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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

01
Out23

Bomba: Secretaria de Educação do Ratinho Junior Paraná divulga material com conteúdo golpista

Talis Andrade

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Pinochet, Ustra e outros monstros heróis de Bolsonaro. Ilustração Gilmar

 

I - OS LOBOS SEDENTOS BOLSONARISTAS 

Os governadores do Sul são fanáticos da extrema direita bolsonarista. Importante lembrar os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná abrigam a denominada Liga da Justiça da Lava Jato, células nazistas, e preferem eleger para os legislativos estaduais e da União parlamentares militares e policiais e pastores fundamentalistas e capitães-do-mato do agronegócio, grileiros de terras e exploradores do trabalho escravo, ou como eles dizem trabalho análogo 'a escravidão. Coronéis que recentemente promoveram uma CPI sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

Nada de importante temos como exemplo. Na justiça, no combate insano e safado e circense 'a corrupção, a mágica do desaparecimentos de bilhões de moedas, botijas arrecadadas nos acordos de leniência das grandes empresas nacionais e multas das delações super premiadas, criando os novos ricos da Lava Jato das Festas da Cueca em hotéis de luxo. 

 

Operação Condor



Investigar, perseguir, torturar e matar eram os procedimentos da Operação Condor, um pacto letal firmado nos anos 1970 entre os governos militares de nações sul-americanas, inclusive o Brasil, com o objetivo de eliminar indivíduos que se opunham ao regime golpista.

Conforme um slide fornecido pela Secretaria da Educação do Paraná (Seed) para ser compartilhado por professores com os alunos, as pessoas que sofreram os horrores da ditadura eram classificadas como “antipatriotas” e “esquerdistas”.

Segundo uma captura de tela recebida pelo App Sindicado (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná), é possível ver diversos usuários visualizando a apresentação.

 

 

A Secretária Educacional da APP-Sindicato, Vanda Santana, caracteriza a situação como extremamente séria, uma vez que observa que o texto reflete as inclinações políticas e ideológicas de quem elaborou o material, que está acessível a todos os professores da rede estadual.

A líder sindical critica a abordagem adotada pelo sistema educacional do Paraná na criação de materiais didáticos, uma vez que esse método permite que a perspectiva de uma única pessoa se torne uma referência no processo de ensino.

“Por isso nós temos reforçado constantemente a importância da autonomia no trabalho docente, desde o seu planejamento, produção de material e o encaminhamento das aulas”.

Vanda ressalta que a APP-Sindicato defende o conhecimento científico que tenha passado pelo rigoroso processo de pesquisa e validação realizado por instituições acadêmicas e inúmeros pesquisadores. “Portanto, não podemos aceitar esse negacionismo e revisionismo histórico que esse tipo de slide apresenta”, argumenta.

A denúncia sobre o conteúdo do material se espalhou por grupos de mensagens. Algumas horas mais tarde, o texto foi modificado. Na nova versão, as vítimas da ditadura são descritas como “opositores e pessoas consideradas subversivas à ordem estabelecida”.

 

 

Segundo a professora, a alteração no texto ainda é problemática, pois mantém uma orientação ideológica que defende um Estado sob regimes autoritários, sem democracia, e continua a estigmatizar qualquer perspectiva política que seja diferente dos partidos conservadores.

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O caso já aconteceu outra vez

Este não é um incidente isolado ou a primeira ocorrência desse tipo. Em fevereiro deste ano, o sindicato já havia denunciado outro material fornecido pela Seed que apresentava abordagens inadequadas. O conteúdo destinado às aulas de Educação Financeira continha slides que estigmatizavam a pobreza e culpabilizavam os estudantes por sua condição social.

O professor aposentado, Luis Claudio Pereira, que acumulou mais de 32 anos de experiência no ensino da disciplina de História tanto na rede pública quanto privada, considera o que aconteceu como algo inaceitável. Ele acredita que isso expõe claramente a influência da ideologia bolsonarista que parece ter se infiltrado na educação pública do Paraná sob a gestão de Ratinho Jr. e Renato Feder.

“É assustador. O governo cria uma narrativa justificando um posicionamento ideológico da direita. Isso é nocivo para a democracia e nos afasta de uma visão de mundo pautada nos direitos humanos”.

O regime militar no Brasil perdurou por 21 anos. A ditadura começou após o golpe militar que destituiu o então presidente João Goulart em 31 de março de 1964. Além do autoritarismo e das violações dos direitos humanos, esse período se caracterizou pela ausência de eleições diretas para a presidência, pelo fechamento do Congresso Nacional e pela prática da censura à imprensa e à sociedade.

Conforme o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, as sérias violações aos direitos humanos cometidas durante o regime militar no Brasil resultaram em 434 mortes e desaparecimentos políticos. Além disso, um levantamento divulgado pela Human Rights Watch aponta que aproximadamente 20 mil pessoas foram submetidas à tortura, e 4.841 representantes eleitos pelo povo foram destituídos de seus cargos durante esse período. Publicado no portal O Cafezinho (continua)

21
Set23

Garnier, o “mais difícil dos chefes militares”, aceitou dar um golpe de Estado com Bolsonaro

Talis Andrade

Golpe de estado ameaça uma guerra civil. Tem listas estaduais de presos, e a sangreira de lideranças marcadas para morrer. 

