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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

14
Mai21

Professores da Unicamp, USP e advogados pedem exame da sanidade mental de Bolsonaro ao STF

Talis Andrade

Dona Maria em retrato de 1808

Dona Maria em retrato de 1808

Do 247 /Carta de Campinas

Um grupo de advogados e professores pediu ao Supremo Tribunal Federal, nesta quinta-feira (13/5), que o presidente Jair Bolsonaro seja submetido a exames para avaliar se ele tem condições mentais de exercer as funções de presidente. Se não for o caso, eles pedem que a Corte declare Bolsonaro incapaz e, consequentemente, o afaste da Presidência da República.

São autores da ação civil os professores de Filosofia Renato Janine Ribeiro (Universidade de São Paulo), que já foi ministro da Educação, e Roberto Romano (Universidade Estadual de Campinas); os professores de Direito Pedro Dallari (USP) e José Geraldo de Sousa Jr. (Universidade de Brasília); e os advogados Alberto Zacharias Toron, Fábio Gaspar e Alfredo Attié, presidente da Academia Paulista de Direito. Eles são representados pelos advogados Mauro de Azevedo Menezes e Roberta de Bragança Freitas Attié.

Livro D. Maria I, a Rainha Louca | Livros Usados

 

Não seria a primeira vez que o Brasil teria um governante afastado por insanidade mental. D. Maria I foi a Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves a partir do final de 1815 até sua morte. De 1792 até sua morte, seu filho mais velho João atuou como regente do reino em seu nome devido à sua doença mental. Era a filha mais velha do rei José I e sua esposa a infanta Mariana Vitória da Espanha.

Na ação, os autores dizem que Bolsonaro não só deixa de tomar medidas para combater a epidemia de Covid-19 como estimula a população a adotar comportamentos que facilitam a contração do coronavírus e recomenda tratamentos ineficazes, como a cloroquina. Além disso, sustentam que o presidente não demonstra empatia nem sentimento de humanidade. Tanto que frequentemente minimiza os danos da epidemia.

Os professores e advogados citam psicólogos e psiquiatras que afirmam que Bolsonaro apresenta indícios de transtorno de personalidade paranoide. Tal condição faz com que a pessoa tenha “um padrão de desconfiança e suspeita difusa dos outros, de modo que suas motivações são interpretadas como malévolas”, segundo o Manual Estatístico e Diagnóstico (DSM) da Associação Psiquiátrica Americana.

“No caso de Jair Bolsonaro, a fantasia é a de um complô sempre preparado contra si mesmo, levado a cabo por inimigos imaginários, cujos fundamentos ele busca fundar em apreciações pseudocientíficas da realidade, levadas a efeito por arremedos de pensadores que, em verdade, importam, servilmente, no velho comportamento colonialista brasileiro, doutrinas místicas, sob a capa de saberes filosóficos ou sociológicos. Há, nessa imaginação autodestrutiva — e que deseja destruir a sociedade brasileira, sua riqueza, sua democracia e sua soberania — a fantasia de um ‘vírus chinês’, que deseja controlar o mundo, um apego e uma entrega ao ‘ombro amigo americano'”, apontam os autores.

D. MARIA I: AS PERDAS E AS GLORIAS DA RAINHA QUE ENTROU PARA A HISTORIA  COMO "A LOUCA" - 1ªED.(2019) - Mary Del Priore - Livro

Segundo eles, Bolsonaro não tem os mínimos conhecimentos da realidade brasileira e internacional. Pior: o presidente “possui incapacidade de adquirir esses conhecimentos e incapacidade de escolher como auxiliares quem tenha capacidade de suprir essa incapacidade”. “Ele se cerca daqueles em que possa abrigar sua autoimagem, de espelhos com os quais dialoga de modo absurdo, (…) repetindo constantes estereótipos de si e do mundo, cuja complexidade o sufoca”.

O chefe de Estado e governo deve ter as funções mentais íntegras, como estabilidade emocional, autocontrole, flexibilidade, ajuizamento adequado da realidade, capacidade de discernir críticas de ataques e clareza de raciocínio, destacam os professores e advogados.

