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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

19
Set21

Eu mi(n)to

Talis Andrade

por Gustavo Krause

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A mentira é um pecado que cometemos diariamente. A exceção é o líder político elevado à categoria de mito: mente autenticamente porque no imaginário do fanáticos seguidores é a encarnação da verdade absoluta.

Golpista confesso, Bolsonaro afirmou que só largaria o poder “morto, preso ou vitorioso”. Eliminou uma das regras de ouro democracia: a alternância pacífica do poder.

“Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente /Mentem de corpo e alma, completamente /E mentem de maneira tão pungente /que acho que mentem sinceramente”. Poema de Affonso Romano de Sant’Anna, A implosão da Mentira (Ed. Global, 2007).

Atualíssimo. A mentira é um pecado que cometemos diariamente. Pequenas, grandes, convenientes, analógicas, digitais. Segundo Otto von Bismarck, “Nunca se mente tanto como na véspera das eleições, durante a guerra e depois da caça”.

Há uma exceção à regra: o líder político elevado à categoria de mito. Ele mente autenticamente; diz o que pensa; no imaginário dos fanáticos seguidores é a encarnação da verdade absoluta.

Assim é o Presidente Bolsonaro. Um golpista confesso. Não mentiu para os brasileiros nem botou a máscara de democrata. Delimitou o quadrado de três lados quando definiu o espaço de sua relação com o poder: só largaria “morto, preso e com a vitória”. Eliminou uma das regras de ouro da democracia: a alternância pacífica do poder para os que perdem a eleição.

Tentou liquidar a eleição, outra regra de ouro da democracia, quando, em manobra diversionista, ocupou o espaço do debate político, ao arguir preventivamente a fraude das urnas eletrônicas. Seguiu o fracassado exemplo de do seu inspirador, Donald Trump.

Enquanto os brasileiros sofrem com a agonia de cada dia, o Presidente continua sua marcha obsessiva em continuar no poder, ultrapassando limites das regras do jogo e apostando no ambiente da radicalização e fragmentação das oposições.

O campo das oposições busca uma forma de se livrar de Bolsonaro. A solução é simples: a democracia aponta o caminho das eleições de 2022. O governo tem data marcada para acabar. As lideranças e grande parte da sociedade brasileira, espremidas pelo barulho das extremas, não discutem nem se articulam para construir um projeto estratégico capaz de enfrentar os problemas concretos das pessoas e, ao mesmo tempo, encarar os grandes desafios de um mundo em acelerada transformação.

Se, ao longo do percurso, houver um agravamento da crise institucional e se caracterizarem pressupostos jurídicos e políticos, a democracia, também, aponta a solução: o impedimento de Sua Excelência.

Os prejuízos do desgoverno afetam a sociedade. Para não ser repetitivo quanto à gravidade da situação, basta atentar para o que disse, em recente entrevista, o competente economista Pérsio Arida: “Os investidores veem o Brasil como um pária”.

Parafraseando Manuel Bandeira: “Cavalinhos andando. Cavalões comendo. O Brasil politicando”. O povo empobrecendo e muita gente morrendo.

 

 

 
05
Ago21

Manifesto da elite financeira rechaça tentativa de golpe bolsonarista e cobra respeito às eleições

Talis Andrade

"ELEIÇÕES SERÃO RESPEITADAS'

 

247 - Um manifesto assinado por mais de 250 acadêmicos, líderes religiosos, empresários, intelectuais, políticos, artistas e outras personalidades da sociedade civil pede respeito às eleições de 2022 e a garantia de realização do pleito, em resposta às ameaças golpistas de Jair Bolsonaro.

O texto cita a crise sanitária, social e econômica, as mortes pela Covid-19 e o desemprego. 

Sob o título "Eleições serão respeitadas", o documento plural é também uma expressão de confiança no sistema eletrônico de votação e na Justiça Eleitoral que se encontram sob ataque de Bolsonaro. Entre os signatários estão nomes de peso do mundo empresarial e financeiro, como Frederico e Luiza Trajano, do Magazine Luiza, Pedro Moreira Salles e Roberto Setubal, do Banco Itaú Unibanco, Carlos Jereissati, do Iguatemi, Pedro Passos e Guilherme Leal, da Natura, e Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde. Também assinam economistas como Armínio Fraga, Pedro Malan, Ilan Goldfajn, Persio Arida, André Lara Resende, Alexandre Schwartsman e Maria Cristina Pinotti.

