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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

17
Jan22

'Parecia um museu de horror', diz delegado que encontrou arsenal nazista na casa de pedófilo

Talis Andrade

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O dono de tudo isso se chama Aylson Proença Doyle Linhares e tem 58 anos. Uma das provas encontradas pela polícia foi o passaporte dele, que tem registros de viagens todo ano para a Alemanha - algumas com meses de duração. Agora, a polícia investiga se havia uma organização por trás dele e se o material seria vendido.
 
O Brasil possui atualmente 530 células neonazistas já identificadas, de acordo com um levantamento atualizado mensalmente pela antropóloga Adriana Dias, da Unicamp. Dias é uma das principais autoridades nos estudos sobre grupos neonazistas no país.
 

Células neonazistas são grupos de ao menos três pessoas que se reúnem para difundir ideias e ações inspiradas na experiência nazista da Europa na primeira metade do século 20, quando Hitler ascendeu ao poder na Alemanha com forte discurso de ódio contra minorias e em defesa do nacionalismo.

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Em meio a investigações sobre grupos neonazistas, um nome esteve presente em diferentes momentos: Guilherme Taucci Monteiro.

"Ele é um ídolo para muitos adoradores de movimentos de apologia ao nazismo", diz o promotor Bruno Gaspar, que há meses vem apurando sobre o funcionamento desses grupos no país.

Taucci foi um dos responsáveis pelo massacre que matou dez pessoas na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, na manhã de 13 de março de 2019.

As apurações apontaram que esses grupos são compostos por pessoas de diferentes idades, inclusive adolescentes. Os membros compartilham, em redes sociais e aplicativos de mensagens, diversos tipos de conteúdos que divulgam ou instigam atos de discriminação e preconceito. Há, segundo a investigação, até mesmo conversas sobre compra de armas.

"Não tem somente um modus operandi, porque não existe hierarquia. O nazismo defendido por essas células nem sempre vem com a mesma roupagem. Alguns grupos ultranacionalistas defendem o separatismo, enquanto outros são basicamente racistas. Um ponto em comum entre todos é o antissemitismo. Eles realmente têm um ódio gigantesco contra o povo judeu e uma idolatria a Hitler", diz o promotor.

"Esse tipo de apologia é considerado crime. A Constituição estabelece a liberdade de manifestação de pensamento, mas não é algo absoluto. Deixa de ser livre a partir do momento em que existe um abuso da manifestação do pensamento. Quando existe esse abuso através do ódio ou da violência contra populações, a manifestação do pensamento deixa de ser livre. A própria legislação fala isso", declara Gaspar.

Foram cerca de sete meses de investigação até a Operação Bergon, que recebeu esse nome em alusão à freira francesa Denise Bergon, que desafiou o nazismo ao abrigar e salvar dezenas de crianças judias durante a Segunda Guerra.

 
06
Jan22

De coroinha a condenado por estupro, livro conta vida de coronel Chavarry

Talis Andrade

Coronel da PM Pedro Chavarry Duarte - Reprodução

Coronel da PM Pedro Chavarry Duarte

 

por Juliana Dal Piva /UOL

Um chorinho de bebê chamou a atenção dos vizinhos ao redor de uma casa em Bangu. Era manhã de 18 de março de 1983. Por uma fresta uma mulher viu que, de fato, uma criança estava sozinha deitada no chão de uma casa vazia que pertencia ao coronel Pedro Chavarry Duarte. Ao redor, o mato alto já incomodava os vizinhos há tempos. Ao ver a criança, decidiram entrar e lá encontraram uma menina nua, suja e já cheia de formigas que vinham dos cantos da casa. Horas depois, Chavarry seria surpreendido chegando na casa onde a bebê, uma menina de três meses, estava sozinha.