Todo golpe cousa de inimigos da claridade, de forças armadas contra a população civil, contra o povo em geral desarmado, vítima de ditadores sanguinários idólatras de - para citar os monstros do Século XX - Hitler, Mussolini, Stalin, Franco, Salazar, Pinochet, Stroessner, Idi Amin e outros cavaleiros montados em suas bestas do Apocalipse. 

Bolsonaro, o "mau militar", consultou as Forças Armadas sobre dar um golpe após a vitória de Lula, depois de derrotado nos dois turnos das eleições presidenciais de 2022. A Marinha aceitou. Mas sem o Exército, Bolsonaro recuou, escreve Cintia Alves:

 

Almirante Garnier, ex-comandante da Marinha, aceitou embarcar no plano de golpe de Jair Bolsonaro contra a posse de Lula, segundo informações de O Globo. Foto: Reprodução/Youtube
Almirante Garnier, ex-comandante da Marinha, aceitou embarcar no plano de golpe de Jair Bolsonaro contra a posse de Lula, segundo informações de O Globo.

 

No final de 2022, após a vitória eleitoral de Lula, Jair Bolsonaro teria se reunido com a cúpula das Forças Armadas para discutir um plano de golpe, numa tentativa desesperada de permanecer no poder.

O Exército teria negado adesão ao golpe. Não se sabe qual teria sido a conduta da Força Aérea. Mas o almirante Almir Garnier Santos, então comandante da Marinha (que tem cerca de 80 mil homens e mulheres em seu corpo), embarcou prontamente na empreitada golpista.

Os detalhes da reunião teriam sido narrados na delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. O trecho sobre a proposta às Forças Armadas vazou à imprensa nesta quinta (21).

O ministro da Defesa do governo Lula, José Múcio Monteiro, disse que o golpe “não interessou às Forças Armadas”. “Foram atitudes isoladas”, afirmou, reclamando ainda da “suspeição coletiva” em que se encontram os militares hoje.

 

Quem é Almir Garnier

Não é surpresa nenhuma que Garnier tenha aparecido na delação de Cid como um entusiasta do golpe. Em junho passado, o Financial Times publicou reportagem sobre a “discreta campanha” dos Estados Unidos para garantir a posse de Lula.

“Um alto funcionário brasileiro que esteve intimamente envolvido lembra que o ministro da Marinha de Bolsonaro, almirante Almir Garnier Santos, era o mais ‘difícil’ dos chefes militares. ‘Ele ficou realmente tentado por uma ação mais radical’, diz. ‘Então tivemos que fazer muito trabalho de dissuasão, o departamento de estado e o comando militar dos EUA disseram que iriam rasgar os acordos [militares] com o Brasil, desde treinamento até outros tipos de operações conjuntas'”, revelou o FT.

A lealdade a Bolsonaro e o desprezo pelo governo recém eleito já ficara patente quando Garnier decidiu não participar da passagem de bastão para seu substituto, o almirante Marcos Sampaio Olsen.

Em meio a uma transição tensa, duramente marcada pelo 8 de Janeiro, Olsen chegou com as seguintes falas: “Temos um Brasil polarizado, e os militares foram trazidos para esse contexto. Precisamos reforçar que é uma instituição de Estado. (…) É equívoco achar que as Forças Armadas podem ser um poder moderador.”

Garnier, em sentido oposto, gravou vídeo justificando o apoio a Bolsonaro entre militares. Em outra peça divulgada na internet, disse que “sem valores morais é impossível construir uma Nação”, reproduzindo o discurso bolsonarista.

Em 15 de dezembro de 2022, quando a marcha golpista de Bolsonaro caminhava para o fracasso, Garnier participou da formatura de quase mil novos fuzileiros navais. Na despedida emocionada, fez um discurso dúbio.

“Nem sempre conseguimos fazer tudo que queremos. Muitas vezes queremos navegar em direção ao porto seguro em linha reta, mas a tempestade nos impede, e temos de navegar de acordo com o que aprendemos para contornar furacões, afim de não perder nosso barco e colocar em risco nossa tripulação. Mas saibam os senhores que a manobra de tempestade girará novamente o barco em direção ao porto seguro que queremos. E lá nós chegaremos, pode demorar um pouco mais, mas chegaremos. O importante é que estejamos unidos.”

Garnier disse também que a tropa estava em plena “condições de cumprir missões onde quer que o poder político nos demande.” E finalizou com um chamado: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever. Tenho tentado cumprir o meu. Cumpram o de vocês”.

 

A delação de Cid

O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, revelou em delação premiada que presenciou o encontro do ex-presidente com a cúpula das Forças Armadas e aliados militares, para discutir a possibilidade de implementar uma minuta de intervenção militar no país.

O tenente-coronel Mauro César Barbosa Cid. Foto: Agência Senado

 

De acordo com o jornalista Talento Aguirre, que ouviu fontes que acompanharam as negociações de delação, Cid narrou também os detalhes de um encontro anterior, no qual o ex-assessor especial Filipe Martins entregou a minuta de decreto golpista para Bolsonaro.

O documento previa caminhos para prender o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Morais, e suspender o resultado da eleição vencida por Lula.

Cid também teria presenciado o encontro com as Forças Armadas, quando Garnier teria garantido que sua tropa estaria pronta para aderir a um chamamento, enquanto o comando do Exército teria negado a proposta. Sem o Exército, Bolsonaro não deu seguimento ao plano.

