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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Ago21

Xadrez da Tempestade Perfeita Contra Bolsonaro

Talis Andrade

 

por Luis Nassif /Jornal GGN


Forma-se a tempestade perfeita. E, desta vez, contra Bolsonaro. Aparentemente, o pesadelo bolsonarista entra na fase agônica. Em breve, será substituído por outros pesadelos, de um país que abdicou do senso civilizatório.

O jogo é simples de entender.

Em qualquer organização criminosa, a coesão depende da capacidade do chefe de se mostrar poderoso.  Quando começa a vacilar, ocorre o desembarque dos aliados de ocasião e, principalmente, daqueles envolvidos em ações criminosas.

Era essa a percepção de Bolsonaro, quando ampliou-se seu conflito com o Supremo Tribunal Federal (STF). Gradativamente, seus principais seguidores foram sendo engolfados por denúncias e ações judiciais – os irmãos Weintraub, Ricardo Salles, general Pazuello. A CPI do Covid acelerou o processo, denunciando os militares envolvidos na esbórnia da saúde.

Montou-se um cabo de guerra, tendo de um lado Alexandre de Morais, Ministro do STF, e de outro Bolsonaro. Entende-se por aí o desespero de Bolsonaro. Se ele não enfrentasse e vencesse a contenda, haveria a debandada de seu grupo.

No desespero, tentou de tudo. Apelou para as Forças Armadas, blefou o quanto pôde, fez paradas de motos, convocou seguidores para manifestações, valeu-se o quanto pôde do Gabinete do Ódio. Nada deteve a marcha do STF.

E aí revelaram-se dois Bolsonaros, o da realidade virtual e o do mundo real.

O da realidade virtual tem a assessoria profissional de Steve Bannon, no objetivo único de animar seguidores. 

O do mundo real é cercado de uma mediocridade ampla e irrestrita, de generais da reserva oportunistas, sem lastro intelectual e sem conhecimento político. 

Só um completo analfabeto político faria como o Ministro da Defesa, Braga Netto, de blefar na ameaça ao Congresso, e não ter mais nenhuma carta à mão quando Congresso e STF pagaram para ver.

Paralelamente, o governo Bolsonaro passou a ser totalmente desacreditado no front econômico. 

No início, Guedes se sustentou com sua conversa de vendedor de biotônico e sua disposição de entregar ao mercado os grandes negócios da privatização. 

Era uma maneira de disfarçar sua gritante anomia em relação aos problemas reais da economia.

Gradativamente, as magias de Bolsonaro e Guedes foram cansando por falta de inovação. 

Sempre a mesma coisa, Bolsonaro criando eventos para chocar e Guedes manipulando conclusões econômicas falsas. O avanço inexorável da realidade esvaziou ambos os discursos.

Agora se tem a derrota plena de Bolsonaro nas seguintes frentes:

  • perdeu a batalha para o STF, depois de uma tentativa desastrada de tentar individualizar os alvos – Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. Conseguiu a unanimidade do Supremo em defesa dos seus.
  • O blefe do impeachment de ambos os Ministros. Teve que voltar atrás na forma mais atabalhoada possível: em uma mesma live, dizendo-se aberto para rever a ambos e, ao mesmo tempo, reiterando as críticas. Um bufão!
  • O blefe da intervenção militar, claramente exposto pelo cantor Sérgio Reis. Bolsonaro só conseguiria mobilizar as Forças Armadas no bojo de grandes movimentações populares em defesa do golpe. Não conseguiu uma coisa nem outra. Já Sérgio Reis conseguiu um processo do qual não irá se livrar facilmente.
  • O blefe da ameaça de Braga Netto ao Congresso. Teve que aceitar uma convocação para uma audiência na qual ouviu de um deputado da oposição – Paulo Teixeira, do PT – que, se não acatasse a Constituição, seria preso.
  • A total desarticulação de Paulo Guedes com a reforma tributária, e tentando se equilibrar entre o auxílio-emergência – essencial para a recondução de Bolsonaro – e a Lei do Teto.
  • As declarações do presidente do Senado, que desceu do muro para atacar as ameaças às eleições.
  • O cerco implacável ao Procurador Geral da República Augusto Aras, obrigando-o a atuar com firmeza na denúncia dos quadros bolsonaristas que ameaçavam manifestações no dia 7 de Setembro.
  • Derretimento gradativo de sua popularidade.

