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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Mai21

A CPI da Poesia: os poetas mortos

Talis Andrade

 

por José Ribamar Bessa Freirea /Taqui Pra Ti

“Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia”
 (Mário Quintana)

Quem está tentando matar a poesia no Brasil? Para identificar os autores de tais ações foi criada na Câmara de Deputados a CPI da Poesia, que tem o poder de convocar até os mortos. No entanto, como seu foco abrange narrativas literárias e outras formas de expressão artística, indo além do ato poético em si, talvez devesse se chamar a CPI da Poética. De qualquer forma, sua presidente, a deputada federal Joênia Wapixana (Rede/RR), intimou várias testemunhas, advertindo que os mentirosos podiam sair dali presos.

O primeiro depoente vivo foi o cartunista e poeta Ziraldo, 88 anos, criador na época da ditadura militar de uma cor denominada Flicts, que servia de vacina contra a tristeza e a depressão e era o encanto das crianças. Ele fez um histórico da quadrilha poeticida cujo comandante, nascido em 1955 em Glicério (SP), odiava versos, uivava e latia cada vez que via um poeta vivo. O seu lema era “Ódio a Ode”. Perseguia ferozmente o Flicts, ameaçando-o com uma “arminha”, quando então exibia cor e esgar estranhos. Por isso, foi apelidado de Grrrr-au-au.    

Convocado do céu, onde reside há quase dois anos, o cantor João Gilberto, inventor da bossa nova e celebrado no mundo inteiro, confirmou à CPI que Grrrr-au-au abominava aquilo que ignorava. O comandante da quadrilha nunca havia ouvido uma música sua, não decretou luto oficial por sua morte, limitando-se a comentar: “Parece que era uma pessoa conhecida”. Citou Caetano Veloso que na ocasião se manifestou chocado com o tom de desprezo e a ignorância de Grrrr-au-au. No final, o depoente indagou à presidente se podia cantar “Chega de Saudade”.

–  Não. Quem tem que cantar aqui é o MC Reaça – interrompeu aos berros o Pit Bull Rachadinha, que nem era membro da CPI, mas sugeriu que fosse convocado do inferno, onde reside, o autor do Proibidão do Grrrr-au-au para quem “as feministas merecem ração na tigela e minas de esquerda tem mais pelo que cadela”. Instaurou-se uma balbúrdia e a sessão foi suspensa. 

O idiota e os bocós

Os trabalhos foram retomados com o depoimento de um vizinho de João Gilberto no céu. Era o poeta e cronista Aldir Blanc, vascaíno doente, coautor de A Cruz do Bacalhau, morto em decorrência do Covid-19, sem que houvesse qualquer manifestação da então fugaz secretária de cultura Regina Duarte, emudecida também diante das mortes do escritor Rubem Fonseca, do cantor Moraes Moreira, do ator Flavio Migliaccio e do teatrólogo Jesus Chediak.

Aldir, autor de Mestre Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, chutou o pau-da-barraca ao traçar o perfil do chefe da quadrilha com aquele estilo que desenvolveu em sua coluna nos semanários O Pasquim Bundas:

– Grrrr-au-au nunca leu um único soneto em sua vida e queixou-se dos livros “que têm excesso de palavras”. Taxou as publicações com impostos altos, mas eliminou a tributação para a compra de armas. Quando se apropriou da cor verde-amarela foi para enganar os incautos e trouxas e, dessa forma, disfarçar a sua baba gosmenta, o seu olhar alucinado de cachorro doido, como no poema de Zeca Baleiro. Declarou guerra à literatura, alegando que o Brasil tem que deixar de ser um país de maricas. Destilou preconceitos homofóbicos ao afirmar que quem gosta de poesia é gayzinho. Chamou de idiotas as pessoas que em razão da pandemia até hoje ficam em casa escutando música e lendo poemas.

Em seguida, a CPI quis ouvir o poeta Manoel de Barros, vindo do Pantanal do Olimpo, a toca de Zeus. O relator Mário Juruna indagou se a poesia merecia ser exterminada como pregava o Imbrochável Grrrr-au-au e se era mesmo diversão de “idiotas”.

– Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas.  Bocó é aquele homem que fala com as árvores e com as águas como se namorasse com elas – respondeu o poeta. 

– Mas afinal, o que é poesia? – perguntou o relator.

– Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia. Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando. Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. A linguagem da poesia força a realidade a se manifestar, escava suas profundezas e traz à tona as situações fundamentais da condição humana, como queria Alfred Doblin. Por isso ela é odiada pelo Grrrr-au-au.