O relato teria caído “como uma bomba entre os militares” e teria gerado uma grande tensão nas Forças, segundo Bela Megale, no O Globo. 

Tendo em vista o peso das declarações, a Polícia Federal (PF) tem tratado o tema com total sigilo, uma vez que é preciso que haja provas sobre os fatos narrados.

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12
Set23

Documentário: ”Vozes do silêncio. Nem perdão nem esquecimento”. Assista, legenda em português

Talis Andrade

 

Jair de Souza traduziu e legendou o documentário ”Vozes do silêncio: Nem perdão, nem silêncio”, da RT. A legendas em português podem ser acionadas no canto inferior direito, em configurações.

 

Vozes do silêncio: Nem perdão, nem esquecimento

por Jair de Souza

VioMundo

- - -

Estamos chegando ao dia 11 de setembro.

Para os mais jovens, queria retroceder 50 anos na história, pois exatamente neste mesmo dia no ano de 1973, a América Latina e o mundo sofreram um dos mais destruidores golpes de parte das forças mais retrógradas, mais anti-humanas, mais pró-imperialistas que a humanidade já tinha tido o horror de conhecer: o golpe militar comandado por Augusto Pinochet que derrubou o governo socialista de Salvador Allende no Chile.

Foi o marco de uma nova etapa da monstruosidade do grande capital no intuito de extirpar pela raiz toda e qualquer ameaça proveniente das maiorias populares que pudesse ameaçar os privilégios das classes dominantes.

Foi a primeira iniciativa orquestrada pelas instituições capitalistas a nível planetário de implantar o neoliberalismo de maneira organizada e permanente.

Depois de muitos anos de sofrimento e luta, o povo chileno ainda está engajado numa luta ferrenha na busca de sanar as mazelas que os anos de ditadura cravaram em sua sociedade.

Como lição muito importante, precisamos entender que os efeitos nocivos deixados pela passagem de um governo deste tipo não se limitam aos anos em que essas forças permanecem visivelmente no comando do aparelho de Estado.

Até hoje, as maiorias populares do Chile estão padecendo as agruras surgidas com a tomada de poder pelos militares em 1973.

As forças democráticas chilenas estão empenhadas na luta para que os crimes cometidos por essa ditadura não venham a ser esquecidos e, muito menos, os criminosos perdoados.

Esquecer e perdoar fatos e criminosos que tantas desgraças causaram significa abrir a porta para a repetição dos mesmos.

Para nós brasileiros o documentário acima, Vozes do silêncio: Nem perdão, nem esquecimento,  tem um valor adicional, pois ele nos remete à nossa própria realidade e aos nossos embates com as forças do bolsonarismo. Conforme os próprios próceres bolsonaristas deixam patente, o modelo pinochetista lhes serviu de inspiração em nosso país.

Em outras palavras, o pinochetismo é a fonte de inspiração para o bolsonarismo.

Assim, entender bem o que está por trás do pinochetismo nos leva a compreender melhor nossa própria realidade.

No documentário Vozes do silêncio: Nem perdão, nem esquecimento vamos observar que as classes dominantes recorrem a forças de extrema direita do tipo do pinochetismo e do bolsonarismo naquelas fases da história em que eles sentem que as estruturas de dominação tradicionais já não estão dando conta de manter os movimentos populares subjugados.

O pinochetismo não vacilou em matar para se fazer impor, assim como o nazismo também não.

E, devemos ter clareza, o bolsonarismo é fruto da mesma árvore. Em outras palavras, tanto o pinochetismo como o bolsonarismo se inspiraram sempre em seus antecessores da Alemanha hitlerista.

Neste muro, está escrito: ‘Mesmo que os passos toquem este local por mil anos, não vão apagar o sangue dos que aqui caíram’. Entre eles, o do compositor, músico e ativista político chileno Victor Jara, que aí foi fuzilado, em 16 de setembro de 1973. Fotos: Reprodução de imagem do documentário ”Vozes do silêncio” e Wikipedia

 

Muitos argumentam que não é correto equiparar bolsonarismo e pinochetismo com o nazismo, o qual teve seus campos de concentração e suas câmaras de gás. O que podemos responder quanto a isto é que se o bolsonarismo não chegou a tanto foi porque não encontrou condições para ali chegar.

Não há limites de tipo humanitário para as tropas de choque do grande capital.

Aqueles que diante da morte de mais de 700.000 pessoas não se sentem perturbados já que não são coveiros não teriam nenhuma reticência em aplicar métodos similares de extermínio aos de seus inspiradores germânicos. Não tenhamos dúvidas disso.

Espero que aproveitemos a comemoração (comemorar não é celebrar) deste novo aniversário da tragédia chilena para estudar e tirar lições desse acontecimento.

Foi com este espírito que me dediquei a traduzir e legendar este vídeo-documentário, que considero uma das peças mais bem-feitas para retratar em pouco tempo o significado daquele trágico acontecimento.

12
Set23

‘Nunca mais’: milhares de mulheres passam a noite em vigília nos 50 anos da ditadura chilena

Talis Andrade

Com velas nas mãos, elas simbolizaram solidariedade e protestaram contra a impunidade dos crimes cometidos durante a ditadura

Vigília junto ao Palácio La Moneda, no Chile. Foto: Karin Pozo/EPA

 

Milhares de mulheres vestidas de preto se reuniram na noite de ontem, 10, em torno do histórico Palácio La Moneda, no Chile, para lembrar o 50º aniversário do bombardeio do palácio durante o golpe de Estado liderado por Augusto Pinochet, que depôs o socialista Salvador Allende. Com velas nas mãos, as mulheres simbolizaram solidariedade e protestaram contra a impunidade dos crimes cometidos durante a ditadura.

