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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

15
Jan22

'Pernambuco, meu país' tem três vencedoras Troféu Mulher na Imprensa

Talis Andrade

 

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As vencedoras pernambucanas do Troféu Mulher IMPRENSA: Rita Vasconcelos, Bianka Carvalho e Ana Dubeux. Imagem(Fim)

 

por Denise Bonfim /Portal Imprensa

Tudo em Pernambuco é melhor. Pelo menos é o que um pernambucano responde ao ser perguntado qual é o melhor país - sim, país. Pelo menos é assim que as camisetas e adesivos vendidos no estado o definem - para se viver. 

E nesta 15ª edição do Troféu IMPRENSA, o estado foi muito bem representado por três grandes vencedoras: Rita de Cassia Vasconcelos (Assessoria Corporativa/Fiocruz), Bianka Carvalho (Repórter TV/TV Globo) e Ana Dubeux (Liderança/Correio Braziliense). 

"O pernambucano tem essa história de ser o melhor. Eu tenho um artigo sobre 'República do Bolo de rolo', dessa mania de grandeza, digamos assim", brinca Ana, que comemora a qualidade do trabalho apresentado pelos representantes nordestinos.

"Em outras ocasiões, outros juris de premiações, fico sempre bem impressionada com a quantidade de trabalhos interessantes da região nordeste. Especialmente de Pernambuco, vemos coisas interessantes do Ceará. É curioso para mim, que estou em Brasília, que as premiações saiam do eixo Rio-São Paulo. Algumas ficam muito focadas. As vezes, Brasília aparece, mas o Nordeste é mais difícil", comenta.

Bianka, que se define como uma "apaixonada" por Pernambuco, considera o reconhecimento não só importante para o estado, mas também para as mulheres.

"Eu sou apaixonada pelo lugar que vivo. Aliás, todos aqui tem, tanto que a gente diz: 'Pernambuco, meu país' (risos). Fico muito feliz por ser mulher, jornalista, de Pernambuco e do nordeste. São barreiras que a gente vence, esteriótipos que quebramos. Tem muita gente boa aqui, e que lindo ver isso traduzido em um prêmio". 

Assessora da Fiocruz em Pernambuco, Rita aponta que  a premiação reconhece a qualidade do jornalismo feito na região. 

"É o reconhecimento das boas escolas de jornalismo que temos aqui. Um jornalismo muito crítico, muito ligado, no meu caso especialmente, da comunicação social, para além do jornalismo. O compromisso com o social. Com essa característica, não é surpreendente que tenhamos um bom trabalho". 

Durante a pandemia, a Fiocruz foi um dos órgãos mais importantes para o país, seja na produção das vacinas desenvolvidas pela Astrazeneca, ou nas pesquisas relacionadas ao vírus e nas informações prestadas à população sobre o vírus no geral.  

Para Rita, ter sido premiada mesmo estando longe da sede da instituição, que fica no Rio de Janeiro, tornou o prêmio ainda mais especial. 

"Fiquei mais feliz ainda por ser uma sede no Nordeste. A Fiocruz atuou a nível nacional com todas as regionais. Ter esse reconhecimento em uma regional, dentro de uma assessoria, normalmente no jornalismo isso é muito invisível. Para uma assessoria é difícil aparecer se não for para os pares. Foi uma grata surpresa. É um impulso para todas as regionais", conta. 

 

Diversidade

 

Neste ano, o troféu carregou a missão da diversidade. E para isso, é preciso "abrir o leque e mostrar o país em sua essência", como comentou Ana. 

"Falamos tanto em diversidade, em abrir o leque e mostrar o país em sua essência. Considero muito interessante que tantas pessoas concorram e possam competir em pé de igualdade. Nosso jornalismo está mais vivo do que nunca, bem representado em várias áreas".

Bianka ressalta que a diversidade deve se dar em vários aspectos. "Esse premio teve algumas felicidades, desde a quantidade de mulheres negras e essa retirada desse foco [regional]. Chega de coisas só centradas no sul e sudeste", comentou. 

"Para ter participação e até para educação popular ele tem que ser diverso, e a diversidade é de tudo, crença, cor, sexual, de ideias, e de local e região também. Por que não? Que bom que tem três pessoas aqui de Pernambuco, fico feliz. Espero que nos próximos anos a gente consiga ampliar mais, ampliar para o nordeste. Tem gente muito boa fazendo jornalismo aqui", finaliza. 

Na última sexta-feira, foi ao ar o programa comemorativo às vencedoras. Nesta edição, sob a bandeira da diversidade, o troféu tinha como objetivo celebrar as conquistas das vencedoras e aprender com elas como enfrentar os desafios da cobertura dos direitos humanos. Para assistir, clique aqui. A lista completa com todas as vencedoras você encontra aqui.

24
Nov21

Ele construiu uma usina e uma fábrica no sertão um século atrás. E foi assassinado

Talis Andrade

 

O Nordeste brasileiro poderia ter tomado um rumo diferente se Delmiro Gouveia não tivesse sido assassinado. Empresário ativo e ambicioso, ele foi o responsável por…

23
Nov21

Surto de lesões na pele que causam coceira: Paulista é terceira cidade do Grande Recife a notificar casos

Talis Andrade

Primeiros casos foram registrados em moradores do Recife — Foto: Arquivo pessoal

 

Por g1 PE

O município de Paulista é o terceiro da Região Metropolitana do Recife a registrar casos de pessoas com lesões na pele que provocam coceira, com três notificações. Até então, esse problema havia sido notificado no Recife, com 117 casos, e em Camaragibe, com 62 ocorrências. As prefeituras investigam essas ocorrências, que chegam a 182 nas três cidades.

Em 19 de novembro, o governo do estado emitiu uma nota técnica, recomendando a notificação emergencial de casos suspeitos. A prefeitura do Recife expediu um alerta epidemiológico, em 17 de novembro.

Desde então, trata o casos como surto de lesões cutâneas. De acordo com a prefeitura, essa denominação foi adotada "por causa do número de registros em série, em um determinado espaço de tempo".

