de Pernambuco e a Câmara de Vereadores de Recife apurem se a vereadora Liana Cirne (PT) cometeu abuso de autoridade e quebra de decoro durante o protesto contra Jair Bolsonaro no último sábado, dia 29.

A vereadora, que é comentarista da TV 247, foi agredida com spray de pimenta pela Polícia Militar durante repressão policial ao ato pacífico. Durante a repressão policial dois homens perderam a visão.

A delegada bolsonarista acusa a vereadora de desobedecer aos decretos estaduais que impedem aglomerações no estado. Ao MP e à Câmara de Vereadores, Domingos diz que Cirne estava “utilizando de sua função de vereadora” para tentar coagir os policiais militares a “deixarem o local onde estavam exercendo suas atividades, sob narrativa de que eles estavam perseguindo manifestantes”.

A delegada desconhece que nazista deu a ordem para a soldadesca covarde, cruel e inimiga, atacar o povo com porretes, bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta, balas de borracha. 

Basta de barbárie! De necropolítica!  De aglomerações gratuitas de Bolsonaro todos os dias torrando o dinheiro do povo, e espalhando o vírus da peste, no Brasil da polícia que mata e da fome. 

Guilherme Amado escreve in Metrópoles: Em um ano de pandemia, o Palácio do Planalto gastou pelo menos R$ 18,5 milhões com viagens de Jair Bolsonaro no cartão corporativo. Em 101 viagens, média de duas por semana, Bolsonaro gerou aglomerações e não usou máscaras em seus deslocamentos, como tem feito até hoje.

O destino mais caro, entre março de 2020 e março de 2021, foi para o Guarujá (SP), onde Bolsonaro passou o recesso de fim de 2020 com aglomerações na praia. A viagem custou à Presidência R$ 1,2 milhão.

A lista de cidades visitadas por Bolsonaro e seu séquito é variada. Vai de São Paulo à pacata Flores de Goiás (GO), com 12 mil habitantes, onde o presidente entregou títulos de propriedade rural.

Não é possível saber o destino exato desses recursos, uma vez que os detalhes e as notas fiscais ficam sob sigilo até o fim do mandato presidencial. 

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Liana Cirne Lins
Munida de minha carteira funcional, de coragem e de conhecimento jurídico acumulado em 25 anos de docência do direito, impedi um saldo ainda maior de vítimas da violência policial, fazendo cessar momentaneamente a perseguição a pessoas desarmadas. Sim, e tudo isso de salto alto
Sou vereadora e professora da Faculdade de Direito da UFPE. O abuso de autoridade está tipificado na Lei 13.869/19 como iniciativa de agente público que, fazendo uso de cargo ou função, busca obter vantagens pessoais indevidas ou prejudicar terceiros.
A queda do comandante da PMPE, Vanildo Maranhão, ainda não responde a pergunta: QUEM DEU A ORDEM
 
 
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@LianaCirne
Recebi hoje telefonema do presidente Ele disse que me acompanhava sempre no e me admirava como advogada e militante. Que estava muito triste pela agressão que sofri, mas que eu iniciava bem minha vereança e que eu soubesse do enorme carinho dele por mim
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Hoje, ao ser entrevistada por uma mulher, desabafei que desde que ocorreu a violência no sábado, nenhum jornalista havia perguntado o que eu pensava da violência contra mim. Só perguntavam o que eu achava do que o Deputado Fulano, o Coronel Ciclano tinham dito sobre minhas ações.
Lamentei que o machismo nosso de cada dia diminua a grandeza de nossas ações. E q não importa o tamanho de nossa coragem ou de nossa altivez, só importa o que homens minúsculos dizem sobre nós. Falar de mim mesma e de meus atos pelo olhar de machistas é apenas mais uma violência.
PS. A jornalista acolheu com muita sensibilidade minha fala. E não perguntou nenhuma vez sobre o que eu pensava das declarações de homens a meu respeito. Deixou que eu falasse sobre a experiência que vivi, por meu próprio olhar
POLÍCIA NAZISTA. Daniel Campelo da Silva, 51 anos, foi alvejado no olho esquerdo por uma bala de borracha disparada por um policial do Batalhão de Choque. Ele sequer participava do protesto, mas perdeu o globo ocular e a visão.Desempregado Jonas Correia de França, 29 anos, é atingido por tiro pela PM no Recife e perdeu a visão do olho direito
Desempregado Jonas Correia de França, 29 anos, é atingido por tiro pela PM no Recife e perdeu a visão do olho direitoImage
 
