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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

05
Mai20

"O cenário da política externa é um cenário de ruínas"

Talis Andrade
 

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III - "A 'lava jato' acabou, pertence mais ao domínio da história do que ao da realidade"

Por Tiago Angelo e Fernanda Valente

ConJur

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ConJur — Falando agora de política externa: é possível resumir a diplomacia brasileira, a partir da redemocratização, como a busca da autonomia por meio da participação. Com essa atuação, o país conquistou prestígio. Agora, a marca definidora da política externa é o alinhamento com os Estados Unidos. Quais os impactos disso?
Rubens Ricupero —
 É mais do que isso. Não é um alinhamento com os EUA, mas com o governo de Donald Trump, que, por sua vez, conduz uma campanha sistemática contra todas as instituições do sistema internacional criado no pós-guerra — o multilateralismo, um sistema que funciona na base de normas, de leis, não da força. Ao se alinhar com esse governo, o Brasil trabalha contra o seu próprio interesse, pois os EUA têm muito poder. Já o Brasil é um país com pouco poder, que pode se tornar vítima da força alheia. Nosso país não é uma potência econômica e militar. Mas tem poder brando, que é a diplomacia do convencimento, da persuasão, da negociação. Ao se alinhar com os EUA, abrimos mão disso e nos subordinamos a um país que, esse sim, tem poder e que pode utilizá-lo de maneira deflagradora, sem nenhum limite. 

O saldo líquido das decisões brasileiras é nos levar ao isolamento — em todos os sentidos do termo — e a uma perda extraordinária do poder brando que o país tinha acumulado. Hoje, sem nenhum exagero, o Brasil é o país cujo governante figura entre os mais menosprezados e mais detestados do mundo. O cenário da política externa é um cenário de ruínas.

 

ConJur — Outra consequência apontada é o esgarçamento da relação com a China. Essas relações podem se desgastar ainda mais?
Rubens Ricupero —
 Essa deterioração é, em grande parte, culpa daquele núcleo mais ideológico, mais fanatizado do governo brasileiro. Mas, para além disso, há uma competição estratégica entre EUA e China, em todos os sentidos — militar, econômico, político etc. Quando o Brasil se alinha a Trump, ele está comprando a agenda norte-americana, que vem com todas as inimizades que os Estados Unidos têm: contra a China, Rússia, Irã, Cuba, e assim por diante.

Portanto, sem nenhuma justificativa para isso, o Brasil está no momento em posição antagônica a todos esses países que constituem grandes mercados para as nossas exportações. É claro que de imediato a China não vai, por exemplo, deixar de comprar soja do Brasil, pois não há uma alternativa fácil para nos substituir como fornecedores de alguns produtos. Mas, no médio e longo prazo, as relações comerciais ser tornarão cada vez mais difíceis. O Brasil está jogando todas as suas esperanças em um país [EUA] do qual ele não pode esperar nada. Nem mercado, nem investimento. 

 

ConJur — Se não há justificativas, essa postura brasileira com relação à China ocorre por uma questão meramente ideológica?
Rubens Ricupero —
 Puramente ideológica. É o equívoco de uma maneira de ver o mundo. O Brasil vê o mundo com os olhos da guerra fria. É uma visão completamente fora do tempo histórico, anacrônica, porque o país se comporta hoje em relação à China como o governo militar do Castelo Branco em 1964 se comportava em relação à União Soviética. O Brasil vê a China como o centro do comunismo mundial, uma espécie de "origem do mal", quando nada disso corresponde à realidade internacional. 

 

ConJur — O senhor disse que os EUA — e agora o Brasil — se portam de modo contrário ao sistema criado no pós-guerra, indo no caminho do anti-multilateralismo. Agora o mundo passa por uma pandemia. O coronavírus matou o multilateralismo?
Rubens Ricupero —
 O que está acontecendo com a pandemia é que quase todas as reações têm sido majoritariamente de tipo nacional, infelizmente. Em um primeiro momento, é até compreensível que seja assim, porque diante de uma emergência cada nação reage da forma mais rápida que pode e isso quase sempre é mais fácil no plano nacional. Mas deveríamos rapidamente passar a uma fase de coordenação internacional, tanto para combater a doença quanto para combater as consequências econômicas dela. Há algum esboço para utilizar o Grupo dos Vinte [G20, formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das maiores economias do mundo] para sustentar a dívida dos países mais pobres durante um ano. Mas são reações fracas.

