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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

14
Jan22

Thiago de Mello imortal imortal

Talis Andrade

thiago livro.jpg

 

Um poeta contra a ditadura militar

 

Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, no interior do Amazonas

Suas obras foram traduzidas para mais de trinta idiomas. Seu poema mais conhecido é 'Os Estatutos do Homem', em que o poeta canta a Liberdade e denuncia a ditadura militar da qual foi vítima, vivendo o exílio no Chile de Allende e Europa.

Exposição Thiago de Mello 95 anos de vida, poesia e amor por Manaus.

Veja aqui

14
Jan22

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente) por Thiago de Mello

Talis Andrade

estatutos 1.jpg

 

A Carlos Heitor Cony

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

 

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

Artigo V.

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.Livro: Os Estatutos do Homem - Thiago de Mello | Estante Virtual

Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha sempre

o quente sabor da ternura.

Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,

a qualquer hora da vida,

o uso do traje branco.

Artigo XI.

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo.

muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade.

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

Os Estatutos Do Homem | Poema de Thiago de Mello com narração de Mundo Dos  Poemas - YouTube

12
Jan22

Último poema de Soledad Barrett

Talis Andrade
Nenhuma descrição de foto disponível.
 
Tradução de Fernando Coelho
 
 
Mãe, me entristece te ver assim
o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta.
 
Mãe, não sofras se não volto
me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!
no olhar de uma criança feliz
de um jovem que estuda
de um camponês em sua terra
de um operário em sua fábrica
do traidor na forca
do guerrilheiro em seu posto
sempre, sempre me encontrarás!
Mãe, não fiques triste,
tua filha te quer.
 
Madre, me apena verte así
el quebrado mirar de tus ojos azul cielo
en silencio implorando que no parta.
 
Madre, no te apenes si no vuelvo
me encontrarás en cada muchacha de pueblo
de este pueblo, de aquel, de aquel otro
del más acá, del más allá
talvez cruce los mares, las sierras
las cárceles, los cielos
pero, Madre, yo te aseguro,
que sí me encontrarás!
en la mirada de un niño feliz
de un joven que estudia
del campesino en su tierra
del obrero en su fábrica
del traidor en la horca
del guerrillero en su puesto
siempre, siempre me encontrarás!
Mamá, no te pongas triste,
Tu hija te quiere.
 
12
Jan22

LIMBO

Talis Andrade

por Talis Andradepintores mais famosos do mundo dali

 

Pelo tempo infinito

eu permaneça

protegido

das águas escumantes

que incharam o corpo

do poeta Shelley

das águas viscosas

venosas

que apodreceram

Tchaikovsky

 

Protegido permaneça

da sina de Pilatos

morto

afogado

em invisível taça

de vinho morno

com gosto

de chumbo

e posca

 

Protegido das chamas

que consomem as almas sebosas

dos possuídos por Lúcifer

os filhos da perversidade

os governantes corruptos

os legisladores vendidos

os juízes iníquos

os escravocratas

que submetem o povo

na fome e no afogo

os que transformam o mundo

em uma cavidade tenebrosa

- - -

Publicado in Palavras de Ateop, editado pelo jornalista, romancista e poeta Rafael Rocha. Ilustração O Sono, Dalí

 

29
Dez21

A mulher e o amor na poesia e pintura de Rafael Rocha

Talis Andrade

Nenhuma descrição de foto disponível.

Ninfeta em cismas, pintura de Rafael Rocha

Nenhuma descrição de foto disponível.

BELEZA

No dia em que eu beijar a boca da beleza 
o rio da terra trará forte correnteza 
com enormes ondas indo ao estuário. 
E eu e ela estaremos lado a lado 
no cio úmido e gostoso do pecado: 
– Dois peixes fazendo amor em um aquário! 

Direi: – Adorada, sou um desordeiro 
vindo em maléfico corcel, eu, cavaleiro 
desejo usufruir dos teus lauréis! 
Ela dirá: – Que seja assim e tanto! 
Cubra meu corpo com esse acalanto 
e pinte nele com todos teus pincéis! 

Nesses lisérgicos e sativos delírios 
vi as rosas se transformando em lírios 
como tentando enfeitar ventres ateus. 
E ela, rindo, trouxe à luz a zombaria. 
Entre trejeitos eróticos, dizia: 
– Tente ao menos rezar para algum deus! 

Após capturar o seu beijo de beleza 
o rio deixou de fluir em correnteza 
e de fazer ondas no vasto oceano. 
O dia trouxe um sol à ampla festa 
e na noite quente uma orquestra 
tocou aquele inesquecível tango. 

Ei-la: a musa mais que amada 
a deslizar voando como uma fada 
dentro e fora das minhas realidades. 
Mulher e amante! A deusa de meus dias! 
Criadora de intensas fantasias! 
Ventre macio onde sorvo umidades!

28
Dez21

Sergio Moro esconde a fortuna que fez lá fora com o Brasil quebrado

Talis Andrade

alvarez & marsal.png   

A & M cartão de visita de moro.png

 Reinaldo Azevedo no Twitter

Reinaldo Azevedo
Agora o TCU quer saber Qto Moro recebeu da Alvarez & Marsal. “Ah, é assunto privado…” UMA OVA! Lembro q cobrança partiu do subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, do MP q atua junto a TCU. Imprensa deveria ter sido a 1ª a cobrar. Maioria se calou.
Image
Com Moro é assim: ele e sua turma são sempre inocentes, mesmo qdo culpados. E seus alvos são sempre culpados, mesmo qdo inocentes. Ministério Público junto ao TCU quer saber dados do rompimento do contrato com a Alvarez & Marsal. Pois é: não se conhecem nem os da contratação.CNJ manda Moro explicar vazamento da delação do Pulhocci — Conversa Afiada
Nenhum extremista de direita é uma ilha. E assim tb é no Brasil. Por isso a mais nova frente de batalha de Bolsonaro se traduz no ataque à vacinação de crianças. Ele não está sozinho. 
O bolsonarismo, a seu modo, é internacional. Ou: Ideologia e ódio à ciência
Parece a todos absurdo que a mais nova frente de batalha de Jair Bolsonaro se traduza no ataque à vacinação de crianças.

 

Reinaldo Azevedo
É claro que os reacionários babam de ódio. O fato é que, como disse um amigo há pouco, Lula é mais “burkiano” (de Edmund Burke) do que um monte de merdinhas que se dizem liberais. Liberais porra nenhuma! Odeiam pobres! É ponto.
Lula
@LulaOficial
Aqui ninguém tem que ser revolucionário, nós temos que ser cristãos, democratas, humanistas. Nós temos que ser seres humanos para a gente poder olhar na cara das pessoas e dizer: "Você também tem direito. Eu vou comer um peru no Natal e você também tem direito de comer".
O que Lula vê:www.brasil247.com - { imgCaption }}
Reinaldo Azevedo
Como sabem, ñ estou assim tão convencido de q Alckmin será vice de Lula. É claro q ele na chapa desmoraliza tese de um Lula radical, embora tal temor seja ridiculamente falso. Ninguém q se importa c/ isso leva suspeita a sério. Por outro lado, noto q essa composição causa tal ódio na extrema direita e em seus porta-vozes q me pergunto se ela ñ é, de fato, poderosa. O ponto: o único gancho “popular contra Lula no Brasil “miserento” seria o suposto extremismo. Sem ele, resta aos reaças tocar um tango argentino, como no “Pneumotórax”, de Bandeira.

22
Dez21

NOEL EM DEZEMBRO

Talis Andrade

 

por Urariano Mota /Vermelho

- - -

Em todo o mundo, quem abriu o google em 11 de dezembro de 2019,  encontrou um desenho que chamam de doodle. Nele se achava um indivíduo de chapéu e violão em um bar. Com um clique na figura, abria-se o espaço para Noel Rosa com 64 milhões de resultados. Era uma homenagem para o dia do seu nascimento, em 11 de dezembro de 1910. Então, como fugir ao  irrecusável convite desse dia? Por isso a um artigo anterior retorno.

Publiquei uma vez que maio deveria ser o mês mais triste para os brasileiros. Pois quem daria mais por um artista feito no rigor da arte, sem introdução e sem segunda parte, que expressasse três terços de todo brasileiro?  Porque eu queria simplesmente dizer: maio deveria ser o mais triste dos meses, porque nesse mês faleceu Noel Rosa. E ninguém mais notava. E ninguém dava mais por isso, ninguém dava mais um mil réis por isso, o que era um cômico que zomba, porque Noel foi e é o maior compositor da música popular brasileira.

Pela décima vez

Jurei não mais amar

Pela décima vez

Jurei não perdoar

O que ela me fez

O costume é a força

Que fala mais alto

Do que a natureza

E nos faz dar prova de fraqueza.....

Ou porque

Gago apaixonado

Mu-mu-mu mulher

Em mim fi...fizeste um estrago

Eu de nervoso

Estou fi-fi... ficando gago...

Se ainda não consegui me fazer entender, procurarei ser mais claro: Noel é um compositor tão rico quanto a vida, e quanto mais a gente procura apanhá-lo, pegá-lo, nem que seja para um riscado de caricatura, mais ele nos foge, escapole, por entre os dedos. Ele fica a sorrir de nossa vã pretensão. Por onde tentemos pegar Noel, ele se furta à nossa frente. Vejam por quê. Se tentamos agarrá-lo pelos dados biográficos, a nossa tendência é situá-lo como o personagem ideal de um dramalhão de circo.

Ao nascer, foi arrancado a fórceps, o que lhe afundou o maxilar inferior e lhe deixou paralisado o lado direito do rosto. Esse foi um defeito que se tornou pior ao longo dos anos, porque se agravou depois de duas cirurgias. Na escola, a crueldade das outras crianças o apelidou de “Queixinho”. Isso ocorreu até o dia em que descobriu o bandolim: “A menina do lado cravava em mim uns olhos rasgados de assombro. Então eu me sentia completamente importante. Ao bandolim confiava, sem reservas, os meus desencantos e sonhos de garoto que começava a espiar a vida”. Naturalmente, o escudo do bandolim, e do violão depois, era pouco. Quando o queriam elevar, além do plano puramente físico, diziam que apesar de feio, baixinho e magro, a sua inteligência e sambas conquistavam mulheres. Se alguma vez ouviu semelhante elevação, Noel deve ter sorrido com amargura. Porque

Dama do cabaré

Foi num cabaré da Lapa, que eu conheci você

Fumando cigarro, entornando champanha no seu soirée

Dançamos um samba, trocamos um tango por uma palestra

Só saímos de lá meia hora depois de descer a orquestra.

 

Em frente à porta um bom carro nos esperava

Mas você se despediu e foi pra casa a pé

No outro dia lá nos Arcos eu andava

À procura da dama do cabaré

 

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia

A carta que recebi, não me lembro de quem

Você nela me dizia que quem é da boemia

Usa e abusa de diplomacia, mas não gosta de ninguém.

O compositor carioca Noel Rosa (1910-1937) 

 

Pois sim. Em outra elevação se diz que Noel transformava a sua vida em samba. Coisa que consola. Nós, como todo filisteu, como todo bom pequeno-burguês, adoramos um artista sofrido, machucado, que cante para nós a sua dor. (Em sua biografia, há uma foto de mulher, há uma foto de uma feiticeira, há uma foto da Dama do Cabaré que deve ter tantalizado Noel. Imaginamos o que ela escreveu no verso da própria imagem, se alguma vez deixou para Noel alguma foto: “Como prova de amizade, Ceci”. De amizade... Amizade para quem ama ) Então se diz que ele transformava a vida em samba, mas se esquece que nos intervalos da arte Noel evitava comer, simples comer à mesa, na frente dos admiradores. O queixo danificado mortificava-o, o seu mastigar era um espetáculo de animal de zoo. E por isso nas noites em claro, de brutas farras, alimentava-se apenas de caldos, de comidas leves, e comia mais cigarros, muitos e muitos cigarros, que deviam torná-lo um homem, acreditava-se então, de aparência bonita. Ele, que já havia sido chamado, num duelo de sambas, de O Frankestein da Vila. Mas com um cigarro permanentemente nos lábios até um monstro se recompunha, naqueles idos mal vividos. Acreditava-se. Não riam, porque dessa dieta alimentar, estilo de vida e hábito sobrevieram ao nobre artista: febre, hemoptise, pulmões podres. Um gênio arrebentado em plena criação e juventude. Que se foi, aos 26 anos, em 4 de maio de 1937.

Meio trágico, não? Pois sim, esse mesmo Noel que foi chamado de Frankestein pelo sambista Wilson Batista num momento de raiva (e como são sinceros esses momentos de raiva!), esse mesmo Noel tuberculoso, raquítico, é o homem que diz em uma entrevista à revista O Cruzeiro, ao lhe ser perguntado que relação existiria entre o amor e a música:

“Romeu e Julieta morreram ignorando essa relação. Acho, porém, que a relação seja a mesma que existe entre a casca de banana e o tombo, num escorregão”.

