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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Mar19

APRESENTAÇÃO DA GORDA FOME

Talis Andrade

 

josué de castro .jpg

 

por MARCELO MÁRIO DE MELO
 
 
 
A fome sorri com dentes de ouro.
A fome se veste com roupas de seda.
A fome possui brilhantes nos dedos.

A fome já fez reengenharia.
A fome possui qualidade total.
A fome já vive a globalização.

A fome alimenta trezentas tribunas.
A fome fomenta seiscentos projetos.
A fome tem manhas e ri das campanhas.

A fome dá lucros & faz Companhias.
A fome é porteira de currais e votos.
A fome e parteira de cortiço e culto.

A fome é letrada: tem biblioteca.
A fome é avançada: não tem preconceitos.
A fome não tem pudor nem remorso.

A fome possui sede de vampiro.
A fome é gulosa e mastiga ossos.
A fome devora esperança e carne.

A fome é antiga e é pós-moderna.
A fome não tem ferida na perna.
A fome é robusta e diz que é eterna.

A fome apresenta um projeto histórico coerente e conseqüente.
A fome não se aproxima da classe dominante.
A fome é rigorosamente classista e se apóia na aliança operário-camponesa.
A fome é democrática e popular e inclui os excluídos.
A fome fez opção preferencial pelos pobres.
A fome faz trabalho de base na periferia.
A fome não tem nenhuma simpatia pela classe média
sempre apertando o cinto e nunca morrendo de fome.
A fome detesta nutricionistas e necrófilos.
A fome é contrária às vendas a crédito de produtos alimentícios.
A fome possui intelectuais orgânicos e agônicos pára-quedistas e surfistas.
A fome compromete sua agenda com penitenciárias e prostíbulos.
A fome adora crianças e mendigos.
A fome se alimenta mais de três vezes por dia
com sucos sobremesas e muitos lanches.
A fome é gorda.
O faminto é magro.
 

religião fome .jpg

 

09
Mar19

OMBROS DO PAI

Talis Andrade

por Rafael Rocha

Ivanildo Lins Rocha.jpg

Meu pai, Ivanildo Lins Rocha

28 anos de saudades

Falecido em 9/03/1991

 


Muitas vezes meu pai ofereceu seu ombro
para que eu pudesse dizer as minhas mágoas.
E dezenas de vezes (ah! Essas lembranças!)
deslizou seus dedos pelos meus cabelos
as mãos pela minha pele
com o orgulho de um vigilante do meu tempo.
Pelas mãos de meu pai conheci caminhos
ermos e perigosos e abismais
e escutei seus conselhos para caminhar
naqueles onde meus pés pudessem sentir a planície.
Ele conhecia quase a fundo meus defeitos
tanto os físicos como os do espírito
e muitas vezes pediu sem arrogância
que eu construísse a vida afavelmente
buscando entender a besta a viver nos outros.
Mas nunca, nunca mesmo, baixasse a cabeça
pra os opressores e os arrogantes.
“Faça o que eu digo. Nunca o que faço”.
Muitas vezes meu pai fechou seus ouvidos para mim.
Fechou seus olhos e não quis enxergar minha vida.
E em quantos momentos (Ah! Essas lembranças!)
aplainou carinhosamente os músculos do meu cérebro
em silêncio, em seu constante silêncio,
como um marceneiro a trabalhar na madeira bruta.
E era nesses instantes que eu o conhecia
mais detidamente como o homem mais difícil
que jamais tinha passado por minha vida.


Conheci os defeitos físicos e os do espírito do meu pai
quando meus primeiros cabelos brancos nasceram
ao ver que os olhos dele não tinham mais o brilho da vaidade.
E entendi que para se lapidar a vida
o homem tem de lapidar primeiro a si mesmo
e depois aceitar o tempo em que viveu como uma dádiva
entregue por algum espírito errante.


Hoje não mais tenho comigo os ombros do meu pai.
Minhas mágoas hoje dormem na solidão eterna.

 

 

---

Do livro “Marcos do Tempo” – 2010

08
Fev19

De Jussara Salazar

Talis Andrade

sentinela

|img tema elizabeth Perice|

peixes.jpg

 


Uma mulher
na penumbra da casa
pássaro de papel negro
caminha


toada de rebanho escuro
o verde sobre o peito da mulher é áspero
sobre o vestido de louça
e sobre o negro da noite sussurra para as velas brancas
escuto quando a mulher passa
olhos voltados para o dia
segura dois peixes silenciosos
amarelos
azuis
e depois voa
com asas de penumbra

07
Fev19

O Senhor das Moscas

Talis Andrade

Por Máquina de Escrever

Hugo Laranjeira

mosca.jpg

 

Quando eu digo A, entende B
Se eu falo três, escuta sete
Ter que te explicar meu escrever
Põe a minha paciência em cheque
Sai a comentar o que eu escrevo
Me diverte a pobreza verbal
Do seu linguajar, que é um arremedo
De imbecilidade colossal

Junta duas letras numa sílaba
Com palavras já se aparvalha
Se tenta juntá-las, se complica
Tenta escrever frases, se atrapalha

Não consegue acertar uma vírgula
Ponto final é algo abstrato
Se acha poderoso tal Calígula
Desconhece ditongo e hiato

É um filisteu, adora um mito
Engraxa as botas do General
Louva no altar, de ouro, um cabrito
Nosso analfabeto funcional

Tenta me xingar, é um jumento
Mal sabe que ao acabar em u
Oxítona não leva acento
Volta pro inferno, Belzebu

