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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

17
Jun22

Chico Buarque propõe um samba contra a estupidez e a destruição bolsonarista (escute)

Talis Andrade

Humor Político on Twitter: "Gestão motorizada! por Marcio Vaccari #Humor # charge #cartoon https://t.co/Rluy5H12e5" / Twitter

 

Batuque é o caminho para lidar com tempos de ignorância e violência

 

247 – O cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda lançou uma nova canção como remédio contra a estupidez bolsonarista, a violência e a destruição do Brasil. A música é a novidade da turnê pelo Brasil que o compositor inicia em setembro, por João Pessoa e, depois de percorrer Natal, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, Salvador e Brasília, chega ao Rio em janeiro e a São Paulo em março do ano que vem. 

Que Tal Um Samba?

Chico Buarque

Um samba
Que tal um samba?
Puxar um samba, que tal?
Para espantar o tempo feio
Para remediar o estrago
Que tal um trago?
Um desafogo, um devaneio

Um samba pra alegrar o dia
Pra zerar o jogo
Coração pegando fogo
E cabeça fria
Um samba com categoria, com calma

Cair no mar, lavar a alma
Tomar um banho de sal grosso, que tal?
Sair do fundo do poço
Andar de boa
Ver um batuque lá no cais do Valongo
Dançar o jongo lá na Pedra do Sal
Entrar na roda da Gamboa

Fazer um gol de bicicleta
Dar de goleada
Deitar na cama da amada
Despertar poeta
Achar a rima que completa o estribilho

Fazer um filho, que tal?
Pra ver crescer, criar um filho
Num bom lugar, numa cidade legal
Um filho com a pele escura
Com formosura
Bem brasileiro, que tal?
Não com dinheiro
Mas a cultura
 
Que tal uma beleza pura
No fim da borrasca?
Já depois de criar casca
E perder a ternura
Depois de muita bola fora da meta

De novo com a coluna ereta, que tal?
Juntar os cacos, ir à luta
Manter o rumo e a cadência
Esconjurar a ignorância, que tal?

Desmantelar a força bruta
Então que tal puxar um samba
Puxar um samba legal
Puxar um samba porreta
Depois de tanta mutreta
Depois de tanta cascata
Depois de tanta derrota
Depois de tanta demência
E uma dor filha da puta, que tal?
Puxar um samba
Que tal um samba?
Um samba
28
Mai22

A CONDENAÇÃO

Talis Andrade

 

As fardas enlameadas

estandartes no chão

os carrascos ouvirão

da boca dos profetas

a cruel estatística

do morticínio de civis

 

9,5 milhões de russos

6 milhões de judeus

3 milhões de alemães

3 milhões de poloneses     

2,2 milhões de chineses

l,6 milhões de iugoslavos

1,5 milhões de japoneses

e 330 mil franceses

 

Para os cães e abutres

que governam o mundo

esquecidos números

 

Martírio que se nutre com flores

Guirlanda de flores no túmulo

do soldado desconhecido

 

 

- - -

O Juízo Final. A Condenação

Ilustração Y. Platonov. Anônimos

28
Mai22

LOUCOS OS POETAS

Talis Andrade

louco taro.jpeg

 


por João de Abreu

 

Loucos, distantes da realidade,
Os poetas nunca sentem saudade
Nem pensam no que o futuro vai trazer

Loucos, os poetas, amam como girassóis,
Diamantes e manhãs
São tão claros que enxergam no escuro

Loucos, os poetas, agarram-se entre as estrelas
Promovem feias e belas
E acabam com suas vidas
Entre os planetas que orbitam ao seu redor

Loucos, os poetas, sem ter qualquer nome algum
Não querem ser apenas um
E tornam-se os homens
Que ocupam a nossa mente e a nossa voz

Loucos,
são estrelas de tudo que não tem forma,
Porque não saíram de uma forma
E se sustentam sobre tantos pés

Estetas,
são tão loucos, não só por serem tão poetas,
Mas por terem as pernas tortas
E sempre driblarem os “joãos”

Loucos,
os poetas, que não enxergam horizontes
E só passam pelas pontes
Quando por elas passam os mais intensos vendavais

Loucos,
os poetas, que gritam pelos oprimidos
Sentem a dor dos sem-sentidos
E ficam ouvindo o mar quando ouvem os sem-faróis

Loucos,
os poetas, mesmo sem querer poder
Podem o que eles querem ser
Apenas com sua dor por sobre a palma da mão

Ainda olha para a lua
Como se ela ainda fosse sua
Última esperança, tanto quanto é esta canção
Ainda hoje, e principalmente hoje,
Mais do que nunca
Nua.

