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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

17
Out21

Imorrível e imbrochável

Talis Andrade

Medalha apresentada por Bolsonaro a apoiadores com os dizeres "imbroxável, incomível e imorrível"

 

por Gustavo Krause 

As palavras produzem efeitos impressionantes: acalenta a criança com cantigas de ninar; encanta plateias com a virtude artística e arrebatadora de vozes que tocam os sentimentos humanos; seduz e conduz multidões por causas nobres e vis; imortaliza o cântico dos poetas e o grito dos desafortunados.

Na construção das nações, as palavras deixam mensagens que representam a ruptura com passado escravizante e compromisso permanente de respeito aos valores universais, a exemplo da fonte de inspiração da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Grandes líderes, entre tantas virtudes, eram magistrais oradores. Notável pelo dom de se expressar, Churchill deixou um conselho precioso: “Das palavras, a mais simples; das mais simples, as menores”. Imbatível em matéria de concisão, Salvador Dali fez o discurso mais curto do mundo: “Serei breve, portanto, já encerrei”.

Jesus e Buda, profetas portadores do dom da graça, nunca escreveram coisa alguma. Em compensação, pregaram de tal forma iluminados que as multidões ainda escutam e seguem sábios e santos ensinamentos.

Imperdoável não mencionar Sócrates: não escreveu, pensou e lançou um desafio imortal: “Conhece-te a ti mesmo”.

Pois bem, na era da comunicação e informação, instantânea e global, o discurso político e o lugar da fala (para não perder o clichê) têm uma força enorme. Convenhamos que o nosso Presidente é um caso singularíssimo no uso do idioma pátrio.

Não haveria dificuldade em escolher, no farto repertório, a mais inadequada, porém, diante de uma pergunta desafiadora, respondeu que era “imorrível e imbrochável”. Mal sabia ele que se tornou a caricatura de recente ideologia: O TRANSUMANISMO, ideia mencionada pelo cientista britânico J.B. Haldane, em 1923, atribuindo-se o papel de fundador a Julien Huxley em 1957.

A ideia parte do princípio de que a atual Revolução Industrial resulta de quatro inovações: Nanotecnologia, Biotecnologia, Informática e o Cognitivismo (acrônimo: NBIC). Trata-se de um movimento fortemente apoiado pelos gigantes da tecnologia. Objetivos: para os “bioconservadores” “melhorar” a humanidade com avanços científicos que atinjam, por exemplo, uma longevidade de 300 anos; para os “bioprogressistas” é a busca da imortalidade, gerando a pós-humanidade. A polêmica é ampla e intensa.

Luc Ferry, autor de A Revolução Transumanista (Ed. Manole, 2018, SP), afirma: “É genial o que estamos vivendo. Não é o que esse bando de intelectuais tontos acham[…] só enxergam o que está sendo destruído[…] é o novo rosto da transcendência, a divinização do humano”.

O “imorrível” é a criatura antecipada do transumanismo e a desobediência a Montaigne: “Filosofar é aprender a morrer”.

 

13
Jan20

VALOR DA PALAVRA

Talis Andrade


Nei Duclós

poesia talis ilustração 1.jpg

 


As palavras não valem mais nada
Na notícia nos poderes nas conversas
Perderam a magia nos livros
Ausentaram-se nas profecias
Não dividem mais os pensamentos com o silêncio
São recolhidas no lixo
Palavras de amor perderam o sentido
O entulho se acumula nos espíritos
Assediados pela voz dos catequistas


Só no poema elas assumem o risco
De resgatar o valor oculto
Assim mesmo precisa de ouvidos e leituras
Que rompam a exaustão dos dias

 

(Seleta de Fernando Monteiro)

10
Ago19

Doente de Brasil

Talis Andrade

O que vivemos não é mal-estar, mas horror

bolsonaro dops ditadura .jpg

 

---

[Quinta parte] Mario Corso, psicanalista e escritor gaúcho, aponta que não é possível pensar no que ele chama de “ethos depressivo” deste momento fora do contexto do Ocidente. “Veja o Reino Unido. O novo primeiro-ministro (referindo-se ao pró-Brexit Boris Johnson) é um palhaço. E eles já tiveram Churchill!”, exemplifica. “O problema, no Brasil, é que além de toda a crise global, elegemos um cretino para presidente”, diz o psicanalista. “O que assusta é que não há freios para impedi-lo. E, assim, ele segue atacando os mais frágeis. Como Bolsonaro é covarde, ele não engrossa com os maiores que ele.”

Boris Johnson não chega a ser um Donald Trump. E nem Donald Trump chega a ser um Jair Bolsonaro. Mas a diferença maior está na qualidade da democracia. Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, as instituições têm conseguido exercer o seu papel. No Brasil, não chega a ser perda total – ou não bastou (ainda) “um cabo e um soldado” para fechar o STF, como sugeriu o futuro possível embaixador do país nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro, o garoto zerotrês. Mas a precariedade – e com frequência a omissão – das instituições – quando não conivência – são evidentes. “Enquanto Bolsonaro não consegue uma ditadura total, porque isso ele quer, mas ainda não conseguiu, ele antecipa a ditadura pelas palavras”, diz Corso. “Bolsonaro usa aquilo que você definiu como autoverdade para antecipar a ditadura. Os fatos não importam, o que ‘eu’ digo é o que é.”

