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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Jul18

“Mas eis que, de repente, como praga imperam os juízes”

Talis Andrade

 

 

Poema de Maiakovski parece ter sido feito para Moro

 

o juiz contra o poeta .jpg

 

 

por Alex Solnik 

 

Embora tenha sido escrito há mais de 100 anos, em 1915 e se refira explicitamente aos malfeitos dos juízes do Peru, onde o poeta foi censurado, o poema "Hino ao juiz", de Vladimir Maiakovski chama atenção para o que poderá acontecer no Brasil se juízes como Sérgio Moro continuarem desafiando abertamente instâncias superiores, como no caso da tornozeleira de José Dirceu e assumirem um imenso poder, acima dos demais Poderes e das demais autoridades.

 

 

“Os olhos dos juízes são faíscas numa lata de lixo” diz Maiakovski.

 

 

 

 

O poema, na íntegra:

 

Hino ao Juiz 

 

Pelo Mar Vermelho vão, contra a maré

Na galera a gemer os galés, um por um.

Com um rugido abafam o relincho dos ferros:

Clamam pela pátria perdida – o Peru.

 

Por um Peru-Paraíso clamam os peruanos,

Onde havia mulheres, pássaros, danças.

E, sobre guirlandas de flores de laranja,

baobás – até onde a vista alcança.

 

Bananas, ananás! Pencas felizes.

Vinho nas vasilhas seladas...

Mas eis que de repente como praga

No Peru imperam os juízes!

 

Encerraram num círculo de incisos

Os pássaros, as mulheres e o riso.

Boiões de lata, os olhos dos juízes

são faíscas num monte de lixo.

 

Sob o olhar de um juiz, duro como um jejum,

Caiu, por acaso, um pavão laranja-azul;

Na mesma hora virou cor de carvão

A espaventosa cauda do pavão.

 

No Peru voavam pelas campinas

Livres os pequeninos colibris;

Os juízes apreenderam-lhes as penas

E aos pobres colibris coibiram.

 

Já não há mais vulcões em parte alguma,

A todo monte ordenam que se cale.

Há uma tabuleta em cada vale:

“Só vale para quem não fuma”.

 

Nem os meus versos escapam à censura:

São interditos, sob pena de tortura.

Classificaram-nos como bebida

Espirituosa: “venda proibida”.

 

O equador estremece sob o som dos ferros.

Sem pássaros, sem homens, o Peru está a zero.

Somente, acocorados com rancor sob os livros,

Ali jazem, deprimidos, os juízes.

 

Pobres peruanos sem esperança,

Levados sem razão à galera, um por um.

Os juízes cassam os pássaros, a dança

A mim e a vocês e ao Peru.

 

17
Jun18

OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE

Talis Andrade

 

The4horsemanoftheApocalypse,1498.jpg

 

 

Bela exuberante a vida

dos estudantes que conheceram o amor

na militância do sonho e da poesia

e mantiveram a crença mística

de vencer os quatro cavaleiros

montados nas quatro bestas

os quatro cavaleiros que conduzem

as bandeiras da corrupção

 

Cada cavaleiro uma bandeira

de tenebrosa cor

O verde mofo da pele dos enfermos

o verde-musgo da putrefação nas sepulturas

O encarnado infernal

o sangue pisado

da cruentação dos cadáveres

O negro da auréola de Judas

e das trevas da ditadura

O branco das mortalhas

o macilento branco dos vampiros

e de todas as aparições nefastas

 

Aos jovens o tempo ensina

a vida uma luta sem armistício

contra os cavaleiros do Apocalipse

cada cavaleiro uma bandeira

cada cavaleiro uma arma

o arco a espada

a balança e a ceifa

 

 

---

De Albrecht Dürer (1471-1528),
Os quatro cavaleiros do Apocalipse

17
Jun18

de Silvana Farinatti

Talis Andrade

farinatti by lalique.jpg

 

 

Under Construction

 


Eu queria ser uma mini escultura de Lalique,
toda chic!
Incrustada com pedras precisosas
e dormir bem protegida,
em uma caixinha de jóia
Com uma bailarina dançando ao meu redor,
dançaria até eu dormir,
até fazer zzzzzzzzzz!
Dessas que dançam e rodopiam sem cair
Me sentiria protegida em um veludo de cor escura
Amada não por ser cara, mas por ser delicada
Amada por estar anos com o mesmo dono
Eu seria tão rara que jamais poderia ser tocada,
apenas admirada
O tempo seria a meu favor,
e eu me tornaria uma relíquia para os descendentes.
Nunca vendida e sempre querida

 

---

by Lalique

13
Jun18

DE JUSSARA SALAZAR / Exercício sobre a matéria e o amor

Talis Andrade

com tema de auguste rodin

 

rodin.jpg

 

 

Paolo e Francesca emergem de um bloco
pedra sem forma
massa de mármore

 

Rodin esculpiu
a sublime delicadeza do amor
         Dante
         Beatriz
entre o inferno e o paraíso


unidos
contraditórios

 

a claridade da pedra
a escuridão da noite
a leveza do amor
o peso do corpo
ou ainda a matéria bruta do solo
e a fragilidade da carne

 

Camille Claudel
Camille Claudel
chego a ti
ao teu tempo soterrado
entre o amor e
a violência de amar

 

 

13
Jun18

Retrato amoroso ou o retorno do querubim sobre as ondas

Talis Andrade

de Jussara Salazar

 

poesia jussara salazar.jpg

 

vagando
as ondas
o tule
do mar
do extremo amor
devolveu a
cabeça do querubim
perdido


os dias
os dias
os mesmos dias
viram teu torso
um desenho
costurado
à linha do horizonte

