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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

14
Nov18

Poema de Fernando Matos

Talis Andrade

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Que tamanho tem o coração de uma estrela?
Qual a extensão de uma vida humana?
A influência é depurada se conseguirmos vê-la...
Somos poeira cósmica vivendo de forma profana.

 

Talvez não haja lirismo na história da criação
Cada pensamento assume a forma imaginária
Maravilhosa caminhada de curta duração...
Egocêntrico tem uma viagem solitária.

 

O equilíbrio existe para que haja continuação
O Cosmo revela todo processo de Verdade
Somos parte de uma grande e infinita constelação
A nossa semelhança ultrapassa toda a existencialidade.

 

14
Nov18

Poema de Carlão Paes

Talis Andrade

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A cada minuto alguém deixa esse mundo para trás.
Estamos todos na "fila" sem nem sabermos.
Não sabemos quantas pessoas estão na nossa frente.
Não dá para voltar para o "fim da fila".
Não dá para sair da fila.
Nem evitar essa fila.

Então, enquanto esperamos na fila.
Faça os momentos valerem a pena.
Tenha prioridades.
Faça tempo para você.
Faça com que seus talentos sejam reconhecidos.
Faça um ninguém se sentir como alguém.
Faça sua voz ser ouvida.
Faça as coisas pequenas serem grandes.

Faça alguém sorrir.
Faça a diferença.
Faça amor.
Faça as pazes.
Faça com que as pessoas se sintam amadas.
Faça com que você não tenha nenhum arrependimento.

Esteja preparado....

12
Out18

De Rafael Rocha

Talis Andrade

 

rafael rocha.jpg

 "A passagem poderosa do tempo"



1 de Outubro de 2018,  69 anos

 

Depois de conhecer os ruídos e os males da sorte
vendo sessenta e nove anos em mim a se compor
desejaria viajar agora às fronteiras do meu norte
e ao nordeste da pátria conhecer meu esplendor.


No entanto eu sei como o tempo é inclemente
marcando horas infinitas no antes e no depois.
E por amar tanto esta vida e querê-la mais urgente
vou num grito retumbante espalhar a minha voz.


Eu sabendo em demasia a total indiferença
do mundo a me cercar como algo transitório
planejo um poema especial onde a paixão vença
antes de a plateia inculta o considerar simplório.


Darei beijos/abraços nos amigos de hoje e de ontem
como se este dia de outubro ainda fosse o inicial
e depois de cervejas e de versos não me zombem
quando eu disser que agora sou praticamente imortal.


Depois...


Deitarei fogo de versos sobre a terra imutável
e seguirei caminho na minha eterna solidão
sabendo o quanto uma ilusão é imensurável
no inferno que os tolos chamam coração!

 

 

 

 

28
Set18

'Museu da Noite' de Fernando Monteiro

Talis Andrade

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Na noite do incêndio que destruiu o Museu Nacional, o escritor Fernando Monteiro, impactado com esta catástrofe, iniciou a escrita do poema “Museu da noite”.

 

Como explica o próprio poeta: “Este poema em cinco partes começou a ser escrito sob o choque da noite carioca da desGraça de dois de setembro de dois mil e dezoito. Estive insone a madrugada inteira, e parti para compor a música triste dos dedos de uma mão fechada no peito na madrugada e em alguns poucos dias mais – suspensos, irreais e cheios da perplexidade de quem perdeu muito além de um magnífico Museu, numa noite de chamas filmadas por todos os ângulos da treva.”

 

“Na treva do mundo”, completa Alberto Lins Caldas, que assina o prefácio, “do Brasil que se dissolve sob o peso da sombra fascista, a luz que só pode vir da poesia, da violência extrema da palavra que permanece quando atinge a essência da existência, toma em Fernando Monteiro, não apenas nesse poema em cinco partes, ‘Museu da Noite’, mas em toda a sua obra, um fulgor além das muralhas de brutal estupidez dos que calam as palavras e pensamentos, sempre sem saber. Ele nasce das labaredas, nitidamente do fogo vindo da treva, aquele que apenas os fascistas sabem tão bem acender, mas que também os poetas sabem tão bem tornar a destruição, lixeiras ridículas da ‘barbárie’, monumentos da ‘cultura".

 

 

 

 

08
Set18

SOBRE O MAIS FAMOSO SONETO DE TODOS OS TEMPOS

Talis Andrade

 

por Rafael Rocha

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 Félix Arvers

 


O poeta francês Félix Arvers escreveu este soneto no álbum de uma jovem de 19 anos, comprometida, recatada e dotada de muita inteligência, Marie Mennessier-Nodier.