A lista de assinaturas inclui ainda as do cardeal Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, do rabino da Congregação Israelita Paulista Michel Schlesinger, e da Monja Cohen.

Os signatários fazem profissão de fé nas aspirações nacionais e na estabilidade democrática, defendem a realização das eleições e que seus resultados sejam aceitos por todos os envolvidos. 

Um dos signatários do documento, Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo compara o golpismo de Bolsonaro com o do ex-presidente dos EUA Donald Trump, ao afirmar que o questionamento do sistema eleitoral  brasileiro é uma cópia malfeita do que aconteceu nas eleições americanas com a questão do voto pelo correio, informa a Folha de S.Paulo.

O MANIFESTO CONTRA O GOLPE BOLSONARISTA 

"O Brasil enfrenta uma crise sanitária, social e econômica de grandes proporções. Milhares de brasileiros perderam suas vidas para a pandemia e milhões perderam seus empregos.

Apesar do momento difícil, acreditamos no Brasil. Nossos mais de 200 milhões de habitantes têm sonhos, aspirações e capacidades para transformar nossa sociedade e construir um futuro mais próspero e justo.

Esse futuro só será possível com base na estabilidade democrática. O princípio chave de uma democracia saudável é a realização de eleições e a aceitação de seus resultados por todos os envolvidos. A Justiça Eleitoral brasileira é uma das mais modernas e respeitadas do mundo. Confiamos nela e no atual sistema de votação eletrônico. A sociedade brasileira é garantidora da Constituição e não aceitará aventuras autoritárias.

O Brasil terá eleições e seus resultados serão respeitados."

29
Jul20

Presidente do Banco do Brasil sai em meio a escândalos bilionários

Talis Andrade

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Corrupção no governo militar de Bolsonaro. Rubem Novaes se queixa do “ambiente tóxico” de Brasília, mas não explica venda de carteira de crédito de R$ 2,9 bilhões por R$ 371 milhões para banco fundado por Paulo Guedes. Enio Verri e Rogério Carvalho querem explicações no Congresso

A renúncia do presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, anunciada na sexta-feira (24), abriu a temporada de apostas nos bastidores do “mercado” e fez crescerem as especulações sobre os substitutos. O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi ao Planalto na tarde desta segunda (27) para discutir o assunto com o presidente Jair Bolsonaro, mas ainda não se pronunciou.

O alvoroço entre os rentistas se explica pelo fato de Novaes ser considerado um dos “expoentes liberais” da equipe montada pelo ministro-banqueiro. Entre os “Chicago Boys” de Guedes, pontificam Roberto Campos Neto, no comando do Banco Central, Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, e Pedro Guimarães, da Caixa Econômica Federal, apontado como forte candidato ao comando do BB por sua performance apaixonadamente “bolsonarista” nos últimos meses.

Novaes se une a outro demissionário do núcleo duro de Guedes, Mansueto Almeida, que anunciou para o fim de julho a saída da Secretaria da Receita, após a manutenção no cargo pelos serviços prestados ao usurpador Michel Temer. Aos dois juntam-se o diretor da Secretaria de Fazenda, Caio Megale, e o secretário especial de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, eleito presidente do Banco dos Brics.

Novaes garante que no fim de maio já havia sinalizado a Guedes sua vontade de deixar o comando do BB. Alegou cansaço com a rotina de Brasília e com o ambiente da capital, que considerava “tóxico”. Para ele, os “ liberais em Brasília são como um vírus tentando penetrar num organismo hostil com anticorpos poderosos”.

“O liberalismo não interessa a uma cultura de privilégios, compadrios e interesses muitas vezes escusos”, definiu Novaes em live patrocinada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), há dez dias. Em entrevista à CNN Brasil, voltou a dizer que sai por “não se adaptar à cultura de privilégios, compadrio e corrupção de Brasília”.