Nesta segunda (22), a prefeitura de Paulista confirmou que registrou três casos na cidade. Todos eles são de homens, sendo um adolescente de 17 anos e dois adultos de 26 anos, que foram atendidos na Prontoclínica Torres Galvão.

Eles apresentaram sintomas na primeira quinzena de novembro. Os pacientes não apresentaram outros sinais além das lesões na pele e da coceira, de acordo com a gestão municipal.

Casos no Recife e em CamaragibeImage

Subiu de 88 para 117 no Recife e de 60 para 62 em Camaragibe, na Região Metropolitana, o total de notificações de pessoas com "lesões cutâneas a esclarecer". As duas cidades, que realizam investigação para identificar as possíveis causas do problema, atualizaram os números nesta segunda-feira (22).

Em ambos os municípios, os pacientes relataram ter muita coceira e "caroços" vermelhos na pele. A orientação para as pessoas que apresentem sintomas é procurar uma unidade de saúde.

Na capital pernambucana, os primeiros casos foram identificados em cinco crianças no Córrego da Fortuna e no Sítio dos Macacos, na Zona Norte do Recife. A cidade notificou moradores que relataram sintomas desde o dia 1º de outubro.

Por meio de nota, a Secretaria de Saúde do Recife explicou que esperava o aumento de notificações após o alerta epidemiológico emitido no dia 17 de novembro para que as unidades de saúde das redes pública e privada notifiquem, imediatamente, o Cievs, ao atender um caso suspeito.

Bairros com registros de casos

Recife: Guabiraba, Dois Irmãos, Várzea, Boa Viagem, Córrego do Jenipapo, Bomba do Hemetério, Encruzilhada, Torre, Graças, Morro da Conceição, Brejo da Guabiraba, Passarinho, Linha do Tiro, Boa Vista, Sítio dos Pintos e Imbiribeira.

 

Camaragibe: Alberto Maia, Aldeia, Alto Santo Antônio, Areeiro, Bairro dos Estados, Bairro Novo, Céu Azul, Estação Nova, Jardim Primavera, Nazaré/Inabi, Santa Mônica, Santana, Tabatinga, Timbi e Vale das Pedreiras.

Paulista: Vila Torres Galvão, Maranguape 2, Janga e Pau Amarelo.Sete pessoas da mesma casa tiveram os sintomas no bairro da Guabiraba, na Zona Norte do Recife — Foto: Reprodução/WhatsApp

 
20
Ago21

UMA LENDA CHAMADA TARCÍSIO PEREIRA

Talis Andrade

Pode ser um desenho animado de comida

 

 
A inspiração é a primeira coisa que fazemos quando chegamos nesse plano de existência e ela dói. Dói tanto, que choramos e esse é o primeiro sinal de existirmos como um ser vivo, independente.
 
É através do ar que atinge nossos pulmões pela primeira vez que inspiramos o mundo e tudo o que ele nos oferece. E isso tanto nos encanta, que começamos a respirar e a colocar nosso alento na Realidade, dando em troca da inspiração que recebemos, a exalação do nosso espírito.
 
O espaço de tempo que existe entre a primeira inspiração que tomamos e a última exalação que ofertamos, é o que chamamos VIDA e nesse intervalo deixamos as marcas da nossa presença entre os outros, carregando conosco apenas as lembranças desse espaço sem duração precisa, que reconhecemos como tendo sido nossa existência.
 
Conheci Tarcísio Pereira em 1970, quando inaugurou sua pequena livraria na rua Sete de Setembro. Ainda um jovem desenhista de 17 anos que ilustrava o material didático de um curso de inglês localizado no início daquela rua, encontrei na Livraria Livro 7 um espaço onde, além de livros que despertavam minha curiosidade, encontrava semanalmente O Pasquim, o jornal de humor e crítica que norteava o pensamento da contracultura brasileira.
 
Sendo uma pessoa gentil e de boa índole, Tarcísio fazia amigos com facilidade e eu tive a sorte de logo me tornar um deles. Acompanhei e vi crescer sua livraria até que ela foi parar no Livro dos Recordes, como a maior do Brasil, tanto em títulos como em área de exposição. E o Guinness não fazia nem ideia do tamanho e da importância que ela tinha para a Cultura de Pernambuco!
 
Tarcísio, além de um intelectual, era um mecenas das artes alternativas no Recife dos anos 70 e 80. Bandas, grupos de teatro, artistas plásticos ou performáticos, poetas, escritores, todos encontravam um espaço e um apoio no Casarão 7, que incluía além da livraria, uma loja de discos, um bar ao ar livre e um pequeno teatro.
 
Em 1981 Tarcísio me convidou para fazer a primeira ilustração para as camisetas do Bloco Nóis Sofre Mas Nóis Goza, que saía do palanque armado em frente à livraria e desfilava pelas ruas do centro do Recife no Sábado de Zé Pereira, descendo também nas ladeiras de Olinda durante o Carnaval, criando assim o mítico espaço geográfico carnavalesco que batizamos de RECIFOLINDA e que sempre constava nas ilustrações.
 
A partir daquele ano tínhamos sempre uma reunião em meados de janeiro para discutirmos os temas que poderiam ser apresentados nas camisas e eu tinha o maior prazer em traduzir nossas conversas em imagens que eram levadas no peito por centenas de pessoas, numa imensa alegria que ocupava toda a rua Sete de Setembro.
 
Meu carnaval sempre foi a saída do Nóis Sofre, onde encontrava antigos e novos amigos, todos sob o comando de Tarcísio Pereira, com sua barba pintada de azul, sua cor favorita.
 
Fiz ainda capas e ilustrações para a agenda Livro 7, além da ilustração para o cartaz do filme sobre o bloco realizado por Sandra Ribeiro e sou autor, com muito orgulho, do hino do bloco composto em 1986 (É de repente que eu caio no passo/e lhe dou meu braço/ e vou na brincadeira!/ A minha vida entra em descompasso/ lhe dou um abraço e canto a noite inteira/Saio na rua, cara de palhaço/vou nesse compasso até a quarta-feira).
 
Vários dos meus livros, shows musicais com minha banda ou com a banda do Papa-Figo, encontro de cartunistas como o debate “A Constituinte é uma piada?” durante o Festival de Humor do Recife em 1986, não poderiam ter acontecido em outro espaço cultural que não fosse a Livro 7.
 