O outro capitão 

O último a depor nesta primeira etapa da CPI foi o ator estadunidense Robin Williams, que reside hoje no andar de cima, mas viveu na tela o papel do professor de literatura no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Ele declarou que rompeu com o autoritarismo do colégio tradicional, uma espécie de “escola sem partido”, combatendo seu caráter castrador e repressivo. Seu depoimento forneceu elementos para a CPI dimensionar a poesia:

– Nós não lemos e escrevemos poesia porque é algo bonitinho, mas porque somos membros da raça humana, existe um poeta dentro de cada um de nós – ele disse.

Confessou ainda que orientou seus alunos a escreverem poemas, lidos em um clube secreto que funcionava numa caverna perto da escola. Lá, escondidos da repressão, promoviam saraus de poesia. O diretor, que estudou na mesma cartilha de Donald Trump, demitiu o professor e mandou-o recolher seus pertences na sala de aula. Ali, ele recebe uma homenagem dos estudantes, que sobem nas carteiras da sala seguindo a lição de rebeldia contra a autoridade burra, saudando-o e reconhecendo sua liderança: “Captain, my captain”. Esse era o “outro capitão”, o capitão inteligente.

– É simples assim – disse o professor aos membros da CPI. Um manda e os outros desobedecem. Ordens que atentam contra a espécie humana não devem ser cumpridas.

A CPI da Poesia vai ouvir ainda inúmeros poetas e músicos: Drummond, Manuel Bandeira, João Cabral, Castro Alves, Luiz Gonzaga, Pixinguinha, Clementina de Jesus, Patativa do Assaré, Cecília Meirelles, Adélia Prado. Cora Coralina, os poemas eróticos de Hilda Hilst e tantos outros.  Drummond vai dizer por que perguntou em A Flor e a Náusea: “Crimes da terra, como perdoá-los?” e explicar se existe ódio sadio expresso nos versos: “Meu ódio é o melhor de mim, com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima”. Qual a diferença deste para o ódio do Grrrr-au-au?

Serão convocados poetas amazonenses, entre eles Thiago de Mello para saber se continua cantando no escuro, além de Luiz Bacellar, Elson Farias, Aldizio Filgueiras, Dori Carvalho, Luiz Pucu, que devem se pronunciar sobre as ameaças à Zona Franca feita por Grrrr-au-au com o objetivo de impedir que a CPI da Poesia identifique os autores do poeticidio.

Por último, a CPI ouvirá poetas indígenas, entre eles Eliane Potiguara, Graça Graúna, Zélia Puri, Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Dauá Puri, Ademário Payayá, Cristino Wapixana, Tapixi Guajajara e Daniel Munduruku que acaba de se apresentar para uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL). Eles dirão se o poema abaixo de Miguel Panemaxeron Surui está mesmo anunciando o fim dos latidos de Grrrr-au-au e do pesadelo vivido pelo Brasil.

Passam os anos, passa a vida
Passa o tempo, passam as coisas,
Passam perto de mim as pessoas,
Passa dentro de mim o amor.
Por que isso comigo se passa,
Se já nem sei mais quem sou?

P.S. 1 – O ódio de Grrrr-au-au aumentaria se soubesse que no sábado (22) foram lançados dois novos livros. De manhã Pequenas conquistas perdidas com 45 crônicas do poeta Dori Carvalho. E logo onde? Nada menos que no Amazonas, que ele sonha deixar sem uma árvore em pé. E à tardinha, no Rio, o romance Morte Certa de Dau Bastos, professor de literatura na UFRJ.

P.S. 2 – Este texto se inspirou numa conversa telefônica com meu amigo Guillermo David, diretor nacional de Coordenação Cultural da Biblioteca Nacional da Argentina. Ele está relendo Guimarães Rosa e eu revisitando Julio Cortazar. “Os que amam a literatura estão salvos porque têm onde se refugiar nesses tempos sombrios” – ele disse. Daí a ideia de que a poesia é uma vacina de esperança. 