 

- - -

Ilustração O louco, carta de tarô

15
Abr22

Documentário “O canto livre de Nara Leão”

Talis Andrade

o-canto-livre-de-nara-leao.jpg

 

Há uma unidade na obra toda. E o trabalho de montagem foi então o fundamental. Mas é o olhar de uma pessoa que conhecia a entrevistada, como a filha, que permitiu que isso acontecesse

 

por Celso Marconi

 

Há dias que estava pensando em assistir à série “O canto livre de Nara Leão” e resolvi fazer isso ontem no meu novo computador. E fiz vendo os cinco episódios em continuação. Não quero analisar o trabalho da equipe da Globo, pois como não acompanho as séries que eles apresentam, apenas sei do bom nível que é considerado inclusive “o padrão global”. O que mais me interessa é o aspecto político. Como estaria sendo apresentada culturalmente essa excepcional artista brasileira Nara Leão?

Quero declarar que tive um prazer muito grande na imagem e na expressão que a série me colocou para ver. Em vários momentos, me senti revivendo minha própria vida. Como vivi na luta cultural como jornalista e com posição ideológica clara desde os anos 50 do século passado, uma figura como Nara Leão me faz reviver o tempo. E cada situação da sua vida faz parte da minha vida. Bossa Nova. Tropicalismo. Chico Buarque. Roberto e Erasmo. Tenho a impressão de que foi a presença da filha Isabel Diegues na coordenação da série que a transformou num documento não só da maior importância cultural, mas também dos mais prazerosos de ser assistido.

É importantíssima a presença física da artista na série. Certamente, as muitas entrevistas apresentadas não foram feitas com o intuito de fazer parte de uma série, mas foram bem aproveitadas e assim o espectador tem então uma continuidade. Há uma unidade na obra toda. E o trabalho de montagem foi então o fundamental. Mas é o olhar de uma pessoa que conhecia a entrevistada, como a filha, que permitiu que isso acontecesse. E também a sensibilidade criativa dessa filha.Ninguém pode com Nara Leão: Uma biografia | Amazon.com.br

A melhor entrevista feita especificamente para a série é certamente da atriz Marieta Severo, que foi amiga da Nara durante os dois anos em que viveram na França. Como a atriz Marieta Severo diz, se aproximavam muito por necessidade emocional. Estavam vivendo lá os dois casais por impedimento político durante a ditadura de 64. E Marieta Severo se mostra alguém de bem conhecer uma amiga. Uma grande atriz de teatro, vivendo convivendo com outros artistas como Nara, Chico e Cacá. Aspectos da personalidade de Nara são revelados, buscando mostrar a mulher integral que Nara Leão foi. Cantora e pessoa consciente.

De certa forma, Nara Leão assumiu na sua vida cultural política uma posição que artistas como um Caetano também fizeram. E Nara talvez por questão de temperamento e por condição socieconômica pôde viver e expressar, e então mudar de posição do ponto de vista artístico sem mudar de ideologia. Nara fez Bossa Nova como musa, mas não se prendeu ao movimento como muleta. Passou para cantar samba. Cantou canções românticas de Chico Buarque. E interpretou músicas da Jovem Guarda com a mesma criatividade. Não quis nunca ser uma funcionária da interpretação musical. Se pode dizer que fez isso porque tinha condições econômicas, mas muitos quanto mais têm riqueza menos se libertam. A posição de Nara foi declaradamente inteligente e honesta.

Pessoalmente, só encontrei uma vez Nara Leão, numa ocasião de um show que aconteceu no Geraldão no Recife, não me lembro bem como. A verdade é que ela estava dando uma coletiva na ocasião, e eu comecei uma conversa grande após. Então ela me disse não poder demorar mais, embora gostasse de participar dessa conversa, pois havia me achado parecido com “um grande amigo meu” (dela). Certamente, nenhum dos que aparecem na série da Globo.