É esse homem que tosse e escarra sangue o mesmo humorista que numa madrugada, ao nascer o dia, é reconhecido por amigos músicos que voltavam de automóvel, de uma festa. Conta-se que seu perfil, em um poste à espera do bonde, se destacava pela negação: terno branco à procura de um corpo, rosto que descia à procura de um queixo. Então os amigos param o carro e mandam-no embarcar. Ele entra e vai pedindo:

- Me sirvam um conhaque.

- Por que isso, Noel?

- Por quê?! Eu estava esperando um bar, quando vocês passaram.

 

Ele é o mesmo homem que à sua magreza de doente assim se referiu:

Tarzan, o filho do alfaiate

Quem foi que disse que eu era forte?

Nunca pratiquei esporte

Nem conheço futebol

O meu parceiro sempre foi o travesseiro

E eu passo o ano inteiro

Sem ver um raio de sol

A minha força bruta reside

Em um clássico cabide

Já cansado de sofrer

Minha armadura é de casimira dura

Que me dá musculatura

Mas que pesa e faz doer

 

Eu poso pros fotógrafos

E distribuo autógrafos

A todas as pequenas lá da praia de manhã

Um argentino disse

Me vendo em Copacabana

No hay fuerza sobre-humana

Que detenga este Tarzan!

 

De lutas não entendo abacate

Pois o meu grande alfaiate

Não faz roupa pra brigar

Sou incapaz de machucar uma formiga

Não há homem que consiga

Nos meus músculos pegar

Cheguei até a ser contratado

Pra subir em um tablado

Pra vencer um campeão

Mas a empresa pra evitar assassinato

Rasgou logo o meu contrato

Quando me viu sem roupão.

No entanto, se tentamos apanhar Noel a partir da maioria de suas letras, que diríamos, sem erro, quase sublimes, no limite da oração, da queixa de um homem a Deus,

Último desejo

Nosso amor que eu não esqueço

E que teve o seu começo

Numa festa de São João

Morre hoje sem foguete

Sem retrato e sem bilhete

Sem luar, sem violão

Perto de você me calo

Tudo penso e nada falo

Tenho medo de chorar

Nunca mais quero o seu beijo

Mas meu último desejo

Você não pode negar

 

Se alguma pessoa amiga

Pedir que você lhe diga

Se você me quer ou não,

Diga que você me adora

Que você lamenta e chora

A nossa separação.

Às pessoas que eu detesto

Diga sempre que eu não presto

Que meu lar é o botequim

Que eu arruinei sua vida

Que eu não mereço a comida

Que você pagou pra mim

Diante de uma letra assim, diante de uma melodia que não podemos expressar em palavras de prosa, diante da expressão de tal sentimento, sempre novo, tão vivo e primordial que nos faz penetrar um cheiro de sal e mar pelo nariz, diríamos, que dor, que felicidade trágica na expressão! A impressão que Noel nos deixa, em seus versos mais cruéis, é que ele compõe epitáfios. Mas ele não compõe como um indivíduo póstumo. Devíamos dizer com mais precisão que ele pinta e canta enternecedores testamentos. O dicionário dirá que testamento é um “ato personalíssimo, unilateral, gratuito, solene e revogável, pelo qual alguém, com observância da lei, dispõe de seu patrimônio, total ou parcialmente, para depois de sua morte”. Ora, unilaterais, solenes e limitados por vezes são os dicionários! Último Desejo é uma expressão de última vontade bem ambígua. Para as pessoas amigas, a mulher deverá dizer que o adora, e lamenta e chora a separação. Mas para os inimigos ela deverá dizer que o seu lar foi um botequim, que ele arruinou a sua vida, e que é indigno do pão que ela pagou para ele. E cabem aqui duas observações. A primeira delas é que na canção o patrimônio do poeta se faz em torno de coisas, como diríamos, intangíveis: bares que jamais possuiu, álcool bebido e sumido, amor que se foi, se alguma vez houve. Visto de um modo mais geral, as letras de Noel sempre exibem uma miséria material que não atinge o seu espírito. A miséria de bens tangíveis, materiais, não atinge a miséria humana. A outra observação fala da ambiguidade dos seus rompimentos amorosos. Ações típicas de quem rompe pelo afastamento físico, mas não rompe no sentimento:

Jurei não mais amar

Pela décima vez

Jurei não perdoar

O que ela me fez...