Tive o prazer e a honra de ser o segundo convocado dele no seu canal de YouTube TARCÍSIO PEREIRA CONVOCA em 2017, um grande reencontro de memórias e conversas sobre a satisfação que sempre tivemos em fazer projetos juntos, trazendo alegria e cultura para nossa cidade e nosso estado.
 
As mudanças econômicas do Brasil dos anos 90 e a chegada das grandes redes de livrarias fizeram com que a Livro 7 fosse perdendo espaço até fechar no início deste século. Mas isso não fez com que Tarcísio abandonasse seus sonhos. Criou uma editora independente e atualmente trabalhava como Superintendente de Marketing da CEPE - Companhia Editora de Pernambuco e fazia parte do seu Conselho Editorial. Tudo isso, sem esquecer do Nóis Sofre ou deixar de fazer parte da vida cultural do Recife e de Pernambuco.
 
Há uns dois carnavais Tarcísio nos pregou um susto e na abertura da saída do bloco passou mal e nos deixou preocupados. Mas logo vieram as notícias de que estava bem. Não voltaria para a folia, mas certamente estaria presente no Carnaval do ano seguinte. E esteve.
 
Há dois meses, começou a ter problemas de saúde e foi diagnosticado como portador do coronavírus, sendo internado quando os problemas se agravaram, ficando por um longo tempo na UTI. As últimas notícias que tínhamos era de que estava se recuperando bem, o tubo de respiração já havia sido retirado e saíra da Unidade de Tratamento Intensivo e contávamos os dias para sua volta para casa. Infelizmente, não foi o que aconteceu.
 
Várias vezes desenhei Tarcísio como um Dom Quixote Cultural, pois essa era a sua verdadeira identidade. Um homem digno, que acreditava em seus sonhos e no seu trabalho, que buscava mostrar o que as pessoas que o cercavam tinham de melhor, oferecendo apoio, amizade e incentivo. Sempre gentil, sempre com um sorriso e uma voz mansa.
 
Sidarta Gautama nos ensinou que a vida flui e que tentar deter essa fluidez é a razão da nossa infelicidade. Todos os que nasceram irão encontrar o final da sua existência e isso, apesar de causar tristeza aos que ficam, é bom. Pois significa que cumprimos nossa missão da melhor maneira que pudemos e vivemos todos os dias que nos foram destinados.
 
Portanto, celebremos a vida de Tarcísio Pereira, nosso lendário Seu Sete, nosso amigo querido, que tantas alegrias nos deu. Lembremos do seu sorriso no meio do Carnaval, na sua disponibilidade e atenção para atender um cliente ou dar apoio a um artista, poeta ou escritor em início de carreira, da sua grandiosidade em nos oferecer um espaço tão maravilhoso como a Livraria Livro 7, por dividir conosco sua confiança, sua amizade e seu gosto pela vida por tantos anos.
 
Um abraço carinhoso e fraterno para sua irmã Suely, suas filhas, seu filho, seus netos, sua esposa Cecita e todos os que fazem parte da sua família.
 
Siga em paz pelo Caminho da Luz, Dom Tarcísio VII de la Mancha Gráfica.
 
Que sua presença continue conosco por muitos anos.Pode ser uma imagem de 1 pessoa, em pé, comida e texto que diz "junto RECIFE chey IS SOFRE... MAS NOIS G"Pode ser uma imagem de 2 pessoas, pessoas sentadas e comida
 
11
Ago21

Mudança do clima acelera criação de deserto do tamanho da Inglaterra no Nordeste

Talis Andrade

Área desertificada

Área desertificada no interior de Alagoas, onde fenômeno atinge 32,8% de todo o território estadual, o maior percentual em todo o Semiárido

 

 

  • por João Fellet /BBC News 

 

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em 9/8, reforça que o Brasil abriga uma das áreas do mundo onde a mudança do clima tem provocado efeitos mais drásticos: o Semiárido.

O relatório aponta que, por causa da mudança do clima, a região — que engloba boa parte do Nordeste e o norte de Minas Gerais — já tem enfrentado secas mais intensas e temperaturas mais altas que as habituais.

Essas condições, aliadas ao avanço do desmatamento na região, tendem a agravar a desertificação, que já engloba uma área equivalente à da Inglaterra (leia mais abaixo).

Criado na ONU e integrado por 195 países, entre os quais o Brasil, o IPCC é o principal órgão global responsável por organizar o conhecimento científico sobre as mudanças do clima.

O documento apresentado nesta segunda (AR6) é o sexto relatório de avaliação produzido desde a fundação do órgão, em 1988.

 

'Área seca mais densamente povoada'

"O Nordeste brasileiro é a área seca mais densamente povoada do mundo e é recorrentemente afetado por extremos climáticos", diz o relatório.

O IPCC afirma que essas condições devem se agravar: se na década de 2030 o mundo deve atingir um aumento de 1,5°C em sua temperatura média, em boa parte do Brasil os dias mais quentes do ano terão um aumento da temperatura até duas vezes maior.

Em várias partes do Semiárido, isso significa verões com temperaturas frequentemente ultrapassando os 40°C.

mapa da desertificação no Semiárido

 

Mapa aponta diferentes graus de desertificação no Semiárido

 

Hoje, segundo o IPCC, o mundo já teve um aumento de 1,1°C na temperatura média em relação aos padrões pré-industriais.

Para limitar o grau do aquecimento, é preciso que os países reduzam drasticamente as emissões de gases causadores do efeito estufa — como o gás carbônico, produzido pelo desmatamento e pela queima de combustíveis fósseis, e o metano, emitido pelo sistema digestivo de bovinos.

 

Morte da vida no solo

Para o meteorologista e cientista do solo Humberto Barbosa, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), temperaturas extremas põem em xeque a sobrevivência no Semiárido de micro-organismos que vivem no solo e são cruciais para a existência das plantas.

Há dois anos, Barbosa diz ter encontrado temperaturas de até 48°C em solos degradados no interior de Alagoas.