“Considerando a alta probabilidade de Jair Bolsonaro apresentar um transtorno de personalidade paranoide, e considerando os prejuízos que tal diagnóstico traz para as funções mentais mínimas para o exercício da função de tão alta responsabilidade, há mais do que razoável suspeita de que ele não seja apto para ser presidente em função de sua condição mental”.

Dessa maneira, eles pedem que Jair Bolsonaro seja submetido a exames para avaliação de sua capacidade de praticar atos relativos à função de presidente da República. Se os resultados apontarem sua inaptidão para o cargo, os autores pedem o afastamento liminar de Bolsonaro. Nesse caso, os professores requerem que, ao final do processo, o Supremo declare a incapacidade do presidente. 

D. Maria I A Vida Notável de uma Rainha Louca - 9789724621234 - Livros na  Amazon Brasil

30
Jan21

Ruy Castro: Bolsonaro rebaixou o Brasil ao nível de estrebaria de quartel

Talis Andrade

 

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247 - Em sua coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo, o escritor Ruy Castro afirma que Jair Bolsonaro foi "quem rebaixou o Brasil ao nível de estrebaria de quartel, ao inundar os lares com um vídeo sobre golden shower, chamar um jornalista para a briga ('Minha vontade é encher a sua boca de porrada!') e ejacular mais palavrões numa reunião ministerial do que em todas as reuniões ministeriais somadas desde 1889".

No texto, Ruy Castro destaca que, "desde sua posse, Jair Bolsonaro já foi chamado de cretino, grosseiro, despreparado, irresponsável, omisso, analfabeto, homófobo, mentiroso, escatológico, cínico, arrogante, desequilibrado, demente, incendiário, torturador, golpista, racista, fascista, nazista, xenófobo, miliciano, criminoso, psicopata e genocida". 

"Nenhum outro governante brasileiro foi agraciado com tantos epítetos, a provar que a língua é rica o bastante para definir o pior presidente da história do país. Mas é inútil, porque nada ofende Bolsonaro. Ele se identifica com cada desaforo".

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22
Abr20

Vamos falar de neuroses, psicoses e perversões?

Talis Andrade

Crédito da imagem: Sensacionalista.

II - Pandemia, presidência, psicanálise

Por Cezar Tridapalli

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Não são poucas as matérias de jornal e entrevistas que ligam o presidente à loucura, à psicose, ao narcisismo, à paranoia, ao delírio, à perversão.

Não serei eu a diagnosticá-lo, ninguém estaria em condições de fazê-lo, à exceção do analista ou do psiquiatra dele. Como duvido que o presidente faça análise ou tenha um psiquiatra, posso continuar dizendo que ninguém estaria em condições de dizer qual é seu quadro psíquico. E ainda: mesmo que ele estivesse em análise, o analista não viria a público alardear diagnósticos. Então, quanto a isso, paramos por aqui.

Mas podemos aproveitar a ocasião para esclarecer nomenclaturas.

A psicanálise, de onde saem termos como loucura, psicose, paranoia, delírio, perversão, aproxima-se da ciência por sua capacidade de produzir saber, de produzir um saber novo a respeito do sujeito, de perscrutar o senso-comum das historinhas contadas pela própria consciência, das versões que contamos de nossa vida e que nos parecem verdadeiras. A psicanálise revolve o discurso oficial que o indivíduo tem de si, o mito individual que construímos para contar a nossa história. Afinal, sem investigação, a Terra até parece mesmo plana. Sem explicação melhor, não parece má ideia achar que trovão é berro divino.

Porém, embora se aproxime da ciência, a psicanálise não é capaz de produzir experimentos que possam ser repetidos e validados para todos os sujeitos de modo uniforme. Aproxima-se da arte ao produzir questão no um a um, de sujeito a sujeito, dando substância à ideia de que nenhuma análise é igual a outra, e cada sujeito tem uma história que é só sua, irrepetível.