 

te aguardarei
menino
quando retornares
com o tempo
teu corpo
e tuas cicatrizes

 

 

---


com tema de Beth Moysés| Reconstruindo Sonhos

Performance realizada em Cáceres, Espanha. 2007

13
Jun18

Que pode oferecer uma mulher além da flor do sexo

Talis Andrade

penelope.png

 

 

 

PENÉLOPE

1

Dia após dia

as mãos hábeis

de Penélope

teciam o silêncio

a solidão

 

Dia após dia

as mãos de Penélope

varriam a casa

a vida vazia

 

2

No início

era assim

 

a casa lavada

e arrumada

 

a roupa lavada

e passada

 

o corpo lavado

e perfumado

 

como se de repente

o amante entrasse

quarto a dentro

 

3

A fidelidade uma cobrança

Ulisses como recompensa

a resguardasse com os antigos olhos

que a descobriram

entre tantas moças

Os penetrantes olhos

postos em suas coxas

Os antigos olhos

que a desnudaram

no primeiro instante

tornando-a mulher

em cada dobra do vestido

em cada curva do corpo

em cada devaneio inibido

 

4

O medo

uma constante

à vida vivida

sob a mira

do proibido

 

Desde criança

os passos contidos

A casa  

a escola

a igreja

marcavam

o espaço

permitido

 

Algumas vezes

os sonhos

transpunham

o limiar

da porta

os olhos

se perdiam

por estranhos

territórios

 

Um copo de vinho

podia ser o passe

para uma caminhada

mais distante

Uma música lenta

de amor ardente

podia acordar os sentidos

mas os desejos

vinham e iam

quais marés

sonolentas

 

5

Que pode oferecer

uma mulher

além da flor

    do sexo

 

Do homem a vantagem

o mistério das cicatrizes

a coroa de herói

a legenda de mártir

inscrita nos cárceres

 

De Penélope a sina

de tecer tecer

o que nunca termina

O fazer refazer

das obrigações femininas

 

De Penélope a submissão

da espera

O homem lhe complete

a vida vazia

 

6

Na imprensa nenhuma notícia

Na polícia tudo corria

em segredo de justiça

Com o passar dos dias

o esvaecer da esperança

Nem no aniversário

compensa tecer as tranças

de azul pintar

     os olhos

tomar um banho

     de perfumadas rosas

amainar o corpo

      nos ventos alísios

Não havia alegria

em vestir um vestido novo

Os desejos passaram a dormir

no fundo de um poço

 

7

Ouvira os padres profetizarem

um outro mundo

o marido falar

de um mundo novo

As palavras as palavras  

não podiam tudo

Havia o testemunho

do espelho de prata

a dor de não saber

guardar o verdor do corpo

perante o tempo corrosivo

 

Nenhum deus poderia impedir

os dias devorassem

os belos traços do rosto

os peitos pendessem

como frutos podres

 

 

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps  154/160 

13
Jun18

O TORTURADOR AGE IMPUNE

Talis Andrade

torture_victims_day___shaditoon.jpg

 

 

1

Livre da tétrica prisão

como se explica a vítima

não mate o verdugo

que lhe encurralou

entre quatro paredes

que lhe amarrou

na cadeira do dragão

que lhe seviciou

com a empalação

choques no ânus e sexo

 

2

O torturador age impune

consciente da relação

mais que íntima

uma relação inaudita

que lhe une à vítima

Uma relação física

maldita

que repulsa e excita

tão sadomasoquista

que persiste imune

à qualquer tipo

de vindita

 

13
Jun18

TODOS QUEREM ESQUECER

Talis Andrade

ossadas.jpg

 

 

Paira no ar a cumplicidade do silêncio

O medo paralisa toda reclamação de justiça

Pelo visto apenas ficará o registro

125 camaradas permanecerão desaparecidos

Para toda eternidade

125 camaradas permanecerão desaparecidos

os corpos escondidos

nos cemitérios clandestinos

 

===

Cemitério Clandestino de presos políticos. Foto de Claudio Rossi

Talis Andrade, O Enforcado da Ranha, p. 150

03
Jun18

IN MEMORIAM DE LUIZ INÁCIO MARANHÃO FILHO

Talis Andrade

 

luis maranhão filho foto coleção  Rostand Medei

 

1

Nas televisões

a propaganda mostra

a vitória do sistema

o milagre brasileiro

 

Nas rádios

a animação

Pra frente Brasil

 

Nos jornais

a persuasão

Ame-o ou deixe-o

 

Não há espaço

para a notícia

do suposto extermínio

de um jornalista

 

2

Luiz Maranhão permanece desaparecido

Não há como se achar um cadáver

em um país de oito milhões de quilômetros quadrados

Não há como se achar um cadáver

em um mar de quinhentas milhas

Nem justificativa para rezar missa

pela alma penada de um comunista

 

Em defesa da Nova República

a precaução de colocar uma imensa pedra

sobre o cadáver de Luiz Maranhão

Em defesa da Nova República

a prudência de amarrar

o cadáver de Luiz Maranhão

a uma pesada âncora

fixada em secreto

profundo mar

 

 

3

A conspiração do silêncio

mantém todos quietos

A conspiração do silêncio

deixa em paz

os que prendem

e arrebentam

A conspiração do silêncio

tranqüiliza a consciência

dos confrades de Luiz Maranhão

 

4

Não há que rezar missa

pela alma de um comunista

não há motivo para reclamar

o corpo de um jornalista

 

O brasileiro não aceita

o revanchismo

prefere a paz dos túmulos

o povo brasileiro 

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, 147/149

Foto Luiz Maranhão Filho/ Coleção de

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