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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

20
Dez20

Ousadia e esperança

Talis Andrade

beijoDa Morte - bolsobaro.jpeg

 

    • POR ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO 

       

    • Aprovação de Bolsonaro é alta

      Ninguém assume que o apoia

      O momento é de resistência

       

      “Quando a escuridão é espessa

      e não se escapa entre os dedos

      gosto de apanhar uma mancheia

      e levar até a luz para ver melhor

      Regresso feliz de mãos vazias

      a escuridão afinal não é a tempestade fatal

      o abismo medonho a avalanche final

      é apenas o que não se pode ver.”

      – Boaventura Souza Santos

Hoje eu acordei com uma placa no terreno ao lado: “vende-se este lote”. No isolamento, todos os movimentos são criteriosamente observados; qualquer mudança chama a atenção. Logo fiquei imaginando, curioso, quem poderia vir morar ali ao lado. E comecei a pensar em tudo que mudou desde o início da pandemia até hoje. Uma constatação óbvia: as pessoas são um mistério permanente.

De todas as que eu mantenho contato, mesmo que virtual, nenhuma defende o genocida. As poucas que insistiam na defesa eu bloqueei no WhatsApp. Incrível ferramenta civilizatória: impede brigas, discussões fúteis com gente sem argumento. Basta deletar ou bloquear.

Mas o mistério é recorrente. Ninguém defende esse despreparado e cultor da morte, mas sua aprovação continua batendo recorde. Ou seja, o anonimato covarde, cúmplice, continua a preservar o apoio dos fascistinhas enrustidos, dos misóginos não assumidos, dos racistas envergonhados, dos admiradores da tortura e da violência. Deveriam ler Augusto dos Anjos:

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado, a ideia estertorava-se….
No fundo do meu entendimento moribundo
jazia o Último Número cansado.


– Que fazes ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
parecia dizer-me: É tarde amigo!”

Hoje é comum ver jornalistas chapas brancas, que na eleição foram, no mínimo, omissos, virem com um discurso de perplexidade com o desgoverno como se tivessem hibernado por longo tempo. Habitavam outra estratosfera. Não está na hora de cobrar coerência ou dispersar; o momento é de resistência, de tentar mostrar os podres que já cheiram mal há anos e que agora, com a putrefação, incomodam até os narizes dos que escondem os punhos de renda.

Muitos que estavam se regozijando, explícita ou intimamente, começam a perceber que até o absurdo, o teratológico, tem que ter limite. Percebem que é mais do que desonestidade, mais do que mau-caratismo, mais do que ignorância, é quase uma doença essa falta de empatia, esse desprezo à vida, esse culto lúgubre da morte. E é familiar, hereditário e contagioso.

Uma densa nuvem, espessa, nos cerca e tenta nos imobilizar. Não é apenas a luta permanente contra a maior estratégia de desmantelamento de todos os programas de governos anteriores; é a angústia do medo do vírus, a tristeza da falta de seriedade no enfrentamento da pandemia, a presença da morte que, a essa altura, já visitou inexoravelmente alguém ligado a cada um de nós.

Só um genocida vendido e vulgar aproveita o caos sanitário que nos imobiliza para sucatear a cultura, destruir o SUS, entregar o meio ambiente, desmanchar os conselhos da sociedade civil, empreender uma política externa entreguista e submissa, humilhar parte das forças armadas, enfim, fazer o país se igualar à sua própria mediocridade, fazer do país que ele governa um prostíbulo à feição familiar.

E não pensem que tudo se dá por acaso. O que existe é uma política estruturada, pensada, planejada. A sustentação se dá não apenas com a indústria de fake news, mas com a velha cooptação política de distribuição de cargos e verbas e um trabalhado culto a um populismo que cega o gado que segue o mito com verdadeiros antolhos adaptados a esta turba ignara, inculta.

Ele, nota-se, porta-se como se estivesse em casa. Não tem a dimensão do cargo que ocupa. Trata os brasileiros com a mesma baixaria e arrogância com que trata seus filhos, seus amigos. Quando se dirige às pessoas, com um estilo que envergonha aos minimamente lúcidos, dá a nítida sensação de que está em casa, em família. Ele é assim e tem orgulho de ser. Não adianta nós o considerarmos ridículo, pois ele não tem nenhuma dimensão do que é ser ridículo.

Com o recrudescimento do vírus, a morte chegando a acachapantes 185 mil brasileiros, 70 mil casos de infectados em 24 horas, mais de 7 milhões desde o início da pandemia e quase mil mortos por dia, nós brasileiros, ainda assim, temos que enfrentar o escárnio, as brincadeiras idiotas, o negacionismo – a essa altura! – e uma doentia campanha contra a vacina. No caso da cloroquina, era fácil identificar o criminoso interesse financeiro que havia. No caso da politização da vacina, parece mais um caso de interdição, de inimputabilidade.