Novaes não citou um fato específico e disse que se referia ao ambiente político da capital do país como um todo. Na véspera de seu anúncio, o líder do PT no Senado, Rogério Carvalho (SE), apresentou requerimento de convite para que ele explicasse aos senadores a venda de carteiras de crédito a um fundo do BTG Pactual, em 1º de julho.

Na quarta-feira, 15, o líder do PT na Câmara, Enio Verri (PR), também protocolou requerimento de informações para que o ministro esclareça todos os detalhes da operação.

O valor contábil das carteiras, segundo o Banco do Brasil, é de R$ 2,9 bilhões, e o impacto financeiro da transação será de apenas R$ 371 milhões. Essa foi a primeira vez que o BB realizou uma operação de cessão de carteira de crédito a uma instituição fora de seu conglomerado. A operação foi “pouco transparente”, de acordo com a economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Cátia Uehara.

Desde o primeiro dia que pisou no ministério, Paulo Guedes demonstra a intenção de atacar a imagem do Banco do Brasil. Escolheu um presidente para o banco com indicações claras de diminuir o papel e a importância da instituição para a sociedade, com projetos de fatiamento com vistas à privatização
Débora Fonseca, conselheira de Administração representante dos funcionários (Caref) do BB

“Queremos explicações. Convidamos o presidente do BB para falar conosco na Comissão de Assuntos Econômicos para explicar a venda sem transparência de ativos para o BTG Pactual. O Brasil não está à venda”, destacou Rogério Carvalho.

A Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (ANABB) também estranhou a operação e, em ofício enviado ao Vice-Presidente de Gestão Financeira e de Relações com Investidores do banco, solicitou informações sobre a cessão da enorme carteira de crédito a uma instituição privada. A suspeita sobre a operação se agrava porque o BTG Pactual, afinal de contas, foi fundado em 1983 por Paulo Guedes em pessoa.

Para João Fukunaga, diretor executivo do Sindicato e coordenador da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB), trata-se de uma operação, no mínimo, suspeita. “A venda da carteira de crédito para o BTG Pactual, dita de vanguarda, é bastante suspeita ao beneficiar, pela primeira vez, um banco fora do conglomerado e que justamente foi criado pelo ministro bolsonarista. Como saber se o BB não está sendo usado para interesses escusos do Paulo Guedes?”, questiona o dirigente.

Segundo Cátia Uehara, os bancos, periodicamente, procuram “limpar” seus balanços, cedendo créditos podres para empresas no intuito de reduzir custos e o índice de inadimplência. “Essas empresas/fundos, então, compram essas carteiras e, por meio de um processo chamado securitização, transformam ativos; como cheques, crédito, duplicatas e outros recebíveis em atraso; em um título”, explica a economista do Dieese.

“Para os compradores, o lucro vem da diferença entre o que eles pagaram ao banco e o que receberão ao cobrar esses recebíveis/dívidas no futuro. Todavia, no caso da operação realizada pelo BB com o BTG Pactual, não fica claro se o valor da carteira cedida de R$ 2,9 bilhões é justo, pois o BB não explica qual o tipo da carteira e menciona somente que ela é ‘majoritariamente em perdas’, não havendo transparência na operação”, enfatiza Cátia.

BB patrocinou rede de fake news

Outra operação suspeita do BB sob o comando de Novaes envolve o gasto de R$ 119 milhões com publicidade na internet em 2019, inclusive no site ‘Jornal da Cidade Online’, acusado de veicular notícias falsas contra adversários políticos de Bolsonaro e contra o Poder Judiciário. Em 27 de maio, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o Banco do Brasil suspenda sua publicidade em plataformas digitais, sites, blogs, portais e redes sociais.

A decisão é do ministro Bruno Dantas, que tem origem na análise feita pelo tribunal de repasses de verba do BB para sites acusados de disseminar fake news. No total, o banco público gastou, em 2019, R$ 436 milhões com contratos de publicidade, segundo levantamento dos auditores do TCU. Uma semana antes, o BB havia recuado da decisão de retirar anúncios do ‘Jornal da Cidade Online’ após reclamação do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) nas redes sociais.