A vigília destaca a persistência das chilenas em buscar justiça e manter viva a memória dos horrores do passado. O regime de Pinochet deixou um legado de milhares de torturados e mortos em 17 anos de governo, uma ferida profunda que ainda afeta a sociedade chilena.

A manifestação também teve como objetivo iluminar o caminho daqueles que foram afetados pela ditadura e exigir justiça. Muitas manifestantes expressaram sua frustração com a falta de responsabilização, uma vez que Augusto Pinochet deixou o governo em 1990 e morreu em 2006 sem enfrentar condenações por seus crimes.

Sob o lema “Nunca Mais”, a vigília ocorreu em silêncio, interrompido ocasionalmente por palavras de ordem emocionadas. As mulheres presentes eram mães, esposas e filhas de presos, desaparecidos e mortos durante a ditadura, carregando o peso da dor causada por esses eventos traumáticos.

 

Condenações

O Chile avança na responsabilização dos envovidos em desaparecimentos e assassinatos durante os anos da ditadura Pinochet. Em uma decisão unânime, em agosto deste ano, o Tribunal do Chile condenou sete militares da reserva por seu envolvimento no sequestro e assassinato do renomado cantor e compositor Víctor Jara, assim como do ex-diretor de prisões Littré Quiroga.

Jara, uma das vozes mais proeminentes da música popular da América Latina, foi torturado e morto com 44 tiros após ser detido na Universidade Técnica do Estado.

Por Planeta Ella, com informações da Lusa

 

 

 

30
Ago23

Ex-militares chilenos são condenados pelo assassinato de Victor Jara

Talis Andrade
Victor Jara é um dos principais músicos e compositores da América Latina e se tornou uma figura lendária, símbolo de luta e poesia
 

Supremo Tribunal do Chile decidiu condenar sete ex-oficiais do Exército a penas de 8 a 25 anos de prisão pelo assassinato de Jara

03
Mai23

OUÇA: Titãs põe Bolsonaro em letra histórica que cita ditadores e assassinos

Talis Andrade
 
 
 
 
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Nome do ex-presidente de extrema direita que tentou demolir democracia brasileira foi parar na icônica “Nome aos Bois”, de 1987. Só que ele não deve ter gostado nada da “justa homenagem”

 

por Henrique Rodrigues /Revista Forum

Os Titãs resolveram fazer uma “homenagem” ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o líder de extrema direita que tentou dar um golpe de Estado no Brasil, mas que acabou sendo impedido pela força das urnas. A banda, que após 30 anos volta a uma turnê com sua formação clássica, se apresentou no sábado em Belo Horizonte (MG) e para surpresa do público acrescentou o nome do político bufão ultrarreacionário na lista de assassinos e ditadores de “Nome aos Bois”, canção de 1987, lançada no LP “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”.

A letra, muito conhecida, tem também alguns nomes controversos, que não teriam propriamente sido ditadores ou matado pessoas, que Naldo Reis, um dos compositores da música, explicou, há dois anos, que foram parar na relação por molecagem da juventude ou até mesmo por circunstâncias da época, num Brasil que havia acabado de sair da Ditadura Militar (1964-1984).

Em “Nome aos Bois”, Jair Bolsonaro foi colocado ao lado de figuras execráveis e funestas como Hilter, Mussolini, Pinochet, Franco, Papa Doc, Baby Doc, entre outros.

 

 

27
Dez22

Dino: Lula espera fim "pactuado" de atos golpistas, mas não descarta retirada de bolsonaristas à força

Talis Andrade

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Futuro ministro da Justiça disse que a possibilidade de uma "retirada compulsória" não está descartada caso não haja uma solução de "modo pactuado, mediante conciliação"

 

247 - O senador eleito e futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino (PSB), disse que o governo do presidente diplomado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), espera que o acampamento bolsonarista montado em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, seja desmontado de uma forma "pactuada”, mas que também não descarta a possibilidade de uma "retirada compulsória", caso necessário, para efetivar a desmobilização dos extremistas. 

“Quanto mais se der de modo pactuado, mediante conciliação, melhor. Essa é a opção do presidente Lula neste momento. É claro que se não houver essa providência, outras serão tomadas, mas isso num segundo momento", disse Dino nesta terça-feira (27).

Ainda segundo ele, a equipe de Lula espera que os extremistas bolsonaristas façam uma "desocupação voluntária" do acampamento antes da posse, mas que “se isso não ocorrer, aí se abrem outras possibilidades de uma retirada compulsória". 
 

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[A turba acampanda na porta de quartéis não representa o povo que trabalha, nem os desempregados pela política econômica do paisano de Pinochet, o Paulo Guedes, que fica mais rico quando, ministro da Economia, aumenta o valor do dólar.
 
A gentalha é constituída por militares aposentados que ocupam cargos civis. E filhas de militares que recebem pensões para não trabalhar.
 
E bolsonaristas milicianos, recrutados em currais eleitorais da extrema direita, da supremacia branca que empestam os Estados do Sul notadamente, com sua células nazistas. 
 