"A vegetação não crescia mais ali, independentemente se chovesse 500 mm, 700 mm ou 800 mm. Não fazia mais diferença, pois toda a atividade biológica do solo não respondia mais", afirma.

Sem vida no solo, aquela região se tornou desértica, como tem ocorrido em várias outras partes do Semiárido.

Na Ufal, Barbosa coordena o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), que desde 2012 monitora a desertificação no Semiárido.

Imagem de satélite

 

Imagem de satélite mostra núcleo de desertificação em Gilbués (PI), um dos principais no Semiárido brasileiro

 

Em 2019, o laboratório revelou que 13% de toda a região estava em estágio avançado de desertificação. Essa área engloba cerca de 127 mil quilômetros quadrados.

"Na nossa região, naturalmente não haveria um deserto, só que a gente tem hoje um deserto", ele diz.

Barbosa explica: segundo a ciência, climas desérticos (ou áridos) são aqueles onde o índice de chuvas é inferior a 250 mm por ano. Nessas condições, a sobrevivência de plantas e animais é bastante difícil — daí o aspecto vazio de boa parte das paisagens desérticas.

Mas essas condições climáticas não se aplicam a nenhuma região do Brasil, nem mesmo o Semiárido, que continua a receber entre 300 mm e 800 mm de chuvas ao ano.

Ainda assim, a mudança do clima e o desmatamento criaram paisagens desérticas na região.

"O solo dessas regiões foi perdendo a atividade biológica, embora as chuvas continuem acima do que se espera para uma região desértica. Esse é o paradoxo", diz Barbosa.

Ele afirma que, nesse estágio, é praticamente impossível reverter o fenômeno. "O custo da recuperação de áreas desertificadas é alto, e no Brasil não temos capacidade econômica para fazer esse tipo de investimento."

 

Maior seca da história

Entre 2012 e 2017, o Semiárido enfrentou a maior seca desde que os níveis de chuva começaram a ser registrados, em 1850. Essa seca, que é atribuída às mudanças climáticas, ajudou a expandir as áreas desertificadas.

Barbosa diz que a pandemia dificultou a realização de viagens para medir o progresso da desertificação após 2019, mas tudo indica que o fenômeno segue avançando.

A área já desertificada equivale ao tamanho da Inglaterra, cerca de três vezes o tamanho do Estado do Rio de Janeiro, ou a 23 vezes a área do Distrito Federal. Essas terras não são todas contíguas e ocupam diferentes partes do Semiárido. Enfrentam, ainda, diferentes graus de desertificação, embora em todas o fenômeno seja considerado praticamente irreversível.

Alguns dos principais núcleos de desertificação ficam em Gilbués (PI), Irauçuba (CE), Cabrobó (PE) e no Seridó (RN).

Imagens de satélite de Cabrobó

Imagens de satélite mostram avanço da desertificação na região de Cabrobó (PE) em 1969..

Imagem de satélite

 

... e em 2020

 

Imagens de satélite mostram como os núcleos têm crescido nas últimas décadas, enquanto as áreas verdes que os circundam vão rareando.

No núcleo de Cabrobó, que ocupa uma vasta área nas duas margens do São Francisco, as poucas manchas verdes na paisagem se devem a lavouras irrigadas com a água do rio.

Os Estados mais impactados pela desertificação são Alagoas (com 32,8% de sua área total afetada pelo fenômeno), Paraíba (27,7%), Rio Grande do Norte (27,6%), Pernambuco (20,8%), Bahia (16,3%), Sergipe (14,8%), Ceará (5,3%), Minas Gerais (2%) e Piauí (1,8%).

 

Região mais impactada do Brasil

A desertificação no Semiárido brasileiro foi citada pelo IPCC em seu relatório anterior, de 2019, que teve o pesquisador Humberto Barbosa como coordenador de um capítulo sobre degradação ambiental.

O relatório apontou que 94% da região semiárida brasileira está sujeita à desertificação.

"A região semiárida é a mais impactada (pela mudança do clima) no Brasil, e é a região onde você tem os índices de desenvolvimento humano mais baixos do país", afirma Barbosa.

Com o agravamento das condições climáticas, diz ele, tende a se acelerar o êxodo de moradores rumo a outras partes do país.

 

O papel do desmatamento

Para os cientistas, está claro que a desertificação tem sido acentuada pelas mudanças climáticas e tende a aumentar se as alterações continuarem se intensificando.

Porém, a degradação dos solos do Semiárido também se deve a outra ação humana: o desmatamento na Caatinga, o ecossistema natural da região.

Segundo Humberto Barbosa, ainda não se sabe quanto da desertificação se deve ao desmatamento e quanto se deve às mudanças climáticas. "É muito difícil separar os dois processos."

Quarto maior bioma do Brasil, abarcando 11% do território nacional, a Caatinga já perdeu 53,5% de sua cobertura original, segundo o MapBiomas, plataforma que monitora o uso do solo no país.

O bioma vem sendo destruído desde os primeiros séculos da colonização do Brasil, quando grandes áreas de vegetação nativa passaram a ser derrubadas para dar lugar principalmente a pastagens para bovinos.

A pecuária, aliás, é apontada com uma das principais causas para a desertificação no Semiárido.

Imagem de satélite

Imagens de satélite mostram avanço da desertificação na região de Irecê (BA) em 1984...

Imagem de satélite

 

...e em 2020

 

O pesquisador Humberto Barbosa explica que, muitas vezes, os bois são criados em áreas relativamente pequenas, compactando o solo ao pisoteá-lo repetidas vezes.

Com o tempo, nem mesmo o capim cresce mais ali, e a terra fica totalmente exposta à radiação do sol. A degradação se completa quando a chuva atinge a terra nua, levando embora os últimos nutrientes do solo.

Embora a destruição venha ocorrendo há séculos, mais de um quarto do desmatamento da Caatinga ocorreu após 1985, segundo o MapBiomas.

E neste ano, os índices de desmatamento deram um salto preocupante. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), até 1° de agosto, houve na Caatinga 2.130 focos de queimadas— o maior número em nove anos e uma alta de 164% em relação ao mesmo período de 2020.

