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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

26
Fev20

Bolsonaro convoca manifestação golpista por se sentir em processo de isolamento acelerado

Talis Andrade

 

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COLOQUEMOS OS PROBLEMAS EM FILA PARA QUE MARCHEM DE FORMA ORGANIZADA:

Por Gilberto Maringoni 

1. OS BOLSONARIERS (corruptela de farialimers) não estão convocando sua Marcha sobre Roma dia 15 de março por causa do orçamento impositivo do Congresso, que trava o livre manejo de parte das verbas públicas pelo Executivo. 

Os bolsonariers – a começar pelo presidente da República - convocam a manifestação golpista por se sentirem em processo de isolamento acelerado.

2. A SEMANA ANTERIOR AO CARNAVAL foi muito ruim para a pátria bolsonárica. 

Ela começou com a repulsa geral – de lideranças congressuais aos partidos de extrema esquerda, passando pela mídia, setores empresariais, ministros do STF e ativistas sociais – às agressões grotescas do miliciano-em-chefe à jornalista Patrícia Campos Mello.

3. QUASE CONCOMITANTEMENTE, os petroleiros obtiveram duas vitórias fundamentais: a suspensão das quase mil demissões na Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR) e a reabertura de negociações com a Petrobrás, no TST. É algo muito significativo em tempos de destruição do movimento sindical.

4. NOS MESMOS DIAS, O BC divulgou os resultados da balança de transações correntes de janeiro. 

Segundo O Globo, “As contas externas do Brasil registraram déficit de US$ 11,879 bilhões em janeiro deste ano, com aumento de 31,3% na comparação com o mesmo mês de 2019”. 

Foi o pior resultado desde 2015, puxado pelo déficit na balança comercial. 

A balança de transações correntes contabiliza a balança comercial, a balança de serviços e as transferências unilaterais. Ou seja, o que entra e sai do país em termos monetários.

5. APESAR DO QUADRO de quase estagnação interna – com possibilidades de voo de galinha ao longo do ano -, as importações cresceram. Isso se dá pelo fato de a indústria brasileira – ou o que resta dela – trabalhar cada vez mais com componentes e insumos importados. 

É uma piora estrutural da economia. Caso retomemos o crescimento, tais importações tenderão a aumentar, agravando o déficit. 

Isso com uma taxa de câmbio que abriu nesta quarta (26) a R$ 4,42, o que torna as importações mais caras.

6. OBSERVE-SE AQUI A CONSTATAÇÃO de que a saída de dólares do Brasil alcançou US$ 44,7 bilhões em 2019, como divulgado no início de janeiro. Trata-se do maior volume de recursos retirados do país em 38 anos.

7. VAMOS ADIANTE. O megamutirão bolsonarier pela legalização da versão nacional das SA (Sturmabteilung), as tropas de assalto nazistas, deu com os burros n’água. O Aliança pelo Brasil, agremiação da pátria bolsonarier conseguiu validar apenas 0,6% das assinaturas coletadas, após dois meses de frenética agitação em cartórios amigos. 

O Tribunal Superior Eleitoral validou 2,9 mil assinaturas de 492 mil necessárias para legalizar o partido.

8. O ROL DE FRACASSOS OFICIAIS não parou por aí. Foram desmascarados, pela ação corajosa do senador Cid Gomes (PDT-CE), os incentivos a motins das forças de segurança patrocinados pelo círculo próximo de aliados do miliciano-em-chefe.

9. NESSA CONTA ENTRA o affair Adriano Nóbrega, arquivo valiosíssimo, flambado em obscura ação da PM baiana em associação à Polícia Civil do Rio de Janeiro. Suspeito pelos laços com a família real, o assassinato do matador profissional seria objeto de interesse do clã ora no poder.

10. COMO COROAMENTO MAGISTRAL da perda de credibilidade governamental, tivemos o Carnaval, repleto de alusões nada edificantes aos meliantes espalhados por palácios e pela Esplanada dos Ministérios, com direito a transmissão quase em rede nacional.