São defensores do golpe sangrento, de um banho de sangue, via luta armada, atentados terrorista que proclamem Jair Bolsonaro ditador perpétuo do Brasil.
 
Os acampamentos terroristas visitados pelos generais

 

Os bolsonaristas suspeitos por terrorismo, George Washington de Oliveira Sousa e Alan Diego Rodrigues, estiveram presentes em uma audiência pública no Senado Federal. A sessão ocorreu em 30 de novembro, e discutiu as denúncias da campanha de Bolsonaro que afirmou que faltou isonomia nas inserções nas rádios durante o período eleitoral

 
22
Set22

Resgatar a democracia

Talis Andrade

por Leonardo Boff /A Terra É Redonda

 

A atual eleição representa um verdadeiro plebiscito: que forma de Brasil nós almejamos?

 

Ouvimos com frequência as ameaças de golpe à democracia por parte do atual presidente. Ele realizou aquilo que Aristóteles chama de kakistocracia: “a democracia dos piores”. Cercou-se de milicianos, colou nos cargos públicos algumas dezenas de militares de espírito autoritário, ligados ainda à revolução empresarial-militar de 1964, fez aliança com os políticos do Centrão que, ao invés de representar os interesses gerais do povo, vivem de privilégios e de propinas e fazem da política uma profissão para o próprio enriquecimento.

Não vi melhor descrição realística de nossa democracia do que esta, de meu colega de estudos, brilhante inteligência, Pedro Demo. Em sua Introdução à sociologia (2002) diz enfaticamente: “Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Político é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima… demoSe ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”.

Logicamente, há políticos honrados, éticos e organicamente articulados com suas bases e com os movimentos sociais e com o povo em geral. Mas em sua maioria, os políticos traem o clássico ideal de Max Weber, a política como missão em vista do bem comum e não como profissão em vista do bem individual.

Já há decênios estamos discutindo e procurando enriquecer o ideal da democracia: da representativa, passar à democracia participativa e popular, à democria econômica, à democracia comunitária dos andinos (do bien vivir), à democracia sem fim, à democracia ecológico-social e, por fim, à uma democracia planetária.

Tudo isso se esfumou face aos ataques frequentes do atual presidente. Este pertence, primeiramente, ao âmbito da psiquiatria e. secundariamente, da política. Temos a ver com alguém que não sabe fazer política, pois trata os adversários como inimigos a serem abatidos (recordemos o que disse na campanha: há que se eliminar 30 mil progressistas). Descaradamente afirma ter sido um erro da revolução de 1964 torturar as pessoas quando deveria tê-las matado, defende torturadores, admira Hitler e Pinochet. Em outras palavras, é alguém psiquiatricamente tomado pela pulsão de morte, o que ficou claro na forma irresponsável com que cuidou do Covid-19.

Ao contrário, a política em regime democrático de direito supõe a diversidade de projetos e de ideias, as divergências que tornam o outro um adversário, mas jamais um inimigo. Isso tudo o presidente não conhece. Nem nos refiramos à falta de decoro que a alta dignidade do cargo exige, comportando-se de forma boçal e envergonhando o país quando viaja ao estrangeiro.

Somos obrigados a defender a democracia mínima, a representativa. Temos que recordar o mínimo do mínimo de toda democracia que é a igualdade à luz da qual nenhum privilégio se justifica. O outro é um cidadão igual a mim, um semelhante com os mesmos direitos e deveres. Essa igualdade básica funda a justiça societária que deve sempre ser efetivada em todas as instituições e que impede ou limita sua concretização. Esse é um desafio imenso, esse da desigualdade, herdeiros que somos de uma sociedade da Casa-Grande e da senzala dos escravizados, caracterizada exatamente por privilégios e negação de todos os direitos aos seus subordinados.

Mesmo assim temos que garantir um estado de direito democrático contra às mais diferentes motivações que o presidente inventa para recusar a segurança das urnas, de não aceitar uma derrota eleitoral, sinalizadas pelas pesquisas, como a Datafolha à qual ele contrapõe a imaginosa Datapovo.

A atual eleição representa um verdadeiro plebiscito: que forma de Brasil nós almejamos? Que tipo de presidente queremos? Por todo o desmonte que realizou durante a sua gestão, trata-se do enfrentamento da civilização com a barbárie. Se reeleito conduzirá o país a situações obscuras do passado há muito superadas pela modernidade. É tão obtuso e inimigo do desenvolvimento necessário que combate diretamente a ciência, desmonta a educação e desregulariza a proteção da Amazônia.

A presente situação representa um desafio a todos os candidatos, pouco importa sua filiação partidária: fazer uma declaração clara e pública em defesa da democracia. Diria mais, seria um gesto de patriotismo, colocando a nação acima dos interesses partidários e pessoais, se aqueles candidatos que, pelas pesquisas, claramente, não têm chance de vitória ou de ir ao segundo turno, proclamassem apoio àquele que melhor se situa em termos eleitorais e que mostra com já mostrou resgatar a democracia e atender aos milhões de famintos e outros milhões de deserdados.

Temos que mostrar a nós mesmos e ao mundo que há gente de bem, que são solidários com as vítimas do Covid-19, nomeadamente, o MST, que continuam fazendo cultura e pesquisa. Este será um legado sagrado para que todos nunca esqueçam de que mesmo em condição adversas, existiu bondade, inteligência, cuidado, solidariedade e refinamento do espírito.