Agora, o primarismo de Bolsonaro, que o habilita no máximo a jogos de porrinha, terá que enfrentar um xadrez complexo.

Se avançar mais, será impichado.

Se não avançar, perderá sua base.

Não tem a menor condição de propor um pacto nacional, por não ter dimensão política, nem credibilidade.

O pior é que, para ele, não há empate. Sendo apeado do poder, será julgado, condenado e amargará prisão por seus crimes. Não apenas ele como todos seus filhos.

Ele não tem nem dimensão política para negociar uma lei da anistia, igual àquela que preservou da Justiça militares sanguinários, que voltaram ao poder com ele.

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25
Jul21

As ruas uma muralha de resistência ao golpismo

Talis Andrade

Image

 

Guilherme Boulos no Twitter

 
Guilherme Boulos
São Paulo deu o recado. É Fora Bolsonaro! 

 

Image As ruas serão uma muralha de resistência ao golpismo de Bolsonaro. Não temos medo. O Brasil vai virar a página desse pesadelo!ImageO povo quer viver. Fora Bolsonaro!Image

Recife é Fora Bolsonaro com força!

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João Pessoa

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Goiânia

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21
Dez20

Deus o maior general

Talis Andrade

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por Fernando Brito /Tijolaço

- - -

O Brasil vive uma situação que nem o pior dos pesadelos poderia figurar.

Somos um país governado por um psicopata, cercado de generais-anões, e que conta com uma súcia de alucinados e uma falange de marombados valentões para fazer arruaças.

Imaginem que agora, para “provar” as sandices de Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo de que o “vírus chinês” é uma conspiração comunista, aquele brutamontes que quebrou a placa com o nome de Marielle Franco está contando uma história destas que parece ter sido contada por alguém que cheirou proteinato e injetou açaí na veia, ou que virou jacaré depois de tomar anabolizante.

marielle placa .jpg

 

Diz o tal Daniel Silveira, cabo da PM e deputado federal, que, quando esteve na China, a convite do governo chinês, foi passear na Grande Muralha e um agente do Partido Comunista disse-lhe:

“Não permitiremos outras culturas no Brasil além da nossa, vamos dominar o Brasil e com isso, o mundo.”

Vejam que enredo: o governo comunista o convida a ir passear na China e manda um agente lhe contar o plano secreto para “dominar o mundo”.

E o pior é que tem gente que ainda escreve que não vai acontecer porque ”temos o maior general de todos, o que nunca dorme e sempre está apostos para guerrear por nós: Deus!”

ribis- marielle consciencia negra quebra placa car

06
Ago19

‘Governo Bolsonaro é um pesadelo’, diz Sidarta Ribeiro, neurocientista

Talis Andrade

por Maria Teresa Cruz

Ponte

Cientista achou ‘estranho’ ser filmado por militares durante palestra e critica ‘polêmica’ sobre drogas: ‘farmácias vendem maconha há dois anos’

Sidarta Ribeiro fala sobre os cortes do governo federal em encontro na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul | Foto: SBPC/Jardel Ribeiro

 

Não faz nem um mês que o neurocientista Sidarta Ribeiro, um dos mais respeitados em sua área no Brasil, professor titular e vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), esteve em Paraty (RJ) divulgando seu novo livro “O oráculo da noite”, que fala de sonhos. Mas, para ele, no atual momento político que o país atravessa, tem sido difícil sonhar. “A gente está vivendo uma situação catastrófica para a ciência, a educação e o meio ambiente. Isso é um pesadelo, não é um sonho bom”, disse Sidarta, em entrevista à Ponte.

Na última terça-feira (24/7), conforme divulgado em reportagem da Ponte, Ribeiro estava fazendo uma apresentação sobre os riscos para a ciência e tecnologia diante dos cortes do governo federal que afetam em cheio a pesquisa no país, quando foi gravado por militares no auditório da (UFMS) Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. O pesquisador falava como coordenador da Comissão de Financiamento à Pesquisa e de Política Científica da SBPC (Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência), durante o 71º encontro anual da entidade. “Achei a situação inédita, me senti desconfortável pela forma com que eles estavam se comportando, mas mantive o que foi planejado”, afirmou.