A psicanálise trabalha, no entanto, com três estruturas psíquicas: as neuroses, as psicoses, as perversões. Elas costumam ser usadas no plural justamente porque cada sujeito tem a sua neurose, ou a sua psicose, ou a sua perversão. E sobre elas já foram escritas milhões de páginas. É prepotência minha tentar explicá-las aqui. Mas vou tentar. Aos mais entendidos, peço que perdoem as generalizações, mas não os erros conceituais que porventura apareçam. Façam-me saber, corrijam-me.

Vamos então falar de neuroses, psicoses e perversões?

Nasceu um bebê! Esse bebê chora. Esse bebê apenas chora. Esse bebê só sabe chorar. O que ele quer? Perguntamos a ele e que resposta obtemos? Buá, bué. Não podemos deixá-lo chorando, está com frio, está com fome, está assustado, chora pelo estupor de ter sido desabituado, desabitado. Só não podemos ficar discutindo muito e deixá-lo lá, no abandono. Se ficar desamparado, ao contrário de muitos animais, ele morre. Nasceu um organismo ali, mas ainda não nasceu um sujeito, há apenas o infans lacaniano, pedacinho de carne sem bordas, cria do humano, vida nua. Fure-lhe a boca com um mamilo suculento, amamente-o, supra suas necessidades, lave-o, tire-lhe as viscosidades de nariz e olhos, limpe dobras e os orifícios todos, molde-o. Vista-o com os tiptops da tia, mas também com as palavras, para que se comece o banho de linguagem, das lalações às nomeações e às descrições e pareceres do mundo. O bebê vai gostar. Vai gostar tanto que não vai querer trocar isso por nada, afinal basta eu gritar que imediatamente encontro socorro e conforto, colo, leite, água morna, carinho e calor. Quem é esse Outro que cuida de mim, que não pode me ver gritar que já vem me satisfazer as necessidades que nem ao certo sei quais são? Se me dizem que é fome, acabo acreditando na fome, se me dizem que é sono, quem sabe seja mesmo, se me dizem que estou doente, quem sou eu para duvidar, se me chamam de manhoso, como rebater se ainda nem sei que sentido dar a esse significante?

Esse Outro que cuida de mim é minha mãe. Ou: é alguém a ocupar uma função materna. Mas eu não sei que ela é mãe, ela e eu somos a mesma massa indissociada, ela sou eu, eu sou ela, eula. Completamo-nos e meu único interesse é manter essa estabilidade. Choro, sou atendido com um gesto e um nome para o meu choro. Somos um, enfim. Identificamo-nos, preciso dessa identificação para saber – se não ainda quem sou – ao menos para saber que sou.

O bebê, depois de alguns meses, é colocado em frente a um espelho e, eureca de fraldas, age de um jeito diferente: sorri, estranha, olha para a imagem de si e do outro, descobre-se descolado, seu corpo desenha silhueta no espaço, a mãe abre sorriso ainda maior, o pai, satélite meio bobo, gira em torno. E o bebê descobre a mãe, ama a mãe, deseja ainda ser tudo para a mãe, pois ela se satisfaz com ele e ele com a ela, então fará o que puder para que a mãe jamais deixe de amá-lo, vai se perguntar o que essa aí quer de mim, vai se submeter às vontades dela para não perder amor.

Até que algo sai errado, bastou crescer um pouco. Agora chora e recebe em troca um “já vai”, “agora a mãe não pode”, “a mãe vai trabalhar”, e um olhar que não se volta exclusivamente para ele, mas olha através, mira outros olhos e horizontes, e – o horror, o horror! – deseja coisas além dele, ex-majestade!

Uma vida feita de sim ganha gesto e som novos: não. Um não a que Jacques Lacan chamou de “Não-do-pai”, “Nome-do-Pai” (o non e o nom du père). Dá-se esse nome a qualquer elemento que exerce a função de cindir mãe e bebê, que abre a bocarra da mãe – pronta para engolir o filho – e diz chega, há mais vida fora disso, você deseja outras coisas, você trabalha, você ama outro, você tem múltiplos horizontes de desejo.