01
Jun21

Os olhos de Jonas e Daniel e o prenúncio da repressão covarde

Talis Andrade

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Daniel Campelo da Silva

Jovem pode perder o olho após ser atingido por bala de borracha da PM

Jonas Correia de França

por Carol Proner

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O que se viu no último sábado, dia 29, foi a unidade das forças políticas progressistas tomando as ruas e praças em praticamente 250 cidades brasileiras, manifestando-se contra a conduta genocida de Jair Bolsonaro na pandemia.

Foi a maior manifestação do ponto de vista territorial desde muito tempo, atingindo cidades médias e pequenas, e também redutos do bolsonarismo no sul do país. Os protestos chegaram a reunir, segundo estimativas, quase meio milhão de pessoas.

Quase meio milhão de pessoas também é o número de vítimas fatais da Covid-19 no país. E não é pouco considerar que as pessoas foram às ruas apesar disso, sopesando a cautela, o medo, o risco da contaminação diante de uma indignação que, desde a indignidade de tudo o que vivemos, precisa assumir a forma de ação.

Quem não foi, lamentou. Gostaria de ter ido, arrependeu-se. Justificou que ainda não era a hora, mas logo será. O que denota claramente que as próximas serão maiores, grandiosas até, trazendo um alerta aos movimentos e partidos diante da inevitável terceira onda no delicado equilíbrio que significa a coerência nas pautas políticas.

Eis uma questão que está na agenda de todas as reuniões no campo progressista esta semana: como fazer luta em tempos de isolamento social. E se isso era algo não bem resolvido para o movimento sindical, por exemplo – foi notável a baixa participação dos trabalhadores – o recado da militância nas ruas trouxe novos argumentos ao debate. 

Enquanto isso, setores importantes da mídia não sabem como noticiar o feito das manifestações do 29M. A hashtag #29MForaBolsonaro explodiu durante os protestos, em especial com o episódio da repressão em Recife, recebendo ampla cobertura da imprensa internacional, mas jornais como a Folha de São Paulo e O Globo emudeceram, assim como calam notícias de Lula e do indisfarçável crescimento do ex-Presidente nas pesquisas de intenção de votos.

O que quero destacar neste brevíssimo resumo do fim de semana, é algo que talvez não tenha sido episódico. A repressão em Recife merece ser observada. Talvez os olhos do Daniel e do Jonas nos permitam ver mais além, o prenúncio do que virá quando os protestos se avolumarem por todo o país. 

Daniel Campelo da Silva, de 51 anos, e Jonas Correia de França, de 29, perderam os olhos por disparos de balas de borracha e passam a integrar as estatísticas mundiais sobre ferimentos oculares, que já são estudados como um fenômeno que se generaliza no uso da força policial. O caso mais conhecido é o do Chile, com 220 pessoas atingidas, mas tem sido frequente em praticamente todos os protestos na América Latina e no mundo. Poderíamos falar dos conflitos entre israelenses e palestinos, dos jalecos amarelos na França, dos protestos independentistas na Catalunha, quer dizer, tem sido uma “preferência” frente a certa liberalidade no uso dos armamentos “não letais”, ou menos letais.

Recentemente expertos da ONU reconheceram o uso excessivo e ilegal da força por parte da polícia e dos membros da ESMAD (Esquadrão Móvel Antidistúrbios) na Colômbia, incluindo o uso indiscriminado de armas menos letais contra a população civil e sem observar os princípios da necessidade e da proporcionalidade.

No caso do Chile, já paradigmático, os “carabineiros” utilizaram artefatos constituídos internamente de chumbo ou outro metal e recobertos de borracha, além de gás lacrimogênio com substâncias químicas proibidas e soda cáustica na água lançada desde os caminhões-pipa contra os manifestantes. 