Os focos se concentram no oeste do bioma, onde a Caatinga se encontra com o Cerrado na região de fronteira agrícola conhecida como Matopiba (nome formado pelas iniciais dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

Como em outros biomas, o fogo é geralmente usado na Caatinga para "limpar" uma área antes do plantio. Mas as chamas acabam degradando o solo e limitam sua vida útil para a agricultura, estimulando a busca por novas áreas quando ele se esgota.

 

Falta de políticas públicas

Humberto Barbosa diz que, apesar da gravidade da situação enfrentada pelo Semiárido e da perspectiva de piora, não há qualquer plano governamental para mapear a desertificação e combatê-la.

A última iniciativa do governo federal nesse campo, afirma, foi o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN), lançado em 2006, mas descontinuado.

Tampouco há um sistema nacional para monitorar o desmatamento na Caatinga e orientar ações de fiscalização e controle — diferentemente do que ocorre na Amazônia, que conta com os sistemas Prodes e o Deter, baseados em imagens de satélite.

 

E o futuro?

Segundo o relatório do IPCC, sem ações contundentes para conter a mudança do clima, a Caatinga e outras regiões semiáridas do mundo "vão muito provavelmente enfrentar um aquecimento em todos os cenários futuros e vão provavelmente enfrentar um aumento na duração, magnitude e frequência das ondas de calor".

"De forma geral, as secas se ampliaram em muitas regiões áridas e semiáridas nas últimas décadas e devem se intensificar no futuro", diz o texto.

Os maiores prejudicados pelas mudanças serão as populações locais: segundo o IPCC, elas tendem a enfrentar oscilações na quantidade e regularidade de água, o que impactará gravemente sua "segurança alimentar e prosperidade econômica".

 

01
Ago21

Coisas do semiárido

Talis Andrade

 

O Patrono dos Projetos de Irrigação de Pernambuco está vivíssimo. As sementes do sonho exportarão 1 bilhão de dólares de frutas, em 2021

 

por Gustavo Krause

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Este ano a fruticultura irrigada do semiárido nordestino exportará 1 bilhão de dólares. Podia ser mais. Falta dinheiro para infraestrutura. Mentira! Tem 6 bilhões para “irrigar” votos.

No dia 27/10/2015, visitei o ex-Deputado Oswaldo Coelho. Saúde abalada sem afetar a disposição de viver e acreditar no futuro. Obediente às prescrições médicas e aos padrões da conveniência, programei uma permanência em torno de 15 a 20 minutos.

Um largo sorriso de boas-vindas desfazia sintomas de fraqueza, reafirmava o vigor sertanejo e a crença visionária na viabilidade do semiárido tropical. Quando fiz menção de sair, escutei a voz suave da hospitalidade: “Não vai, agora, não. Menina, traz café, suco e um pedaço do bolo de rolo”. Marcas da família Coelho, mesa farta, coração generoso.

Osvaldo foi um inovador na administração pública pernambucana (Secretário da Fazenda, 1967-1971). Abriu as portas meritocráticas do concurso público, oportunidade que não desperdicei, e fincou os alicerces do aperfeiçoamento contínuo do capital humano. A conversa era a de um jovem idealista e saudável. Olho no futuro e nas causas que moveram sua vida pública: Educação, do fundamental, profissionalizante, à Universidade do Vale do São Francisco e o progresso que democratiza oportunidades, respeita a caatinga e as águas do São Francisco que dão mais do que recebem.

No dia 30/10/15, um presente: mangas, uvas, queijo de cabra e um cartão: “coisas do semiárido”. No dia 01/11/15, a dolorosa notícia: Doutor Osvaldo faleceu!

O Patrono dos Projetos de Irrigação de Pernambuco, por força da Lei 17.086/20, está vivíssimo. As sementes do sonho exportarão 1 bilhão de dólares de frutas, em 2021.

Os números revelam exemplos. O primeiro é a transformação de Petrolina, “uma povoação de passagem de Juazeiro”, no jardim das oportunidades: vitória do Político com causa.

O segundo desmente que a escassez dos recursos financeiros limitam os governos e consagra o princípio de que decisões estratégicas geram os recursos necessários.

No caso brasileiro, a política se transformou, com raras exceções, em instrumento de benefícios pessoais. É mentira que faltam recursos. Tem dinheiro para Fundo Eleitoral/imoral que reflete a política da miséria.

Os dados são uma chance histórica para que a ABRAFRUTAS, sob a lúcida presidência da Guilherme Coelho, mostre ao Brasil que no primeiro semestre o crescimento da exportações foi 30%, o faturamento 40% e 70% das exportações saem do Nordeste.

Competitivas, as frutas recebem certificação social, manipulação e sustentabilidade. No agronegócio, a fruticultura é o setor que mais emprega, inclusive, a mão-de-obra feminina, o que fortalece a renda familiar.

Orçamento é peça fundamental da democracia representativa. É hora de debater coisas sérias como “coisas do semiárido”.

 

17
Jun21

Efeito Lula faz deputados mudarem de nome em Pernambuco

Talis Andrade

NINGUÉM MERECE ESSE CANDIDATO – Contra o Vento

 

por Ricardo Noblat

- - -

Com o nome de Coronel Feitosa, ele se elegeu pela quarta vez deputado estadual pelo Partido Social Cristão (PSC) de Pernambuco. Tenente-coronel da reserva da Polícia Militar, hoje é o segundo vice-líder da oposição na Assembleia Legislativa.

O mais próximo da esquerda que ele chegou foi aceitar o convite para ser secretário de Turismo no governo de Eduardo Campos (PSB), neto do ex-governador Miguel Arraes. Há dois anos, apoiou a candidatura a presidente de Bolsonaro, e deu-se bem.

Seu colega, Delegado Lessa (PP), é deputado de primeiro mandato. Foi eleito defendendo três bandeiras: eficiência na segurança pública, combate à corrupção e os valores tradicionais da família brasileira. Natural que tenha apoiado Bolsonaro.

Lessa orgulha-se do seu trabalho à época em que era delegado da Polícia Civil em Caruaru, onde mora há 10 anos. Ele investigou corrupção envolvendo vereadores e desarticulou um esquema de extorsões que desviou recursos públicos de um hospital.