No processo democrático é salutar que ocorra alternância de poder. O fortalecimento das instituições se põe à prova exatamente com a adaptação da estrutura do Estado a grupos de diferentes matizes ideológicas. Quem perde as eleições se prepara para tentar ganhar as próximas. Esse é o amadurecimento que nos permite viver em um estado democrático de direito. Me recorro a Rainer Maria Rilke:

“As folhas caem, caem como se, no alto, lá nos céus, longínquos jardins murchassem.
Elas caem de maneira resignada.
Em noites frias a terra pesada cai, dos astros todos, na solidão.
Todos caímos. Cai aquela mão.

E olha as outras; há quedas também.
No entanto há alguém
que, com suaves mãos,
todas as quedas detém”

Mas o mundo vive uma época sem precedentes e para situações inusitadas, graves, complexas, a sociedade tem o direito de se mobilizar exigindo saídas e soluções fora da trivialidade, desde que, claro, dentro da normalidade e da previsão constitucional. Passou da hora de nós nos perguntarmos se vamos aceitar este genocida continuar à frente do País. Ao desmanche político deve-se responder com mais política, com conscientização, com participação popular.

Mas não é apenas disso que se trata. É muito mais profundo. É o momento de pensar que país nós deixaremos para as futuras gerações, para nossos filhos e netos. Tem instantes na vida que é preciso dar um passo à frente e romper este invisível círculo de giz que nos aprisiona. Buscar o ar puro fora deste fosso de ar rarefeito a que nós estamos sendo submetidos. Um ar que nos dê forças para tirar as vendas do medo de ousar. Sem ousadia nos restarão a submissão e o amargo gosto de cumplicidade por omissão.

Vamos acreditar que existe vida inteligente, honesta, simples fora das amarras obscurantistas destes bárbaros. Depende de cada um. Vamos ter aquele pasmo essencial a que se referia Pessoa, que teria cada criança se ao nascer reparasse que nascera deveras. Vamos fazer nascer um novo Brasil. Nós merecemos. E levemos Pessoa conosco:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” 

-Pawel-Kuczynski- pandemia morte.jpg

 

31
Jul20

Ninguém está acima da lei. Ninguém?

Talis Andrade

 

por Antônio Carlos de Almeida Castro

- - -

“A casa que eu amei foi destroçada
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se
não é minha”
Sophia de Mello Breyner

 

Em 17 de março de 2014, quando foi deflagrada a operação Lava Jato, fui procurado por Alberto Youssef para advogar para ele. Estive em Curitiba e acabei desenvolvendo uma relação de respeito com ele. E tomei a decisão de deixar o caso quando a Procuradoria, de maneira vulgar e arbitrária, exigiu que Alberto Youssef desistisse de um habeas corpus que eu impetrara no Superior Tribunal de Justiça.

Era desistir do HC ou ele não conseguiria assinar a delação e obter seus benefícios. Eu estava em Paris quando recebi a notícia da exigência da troca. Senti náusea ao me deparar com a ousadia e arrogância desta força-tarefa que já se anunciava autoritária. Desci ao Café de Flore e desisti, em uma dura petição, do HC e do cliente.

Lembrei-me de Mia Couto, no Versos de Prisioneiro 3:

“Não me quero fugitivo.
Fugidio me basta.
(…)
Eu falo da tristeza do voo:
A asa é maior que o inteiro firmamento.
Quando abrirem as portas
eu serei, enfim,
o meu único carcereiro.”

Ressaltei posteriormente a ele, Youssef, mas pessoalmente, que ele tinha, óbvio, o direito de fazer a delação e que quem estava abusando dele eram os procuradores. O fato de exigirem que um preso desistisse de um habeas corpus que tratava da liberdade para conseguir a delação atingia, profundamente, tudo o que eu entendia e entendo sobre direito, sobre ética, sobre Justiça. E isso já anunciava quem era o grupo de Curitiba.

Como dizia Rainer Maria Rilke, que certamente os integrantes desse grupo nunca leram:

“Mas a escuridão tudo abriga
figuras e chamas, animais e a mim,
e ela também retém
seres e poderes.
E pode ser uma força grande
que perto de mim se expande.
Eu creio em noites”.

Uma força-tarefa coordenada por um juiz sem escrúpulos e com um projeto de poder político.

Ao longo dos anos tive 25 clientes na operação Lava Jato. E fui acompanhando os acúmulos de abusos, de arbitrariedades, de absurdos e de indignidades que este pessoal de Curitiba fazia em nome de um pretenso combate à corrupção.

Resolvi correr o país para discutir os excessos do grupo político da Lava Jato. Fui a todos os cantos, falei para todas as plateias, expus-me a todos os debates. Durante anos, algumas vezes por mês, eu me dispus a enfrentar o que eu considerava ser uma hipótese de instrumentalização do Judiciário e do Ministério Público para um objetivo político.