E mesmo sem as adulterações perversas, a forma como foi usado o spray de pimenta contra Liana Cirne Lins, uma vereadora de Recife em busca de diálogo diante da violência desmedida da polícia, foi absolutamente abusiva e ilegal.

Também é fundamental perceber que esse arbítrio “do guarda da esquina” igualmente não foi eventual no caso do professor Arquidones Leão, preso por policiais militares em Goiás por ter se recusado a remover a frase “Fora Bolsonaro Genocida” do capô de seu carro. 

O vídeo que viralizou, do policial declamando artigo da Lei de Segurança Nacional, deve servir de alerta não para nos desmobilizar, mas para que possamos nos preparar estrategicamente contra o arbítrio e a ilegalidade que poderão crescer diante da inevitável retomada das ruas na luta pela democracia.

Feridos pela PM em protesto vão ser indenizados", diz Paulo Câmara - Blog  do Ricardo Antunes

01
Jun21

OAB-PE vê insubordinação na repressão contra ato anti-Bolsonaro em Recife

Talis Andrade

 

 

Dois homens atingidos pela PM com balas de borracha nos olhos perderam parte da visão. Eles nem participavam da manifestação. O governador Paulo Câmara (PSB-PE) afirmou que o comandante da ação e quatro policiais envolvidos foram afastados e passam por investigação. E que as vítimas devem ser indenizadas.

O repúdio do IAB se junta ao já declarado pela OAB Nacional e afirma que "a repressão aos direitos fundamentais é intolerável em um Estado democrático de Direito". O documento exige também "apuração transparente e imediata do ocorrido, com o enquadramento legal dos envolvidos nos atos de barbárie, respeitado o devido processo legal".

O presidente da OAB-PE, Bruno Baptista, uma das preocupações da Ordem é com a possibilidade de ter ocorrido uma insubordinação de núcleos polícias em relação ao governo do estado. 

Em pronunciamentos oficiais,  o governador Paulo Câmara (PSB) e a vice-governadora Luciana Santos (PCdoB) afirmaram que a ordem para a ação, que resultou em dois homens gravemente feridos, com risco de perder a visão, não partiu do governo. 

"Como defensores dos direitos humanos, da sociedade civil e da advocacia, o que nos preocupa é que parece haver uma insubordinação dentro das hostes militares, porque o próprio governador do Estado e a vice-governadora disseram não haver ordem nesse sentido de reação totalmente desproporcional que houve da polícia. Então, se houve alguém que não cumpriu as ordens do governo do Estado, há um componente de insubordinação, o que é muito grave" , explicou.

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Polícia de choque pernambucana partindo para encurralar o povo na ponte Santa Isabel, nas proximidades do Palácio das Princesas, sede do governo e residência oficial do governador no centro do Recife. 

01
Jun21

‘Despartidarizar’ PM, Exército e armamento é chave para a democracia

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

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DCM publica a foto de um certo “Tenente Albuquerque”, policial militar que prendeu um professor com base na Lei de Segurança Nacional , por recusar-se a tirar um adesivo “Bolsonaro Genocidade ” de seu automóvel.

No Recife, permanecem anônimos os que deram ordem de avançar atirando balas de borracha – que perfuraram um olho em dois homens que passavam pelo local do qual se aproximavam, em paz e desarmados, manifestantes antibolsonaro.

Um sujeito andando de bicicleta à luz do dia, desarmado, é algemado e preso por não colocar imediatamente as mãos na cabeça porque um PM, com uma pistola apontada para o seu rosto deu a famosa “ordem legal”, absolutamente ilegal.

Como é absoutamente ilegal termos uma “tropa” – irregular mas fortemente armada – de “atiradores” civis, em tamanho suficiente , se contar com a cumplicidade militar, para desfechar um golpe paramilitar no país.