Agora, desconfiados de que os ventos possam soprar em direção contrária, Feitosa e Lessa se adiantaram e pediram à direção da Assembleia Legislativa de Pernambuco para ser chamados e oficialmente tratados por seus nomes de batismo.

Coronel Feitosa voltou a ser apenas Alberto Feitosa. Delegado Lessa, Erick Lessa. Caruaru fica a poucos quilômetros de Garanhuns, cidade onde nasceu Luiz Inácio da Silva, ou Lula. O apelido, mais tarde, foi incorporado ao seu nome.

Pernambuco sempre foi uma fortaleza eleitoral de Lula e do PT. E para 2022, não dá sinais de que deixará de ser.

Image

14
Jun21

Deter o fascismo já

Talis Andrade

Coisa de comunista - Vermelho

 

por Marcio Sotelo Felippe /Revista Cult

A classe média sente-se mal. Envenena-se pelo ressentimento.  Há uma crise econômica. Uniformizada, ela toma as ruas.  Um arranjo parlamentar põe no poder um governo de direita. A classe média não ganha nada, mas  o  grande capital é logo recompensado. Trabalhadores perdem direitos e salários. Politicas de proteção a idosos são revogadas. Cortes orçamentários afetam a saúde. Serviços públicos privatizados. Organizações criminosas  agem livremente com apoio ou omissão das autoridades  e mantém um vínculo com o Executivo.

Não, esse texto não é sobre o Brasil após 2013. Mas pode ser. O que ele diz se reproduz em tempos e lugares distintos. É uma apertadíssima síntese do Relatório apresentado por Clara Zetkin em 1923 ao Pleno Ampliado do Comitê Executivo do Komintern e versa sobre a  Itália no período 1919 – 1923, um ano depois da Marcha sobre Roma que conduziu Mussolini ao poder. Em 1926, as instituições liberais foram  definitivamente liquidadas e teve-se o primeiro regime fascista da História. Antes de 1926, o fascismo conviveu com elas.

 

Não é uma coincidência histórica

que o fascismo possa ser superposto

em sua gênese e coincidir

com o Brasil depois de 2013

 

As categorias fundamentais  são as mesmas porque decorrem da estrutura da sociedade burguesa: o grande capital, as camadas intermediárias (classe média ou pequena burguesia) e os trabalhadores. O momento em que há uma crise de acumulação ou de dominação. O irracional da classe média que, apesar de em grande parte prejudicada pelo grande capital, põe-se no plano ideológico ao lado das classes dominantes, na qual  se projeta. Quer mudanças sem mudar o sistema e, por isso, visceralmente anticomunista. Quando sai às ruas seu alvo são os trabalhadores, suas organizações políticas e movimentos. O seu mal-estar ou ressentimento transforma-se em ódio de classe contra os trabalhadores. Pulsões primitivas, pré-civilizatórias, passam a movê-las.

A permissividade faz-se anomia moral e tudo é possível. Na Itália em 1920 – 1921, no chamado biennio nero, reação ao biennio rosso de 1919-1920 de intensa agitação operária e clima insurrecional, havia cerca de 15 milhões de pessoas à mercê de bandos armados que estupravam, espancavam, aterrorizavam e matavam”, escreve Luciano Belochi em La rivoluzione mancata –  Italia 1919-1921. Nos primeiros sete meses de 1921, Gramsci computou 1.500 assassinatos, 40 mil aleijados, espancados e feridos,  dois mil exilados, vinte jornais destruídos, reporta Belochi, tudo com a omissão ou conivência do Estado.

Em outras fontes, um balanço da violência fascista no primeiro semestre de 1921 aponta 726 destruições, ataques a 217 jornais e tipografias, a 259 casas do povo, a 119 conselhos de fábrica, a 107 cooperativas, a 483 ligas de camponeses, a 48 sociedades de mútuo socorro, a 141 sedes do Partido Socialista Italiano, a 100 círculos de cultura, a 610 bibliotecas, a 28 sindicatos operários e a 653 círculos operários recreativos. Os protagonistas eram facilmente identificáveis: classe média e desclassificados de toda sorte, lúmpens recrutados dentre os trabalhadores, tudo com apoio e financiamento do grande capital e do latifúndio agrário.

Naquele momento de gênese do fascismo, Gramsci e Clara Zetkin criticavam concepções que o viam  como um fenômeno passageiro, contingência política controlável ou fadada a desaparecer. Entenderam que suas raízes eram próprias da estrutura da sociedade burguesa, do conflito de classes, o que depois Horkheimer dirá de outro modo: quem não quer falar de capitalismo deve calar-se sobre o fascismo.

 

A tragédia do fascismo italiano,

e depois o horror absoluto do

fascismo alemão, não foram

detidos quando era possível.

Sabemos o que custou

 

Vidas destroçadas, dor, sofrimento e mutilação de uma parte da sociedade. Foi o terror feito norma social, a ausência de limites morais que pouco a pouco se instalou na consciência de uma parte da sociedade e fez com que  outra parte se perguntasse depois como aquilo foi possível, sem se dar conta de que foi possível pela sua própria complacência, irracionalidade  e cegueira.

Estamos hoje no Brasil exatamente no ponto em que estavam Itália nos anos 1920 e Alemanha nos anos 1930: o momento de deter o fascismo, com o agravante de que conhecemos a História e o horror absoluto se mostra precocemente. Confirmaremos mais uma vez a frase de Gramsci – a História ensina, mas não tem discípulos?

Bolsonaro já fez do país um imenso gueto de Varsóvia, matando ao governar a favor da doença, matando pela fome e pela miséria. A responsabilidade por uma morte que se tem, por dever de ofício ou de Estado, a obrigação de evitar, é homicídio. Aos milhares, torna-se crime contra a humanidade. E continua a fazê-lo dia após dia sob o olhar complacente, omisso ou ingênuo das instituições – que podem estar prestes a ser destroçadas – e de forças políticas que pensam que 2022 fará com que tudo se resolva sem maiores problemas. Como na fórmula clássica do fascismo, Bolsonaro tem o apoio do grande capital. Seus porta-vozes, a grande imprensa, não deixam dúvidas: a primeira grande manifestação popular, o 29M, foi solenemente ignorada por ela. Esse é sempre o sentido do fascismo: serve ao grande capital, que relega ao abandono seus antigos representantes.