E nesta altura acrescentamos, ou melhor, o gênio de Noel acrescenta um precioso dado: em uma linha de um verso ele exprime uma vivência, uma observação fina. Por exemplo, quando ele compõe em Dama do Cabaré o verso “Você nela me dizia que quem é da boemia”, ele nos diz, para todos que já passamos noites e mais noites a beber: a gente dessas noitadas, pelo estilo de vida ou por vício, é leviana, dispersa, mentirosa, tão egoísta por fim quanto animais mimados, e por isto, “não gosta de ninguém”. Ele é capaz de em linhas de versos impor uma reflexão que causa espanto aos preconceitos que acham alturas somente na tradição acadêmica, nas glórias institucionalizadas. Em dúvida?

“O costume é a força

Que fala mais alto

Do que a natureza”

Ou

“Quem acha vive se perdendo” ou

“Não posso mudar minha massa de sangue”, para dizer que é suburbano, do lado marginalizado, por vocação, gosto, alma e destino.

Não tenho exata certeza se a partir de Noel, mas com certeza ele é um dos responsáveis pelo destaque, pela individualização da letra na canção do Brasil. Com ele ganha corpo autônomo uma letra que só existia tão só e somente na música. Aquele fenômeno destacado por Hesse num conto, quando observa: “Era surpreendente constatar como um verso cantado soava completamente distinto do lido ou recitado. Na leitura, um verso era um todo, tinha um sentido, constava de frases. No canto constava só de palavras, não havia frases, não havia sentido; mas em troca as palavras soltas cantadas, arrastadas, adquiriam uma estranha vida independente, às vezes eram até sílabas, em si totalmente carentes de sentido, que se tornavam independentes no canto e ganhavam uma imagem”. Se isso é verdade na canção em geral, e mais particularmente no canto religioso, em Noel ganha outro sentido. A sua letra é capaz de nos elevar a um sentimento de beleza, mesmo que não conheçamos a sua melodia. Os estrangeiros, os não-brasileiros, que não têm a felicidade de conhecer a música de Noel, poderão com mais justiça dizer se há razão no que digo. Leiam isto:

Três apitos

Quando o apito

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos

Eu me lembro de você.

Mas você anda

Sem dúvida bem zangada

Ou está interessada

Em fingir que não me vê

 

Você que atende ao apito

De uma chaminé de barro

Por que não atende ao grito tão aflito

Da buzina do meu carro?

 

Você no inverno

Sem meias vai pro trabalho

Não faz fé com agasalho

Nem no frio você crê

Mas você é mesmo

Artigo que não se imita

Quando a fábrica apita

Faz reclame de você

 

Nos meus olhos você lê

Como sofro cruelmente

Com ciúmes do gerente impertinente

Que dá ordens a você

 

Sou do sereno

Poeta muito soturno

Vou virar guarda-noturno

E você sabe por quê.

Mas você não sabe

Que enquanto você faz pano

Faço junto do piano

Estes versos pra você.

Será que foi possível sentir, somente com a letra, somente no silêncio, o perfume dessa delicada flor? No romance Os Corações Futuristas essa composição fala: “Cai um silêncio, a agulha fica raspando. Até o ponto em que Canhoto se levanta e põe Três Apitos, de Noel. Isso dói no peito e faz aumentar a sede. O uísque jorra, parece. Os copos com gelo ficam a meio, com aquele uísque safado, estragado, distribuído com uma fraternidade que a comunhão da santa hóstia da santa missa jamais conseguiu. Bebem, calados, amando a vida amarga e ruim. ‘Com ciúmes do gerente impertinente que dá ordens a você’ ...”.

O X do problema em Noel é que ele é um compositor popular com um pensamento, uma reflexão, que passa por cima de toda folclorização, de todo exotismo. Ele responde insofismável à superioridade com que a gente culta, educada, trata os estranhos a seu meio. E não se diga por favor que Noel é um homem educado porque estudou Medicina, como se esse curso desse educação estética e humana a alguém. Não se fale tal bobagem, ainda que se aceite essa ilusão, porque Noel apenas começou Medicina, uma quase humanidade de anatomia. Nem se diga que ele viveu e transitou em meios mais sofisticados: se por esses ambientes passou, ele gostava mais e era querido nos ambientes marginalizados, dos malandros, e da negrada. (Há um depoimento de Dona Zica, de Cartola, sobre isso, da sua amizade e porres com Cartola, acordando no morro.) Talvez com mais propriedade se diga que tendo todos os motivos para escrever os versos mais tristes, e tão-somente estes, ele não só os escreveu, como da tristeza e desgraça zombou. Ele, à sua maneira, bem fez o que recomendava Sartre: “Na vida importa mais o que fazemos do que nos fazem”.