SONNET – Félix Arvers


Mon ame a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour eternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j'ai dú le taire,
et celle qui l'a fait n'en a jamais rien su.


Helas! j'aurai passé près d'elle inaperçu
Toujours à ses côtés et toujours solitaire;
et j'aurai jusqu'au bout fait mon temps sur la terre,
n'osant rien demander, et n'ayant rien reçu.


Pour elle, quoique Dieu l'ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d'amour elevé sur ses pas;


à l'austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle,
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas.



A primeira tradução em português no Brasil do célebre soneto foi feita por Pedro Luiz no ano de 1880.


SONETO DE ARVERS


Guardo um mistério n'alma e na vida um segredo,
um sempiterno amor que há muito me enlouquece;
não tem remédio o mal – por isso o oculto a medo
e aquele que o causou jamais quis que o soubesse.


Perpasso junto dela e abafo ardente prece!
Ao seu lado respiro e sempre em um degredo.
A romagem da vida acabarei bem cedo,
sem que eu nada pedisse e nada ela me desse.


Terna formou-a Deus, mas – bela peregrina –
na trilha do dever não vê, não imagina
que eu – mísero – sagrei-lhe amores imortais.


E, um dia, talvez, diga ao ler em doce calma
estes versos que assim vibraram de sua alma:
– “E essa mulher quem é?” – Não cismará jamais.


Muitas outras traduções foram feitas por brasileiros e portugueses, mas melhor deixar por aqui aquela duas mais aceitas pelos estudiosos, a de Guilherme de Almeida e Olegário Mariano:


SONETO DE ARVERS

Tradução de Guilherme de Almeida


Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a, pois, escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.


Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento.
E chegarei ao fim da existência esquecida,
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.


E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.


A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá, lendo estes versos, com certeza:
— "Que mulher será esta?" — E não compreenderá.



SONETO DE ARVERS
Tradução de Olegário Mariano


Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
e aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.


A seu lado serei sempre a sombra esquecida
de um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
certo de que dei tudo e ele nada me deu.


E ela que Deus formou terna, pura e distante,
passa sem perceber o murmúrio constante
do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.


Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
perguntará, lendo estes versos cheios dela:
- "Que mulher será esta?" - E não compreenderá.

 

Marie_Nodier.jpg

Marie Nodier 


Aparentemente, o soneto passou despercebido à moça dos sonhos do poeta. Félix Arvers nasceu em 23 de julho de 1806 e morreu em 7 de novembro de 1850. Sua musa, Marie Nodier, faleceu muitos anos depois do poeta. Félix Arvers entrou na galeria dos imortais com este soneto de amor e sem jamais saber que Marie Nodier tinha respondido ao soneto com um de sua autoria em seu próprio álbum, mas que os estudiosos da obra de Arvers consideram apócrifa. E que dizia assim:

 

REPONDRE AU SONNET


Ami, pourquoi nous dire, avec tant de mystère,
que l'amour éternel en votre âme conçu
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
et comment supposer qu'Elle n'en ait rien su?


Non, vous ne pouviez point passer inaperçu,
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
Parfois, les plus aimés font leur temps sur la terre,
n'osant rien demander et n'ayant rien reçu.


Pourtant Dieu mit en nous un coeur sensible et tendre
Toutes, dans le chemin, nous trouvons doux d'entendre
le murmure d'amour élevé sur nos pas.


Celle veut rester à son devoir fidèle
s'est émue en lisant vos vers tout remplis d'elle.
Elle avait bien compris... mais ne le disait pas.


E eis aqui a tradução de Edmundo Lys da pretensa resposta ao SONETO DE ARVERS por parte da musa Marie Nodier:


RESPOSTA AO SONETO


Meu amigo, por que, de forma tão sentida,
dizeis que o eterno amor nascido num momento
é uma dor sem remédio, e há de estar escondida,
e como supor que ela ignora esse tormento?


Vós não fostes jamais sombra despercebida,
nem deveis vos julgar num triste isolamento:
os mais amados vão, às vezes, pela vida,
sem nada receber e sem um só lamento.


Deus, entanto, à mulher, deu uma alma complacente
e ela por seu caminho irá mais docemente,
se um murmúrio de amor a segue onde ela vá.


Aquela que ao dever deseja ficar presa,
os versos, cheios dela, os sentiu, com certeza,
e tudo compreendeu... mas nunca ela o dirá.