11. DIANTE DESSA COLETÂNEA de más notícias, Bolsonaro e os seus agem de forma absolutamente destrambelhada. 

É incrível perceber que nem ele e nem o general Heleno, o monstro de Porto Príncipe, conseguem fazer o que qualquer comandante responsável de tropa faria: avaliar as forças disponíveis, o efetivo inimigo, o terreno e as condições de batalha e traçar uma ação racional, na tentativa de chegar à vitória. Mais fácil rosnar “foda-se”.

12. AGEM COMO GAROTOS que jogam pedra na vidraça e saem correndo. Diante de um problema, aparentam tomar a ofensiva – xingando, gritando ou fazendo bananas -, mas fogem para a frente. Arreganham os dentes e latem, sem saber como darão o passo seguinte. Devem ser militares de araque.

13. A REDE BOLSONARIER está convocando o 15 de março como o dia do golpe. Suas hordas marcharão – possivelmente com um cabo e um soldado – para fechar o Congresso e o STF. Há, contudo, cheiro de válvula queimada no ar.

14. OS GENERAIS Santos Cruz e Roberto Peternelli desautorizaram o uso de suas imagens em memes convocando a balbúrdia. O mundo político institucional em peso – Celso Mello, Lula, FHC, João Dória, as presidências da Câmara e do senado, os partidos de oposição, os movimentos sociais, o mundo da cultura etc. – abriu em peso suas baterias contra a loucura extremista. Na prática, forma-se uma frente democrática ampla e poderosa, como há tempos não se via.

15. DIANTE DE PESADAS CRÍTICAS que começou a receber na noite de terça (26), o miliciano-mor tuitou enigmaticamente: “Tenho 35Mi de seguidores em minhas mídias sociais, c/ notícias não divulgadas por parte da imprensa tradicional. No Whatsapp, algumas dezenas de amigos onde trocamos mensagens de cunho pessoal. Qualquer ilação fora desse contexto são tentativas rasteiras de tumultuar a República”. 

Releve-se a tortura cometida contra o idioma, mas Bolsonaro tenta desmentir os relatos de que estaria distribuindo convocatórias para o 15M. Ele ainda orientou seus ministros a não engrossarem a convocação do ato.

16. HÁ ENSAIOS TÍMIDOS de recuo por parte do bando palaciano. É muito difícil que um líder em processo de isolamento – apesar de seus razoáveis índices de aprovação – consiga ir muito além dos fracassos recentes. No início de novembro, a convocação de protestos contra a saída da prisão do ex-presidente Lula reuniu poucos gatos pingados em algumas capitais.

17. NÃO SE DEVE SUBESTIMAR O FASCISMO. Ao mesmo tempo, é necessário tentar analisar com um pouco mais de objetividade a realidade para que não entremos em pânico diante de latidos que indicam perda de musculatura por parte da extrema-direita. Disseminar alarmismos ou convocar ações extremadas e irresponsáveis devem ser colocadas para fora do radar dos democratas que buscam desmontar a patranha fascista.

18. ELES PODEM MUITO. Mas não podem tudo.

05
Fev20

Sete mentiras

Talis Andrade

 

 

30
Jan20

Bolsonaro da dinero a medios amigos

Talis Andrade
 Un estudio en Brasil revela la distribución discrecional de publicidad estatal
 

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El gobierno del presidente ultraderechista brasileño, Jair Bolsonaro, está privilegiando alevosamente con los fondos públicos de la publicidad a tres empresas de televisión que funcionan como su sostén, en una reproducción de un modelo totalmente discrecional, como el de Argentina y otros países, según un estudio publicado en medios no convencionales.
 
El trabajo, difundido en el espacio Tijolaço, un medio que agrupa a comunicadores progresistas, muestra que las cadenas Bandeirantes, STB y Record se vieron beneficiadas con un incremento de los fondos públicos, que administra la Secretaría de Comunicación Social, durante 2019, el año en que empezó la gestión de Bolsonaro. Las tres tuvieron subas en comparación con 2018.
 