25
Mar21

A ÚLTIMA CEIA

Talis Andrade

www.acf-versailles.catholique.fr - exposition d'icônes coptes | Arte  católica, Arte de cristã, Imagens de jesus

 

por Talis Andrade

Jesus estará em agonia
até o fim do mundo
Blaise Pascal

Por que a avareza
de negar proteção
à pobre criança
de mão estendida

A discriminação
a recusa de sentar
em uma mesma mesa
e repartir o pão
com o irmão

Lembra a Última Ceia
Jesus depôs as vestes
cingiu-se com uma toalha
Ajoelhado como um servo
lavou os pés dos apóstolos
Lavou os pés de João o mais amado
e os de Judas Iscariotes

Lembra a Última Ceia
Jesus dançou com os discípulos
Todos de mãos dadas
formando um círculo
Jesus cantou
– Reconhece o que faço
Tua a paixão dos homens
a paixão que sofrerei

Jesus dançou e cantou
Depois caminhou
para o abandono
da suprema angústia
no Jardim de Getsêmani

25
Mar21

Escrever: a resistência necessária

Talis Andrade

Claudius Cecon jornalismo sonhos.jpg

 

 

Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, este ar que entra por ela. Por isto é que os poemas têm ritmo, para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.” 

Mário Quintana

Escrever é um ato de resistência. Quando as nuvens se tornam mais densas a ponto de sufocar e fazer o ar rarefeito. Quando um certo torpor turva a capacidade de raciocínio. Quando a cegueira deliberada deixa difusa a visão, e a capacidade de ação parece manietada. Quando a angústia parece ser sua eterna companheira. Nesse caos, nesse túnel sem luz, aparece um convite para escrever.  Como que a dizer: respire, tire a venda, ouse e sonhe, você não está só.

Os assuntos se embaralham neste momento de perplexidade. Ninguém pode escrever sobre mais nada enquanto quase 300 mil mortos ainda permanecem insepultos nas nossas memórias. Em um momento em que nem mesmo a nossa tradição – o nosso rito de passagem nas mortes – pode ser preservada. Nessa quadra trágica na qual a falta do abraço é substituída pelo olhar, mas que, no momento da despedida final, não temos sequer o olhar familiar que nos acaricia. Nem o abraço, nem o olhar. Só a solidão como companheira ou o olhar cansado, mas solidário, de um profissional de saúde. Esse herói anônimo.

A dor é a companheira da indignação. Sabemos todos que a irresponsabilidade genocida do governo, que virou as costas para a ciência, que desprezou a vacina, que se vale da necropolítica, com a falta de empatia, que cultua a morte, faz do Brasil de hoje o país responsável por 1/4 de todas as mortes de COVID-19 do mundo. Mas é necessário enfrentar, ainda que com a resistência literária.

Não vamos permitir que nos intimidem com a perversa ignorância física, com o boçal desconhecimento dos limites básicos da ética, do bom senso e até do humor. Os fascistas são bárbaros que não têm capacidade de compreender a ironia e que detestam poesia. Têm uma espécie de culpa enrustida de tudo, mesmo do que não sabem. Por isso, apelam para as armas, para a violência, para as ameaças. São covardes e canalhas.

É necessário saber enfrentar com resiliência as provocações diárias das tentativas de quebra da estabilidade institucional. Sem medo e com destemor. Sem escrúpulos, os idiotas fazem subleituras da aplicação do entulho autoritário que é a Lei de Segurança Nacional. Confundem, deliberadamente, a imprescindível liberdade de expressão, base de todo sistema democrático, com a orquestração financiada por grupos de extrema-direita que visa desestabilizar as instituições. Na exata diferença entre o respeito ao sagrado direito de opinião, base do sistema democrático, e o abuso e o arbítrio disfarçados de respeito para subverter a democracia é que reside a maturidade de um regime e de um povo. Cabe a nós prestigiar um e denunciar, enfrentar o outro.

Vamos fazer nosso ato de resistência acreditando na ciência, na vida, na solidariedade e na poesia. Vamos nos refugiar em Fernando Pessoa na pessoa de Caeiro:

“Sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras… sinto/me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo.”

 

17
Mar21

AMANHÃ É OUTRO DIA

Talis Andrade

por Talis Andrade

 

Dança macabra – Wikipédia, a enciclopédia livre

 

Do jornalista
o trabalho cotidiano
da colheita
De tarde a notícia
De noite o trevo

O jornalista vive
como em tempo de peste
Beber divertir-se
na dança macabra
da madrugada
a dança de São Vito
É tudo aqui-e-agora
que no meio da vida
seremos surpreendidos
pela morte

O jornalista vive
o presente finito
Tudo que escreve
tem a louvação
de um dia

O jornalista vive
o instante
a emoção
do amor
de uma noite

O jornalista vive
o pressentimento
Amanhã pode ser dia de desemprego
Amanhã pode ser dia de enterro

 
05
Fev21

Cinco poemas para lembrar Maria Lúcia Alvim

Talis Andrade

A poeta Maria Lúcia Alvim, em imagem do seu último livro, 'Batendo passo'.