 

 

08
Set18

de Jussara Salazar

Talis Andrade

os olhos de teresa

(imagem tema heather murray)

 

os olhos.jpg

 



olhos abertos
miúdos
infantis
perplexos
no tempo em que
havia quintais
e cigarras tontas
de sono e bebida
que nenhum beijo amansava
e cavalos em fúria
soltos
na cidade vazia
moviam um mundo
chamado tereza
e os olhos diziam
        o teu cavalo são ossos
        o teu cavalo sem nervos
        o teu cavalo-moça
trota
no reino de lobos
sem heróis ou dentes
apenas galinhas
aves
cães vadios
manadas de patas
imóveis
e imaginários
meus olhos
roubados
de unicórnios

30
Ago18

de Emmanuel Bezerra dos Santos

Talis Andrade

 

emmanuel.jpg

 

 

ÀS GERAÇÕES FUTURAS


Eu vos contemplo
Da face oculta das coisas.
Meus desejos são inconclusos,
Minhas noites sem remorsos.


Eu vos contemplo,
Pelas grades insensíveis.
Meu sonho,
É uma grande rosa.
Minha poesia,
Luta.


Eu vos contemplo
Da virtual extremidade.
Minha vida (pela vossa).
Meu amor,
Vos liberta.


Eu vos contemplo
da própria contingência.
Mas minha força
É imbatível
Porque estais
À espera.


Eu vos contemplo
Do fogo da batalha.
Meus soldados
Não se rendem.
O grande dia
Chegará.


Eu vos contemplo
Gerações futuras,
Herdeiros da paz e do trabalho.
As grades esmaecem
Ante o meu contemplar.

 

---

Seleta de Oreny Júnior

29
Jul18

Música e poesia são as armas para lutar pela liberdade de Lula

Talis Andrade

Festival no Rio reúne 80 mil pessoas e chama a atenção para as injustiças que mantêm Lula como preso político. 'Sonho ver um Brasil construído de baixo para cima e de dentro para fora', disse Leonardo Boff

 

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por Thiago Pereira, na Rede Brasil Atual

 

 

Ainda no final da tarde, Tizumba abriu festival Lula Livre, trazendo os ritmos africanos para o palco principal nos arcos da lapa, centro do Rio de Janeiro. Os apresentadores ressaltaram o "período de breu, etapa indigna" do Brasil pós-golpe do governo Michel Temer e convocaram os artistas a lutar com as suas armas da música e da poesia contra as injustiças. Também lembraram o compositor Vinicius de Moraes, que dizia, em uma de suas canções, que "mais que nunca, é preciso cantar e alegrar a cidade".

 

"A partir de agora, vamos combater os usurpadores do presente e sequestradores do nosso futuro". A cantora Ana Cañas cantou à capela O bêbado e o equilibrista, composição de Chico Buarque celebrada na voz de Elis Regina, que Lula contou a ela ser a sua música preferida. "Democracia nessa porra", clamou Cañas, que lembrou que nesta sexta-feira a vereadora Marielle Franco completaria 39 anos, se não tivesse sido assassinada em março deste ano, também no Rio de Janeiro. Abayomy Orquestra também trouxe a cultura negra e lembrou a figura do rei africano Malunguinho, ex-escravo que liderou um quilombo em Pernambuco.

 

A cada apresentação, a plateia entoava o grito Lula Livre, a marca do festival. Os organizadores também anunciaram a agenda de mobilizações entre os dias 10 e 15 de agosto, que começa com mobilização das centrais sindicais no Dia do Basta contra as ameaças aos direitos trabalhistas. No dia seguinte, um ato inter-religioso em frente ao STF em defesa da liberdade de Lula, com a presença do Nobel argentino adolpho Perez Esquivel, quando também vão apresentar abaixo-assinado com cerca de 300 mil assinaturas que denunciam a prisão política a que Lula está submetido em Curitiba. No dia 15, o registro oficial da candidatura de sua candidatura. A população foi também chamada a se organizar em comitês populares em defesa da libertação de Lula e pelo direito de concorrer nas eleições. Na sequência, a Gang 90 trouxe hits brasileiros e músicas de amor dos anos 1980 e 1990.

 

Ao lado do escritor Eric Nepomuceno, Lucélia Santos fez a leitura do manifesto convocatório do festival. "Todo o julgamento do presidente Lula foi um erro jurídico sem limites. Não havia, na primeira instância – leia-se Curitiba –, uma única e mísera prova dos crimes dos quais ele foi acusado. Não se trata de opinião, mas de constatação."

 

"Eles sabem que se soltarem Lula nessa altura do campeonato, ele leva a eleição", comentou da plateia a arquiteta Júlia Ribeiro, de 36 anos, antes de todo o público entoar sucessivos gritos Lula Livre. "Lutem como Marielle Franco", concluiu Lucélia Santos.

