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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

30
Mai21

O Papa Francisco e a perdição do Brasil

Talis Andrade

Missa do Papa João Paulo II no Recife reuniu mais de 1,5 mil pessoas no Viaduto Capitão Temudo — Foto: Reprodução/TV Globo

 

por Urariano Mota

- - -

Na mais recente quarta-feira, depois do fim da audiência geral no Vaticano, o padre João Paulo Souto Victor de Campina Grande (PB) encontrou o Papa Francisco e lhe pediu uma bênção para os brasileiros. Para quê? O Papa abriu um sorriso e falou: "Vocês não têm salvação. Muita cachaça e nada de oração". 

Mas quanta coincidência! Ou será, de modo mais simples, que a vida costura certo por linhas tortas? O nome do padre paraibano é João Paulo, em homenagem ao Papa João Paulo II. Pois saibam por favor que não exagero nem minto em qualquer coincidência no que conto a seguir. 

Quando o Papa de igual nome ao do padre paraibano visitou o Recife em 7 de julho de 1980,  rezou uma missa à tarde, às 17 horas e 10 minutos. Naquele dia, até os ateus de Pernambuco assistiram à santa missa, que foi  transmitida pela televisão. Lembro que em 7 de julho de 80 estávamos na casa do Gordo, bebendo cerveja e cachaça, porque era feriado santo em todo estado. E, claro, também estavam a mãe do Gordo, dona Dagmar, mais a irmã do Gordo, mais irmãos, e sobrinhos, e todos e todas de mistura a nós. Uma família promíscua, portanto. Naquele falso domingo estávamos uma vez mais bebendo cachaça, muita, o que o santo Papa Francisco viu com os olhos que adivinham o passado. 

A mãe do Gordo, a senhora Dona Dagmar, sempre soube que os amigos do seu filho não acreditavam em Deus. Mas esse conhecimento, ainda que não trouxesse uma aceitação de nossas ideias, possuía pelo menos uma transigência, um conviver sábio, porque éramos, devíamos ser bons rapazes.  Ela desconfiava que apesar de ateus não podíamos ser tão maus assim, porque afinal éramos amigos do seu filho, o seu mais velho filho, o homem que pelo estudo, pela instrução, conseguira tirar a família da extrema pobreza. O Gordo, o senhor Antonio Luís da Silva, era graduado em História e funcionário do Banco do Nordeste do Brasil, onde ingressara por concurso público. O certo é que Dona Dagmar sempre soube que éramos ateus. Mas com uns poderes e lógica que somente a complexidade humana poderiam explicar, ela nos perdoava, enquanto para o filho ela mais de uma vez falou: "Você acredita em Deus e não sabe". O Gordo sempre sorria muito disso.

Por isso esperávamos O Papa, a missa papal, como se fôssemos Berlim Oriental e Berlim Ocidental em uma mesma sala. E bebíamos. Enquanto a missa não vinha, era possível ao mesmo tempo a televisão ligada e os frevos em discos da Mocambo, em vinil, a rodar. 

Ora, então às cinco em ponto da tarde todos entramos em silêncio forçado, em respeito a Dona Dagmar, senhora católica, crente dos poderes e infalibilidade papal. Assinamos como por encanto uma trégua, um acordo, sem papel. Os frevos pararam de rodar, e ficamos todos, em tensão máxima, aos murmúrios, pois o respeito àquela mulher do povo era uma ordem. Mas no minuto santíssimo, magno e piedoso em que o Papa se preparava para distribuir a hóstia em sagrada comunhão, o que fez o Demônio? Ele me tomou o corpo, a mão, o espírito, a alma, e fez com que me dirigisse à cozinha, e lá enchesse vários copos de aguardente, pusesse-os em uma bandeja, e com pedacinhos de pão retornasse à sala e distribuísse álcool e pão aos hereges enquanto Deus era servido na televisão. Os safados comungaram como inocentes, alheios e alienados ao instante da hóstia consagrada do Papa na tevê. Melhor dizendo, beberam, com toda educação e respeito. Mas eu fui quem levou a fama. 