Ao bebê, antes estável e satisfeito, resta a falta e o aprender a lidar com ela, resta sair andando, resta sair falando, resta sair em busca de alguma coisa que todos nós, hoje adultos, continuamos buscando, posto que somos sujeitos de desejo. Haverá sempre um não que nos interdita, que nos diz que não podemos tudo, que não sabemos tudo, que não podemos querer tudo, que precisamos adiar o gozo, que precisamos dosar o gozo, que gozamos apenas parcialmente em troca de convivência, em troca de contratos sociais, em troca de não repetirmos a experiência do pai da horda primitiva, do pai tirano que se valia da autoridade da força para gozar sem freios e que precisou ser morto pelos filhos, no mito efabulado por Freud. Tudo em troca de alguma segurança, de inserção no processo civilizatório, em que pese o mal-estar de precisarmos o tempo todo negociar o escoamento das pulsões, refrear libidos, recalcar afetos.

Segundo a psicanálise, esse não inscrito de modo indelével no sujeito cria nele uma estrutura neurótica. Neurótico é quem tem o não inscrito em si, é alguém que aceita a castração para poder, a partir dela, desejar, é alguém que sabe que para jogar o jogo do desejo é preciso demarcar o campinho, é quem construiu em torno de si bordeamentos e bordados capazes de, como paredes de uma casa, cercar o vazio, esse espaço que, sem paredes, se torna ilimitado, indissociável, indistinguível, território do vale-tudo.

Acabo de descrever o que a psicanálise costuma chamar de os Três tempos do Édipo: no primeiro, o bebê quer ser o falo da mãe, satisfazê-la integralmente, ser ele o objeto de sua satisfação, os dois são um, o mundo está fechado, não há vagas; no segundo tempo, surge a figura paterna com o não, você não terá tudo, não poderá tudo, sua mãe deseja além; no terceiro tempo, depois do choque do não, o pai ensina ao sujeito que ele não pode tudo, mas pode muita coisa. Que seja desejo.

(Parênteses necessários: a estrutura neurótica passa por esses três tempos. Não há, no entanto, estrutura considerada “melhor” ou mais “normal”, como muitas vezes o senso-comem costuma repetir. A neurose também desencadeia patologias, sofrimentos, como as histerias, as obsessões e as fobias).

Em muitos casos, devido a uma série de contingências, encontros e desencontros, esse não que marcará a estrutura neurótica deixa de se inscrever e o sujeito permanece como falo imaginário da mãe, não inscreve limites em torno do corpo, não tem em si a castração responsável pelo adiamento ou dosagem do gozo (vou traduzir aqui o gozo como um “faço tudo que eu quiser, não me importa a censura dos outros e do Outro”, que é algo, portanto, muito diverso do desejo). Essa ausência do não, psicanaliticamente chamada de “foraclusão do Nome-do-Pai”, retira a barreira entre o “até onde posso” e o “até onde não posso ir”. A foraclusão – termo que Lacan emprestou do Direito – do Nome-do-Pai caracteriza a estrutura psicótica. (Continua)

10
Abr20

Estado “suicidário” caminha “em direção à catástrofe”

Talis Andrade

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III - “Bolsonaro se acha capaz de esconder os corpos”

Marina Amaral entrevista Vladimir Safatle

Agência Pública

- - -

 

Trump mudou de atitude nesta semana depois de confrontado com a gravidade e a abrangência da epidemia nos EUA. Por que Bolsonaro continua se comportando de maneira cega e destrutiva? Por que é tão difícil para ele deixar de lado a luta ideológica e assumir a responsabilidade de combater a doença e amparar a população com políticas sociais emergenciais?

São pessoas que vem de horizontes completamente distintos, né? Trump é um empresário, uma pessoa de marketing, e ele sabe que não pode esconder os corpos. Não é esse o histórico da gestão de guerras nos Estados Unidos. E ele tem uma eleição em novembro então sabe que tem que fazer alguma coisa.