Com isso Novaes, tornou-se alvo potencial do inquérito de fake news do Supremo Tribunal Superior Federal (STF), de relatoria de Alexandre de Moraes. Ele pode ser acusado de improbidade administrativa, cuja pena é a previsão de perda dos bens, obrigação de ressarcimento do dano, perda da função, proibição de contratar com poder público, entre outras sanções decorrentes de eventuais crimes correlatos

A advogada Lúcia Porto Noronha, do Crivelli Advogados, afirmou à ‘Folha de São Paulo’ que o fato de o BB gastar dinheiro público em um site que fomenta notícias falsas vai contra todo o princípio da administração pública, que deveria agir em interesse da coletividade, o que é completamente incompatível com a divulgação de notícias falsas.

“Além disto, tem o caráter ideológico, porque é um site que recebeu publicidade do banco e é notadamente usado para agredir os adversários políticos do Bolsonaro. O Banco do Brasil jamais poderia se prestar a isso”, afirma Noronha, para quem cabe também a apuração sobre a ingerência de Carlos Bolsonaro na publicidade do BB.

“As ingerências políticas em benefício do governo são cada vez mais óbvias na gestão atual do Banco do Brasil. A manutenção de publicidade em sites de fake news após reclamação do filho do presidente é mais uma destas acusações que vêm a se somar à carreira meteórica do filho do vice-presidente para área de marketing do banco, por onde passam grandes somas de verbas para publicidade”, avalia João Fukunaga, referindo-se à promoção de Antonio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão, para o cargo de gerente executivo de marketing e comunicação.

Novaes garantiu lucro demitindo funcionários

O lucro anual dos quatro principais bancos do país listados na Bolsa de Valores (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) cresceu 38,7% até 2019, passando de R$ 62,7 bilhões para R$ 87 bilhões até 2019. No ano passado, a alta de 20% foi puxada pelo Banco do Brasil, às custas do fechamento de agências e da demissão de funcionários.

Em entrevista ao ‘O Globo’ em 31 de maio, Novaes disse que privatizar a instituição era um “sonho” compartilhado com o presidente. Em entrevista em 5 de julho, Guedes anunciou que o desgoverno Bolsonaro fará quatro grandes privatizações em 90 dias. Sem detalhar quais estatais seriam entregues à iniciativa privada, Guedes acrescentou que “as privatizações, até agora, não caminharam no ritmo desejado”.

Na infame reunião ministerial de 22 de abril, Guedes afirmara ser preciso “vender logo a porra do BB”. Declaração que não surpreendeu a Conselheira de Administração Representante dos Funcionários (Caref) do BB, Débora Fonseca.

“Desde o primeiro dia que pisou no ministério, Paulo Guedes demonstra a intenção de atacar a imagem do Banco do Brasil. Escolheu um presidente para o banco com indicações claras de diminuir o papel e a importância da instituição para a sociedade, com projetos de fatiamento com vistas à privatização”, denuncia a dirigente sindical.

“A lógica privatista de Guedes tenta privilegiar ainda mais o setor financeiro privado, causando ainda mais concentração de poder para esses conglomerados e prejudicando a população que tem cada vez menos acesso a crédito e cada vez mais caro”, completa a Caref.

O coordenador da CEBB diz, em matéria publicada no site da Contraf- CUT, que algumas superintendências do BB têm feito reuniões com os gerentes gerais informando que o banco será privatizado em, no máximo, três anos. “O Banco do Brasil tem forte atuação no setor agropecuário, que há muitos anos é responsável por grande parte do Produto Interno Bruto de nosso país, mas também junto às micro, pequenas e médias empresas, que são as responsáveis por cerca de 80% dos empregos”, destacou Fukunaga.

“Se o Banco do Brasil for privatizado, como sonha Rubem Novaes, quem vai atuar nestes segmentos? Como confidenciou Paulo Guedes, os bancos privados não têm interesse em ‘perder dinheiro’ com os pequenos. Querem somente ganhar com os grandes. E a prova é anunciada pela imprensa todos os dias: os pequenos empresários não conseguem ter acesso ao crédito nos bancos privados, mesmo após a liberação de R$ 1,2 trilhão para os bancos pelo Banco Central”, concluiu o coordenador da CEBB.