O Gordo me contou o resultado disso, longe da cena do crime sem perdão, uma semana depois:

- Minha mãe me chamou naquele dia na cozinha e me disse: "olha para as minhas mãos". As mãos de Dona Dagmar tremiam. 

E assim foi a profecia original do Santo Papa Francisco, que afirmou em 2021 ao padre João Paulo: 

"Os brasileiros não têm salvação. Muita cachaça e nada de oração".

Os descrentes podem ver aqui a profecia retroativa:

 

25
Mai20

Tudo parece bom, exceto seguir os passos da ciência e da medicina

Talis Andrade

 

insistencia cloroquina.jpg

 

II - A receita medieval contra o coronavírus que mistura Jesus, cloroquina, sementes milagrosas, jejuns e orações

por Juan Arias
El País
- - -

Escrevi em outra coluna que o coronavírus se cura com a ciência, não com a religião. Milagres religiosos não devem entrar na esfera do Estado. É verdade que a fé, como dizem os Evangelhos, “pode mover montanhas”, mas não tem porque ser a fé religiosa. Existe uma força dentro de nós que, como a ciência moderna está descobrindo cada vez mais, pode nos curar de certas doenças. Mas os agnósticos e ateus também têm essa fé. Está dentro do ser humano.

Se confundir religião com o Estado era uma característica medieval, a descoberta de que existe uma força dentro da pessoa humana que é capaz de curar pertence à modernidade em que práticas laicas de meditação e autoconhecimento são cada vez mais aconselhadas. Às vezes somos nós mesmos que somos capazes de superar os limites da natureza sem a necessidade de um Deus fora de nós que, por seu capricho, cura alguns e deixa outros morrerem.

Uma coisa é o respeito que devemos ter por todas as experiências religiosas que o homem criou ao longo da história para exorcizar seus medos diante do mistério e outra é querer impor certas receitas milagrosas àqueles que não possuem essa fé. Eu tive uma experiência curiosa quando criança. Minha mãe era uma mulher com a fé simples do carvoeiro para quem Deus era familiar e bom, que nos ajudava nos momentos difíceis da adversidade. Isso a ajudou a suportar com grande integridade e serenidade a morte de minha irmã que, com 41 anos deixou cinco filhos pequenos. Eu podia não respeitar sua fé?

Ao contrário, meu pai, professor rural como ela, era agnóstico, mas com uma grande sensibilidade social, o que fazia que além de professor se transformasse em advogado e conselheiro daqueles camponeses analfabetos quando se encontravam com algum problema burocrático para resolver. Eram tempos de guerra e de fome e minha mãe lutava para poder dar um pedaço de pão com toucinho a mim e aos meus dois irmãos. Esses camponeses ficavam muito agradecidos e às vezes nos traziam meia dúzia de ovos ou uma galinha, um tesouro. Meu pai havia nos proibido de receber esses presentes porque dizia: “Eles tiram isso da boca para nos dar”. Às vezes minha mãe aceitava às escondidas alguns desses presentes. Meu pai a censurava com carinho: “Mas que cristã você é, Josefa!”.

Anos mais tarde, meus estudos de História das Religiões me ensinaram a distinguir entre a fé religiosa e a fé laica. Hoje a Igreja mais aberta e moderna começa inclusive a examinar com maior atenção os milagres que exige para canonizar alguém. Conheci um médico importante na Itália que havia trabalhado como consultor do Vaticano no exame dos milagres atribuídos aos santos. Ele havia tido uma crise de consciência. Disse-me que, como médico, via a grande maioria do que a Igreja chamava de milagres de Deus como algo que é possível realizar com a fé laica que nasce da nossa força como resultado de um forte desejo interno. Ele me contou que muitas das curas ocorridas, por exemplo, nas visitas aos santuários marianos, eram mais o resultado da força da fé pessoal sem necessidade da intervenção divina, que de outro modo seria racista ao curar alguns e deixar outros morrerem. Aquele médico me disse que nunca havia visto em tais lugares de culto ressuscitar um morto nem crescer um braço ou uma perna a um mutilado. As outras curas, disse, podiam ser o resultado da força pessoal de cada um. Quando os Evangelhos dizem que “quem tem fé é capaz de mover montanhas”, não têm porque se referir à fé religiosa. Basta a fé em nós mesmos, em nossa força interior, muitas vezes adormecida e que é capaz de realizar transformações consideradas como milagres religiosos.