Esse foi o primeiro momento em que o coronel foi flagrado com um bebê. Depois disso, por 33 anos, ele molestou várias crianças. Em setembro de 2016, ele foi, finalmente, flagrado por dois policiais militares dentro de um carro no estacionamento de um posto de gasolina, em Ramos, na Zona Norte do Rio, ao lado de uma criança de dois anos, nua, que aparentava estar grogue.

A trajetória de Chavarry e as histórias de alguns de seus crimes foram reunidas no livro "O coronel que raptava infâncias" de Matheus de Moura, editado pela Intrínseca, e lançado nos últimos dias. Segundo Moura, existem ao menos oito casos citados nas investigações desde 1993. 

chavarry - Divulgação - DivulgaçãoCapa do livro "O coronel que raptava infâncias" 

 

"Ele foi flagrado com abandono de menor nos anos 1990. Nos meandros da PM, havia desde os anos 2000 a frase 'ah, o Chavarry a gente deixa'. Sabia-se pelo menos que ele tinha uma relação estranha com crianças, mas, ainda assim, deixaram ele passar livre, muito pelo capital social que foi acumulando, ao alinhar-se com membros do alto comando, da igreja católica e da política carioca", contou o autor.

Chavarry chegou a ser condenado em primeira instância pelo caso em 1993, mas depois, em segundo grau, a sentença foi reformada e ele foi absolvido, em 1994.

Ao ver a notícia do caso, em 2016, Moura, ainda estudante de jornalismo, decidiu investigar o caso. Em seu livro, é possível conhecer um pouco das origens e da família do militar e entender um pouco da construção psicológica dele.

A narrativa percorre as origens bascas da sua família e um desempenho escolar pífio de Chavarry.

Chavarry cresceu em uma família humilde no Rio de Janeiro, nos arredores da Avenida dos Democráticos, em Bonsucesso, na Zona Norte, da capital. Ele chegou a ser coroinha da Paróquia Nossa Senhora do Bonsucesso na infância e depois seguiu carreira na Polícia Militar.

"A maior influência, muito provavelmente, foi no desenvolvimento de uma moralidade hipócrita cristã", contou Moura.

Para entender em profundidade, Moura resgatou os primeiros processos a que Chavarry respondeu e também reuniu mais de vinte e cinco horas de entrevistas que contam a sua escalada profissional, marcada por ações que, em tese, eram pautadas por bandeiras de assistência social.

Chavarry escolhia crianças muito pequenas, ainda na primeira infância, e com um perfil semelhante: todas oriundas de famílias em condições de extrema pobreza. Ele se apresentava como uma figura de reputação inquestionável. Era um homem branco, rico e benquisto dentro da corporação militar.

Assim, Chavarry encontrava suas vítimas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, lugares onde o poder público não tem interesse.

Mulheres com filhos pequenos, às vezes recém-nascidos, o procuravam por indicações de que ele poderia ajudá-las a trabalhar e conseguir assistência financeira e, acima de tudo, alguém para cuidar de suas crianças em uma suposta creche. Jamais se descobriu, no entanto, o endereço dessa instituição.moura - Divulgação - Divulgação

Matheus de Moura, escritor e jornalista 

 

Há suspeitas de que ele também pudesse atuar vendendo bebês para processos ilegais de adoção.

Quando Chavarry colocava as crianças em seus carros de luxo alugados, custeados com dinheiro público, as mães não sabiam para onde elas eram levadas ou o que acontecia durante as muitas horas de ausência. Até a noite em que uma atendente de lanchonete, moradora da comunidade Uga-Uga, se deparou com a insólita cena no estacionamento do posto de gasolina, em setembro de 2016, o que resultou na denúncia à polícia.

Em 2017, o coronel foi condenado a 11 anos de prisão por estupro de vulnerável e corrupção ativa. Ao ser flagrado com a menina em 2016, ele chegou a oferecer dinheiro aos policiais militares que o prenderam em flagrante.