La nota, firmada por Fernando Brito, deja en evidencia una paradoja muy singular para la realidad brasileña: el grupo Globo, el más grande del país, y que fue decisivo para la gran operación política y judicial que causó el derrocamiento de la presidenta Dilma Rousseff y el encarcelamiento y proscripción de Luiz Lula da Silva, es el más perjudicado.
 
El texto dice que se verifica un “inexplicable favoritismo” del gobierno por las cadenas Record y Bandeirantes en la publicidad estatal. “Gústese o no de Globo”, escribe Brito, las cifras muestran que ese grupo, si bien está en un período de retroceso, “todavía retiene poco más de la mitad de la audiencia” en el total nacional.
 
Agrega que las decisiones para publicitar en una u otra estación se adoptan básicamente según el número de personas que verán el mensaje, un criterio que sin embargo es discutido en Brasil y otras partes del mundo, donde esa ecuación es puesta en discusión con la necesidad de que los Estados se comprometan en la existencia y desarrollo de una amplia gama de medios, no solo los convencionales y comerciales, como lo establecen los estándares internacionales reivindicados por la Organización de Naciones Unidas para la Educación, la Ciencia y la Cultura (UNESCO).
 
Brito expresa de hecho que puede haber “variaciones” en el parámetro por él enunciado, por ejemplo cuando se hacen “recortes de públicos” a los que se desea alcanzar específicamente.
 
El texto, que cita una publicación previa de Folha de São Paulo, destaca los beneficios recibidos por el grupo del obispo Edir Macedo, fundador de la Iglesia Universal del Reino de Dios, convertida en una corporación para la intervención política, económica y comunicacional, aliada del presidente ultraderechista, racista y misógino, y propietaria del grupo mediático Record.
 
Esta empresa tiene una porción publicitaria estatal que multiplica al menos por cuatro lo que le correspondería recibir en términos de volumen de audiencia en comparación con la que Globo reúne.
 
Globo, con su red nacional de televisión, sus periódicos, radios, revistas y espacios en internet, fue crucial para el desplazamiento del poder del Partido de los Trabajadores, al que combatió en todas sus gestiones. Sin su accionar, la denominada operación Lava Jato no habría llegado a los resultados que obtuvo, en especial las causas, sentencias y proscripción de Lula da Silva, favorito indiscutible para ganar las elecciones de 2018, que depositaron al neofascista Bolsonaro en el poder.
 
Es que, como ocurrió también en Argentina, en ocasiones Globo lanzaba versiones y acusaciones de corrupción contra dirigentes del PT con las cuales los jueces, muy especialmente Sergio Moro -hoy ministro de Justicia de Bolsonaro-, lanzaban pesquisas, investigaciones y requisitorias a la vez ampliamente difundidas por el sistema mediático. A veces era al revés: Moro hacía llegar sospechas y acusaciones a Globo, para que las amplificara a escala nacional.
 

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27
Jan20

O carinho de Bolsonaro: Moro é um ministro como outro qualquer

Talis Andrade

Aroeira

por Fernando Brito

Na reportagem da Folha, em que Jair Bolsonaro nega – negar é uma obrigação, no caso – estar fritando Sergio Moro há uma frase que, não por acaso, é para fritar Sergio Moro:

— (…) todos os ministros têm o mesmo valor para mim e eu interfiro em todos os ministérios.

De uma só tacada, vão-se formalmente a condição de “superministro” e a “carta branca” para gerir o aparato policial do Ministério da Justiça.

O que o repórter do jornal não sentiu, Sérgio Moro certamente terá sentido.

A mídia se apressa a vir em socorro do ex-juiz, repetindo monocordicamente que ele tem os mais elevados índices de popularidade, em considerar que, rompendo com Bolsonaro perde boa parte dele e terá de enfrentar o destino de quem dissente do führer, já amplamente demonstrado em diversos casos.

O Globo, em editorial, diz que a aliança Bolsonaro-Moro foi “uma aposta errada”.

E, sobretudo, um hiato naquilo que, desde os 24 anos, quando tornou-se juiz: ter poder.