Carreira de Guedes é marcada por episódios obscuros

A carreira de Paulo Guedes no mercado financeiro começou exatamente como um dos fundadores e economista-chefe do Pactual. Em 1983, Guedes aceitou a proposta de Luiz Cezar Fernandes para montar o banco, após Fernandes ser forçado a deixar a sociedade com Jorge Paulo Lemann no Banco Garantia. Contrariado com a saída, abriu a concorrente com Guedes e André Jakurski.

Como estrategista-chefe do banco, Guedes escrevia relatórios econômicos que lhe valeram desafetos entre alguns ex-colegas da PUC, como Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Luiz Carlos Mendonça de Barros, que o apelidou de “Beato Salu”, referência ao personagem da novela ‘Roque Santeiro’ que vivia anunciando o fim do mundo.

À frente do banco, Guedes fez uma fortuna estimada em US$ 150 milhões, mas decidiu se desligar por discordar da direção que o banco estava tomando em se aventurar no varejo. Ele deixou o banco ao lado de André Jakurski e, juntos, a dupla formou a JGP Asset Management, uma das primeiras gestoras independentes do Brasil, com a combinação dos sobrenomes Jakurski e Guedes, seguido por Partners.

Sem Guedes e Jakurski, Luiz César Fernandes aceitou deixar o controle do Pactual e abrir caminho para a nova geração de sócios comandada por André Esteves, Eduardo Plass, Gilberto Sayão, Luiz Cláudio Garcia e Marcelo Serfaty. Após ser vendido e recomprado do UBS, o Pactual se transformou no BTG Pactual, um dos principais bancos de investimento do país.

Guedes dava as orientações econômicas do banco e comandava as áreas de câmbio, renda fixa e juros. Foi dele que saiu a aposta na valorização do real após o plano de Fernando Henrique Cardoso, com empréstimos em dólar para investir em papéis que subiriam com a valorização da nova moeda brasileira.

Após sair do Pactual, Guedes foi convidado para assumir uma diretoria no Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec), pelo vice-presidente da instituição, Roberto Castello Branco. Décadas depois, Castello Branco foi indicado pelo próprio Guedes para a presidência da Petrobras, onde a ideia fixa de privatizar todas as estatais obteve algum resultado. Até o momento, o controle da BR Distribuidora foi vendido e avançou a privatização de dutos, campos e refinarias da Petrobras.

Guedes montou a gestora JGP no final dos anos 1990, ao lado de André Jakurski. Mas a empreitada não foi para a frente. Ele decidiu que seguiria operando no day trade, como fazia na época do Pactual. Mas acumulou perdas de mais de R$ 20 milhões nas operações. Os sócios pediram para que ele interrompesse as operações e Guedes acabou deixando a gestora em 2004.

Fora da JGP, Guedes montou uma consultoria com seu irmão Gustavo, a GPG – Gustavo e Paulo Guedes -, mantendo forte participação no mercado de futuros da bolsa de São Paulo.

Da sociedade, ficou a acusação de que eles teriam se beneficiado em R$ 596 mil após uma fraude da corretora Dimarco, que mudava a ordem das operações recebida de vários clientes. Guedes não foi réu do processo, julgado em 2018 na primeira instância, com a condenação da corretora que havia provocado um prejuízo de R$ 12,8 milhões à fundação de gestão da aposentadoria dos funcionários do BNDES, a Fapes.

Quando a crise econômica estourou em 2008, Guedes estava à frente da BR Investimentos. Fundada dois anos antes, a empresa se fundiu em 2013 com a Mercatto Asset, gestora focada em fundos de ações, de crédito e multimercado, e a Trapezus, que concentrava suas operações em estratégias quantitativas. Surgia assim a Bozano Investimentos, comandada por Guedes e Sergio Eraldo De Salles Pinto.