Sidarta Ribeiro é cuidadoso ao fazer afirmações sobre a motivação da gravação, mas faz um alerta sobre a versão do Exército, de que os militares estavam na sala e fizeram a gravação por desejo e interesse individual. “A desculpa que eles deram não é implausível. Mas eu acho que se fosse o caso de atitude privada, eles teriam usado o celular para filmar e estariam na cadeira, não ficariam atrás e se locomovendo em cima das pessoas. Quando você está só interessado, você não está preocupado em documentar detalhes. Eles estavam tentando documentar em detalhes”, atestou.

Militares durante a apresentação de Sidarta Ribeiro na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul 

 

O neurocientista manifestou preocupação com as recentes decisões do governo Bolsonaro, que impactam a política de drogas, o livre debate e prevê um cenário catastrófico para a ciência e educação. “Eles não querem o debate. Para eles, o contraditório tem que ser exterminado”, critica. E diagnostica: “Avalio que a maconha para a medicina do século 21 é como o antibiótico para a medicina do século 20”.

Confira a entrevista:

Ponte – Qual a leitura possível do que aconteceu na última terça-feira na SBPC? 

Sidarta Ribeiro – Eu não tenho informação suficiente para saber, ter uma interpretação segura. Mas há três possibilidades. A primeira é considerar que o Exército está falando a verdade, que aqueles quatro agentes estavam lá como indivíduos privados, muito interessados no conteúdo da palestra. A segunda possibilidade é que eles estavam lá por orientação de algum superior para documentar o que era falado, o que acho que é mais provável devido a postura deles, os equipamentos que eles estavam usando, o posicionamento deles na sala, tudo que aconteceu lá sugere isso. A primeira é benigna, a segunda não muito e a terceira é pior, que seria para intimidar, para incomodar a gente.

 

Ponte – Antes de começar a sua apresentação você percebeu o que estava acontecendo ou só se deu conta depois?

Sidarta Ribeiro – Antes de eu começar eles já se posicionaram. Eu olhei, percebi, achei a situação no minimo inédita, já que nunca tinha visto nada parecido, mas, de novo: lá fora estava cheio de militares, eles estavam com um estande. A desculpa que eles deram não é muito crível, mas ela não é completamente implausível. Eu acho que se fosse o caso de atitude privada, eles teriam usado o celular para filmar e estariam nas cadeiras, não ficariam atrás, em pé, se locomovendo em cima das pessoas. Quando você está só interessado, você não está preocupado em documentar detalhes. Eles estavam tentando documentar em detalhes. Teve uma senhora que se levantou e falou que ela era dos anos 60, que só nos anos 60 acontecia coisas assim, se mostrou indignada. Eles ficaram aparentemente constrangidos, sentaram nas cadeiras, mas não foram embora e continuaram ali filmando.

 

Ponte – Você ficou constrangido, pensou em mudar alguma coisa do tema que iria falar?

Sidarta Ribeiro – Eu fiz uma apresentação que foi integralmente formada por documentos, que foram apresentados com imagem. Quando eu percebi aquela situação, me senti desconfortável, mas pensei: isso pode não significar nada. Até porque nós, cientistas, somos patriotas, assim como os militares são patriotas. Eu decidi que não ia fazer ironia, piada, nada, e nem diminuir a carga da crítica. Porque a crítica é forte, mas é uma crítica de toda a sociedade, desse grupo de trabalho que eu estava representando. Estava ali o Glaucius Oliva, a Helena Nader, entre outros e eu basicamente pensei: “vou manter o que foi planejado”.

 

Ponte – Seu último livro “O oráculo da noite” é sobre sonhos. Está dando para sonhar ultimamente?

Sidarta Ribeiro – A gente está vivendo uma situação catastrófica para a ciência, a educação e o meio ambiente. Catastrófica. Integrantes da SBPC foram removidos do Conad [Conselho Nacional de Políticas de Drogas] e do Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente]. Isso é um pesadelo, não é um sonho bom.

Sidarta Ribeiro traz previsões sobre a falta de investimento na pesquisa científica que trará consequências no curto e médio prazo | Foto: Divulgação/SBPC/Jardel Ribeiro

 

Ponte – Sobre essa extinção do Conad, quais as consequências possíveis?