Aroeira, que ilustra o post, mais uma vez acertou: o canibalismo é prática comum aos escorpiões. Humanos, inclusive.

 

27
Jan20

Jogo de chantagens entre Moro e Bolsonaro foi longe demais

Talis Andrade

Aroeira

por Fernando Brito

Não adiantam mais declarações formais.

A disputa entre Sérgio Moro – e seu projeto político – e os planos de reeleição de Jair Bolsonaro chegou de vez à “Vila da Direita”, e as coisas já não estão mais como cochichos.

Todos estão acompanhando o que, agora, é claramente um jogo de chantagens.

Bolsonaro preocupa-se com que Moro possa roubar-lhe a condição de “Mito”: alguém que, como foi na Lava Jato, não pode ser criticado, detido ou simplesmente contrariado.

Moro preocupa-se com o “sereno” e com que o deserto para o qual iria, que possa tirar dele os holofotes que tem há seis anos.

Para usar metáfora do gênero do qual Bolsonaro abusa, a natureza de casamento de conveniência entre ambos passou do nível de suspeita geral para o dos “barracos” nos quais a vizinhança toma partido.

E o partido de Moro, que segue desfilando sua ambição presidencial em saias cada vez mais curtas.

Bolsonaro tem uma imagem pela qual precisa zelar, a do “macho destemido”, e é ela que está sendo atingida pela evidente insubordinação de Moro ao seu comando.

Pior, deixando sugestões de que a sua máquina policial produziu informações sobre os “podres familiares” do presidente, que não faltam e fedem mesmo sob as camadas de cumplicidade em que os buscam enterrar.

A discussão sobre quem frita quem nesta história é irrelevante.

Moro ganha no curto prazo. Mas a casa é de Jair.

21
Jan20

Por Moro, o MP virou um monstro

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

A decisão de Wellington Oliveira de oferecer denúncia contra o jornalista Glenn Greenwald certamente dará com os burros n’água, da mesma forma que a iniciativa do mesmo procurador de tentar afastar o presidente da Ordem dos Advogados, rejeitada pela Justiça na semana passada.

Mas é um novo e inacreditável passo que o Ministério Público dá para afundar a Justiça brasileira na condição de cúmplice e braço judicial da implantação do fascismo no Brasil.

Sergio Moro e a Força Tarefa de Curitiba deram a partida neste processo de radicalização antidemocrática.

Agora, seu colega de Brasília faz significar a todos que apurar a verdade é um risco para o jornalista que se dispuser a fazer isso.

Até porque Glenn, pelo prestígio que a qualidade de seu trabalho, que lhe valeu um Pulitzer e pelos meios que o Intercept lhe proporcionam de defender-se e – espera-se que logo – lançar ao lixo esta monstruosidade não é um caso comum na imprensa.

O Ministério Público, por gente assim, tornou-se um mecanismo de intimidação da imprensa.Quem discordar da santidade de Moro e sua trupe curitibana estará se arriscando à Inquisição.

O inspirador do ex-secretário Alvim não faria melhor.

Não é o caso de uma reação menor do que aquela que, pelo menos, tirou-lhe o cargo.

Ou se começa a aplicar, agora e com ele, a lei de abuso de autoridade ou ela é mera peça decorativa.

Se havia uma vedação, por liminar dada por Gilmar Mendes meses atrás, para que ‘as autoridades públicas e seus órgãos de apuração administrativa ou criminal abstenham-se de praticar atos que visem à responsabilização do jornalista Glenn Greenwald pela recepção, obtenção ou transmissão de informações publicadas em veículos de mídia, ante a proteção do sigilo constitucional da fonte jornalística”, há uma denúncia sem investigação.

E uma denúncia baseada apenas na observação, por Greenwald, na proteção, que é constitucional, ao sigilo da fonte.

Boa parte do MP tornou-se um esquadrão morominion.