Pessoalmente me é incômodo escrever sobre essa democracia mínima, quando tenho me engajado por uma democracia socioecológica. Face aos riscos que teremos que enfrentar, especialmente, do aquecimento global e seus efeitos danosos, cabe à nossa geração decidir se quer ainda continuar sobre esse planeta ou se tolerará destruir-se a si mesma e grande parte da biosfera. A Terra, no entanto, continuará, embora sem nós.

17
Set22

Precisamos voltar a falar dos criminosos e das vítimas da ditadura

Talis Andrade

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Brasil terá de voltar a falar de ditadura, de ditadores e de torturadores, ou assumir que é um país resignado, alienado e acovardado

 

por Moisés Mendes

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O presidente Gabriel Boric é apresentado como o grande perdedor do referendo que rejeitou a nova Constituição do Chile.

A mobilização contra a Constituição acordou direita e extrema direita, quietas desde as manifestações de rua iniciadas em outubro de 2019, que levaram à Constituinte e agora à frustração.

Tanto acordou que grupos pinochetistas foram às ruas, em 11 de setembro, no aniversário do início da ditadura, para enfrentar manifestantes de esquerda.

E o que fez o presidente? Anunciou que, ao contrário do que os fascistas pensam, eles não terão paz. E que o Chile continuará avivando a memória do que aconteceu na era Pinochet.

Como parte do que está sendo planejado para o aniversário do 50º ano do golpe, em setembro do ano que vem, Boric informou que desde agora o governo participa de uma nova empreitada.

O Chile vai em busca de pistas que esclareçam o que aconteceu com os 1.192 cidadãos e cidadãs até hoje identificados como desaparecidos em algum momento a partir de 1973. Mais de 500 eram crianças.

O Chile teve mais de 3 mil mortes e desaparecimentos. Na Argentina, foram mais de 30 mil, mesmo que esse número seja sempre questionado.

No Brasil, o saldo macabro é oferecido quase como um consolo por fascistas e historiadores condescendentes: 434 pessoas mortas e desaparecidas. .

Mas Argentina, Chile e Uruguai conseguiram, uns mais, outros menos, avançar na punição dos criminosos das suas ditaduras. O Brasil nada fez, por conta da anistia de 1979.

O ambiente que se vislumbra, com uma vitória de Lula, nada assegura de mudança na área da reparação judicial.

O Supremo já fechou todas as portas que poderiam levar à punição criminal de torturadores e assassinos ainda vivos.

Mas o futuro governo poderá oferecer, por gesto político, suporte para que se retome o que foi levado adiante pela Comissão da Verdade e outras iniciativas, para que os horrores da ditadura não sejam esquecidos.

Boric está assumindo com os chilenos, em circunstâncias desfavoráveis ao seu governo, um compromisso com a História.

Um novo governo democrático no Brasil, em substituição ao poder fascista de Bolsonaro, também terá que assumir compromissos.

Pela reabilitação do debate em torno do que foi a ditadura. Pelo fortalecimento de lutas esparsas que ainda resgatam essa memória.

Pelo apoio às energias e aos afetos de todos os familiares e amigos que persistem e pelo respeito a torturados, mortos e desaparecidos.

Um novo governo democrata terá de dar conta de demandas desprezadas e perdidas desde 2016.

O Brasil terá que voltar a dizer, sem medo, todos os anos e de forma permanente, como fazem os chilenos e outros vizinhos, que aqui houve uma ditadura sanguinária.

E reconhecer que a impunidade ajuda a explicar o horror que ainda enfrentamos até hoje.

O esquecimento sustentou a vida tranquila de ditadores e de 377 agentes públicos (militares, policiais e outros) envolvidos em crimes de lesa humanidade entre 1964 e 1985, como torturas, assassinatos e ocultação de cadáveres.

O esquecimento nos levou às crueldades e aos crimes do bolsonarismo e à estrutura militar que tutela e sustenta um genocida.

O Brasil terá de voltar a falar de ditadura, de ditadores e de torturadores, ou assumir que é um país resignado, alienado e acovardado.

O ditador Pinochet na visão de Chico Caruso | Acervo

12
Set22

Eletrochoque, vozes, paralisia: histórias de presos políticos em manicômios

Talis Andrade

Roberto Motta foi internado em Santa Catarina; Ivan Seixas, em São Paulo - Yasmin Ayumi/UOL

Roberto Motta foi internado em Santa Catarina; Ivan Seixas, em São Paulo Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

Amanda Rossi /UOL

Levantamento inédito do UOL descobriu 24 casos de presos políticos internados pela ditadura militar em instituições psiquiátricas. São 21 homens e três mulheres, em nove unidades da federação. O número pode ser maior que o identificado pela reportagem.

Abaixo, conheça mais sobre a história de alguns desses presos políticos. O UOL só publicou os nomes completos de quem já morreu ou, no caso de quem está vivo, com autorização da própria pessoa ou da família. Os demais casos estão listados apenas com as iniciais.

Dos 24 casos, pelo menos 22 foram submetidos a tortura em prisões comuns, antes de serem internados. É o caso de Paulo Benchimol, que passou a ouvir vozes parecidas "com [a voz de] um daqueles agentes que me interrogaram" e que diziam "que estava de volta para as mãos do diabo". Já S.R. perdeu a memória depois de dez dias de choques elétricos.