A poeta Maria Lúcia Alvim, em imagem do seu último livro, 'Batendo passo'. SEBASTIÃO ROCHA REIS 
 
 

Poeta mineira, que lançou livros de inéditos em 2020 após hiato de 40 anos, morreu de covid-19 aos 88 anos

 

A poeta mineira Maria Lúcia Alvim morreu nesta quarta-feira por complicações da covid-19 em Juiz de Fora, Minas Gerais. A autora tinha 88 anos e lançou, no ano passado, um livro de poemas inéditos após quatro décadas de hiato. Batendo Pasto (Relicário, 2020) foi planejado por Maria Lúcia Alvim como uma obra póstuma, mas Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Domeneck a convenceram a publicá-lo. Mineira de Araxá (1932), a poeta é irmã de outros dois nomes da poesia contemporânea e brasileira Francisco Alvim e Maria Ângela Alvim. “Estou adorando que os jovens se aproximem de mim e de minhas coisas. Quero que cheguem cada vez mais perto, a um palmo de distância de mim, para a gente poder se entender um pouquinho”, disse ela em entrevista à Tribuna de Minas sobre o lançamento do novo livro. “Estou adorando. Depois que você fica velho, fica se odiando. É horrível.” A seguir, Lígia Gonçalves Diniz, professora de literatura na UFMG e autora de Imaginação com presença: o corpo e seus afetos na experiência literária (UFPR, 2020), indica 5 poemas para lembrar a autora. In El País

XIV

Quisera tanto que durasse

qualquer desejo em qualquer dia

que mesmo sendo em demasia

eu deles nunca me fartasse;

assim enquanto não houvesse

nada mais que vos sugerisse

então que a vida ressurgisse

e só desejos refizesse;

porque deixei vossa verdade

ó coisas já feitas de espera

quando sempre tudo soubera

tão cheio de realidade;

pois bem sei que ando consumida

mas por desejos que são vida.

(De XX Sonetos, 1959)

 

CARTÃO POSTAL

Repente de tarde. Plana. Ceifada.

Âncoras amortecem o peso e se liquefazem.

Apagam-se ruivos outeiros.

 

Dois namorados olham o mar.

 

Um pássaro de insólito voo

roçou-lhes o ombro.

— Seremos assim potentes?

E subitamente puseram-se

a ferir-se a ferir-se

a ferir-se

(De Coração incólume, 1968)

 

MÁGICO DESAFIO

Um filho não deveria

ser feito

para cumprir mandamentos, para

povoar

a solidária solidão de pares amorosos, improvisados e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido

seria para

provar apenas isto: 

a matéria ou

mistério

ou vida

desafiando o pensamento.

(De Pose, 1968)

 

AQUAVIA

Como a fonte que jorra, ambivalente,

marejados de sono, navegamos —

que esse rio de amor e de abandono

seja leito comum para quem morre.

Impelidos à margem da corrente

sacudimos a tarja temporária -

e a alma se evapora: tarlatana

sobre a nossa nudez contraditória.

Na umidade do riso, no desejo

impreciso e profuso, pelo pranto

que no calor das órbitas poreja,

Ah, transidos de frio, patinamos

entre quiosques, domos e coretos

sem nada surpreender ou consumar.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

 

(SEM TÍTULO)

Manhã sem rusga

pequeno depósito de agrura na poça

exorbitei de alegria

a abóbada celeste não dá vazão

silos de silêncio

ó ser astral

o capim é minha grande reserva interior

a esperança

desleixo

(De Batendo pasto, 2020)

 

12
Jan21

ESQUIFE ENCARNADO

Talis Andrade

por Talis Andrade

1

Que cavaleiro reerguerá a bandeira
posto à prova nas batalhas
como apreendido o amor
no ventre ardente
a fornalha
em que se malha
o frio aço
da lâmina flamejante

Desde criança o vaticínio
trovejado pela espumante boca
do profeta
Montado em um cavalo branco
os pés nos estribos
na mão esquerda a bandeira
na mão direita a espada
para degolar os exércitos mercenários
os vendedores do Templo
os moedeiros falsos

Desde criança o sonho
vencer o ídolo de ouro
e o seu séqüito
O enlouquecido sonho
de mudar o mundo

2

Veio o demônio a morte
e tomou a espada
Os livros não ensinam
a espada
tem que ser fincada na pedra do sonho
de onde manarão fontes
cantantes símbolos do Verbo

Veio o demônio a morte
e tomou a bandeira
Os livros não ensinam
uma bandeira apenas um fetiche
de pano e haste
A bandeira tecida
para tremular ao vento
poderia ser pisoteada
pelas hostes inimigas

A bandeira da cor de papoula
cobre o caixão
A bandeira agitada nos estádios
saudada nas passarelas do samba
reverenciada nos terreiros de macumba e capoeira
a bandeira benzida nas procissões
a ensangüentada bandeira das passeatas e comícios
cobre o caixão

3

A vida poderia ter sido feita
de cousas rotineiras

O amor da namorada
no vestido encarnado
de mestra do pastoril
a cantar a vinda do Menino Jesus
que veio ao mundo
para nos salvar

O cuidado dos pais
que iam à missa
todos os domingos
as roupas engomadas
as consciências leves
dos pecados lavados
no confessionário

O romantismo dos camaradas
nas barricadas levantadas no ar
contra os daltônicos escribas da corte
O romantismo dos camaradas
nas barricadas cavadas no asfalto
contra os salários de fome

O dinheiro contado
da lista corrida
entre os companheiros
o dinheiro repartido
para comprar leite e pão
o dinheiro arrecadado para encomendar
as seis tábuas de um caixão
A vida teria sentido
o povo marchasse unido
para expulsar as quatro bestas espreitando
nas quatro esquinas do medo
a ganância do patronato
a covardia dos fura-greves
a brutalidade da polícia
a conivência da justiça
quatro bestas espreitando
coas presas sujas de sangue

4

Benfazeja realidade benfazeja
para quem vê os próprios interesses
E de crime em crime vai juntando
o precioso dinheiro
– o dinheiro indivisível e invisível
o dinheiro que não tem cor
o dinheiro que não tem cheiro
apenas o número secreto do dono

O povo coisa sem importância
As pistas dos latrocínios e pilhagens
desaparecem na lavagem do sangue dos inocentes
os cadáveres sob o peso do cimento
e do aço das obras públicas inacabadas
A lavagem do dinheiro nos bancos
clandestino batismo
dos adoradores do bezerro de ouro

5

Diante da glória passageira
o atordoante desespero
de não reconhecer as vermelhas nuances

Vermelhas a insígnia de fogo nos sambitos dos afogueados
a insígnia de seda dos filhos do Coração Sangrante de Jesus
a cruz da Ordem dos Templários
a cruz gamada dos soldados de Hitler
a bandeira dos operários de Lenine
a bandeira dos piratas
com a ampulheta a caveira e a espada

Vermelho o lenço amarrado
no pescoço dos revolucionários de Trinta
Vermelho o pedaço de pano
o sinal abominável
os leprosos carregavam
pendurado nas vestes brancas
Vermelho o laço de fita
no alto da cabeça da menina
para quem o poeta recitou
rimados versos de amor
em noites de serenatas 

Como espanta
o controverso oportunismo
todos quererem uma bandeira
quando sequer entendem
o que seja vermelho


In livro Esquife Encarnado. A Tribuna, Recife, 1957.
Este é o poema título do livro Esquife Encarnado.
Livro publicado em parceria com Djalma Tavares, e premiado em Goa, em um Festival de Poesia Internacional.
Djalma, além de excelente poeta, era pintor. Capa e ilustrações do livro são de Djalma Tavares. De uma família de poetas. Irmão de Odorico e Cláudio Tavares, primo de Deolindo Tavares, e tio de Gladstone Bello e Carlos Pena Filho.

03
Dez20

De Edu Miranda

Talis Andrade

DAVID DEPIRO MINHA CARA

 

Encontro de palavras

 

O poema

escorreu pelos dedos

 

nem líquido

nem nada

 

apenas um segredo

 

de não aprisionar

palavras

 

- - - 

E no branco das paredes

                      um descanso

                      de tudo

 

                     O que deixou

                     de ser

 

- - -

Ilustração David D'epiro

04
Nov20

Poesia André Merez

Talis Andrade

 

 

Valsinha pra elas
 
Elas
varriam as praças,
invadiam as casas,
subiam as escadas
e dançavam nos telhados
entre os ares e os olhares
de reprovação da cidade.
 
E se acabavam juntas,
juntando as folhas e as pétalas secas,
faziam mandalas que o vento varria,
faziam canções, marchinhas e xotes.
 