---

Nota deste correspondente: Este Brasil que começamos a prever me lembra o poema O BAILE:

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Rodando tanques pelas ruas

mantendo cachorros e vigias

      em cada esquina

infiltrando espias nos lares

      nos mais insuspeitos

      lugares

os asseclas de Hitler constituem

uma milícia de esbirros

      vestidos de fogo

      as bocas vomitando

      fumaça e cinzas

 

Os asseclas de Hitler bailam

sobre milhões de cadáveres 

 

21
Jan20

Demori denuncia “ação política criminosa” contra Greenwald

Talis Andrade

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247 - O jornalista Leandro Demori, do Intercept Brasil, criticou a denúncia do Ministério Público Federal contra o o também jornalista Glenn Greenwald, que integra o mesmo site, responsável pela publicação de várias irregularidades da Operação Lava Jato. 

"Procurador usou diálogo que PF já tinha analisado e que, sobre ele, tinha escrito em inquérito: 'Não é possível identificar a participação moral e material do jornalista Glenn Greenwald nos crimes investigados'.  Isso é uma ação POLÍTICA criminosa do MPF", escreveu o jornalista no Twitter.

Vale ressaltar que, em agosto do ano passado, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes proibiu que Greenwald fosse investigado.

“Com base nesses fundamentos, concedo, em parte, a medida cautelar pleiteada, apenas para determinar que as autoridades públicas e seus órgãos de apuração administrativa ou criminal abstenham-se de praticar atos que visem à responsabilização do jornalista Glenn Greenwald pela recepção, obtenção ou transmissão de informações publicadas em veículos de mídia, ante a proteção do sigilo constitucional da fonte jornalística”, escreveu Mendes.

De acordo com as reportagens publicadas desde junho do ano passado sobre ilegalidades na Lava Jato, o atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, interferia no trabalho de procuradores do Ministério Público Federal (MPF-PR), chegando, por exemplo, a sugerir acréscimo de informações na denúncia contra Zwi Skornicki, representante da Keppel Fels, estaleiro que tinha contratos com a Petrobrás.

Vale lembrar que não se faz golpe sem o "prende e arrebenta":

Cerca o gado

nos guetos

cerca o gado

nos campos de concentração

 

Que nenhuma voz

se escute

a não ser

para a louvação

da augusta beleza

do amado Führer 

 

Alavê alavê

mil anos de Reich

para o amado Führer 

[Mais poesia aqui]
 

 

21
Jan20

O maniqueísmo barato de Dallagnol com a imprensa

Talis Andrade

Reportagem do ‘The Intercept’ confirma, uma vez mais, a maneira da Lava Jato lidar com a imprensa. Privilegia os que apoiam suas teses sem questionar. Não é e nunca será o caso do EL PAÍS

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“Não daria o furo para eles”, disse Deltan Dallagnol em resposta a um pedido de informação feito em 30 de agosto de 2018 por Afonso Benites, correspondente do EL PAÍS em Brasília, conforme reportagem do The Intercept Brasil desta segunda. O jornalista solicitava uma declaração da força-tarefa da Lava Jato —o outro lado, como se diz, em jornalismo— diante de uma afirmação feita pelo advogado Rodrigo Tacla Durán, ex-executivo da Odebrecht, que se refugiou na Espanha quando a Lava Jato já estava em curso. Durán afirmava que a força-tarefa havia agendado uma audiência com ele em 2017, mas nenhum procurador apareceu. No dia 30 de agosto, os chats captados pelo The Intercept Brasil mostram como Dallagnol atuou para tirar o que, do seu ponto de vista, seria um “furo” do EL PAÍS para privilegiar outro veículo de sua preferência. No caso, O Antagonista.

“Furo”, no jargão jornalístico, é informação exclusiva. Há uma competição saudável pelo furo entre os veículos de comunicação no intuito de capitalizar primeiro a atenção do leitor para um determinado assunto. O The Intercept Brasil mostrou que o procurador tratou com desdém a solicitação do EL PAÍS por rotulá-lo de esquerda. "El País tem visão de esquerda”, disse ele ao procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, para justificar por que, deliberadamente, optou por dar a informação a outro veículo, sem que este a tivesse solicitado. Ou seja, usou da pesquisa de um para beneficiar outro. É como se um jornal usasse a investigação de um procurador e a passasse a outro para prejudicar a pesquisa do primeiro.