O Bolsonaro vem dos porões da ditadura militar. Ele está ligado a setores de tortura, ele está ligado a milícias, ele está ligado a um poder paralelo. Ele é um ditador fascista, não tem outro nome, vindo dos setores mais baixos do Exército. Ele vem dessa formação, traz essa lógica de que é possível usar uma estrutura pra descredenciar e desqualificar informações. Ele não tem interesse em governar nada, ele nunca quis governar o Brasil, ele já fala que o Brasil é ingovernável… A questão dele é fazer um processo de mobilização contínua então ele faz esse cálculo: o que eu faço pra mobilizar? Mesmo que isso crie pilhas de corpos. Pra ele isso não faz a menor diferença. Pra uma pessoa que disse que deveriam ter matado 30 mil pessoas na ditadura, que mataram pouco, isso aí tanto faz, se são 40 mil, 50 mil. Lembra qual foi a reação dele quando rompeu a barragem de Brumadinho? Qualquer estudante de semiótica percebe isso claramente. A reação inicial dele foi: ‘não é responsabilidade do governo’. Ponto. Não foi uma reação nem de ter aquela hipocrisia clássica da classe política, de se mostrar sensibilizado com as mortes, de chorar com os parentes dos mortos, nem isso.

Imaginar que uma pessoa como essa vai entender o que significa uma pandemia é um absurdo completo.

 

Li um artigo do senhor publicado no jornal GGN em que o senhor diz: “O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua.” Como uma pandemia, uma situação de crise, pode favorecer um governante? O que há de positivo pra ele nisso?

Primeiro, a possibilidade de mobilização contínua de seus apoiadores; segundo, essa é uma tese que vem de alguns teóricos do fascismo, como a Hanna Arendt, o Adorno, de que existe um desejo de catástrofe no fascismo. Porque não é um governo, é um movimento contínuo. Por exemplo, uma guerra fascista não é uma guerra de conquista, é uma guerra feita pela guerra, que não pode parar em hipótese alguma; do ponto de vista da lógica da conquista, é uma guerra irracional porque é uma mobilização da população pela guerra, não uma guerra como forma de alcançar algo. Então, você prende uma parte da população numa dinâmica onde esse movimento pode se voltar até contra as pessoas, ir no sentido da autodestruição. A Hannah Arendt tem uma colocação interessante, quando ela fala que nem mesmo quando o movimento nazista ia contra os seus apoiadores, esses apoiadores paravam de apoiá-lo.

 

Como acontece agora quando as pessoas sabendo que estão correndo risco…

Isso, isso. Tem uma lógica de certeza delirante. Qualquer pessoa normalmente pensaria: ‘ok, essa pandemia é uma coisa que ninguém nunca viu’, então há uma incerteza a respeito dela. O que significa governar a partir da incerteza? Desde os gregos a gente sabe que numa situação de incerteza, a virtude que se espera é a prudência. E o que é a prudência? ‘Bem, eu não sei se o pior cenário vai se realizar, mas se isso acontecer, não tem volta’. As pessoas mortas não vão ressuscitar. Se o melhor cenário se realiza, posso travar a economia por um tempo, mas ela se recupera. Então, por prudência, você trabalha com o pior cenário. Isso é uma virtude de governo, quando você quer governar mesmo, você reconhece a incerteza de estar diante de um acontecimento difícil de ser previsto e desenvolve toda a sua estrutura para evitar o pior cenário. E o Bolsonaro faz exatamente o inverso. Ele usa um tipo de certeza arrogante delirante, e diz: ‘eu sei’, mas ninguém sabe o que vem. A gente tem as projeções, que são projeções, podem se realizar ou não. A ciência tem essa característica, a ciência é o domínio da incerteza, não é o da segurança. Então a única coisa racional a se fazer, como governante, é trabalhar com o pior cenário. E quando o sujeito faz o que ele faz, o que demonstra? Demonstra que conseguiu colocar uma parte da população em uma lógica de auto-imolação, de auto-sacrifício. Em uma lógica sacrificial, ‘eu vou ter coragem e vou lá trabalhar ser submetido às piores condições do mundo’, como se isso fosse alguma expressão de coragem enquanto é pura idiotice. Voltando aos gregos, eles sabiam fazer a distinção entre a coragem e a temeridade. Coragem é uma virtude mas o excesso de coragem é simples estupidez. É se colocar em uma condição onde com certeza você vai sofrer as piores consequências.