Olinda, 20. 03. 22

Ainda sobre a série de Nara Leão

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A gente sabe que a empresa Globo de comunicação, desde que foi criada, vem servindo para criar em nosso país uma consciência negativa e de submissão. Até mesmo quando estava em vigor a ditadura de 64 e nesse período principalmente. Mas nem sempre um produto deles pode ser desprezado como negativo. Uma série como essa tem a necessária garra de realização para mostrar o outro lado da nossa vida, mesmo dentro desse período. E a vida de uma mulher como Nara Leão é capaz de representar esse lado de importante resistência que vivemos na segunda metade do século XX. E a série consegue ser tecnicamente correta.

Que sequência magnífica temos quando é apresentada a crônica de Carlos Drummond de Andrade em defesa da liberdade de Nara Leão. Naquela época, eu não era muito simpatizante de Drummond, e claro que pela sua posição pessoal de ligação com o pessoal do poder. E nem mesmo sou grande leitor de Drummond, embora hoje o considere como todo mundo um maravilhoso poeta. Mas o que penso que deve ser realçado é o aproveitamento que conseguiram fazer da crônica. Mesmo hoje a emoção é demais presente.

Outro aspecto que deve ser destacado da série é a entrevista com Chico Buarque. Ela foi montada de maneira muito inteligente. Por exemplo, quando Chico fala sobre quando conheceu o apartamento de Nara, e então vem a declaração da própria cantora. Cria-se um elo entre os dois de forma correta e dinâmica. Chico Buarque inclusive mostra a importância que a cantora teve no seu sucesso como compositor. O trabalho criado pelos realizadores da série levou em conta não a sequência em si, mas como ela seria importante para a sua continuidade na história.

Também conseguiram manter uma narrativa dinâmica e muito explícita nas situações com Erasmo e Roberto Carlos. E até a simples declaração de Bethânia dizendo que Nara era namoradeira ganha um sentido dinâmico na série. Talvez tenha faltado mais empenho na última sequência em que aparece Roberto Menescal.

Enfim, claro que a cultura brasileira não está morta e certamente no próximo ano voltará a brilhar.

Olinda, 20. 03. 22

 

11
Abr22

Basta de ordem unida vamos aprender a dançar e cantar o frevo

Talis Andrade

frevo.jpg

Nenhuma descrição de foto disponível.

Flaira Ferro

 

O Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares é uma iniciativa do Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Defesa, que apresenta um conceito de gestão nas áreas educacional, didático-pedagógica e administrativa com a participação do corpo docente da escola e apoio dos militares.

O Estado do Paraná da supremacia branca, do racismo, do conservadorismo, do prefeito de Curitiba que tem nojo de pobre, do Ratinho pai que ameaça mulheres de morte, do Ratinho Filho também podre de rico, seguindo a política da extrema direita do governador Richa, danou-se a criar escolas cívico-militares. Foi a represália, o castigo imposto pela ousadia dos estudantes com o Movimento Ocupa Escola.

As escolas cívico-militares é uma pobre compensação, que nas escolas militares impera o corporativismo. A prioridade das matrículas uma herança dos filhos dos militares. 

As escolas cívico-militares ensinam ordem unida, valores do conservadorismo caduco da Tradição, Família, Propriedade - a triunfante TFP da pregação do golpe de 1964, misturada com a Teologia da Prosperidade da campanha bolsonarista de 2018, bem representada pelos pastores dos negócios da educação, e pelos coronéis da vacina na militarização do Ministério da Saúde.Nenhuma descrição de foto disponível.

Ana Júlia Ribeiro Ocupa Escola

 

Duvido nas escolas militares e nas escolas cívico-militares um movimento ocupa escola para prostestar contra o kit robótica (roubótica), para um exemplo. Duvido chegar uma Ana Júlia, que liderou o Ocupa Escola no Paraná, para falar na sala de aula:

"O pior ministro da educação da história acaba de ser exonerado. Milton Ribeiro sucedeu o pior ministro da educação da História, Abraham Weintraub, que sucedeu o pior ministro da educação da história, Vélez, e deve dar lugar, mais uma vez, ao pior ministro da educação da história.

Milton Ribeiro correu e se escondeu pra evitar que o governo sangrasse com mais um escândalo. Mas e agora? Os atos do ex-ministro precisam ser investigados e punidos".