Mesmo na União Europeia, os países mais afetados pelo coronavírus, como a Itália e a Espanha, não receberam uma ajuda significativa da comunidade europeia. A Itália recebeu mais ajuda da China do que dos seus vizinhos no começo. Agora a União Europeia começa a reagir, mas o panorama é de sombras e luzes — mais de sombras. Existe algum grau de cooperação, mas é pequeno. E existe muitos, infelizmente muitos exemplos de egoísmo nacional, inclusive esses que afetaram o Brasil, de países que se atravessaram para comprar equipamentos que já tinham sido negociados. Então, sem dúvidas, o multilateralismo está em crise. Mas não desespero dele, porque acho que existem inúmeras perspectivas de que isso melhore. Por exemplo, ainda é incerto o que vai acontecer na eleição dos EUA. É possível que, devido a tudo isso, as eleições acabem enfraquecendo o atual presidente e ele não consiga se reeleger. Se ele não se reeleger, teremos condições de recuperar muito do que se perdeu em matéria de multilateralismo, porque 90% ou mais do que está acontecendo é praticamente resultado da ação do governo Trump. 

 

ConJur — Dentro desse cenário de pandemia, o senhor vislumbra a possibilidade de que surja uma nova ordem econômica e jurídica?
Rubens Ricupero —
 Sobre isso eu tenho dúvidas. Pandemias e epidemias, mesmo as muito mais graves que essa, em geral nunca mudaram o sistema econômico-político. Quando elas foram muito fortes, elas afetaram tendências que já existiam. Mas mesmo a peste negra, a peste bubônica, assim como as pestes que se seguiram, nunca afetaram o sistema político das monarquias da época. As tendências, as rivalidades que existiam, assim como os sistemas econômicos de troca, permaneceram iguais. Os sistemas econômicos, políticos e jurídicos obedecem à ação de forças profundas.

O que podem ocorrer são mudanças de curto prazo, que às vezes se seguem quando há acontecimentos suficientemente poderosos. Eu não ficaria surpreso, por exemplo se, passada essa crise, os países buscarem adquirir uma certa autonomia, uma certa autossuficiência em matéria de produtos farmacêuticos e médico-hospitalares. As nações podem buscar reduzir a dependência sobre esses produtos que existe com relação à China e outros países asiáticos. Isso pode acontecer, mas não vejo a possibilidade de uma reforma profunda na estrutura do capitalismo ou do sistema político que temos hoje. 

 

ConJur — Com o avanço do novo coronavírus, aliás, foram adotadas algumas medidas emergenciais. O Senado aprovou, por exemplo, o PL 1.179/20, que, entre outras coisas, flexibiliza dispositivos do Código Civil. O que acha de medidas como essa?
Rubens Ricupero —
 A ideia básica de tentar encontrar uma solução para o momento é correta. Há um abalo muito grande até no sistema normal de pagamentos. Muitas empresas e indivíduos não são capazes de cumprir suas obrigações. Em certos casos, as regras precisam ser suspensas, da mesma forma como está se fazendo com regras de contrato de trabalho, flexibilização que busca manter a existência do emprego. Portanto, acredito que essas iniciativas são necessárias. Não me refiro especificamente ao PL citado, mas à tentativa de dar uma resposta ao que está acontecendo. Os contratos são vigentes enquanto mantidas as condições em que eles foram celebrados. Quando as condições se alteram de modo muito radical, muitas vezes não há a possibilidade de manter os termos tal como foram acordados. 

 

ConJur — Nos últimos anos, uma série de conflitos entre Legislativo e Executivo acabaram sendo resolvidos pelo Judiciário. O que pensa a respeito dessa judicialização?
Rubens Ricupero —
 Eu tenho a impressão de que esse fenômeno coincide com o agravamento da crise institucional. Vivemos uma crise prolongada, que começa no primeiro governo da Dilma Rousseff e que se prolonga até hoje. O impeachment não resolveu a crise e em cada governo surgem problemas novos. No fundo, o quadro é de mau funcionamento das instituições. O sistema presidencialista tem uma rigidez que não permite a solução de problemas quando há impasse entre Executivo e Legislativo — e a tendência é a de que esses poderes entrem cada vez mais em conflito.