 

"É uma série de mobilizações que vem desde a prisão dele em São Bernardo. E agora no Rio, na Lapa, berço do samba e da cultura popular, a gente espera que o recado fique ainda mais claro quanto à partidarização do judiciário. Dá mais um impulso na luta contra as ilegalidades que vêm ocorrendo no Brasil", afirmou dos bastidores o jornalista Luis Nassif.

 

Também passaram pelo palco os artistas Gabriel Moura, Lisa Milhomem, Claudinho Guimarães e Dorina. Aíla cantou que todo mundo nasce artista, e "depois vem a repressão". "Essa doença tem cura, existe uma salvação. Faça arte, mesmo que a sua mãe diga que não", dizia o verso da música.

 

Os apresentadores lembraram que uma "acusação fajuta" serve de pretexto para a prisão de Lula, já que o ex-presidente não dormiu, nem nunca teve chaves ou escritura do dito apartamento que a ele atribuem. "No processo a Jato, vem antes a condenação, baseada apenas em convicção.Faltou combinar com o povo. A indignação cresce a cada dia. Exigimos a imediata libertação de Lula".

 

Leonardo Boff diz que sonha em ver o povo organizado

Ao discursar no Festival Lula Livre na noite deste sábado, o Frei Leonardo Boff os tempos sombrios da ditadura civil-militar que se instalou no país nos anos 1960. “Faz escuro, mas eu canto, disse o poeta Thiago de Mello, na época sombria, da ditadura militar, de 1964”, afirmou. “Está confuso mas eu sonho, digo eu, nesses tempos não menos sombrios. Sonho ver um Brasil construído de baixo para cima e de dentro para fora, forjando uma democracia popular, participativa, reconhecendo os novos cidadãos, que a natureza é a mãe Terra. Sonho em ver organizado o povo em redes e movimentos sociais. Povo cidadão, com competência para gerar suas próprias oportunidades, e moldar o seu próprio destino, livre da dependência dos poderosos, mas resgatando a própria autoestima.”

 

 

04
Jul18

“Mas eis que, de repente, como praga imperam os juízes”

Talis Andrade

 

 

Poema de Maiakovski parece ter sido feito para Moro

 

o juiz contra o poeta .jpg

 

 

por Alex Solnik 

 

Embora tenha sido escrito há mais de 100 anos, em 1915 e se refira explicitamente aos malfeitos dos juízes do Peru, onde o poeta foi censurado, o poema "Hino ao juiz", de Vladimir Maiakovski chama atenção para o que poderá acontecer no Brasil se juízes como Sérgio Moro continuarem desafiando abertamente instâncias superiores, como no caso da tornozeleira de José Dirceu e assumirem um imenso poder, acima dos demais Poderes e das demais autoridades.

 

 

“Os olhos dos juízes são faíscas numa lata de lixo” diz Maiakovski.

 

 

 

 

O poema, na íntegra:

 

Hino ao Juiz 

 

Pelo Mar Vermelho vão, contra a maré

Na galera a gemer os galés, um por um.

Com um rugido abafam o relincho dos ferros:

Clamam pela pátria perdida – o Peru.

 

Por um Peru-Paraíso clamam os peruanos,

Onde havia mulheres, pássaros, danças.

E, sobre guirlandas de flores de laranja,

baobás – até onde a vista alcança.

 

Bananas, ananás! Pencas felizes.

Vinho nas vasilhas seladas...

Mas eis que de repente como praga

No Peru imperam os juízes!

 

Encerraram num círculo de incisos

Os pássaros, as mulheres e o riso.

Boiões de lata, os olhos dos juízes

são faíscas num monte de lixo.

 

Sob o olhar de um juiz, duro como um jejum,

Caiu, por acaso, um pavão laranja-azul;

Na mesma hora virou cor de carvão

A espaventosa cauda do pavão.

 

No Peru voavam pelas campinas

Livres os pequeninos colibris;

Os juízes apreenderam-lhes as penas

E aos pobres colibris coibiram.

 

Já não há mais vulcões em parte alguma,

A todo monte ordenam que se cale.

Há uma tabuleta em cada vale:

“Só vale para quem não fuma”.

 

Nem os meus versos escapam à censura:

São interditos, sob pena de tortura.

Classificaram-nos como bebida

Espirituosa: “venda proibida”.

 

O equador estremece sob o som dos ferros.

Sem pássaros, sem homens, o Peru está a zero.

Somente, acocorados com rancor sob os livros,

Ali jazem, deprimidos, os juízes.

 

Pobres peruanos sem esperança,

Levados sem razão à galera, um por um.

Os juízes cassam os pássaros, a dança

A mim e a vocês e ao Peru.