Sobre este período, ainda paira sobre Guedes uma investigação da Operação Greenfield que apura crime de gestão fraudulenta ou temerária com a gestão de um investimento montado com aportes de fundos de pensão como a Previ, Petros, Funcef, Postalis e BNDESPar.

Na época da BR Investimentos, Guedes captou mais de R$ 1 bilhão das entidades para aplicações em educação. Um fundo de investimento comandado pelo hoje ministro adquiriu 20% da Abril Educação por R$ 226,2 milhões se tornando sócio dos Civita, família que controlava a Editora Abril. O MPF e a Polícia Federal avaliam se houve negócio sem análise adequada.

O negócio com os Civita só foi para frente após o acordo do fundo de Guedes para vender a HSM – empresa focada no mercado de eventos e educação corporativa – para o grupo RBS e a Globo Participações, da família Marinho, que controla a Rede Globo. Os contatos que fez nesta época ajudaram em uma tentativa de aproximação do então candidato Bolsonaro com a grande imprensa.

 

03
Abr20

Peça 3 – consequências políticas da nova realidade trazida pelo coronavírus

Talis Andrade

 

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Xadrez do início do jogo pós-Bolsonaro

por Luis Nassif

Conforme venho dizendo, o governo Bolsonaro acabou. Nos próximos dias, mais pessoas pularão do barco, aumentará a coragem dos representantes das demais instituições e será menor a blindagem, na apuração da morte de Marielle.

Os grupos começam a se rearticular se posicionando em relação à nova realidade trazida pelo coronavirus.

Para a fase de transição, no momento há dois personagens centrais.

Um deles é Rodrigo Maia, presidente da Câmara, que assumiu um papel de excepcional maturidade para enfrentar as loucuras de Bolsonaro. Outro é o vice-presidente general Hamilton Mourão, que ontem soltou um tuite em defesa do regime militar de 1964, provavelmente procurando galvanizar a insatisfação militar contra Bolsonaro.

Para a fase posterior, há um movimento em todos os lados, com os jogadores se posicionando, mas sem tomar posição definitiva. E uma tentativa de voltar à polarização pré-Bolsonaro, entre a centro-esquerda, representada pelo PT, e a centro-direita do PSDB mas, agora, com o caos trazido pelo coronavirus, outros grupos se habilitando.

Ontem, saiu um manifesto pedindo o impeachment de Bolsonaro, assinado por quatro lideranças expressivas da oposição – Fernando Haddad, Ciro Gomes, Flávio Dino e Guilherme Boulos. No momento seguinte, no entanto, Ciro voltou a atacar o PT.

O PT, diversas universidades federais, o grupo de Ciro Gomes, o pessoal do Armínio Fraga e Pérsio Arida, todos estão tirando sugestões da gaveta e apresentando o que consideram saídas para a crise. Como quem implementa medidas é governo, não a oposição, fica óbvio que estão esquentando o motor para a próxima disputa política.

Na Globo, há um empenho feroz em repaginar a imagem dos economistas que, nesses anos todos, forneceram o discurso legitimador do desmonte do Estado brasileiro.

Mas, provavelmente, assim como enterrou a era dos justiceiros, o coronavirus irá enterrar a era dos economistas. Entram em cena os sanitaristas. Certamente Luiz Henrique Mandetta torna-se peça relevante no jogo.

De qualquer modo, são movimentos ainda muito incipientes. O acordo para por fim ao governo Bolsonaro será o local para o primeiro ensaio do pacto. Por ali se terá ideia se será um pacto amplo ou um pacto miúdo.

 

12
Ago18

Alckmin? Bolsonaro? Quem manda é o Arida!

Talis Andrade

 

 

ALCKMIN OU BOLSONARO? TANTO FAZ. QUEM VAI MANDAR NA ECONOMIA VAI SER O BANCO BTG PACTUAL

 

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por Alexandre Andrada

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QUANDO O JORNALISMO se refere a esse ente abstrato chamado “mercado”, saiba que é apenas o nome impessoal dado um punhado de empresas do setor financeiro, de origem nacional e estrangeira, cujas sedes se concentram no Rio e em São Paulo.

