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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Fev21

A inacreditável brigada anti-corrupção da Petrobras

Talis Andrade

GDPAPE: Notícias

Por Luís Nassif

Assim como o general Eduardo Pazuello mostrou o despreparo da formação militar para temas de saúde, a ignorância acachapante de Zekner ajuda a demonstrar o despreparo de procuradores para temas corporativos.

No rastro da Lava Jato vicejou a indústria do compliance, a obrigatoriedade de grandes estatais de contratar escritórios de advocacia por honorários milionários, por imposição da operação.

Criou-se uma fonte de receita extraordinária para ex-procuradores. Aposentam-se, montam seus escritórios de advocacia e oferecem seus serviços de compliance. Sem conhecimento maior de modelos gerenciais, modelo de negócios, lógica empresarial, seu único papel é oferecer proteção, bom relacionamento com colegas da ativa que fustigam as empresas. Foi assim com o ex-procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, o ex-Procurador geral da República Rodrigo Janot e com o ex-procurador suíço, ligado à Lava Jato, Stefan Lenz. Este montou um site em português, oferecendo para empresas encrencadas sua rede de relações.

Aliás, a parte mais ostensiva dessa corrupção institucional, além da tentativa de apropriação dos recursos das multas das empresas, são os honorários milionários pagos à indústria do compliance. Sob influência direta da Lava Jato, a Petrobras contratou um escritório de advocacia americano para implementar um trabalho que já havia sido contratado do escritório Pinheiro Neto. E, nessa leva, foi entregue o cargo de diretor executivo de governança e conformidade a um ex-promotor capixaba, Marcelo Zekner, especializado em crimes de baixo escalão, e sem nenhuma noção sobre processos corporativos. A troco de quê um diretor sem a menor experiência corporativa? Obviamente, por sua rede de relacionamentos com os órgãos de repressão.

É o que se depreende de em entrevista ao Estadão, demonstrando um extravagante despreparo. Aliás, ele aproveita a entrevista para oferecer seus trabalhos profissionais, como “consultor estratégico” para implementação de sistemas de integridade nas empresas, “materializando aspirações de acionistas e de investidores”.

Assim como o general Eduardo Pazuello mostrou o despreparo da formação militar para temas de saúde, a ignorância acachapante de Zekner ajuda a demonstrar o despreparo de procuradores para temas corporativos.

Diz ele:

“Sou absoluto defensor da teoria do Estado mínimo. O Brasil, segundo o ranking da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), é um dos países com maior número de estatais do mundo: 418 no total. EUA tem 16. Reino Unido tem 16, Japão tem oito estatais e a Suíça só quatro. Aqui, a União tem o controle direto de 46 estatais”.

Não tem e menor noção de quantas estatais tem nos EUA. São 6.500 porque ele não sabe que lá não se usa a forma empresa e sim AUTHORITY para portos, aeroportos, agua e esgoto, metrôs, rodovias, usinas hidroelétricas, credito rural, estoques reguladores de petróleo (900 milhões de litros). É tudo “authority” mas a função é a mesma de empresa, é só forma jurídica. E é evidente que nos EUA tem corrupção.

Defende a política de enxugamento de gastos e de desinvestimentos de ativos “que estão desconectados do core Business da empresa”. Ou seja, conhecimento zero sobre o modelo de negócio de estatais de petróleo em países produtores, nos quais a integração entre prospecção, refino e distribuição faz parte da lógica do negócio. Para esse gênio, “sigo na linha dos países com os melhores índices de percepção da corrupção no mundo, que são países com estruturas administrativas enxutas, com poucas estatais”. Não tem a menor ideia sobre o papel de estatais em áreas estratégicas de países desenvolvidos, como energia. É apenas um vomitador de slogans sobre privatização, estado mínimo etc.

Sua defesa de sua madrinha profissional, a Lava Jato, tem a mesma cegueira ideológica. Para ele “usar o produto de um crime como fonte de informação e, para mim, algum muito mais execrável que o próprio conteúdo dos diálogos, ainda que fossem eles verdadeiros”.

 Em nenhum momento mostra o menor conhecimento da função econômica e social das estatais.

Em outubro, Zekner foi escolhido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, para estruturas os sistema de integridade da justiça brasileira. E mereceu um artigo laudatório consagrador – sobre seu grande trabalho, sobre o reconhecimento internacional etc. O único detalhe, que comprometeu os elogios, é que se tratava de um release da Agência Petrobras de notícias.

Aliás, além de slogans ideológicos, esse gênio do compliance oferece seus serviços nas grandes guerras de  “deslike” – disputa entre bolsonaristas e petroleiros em torno dos likes de um comercial da Petrobras.