Um exemplo que vem logo à mente é a incapacidade que o Legislativo tem de resolver problemas com conteúdos ligados à questões de tipo moral: moral familiar, moral sexual, aborto, casamento entre homossexuais etc. O Legislativo fica paralisado diante dessas questões porque há uma representação grande de grupos religiosos. Então, embora sejam claramente do âmbito do Legislativo, esses temas acabam indo ao Judiciário. Quase todas as grandes decisões envolvendo temas como esses — o aborto no caso de fetos anencéfalos, casamento homoafetivo — foram talhadas pelo Judiciário. Creio que isso continuará acontecendo, porque a solução definitiva é fazer uma reforma profunda do sistema político, o que não parece estar no horizonte. Assim, as pautas continuarão indo ao Judiciário. 

 

ConJur — Em casos como esses, em que o Legislativo deixa um vácuo ao não tratar de certas questões, é justificável a atuação do Judiciário?
Rubens Ricupero —
 Existe a necessidade colocada pelo próprio sistema político. Não se pode conviver com o vácuo de poder. Há decisões que precisam ser tomadas. Se não forem pelas instâncias que normalmente deveriam resolver o problema, acabam indo aos tribunais. Nesse sentido, a necessidade justifica as decisões judiciais. Não é o ideal, mas não vejo outra saída.

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05
Mai20

O segundo vazamento de mensagens do Presidente da República

Talis Andrade

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II - Porque Moro é mais perigoso até do que Bolsonaro

por Carlos Tautz

Córtex Político

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            O JN pró-Moro foi épico. Sustentou a versão morista de forma inconteste e ousou abrir o programa em um formato pouco utilizado pelo rígido telejornalismo da Globo, ao recuperar imagens de Bolsonaro em 2018 prometendo carta branca ao ex-juiz no Ministério da Justiça. E, para não perder o hábito adquirido na Lava-Jato, publicou mensagem de Bolsonaro a Moro no WhatsApp sem autorização do ocupante do Palácio do Planalto. Ou seja: pela segunda vez em quatro anos, a dupla Moro&Globo vazou ilegalmente a comunicação de um Presidente da República.

            Usar um poderoso meio de comunicação para constranger adversários e desrespeitar regras legais na disputa política, à base de apelos a um suposto combate à corrupção generalizada, é exatamente a receita que a Operação Mãos Limpas usou na Itália na década de 1990. Moro gostou tanto do exemplo que em 2004, 10 anos antes de iniciar a Lava-Jato, elogiou o método da Mani Pulite em artigo publicado na Revista de Estudos Jurídicos, do Conselho Nacional de Justiça.

            Sua renúncia foi, assim, articulada e planejada para alcançar o máximo de repercussão tanto  dentro quanto fora do Brasil.

            Internamente, o ex-Ministro recuou suas bases e acumulou forças para 2022, atacando Bolsonaro (“O mentiroso não sou eu”) na revista Veja, outro prócer do ecossistema midiático pró-Moro. E, no flanco externo, seus aliados não negaram fogo. No dia 25, a correspondente da BBC Brasil em Washington publicou entrevista com Drago Kos, chefe do grupo de trabalho anticorrupção da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em que o executivo ameaçou: “O Brasil vai ter que explicar o que está acontecendo”, referindo-se à renúncia do ex-Ministro.

               Kos fará em junho conferência online para acompanhar o caso do Brasil, depois de ter passado duas semanas em 2019 no País para avaliar o desempenho brasileiro no combate à corrupção. Este aval é uma das pré-condições para o Brasil aderir ao grande aparelho privado de hegemonia que é a OCDE, totalmente orientado pelos EUA. Mas,  no dia 30 passado, outro míssil da OCDE já atingiu Bolsonaro: vazou em Genebra um relatório com críticas às políticas do governo brasileiro nas áreas de combate à corrupção e proteção à Amazônia.

