Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

27
Nov21

Pobre, sem-teto e negro

Talis Andrade

Jesus Negro, Pintura por Simone Tolentino | Artmajeur

Jesus negro por Simone Tolentino

por Pedro Maciel

- - -

Estive no centro da cidade recentemente e pude testemunhar a urgência de atenção àqueles que, por diversas razões, vivem na rua e dormem sob as marquises dos CORREIOS, dos prédios residenciais e comerciais, expondo-se a riscos. Observei que muitos deles, talvez a maioria, eram pretos ou pardos. Mais um exemplo da injustiça que se impõe aos pretos.

Não é meu lugar de fala, conceito que tem permeado as discussões e debates atuais quando se refere a minorias e experiências sociais. Essencialmente, refere-se à autoridade que uma pessoa possui para falar sobre a sua situação social enquanto pertencente a um grupo minoritário, seja étnico, de gênero, religioso, político etc. Não sou preto, portanto, não tenho autoridade para falar sobre racismo, mas, posso me solidarizar, apoiar e afirmar a urgência de uma cultura antirracista. Efeitos do racismo. De acordo com o IBGE, os negros e pardos representam a maioria da população brasileira – cerca de 54% da população total do país. Mas, os negros são apenas 17,4% da população mais rica do país e atuam apenas em cerca de 18% dos cargos mais importantes. Entre os 10% de menor rendimento, isso se inverte: 75,2% são negros; na classe de rendimento mais elevado, apenas 11,9% de cargos gerenciais eram ocupados por pretos ou pardos; os dados do TSE revelam que nas eleições de 2016, os candidatos negros eleitos foram 29,11% dos prefeitos, contra 70,29% dos candidatos brancos e no Brasil 80% das vítimas por mortes violentas são jovens pretas e pretos.Triste realidade do Brasil. Mas sempre me pergunto: como é possível isso acontecer num país como o Brasil, um país majoritariamente cristão, sendo que Jesus Cristo era um homem negro? Isso mesmo, apesar de Jesus no nosso imaginário e o representado em quadros, filmes e novelas ser branco, loiro e de olhos claros, Ele na verdade era, no mínimo, um homem não-branco.

A imagem de Cristo como um homem branco, tem a ver com a necessidade de o europeu justificar e legitimar a colonização cruel que patrocinou e que assassinou milhões de ameríndios, que sequestrou e escravizou negros africanos, além das outras tantas formas de injustiça verificáveis na História. 

Afirmar que Jesus é branco coloca, de forma subliminar, o homem branco como superior às demais etnias; aceitar essa mentira é desconsiderar a história, a arqueologia, a geografia e a própria Bíblia.

Desconsiderar a negritude de Jesus, sua condição social, sua família, a relação com seus amigos e as tensões políticas e religiosas nos territórios que ele vivia e pelos quais passava é um erro, pois, se tudo isso não for levado em consideração, sua mensagem se esvazia.

Jesus escolheu o contexto que encarnaria e escolheu encarnar negro, ou não-branco, como um homem pobre, em uma família pobre, andarilho, sem-teto, um homem negro e indisciplinado aos olhos do sistema religioso e político do seu tempo.Se você é racista, creia, você não pode afirmar-se cristão; se você não vê, ou não se incomoda com os pobres e suas famílias, com os desempregados, com os desalentados, você não pode afirmar-se cristão; se você não se incomoda com andarilhos, com os sem-teto e com os sem-terra você não pode afirmar-se cristão.

nossa senhora aparecida.jpg

Nossa Senhora Aparecida

Mas o que devemos fazer? Podemos começar reconhecendo que Cristo foi um homem negro, ou não branco, que somos todos racistas, que fomos criados numa sociedade racista e mentirosa e que podemos, como antirracistas, usar a linguagem para libertar, exatamente como Jesus fazia.