 

O Banco Central divulga semanalmente o Relatório Focus, que apresenta as expectativas do “mercado” sobre uma série de variáveis econômicas. Em seu último número, vê-se que “ele” espera para 2018 uma inflação de 4,11%, e de 4% para 2019 e 2020.

 

O valor científico dessas previsões é próximo de zero, já que os economistas não acertam sequer a inflação do mês corrente. Mas isso não significa que elas são inúteis. O fato de o mercado projetar uma inflação no centro da meta para os anos vindouros, significa que ele está tranquilo em relação ao próximo governo do país.

 

Na República Velha, que durou entre 1889 e 1930, São Paulo era café, e os cafeicultores elegiam seus presidentes. Na Nova República, São Paulo é derivativos, e o setor financeiro elege seus presidentes.

 

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Mesmo quando um outsider ameaça romper a política do café-com-leite moderno, ele é obrigado a beijar a mão do “mercado”.

 

Exemplo claro disso foi Lula em 2002, com sua Carta aos Brasileiros e a escolha de Henrique Meirelles para comandar o Banco Central. Meirelles era àquela altura deputado federal eleito pelo PSDB e ex-funcionário da alta cúpula internacional do Bank Boston. Ou seja, era um digno representante dos que mandam nesta terra, feito o filho bacharel de um grande cafeicultor de Campinas no início do século passado.

 

Agora, o plano A do “mercado” é Alckmin. Além de paulista, e com bom trânsito nas regiões da Paulista e Vila Olímpia, sede de grandes empresas e bancos, Alckmin tem sua equipe econômica liderada por Pérsio Arida.

 

Arida é ele mesmo um desses milionários do “mercado”, sendo quem assumiu o controle do banco BTG Pactual quando André Esteves foi para o xilindró, na esteira da queda de Delcídio do Amaral.

 

Nascido em São Paulo, Arida é doutor em Economia pelo MIT, o badalado Massachusetts Institute of Technology. Tornou-se nacionalmente conhecido no início dos anos 1980 como professor da PUC-Rio, quando elaborou um plano de combate à inflação junto com André Lara Resende, que serviria de base para o Plano Real.

 

Arida trabalhou na burocracia estatal já no governo Sarney, durante a implementação do Plano Cruzado. Depois voltou à cena no governo FHC, dirigindo o Banco Central e o BNDES. Na época do BC, surgiram denúnciasde que ele teria repassado informações privilegiadas para Fernão Bracher do banco BBA, banco de investimentos que administra fortunas incorporado pelo Itaú em 2002.

 

Saindo do governo, entrou pela porta da frente do “mercado”.

 

Arida é um liberal. Em entrevista recente disse: “O Estado tem de deixar de ser empresário. O que as pessoas querem hoje e o que Brasil precisa é de uma economia dinâmica. Para isso, não precisa de estatal”. Acredita que o Brasil não pode crescer mais de 2% ao ano, bem como que os juros bancários só poderão ser reduzidos se forem retiradas as interferências governamentais. Subsídios creditícios e crédito direcionado, acredita, são as causas dos juros elevados. Nada de errado com os bancos, pois.

 

Sua proposta é, resumidamente, a de avançar nas privatizações, abrir a economia à competição internacional e reduzir a regulamentação estatal sobre o funcionamento dos mercados.

 

No caso do plano A falhar, o “mercado” está claramente disposto a acionar seu plano B: Bolsonaro.

 

Suas declarações afirmando ser ignorante em assuntos econômicos têm duas dimensões. A primeira, suas óbvias limitações cognitivas. Segundo, e mais importante, sinaliza ao “mercado” que toda as coisas que disse ao longo de sua vida parlamentar sobre assuntos econômicos, que tendiam para um nacionalismo do tipo Médici-Geisel, eram palavras ao vento de um incauto.

 

A equipe econômica de Bolsonaro é liderada por Paulo Guedes.

 

Guedes é doutor em Economia pela Universidade de Chicago, a mais famosa escola econômica liberal do mundo. Como Arida, teve seu momento como acadêmico, lecionando na PUC e na FGV do Rio. No início dos anos 1980, foi um dos fundadores do banco Pactual, que está na origem do BTG Pactual há pouco mencionado.