Todos os movimentos para fazer de 2022 uma convulsão política e uma tragédia social estão sendo anunciados. Não são bravatas. São um roteiro. São planos. Anunciá-los faz parte da mecânica do fascismo, que precisa de uma base de massa mobilizada. O fascismo não age sub-repticiamente, não dissimula, porque precisa capturar o irracional da massa.

A invasão do Capitólio quis ser a Marcha sobre Roma e quis ser o incêndio do Reichstag. A invasão do Capitólio está sendo preparada aqui com a denúncia do voto eletrônico, o mote para que a massa fascista dê nas ruas suporte para o golpe. Há um projeto no Congresso retirando dos governadores o controle das Polícias Militares. A Polícia Militar de Pernambuco atuou no sábado, 29 de maio, sob o comando de Bolsonaro, assim como a Polícia do Rio de Janeiro, no massacre de Jacarezinho. As milícias são fetos em gestação da SS alemã e das squadre d’azione italianas.

Não se enfrenta a barbárie do fascismo com uma inerte e ingênua fé no bom senso e nos princípios civilizatórios. Precisaremos de muitos 29 de maios para sermos verdadeiros discípulos da História. É nas ruas que se derrota o fascismo.

12
Jun21

Marco de Pernambuco

Talis Andrade

Marco Maciel deixa mulher e três filhos

Marco de Trabalho

Cristão piedoso, católico, Marco Maciel recusou ser vice de Tancredo Neves, porque sabia que ele estava mortalmente doente. 

Marco foi vice nos dois governos de Fernando Henrique.

Interinamente, entre 1995 e 2002, presidiu o Brasil durante um ano e 30 dias, e governou Pernambuco de 1979 a 1982.

Marco, Paulo Guerra e Agamenon Magalhães foram os três principais governadores de Pernambuco do Século Vinte.

Complicações pós-Covid-19

Marco faleceu neste sábado (12), aos 80 anos.

Foi diagnosticado com Alzheimer em 2014, e estava internado em um hospital de Brasília.  Segundo familiares, o político morreu em decorrência de complicações pós-Covid-19, doença diagnosticada em março.

Na ocasião, a esposa do político, Ana Maria Maciel, informou que estava sendo tratado em casa, com orientação médica, e se recuperou da infecção. Em maio, Maciel recebeu a segunda dose da vacina contra a Covid-19.

Marco político

Marco teve uma extensa e dignificante carreira política. Também foi deputado estadual e federal, secretário do Trabalho de Paulo Guerra, presidente da Câmara, senador, ministro da Educação e da Casa Civil. 

Ex-governador de Pernambuco, Gustavo Krause lamentou: "Hoje é um dia profundamente triste, um dia de perda, de dor, de sofrimento que já vem acometendo todos nós que somos amigos de sólidos laços de Marco Maciel. Sinteticamente vou dizer dele o que já disse em vida: Marco Maciel foi o ser humano menos imperfeito com quem convivi mais de 50 anos e deixou para cada um de nós um pedacinho da grandeza dele. Ensinou a todos nós. Ele não fazia amigos, ele conquistava corações".

"Agradeço a Deus, eu e minha família inteira, o privilégio de ter conhecido, convivido e aprendido com ele muitas coisas. Como disse o nosso amigo comum, Anchieta Hélcias, hoje de madrugada, Marco Maciel agora está na morada do grande amigo, Deus. Ele não pode ter outro destino se não o céu e ao lado direito de Deus Pai. Entre outras coisas,  era um homem de uma sólida fé", disse Krause.

"Não vou falar sobre a vida pública dele porque é mais do que exemplar, é um paradigma, é a referência e de conhecimento de todo o Brasil. E mais do que nunca, ele está fazendo falta", finalizou.

Marco Maciel assumiu a presidência da República 87 vezes. Reconhece Fernando Henrique: “Era o vice dos sonhos. Viajava e não tinha a menor preocupação, porque Marco era correto. E mais do que correto, minucioso, quase carinhoso. Por exemplo, muitas vezes me trazia algo para ler e marcava em amarelo para poupar o meu tempo. Ele era leal ”, afirmou o ex-presidente em depoimento ao documentário Marco Maciel – A Política do Diálogo, realizado pela TV Câmara em 2016.

O que mais chama a atenção da frase acima é que Marco Maciel e Fernando Henrique Cardoso passaram grande parte da vida em partidos de lados opostos. Maciel foi um tradicional quadro de siglas da direita – como Arena, PDS e o PFL – e Fernando Henrique, era considerado de esquerda até se tornar presidente da República, quando assumiu um perfil de centro-direita. As posições religiosas também eram diversas: Marco Maciel era muito católico e FHC agnóstico.

“Ponderado, tinha horror à crença ideológica cega e também à arrogância da razão. Homem de princípios, não desdenhava das orientações alheias. Construtivo na vida pública, derrubava barreiras, não construía muros que impedissem o diálogo”, afirmou Fernando Henrique, se referindo a Marco Maciel”, num texto intitulado Fé e Razão, uma das apresentações da biografia Marco Maciel – Um Artífice do Entendimento, de autoria do jornalista Angelo Castelo Branco.MARCO MACIEL: UM ARTÍFICE DO ENTENDIMENTO - CEPE Editora

A aproximação entre os dois ocorreu quando ambos eram senadores, e os apartamentos deles ficavam próximos em Brasília, o que faziam eles se encontrarem, “de vez em quando”, como lembra Fernando Henrique. Quando começou essa convivência, “Marco Maciel já se inclinava abertamente a ajudar o fim do ciclo político que se iniciara em 1964”, como disse FHC na biografia citada acima.