Tudo isso para dizer que quando os seguidores de Bolsonaro cantam misturando Jesus com a cloroquina, que mais do que um medicamento a estão transformando em um talismã religioso, ou em uma estratégia político-comercial, cometem um sacrilégio. Enquanto os pastores que oferecem sementes milagrosas ou os prefeitos que impõem semanas de jejuns e orações contra o perigo do coronavírus nos recuam para a Idade Média.

Aos fariseus que para tentar Jesus lhe perguntaram se deviam pagar tributo a César, respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Isso nos lembra hoje que devemos saber distinguir entre a fé religiosa e a fé laica. Entre a religião, a ciência e a medicina. Todo o resto é superstição, atraso cultural, política rasteira e crime contra a modernidade.

 

Bolsonaro- Cloroquina.jpg

 

14
Mai18

O ÚLTIMO AVISO

Talis Andrade

 

 

escapulario2.png

 

 

Manda a precaução

se carregue pendurado

no pescoço

bento escapulário

 

o testamento no bolso

uma arma na mão

 

na boca a moeda

para o pedágio

 

Manda a precaução

não ceder jamais

um palmo de chão

não confiar no que se cheira

                   no que se toca

não confiar na conversa dos arautos

não acreditar nas imagens

que o espelho mostra

a esquerda

é a direita

e vice- versa

 

Nos supremos tempos

da Santa Inquisição

na inversão se escreve

                    se decifra

a secreta escrita

de Miguel Ângelo

 

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, p. 103

 

 

15
Jan18

Jesus cura

Talis Andrade

Para rezar de verdade, o cristão precisa de «coragem» porque, fortalecido na sua fé, deve chegar até a desafiar o Senhor, encontrando sempre o modo de superar as inevitáveis «dificuldades» sem duvidar. Foi uma verdadeira averiguação sobre o estilo de oração de cada um, que o Papa sugeriu na missa celebrada na manhã de 12 de janeiro em Santa Marta. A inspiração para a homilia foi a atitude do leproso e do paralítico que pedem a Jesus para ser curados, como narra o Evangelho de Marcos.

 

«A liturgia de hoje faz ouvir este trecho do Evangelho, que é uma cura: Jesus cura», observou Francisco, referindo-se ao trecho (2, 1-12) onde se narra, precisamente, a cura do paralítico. Mas também a liturgia do dia precedente tinha proposto «outra cura»: a do leproso, citada sempre por Marcos (1, 40-45). São duas curas, acrescentou, «por solicitação da pessoa doente: ambos pediram ao Senhor para os curar».

 

«Isto faz-nos pensar — explicou o Papa — como é a oração para pedir algo ao Senhor no Evangelho, como rezam as pessoas que alcançaram o que pediram». No trecho proposto no dia 11 pela liturgia «foi muito simples: um leproso foi ter com Jesus, fitou-o e disse-lhe: “Se quiseres, podes purificar-me”». Em síntese, «desafiou-o: se quiseres, podes». E «a resposta de Jesus é imediata: “quero, sê purificado”».

 

Portanto, insistiu Francisco, «este homem mostra-nos que para pedir algo ao Senhor é preciso ter fé». E o leproso diante de Jesus «tinha fé, era corajoso, desafia-o: se quiseres, podes; se não me curares, é porque não o queres». Diz «tudo claramente, mas tinha fé, e a verdadeira oração nasce desta fé».

 

 

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