Dançavam felizes, amavam-se aos montes,
beijavam-se nuas e deitavam-se lânguidas.
 
E eram únicas,
e eram todas,
mas eram sós,
não eram nada.
 
E os muitos, apaixonados,
as odiavam por adorá-las,
e as desprezavam por desejá-las,
com tanta força que mal sabiam,
queriam sê-las,
queriam tê-las,
queriam muito,
suas cabeças
e os seus corpos,
as suas existências,
seu ser e
seus seres.
 
 

Declaração
 
Amo mulheres
que se amam,
 
mulheres amadas,
fêmeas fecundas não fecundadas
e outras mais que levam no ventre
 
futuros de outras
mulheres amadas
 
que se derramam pela madrugada
e dão à luz suas virtudes roubadas
 
amo-as irrestrito
suave e em delito
par
em
par
a todas e a cada.
 
 
 
04
Nov20

Poesia Conceição Evaristo

Talis Andrade

Conceição evaristo.jpg

 

 

Só de sol a minha casa
 
A Adélia Prado, com licença, que também sou mineira
 
Durante muito tempo,
também tive um sol
a inundar a nossa casa inteira,
tal a pequenez do cômodo.
 
Pelas fendas do machucado zinco,
folhas escaldantes de nosso teto,
invasivos raios confrontavam
pontos de mil quentura.
E Jorrantes jatos de fogo
Abrasavam o vazio
de um estorricado chão .
 
Em dias de maior ardência,
minha mãe alquebrava
seu milenar e profundo cansaço
no recorte disforme
de um buraco - janela sem janela –
acontecido no centro de uma frágil parede.
(rota de fuga de uma presa a inventar a extensão de um prado)
 
Eu não sei por que, ela olhava o tempo
e nos chamava para perscrutar
em que lugar morava a esperança.
Olhávamos.
Salvou-nos a obediência.
 
 
 
Carolina na hora da estrela
 
No meio da noite
Carolina corta a hora da estrela.
Nos laços de sua família um nó
- a fome.
José Carlos masca chicletes.
No aniversário, Vera Eunice desiste
do par de sapatos,
quer um par de óculos escuros.
João José na via-crúcis do corpo,
um sopro de vida no instante-quase
a extinguir seus jovens dias.
E lá se vai Carolina
com os olhos fundos,
macabeando todas as dores do mundo...
Na hora da estrela, Clarice nem sabe
que uma mulher cata letras e escreve
“ De dia tenho sono e de noite poesia”
 
 
 
Inquisição
 
Ao poeta que nos nega
 
Enquanto a inquisição
Interroga
a minha existência
e nega o negrume
do meu corpo-letra
na semântica
da minha escrita,
prossigo.
 
Assunto não mais
o assunto
dessas vagas e dissentidas
falas.
 
Prossigo e persigo
outras falas,
aquelas ainda úmidas,
vozes afogadas,
da viagem negreira.
 
E apesar
de minha fala hoje
desnudar-se no cálido
e esperançoso sol
de terras brasis, onde nasci,
o gesto de meu corpo-escrita
Levanta em suas lembranças
Esmaecidas imagens
de um útero primeiro.
Por isso prossigo.
Persigo acalentando
nessa escrevivência
não a efígie de brancos brasões,
sim o secular senso de invisíveis
e negros queloides, selo originário,
de um perdido
e sempre reinventado clã.
 
 
 
Eu-mulher
 
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
 
 
 
Vozes-mulheres
 
A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.
 
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
 
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
 
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
 
e fome.
 
- - -
Seleta de André Merez
 
04
Nov20

Poesia Ana Cristina César

Talis Andrade

Ana Cristina César: A Poetisa e os Poemas

 

Sexta-Feira da Paixão

Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petrópolis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala pouco,
como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
“Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.”
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde e digo: está lindo,
mas não sei ser engraçada.
“A crueldade é seu diadema…”
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia das vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
é paixão.

 

Travelling

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirma, “Perder
É mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”, dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. “É perigoso”,
ria a Carolina perita no papel kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas as três bebi um pouco
sem notar
como quem procura um fio.
Nunca mais te disse
uma palavra, repito, preciso alto,
tarde da noite,
enquanto desalinho
sem luxo
sede
agulhadas
os pareceres que ouvi num dia interminável:

sem parecer mais com a luz ofuscante desse mesmo dia interminável

 

Ciúmes

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma

Tão distraídamente

 

- - -

Seleta de Luiz Pierotti /Caos Cultural

 

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