O governo Bolsonaro forma o aluno disciplinado, obediente, subordinado, hierarquizado, nivelado, passivo, decoreba, elogiado pelo comportamento automático, treinado na ordem unida, no passo de ganso. Um estudante robotizado. 

A corrupção do Mec vai além da comelança do dinheiro público. 

Não vou teorizar aqui. 

E sim propor a volta das aulas de História. 

Que a ginástica da ordem unida e as aulas de hinos marciais sejam substituídas pelo frevo. O frevo é ritmo, arte, educação física, ginástica, dança, cântico, poesia, música, cultura popuar, alegria, liberdade, democracia, fraternidade, igualdade, felicidade, (re) união, união, povo. 

Ditadura nunca mais

Tortura nunca mais

Exílio nunca mais

A Democracia não constrói cemitérios clandestinos

07
Abr22

As mulheres bonitas do Brasil

Talis Andrade

karina gato.jpg

 

Fosse eleitor

no Rio Grande do Norte, votaria em Natália Bonavides

no Paraná, em Ana Júlia

no Rio Grande do Sul, em Manuela D'Ávila e Maria do Rosário

em Pernambuco, Flaira Ferro

(Talis, tua filha Karina é mil vezes mais linda)

na Paraíba, em Anayde Beiriz 

em São Paulo, Pagu e Hilda Hilst

(Talis, estás senil,

assassinaram Anayde em 1930

e enterraram como indigente)

Não

mulher dona do próprio não

vence a morte

aprendi vendo ouvindo Flaira

dançar e cantarClipe de cantora com mulheres se masturbando é alvo de ataques na internet

Coisa Mais Bonita

 

por Flaira Ferro

 

Não tem coisa mais bonita
Nem coisa mais poderosa
Do que uma mulher que brilha
Do que uma mulher que goza

Toda mulher que deseja
Acende a força erótica que excita a criação
Dê suporte à mulher forte
Quem sabe a gente muda a nossa sorte

Toda mulher que se toca
Instiga a auto estima
Estimula o botão
Mesmo que o mundo se choque
O clitóris é antídoto pra morte

Não me vem com tarja preta
Deixa livre a minha teta
Não me vem com tarja preta
Deixa livre a minha bu

Cê tá maluco
Ou entorpecido
Pela falsa ideia
De dominação

Cê tá esquecido
Mulher sem libido
Não tem natureza
Vira papelão

Homem de armadura
Constrói prisão bélica
De postura fálica
Perde o coração

Homem de verdade
Enxerga beleza
Na mulher que é dona
Do próprio tesão
Na mulher que é dona
Do próprio não!

30
Mar22

Poesia de Flaira Ferro

Talis Andrade

a persistência da memória dalí.jpg

 

Templo do Tempo

Eu sou o templo do tempo
O tempo acontece em mim
No meu rosto, na minha pele
No meu modo de vestir
 
Sou um rio de horas
E um mar de segundos
Sou vazio agora
Amanhã eu sou profundo
 
Revejo o passado
Anseio o futuro
Procuro um relógio
Pra não ser vagabundo
 
Eu não enxergo o vento
Só sinto ele existir
O vai e vem do ar
É como o tempo que vivi
 
Já tive várias idades
E outras ainda vou ter
Será que saberei um dia
O que vou ser quando crescer?
 
Eu sou o templo do tempo
Templo do tempo
 

 
- - -
A persistência da memória, Salvador Dalí, 1931

 

20
Mar22

Poesia marginal da esquina atlântica

Talis Andrade

tres arquitetos.jpg

Lubaina Himid, Três arquitetos, 2019
 
 

Comentário sobre o livro de Alexandre Alves

 

Por MARCOS SILVA /A Terra É Redonda

 

O livro Poesia marginal da esquina atlântica, de Alexandre Alves, contribui para pensar mais amplamente sobre a produção poética no Rio Grande do Norte e no Brasil, ao abordar sua problemática a partir de uma nomeação mesclada a “Geração alternativa”.

Valeria a pena explicitar os critérios dessas designações: À margem de valores estéticos dominantes, em termos de estilos? À margem de instituições de consagração e divulgação dominantes, no que se refere a entidades como Academias de Letras e Imprensa, além de políticas culturais de governo? À margem do mercado editorial dominante? À margem de hegemonias culturais regionais? A uma mescla dessas formas de estar à margem, no que diz respeito a estilos, instituições, mercado e hegemonias regionais? Qualquer que seja a resposta, estamos diante de disputas pelo poder poético.