O heróico ex-procurador entrou na disputa:

“Diante de uma orquestrada campanha de ‘dislikes’ no comercial da Petrobras, resolvemos promover uma contra-iniciativa do bem! Se você comunga dos propósitos de reconstrução da empresa que é orgulho nacional, por favor, deixe seu ‘like’ no vídeo”, escreveu ele.

Que a entrevista sirva de exemplo do despreparo desses ex-procuradores, que atuam como advogados de porta de cadeia, buscando empresas em dificuldades com a Justiça, não para implementar modelos de compliance – que não fazem parte de sua formação profissional -, mas bons relacionamentos com os investigadores. Zekner pediu demissão da Petrobras, mesmo antes do anúncio da substituição da presidência, porque acabou o tempo de seu padrinho político, a Lava Jato.

Artigo publicado originalmente no Jornal GGN /PRERRÔGDPAPE: Notícias

 
12
Mar19

Primavera Literária de 2019 lança discussões sobre o Brasil e o futuro da literatura

Talis Andrade
Primavera Literária de 2019 lança discussões sobre o Brasil e o futuro da literatura
 
Leonardo Tonus é escritor e professor de literatura brasileira na Sorbonne Université (Paris)Arquivo Pessoal
 

“Qual Brasil? Qual Literatura?”: este foi o lema escolhido para a 6ª edição do Printemps Littéraire, (Primavera Literária, em português), lançada oficialmente nesta segunda-feira (11) na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris.

A escolha por essas indagações refletem a preocupação de Leonardo Tonus, professor de Literatura brasileira na Universidade Sorbonne e fundador do evento, sobre os rumos da literatura e da liberdade de expressão em um país que adotou uma nova orientação política.

“Diante da situação que o Brasil atravessa atualmente, não só sob o ponto de vista político, mas também social e econômico, me pareceu necessário fazer uma reflexão sobre os caminhos a se trilhar na cultura e especificamente na literatura”, justifica.

Tonus vê um impasse no atual cenário brasileiro em relação à criação, produção e divulgação. A transformação do Ministério da Cultura em Secretaria, os questionamentos em torno da Lei Rouanet e a diminuição dos subsídios para instituições como a  Petrobras Cultural são citados por Tonus como exemplos de transformações que precisam ser debatidos profundamente durante o evento, que tem início em março e se estende até junho. “O campo literário se encontra em um impasse, e acho que ele terá que se reinventar nos próximos anos”, opina.   

A Primavera Literária surgiu em 2014 dentro da Universidade Sorbonne, em Paris, no âmbito do curso de literatura brasileira. Desde o início, lembra Tonus, o objetivo foi levar o evento e os autores que dele participam a outras instituições onde o português é lecionado.

Inicialmente expandida para os países limítrofes da França, a Primavera Literária aos poucos ganhou novas fronteiras e atravessou o Oceano Atlântico devido ao interesse manifestado principalmente pelo circuito acadêmico, seja para valorizar os departamentos ligados à língua portuguesa ou criar nova dinâmica para o ensino da literatura. Nesta edição, dois novos países acolhem o evento: Suíça e Canadá.

Estrangeiros e fake news na programação

Outra novidade de 2019 é a abertura para escritores estrangeiros que têm uma proximidade e algum tipo de vínculo com o idioma português. No ano passado,  o evento recebeu escritores portugueses por meio de uma parceira com o Instituto Camões, mas, desta vez, a expansão foi ainda mais ampla, atraindo para dentro da Primavera Literária autores que têm alguma ligação cultural e de escrita com o Brasil.

Nessa perspectiva, integram a programação nomes como a escritora italiana de origem somaliana Igiaba Scego, que publicou um romance sobre Caetano Veloso, e a franco-italiana Mia Lecomte, que faz um trabalho de literatura migrante, com autores brasileiros que escrevem em italiano.

“É interessante fazer esses diálogos transversais e o olhar externo tem muito a contribuir sobre a percepção do Brasil contemporâneo”, explica.

Durante os quatro meses de encontros em espaços universitários e até estabelecimentos de ensino secundário, mais de 50 escritores vão apresentar suas obras, participar de ateliês de escritura, trocas de experiências e emitir opiniões sobre temas diversos em palestras que trarão temas variados, da produção até o impacto das fake news na arte literária, com a presença de escritores e jornalistas.

“O impacto é generalizado. A produção de fake news está vinculada à capacidade da reflexão do sujeito e também ao cerceamento da liberdade de expressão. Se não há liberdade de expressão no jornalismo, será que vamos passar por esse mesmo processo na criação literária? Será que livros serão censurados ou proibidos pela instituição governamental ou pela sociedade civil? É uma questão a ser debatida”, defende Tonus.

 

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