 

06
Jan22

Livro documenta elo entre miséria e exploração de crianças

Talis Andrade

(foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Mães pobres entregavam crianças para coronel que prometia ajudá-las a conseguir trabalhar

Logo no início de “O Coronel que Raptava Infâncias”, Matheus de Moura apresenta seu protagonista, Pedro Chavarry Duarte, como um homem da igreja, filho preferido entre quatro crianças, aspirante a policial militar. Mas antes Moura descreve uma cena: Duarte, aos 65 anos, está se entregando à polícia, acusado de abusar sexualmente de crianças e tentando usar o momento da prisão para influenciar o que aconteceria logo depois.

Amazon.com.br eBooks Kindle: O Coronel Que Raptava Infâncias, de Moura,  Matheus

Provavelmente o leitor já sabe que o protagonista é acusado de sequestrar e abusar de crianças tão novas quanto um bebê de três meses. Um crime tão terrível que é difícil para qualquer um imaginar a violência que ele representa. Mas disso, Moura pausa a história principal para te mostrar as pessoas. Chavarry e suas vítimas.

Um dos principais atrativos da literatura dedicada a crimes reais é de dar uma terceira dimensão a personagens reais envolvidos num drama. O livro de Moura faz isso e mais: consegue desenhar o emaranhado em coloca miséria, poder, dinheiro e abuso de crianças juntos. O personagem dele construiu cuidadosamente uma imagem de caridoso, disposto a ajudar e aproveitou o poder tanto da farda quanto do dinheiro para abusar da confiança de mulheres pobres que viam nele a única ajuda possível para trabalhar e ter quem cuidasse de seus filhos.

O jornalista, que se interessou por Chavarry ainda na faculdade de jornalismo, levou cinco anos para apurar como o coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro se tornou um homem santo, caridoso, a quem mães pobres procuravam para pedir ajuda. E como ele usava isso para convencê-las a deixar as crianças com ele, sem perguntar, mas já respondendo aqueles que muito rapidamente questionam onde estavam as mães quando uma criança é descoberta vítima de abuso.

Na trilha do coronel, que em 2017 foi condenado a 11 anos de reclusão por estupro de vulnerável e corrupção ativa, Matheus encontrou sofrimento e muitas histórias mal explicadas. A mais chocante é de Sônia Meirelles, uma mulher pobre de vida difícil e problemas graves de saúde que acusava Chavarry de ter levado embora uma de suas filhas. Com muitos filhos e poucos recursos, ela procurou ajuda do policial, que levou a menina ainda bebê para um suposto lar.

Mas ela se arrependeu e pediu a criança de volta. Chavarry nunca a devolveu. Tentou até entregar outra criança para ela. A falta de informações sobre o destino da menina levou Sônia à loucura e ao suicídio. A tragédia da família não parou aí. Outras duas filhas de Sônia são as únicas a relatar uma lembrança da infância dos abusos de Chavarry. As meninas, que ficavam com o policial militar sob a desculpa de estar ajudando a mãe delas, recordam de estarem no chão e verem o militar nu em pé, entre elas.

O grande acerto de Moura foi produzir um livro honesto, construído a partir da apuração, sem grandes rompantes literários nem de liberdade poética. A narrativa é bem construída e apesar da fartura de personagens, é fácil acompanhar todas as histórias, inclusive algumas do próprio Rio de Janeiro, com personagens históricos como o jornalista Tim Lopes e o bicheiro Castor de Andrade, e da região de Bangu, área de atuação de Chavarry.O coronel Chavarry (segundo da esquerda para a direita e de cinza) ao lado de Flávio Bolsonaro

Matheus não ambicioso. Ele promete contar de um criminoso. E entrega isso. Mas também não há com terminar a leitura sem a clara percepção de que sem tantos outros crimes, corrupção, decisões erradas o coronel não teria marcado a vida de suas vítimas. E quantos outros crimes aconteceram justamente por disso?

Coronel estuprador tinha pose de homem de família e experiência na PM -  Metrópoles

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