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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

09
Abr21

Com 4.190 mortes em 24 horas, Brasil tem segundo pior dia na pandemia, e STF determina CPI da Covid no Senado

Talis Andrade

 

15
Mar21

Procuradores de Curitiba negam que "GM" grampeado seja Gilmar Mendes

Talis Andrade

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GOOD MORNING, CURITIBA

por Consultor Jurídico

Em uma nota sem assinaturas, o grupo de Curitiba autoapelidado de "força tarefa da lava jato", por meio da assessoria de imprensa da Procuradoria da República no Paraná, insinuou nesta segunda-feira (15/3) que o "GM" identificado em notícia da ConJur como "Gilmar Mendes" — alvo de possível grampo ilegal — seria "Guido Mantega". Em comunicação anterior, afirmou-se ser Mantega. Na nota, insinua-se apenas. 

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal,  é apontado como "GM" em centenas de diálogos. De todo material analisado até agora, Guido Mantega é tratado pelo nome completo.

A notícia inicial, atualizada por este texto, informou que o ex-juiz Sergio Moro teve acesso a conversas de "GM" e pediu para que os procuradores de Curitiba analisassem o material. A informação integra o lote de novos diálogos enviados pela defesa do ex-presidente Lula ao STF. 

Exemplos do uso de "GM" para designar Gilmar Mendes estão em situações como quando os procuradores de Curitiba criaram um grupo para atacar o ministro; em outra ocasião, quando Deltan elencou razões para pedir o impeachment; e, ainda, fazendo referência a um HC concedido por Gilmar a Paulo Preto, ex-diretor da Dersa.

O trecho não deixa claro se "GM" foi diretamente grampeado ou se foram escutadas conversas suas com algum investigado que teve o sigilo telefônico quebrado. 

Em 31 de agosto de 2018, Deltan Dallagnol, ex-coordenador lavajatista, encaminhou a colegas uma mensagem de Moro. "Prezado, amanhã de manhã dê uma olhada por gentileza no 50279064720184047000. Há algo estranho nos diálogos." O processo não está disponível.

Julio Noronha terceiriza o trabalho a Laura Tessler: "CF [possivelmente o ex-procurador Carlos Fernando dos Santos Lima] me mandou msg falando q a Rússia disse haver algo estranho nos diálogos do GM. CF disse ser urgente, para ver agora pela manhã. Será que você consegue ver?"

"Russo" e "Rússia" são como os procuradores se referem a Moro e à 13ª Vara Federal de Curitiba, que foi chefiada pelo ex-magistrado até o final de 2018, quando saiu para assumir o Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro.

O ministro Dias Toffoli também é citado. Em uma passagem, quando comentam sobre conversas interceptadas envolvendo investigados da Odebrecht, Noronha diz que um advogado identificado como "M" seria próximo de "Peruca". "Hummmm. Peruca pode ser o Toffoli. Foda heim", responde Dallagnol.

Gilmar e Toffoli lava jato organiza
Já é vasto o material apontando que os procuradores tinham uma obsessão pelo ministro Gilmar Mendes. Conforme mostrou a ConJur, os lavajatistas criaram um grupo no Telegram com o único objetivo de articular medidas contra o ministro; bolaram um manifesto contra ele; e disseram que era necessário "fazer algo com relação" ao magistrado do Supremo. 

O complô, quase sempre liderado por Deltan, não incluía apenas a "força-tarefa" de Curitiba, mas também as franquias criadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Até membros da Procuradoria-Geral da República participavam das movimentações articuladas no Paraná. 

Reportagem do El País, em parceria com o Intercept Brasil, revelou que os procuradores planejaram buscar na Suíça provas contra Gilmar. Segundo a notícia, os membros do MPF pretendiam usar o caso de Paulo Preto, operador do PSDB preso em um desdobramento da "lava jato", para reunir munições contra o ministro. 