Sidarta Ribeiro – O Conad já era um órgão em que já éramos minoria, até pela forma como ele era estruturado pela lei 11.343/2006. A sociedade civil tinha menos assentos que o governo. Ou seja, era um local onde não tinha maioria para ganhar nada, mas era um local para expressar ideias, para fazer o exercício do contraditório. No governo Temer não foi fácil nossa relação com o Conad. Houve dificuldade para indicar representante, existia uma má vontade, mas ainda assim nós tínhamos a nossa representação. Mais recentemente, já no governo Bolsonaro, eles aprovaram a nova política de drogas, basicamente de inspiração do Osmar Terra [Ministro da Cidadania], que é uma política de drogas regressiva na nossa opinião. No ano passado, a SBPC aprovou, por unanimidade, que a proibição de drogas é anticientífica e que nos deveríamos regularizar e regulamentar todas as drogas de acordo com seus potenciais benéficos e danosos. Nós éramos uma voz dissonante junto a outras vozes da sociedade, mas éramos minorias. Quando ele faz um movimento para expurgar a sociedade civil do Conad e do Conama, em grande medida, se trata de não ter o contraditório. Não se trata de vencer as discussões, até porque eles sempre tiveram maioria. Se trata de homogeneizar as opiniões, visões. Se trata de algo muito grave quando falamos em política pública. 

 

Ponte – Ainda sobre o debate das drogas, esse ano a Fiocruz divulgou uma pesquisa que ficou embargada no ano passado e que mostra resultados importantes, na contramão de algumas ideias do governo, que tentou desqualificar a instituição. Como vê isso?

Sidarta Ribeiro – A pesquisa da Fiocruz foi um levantamento muito amplo sobre o padrão de uso de drogas no Brasil e ele se segue a outros levantamentos anteriores. Se você observar os números, eles são todos compatíveis, não mudaram radicalmente. Essa pesquisa foi embargada no governo Temer e não tem nenhuma boa razão científica para isso, afinal foi feita com dinheiro público, melhores metodologias, os resultados são compatíveis com resultados anteriores, é bem consistente. O que pega nessa pesquisa é que ela demole a ideia de epidemia de drogas no brasil. Epidemia é uma coisa que se alastra rapidamente e o consumo de drogas não está se alastrando rapidamente pelo país. Isso não está acontecendo. Mas esse discurso de epidemia é para justificar essa nova política de drogas no país, que baseada na internação compulsória, que objetiva dar dinheiro para comunidades terapêuticas religiosas, uma espécie de Lei Rouanet para essas comunidades religiosas. E tem uma coisa grave: se você olhar os números, todo o auê que é feito em cima da maconha e crack, a prevalência dessas drogas é muito baixa. Se houvesse uma epidemia de drogas no Brasil, seria de álcool, já que 66% dos brasileiros já fez uso de álcool. A pesquisa foi embargada por questões ideológicas. 

 

Ponte – E a legalização da cannabis. A discussão atravessa governos, existe há anos e parece não caminhar, apesar de alguns tímidos avanços. A que atribui?

Sidarta Ribeiro – Se você for na farmácia, agora, e pedir um remédio chamado “mevatyl”, você vai ter ali um tarja preta importado que é composto de THC e CDB [Tetrahidrocanbinol e Canabidiol, compostos maconha]. Ele é uma espécie de maconha simplificada, só que ele custa R$ 2.800. Às vezes estou falando disso na universidade e algum aluno diz: “mas professor, isso é polêmico”. E eu rebato: não tem nada de polêmico nisso. Já esta vendendo em qualquer drogaria, há dois anos e ninguém sabe disso direito. As pessoas ficam surpresas. A gente não está discutindo a legalização da maconha. A maconha já está legalizada para quem tem dinheiro. A gente está discutindo o acesso para pessoas pobres e mesmo da classe média. Há três posições sobre o tema hoje no Brasil: tem a posição medieval do Osmar Terra, que é a do Bolsonaro, de que droga é uma coisa ruim, que tem que acabar com a droga, embora com certeza eles comprem remédio na drogaria. Tem a posição da Anvisa, que é a posição do mercado, que defende legalizar desde que seja passando por grandes empresas e encarecendo o produto. E tem a terceira posição que é a posição dos pais de pacientes, dos cultivadores cooperados, que mostra que o extrato da planta contém tudo que é necessário, ele é muito mais eficiente e mais barato. Aquele que custa R$ 2.800, vai sair R$ 30, R$ 50.  O cultivo cooperativizado está sendo utilizado e dando certo na Espanha. 

 

Ponte – Você é a favor de qual para a realidade brasileira?