Recorro ao meu amigo Boaventura Souza Santos:

“Quando a escuridão é espessa
e não se escapa entre os dedos
gosto de apanhar uma mancheia
e levar até à luz para ver melhor

regresso feliz de mãos vazias
a escuridão afinal não é a tempestade fatal
o abismo medonho a avalanche final
é apenas o que não se pode ver”

Sempre, e sempre, fiz questão de começar minhas críticas aos excessos com um forte reconhecimento aos enormes êxitos alcançados pela operação Lava Jato, no seu início. O desnudar de uma corrupção capilarizada era uma vitória e um avanço.

A politização e a completa perda de objeto em nome de um projeto de poder, porém, tinha que ser devidamente enfrentado. Em janeiro de 2015, escrevi na Folha de S.Paulo um artigo: “Que país queremos?”, no qual eu já alertava que o combate à corrupção só poderia ser feito dentro dos limites das garantias constitucionais. E o poder da Lava Jato foi crescendo proporcionalmente aos seus abusos.

Com o apoio da grande mídia, e se sentindo semideuses, perderam o pudor. Já não mais se escondiam. Os membros da força-tarefa agiam como delinquentes juvenis a rir de todos. Pueris. Mesquinhos. Banais.

Envergonhavam a todos que têm alguma noção de ridículo; mas quem é ridículo não sabe que é ridículo ou, às vezes, nem o que é ser ridículo. Bregas incultos com outdoor de promoção pessoal, power point, palestras em cultos, pregações moralistas, viagens para Disney à custa do erário. Enfim, um show de horrores de corar mesmo os mais adeptos da República de Curitiba que ousasse ter uma mínima noção de vida em sociedade.

Só nosso Castro Alves para nos representar:

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus?
[…]
Astros! Noites! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!”

O projeto de poder se sofisticou. Com a chegada do chefe no Ministério da Justiça o plano ia de vento em popa. O grupo que tinha gestado o governo autoritário e genocida do atual presidente estava no poder. Mas, claro, faltava ser o poder. Não depender do lunático que haviam elegido.

Mesmo sem nenhuma preocupação em elaborar projetos para o país, o bando avançava. Mas os abusos foram saindo de controle. E os absurdos se avolumando. E o bando se mostrando absolutamente fora de si, dando uma clara sensação de que haviam sido pegos em flagrante. Um desespero começou a se cristalizar. Típico de quem sabe bem o que fez nos verões passados.

Agora, recentemente, em uma live no canal do Youtube promovida pelo Grupo Prerrogativas, o atual procurador-geral expôs, com segurança e sem ódio, uma série de questões gravíssimas, inclusive afirmando que "A hora é de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure". 

E como exemplos desse combate à corrupção desenfreado, que vem sendo feito fora dos ditames legais e constitucionais, o procurador-geral da República trouxe dados e informações estarrecedores:

- a força-tarefa de Curitiba possui 350 terabytes em arquivos contendo dados pessoais de 38.000 pessoas. Isso equivale a um arquivo com tamanho 8 vezes maior que o arquivo geral do Ministério Público Federal, que tem 40 terabytes. Neste ponto, como não se sabe como foram escolhidas essas milhares de pessoas, os dados acabam formando uma grande “caixa de segredos” usada para “chantagem e extorsão” pelos membros da força-tarefa. Daí a necessidade de compartilhar os dados de uma unidade institucional com a Procuradoria Geral da República, como defendido pelo Dr. Augusto Aras;

- existem cerca de 50.000 documentos “invisíveis” que foram enviados à corregedoria para apurar o trabalho dos integrantes do Ministério Público Federal. Foi apurado que havia uma “metodologia de distribuição personalizada” em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo, onde os membros escolhiam os processos. O procurador-geral ainda ressaltou que “é um estado em que o PGR não tem acesso aos processos, tampouco os órgãos superiores, e isso é incompreensível”;

- as listas-tríplices que eram elaboradas com os nomes dos candidatos à PGR escolhidos após votação pelos procuradores eram fraudáveis e, segundo o procurador-geral, já existem @ relatórios de perícia que confirmam tal fato.

Assim passa a ser evidente o motivo do sentimento de pânico que assomou este grupo estranho.

Não é engraçado imaginar que dentre estes 38.000 devem existir vários dos comparsas ou cúmplices? Que dentre os protegidos vários podem ser agora expostos? Será que eles vão pagar 1.000 outdoors para publicar pedidos de desculpas? E quando forem processados, vão querer um juiz como o chefe deles? Se condenados, vão se entregar para serem presos assim que o Tribunal de 2ª Instância confirmar a condenação? E vão querer serem expostos, com as famílias, nesta mídia que os incensou? E vão se sentir pequenos quando as filhas e mães forem denunciadas para eles se fragilizarem? E a caixa de segredos, será aberta em praça pública com a cobertura das grandes redes de comunicação?

E enfim, massacrados, violentados, aterrorizados, difamados, estrangulados financeiramente e em suas liberdades, fariam delações premiadas de verdades e mentiras bem contadas e combinadas.

Ou seja, terei que recorrer de novo a Pessoa na pessoa de Álvaro de Campos no Poema em linha reta: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”. Estes medíocres, óbvios, fazem-me até repetir o poema…

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