Problemas similares se manifestam em relação a “Geração alternativa”. Que significa uma geração? Suponho que ela se refere a traços de estilo, consagração e divulgação em comum e no tempo. Isso remete a datas de nascimento dos Poetas, a simultaneidade no lançamento e na recepção de obras? A produção poética se vincula mais a mistura entre tempos (Homero, Dante, Camões, Bocage, Dias-Pino) que a sua segregação: o passado é referência para o presente, o presente interpreta o passado através de suas experiências e projeta futuros; nenhum presente, passado ou futuro é homogêneo, antes abriga disputas por aqueles poderes – Políticas.

Qualquer resposta remeterá a relações de poder no campo literário e cultural, bem como na sociedade mais amplamente considerada. Num país como o Brasil, nomes e obras que se tornaram clássicos estiveram ou estão à margem de múltiplas formas – Joaquim de Sousândrade, Afonso de Lima Barreto, Orides Fontela… Quem garante que muitos outros Autores de igual grandeza não estão entre nós, ainda à margem? E que mais alguns, hoje prestigiados, percam espaços de poder no futuro?

Há uma faceta dessa problemática que merece destaque: a chamada Poesia Marginal, no Brasil, foi assim designada no contexto da ditadura de 1964/1985, juntando-se a imprensa alternativa, partidos políticos de oposição e outros núcleos críticos àquela ditadura. Embora livros e poemas avulsos de tal universo marginal possam ter alcançado boas tiragens e até vendas expressivas, quantos poetas brasileiros, até hoje, vivem de sua produção literária? Quais políticas editoriais para poesia vigoram nas grandes empresas que lançam livros no Brasil e em órgãos culturais e artísticos governamentais do país, inclusive universitários? Toda poesia tem algo de marginal, no Brasil e no mundo? Mas é importante preservar a historicidade de uma poesia que foi designada e se designou como marginal.

O clássico estandarte de Hélio Oiticica, com o dístico “Seja marginal, seja herói”, sugere outro título para a obra de Alexandre Alves: Poesia heroica, diante daquelas múltiplas marginalizações sofridas por diferentes Poesias. Estar à margem não é simples opção dos poetas, é também ser marginalizado por diferentes instâncias de poder, é também evidenciar o poder dos marginais.

Seria possível refletir mais sobre Arte Postal, uma produção na confluência entre poesia marginal e vanguardas poéticas, brevemente citada no livro, que enfrenta certa resistência nos estudos literários – alguns críticos universitários evitam sua discussão, alegam não dominar seus recursos de linguagem, argumento surpreendente daqueles eruditos estudiosos.

Cabe recordar que a poesia marginal e as vanguardas formaram suas instâncias próprias de divulgação e consagração, como se observa, por exemplo, com o Poema Processo, que teve em Moacy Cirne um importante teórico e analista.

Dirigido mais para a experiência potiguar, editado em Natal, RN, por uma editora chamada Sol Negro (outrora, Natal foi rebatizada, para fins turísticos, como Cidade do Sol…), o livro de Alexandre carece de mais reproduções de poemas para que o leitor que não teve acesso anterior a obras comentadas entenda mais o que está sendo apresentado e responda reflexivamente às indagações que ele suscita. Ao invés disso, a obra se excede no arrolamento de nomes de autores e títulos de obras, com exceção de alguns poemas de João Gualberto Aguiar, Carlos Gurgel, Jóis Alberto, João Batista de Morais Neto (João da Rua) e Antonio Ronaldo, adequadamente reproduzidos e comentados.

Esse vasto panorama sugere que a poesia marginal se distingue das vanguardas ao pensar sobre retaguardas, sem perda de seu presente, perturbadora caracterização, por Haroldo de Campos, de um estar à margem da margem, correndo riscos de uma perigosa homogeneização do fazer poético que esse livro consegue evitar.

Alves é um exemplo de crítica e história literária que se volta para esse universo menos canônico da literatura (poesia marginal de um estado pouco visível, em termos culturais), importante conquista do trabalho acadêmico, merecedor de continuidade.

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