Sidarta Ribeiro – Essa não é a posição da SBPC, é a posição do Sidarta, certo? Na minha opinião, eu, que sou neurocientista, coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, acho que a melhor solução é permitir o auto cultivo. Eu pessoalmente não sou contra e nem acho viável excluir o mercado, mas a gente tem que garantir o cultivo e produção da maconha medicinal no Brasil a um custo baixo. Se é o Estado que vai fazer isso, maravilha. Se ele não vai fazer, as pessoas têm que poder fazer. Como neurocientista avalio que a maconha para a medicina do século 21 é como o antibiótico para a medicina do século 20. Vai mudar tudo. Da oncologia à geriatria, passando pela neurologia. Aplicação para Parkinson, para câncer. É uma coisa importante demais para deixar apenas nas mãos de grandes empresas multinacionais. Não estou dizendo que elas não têm que participar, mas as pessoas não podem ser obrigadas a comprar delas. E tem algo a ser considerado, existe em curso uma guerra entre o governo e a Anvisa…

 

Ponte – Sim, o ministro Osmar Terra falou que vai acabar com a Anvisa….

Sidarta Ribeiro – Primeiro o governo falou em acabar com a Ancine, agora o Osmar Terra vem a público e fala em acabar com a Anvisa. No fundo, o que eu vejo é que a solução para eles é acabar com o debate, com o contraditório. 

 

Ponte – E podemos falar que isso é uma política de Estado ou mais uma visão individual de alguns personagens do governo?

Sidarta Ribeiro – É a política desse governo.

 

Ponte – Se eu te pedisse para apontar, na sua área de atuação, uma ou duas decisões do governo que considere mais perigosas, o que diria?

Sidarta Ribeiro – A forma com que eles lidam com o meio ambiente, a questão dos agrotóxicos, o desmatamento, a questão indígena, a venda das empresas brasileiras, como a Embraer, o tratamento da educação, como estão lidando com as universidades, o comportamento histriônico do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, esse decreto nº 666 de hoje que permite a expulsão de qualquer estrangeiro, que permite que qualquer estrangeiro seja extraditado baseado numa série de coisas, uma delas é denúncia de órgãos de inteligência. É difícil dizer o que é pior nesse governo. 

 

Ponte – Você mencionou que os cortes não começaram agora, mas que se acentuaram. A que você atribui esse agravamento?

Sidarta Ribeiro – O discurso que nós não temos dinheiro para educação é um discurso neoliberal. É um discurso de que nós somos um país fadado a vender commodities e força bruta de trabalho. Há alguns anos a gente vem vendo um cerceamento, mas agora os cortes são muito mais profundos e têm caráter de de opinião. Algumas universidades estão tendo reitores escolhidos sem a participação da comunidade acadêmica, que nem concorreram. Veio o decreto que o governo poderá interferir nos pró- reitores e reitores de centro. A autonomia da universidade está sendo fortemente ferida. Esse projeto “Future-se”, ele não é exatamente novo e não necessariamente ruim, mas  é muito ruim falar: “a gente vai inventar uma nova maneira de financiar a universidade desfinanciando ela”, descumprindo a constituição. Não dá para defender isso. Se a gente falasse: “Vamos cumprir a constituição e vamos aumentar o aporte através de outras estratégias”, aí tudo bem. Mas isso não é o que esta acontecendo. Estão querendo colocar as universidades sob o comando de organizações sociais, tirando a autonomia de gestão. É uma debate que começou mal. A questão da ciência é uma situação gravíssima. O FNDTC [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], que é a principal fonte de recurso [para desenvolvimento científico], está contingenciado em 90%. A lei não esta sendo cumprida. O CNPq vai parar em setembro, faltam R$ 340 milhões, que eles avisaram que não vão aportar. Serão cortadas 84 mil bolsas. Isso é um evento de catástrofe, de extinção da ciência brasileira e denota um projeto de desmonte do Estado.

 

Ponte – E motivado por quê?

Sidarta Ribeiro – O que posso especular? falta de patriotismo? interesses estrangeiros?

 

Ponte – Muita gente não consegue entender na prática como esses cortes afetarão no médio e longo prazo a vida das pessoas. Como explicar?