Nas instituições onde foram internados, alguns presos políticos continuaram a sofrer maus-tratos. Em Pernambuco, J.S. ficou "dois anos com dificuldades na fala e locomoção" devido à alta dosagem de medicamentos psiquiátricos que recebeu. No Rio, Solange Gomes foi tratada com eletrochoque e convulsoterapia (indução de convulsões).

Procurado, o Ministério da Defesa disse que "os fatos relativos ao período compreendido entre os anos 1964 a 1973 foram abrangidos pela Lei de Anistia".

 

Aparecido Galdino Jacinto, São Paulo

 

 

Aparecidão ficou sete anos no Manicômio de Franco da Rocha - Reprodução - Reprodução

Aparecidão ficou sete anos no Manicômio de Franco da Rocha

 

Lavrador analfabeto, Aparecidão —como era chamado— foi um líder religioso em Rubineia, interior de São Paulo. Em 1970, ele e seus seguidores se opuseram ao alagamento de suas terras para a construção da hidrelétrica de Ilha Solteira —obra da ditadura. Foram presos ao resistirem a uma abordagem violenta da polícia no templo onde se reuniam.

Segundo a Justiça Militar, Aparecidão tinha "ideias delirantes de cunho místico". Enquadradado na Lei de Segurança Nacional, foi condenado a dois anos de internação no Manicômio de Franco da Rocha. Acabou ficando sete anos.

Foi liberado após uma nova perícia médica declarar que não podia ser considerado louco por sua fé: "Pode ser classificada como delirante a ideia de um homem em [ser] benzedor, de pregar a paz, o bem, dizer que sua força era um dom que Deus lhe emprestava? Se assim fosse, a Justiça estaria abarrotada de feitos criminais contra o Papa, os cardeais, os bispos, os padres, os pastores, os médiuns e todos os mais que invocam o nome do Senhor."

 

S.R., Rio de Janeiro

 

Quando um preso político passava em frente à cela de S.R. na prisão de Ilha das Flores, Rio de Janeiro, ouvia dele um apelo: "Eu não agento mais". Pedia que denunciasse sua situação para o exterior, porque os militares queriam que relatasse fatos que não sabia. Era acusado de organizar o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.

Um dos militantes que conviveu com S.R. na Ilha das Flores incluiu seu caso em um texto de denúncia: "preso aos 20 anos, ficou 20 dias na solitária, espancamentos diários durante um mês; perda de memória depois de 10 dias de choques elétricos, pau-de-arara. Internado no Manicômio Judiciário devido ao seu estado mental".

Tortura e loucura - mapa da prisão política em manicômios - Arte/UOL - Arte/UOL

Internações ocorreram de 1964 até meados da década de 1970 Imagem: Arte/UOL

 

Nilo Sérgio Menezes de Macedo, Rio de Janeiro

 

Depois de um período de prisão em Minas Gerais, Macedo foi condenado a quatro anos de internação compulsória no Manicômio Judiciário Heitor Carrilho, no Rio. "Alegaram que eu estava com problemas mentais. É verdade que eu não estava bem, mas falar que eu estava maluco, de jeito nenhum", diz Macedo.

"O manicômio era um lugar infernal, um ambiente muito pesado. [Quem estava lá eram] pessoas com graves problemas mentais, que tinham cometido crimes comuns, como homicídio. Levei choque elétrico, tinha que tomar umas drogas muito fortes. Fiquei lá uns sete meses. Aí eu pensei: se eu continuar aqui, minha vida está ameaçada. Não vou suportar isso aqui. Aí, eu tentei fugir e me pegaram".

Após a tentativa de fuga, Macedo foi tirado do manicômio e mandado de volta para uma prisão comum, em Ilha Grande. "Foi o que me salvou".

 

Roberto João Motta, Santa Catarina

 

Advogado, Motta foi preso em Santa Catarina sob acusação de integrar o Partido Comunista Brasileiro. Em carta para a Arquidiocese de São Paulo, sua mulher denunciou "as torturas sofridas por seu marido nas mãos do exército e da polícia. Não suportando mais os sofrimentos, tentou por três vezes o suicídio. Foi então removido ao Manicômio Judiciário".

Por fim, a Justiça Militar autorizou sua transferência para uma clínica psiquiátrica particular, com custos pagos pela família, mas não revogou sua prisão —a família também teve que pagar despesas dos policiais que o vigiavam.

 

J.S., Pernambuco

 

Tortura loucura - Comissão da Verdade Dom Helder Câmara - Comissão da Verdade Dom Helder Câmara

Preso político relatou maus tratos durante tratamento psiquiátrico Imagem: Comissão da Verdade Dom Helder Câmara

 

Membro da ALN (Ação Libertadora Nacional), J.S. foi preso, torturado e enviado para tratamento psiquiátrico em diferentes instituições, sob escolta policial.

Em documentos enviados para a Comissão da Memória e Verdade de Pernambuco, relatou que recebeu doses muito altas de medicamentos psiquiátricos, tendo "quase morrido por overdose" e, em outra situação, ficado "dois anos com dificuldades na fala e locomoção".

 

Paulo Roberto das Neves Benchimol, Rio de Janeiro

 

Jornalista, Benchimol ficou preso na Ilha das Flores sob acusação de fazer parte do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).