 

Coincidência? Quiçá.

 

A verdade é que o universo das grandes finanças do país é pequeno. E o BTG Pactual orgulha-se de ser o quinto maior banco brasileiro, e o maior banco de investimento “puro sangue” da América Latina.

 

Estamos, pois, falando de uma máquina de fazer dinheiro em grande escala e cujos donos interferem de maneira republicana (ou não) nos rumos da política nacional.

 

Guedes era um dos dirigentes da Bozano Investimentos, empresa do bilionário Júlio Bozano (que ganhou uma bolada na época das privatizações dos anos 1990). A empresa tem hoje uma carteira de investimento acima dos 3 bilhões de reais.

 

Guedes é também um dos principais nomes do Instituto Millenium, o think tankultraliberal, cujo panteão de colunistas conta com grandes nomes do “mercado”, como Gustavo Franco e Alexandre Schwartzman, para ficar nos mais conhecidos.

 

A “agenda Guedes” é a mesma de Arida, mas sob o efeito de anabolizantes.

 

E SE TUDO der errado, há ainda Marina Silva, que viveu encangada com Neca Setúbal, filha do fundador e sócia do banco Itaú. O maior banco privado do país (junto com Bradesco) e uma de nossas grandes multinacionais. Cabe lembrar que Itaú, BB, Caixa e Bradesco controlam quase 80% de todos os depósitos bancários do país.

 

Marina conta ainda com o auxílio de Lara Resende, parceiro intelectual de Arida nos anos 1980.

 

Lara Resende tem currículo parecido com os dois anteriormente citados: doutor pelo MIT, passagem pela academia, pela burocracia estatal e pelo “mercado”.

 

Foi recentemente apedrejado por seus pares, quando suspeitou de que poderia haver algo de errado no sistema financeiro nacional, dono das maiores taxas de juros.

 

Lara Resende, porém, está a anos-luz de ser um heterodoxo ou outsider. Só vacilou em sua fé.

 

Enfim, não tem como dar errado. O “mercado” já elegeu seu próximo presidente.

 

Não se governa país algum indo-se contra a elite econômica local. E a elite econômica do Brasil de hoje são as empresas financeiras.

 

A nós, resta o voto de cabresto desse coronelismo repaginado.

capitalismo carestia privatização bancos indigna

 

12
Ago18

PRIVILÉGIO: JUDICIÁRIO É O ÚNICO PODER A NÃO RESPEITAR LIMITE DE GASTO

Talis Andrade

A lei arrebenta sempre do lado mais fraco

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247 - Em tempos de debate sobre racionalização dos gastos públicos, o poder Judiciário é o único dos três Poderes da União a não respeitar a regra que estabelece limite para o crescimento das despesas. Segundo dados do Tesouro Nacional, o Judiciário já ampliou seus desembolsos em 8,8% no primeiro semestre deste ano. A variação é mais alta que os 7,2% permitidos pelo teto de gastos para este ano, segundo reportagem de Bernardo Caram.

 

"Os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiram propor um reajuste de 16,38% para os próprios salários, de R$ 33,7 mil para R$ 39,3 mil. O novo valor valeria a partir do próximo ano. Se for aprovado pelo Congresso, o aumento vai gerar um efeito cascata, porque o valor pago aos ministros é o teto para o funcionalismo", diz o texto.

 

Desse modo, o reajuste do STF provoca aumento automático na remuneração de servidores que hoje têm salários cortados por estarem acima do limite.

 

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Leia a reportagem completa.

 

O salário mínimo passará a ser de R$ 998 a partir do dia 1º de janeiro de 2019. O valor está presente na proposta da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), aprovada pelo Congresso Nacional. 

 

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É o salário da fome. O salário do golpe.

 

Mais da metade da população sobrevive com esse salário mínimo do mínimo, que os entreguistas Armínio Fraga, Pérsio (pérfido) Arida consideraram muito caro, que outro dupla nacionalidade, o Henrique Meirelles, alertou que as empresas estrangeiras não podem pagar, porque oneroso

 

Eta Brasil cruel! 

genildo golpe fome peste morte.jpg

 

 

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