Para Rinaldo Voltolini, professor de psicanálise da Universidade de São Paulo, a autoverdade é a amputação da palavra no sentido pleno. “Este é um grande disparador do sofrimento das pessoas, ao constatarem que estão fora no nível mais importante. Não é que você está fora porque não tem uma casa ou um carro, hoje você está fora das possibilidades de leitura do mundo. O que você diz não tem valor, não tem sentido, não tem significado. É como se, de repente, você já não tivesse lugar na gramática”, diz o psicanalista. “O que é a guerra? A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu. Isso acontece entre duas pessoas, entre países. Sem a mediação da palavra, se passa diretamente ao ato violento".

A autoverdade, como escrevi neste espaço, determinou a eleição de Bolsonaro. E seguiu moldando sua forma de governar pela guerra, o que implica a destruição da palavra. Assim, desde o início do governo, Bolsonaro tem chamado os órgãos oficiais de mentirosos sempre que não gosta do resultado das pesquisas. Como quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostrou que o número de desempregados tinha aumentado no seu governo.

Nos últimos dias, porém, o antipresidente levou a perversão da verdade, esta que torna a verdade uma escolha pessoal, à radicalidade. Decidiu que a jornalista Míriam Leitão não foi torturada – e ela foi. Insinuou que o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil teria sido executado pela esquerda, quando ele desapareceu por obra de agentes do Estado na ditadura militar. Decidiu que ninguém mais passa fome no Brasil – o que é desmentido não só pelas estatísticas como pela experiência cotidiana dos brasileiros. Decidiu que os dados que apontaram a explosão do desmatamento na Amazônia, produzidos pelo conceituado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, eram mentirosos. Isso porque apenas no mês de julho de 2019 foi destruída uma área de floresta maior do que a cidade de São Paulo, e o índice de desmatamento foi três vezes maiores do que em julho do ano passado. E Bolsonaro decidiu ainda que “só os veganos que comem vegetais” se importam com o meio ambiente.

verdade mortos desaparecidos_brum.jpg

 

Bolsonaro controla o cotidiano porque fora de controle. Bolsonaro domina o noticiário porque criou um discurso que não precisa estar ancorado nos fatos. A verdade, para Bolsonaro, é a que ele quer que seja. Assim, além da palavra, Bolsonaro destrói a democracia ao usar o poder que conquistou pelo voto para destruir não só direitos conquistados em décadas e todo o sistema de proteção do meio ambiente, mas também para destruir a possibilidade da verdade.

“Narrar a história é sempre o primeiro ato de dominação. Não é por acaso que Bolsonaro quer adulterar a história. A história da ditadura é construída por muitos documentos, é uma produção coletiva. Mas ele decide que aconteceu outra coisa e não apresenta nenhum documento para comprovar o que diz”, analisa Voltolini. “Não é que estamos vivendo o mal-estar na civilização. Isso sempre houve. A questão é que, para ter mal-estar é preciso civilização. E hoje, o que está em jogo, é a própria civilização. Isso não é da ordem do mal-estar, mas da ordem do horror.”

Como enfrentar o horror? Como barrar o adoecimento provocado pela destruição da palavra como mediadora? Como resistir a um cotidiano em que a verdade é destruída dia após dia pela figura máxima do poder republicano? Rinaldo Voltolini lembra um diálogo entre Albert Einstein e Sigmund Freud. Quando Einstein pergunta a Freud como seria possível deter o processo que leva à guerra, Freud responde que tudo o que favorece a cultura combate a guerra.

seja-franco bolsonaro cultura.jpg

 

Os bolsonaristas sabem disso e por isso estão atacando a cultura e a educação. A cultura não é algo distante nem algo que pertence às elites, mas sim aquilo que nos faz humanos. Cultura é a palavra que nos apalavra. Precisamos recuperar a palavra como mediadora em todos os cantos onde houver gente. E fazer isso coletivamente, conjugando o nós, reamarrando os laços para fazer comunidade. O único jeito de lutar pelo comum é criando o comum – em comum.

É preciso dizer: não vai ficar mais fácil. Não estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civilização.

 

 

23
Abr18

poema em desvio de jussara salazar

Talis Andrade

 

 

com tema de ronald ceuppens

 

jussara salazar desvio |tema de ronald ceuppens.jp

 

 

Aqui palavras são
estão. Palavras
mergulhadas no rio escuro
rio do mundo
rio em toras
rio em brasa
pesadas as palavras
são águas de pouca vogal
levando
não lavando
palavra ardendo
palavra cega. Palavra demo
A travessia é viva
salobre animal
seu torpor abre as asas
golpeia o ar
esparge
escurece
a água do rio
corte à faca
é desvio
lâmina
é palavra não dada
                que furor assim não se viu

 

 

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