            Isso tudo não é pouco e requer muita atenção. Afinal, as duas maiores aspirações do Itamaraty bolsonarista são as adesões do Brasil à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e à OCDE – ambas controladas pelos EUA. (Continua)

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21
Mar19

França lembra que Brasil não pode ingressar na Otan, como declarou Trump

Talis Andrade
20
Mar19

"Bolsonaro exibia com orgulho o crachá de Trump dos trópicos", relata Le Figaro

Talis Andrade

 

Imprensa francesa destaca apoio incondicional e concessões de Bolsonaro a Trump

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Por RFI 

 

A imprensa francesa analisa nesta quarta-feira (20) a visita oficial de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos. O jornal conservador Le Figaro, que publica uma grande matéria sobre o tema, diz que o presidente brasileiro cultiva "sem complexo" – o que também pode ser interpretado como sem espírito crítico – as semelhanças com seu modelo da Casa Branca.

O texto é assinado pelo correspondente do diário em Washington, Philippe Gélie, que cobriu o encontro de Bolsonaro com Donald Trump. Segundo ele, não é todo dia que Trump tem direito a uma demonstração pública de cumplicidade tão grande, vinda de um dirigente estrangeiro. "Bolsonaro exibia com orgulho o crachá de Trump dos trópicos", relata. Afinados, os dois dirigentes afirmaram compartilhar a mesma ideologia.

O novo presidente brasileiro, tal como um espelho lisonjeador, se alinhou de maneira incondicional com as posições domésticas, regionais e internacionais de Trump, comemorou um conselheiro da Casa Branca ouvido pelo jornalista francês após a entrevista coletiva dos dois líderes. Bolsonaro é um pró-americano sem complexos, aplaudiu o colaborador de Trump. O brasileiro critica a Venezeuela, Cuba e o papel da China, que endivida os países da região. Ele derruba vários tabus e quer ser o melhor aliado dos Estados Unidos na América Latina, diz o conselheiro que não foi identificado pelo jornal.

Um conselheiro de segurança, também entrevistado pelo Le Figaro, diz que a visita marca realmente um recomeço nas relações bilaterais entre os dois países. Brasil e Estados Unidos nunca concretizaram o potencial que representa a aproximação entre as duas maiores economias do continente. Agora, temos um verdadeiro aliado, salienta o funcionário.

Mas a imprensa americana foi cética e ironizou o encontro: "O aprendiz recebido pelo mestre", destacou a Bloomberg. "A cúpula da extrema direita", disse o Washigton Post, informou Le Figaro. O diário francês aponta que os holofotes da Casa Branca devem apagar a péssima impressão deixada por Bolsonaro em Davos, onde seu discurso brilhou, principalmente, por suas banalidades.

Concessões

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O Le Monde também enviou seu correspondente, Gilles Paris, para cobrir o encontro entre Trump e Bolsonaro em Washington. O jornal vespertino faz a mesma constatação: os dois líderes exibiram suas convergências.

Desde que chegou ao poder, o brasileiro demonstra um pró-americanismo ferrenho, que diverge com a diplomacia usual de seu país. Le Monde também diz que Bolsonaro não economizou elogios ao americano, ressaltando que a admiraçao dele pelos Estados Unidos ficou ainda mais forte com a eleição de Trump. Ele também disse acreditar piamente na reeleição de Trump em 2020.

Os dois jornais franceses informam os resultados positivos do encontro e os anúncios sobre o Brasil na OTAN e na OCDE, destacando as concessões que Bolsonaro se dispôs a fazer para manter essa relação privilegiada com Trump. Os respectivos correspondentes destacam ainda a visita inesperada do presidente brasileiro à CIA, apesar do papel controverso que a agência de inteligência americana teve na América Latina.

Antes de Bolsonaro, a última dirigente brasileira a visitar os Estados Unidos foi Dilma Rousseff, que tinha adiado a viagem duas vezes depois da descoberta de que tinha sido espionada pela agência nacional de segurança NSA, lembra Le Monde. A visita à CIA é um dos gestos de submissão mais explícitos, criticou o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, nas páginas do Le Figaro.

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