Por isso que eu digo: é uma lógica suicidária, e isso é um dado novo. Não adianta falar ‘isso aí está bem descrito, na situação do estado burguês’ ou coisa parecida. Isso não é verdade. Isso é um dado novo que aparece raramente. A gente tem uma estrutura necropolítica, que é uma gestão das mortes que vem de uma sociedade escravagista, onde uma parte dos sujeitos são considerados coisas, não pessoas, então, se eles morrem, não tem luto, não tem dor, não tem nada. Isso sempre esteve presente na sociedade brasileira, dependendo de quem morre é um número, não é uma pessoa, não é uma história. Só que agora tem um dado diferente: o Estado, ele generaliza esse processo. E ele cria uma situação em que ele também vai em direção a uma catástrofe. O Estado brasileiro está indo em direção a uma catástrofe. O que vai acontecer se isso realmente se realiza? A pessoa vai pro trabalho e não sabe se vai voltar viva.

 

E o senhor acha que, mesmo assim, se não houver um movimento forte pelo impeachment, o governo Bolsonaro pode sobreviver à pandemia? Ou até se fortalecer?

Uma parte da população que entra nessa lógica, ela não sai. Não tem como sair. Esse setor que chegou com ele até esse ponto, não vai abandoná-lo. Ele vai morrer com ele, mas não vai abandoná-lo. Não é à toa que vários desses estudiosos, quando eles falavam do fascismo, eles tendiam a caracterizá-lo como uma lógica paranóica. E isso não era uma metáfora, a analogia era frutífera porque você tinha essa mobilização desse delírio de grandeza, perseguição, e você tinha essa certeza delirante que é impossível de ser modificada pela experiência. Não tem nada na experiência que possa abalá-la. Tem que entender isso de uma vez. Com esse setor não tem nenhuma possibilidade de diálogo. Qualquer tentativa de criar diálogo é um suicídio pro resto. E não tem uma estrutura de mobilização do resto, é isso que é necessário. Que é a maioria. Nós somos a verdadeira maioria. A gente não consegue nem assumir isso.

 

E o senhor acha que essa maioria é capaz de se mobilizar mesmo sem uma liderança partidária?

É, ela vai ter que aprender a fazer isso porque agora é uma questão de vida ou morte. E, diga-se de passagem, isso seria salutar porque as estruturas partidárias brasileiras não se mostraram à altura dos desafios do país. E não é só hoje. Então, que um tipo de estrutura horizontal apareça, é absolutamente fundamental. Tudo isso que está acontecendo agora, por exemplo, eu estou numa região onde tem panelaço há dez, onze dias, tudo absolutamente espontâneo e não tem uma organização por trás. Isso demonstra muito claramente que tem uma sociedade em resistência contra o governo, sem que ninguém consiga vocalizar isso. Talvez não se tenha consciência do nível do drama que o país se colocou. Hoje os únicos países que têm esse tipo de situação são Brasil, Bielorrússia e Turcomenistão. Olha onde a gente foi parar!

 

Fazendo uma pergunta mais geral, além do Brasil, a gente tem visto que famílias do mundo todo não estão podendo se despedir de seus mortos, sequer fazer as cerimônias fúnebres. Como filósofo, que peso simbólico o senhor acredita que isso tem para a sociedade?