A agitação não fica por menos quanto a Toffoli. Em entrevista concedida à CNN Brasil em dezembro do ano passado, o hacker Walter Delgatti Neto, responsável por invadir os celulares dos procuradores, disse que o plano do MPF em Curitiba era prender Gilmar e Toffoli

"Eles queriam. Eu não acho, eles queriam. Inclusive Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Eles tentaram de tudo para conseguir chegar ao Gilmar Mendes e ao Toffoli, eles tentaram falar que o Toffoli tentou reformar o apartamento e queriam que a OAS delatasse o Toffoli", afirmou o hacker. 

Uma conversa divulgada pela ConJur em fevereiro deste ano respalda a narrativa de Delgatti Neto. Em 13 de julho de 2016, Dallagnol disse que "Toffoli e Gilmar todo mundo quer pegar"

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25
Dez20

Fernando Haddad: No Brasil de Bolsonaro, faltam caixões, e dá muita raiva

Talis Andrade

Em seu artigo semanal para a Folha de S.Paulo, sábado (19), o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad critica o descaso do presidente Bolsonaro com o combate à pandemia da Covid-19 e as piadas equivocadas e escrachadas que faz para desestimular a vacinação dos brasileiros.

Haddad comparou o Brasil de Bolsonaro com Sucupira do prefeito Odorico Paraguaçu. “A ironia era que, em Sucupira, algo certo como a morte não acontecia. O Odorico de hoje se insurge contra algo incerto, mas que apareceu: a vacina. Faltavam cadáveres em Sucupira, e era divertido. No Brasil de Bolsonaro, faltam caixões, e dá muita raiva".

No Limite

por Fernando Haddad

“Na Pfizer, tá bem claro no contrato: nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral; se você virar um chimp virar um jacaré, é problema de você (sic)… —não vou falar outro bicho senão vão dizer que vou começar falar besteira—, ou se algum homem começar a falar fino”.

Bolsonaro, nessa reflexão, faz referência a possíveis metamorfoses que a vacina pode provocar. Por cautela, troca, de início, a palavra “chimp” por jacaré. Falsa cautela que não esconde a intenção, mas covardemente se protege, ao optar pela autocensura imposta (de fora), mas no fundo rejeitada.

Se começa mal, Bolsonaro faz questão de terminar escrachadamente pior, ao fazer menção a outro possível efeito colateral da vacina: afinar a voz dos homens.

Noutro dia, Bolsonaro fez referência ao tratamento da Covid com ozônio, que, segundo um correligionário seu, é aplicado pelo reto. Bolsonaro, perante apoiadores, ironizou a procura pelo tratamento. Afinou a voz e, sorrindo, disparou: “Estou com Covid, estou com Covid”.

As comparações entre Bolsonaro e Odorico Paraguaçu ganham destaque. As semelhanças do atual ministro do Turismo com Dirceu Borboleta acentuam as correspondências. Entretanto, como observou Eugênio Bucci, o carisma despudoradamente cômico do prefeito corrupto e truculento era o retrato da ditadura militar sisuda e burra que não se enxergava na ficção e, por consequência, não censurava a obra de Dias Gomes, para alegria do público.

Quando os polos entre ficção e realidade se invertem, o gênero literário também se transforma, da comédia para a tragédia. Na verdade, o fenômeno é mais complexo. Na ditadura, “os gêneros”, por assim dizer, estavam compartimentados, ou melhor, acomodados em distintas dimensões. Agora, tragédia e comédia estão reunidas na mesma pessoa, em busca de aprovação popular.

O humor que a isso se presta só pode ser aquele que reforça os estereótipos contra as vítimas históricas da selvageria brasileira. Não é o humor inteligente que ironiza a vilania dos poderosos. É a velha e sem graça piada racista, misógina, homofóbica, de classe, que busca legitimar pelo riso naturalizante a barbárie que nos assola.

A ironia da ficção era que, em Sucupira, algo líquido e certo como a morte não acontecia. O prefeito não conseguia inaugurar seu cemitério. O Odorico de hoje se insurge contra algo que era incerto, mas que apareceu surpreendentemente: a ciência nos ofereceu, em prazo recorde, não uma, mas várias vacinas contra o vírus letal.

Faltavam cadáveres em Sucupira, e era divertido. No Brasil de Bolsonaro, faltam caixões, e dá muita raiva.

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