Diante dessa revelação, a pergunta é óbvia. Onde ficou a ética que o procurador diz pautar seu trabalho neste episódio? Desde quando sua interpretação sobre um jornal faz ele privilegiar este ou aquele veículo? Quando falamos de quanto a imprensa é desrespeitada e manipulada pelo atual governo, com escancaradas preferências por um ou outro jornal que não toca em assuntos que lhe desagradam, questiona-se qual diferença existe entre o joguinho de poder do presidente da República, Jair Bolsonaro, e a gestão de Deltan Dallagnol. Apenas que Dallagnol não faz essas distinções publicamente, ao contrário do presidente. Se criticar, é esquerda e inimigo. Se apoiar, é democrático, merecedor de suas respostas imediatas, informações e entrevistas exclusivas. Uma postura infantil, carente de honestidade e pouca afeita a sua auto-imagem proba.

A reportagem do The Intercept mostra também como Dallagnol procurou influenciar, através de O Antagonista, na nomeação da presidência do Banco do Brasil, evitando que Ivan Monteiro, braço direito do ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine, fosse indicado. Bendine chegou a ser preso pela Lava Jato. As manobras do procurador ajudaram a derrubar a indicação de Monteiro. Não teve sucesso na ânsia de encontrar elementos contra o ministro Gilmar Mendes, como mostrou o EL PAÍS em agosto do ano passado. Dallagnol buscava a suspeição ou até impeachment de Gilmar.

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O EL PAÍS acompanha a Lava Jato desde o início. Fez reiterados pedidos de entrevistas a Dallagnol, sem sucesso. Obteve uma exclusiva em 13 de agosto de 2015, sob o título “A Lava Jato traz uma esperança, cria um círculo virtuoso”. Fez outras entrevistas e publicou artigos também com outros procuradores de Curitiba ao longo dos anos, mas nunca deixou de ouvir os alertas de quem apontava falhas na operação. No segundo semestre do ano passado, foi atrás do The Intercept para pedir acesso às mensagens da Vaza Jato e desde então tem publicado matérias. Mas, antes mesmo de participar desse pool de veículos, já era visto com ressalvas pelo procurador, como se soube nesta segunda, dia 20.

Os chats confirmam o que era claro para a imprensa sobre o modus operandi da força tarefa, algo que a Folha de S.Paulo já havia mostrado em reportagem no mês de dezembro. A informação em si solicitada pela reportagem do EL PAÍS, mencionada pela reportagem do The Intercept desta segunda, não tem nada de extraordinário. Mas o chat tem o mérito de cristalizar uma vez mais o que sempre foi uma certeza entre jornalistas, porém, sem a prova concreta. Dallagnol é capaz de passar por cima do conselho de colegas e dos especialistas em comunicação que o rodeiam para atrasar o trabalho dos veículos que ele julga irem contra os objetivos da operação. Dallagnol ainda chama a solicitação do jornal de “mal intencionada”, num juízo de valor precário, bem abaixo do que se espera de uma pessoa que ocupa seu cargo.

Ao tentar apequenar o EL PAÍS, ele mesmo reduz seu tamanho. Intimidar-se por questões corriqueiras da imprensa, colocando um veículo como inimigo, é próprio de figuras limitadas, de pensamento binário. A democracia pregada pelo procurador parece que só vale para quem embarca em suas teses sem questioná-las, apesar das vozes jurídicas que o criticam —e apesar deste mesmo jornal ter dado espaço ao procurador e a seu time. É um maniqueísmo barato, mesclado com uma vaidade tosca que em nada colabora para uma investigação sadia.

A reportagem da Folha de São Paulo, do mês passado, mostrou que o então juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça, também tinha suas preferências na imprensa, e ajudou Deltan a privilegiar, mais de uma vez, alguns jornalistas em detrimento de outros para divulgar as operações com antecipação. Seu comportamento tirou dele a credibilidade de outrora, algo que ecoa até os dias de hoje. Será entrevistado ao vivo nesta segunda no programa Roda Viva, e as redes sociais fizeram barulho para saber se Moro teria ou não vetado algum veículo de estar presente na bancada de entrevistadores da TV Cultura.