11
Jan19

De Jussara Salazar

Talis Andrade

jussara vestido.jpg

 

 

a língua das facas


não há poema
apedrejaram a estátua do bandeira
e os tambores soaram às seis da manhã
não há palavra
e quero palavras macias
palavras antigas e suaves
como os tapetes da mesquita
que flutuaram sob meus pés
naquele domingo de março
não há letra suficiente
os signos falam uma língua de facas
os signos foram destruídos
os signos foram esquecidos
os signos fugiram pelas ruas
e ninguém mais consegue decifrá-los
estamos balbuciando sons
como numa infância
com sua mudez de aprendizes
como numa infância
de brinquedos quebrados
de caminhos partidos
como "veredas que se bifurcam"

 

img tema Pia-Lotta Rock

 

26
Dez18

Marielle Franco nome de rua na Alemanha. No Brasil deputados machistas de Bolsonaro quebram placa

Talis Andrade

Ato de vandalismo ajudou a eleger o governador e deputados do PSL

 

placa marielle.jpg

 

 

Transcrevo do jornal O Globo:

Um vídeo gravado ao vivo, no domingo anterior à eleição, mostra Witzel junto com Daniel Silveira, eleito deputado federal pelo PSL, e Rodrigo Amorim, deputado estadual mais votado do Rio, também pelo PSL, durante ato de campanha em Petrópolis, na Região Serrana.

No começo do vídeo, Witzel pede votos para Silveira e depois a câmera mostra o discurso de Amorim em cima do carro de som:

"Marielle foi assassinada. Mais de 60 mil brasileiros morrem todos os anos. Eu vou dar uma notícia para vocês. Esses vagabundos, eles foram na Cinelândia, e à revelia de todo mundo, eles pegaram uma placa da Praça Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, e botaram uma placa escrito Rua Marielle Franco. Eu e Daniel essa semana fomos lá e quebramos a placa. Jair Bolsonaro sofreu um atentado contra a democracia e esses canalhas calaram a boca. Por isso, a gente vai varrer esses vagabundos. Acabou Psol, acabou PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora é Bolsonaro, p***", gritou Amorim pelo microfone.

marielle .png

 

 
Quero ver se esses covardes apologistas da execução de políticos esquerdistas e defensores do feminicídio vão quebrar as placas de rua com o nome de Marielle Franco mundo afora.
 
A vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março no Rio de Janeiro, foi homenageada com o nome de uma rua na cidade de Colônia na Alemanha. "Aqui no meu bairro na Alemanha uma mulher negra, brasileira, é homenageada. Obrigada, ela merece!" Essas são as palavras de Tamara Soliz em seu perfil nas redes sociais, comemorando. 
 
12 Poemas para Marielle Franco
 

quinho.jpg

Ilustração Quinho

DIREITAS
por Líria Porto

 

mulheres
mirem-se no espelho de amélias marcelas
carminhas
respaldem o grande
o rico homem branco
e nem pensem nas marielles nas beneditas
nas jandiras
estas devem ficar nas senzalas
caladas e debaixo de relho

(as que falem por pobres e pretos
silenciamos à bala)

 

Leia mais onze poemas aqui

 

 

 

25
Nov18

Do Itinerário do Desuso de Edmilson Borret

Talis Andrade

pablo-picasso-vendedora-de-flores-1901.jpg

 


Elas são sorridentes
as moças das flores
Elas cheiram a flores
as moças das flores!
São noturnas e orvalhadas
As moças das flores
desfilam sabores, odores
E as mãos das moças das flores?!
Ah, como são simpáticas as mãos
das moças das flores

 

Elas sabem de mim
de meus arredores
de meus epitáfios e dores
São metafísicas, dionisíacas
as moças das flores
Inocentes como
águas de um lago à noite:
tácita sedução, sem pudores
Elas nos trazem o repouso
as moças das flores

 

Ilustração Picasso 

14
Nov18

Poema de Fernando Matos

Talis Andrade

carencia.jpg

 



Que tamanho tem o coração de uma estrela?
Qual a extensão de uma vida humana?
A influência é depurada se conseguirmos vê-la...
Somos poeira cósmica vivendo de forma profana.

 

Talvez não haja lirismo na história da criação
Cada pensamento assume a forma imaginária
Maravilhosa caminhada de curta duração...
Egocêntrico tem uma viagem solitária.

 

O equilíbrio existe para que haja continuação
O Cosmo revela todo processo de Verdade
Somos parte de uma grande e infinita constelação
A nossa semelhança ultrapassa toda a existencialidade.

 

14
Nov18

Poema de Carlão Paes

Talis Andrade

fila.jpg

 




A cada minuto alguém deixa esse mundo para trás.
Estamos todos na "fila" sem nem sabermos.
Não sabemos quantas pessoas estão na nossa frente.
Não dá para voltar para o "fim da fila".
Não dá para sair da fila.
Nem evitar essa fila.

Então, enquanto esperamos na fila.
Faça os momentos valerem a pena.
Tenha prioridades.
Faça tempo para você.
Faça com que seus talentos sejam reconhecidos.
Faça um ninguém se sentir como alguém.
Faça sua voz ser ouvida.
Faça as coisas pequenas serem grandes.

Faça alguém sorrir.
Faça a diferença.
Faça amor.
Faça as pazes.
Faça com que as pessoas se sintam amadas.
Faça com que você não tenha nenhum arrependimento.

Esteja preparado....

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