“Marco Maciel, Luís Eduardo Magalhães e Jorge Borhausen foram os primeiros a colocar a eventualidade de eu ser candidato a presidente da República”, lembrou Fernando Henrique no mesmo documentário. Os três foram dissidentes do antigo PDS, e passaram a fazer parte do Partido da Frente Liberal (PFL) que apoiou a candidatura de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Fernando Henrique também afirmou que, entre os políticos do PFL, o que tinha mais influência sobre ele era Marco Maciel, “que era discreto”. 

Ainda no livro de Angelo Castelo Branco, Fernando Henrique Cardoso revelou que, como presidente, foi “várias vezes ao encontro anual de deputados católicos, que Marco Maciel patrocinava em sua casa. Unia-nos o respeito às crenças e a vontade de que todos participassem da vida nacional”. E complementa: “a colaboração de Marco Maciel para o andamento das questões legislativas durante meu governo foi fundamental. Suas marcas na Lei de Arbitragem são indeléveis. Seus esforços para que se reconhecesse a função dos que faziam lobbies, sem que o fizessem ocultamente, são conhecidas”. Outra característica que Fernando Henrique cita de Maciel é a tolerância.

Ainda lembrando da sua gestão, Fernando Henrique revelou que Marco Maciel não descuidava “especialmente das coisas de seu amado Pernambuco”, sendo “inúmeras as vezes em que reivindicou uma estrada importante ou, sobretudo, a continuação do Porto de Suape”.

Mundanças no Sertão

Governador de Pernambuco, Marco idealizou e executou o Programa Asa Branca com a perenização de rios, construção de estradas e eletrificação, estimulando a agricultura, a pecuária e promovendo a melhoria das condições da vida no Agreste e Sertão.

Construiu mais de 50 barragens regularizadoras e sucessivas para perenizar 400 quilômetros de rios, nas bacias do Pajeú, Navio, Terra Nova, Brígida, São Pedro e Una.

Propiciou a introdução de mais de oito mil hectares às margens dos principais rios sertanejos.

Realizou estudos e projetos para a perenização de outros 850 quilômetros de rios.

Iniciou a execução do Canal Sobradinho/Pontal, para perenizar com água do São Francisco os rios Pontal e Garças.

Uma Nova Agricultura

Promoveu a introdução pioneira de uma nova cultura - a seringueira - para diversificação da agricultura na Zona da Mata, possibilitando a inclusão de Pernambuco no mapa da introdução da borracha.

Introduziu o sorgo granífero e forrageiro, uma nova cultura resistente `a seca, no Sertão e Agreste.

Criou a Semempe, a primeira empresa do Nordeste para a produção de sementes e mudas, passando Pernambuco a ser o maior produtor de sementes e mudas da região.

Reintroduziu a cafeicultura. A área de café plantada superou a soma das áreas plantadas nas duas últimas décadas. Em Brejão, foi instalada a primeira Estação de Pesquisa para o café em Pernambuco.

Pernambuco produziu, pela primeira vez nos trópicos, em escala comercial, sementes de cebola.

Introduziu o plantio de tomate industrial, passando Pernambuco a ser o segundo maior produtor do Brasil.

Após quatro séculos, promoveu a importação de novas variedades de mudas de coqueiro, para aumento da produtividade e diversificação da agricultura da Zona da Mata. Foram importadas 180 mil sementes de coco da Costa do Marfim.

Iniciou o programa de melhoramento genético do coqueiro, visando a produção anual de 450 mil sementes, tornando Pernambuco auto-suficiente, podendo, ainda, abastecer os Estados vizinhos.  

Promoveu o primeiro zoneamento florestal do Estado, permitindo o financiamento de projetos de florestamento e reflorestamento.

Modernizou e ampliou a Unidade de Beneficiamento de Sementes do semi-árido , na Ilha de Assunção no Vale do São Francisco, duplicando a sua capacidade de processamento de sementes melhoradas.

Introduziu na Vale do São Francisco o cultivo do alho.

Promoveu a pesquisa de novas variedades de alho precoce, tomate industrial e feijão irrigado, possibilitando a ampliação de safra do semi-árido.

Introduziu em campos experimentais novas alternativas agrícolas como: milheto, jojoba, guayule, maniçoba, ouricuri e pinhão. 

Foram distribuídas aos agricultores do semi-árido 1,2 milhões de toneladas de sementes de feijão e milho.

Pernambuco pela primeira vez produziu um milhão de mudas de frutíferas.

Construiu sete novos Postos de Resfriamento e Recepção de Leite nos municípios de Bonito, Cachoeirinha, Itaíba, Canhotinho, Correntes, Agrestina e Gravatá, além de modernizar e recuperar  a rede de postos existentes. A capacidade de recepção de leite foi ampliada para 100 mil litros por dia.

Foi lançada em Pernambuco, através da Cilpe, o leite B pasteurizado, iniciativa pioneira no Nordeste. (Continua)

 

 

 

 

 

 

 

09
Jun21

Oito grávidas foram mortas a tiros no Rio de Janeiro desde 2017

Talis Andrade

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Entre 15 baleadas, quatro mulheres estavam ‘em meio a ações policiais’, segundo levantamento da plataforma Fogo Cruzado

A morte de Kathlen Romeu, mulher grávida de 24 anos baleada nesta terça-feira 0 em uma operação da Polícia Militar no Rio de Janeiro, não é exceção.

A afirmação é da plataforma Fogo Cruzado, que compila dados referentes a tiroteios nos estados do Rio de Janeiro e Pernambuco.

Segundo o levantamento, iniciado em 2017, 15 grávidas foram baleadas na região da Grande Rio, sendo que oito morreram. Do total, quatro mulheres foram baleadas “em meio a ações policiais”, diz publicação da plataforma nas redes sociais.

 

Dentre os 15 casos, 9 bebês não resistiram, incluindo o filho de Kathlen. O último caso registrado até esta terça é de 2020, quando uma gestante foi baleada no pé por estar próxima a uma briga em um bar.

Em nota, a Polícia Militar do Rio de Janeiro afirmou que Kathlen “foi baleada durante um confronto entre traficantes e policiais militares”.

“Testemunhas serão ouvidas e diligências realizadas para esclarecer todos os fatos e identificar de onde partiu o tiro que atingiu a vítima”, finaliza o comunicado.

Publicado originalmente na Carta Capital.

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