Ao que parece, estamos dentro do pesadelo imaginado em 1968 pelo então vice-presidente Pedro Aleixo: a ditadura do guarda da esquina, o império do “esculacho” policial que, ontem, foi corroborado pelo próprio presidente da república, ao dizer que manifestantes de oposição estão agitados ‘porque está faltando erva”.

É a “zorra total” com as instituições militares, que tem seu exemplo mais simbólico com a certeza de que Eduardo Pazuello não vai ser punido por ir a um palanque político ao lado de Bolsonaro porque Jair não quer. E, se for, o “Mito” anula.

Polícia e Exército estão sendo transformados num partido, e faz tempo, porque são centenas de personagem que colocam um prefixo militar – de soldado a general – para galgarem cargos eleitorais com apelos à ordem policialesca e a promessa de que enfrentarão “os vagabundos”.

Não se desarma este castelo pela base, como não se pôs freios aos abusos de juízes e promotores senão quando se fez ruir o sei “Mito”, o ex-juiz Sergio Moro.

É preciso que se tire o chefe do “Partido da Arma”, como se tirou o chefe do “Partido da Toga”.

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31
Mai21

“Policiais atiraram para ferir os manifestantes”, diz Liana Cirne Lins, vereadora agredida em Recife

Talis Andrade

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Vítima da violência da PM em manifestação contra Bolsonaro, Liana afirma que é urgente um novo protocolo de atuação policial

 
 
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Vítima da violência policial durante manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro, neste sábado (29), em Recife (PE), a vereadora Liana Cirne Lins (PT) criticou o despreparo dos agentes e disse que espera providências.

“Os policiais atiraram com o intuito de ferir os manifestantes. Eu lamento profundamente e espero que não apenas os responsáveis e o comandante da operação sejam responsabilizados, mas espero, também, que o governo do estado de Pernambuco compreenda a urgência para estabelecermos um novo protocolo de ação policial em casos como esse”, afirma Liana.

Ela conta que tomou conhecimento, por volta do meio-dia, de que estavam ocorrendo atos de violência e repressão policial durante o protesto que pedia “Fora Bolsonaro”.

“Nós nos dirigimos para o local e, na Ponte Princesa Isabel, eu desci do carro. Com minha carteira de vereadora em punho impedi que a viatura perseguisse os manifestantes, que estavam pacíficos no ato, correndo e pedindo socorro”, relata.

“Apesar de eu ter me apresentado e tentado dialogar, infelizmente os policiais desceram da viatura e começaram a disparar balas de borracha diretamente nos manifestantes. Não atiraram para cima ou tentaram qualquer tipo de dispersão. Atiraram com o intuito de ferir os manifestantes”, revela Liana.

A vereadora destaca que tentou dialogar e dizer que o procedimento estava incorreto, que os policiais não podiam atirar nos manifestantes, pois eles não ofereciam nenhum tipo de risco.

“Fiz isso com muita calma. Sou professora de Direito há 25 anos, tive centenas de alunos policiais. Por isso, para mim, é muito natural o diálogo com policiais, sempre de maneira muito respeitosa. Mas, infelizmente, eles estavam bastante alterados. Eu pedi ao policial que me agrediu posteriormente que ele se identificasse e informei que iria abrir um procedimento administrativo contra ele, porque ele não estava seguindo o procedimento correto”, diz.

Spray de pimentaImage

“Ele se dirigiu até a viatura e eu, mais uma vez, pedi para que ele se identificasse. Então, ele disparou um jato muito longo de spray de pimenta, diretamente no meu rosto, a cerca de um palmo de distância. Felizmente, não tive nenhuma lesão mais grave nos meus olhos”, acrescenta.

Liana avalia o episódio como lastimável, “totalmente evitável. Era possível dialogar, o procedimento está equivocado. Eu cumpri minha função institucional, pois sou vereadora da cidade do Recife e não posso assistir passivamente a lei ser descumprida e ficar inerte. Fiz o que deveria fazer, o que qualquer cidadão e cidadã deveriam fazer: impedir que um ilícito ocorresse”.

“Infelizmente, os policiais, sob comando equivocado, não tiveram serenidade suficiente para se acalmar e as coisas ocorreram da pior forma possível”, completa Liana.

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