O EL PAÍS sempre noticiou a Lava Jato norteado pela busca de coerência, tanto dos investigados como dos investigadores. O que é bem feito na operação tem de ser celebrado, e o que não condiz com as regras democráticas precisa ser questionado. O jornal nunca pregou o fim da Lava Jato ou coisa do gênero. Mas jamais deixaríamos de noticiar os atropelos da operação que juristas respeitados nos apontaram.

Isso é ser de esquerda e mal intencionado aos olhos do procurador? Ao seu julgamento, respondo com as mesmas palavras de Juan Luís Cebrián, fundador deste jornal, que é referência no mundo. “O EL PAÍS queria, quer ser e é um jornal que conta as coisas que interessam aos leitores e não se cala sobre as coisas que incomodam o poder”. Dallagnol tem poder e se incomoda conosco, como já deixou claro em mais de uma ocasião. O poder requer pessoas de visão abrangente, além de humildade e responsabilidade. Vão mexer com vidas, valores e o imaginário de uma nação. Ouvir o que não se gosta é um presente, senhor procurador. A partir da crítica lapidam-se crenças e princípios para entregar a verdade, e não narrativas convenientes, que fragilizam a ética e a Justiça.

 

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18
Jan20

Haddad resgata vídeo em que Weintraub faz plágio de Hitler

Talis Andrade

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Fernando Haddad
 
@Haddad_Fernando
 
Num trecho do livro “Mein Kampf” de 1933, HITLER afirma que “Os judeus são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios…” QUALQUER SEMELHANÇA...
 

 

 
09
Jan20

O Brasil avança para trás

Talis Andrade

"Que desapareça para sempre o integralismo, ou coisa parecida”

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por Luis Fernando Verissimo

O Brasil avança para trás. Tem saudade de si mesmo. O que explica o ressurgimento no noticiário nacional do movimento integralista senão uma autonostalgia?

Uma organização que se denomina integralista anunciou não ter nada a ver com os coquetéis Molotov atirados contra o prédio da produtora do Porta dos Fundos, programa humorístico da TV. O que espantou muita gente: por saber que o integralismo não apenas ainda existe como tem uma organização, e não só tem uma organização como uma dissidência que atira bombas.

O movimento integralista que deixou saudade foi o mais atuante dos movimentos filofascistas que cresceram nos anos 30, no Brasil. Ganhou alguma relevância política – e chegou a tentar um golpe – e com a ascensão do Getúlio Vargas, que endossava algumas das suas pregações totalitárias, aceitou sua ajuda, mas não lhe deu nada em troca.

Tinham um líder, Plínio Salgado, chamado de carismático, mas cujo carisma não sobrevivia nas fotos dos jornais mal impressos. Usavam todos camisas verdes e um signo inspirado na suástica nazista, e saudavam-se com o braço direito erguido, também como os fascistas. As manifestações dos camisas verdes atraíam multidões, na época. Era grande a simpatia pelos integralistas.

armário direita nazismo integralismo .jpg

 

Há dias participei de uma festa de aniversário de criança em que a principal atração era uma enorme torta, saudada por todos com entusiasmo. “Oba!” exclamou alguém, “uma Martha Rocha!”. Uma o quê?

Ninguém se lembrava que chamavam a torta de Martha Rocha em honra da baiana que deixara de ser escolhida Miss Universo por ter dois centímetros a mais nos quadris, de acordo com o padrão brasileiro, o que causou uma revolta nacional. A maioria dos adultos na festa não se lembrava nem da própria Martha Rocha, que era linda, colorida, alegre e irresistível como… Bem, como uma torta.

No caminho do passado que parecem estar querendo nos levar, pensei (mastigando o menor pedaço de torta que a dieta e a consciência me permitiam): que volte a Martha Rocha e que desapareça para sempre o integralismo, ou coisa parecida.

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