Sidarta Ribeiro – As pessoas não percebem que a ciência está em tudo. Elas não percebem que o pré-sal só foi descoberto por causa da colaboração da Petrobras com as universidade, elas não percebem que o programa de álcool passou por pesquisa, então tem carro flex por isso. Elas não percebem que a qualidade e expectativa de vida aumentaram e isso tem a ver com a saúde publica, com o SUS, com pesquisa e com as vacinas da Fiocruz. Elas não percebem que o próprio agronegócio só chegou onde chegou porque foi feita a pesquisa para fazer a fixação de nitrogênio com bactérias. O zika vírus, que a gente teve uma crise e em quatro meses o Brasil tinha dois artigos na Nature e na Science, e tinha a Celina Turchi [uma médica e cientista especialista em epidemiologia das doenças infecciosas] entendendo a relação com a microcefalia. A gente tem um parque tecnológico considerável e estávamos caminhando para sermos os melhores do mundo. De repente, tudo isso está sendo desmontado. A quem interessa? Não é aos brasileiros e brasileiras.

30
Out18

O pesadelo se tornou realidade", diz Libération sobre eleição de Bolsonaro

Talis Andrade

Por RFI

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O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, continua ocupando as páginas dos principais jornais franceses nesta terça-feira (30).

 

Em chamada de capa, Libération publica: "Bolsonaro, uma história de ódio". Para o jornal, "o pesadelo se tornou realidade no domingo: o maior país da América Latina elegeu um presidente de extrema direita, que nunca escondeu seu discurso de raiva e exclusão contra os militantes de esquerda, negros, mulheres ou da comunidade LGBT".

 

Libération traz um perfil de Bolsonaro, retraçando sua carreira na política. "Militar e nostálgico da ditadura, ele se revelou um parlamentar medíocre antes de começar a se aproveitar de programas televisivos para realizar ataques homóficos e racistas", escreve o diário. Após ter recebido pouco mais de 55% dos votos, no dia 1° de janeiro, "o Brasil vai assistir à passagem de poder de um corrupto que participou de um complô para depor a presidente Dilma Rousseff a um extremista que ostenta o desprezo pelas regras democráticas", diz Libération.

 

"Depois da vitória de Bolsonaro, o Brasil mais dividido do que nunca" é a manchete do Aujourd'hui en France. A correspondente do diário no Rio de Janeiro descreve a profunda polarização da sociedade brasileira: "enquanto uns comemoram o fim de uma classe política tradicionalmente corrupta (o quadrilhão do MDB na Câmara dos Deputados), outros temem a instauração de um regime autoritário", publica.

 

Com uma campanha eleitoral violenta, dois turnos marcados por declarações polêmicas do ex-militar, como quando Bolsonaro prometeu o exílio ou a prisão de seus oponentes, os eleitores de Haddad, preveem que o clima no país vai piorar nos próximos dias, publica Aujourd'hui en France.

 

Análise do programa de governo

 

 

"O Brasil se submete à autoridade de um presidente antissistema" é a manchete de capa do jornal Le Figaro. O diário destaca o que chama de "medidas choque" que o presidente eleito quer impor ao país, na área da segurança - com a liberalização do porte de armas e a redução da maioridade penal para 16 anos - e na economia, com a reforma da previdência e a privatização ou a supressão de cerca de 150 empresas públicas.

 

Em relação às questões ecológicas, Le Figaro diz que Bolsonaro parece ter revisto suas intenções de sair do Acordo sobre o Clima de Paris e de juntar os ministérios da Agricultura com o do Meio Ambiente, mas sem confirmar essa "marcha-ré". No quesito diplomático, Bolsonaro prometeu transferir a embaixada do Brasil em Israel à Jerusalém, a exemplo do que fez o presidente americano, Donald Trump.

 

Também se inspirando em Washington, pretende rever as relações com a China, o maior parceiro comercial do Brasil, além de evocar a retirada do Brasil do Comitê dos Direitos Humanos da ONU, além da extradição de Cesare Battisti à Itália.

 

Economia também no foco do jornal Les Echos, que se concentra nas propostas liberais de Bolsonaro, que vão ficar a cargo do economista Paulo Guedes "um monetário ultraortodoxo", classifica o diário. Les Echos destaca que a redução da interferência do Estado na economia, prevista no programa do ex-militar, é bem vista pelos mercados.

 

Mas se de fato ele vai conseguir aumentar em 20% a produtividade em quatro anos em uma das economias mais fechadas do mundo, resta esperar o início de seu mandato, em 1° de janeiro de 2019, escreve Les Echos.

 

 

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