Uma sociedade se define a partir da maneira com a que ela lida com os seus mortos. Esse é o verdadeiro fundamento da vida social. Os gregos sabem desde Antígona. A sociedade que expulsa o ritual de memória, dos seus mortos, ela não consegue mais sobreviver. Independente de quem sejam os mortos. O que funda a universalidade é o direito de memória; todos têm direito de memória. E você criar essa situação, de ser obrigado a enterrar sem ritual, sem presença, sem nada, isso vai trazer um trauma social enorme. A gente vai sentir o que isso significa. O que minora essa situação é você saber que essa supressão não é em vão, que você faz isso por solidariedade social. Você não quer se infectar, mas você não quer infectar outros. Agora nos países em que você não tem nem isso, os infectados são losers, é quase isso. Mas como assim você morreu disso? É uma gripezinha!

 

É, a gente fez uma reportagem sobre o linchamento virtual dos que têm a Covid-19 e até a casa de uma pessoa que foi apedrejada…

São comportamento medievais que são potencializados por construção do governo. Claro, toda sociedade tem sua dinâmica regressiva. Se você tivesse o discurso que temos aqui na Noruega, teríamos comportamentos parecidos. Porque você libera a dimensão regressiva da sociedade. Legitima essa dimensão. Por isso que eu digo: é impossível gerir esse processo com esse governo.

 

O senhor acredita que um mundo diferente vai emergir da pandemia?

Sim, a única questão é qual. Existem vários cenários e é difícil saber para onde a coisa vai. Por exemplo, você tem um cenário possível, que é o fortalecimento da extrema direita e do fascismo. Mais em um modelo europeu, onde a extrema direita é antiliberal do ponto de vista da economia; não é uma extrema direita ultraliberal como no Brasil. Então lá pode haver um fortalecimento do Estado de proteção social, que deve circular cada vez mais, e a extrema direita pode juntar a isso o fortalecimento das fronteiras e das nacionalidades. Então, isso pode dar força pra extrema direita.

Outro cenário: o modelo neoliberal anglo-saxão, esse da Thatcher, do Reagan, da escola de Chicago, esse que é implementado no Brasil, vai entrar em colapso. Isso é claro porque ele já está em colapso; isso demonstra como uma pandemia como essa reconstitui a noção de governo. Porque ela não vai ser a última, vão ter várias outras, isso é só a primeira. Então você vai precisar de estruturas de governo para dar conta desses processos. E essas estruturas exigem um tipo de coesão social e intervenção estatal que o neoliberalismo no modelo de Chicago é incapaz de lidar. Só que aí vem uma outra coisa, porque o neoliberalismo tem três espaços de aplicação inicial: um, Estados Unidos, Inglaterra, no modelo Thatcher/Reagan; outro, o Chile de Pinochet, mas também o modelo alemão, dos liberais do final da 2a Guerra, que criaram a economia social de mercado. E essa ficou, e funcionou. Tanto que a Alemanha, de todos os países europeus, foi quem melhor conseguiu lidar com a situação; o índice de mortes é extremamente baixo. Então é possível que o modelo alemão – que vem lá dos anos 1930 e conjuga neoliberalismo e dinâmicas de intervenção e proteção – ganhe força. E isso pode ocorrer no Brasil, uma parte da direita vai deslocando pra esse modelo alemão, Armínio Fraga, esse pessoal, eles querem fazer um pouco isso. Esse é o segundo cenário.

E você tem um terceiro cenário que é de fato o Brasil entrar em uma dinâmica de transformação efetiva, levando em conta a incapacidade completa do governo. E aí você sensibiliza mais as pessoas pro processo de desigualdade, de injustiça social, e aí um processo de esquerda pode ganhar força. Mas, nesse cenário brasileiro é possível também que em uma situação como essa a gente tenha um golpe, a decretação de um estado de sítio. É difícil saber, se isso acontecer, quanto vai durar, como vai ser, mas é um cenário que está na mesa também.

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07
Abr20

Maria Hermínia Tavares: “O ministro da Saúde demitiu o Presidente Bolsonaro”

Talis Andrade

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O Brasil enfrenta uma crise histórica sem liderança

 

 

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