Torturado, começou a ouvir vozes "dizendo que estava de volta para as mãos do diabo". "A voz é parecida com um daqueles agentes que me interrogaram. Algumas vezes a voz falava diretamente com o agente, me acusando, no exato momento em que o interlocutor também me acusava", disse Benchimol para os peritos que fizeram seu laudo psiquiátrico.

Foi mandado para o Manicômio Judiciário, onde foi "submetido a um tratamento psiquiátrico intenso", segundo laudo da época. Recebeu "uma série de oito eletrochoques, sendo que ainda não são visíveis as modificações no quadro depressivo que apresentou. A folha clínica ainda registra três tentativas de suicídio".

Depois da prisão, Benchimol foi para o Chile. Em 1973, com o golpe de Augusto Pinochet, foi detido e torturado no Estádio Nacional de Santiago. 

 

Solange Lourenço Gomes, Bahia e Rio de Janeiro

 

 

Tortura e loucura - Solange Gomes foi exibida nos jornais como 'terrorista arrependida' - Brasil Nunca Mais - Brasil Nunca Mais

Solange Gomes foi exibida nos jornais como 'terrorista arrependida' Imagem: Brasil Nunca Mais

 

Integrante do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), Solange estava sendo procurada quando começou a ter alucinações. Resolveu se entregar. Nos jornais da época, foi exibida como "terrorista arrependida", atraída para a subversão por "sexo". Na prisão, "começou a ser vítima de visões terroríficas". [Que infâmia! dos monstros da ditadura militar: atraída para a subversão por "sexo". Quando os militares praticavam estupros, todo tipo de sadismo sexual inclusive zoofilia, alguns tinham inclusive animais de estimação]

Em julgamento na Justiça Militar, foi considerada inimputável —ou seja, incapaz de responder pelos próprios atos— e condenada a um período de internação compulsória em instituições psiquiátricas. Foi tratada com eletrochoque e convulsoterapia (indução de convulsões).

Depois de ser posta em liberdade, não se recuperou. "Pude testemunhar seu enorme esforço para recuperar-se de grave quadro psiquiátrico, psicótico, consequência de sua prisão", disse seu marido para a Comissão de Desaparecidos Políticos. Solange suicidou-se em 1982 (Ainda faltavam três anos para terminar o atroz regime militar)

 

Vitor de Souza Couto, Rio Grande do Sul

 

Soldado da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Couto fazia segurança da casa de Leonel Brizola quando ocorreu o golpe militar. Depois que Brizola se exilou no Uruguai, Couto se apresentou ao quartel e foi imediatamente preso.

Expulso da tropa, foi internado no Manicômio Judiciário, de onde fugiu algumas vezes.

Em depoimento, disse que foi internado compulsoriamente sob a justificativa de que, após uma queda durante o serviço militar, "passou a sofrer de epilepsia". Em uma das fugas, foi para o Uruguai, onde tentou suicídio, "pois se encontrava desesperado, com medo de voltar ao Brasil e ser preso novamente".Número de casos pode ser maior que o identificado pelo UOL - Yasmin Ayumi/UOL - Yasmin Ayumi/UOL

Número de casos pode ser maior que o identificado pelo UOL Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

 

Manuel Domingos Neto, Ceará

 

Militante da AP (Ação Popular), foi preso e sofreu torturas físicas e psicológicas. Não podia dormir porque era acordado com pancadas ou com gritos de mulheres —que pensava serem de uma amiga de militância, também presa, ou de sua irmã, que os torturadores disseram estar "no pau".

Entrou "em estado de desespero e pensou em suicídio". "Eu estava muito frágil, com 40 quilos. Eu desmaiei e passei dez dias fora de mim, sem noção das coisas. Aí depois me levaram para o Hospital Militar, onde fiquei preso muitos meses", vigiado por homens armados.

Tal era "seu estado psíquico" que "teve que ingerir comprimidos de psicotrópicos em número de 20 diariamente".

 

Wesley Macedo de Almeida, Bahia

 

Tortura e loucura - Fotografia de Wesley Almeida em sua ficha na prisão - Arquivo Público do Estado da Bahia - Arquivo Público do Estado da Bahia

Fotografia de Wesley Almeida em sua ficha na prisão Imagem: Arquivo Público do Estado da Bahia

 

Estudante em Jequié, na Bahia, e um dos fundadores do cineclube da cidade, foi preso com colegas depois de "derramarem por toda a cidade verdadeira avalanche de panfletos subversivos". Mandado para Salvador, foi muito torturado. Sua família foi até a capital baiana para procurá-lo, mas Wesley não estava em nenhuma prisão. "Quando o encontraram, já estava no manicômio", diz um irmão mais novo.

Até hoje, precisa de tratamento psiquiátrico. "Antes da prisão, ele não tinha nada. Poderia até estar latente, mas desenvolveu na prisão", diz o parente. "A tortura o sequelou, é impossível o ser humano suportar o que ele suportou. De certa forma, continua a ser um preso político. Fica recluso, não sai de casa em virtude do trauma e da doença [psíquica]."

 

I.V., Rio Grande do Sul

 

Preso pela ditadura militar, foi mandado para o Hospital Militar de Porto Alegre para tratamento psiquiátrico, em 1970. "Na prisão, sentiu-se despojado de tudo, passava os dias chorando, com a cabeça entre as mãos, não se alimentava, não conseguia dormir", diz um dos documentos da Justiça Militar a seu respeito. "Vivia na expectativa de algo pior" e tinha "sintomas de forte depressão nervosa".

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