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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Jan19

De Jussara Salazar

Talis Andrade

jussara vestido.jpg

 

 

a língua das facas


não há poema
apedrejaram a estátua do bandeira
e os tambores soaram às seis da manhã
não há palavra
e quero palavras macias
palavras antigas e suaves
como os tapetes da mesquita
que flutuaram sob meus pés
naquele domingo de março
não há letra suficiente
os signos falam uma língua de facas
os signos foram destruídos
os signos foram esquecidos
os signos fugiram pelas ruas
e ninguém mais consegue decifrá-los
estamos balbuciando sons
como numa infância
com sua mudez de aprendizes
como numa infância
de brinquedos quebrados
de caminhos partidos
como "veredas que se bifurcam"

 

img tema Pia-Lotta Rock

 

26
Dez18

Marielle Franco nome de rua na Alemanha. No Brasil deputados machistas de Bolsonaro quebram placa

Talis Andrade

Ato de vandalismo ajudou a eleger o governador e deputados do PSL

 

placa marielle.jpg

 

 

Transcrevo do jornal O Globo:

Um vídeo gravado ao vivo, no domingo anterior à eleição, mostra Witzel junto com Daniel Silveira, eleito deputado federal pelo PSL, e Rodrigo Amorim, deputado estadual mais votado do Rio, também pelo PSL, durante ato de campanha em Petrópolis, na Região Serrana.

No começo do vídeo, Witzel pede votos para Silveira e depois a câmera mostra o discurso de Amorim em cima do carro de som:

"Marielle foi assassinada. Mais de 60 mil brasileiros morrem todos os anos. Eu vou dar uma notícia para vocês. Esses vagabundos, eles foram na Cinelândia, e à revelia de todo mundo, eles pegaram uma placa da Praça Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, e botaram uma placa escrito Rua Marielle Franco. Eu e Daniel essa semana fomos lá e quebramos a placa. Jair Bolsonaro sofreu um atentado contra a democracia e esses canalhas calaram a boca. Por isso, a gente vai varrer esses vagabundos. Acabou Psol, acabou PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora é Bolsonaro, p***", gritou Amorim pelo microfone.

marielle .png

 

 
Quero ver se esses covardes apologistas da execução de políticos esquerdistas e defensores do feminicídio vão quebrar as placas de rua com o nome de Marielle Franco mundo afora.
 
A vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março no Rio de Janeiro, foi homenageada com o nome de uma rua na cidade de Colônia na Alemanha. "Aqui no meu bairro na Alemanha uma mulher negra, brasileira, é homenageada. Obrigada, ela merece!" Essas são as palavras de Tamara Soliz em seu perfil nas redes sociais, comemorando. 
 
12 Poemas para Marielle Franco
 

quinho.jpg

Ilustração Quinho

DIREITAS
por Líria Porto

 

mulheres
mirem-se no espelho de amélias marcelas
carminhas
respaldem o grande
o rico homem branco
e nem pensem nas marielles nas beneditas
nas jandiras
estas devem ficar nas senzalas
caladas e debaixo de relho

(as que falem por pobres e pretos
silenciamos à bala)

 

Leia mais onze poemas aqui

 

 

 

25
Nov18

Do Itinerário do Desuso de Edmilson Borret

Talis Andrade

pablo-picasso-vendedora-de-flores-1901.jpg

 


Elas são sorridentes
as moças das flores
Elas cheiram a flores
as moças das flores!
São noturnas e orvalhadas
As moças das flores
desfilam sabores, odores
E as mãos das moças das flores?!
Ah, como são simpáticas as mãos
das moças das flores

 

Elas sabem de mim
de meus arredores
de meus epitáfios e dores
São metafísicas, dionisíacas
as moças das flores
Inocentes como
águas de um lago à noite:
tácita sedução, sem pudores
Elas nos trazem o repouso
as moças das flores

 

Ilustração Picasso 

14
Nov18

Poema de Fernando Matos

Talis Andrade

carencia.jpg

 



Que tamanho tem o coração de uma estrela?
Qual a extensão de uma vida humana?
A influência é depurada se conseguirmos vê-la...
Somos poeira cósmica vivendo de forma profana.

 

Talvez não haja lirismo na história da criação
Cada pensamento assume a forma imaginária
Maravilhosa caminhada de curta duração...
Egocêntrico tem uma viagem solitária.

 

O equilíbrio existe para que haja continuação
O Cosmo revela todo processo de Verdade
Somos parte de uma grande e infinita constelação
A nossa semelhança ultrapassa toda a existencialidade.

 

14
Nov18

Poema de Carlão Paes

Talis Andrade

fila.jpg

 




A cada minuto alguém deixa esse mundo para trás.
Estamos todos na "fila" sem nem sabermos.
Não sabemos quantas pessoas estão na nossa frente.
Não dá para voltar para o "fim da fila".
Não dá para sair da fila.
Nem evitar essa fila.

Então, enquanto esperamos na fila.
Faça os momentos valerem a pena.
Tenha prioridades.
Faça tempo para você.
Faça com que seus talentos sejam reconhecidos.
Faça um ninguém se sentir como alguém.
Faça sua voz ser ouvida.
Faça as coisas pequenas serem grandes.

Faça alguém sorrir.
Faça a diferença.
Faça amor.
Faça as pazes.
Faça com que as pessoas se sintam amadas.
Faça com que você não tenha nenhum arrependimento.

Esteja preparado....

12
Out18

De Rafael Rocha

Talis Andrade

 

rafael rocha.jpg

 "A passagem poderosa do tempo"



1 de Outubro de 2018,  69 anos

 

Depois de conhecer os ruídos e os males da sorte
vendo sessenta e nove anos em mim a se compor
desejaria viajar agora às fronteiras do meu norte
e ao nordeste da pátria conhecer meu esplendor.


No entanto eu sei como o tempo é inclemente
marcando horas infinitas no antes e no depois.
E por amar tanto esta vida e querê-la mais urgente
vou num grito retumbante espalhar a minha voz.


Eu sabendo em demasia a total indiferença
do mundo a me cercar como algo transitório
planejo um poema especial onde a paixão vença
antes de a plateia inculta o considerar simplório.


Darei beijos/abraços nos amigos de hoje e de ontem
como se este dia de outubro ainda fosse o inicial
e depois de cervejas e de versos não me zombem
quando eu disser que agora sou praticamente imortal.


Depois...


Deitarei fogo de versos sobre a terra imutável
e seguirei caminho na minha eterna solidão
sabendo o quanto uma ilusão é imensurável
no inferno que os tolos chamam coração!

 

 

 

 

28
Set18

'Museu da Noite' de Fernando Monteiro

Talis Andrade

museu.jpg

 

 

Na noite do incêndio que destruiu o Museu Nacional, o escritor Fernando Monteiro, impactado com esta catástrofe, iniciou a escrita do poema “Museu da noite”.

 

Como explica o próprio poeta: “Este poema em cinco partes começou a ser escrito sob o choque da noite carioca da desGraça de dois de setembro de dois mil e dezoito. Estive insone a madrugada inteira, e parti para compor a música triste dos dedos de uma mão fechada no peito na madrugada e em alguns poucos dias mais – suspensos, irreais e cheios da perplexidade de quem perdeu muito além de um magnífico Museu, numa noite de chamas filmadas por todos os ângulos da treva.”

 

“Na treva do mundo”, completa Alberto Lins Caldas, que assina o prefácio, “do Brasil que se dissolve sob o peso da sombra fascista, a luz que só pode vir da poesia, da violência extrema da palavra que permanece quando atinge a essência da existência, toma em Fernando Monteiro, não apenas nesse poema em cinco partes, ‘Museu da Noite’, mas em toda a sua obra, um fulgor além das muralhas de brutal estupidez dos que calam as palavras e pensamentos, sempre sem saber. Ele nasce das labaredas, nitidamente do fogo vindo da treva, aquele que apenas os fascistas sabem tão bem acender, mas que também os poetas sabem tão bem tornar a destruição, lixeiras ridículas da ‘barbárie’, monumentos da ‘cultura".

 

 

 

 

08
Set18

SOBRE O MAIS FAMOSO SONETO DE TODOS OS TEMPOS

Talis Andrade

 

por Rafael Rocha

félix arvers.jpg

 Félix Arvers

 


O poeta francês Félix Arvers escreveu este soneto no álbum de uma jovem de 19 anos, comprometida, recatada e dotada de muita inteligência, Marie Mennessier-Nodier.



SONNET – Félix Arvers


Mon ame a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour eternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j'ai dú le taire,
et celle qui l'a fait n'en a jamais rien su.


Helas! j'aurai passé près d'elle inaperçu
Toujours à ses côtés et toujours solitaire;
et j'aurai jusqu'au bout fait mon temps sur la terre,
n'osant rien demander, et n'ayant rien reçu.


Pour elle, quoique Dieu l'ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d'amour elevé sur ses pas;


à l'austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle,
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas.



A primeira tradução em português no Brasil do célebre soneto foi feita por Pedro Luiz no ano de 1880.


SONETO DE ARVERS


Guardo um mistério n'alma e na vida um segredo,
um sempiterno amor que há muito me enlouquece;
não tem remédio o mal – por isso o oculto a medo
e aquele que o causou jamais quis que o soubesse.


Perpasso junto dela e abafo ardente prece!
Ao seu lado respiro e sempre em um degredo.
A romagem da vida acabarei bem cedo,
sem que eu nada pedisse e nada ela me desse.


Terna formou-a Deus, mas – bela peregrina –
na trilha do dever não vê, não imagina
que eu – mísero – sagrei-lhe amores imortais.


E, um dia, talvez, diga ao ler em doce calma
estes versos que assim vibraram de sua alma:
– “E essa mulher quem é?” – Não cismará jamais.


Muitas outras traduções foram feitas por brasileiros e portugueses, mas melhor deixar por aqui aquela duas mais aceitas pelos estudiosos, a de Guilherme de Almeida e Olegário Mariano:


SONETO DE ARVERS

Tradução de Guilherme de Almeida


Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a, pois, escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.


Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento.
E chegarei ao fim da existência esquecida,
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.


E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.


A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá, lendo estes versos, com certeza:
— "Que mulher será esta?" — E não compreenderá.



SONETO DE ARVERS
Tradução de Olegário Mariano


Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
e aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.


A seu lado serei sempre a sombra esquecida
de um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
certo de que dei tudo e ele nada me deu.


E ela que Deus formou terna, pura e distante,
passa sem perceber o murmúrio constante
do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.


Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
perguntará, lendo estes versos cheios dela:
- "Que mulher será esta?" - E não compreenderá.

 

Marie_Nodier.jpg

Marie Nodier 


Aparentemente, o soneto passou despercebido à moça dos sonhos do poeta. Félix Arvers nasceu em 23 de julho de 1806 e morreu em 7 de novembro de 1850. Sua musa, Marie Nodier, faleceu muitos anos depois do poeta. Félix Arvers entrou na galeria dos imortais com este soneto de amor e sem jamais saber que Marie Nodier tinha respondido ao soneto com um de sua autoria em seu próprio álbum, mas que os estudiosos da obra de Arvers consideram apócrifa. E que dizia assim:

 

REPONDRE AU SONNET


Ami, pourquoi nous dire, avec tant de mystère,
que l'amour éternel en votre âme conçu
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
et comment supposer qu'Elle n'en ait rien su?


Non, vous ne pouviez point passer inaperçu,
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
Parfois, les plus aimés font leur temps sur la terre,
n'osant rien demander et n'ayant rien reçu.


Pourtant Dieu mit en nous un coeur sensible et tendre
Toutes, dans le chemin, nous trouvons doux d'entendre
le murmure d'amour élevé sur nos pas.


Celle veut rester à son devoir fidèle
s'est émue en lisant vos vers tout remplis d'elle.
Elle avait bien compris... mais ne le disait pas.


E eis aqui a tradução de Edmundo Lys da pretensa resposta ao SONETO DE ARVERS por parte da musa Marie Nodier:


RESPOSTA AO SONETO


Meu amigo, por que, de forma tão sentida,
dizeis que o eterno amor nascido num momento
é uma dor sem remédio, e há de estar escondida,
e como supor que ela ignora esse tormento?


Vós não fostes jamais sombra despercebida,
nem deveis vos julgar num triste isolamento:
os mais amados vão, às vezes, pela vida,
sem nada receber e sem um só lamento.


Deus, entanto, à mulher, deu uma alma complacente
e ela por seu caminho irá mais docemente,
se um murmúrio de amor a segue onde ela vá.


Aquela que ao dever deseja ficar presa,
os versos, cheios dela, os sentiu, com certeza,
e tudo compreendeu... mas nunca ela o dirá.

 

 

08
Set18

de Jussara Salazar

Talis Andrade

os olhos de teresa

(imagem tema heather murray)

 

os olhos.jpg

 



olhos abertos
miúdos
infantis
perplexos
no tempo em que
havia quintais
e cigarras tontas
de sono e bebida
que nenhum beijo amansava
e cavalos em fúria
soltos
na cidade vazia
moviam um mundo
chamado tereza
e os olhos diziam
        o teu cavalo são ossos
        o teu cavalo sem nervos
        o teu cavalo-moça
trota
no reino de lobos
sem heróis ou dentes
apenas galinhas
aves
cães vadios
manadas de patas
imóveis
e imaginários
meus olhos
roubados
de unicórnios

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