Partindo da premissa de que para que algo possa ter significado é preciso que apareça dentro de uma relação com outros objetos em um determinado estado de coisas, devemos deixar de usar algumas expressões de conteúdo racista; pois, mais de 300 anos de passado escravista não se apagam facilmente e podemos reconhecer que “palavras” dizem muito sobre a história e a cultura de uma sociedade.  Estamos reproduzindo e banalizando o racismo quando usamos expressões como “mulata” (na língua espanhola, referia-se ao filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua; a enorme carga pejorativa é ainda maior quando se diz “mulata tipo exportação”, visão do corpo da mulher negra como mercadoria); “a coisa tá preta”; cor de pele”, “doméstica”, a dar com pau” (expressão originada nos navios negreiros. Muitos dos capturados preferiam morrer a serem escravizados e faziam greve de fome na travessia entre o continente africano e o Brasil. Para obrigá-los a se alimentar, um “pau de comer” foi criado para jogar angu, sopa e outras comidas pela boca), “Meia tigela”“Cor do pecado” (utilizada como elogio, se associa ao imaginário da mulher negra sensualizada; a ideia de pecado também é ainda mais negativa em uma sociedade pautada na religião, como a brasileira); Samba do crioulo doido” (expressão debochada, que significa confusão ou trapalhada, reafirma um estereótipo e a discriminação aos negros); “Ter um pé na cozinha” (forma racista de falar de uma pessoa com origem negra); “moreno(a)”(racistas acreditam que chamar alguém de negro é ofensivo. Falar de outra forma, como “morena” ou “mulata”, embranquecendo a pessoa, “amenizaria” o “incômodo”), segue a mesma lógica a expressão “negro(a) de traços finos”; “cabelo ruim”“não sou tuas negas”“denegrir” (sinônimo de difamar, possui na raiz o significado de “tornar negro”, como algo maldoso e ofensivo, “manchando” uma reputação antes “limpa”); “A coisa tá preta”; “Serviço de preto”.  Existem ainda aquelas expressões que são utilizadas com tanta naturalidade que muita gente sequer percebe a conotação negativa que tem para o negro. Por exemplo: “Mercado negro”, “magia negra”, “lista negra” e “ovelha negra”.

Não podemos mais invisibilizar a realidade e as coisas das injustiças.

Essas são as reflexões.

Foto Rovena Rosa/Agência Brasil
17
Out21

Boca suja do deputado bolsonarista Frederico ofende arcebispo dom Orlando Brandes de Aparecida, CNBB, e Papa Francisco

Talis Andrade

 

 “Pedófilos safados” e “vagabundos”

 

 
O deputado estadual Frederico D’Avila (PSL-SP) fez uma série de ofensas ao arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao papa Francisco em seu discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na última quinta-feira (14/10). D’Avila chamou os religiosos de “safados”, “vagabundos” e “pedófilos”.
 
“Seu safado da CNBB dando recadinho para o presidente [Bolsonaro], para a população brasileira, que pátria amada não é pátria armada. Pátria amada é a pátria que não se submete a essa gentalha. (…) Seu vagabundo, safado, que se submete a esse papa vagabundo também. A última coisa que vocês tomam conta é do espírito, do bem-estar e do conforto da alma das pessoas. Você acha que é quem para ficar usando a batina e o altar para ficar fazendo proselitismo político? Seus pedófilos safados, a CNBB é um câncer que precisa ser extirpado do Brasil.”
 

As ofensas do parlamentar extremista são uma resposta ao discurso de dom Orlando na última terça-feira (12/10) durante a missa pelo Dia de Nossa Senhora Aparecida. Na ocasião, o arcebispo fez críticas à política armamentista de Jair Bolsonaro e defendeu a ciência e a vacina.

 
17
Out21

CNBB exige ação contra “ultrajante desrespeito” de bolsonarista que xingou papa

Talis Andrade

Papa Francisco faz oração no Vaticano

Na quinta (14/10), deputado Frederico D'Avila chamou o arcebispo de Aparecida e o papa Francisco de “safados”, “vagabundos" e "pedófilos" em sessão na Alesp

 
 
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pediu medidas internas “eficazes, legais e regimentais” contra o deputado bolsonarista Frederico D’Avila (PSL-SP). Na última quinta-feira (14/10), o parlamentar chamou o arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, e o papa Francisco de “safados”, “vagabundos” e “pedófilos” durante sessão na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
 
Por meio de nota ao qual o Metrópoles teve acesso, a CNBB declarou repúdio aos ataques do parlamentar. De acordo com a instituição, o congressista fez comentários com “ódio descontrolado” e, assim, “feriu a missão parlamentar, o que requer imediata e exemplar correção pelas instâncias competentes”.
 