Com Noel, o X do problema, que se não o resolve, pelo menos o escreve, é que ele é um artista de excepcional talento, diria, até, e nos perdoem o capricho livresco: Noel é um artista total, aquele artista que todos sonhamos, ou deliramos em noites de febre e loucura, algum dia numa felicidade ou maldição ser. Ele é trágico, satírico, lírico, humano, cômico, alto, verdadeiro.

No dia 5 de maio de 1937, um jornal do Rio pôs em manchete: “A morte prematura de Noel Rosa”. Hoje percebemos melhor que o mais prematuro da morte, aos 26 anos de idade, foi a sua vida entre os brasileiros. Pior: o Brasil, nesta descida de ladeira que se aprofunda, não sabe o que fazer diante da  humanidade de Noel. O seu patrimônio imaterial, que não havia sido sequer assimilado, recebe um perseguidor da cultura na presidência da república. Menos mal que depois  de 109 anos ele receba homenagem do google. O que não deixa de ter lá sua ironia. Tudo que é virtual é de Noel Rosa.

 

19
Dez21

CENAS DO RECIFE ANTIGO

Talis Andrade

Por Talis AndradeCícero Dias - Moças na Janela – Serigrafia

 

Na Cidade Antiga o recifense

sentava na calçada

para ver o tempo passar

puxava uma cadeira

para uma confidência

parava um conhecido

para uma conversa amiga

 

Todos se davam as mãos

nas cirandas e passeatas

Os amantes cantavam nas ruas

românticas serenatas

O povo possuía a doçura no coração

como se todos fossem irmãos

2

Porque se cultivava a amizade

permanecia aberta

a porta das casas

- terno convite

para o fraterno

sagrado abrigo

 

Havia o quarto de hóspede

- a cama forrada

com colcha de rendas

Para festivos ágapes

brilhavam louças pratarias

brilhavam os olhos das meninas

que o mundo está nos olhos

 

Aceso o fogão de carvão aceso

o coração da casa

da cozinha emanavam

as conversas

as cantorias das pretas-velhas

mucamas sinhazinhas

o cheiro gostoso

de maravilhosas iguarias

 

Era tudo do bom

do melhor

Serviam compotas

e suculentos sucos

de saborosas frutas

fatias de macios bolos

a água friinha

dormida no pote

O café quentinho

coado na hora

biscoitos de manteiga

derretendo na boca

 

3

Os convivas conversavam nas varandas

as crianças corriam pelos jardins floridos

os namorados fugiam pelos terraços abertos

buscando escuros esconderijos nos quintais

 

Havia o médico da família e o padre confessor

os padrinhos de formatura e casamento

os compadres de batismo crisma e fogueira

Havia os vizinhos os amigos dos vizinhos

Ninguém vivia sozinho

todos tinham nomes

emprego e moradia

No Recife antigamente

compartilhava-se a dor

e o pão de cada dia

 

- - -

Talis Andrade. O Sonhador Adormecido. Livro Rápido. Recife, 2004

Ilustração Cícero Dias /Moças na janela /Serigrafia

19
Dez21

De Flaira Ferro

Talis Andrade

 

Me Curar de Mim

Sou a maldade em crise
Tendo que reconhecer
As fraquezas de um lado
Que nem todo mundo vê

Fiz em mim uma faxina e
Encontrei no meu umbigo
O meu próprio inimigo
Que adoece na rotina

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim

O ser humano é esquisito
Armadilha de si mesmo
Fala de amor bonito
E aponta o erro alheio

Vim ao mundo em um só corpo
Esse de um metro e sessenta
Devo a ele estar atenta
Não posso mudar o outro

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim

Vou pequena e pianinho
Fazer minhas orações
Eu me rendo da vaidade
Que destrói as relações

Pra me encher do que importa
Preciso me esvaziar
Minhas feras encarar
Me reconhecer hipócrita

Sou má, sou mentirosa
Vaidosa e invejosa
Sou mesquinha, grão de areia
Boba e preconceituosa

Sou carente, amostrada
Dou sorrisos, sou corrupta
Malandra, fofoqueira
Moralista, interesseira

E dói, dói, dói me expor assim
Dói, dói, dói, despir-se assim

Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim?

Se é que essa cura há de existir
Não sei. Só sei que a busco em mim
Só sei que a busco
Me curar de mim

 

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