A entidade também destacou que o Congresso deve tomar medidas eficazes em relação ao episódio. “Defensora e comprometida com o Estado Democrático de Direito, a CNBB, respeitosamente, espera dessa egrégia casa legislativa, confiando na sua credibilidade, medidas internas eficazes, legais e regimentais, para que esse ultrajante desrespeito seja reparado em proporção à sua gravidade”, afirmou no documento.

“A CNBB, prontamente, comprometida com a verdade e o bem do povo de Deus, a quem serve, tratará esse assunto grave nos parâmetros judiciais cabíveis”, anunciou.

 

"Pedófilos safados, a CNBB é um câncer"

As ofensas do parlamentar são uma resposta ao discurso de dom Orlando na última terça-feira (12/10), durante a missa pelo Dia de Nossa Senhora Aparecida. Na ocasião, o arcebispo fez críticas à política armamentista de Jair Bolsonaro e defendeu a ciência e a vacina.

O chefe do Executivo se pronunciou sobre a declaração do clérigo na quarta-feira (13/10), e acusou a imprensa de veicular o fato apenas no dia em que ele havia chegado à Aparecida.

“No dia 11, em Brasília, o bispo disse que ‘pátria amada não é pátria armada’, respeito a opinião dele. Somente no dia seguinte, quando estive em Aparecida, que a imprensa falou que ele disse isso no dia 12. Ele não falou, ele é uma pessoa educada. Não iríamos discutir abertamente aí, até porque não tinha microfone, não tinha como discutir. Respeito os bispos e todos que têm uma posição diferente da minha”, destacou Bolsonaro.

Diante disso, o deputado veio em defesa ao presidente: “Seu safado da CNBB dando recadinho para o presidente [Bolsonaro], para a população brasileira, que pátria amada não é pátria armada. Pátria amada é a pátria que não se submete a essa gentalha. “Seu vagabundo, safado, que se submete a esse papa vagabundo também. A última coisa que vocês tomam conta é do espírito, do bem-estar e do conforto da alma das pessoas. Você acha que é quem para ficar usando a batina e o altar para ficar fazendo proselitismo político? Seus pedófilos safados, a CNBB é um câncer que precisa ser extirpado do Brasil.”

 

arma __ares.jpg

 

16
Out21

Bolsonarista deputado Frederico D’Avila (PSL-SP) chama Dom Orlando da Igreja de N.S. Aparecida e Papa Francisco de vagabundos e imundos

Talis Andrade

(Foto: Mauricio Garcia de Souza/Alesp)

 

"Pátria amada é a pátria que não se submete a essa gentalha", disse o deputado da extrema direita

 

 

247 - O deputado estadual Frederico D’Avila (PSL-SP) durante discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo na última quinta-feira (14) chamou o arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Papa Francisco de vagabundos.

“Seu safado da CNBB dando recadinho para o presidente [Bolsonaro], para a população brasileira, que pátria amada não é pátria armada. Pátria amada é a pátria que não se submete a essa gentalha”, disse o parlamentar no vídeo”. 

A ofensa de D’Avila ao religioso é uma resposta ao discurso de Dom Orlando, no último dia 12, na celebração da missa em homenagem à Nossa Senhora Aparecida, onde fez críticas à política armamentista do governo Bolsonaro e às notícias falsas, além de defender a vacina e a ciência.

No discurso, sem citar Bolsonaro, Dom Orlando criticou a política de governo no combate à pandemia de Covid-19 e lamentou a morte de mais de 600 mil pessoas pela doença. O religioso enalteceu o poder da ciência e destacou a importância da vacina. 

No vídeo o parlamentar disse ainda que Dom Orlando “usa a batina para fazer proselitismo político ao invés de tomar conta de cuidar da alma das pessoas”. 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub