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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Dez19

A tragédia de Paraisópolis e a desigualdade social em São Paulo

Talis Andrade

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por Simão Pedro

Uma das coisas que me chamaram a atenção no massacre de 9 jovens na comunidade de Paraisópolis no último domingo foi que a maioria dos que ali morreram não eram da comunidade. Foram para lá em busca de diversão no baile funk que lá ocorre semanalmente, atraindo jovens de todas as regiões da periferia da Capital.

 

Paraisópolis, bairro em que 49% dos domicílios são considerados irregulares - não tem termo de posse e nem escritura - é conhecido pelas imagens que contrastam suas casas pobres de blocos sem reboco e caixas d’água azuis aparentes fazendo divisa com os prédios com piscinas suspensas e mansões ricas do Morumbi. Um retrato da extrema desigualdade que é marca da sociedade brasileira e também paulistana.

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E essa desigualdade entre ricos e pobres que faz de nossa sociedade uma das mais injustas socialmente no mundo, aumentou mais ainda nos últimos anos. Segundo dados do IBGE divulgados recentemente, no ano de 2018 o rendimento da fatia mais rica da população aumentou em 8,4%, enquanto os mais pobres sofreram uma redução de 3,2%. Ou seja aumento da concentração de renda e consequentemente da pobreza e miséria em nosso País!

Quando falamos da parcela mais rica, falamos do 1% da população - cerca de 2 milhões de brasileiros - que vive com renda média de R$ 34 mil por mês. Quando falamos dos mais pobres, falamos dos 50% da população - mais de 100 milhões de brasileiros - que vivem com renda média de R$ 820,00 por mês. Ou seja, a parcela do 1% ganha 33,8 vezes mais que a parcela dos 50%, um patamar recorde.

Essa divisão não é só de renda. Ela também é espacial e no acesso a serviços de educação, cultura, saúde e trabalho, por exemplo. E a cidade de São Paulo é um exemplo disso! Estive olhando as informações do Mapa da Desigualdade que é o último levantamento (2018) feito pelo Movimento Nossa São Paulo em parceria com o instituto Ibope Inteligência. São estarrecedores!

Poucos paulistanos têm os mesmos acessos a serviços públicos. No Itaim Bibi, por exemplo, 0,83% dos domicílios são favelas e apenas 7 dos 96 distritos da Cidade não possuem residências nessas condições. Em Paraisópolis, já citei, 49% das residências são irregulares. Na questão de empregos, os moradores do distrito da Barra Funda têm 246 vezes mais chances de arrumar trabalho do que os que moram na 59 pontos na Cidade Tiradentes, que fica em último lugar no quesito emprego. E quem mora na Cidade Tiradentes morre bem mais cedo que os demais habitantes: enquanto a expectativa de vida naquele bairro situado no externo Leste é de 58 anos, os que moram no Jardim Paulista tem quase 2 décadas a mais: 81 anos. No tema do acesso à saúde privada, 66% dos paulistanos não têm plano de saúde e 31,6% dos domicílios viviam com renda mensal de 1/2 salário mínimo por pessoa.

No tema do acesso à atividades culturais as diferenças também são gritantes é isso tem a ver com a tragédia dos jovens de Paraisópolis. Segundo o Mapa da Desigualdade, 53 distritos de São Paulo não tem centros culturais, casas ou espaços de cultura. 60 distritos não têm museus. 52 não têm salas de shows e concertos. 54 não têm salas de cinema e 23 não têm nenhum equipamento de cultura como bibliotecas, por exemplo.

Esses números sobre os equipamentos culturais não são piores porque os CEUs, construídos a partir dos anos 2000 e as Fábricas de Cultura a partir de 2010 deram uma aliviada. Foi por isso que, quando fui Secretário de Serviços na gestão Haddad, recebi a missão de levar mais serviços públicos para a periferia. Levamos a Coleta Seletiva que só servia 85 distritos para os demais 21. Colocamos praças com WiFiLivre em todos os distritos; implantamos a rede de laboratórios de fabricação digital, os FabLabs, com 12 unidades, 9 delas na periferia; começamos o programa de iluminação com LED pelos distritos com maiores vulnerabilidades como Lageado, Cidade Tiradentes, M’Boi Mirim, Brasilandia, Raposo Tavares, Pedreira, Sapopemba e Guaianases. Isso se somando à iniciativas como os cursos universitários nos CEUs, além das 20 salas de cinemas também nos CEUs.

Paraisópolis não ficou de fora: além da praça WiFiLivre, ali inauguramos uma central de reciclagem e instalamos uma cooperativa, construímos 2 ecopontos e reforçando a iluminação pública e instamos pontos novos na nova avenida Hebe Camargo que corta o bairro, mantendo ainda os 3 telecentros em parceria com a Associação dos Moradores do local. Claro que, pouco ainda para melhorar a qualidade de vida dos moradores dali.

04
Dez19

O massacre de Paraisópolis e o apartheid social

Talis Andrade

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por Aldo Fornazieri

Os nomes dos nove jovens massacrados em Paraisópolis ecoaram nas redes sociais para não serem esquecidos. Não dá para esquecer. Não podemos e não devemos esquecer. São nove vidas em pleno florescimento que foram brutalmente ceifadas. Aquela brutalidade é o retrato do abandono das periferias, das periferias sem futuro, dos jovens sem futuro. É o futuro do Brasil que está sendo massacrado. É o futuro do Brasil que está sendo assassinado. 

 

As versões de João Dória e da polícia não se sustentam pelas evidências que existem. O cenário do massacre foi alterado. O SAMU sequer apareceu. Pessoas foram impedidas de socorrer os jovens. Culpar os policiais é fácil. Na verdade, os policiais são usados por essa elite assassina para matar pobres. São pobres matando pobres; são negros matando negros. Enquanto isso, os verdadeiros assassinos estão nos gabinetes, nos escritórios, nos palácios. 

O massacre é a manifestação de uma elite cruel e predatória, de um capitalismo criminoso, que não quer admitir os mínimos direitos. O massacre é a evidência do gigantesco apartheid social que impera no Brasil e que é, ao mesmo tempo, um apartheid racial, um apartheid da juventude pobre. As periferias são os guetos da pobreza e do desprezo e abandono a que os pobres são relegados. A prova mais indesmentível desse apartheid é que a metade da população brasileira vive com pouco mais de R$ 400 por mês. São os milhões de desempregados, de desalentados, de subempregados. 

As lideranças políticas e sociais precisam compreender que os termos da atual equação social e econômica do Brasil é absolutamente inaceitável e que é preciso agir de forma desmedida contra essa equação, contra essa indignidade. O massacre de Paraisópolis não é um fato isolado: é a expressão cruel e cruenta do apartheid, da injustiça, da desigualdade, da falsa democracia que impera no Brasil.

Os partidos de esquerda não podem tratar o massacre de Paraisópolis como um caso estadual. É preciso um pronunciamento nacional das direções partidárias. Existem parlamentares combativos nos partidos de esquerda. Mas, no geral, as bancadas têm atuações aquém do necessário para enfrentar a guerra que as elites promovem contra os pobres. 

No discurso que Lula fez em São Bernardo depois de ganhar a liberdade incitou que os parlamentares de esquerda a se tornem leões. Esta é uma necessidade urgente. O fato é que os governos tucanos de São Paulo nunca tiveram uma oposição efetiva. Os parlamentares progressistas não podem ser gatinhos manhosos de Alckmin, de Dória ou de quem quer que seja. Precisam estar onde está o povo. Precisam enfrentar junto com o povo as vicissitudes que o povo sofre. É preciso escolher: para ser progressista não se pode estar junto com os apartadores. É preciso caminhar junto com os apartados. É preciso colocar-se à frente dos apartados lutando com eles, liderando-os.

O secretário de Segurança precisa pedir demissão ou deve ser demitido. O comandante da Polícia Militar também. Dória massacra os pobres e precisa ser denunciado nas Cortes Internacionais de Direitos Humanos, na ONU, na OEA. A repressão violenta dos jovens que não têm alternativas de lazer não foi episódica em Paraisópolis. Ela é sistemática em toda a cidade de São Paulo. Sem alternativas, os jovens da periferia, para se divertirem, precisam se expor à violência policial, à violência do crime organizado, ao risco das doenças contagiosas, ao abandono cultural e social.

Dizer que a situação dos fluxos é complexa, todo mundo sabe. Dizer que não há soluções é mentira. Tive a oportunidade de conhecer esta realidade, instado por um gestor da administração Haddad a colaborar na elaboração de um projeto de intervenção de políticas públicas para buscar saídas para o problema dos fluxos. Infelizmente, as recorrentes trocas de gestores por intercorrências políticas fizeram com que a projeto não tivesse solução de continuidade. Mas ficou claro que soluções existem e são factíveis. Ocorre que não tem vontade política. Ocorre que o poder público é absolutamente incapaz de resolver os grandes problemas urbanos. Ocorre que os pobres e as periferias não são prioridades para o poder público e para os partidos políticos. Os pobres são massa de manobra, contam apenas na hora das eleições. 

Os equipamentos públicos, a segurança pública, as prioridades estão concentrados nos bairros ricos de São Paulo. Ali, os filhos das classes médias e das elites, além de contar com a proteção do poder público, com os benefícios dos equipamentos públicos de saúde, educação, cultura e lazer, contam com os seguranças particulares, com os condomínios fechados, com os prédios protegidos, com os carros para deslocamentos, com dinheiro para se divertirem.

Aos jovens pobres, filhos de pobres, resta a rua, as bombas, os cassetetes, a coação do crime organizado, as bebidas de péssima qualidade, o alcoolismo, as drogas dos becos, a violência sexual, Os fluxos são os ambientes onde os jovens se encontram para fugirem de si mesmos, para fugirem de um cotidiano sem alternativas, sem esperanças e sem um amanhã.  

São esses jovens, em sua maioria pobres e das classes médias baixas, que compõem a mais da metade do total de estudantes que não concluem o ensino médio, dos 60% que egressam do ensino universitário, que não têm qualificações para o trabalho, que não têm empregos qualificados, que não terão acesso ao sistema de saúde de qualidade e que terão aposentadorias precárias na velhice. É para esses jovens que os partidos de esquerda e os movimentos sociais precisam se voltar e resgatar. São esses jovens que precisam ser politizados e organizados. Mudanças se fazem com ideias, projetos e força organizada. Somente deles poderá vir a força e a energia necessárias à mudança.

Sem o engajamento ativo desses jovens não haverá mudanças. Sem esses jovens, os paridos, os sindicatos e os movimentos sociais não passarão de aparatos burocráticos que servem seus próprios interesses, que miram seus próprios recursos, que acalentam seus próprios altos salários, que se regozijam no conforto de seus próprios gabinetes, que se comprazem com os hotéis e restaurantes luxuosos. Sem a força e a energia desses jovens a mudança estará morta, a esquerda estará morta e o Brasil estará morto. 

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03
Dez19

Doria e o pancadão de Paraisópolis

Talis Andrade

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por Helena Chagas

Com pretensões presidenciais, o governador de São Paulo, João Doria, vem tentando se distinguir de Jair Bolsonaro e sua turma como uma opção conservadora mais palatável e civilizada. Uma direita limpinha e cheirosa, mais liberal nos costumes, politicamente correta em temas como o repúdio à ditadura e a defesa de valores democráticos. Mas Doria vive agora um teste decisivo com a ação troglodita da PM de São Paulo que resultou na morte de nove jovens num baile funk em Paraisópolis.

Todos os indícios — e não há como negar vídeos, esconder ferimentos e calar depoimentos — mostram que a operação Pancadão foi mais uma lamentável demonstração do retrocesso civilizatório que atingiu o país depois das eleições de 2018. A violência policial, os abusos das autoridades que têm a força e o desrespeito em relação a direitos humanos estão, aos poucos, sendo naturalizados. Discute-se o excludente de ilicitude — na verdade, uma licença policial para matar — como se fosse banalidade.

Não é. Mas a brutalidade, estimulada pelo poder público, passou a ser aceita por alguns, na ilusão de que ela só atinge os “bandidos” nas periferias, e que eles merecem. Nao é assim. Um dia, o seu filho pode estar no baile. E, se não houver um freio a essa onda por parte de quem foi eleito para governar para todos, um dia ela vai engoli-los também.

Doria cobrou investigações rigorosas e responsabilização dos culpados — o discurso praxe dos governantes nesses momentos. É muito pouco. A morte brutal dos jovens de Paraisópolis em razão da violência policial exige demissões, corte de cabeças e intervenção profunda na PM de São Paulo.

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03
Dez19

AS VÍTIMAS DO MASSACRE EM PARAISÓPOLIS

Talis Andrade

por Arthur Stabile

Amigos e familiares contam como eram os nove jovens que morreram pisoteados após ação da PM em baile funk

Os nove jovens mortos após ação da PM em baile funk 

 

Nove jovens de 14 a 23 anos, moradores de variados bairros da cidade de São Paulo e de cidades da região metropolitana da capital paulista. Um trabalhava com vendas, outro estava desempregado e mantinha vivo o sonho de ser jogador de futebol, outros vários ainda estudavam. Amigos e, sobretudo, familiares contam como eram os nove mortos do massacre ocorrido em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, decorrente de uma ação da Polícia Militar do estado, comandada pelo governador João Doria (PSDB).

Parentes de alguns dos mortos estiveram no IML (Instituto Médico Legal) Sul para reconhecer e liberar os corpos para os respectivos enterros. Outros estiveram no IML Central. Eles relembraram com carinho de seus entes queridos e cobraram respostas do poder público, seja pela violência da PM com os integrantes do baile funk feito em Paraisópolis, seja pelo fato de não verem os corpos e ferimentos das vítimas, apenas seus rostos.

Bruno estava desempregado e sonhava ser jogador 

Esta segunda questão é levantada por Vanini Cristiane Siqueira, irmã de Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos. Desempregado, o jovem trabalhava com telemarketing até ser demitido há alguns meses. Ainda nutria o sonho de virar jogador de futebol, apesar da idade avançada para o início de carreira. Para os pais, tempo que não foi suficiente para o amadurecimento do jovem torcedor do São Paulo. Nem sequer carta de motorista o deixaram tirar, mesmo após quatro anos da liberação legal, por considerá-lo imaturo para ter um carro sob seu controle.

No IML, Vanini reconheceu o rosto do irmão. Quando tomou a atitude de abrir o saco que cobria o corpo, foi impedida por um funcionário do IML. Segundo ele, ela não poderia fazer aquilo pois o corpo estava muito machucado. “Eu saio daqui inconformada. Por que não pude ver o corpo do meu irmão? Não estão deixando ninguém ver o corpo, só o rosto”, afirmou a irmã. “Tem que saber o que aconteceu realmente, porque esses jovens foram impedidos de sair. Tem que ser averiguado. Infelizmente o meu irmão se foi. É pedir justiça e que Deus receba ele”, lamentou.

Gustavo era o mais jovem dos mortos e estudava no 9º ano 

 

Bruno era um rapaz apegado à família, segundo Vanini. Colocava os sobrinhos e os pais em primeiro lugar. Ele era adotado, vivia com a família de acolhimento desde os 10 anos em Mogi das Cruzes (Grande SP). “Inclusive, ele abraçou minha mãe esses dias e falou: ‘mãe, eu não quero que você vá antes de mim, eu quero ir antes de você’. Ele sempre deixava bilhetes para minha mãe”, conta Vanini. No IML, a mãe biológica de Bruno não resistiu e desmaiou ao ver o filho deitado na maca.

Inconformismo é um sentimento comum entre os familiares. Roberto Oliveira é padrinho de Gustavo Cruz Xavier, 14 anos, estudante que morava no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, a vítima mais nova do massacre. Eles descobriram que o jovem estava morto ao receberem por WhatsApp vídeos do massacre ocorrido no baile funk. Nas imagens, a mãe reconheceu Gustavo e, com sua demora de voltar para a casa, os familiares ligaram os pontos.

Um jovem “tranquilo e amoroso”, diz parente sobre Marcos Paulo 

 

O adolescente mentiu e foi com dois amigos de 16 anos para o baile, considerado perigoso pela família, tanto pelas ações policiais quanto pela presença de “gente ruim”. “Os adolescentes que moram na periferia não têm condição de ir em um shopping curtir, em ir curtir nesses bailes no Anhembi, com um monte de artista. É muito caro. E os bailes funks são baratos”, comenta Roberto.

O padrinho conta que Gustavo “só tinha tamanho”, um menino doce que não tinha malícia nem “pensava rápido” quando acontecia uma confusão, como a ação da PM. Estudante do nono ano do ensino fundamental, o principal sonho dele era o de muitos jovens da periferia: ter um carro. “O Gustavo era um menino, não pensava muito no futuro”, lembra.

Baiano, Mateus se sustentava vendendo produtos de limpeza 

 

A família recebeu do IML apenas uma corrente usada por Gustavo no baile funk, nenhum outro pertence sob alegação de que as roupas foram cortadas e “jogadas fora”. “[Marca] de pisoteamento a gente não viu. Quando você cai no chão jogando bola você se rala. Nele não, tinha uma pancada na cabeça, na testa, e o pescoço estava meio roxo. Não deram nem a roupa dele para nós”, conta Roberto.

Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos, disse para a família que ia comer uma pizza e foi para Paraisópolis. O estudante se preparava para fazer vestibular e aproveitou um momento para juntar um grupo de amigos e ir pela primeira vez em um baile funk, de acordo com um familiar. Era um intervalo para divertimento. Um dos integrantes do grupo disse aos parentes de Marcos que a PM os agrediu deliberadamente.

“Bateram muito com cassetete, o outro rapaz está cheio de hematomas. Ele tropeçou, caiu e vários policiais o agrediram. Está com os punhos machucados”, conta a parente de Marcos, que pediu anonimato com medo de sofrer represálias. Marcos Paulo era um jovem tranquilo e amoroso que ainda estudava no 2º ano do ensino médio. Segundo essa familiar, o bairro em que moram dá poucas opções de lazer, o que faz os adolescentes buscarem os bailes.

Segundo amigo, PM disse que “cuidaria” de Dennys durante a operação 

 

Silvia Ferreira, cunhada de Mateus dos Santos Costa, 23 anos, criticou a falta de informações no IML. “Vamos na delegacia, alguém tem falar alguma coisa para a gente. O médico da perícia não sabe dar uma justificativa. Falam para voltarmos daqui a 60 dias e pegar o laudo”, denuncia. “É uma pessoa que está ali, um humano. Não é um cachorro. Ao menos vem e fala: ‘ele está muito machucado, não sabemos dizer se foi um espancamento, se foi pisoteamento’. Dá uma declaração justa. Que governo é esse?Que putaria é essa?”, esbravejou.

O jovem ganhava a vida vendendo produtos de limpeza. Natural da Bahia, vivia em Carapicuíba, cidade da região metropolitana de São Paulo, e viveu seus últimos dias cercado de alegrias. Afinal de contas, Mateus era torcedor do Flamengo, time que no fim de semana do dia 23 de novembro conquistou os títulos da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro de futebol masculino.

Luara tinha 18 anos 

 

“O vídeo mostra muito bem claro. Os amigos disseram que foi tudo muito rápido, que os policiais já chegaram fechando a rua. Fecharam todos os becos e um escadão”, conta Silvia. “Ele era um menino tranquilo. Se fosse errado, eu falava que não valia nada. Ele só foi para lá porque Carapicuíba não tem opção para a gente sair, nem para nós que somos casal”, afirma, se referindo ao companheiro, Marcos Costa, irmão de Mateus, que estava no IML.

Uma parente de Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16 anos, morador da Vila Matilde, zona leste paulistana, conta que ouviu de um amigo que estava com o jovem o que teria ocorrido no baile. O grupo correu quando a polícia chegou, Dennys ficou para trás e um dos amigos tentou ajudar. Ali, um policial teria dito: “pode deixar que a gente cuida dele”.

Eduardo da Silva, morto aos 21 anos 

 

“Não foi nada disso que eles estão divulgando. Ele tem um machucado na cabeça, os pés intactos e o costuraram de qualquer jeito. Pedi para tocar nele e não deixaram nem por a mão”, disse a familiar, abalada, pedindo para não ser identificada. Dennys estudava no segundo ano do ensino médio.

Um amigo de Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos, descreve o rapaz como “um moleque bom, que nunca fez mal para ninguém”. “Era trabalhador, que estudava e sempre tirava um sorriso de todo mundo, muito brincalhão”, comenta o rapaz.

Segundo amigos, Denys era brincalhão e “tirava sorriso” de todos 

 

Moradora do Jardim Primavera, região do Grajaú, também na zona sul de São Paulo, Luara Victória de Oliveira, 18, era frequentadora assídua de baile funk. Segundo o R7, um parente da vítima, que pediu para não ser identificado, contou que Luara foi criada pelo pai na casa da avó e precisou muito do apoio de familiares nos últimos 5 anos, quando ficou órfã. Também relatou que amava ir aos “pancadões” e que já tinha ido outras vezes ao baile de Paraisópolis. Ela estudava na rede pública, em uma escola ao lado do bairro onde vivia, e estava procurando um emprego.

Pai de um filho de 2 anos, Eduardo Silva, 21, é a oitava vítima. Ao R7, uma cunhada do jovem, que preferiu não se identificar, afirma que a família ficou desesperada quando Eduardo não voltou do baile. “Como vai ser agora? Na hora que recebei a notícia fiquei pensando no que dizer quando ele perguntar do pai. Como vou explicar o que aconteceu”, disse. Ele morava no bairro Cidade Ariston, em Carapicuíba, na Grande São Paulo, com a mãe, o pai, uma irmã e o filho, e trabalhava numa oficina mecânica. “Agora fica a lembrança e a saudade. Ele era um bom menino”, lamentou.

Gabriel Rogério de Moares, 20, a nona vítima, foi velado e enterrado nesta segunda-feira (2/12) em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde vivia. Ao G1, o pai dele, Reinaldo Cabral de Moraes, disse que uma ação contra criminosos não justifica agredir jovens que estavam se divertindo. “Não existe justificativa para tirar uma vida. Vão ter investigações, mas o que indica é que houve um excesso policial, força excessiva contra jovens que estavam lá e não tinham nada a ver com o assunto. O que se leva a crer, como alguns falaram lá, é que foi uma emboscada, foi um cerco”, criticou.  Ainda segundo o portal, Gabriel trabalhava como leiturista de uma empresa que prestam serviços para uma concessionária de energia.

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03
Dez19

A tragédia de jovens empurrados pela PM até matarem-se uns aos outros

Talis Andrade

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por Paulo Moreira Leite 

Os vídeos sobre o massacre de jovens em Paraisópolis devem ser vistos como aqueles  imponentes murais que costumam ser exibidos  nos melhores museus do planeta.

Empurrados para a morte por pisoteamento a golpes de cassete, bombas e gás, os gritos e movimentos de sofrimneto sem fim daquela massa humana dizem tudo o que é preciso saber sobre as tragédias do Brasil de nosso tempo.

Forçados a matar-se uns aos outros por esmagamento, única forma de tentar escapar da própria morte, jovens pobres do país são conduzidos a um salve-se quem puder aonde nem todos perecem -- mas a rigor ninguém se salva. Nem os que tiveram a sorte de permanecer vivos.

Agora que ficou demonstrado que a principal herança do espetáculo da Lava Jato foi um país sem empregos, a economia destruída e  um Judiciário partidarizado, cabe reconhecer que neste fim de semana a periferia da maior cidade brasileira caminhou numa treva sem registro nos livros de história.

Atravessamos a fronteira na qual a morte violenta de inocentes torna-se a grande moeda de troca da luta política. Pois era isso -- cadáveres -- que a PM sabia que iria encontrar quando foi para cima da juventude em Paraisópolis, encurralando centenas, quem sabe milhares, contra o muro e o asfalto de becos sem saída.

Em nova erosão do  Estado Democrático de Direito, os cadáveres empilhados de nove garotos -- 14 a 23 anos -- valem como troféus num morticínio em praça pública, sem julgamento e sem piedade, a certeza de impunidade absoluta.

Houve uma época em que o Estado brasileiro  retirava garotos que residiam em abrigos de menores para executá-los na madrugada.

Agora, mata-se jovens que tentam ser jovens -- o que inclui se divertir, namorar, embrigar-se e cometer transgressões.

Num torneio de morticínios, João Doria e Wilson Witzel, governadores dos mais influentes estados brasileiros, procuram abrir seu caminho no país de Jair Bolsonaro, de quem disputam a herança.

Não há a menor preocupação com a necessidade de cultura dos jovens pobres e pretos.

Nem uma promessa -- fugidia que fosse -- de esperança de um destino melhor. Vivem largados, entre a pressão do tráfico e a falta de oportunidades reais na vida. Fora isso, nada. Apenas a morte.

Alguma dúvida?

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03
Dez19

O massacre de Paraisópolis e a nossa covardia

Talis Andrade

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por Renato Rovai

Mataram oito meninos e uma menina em Paraisópolis, São Paulo. Todos entre 14 e 23 anos. Assassinados pelo fascismo e pela violência policial. Pelo dedinho do Estado que atira na cabecinha. E nós? Que fazemos? Vamos tomar uma cerveja com os amigos e reclamar da vida e dos dias ruins que estamos vivendo?

Estamos anestesiados esperando a próxima chacina? Estamos esperando o morro descer? Estamos culpando o povo pela situação de merda que estamos passando, quando na verdade foi majoritariamente a elite e a classe média deste país que pediu a barbárie?

Nossos sindicatos, ONGs, artistas, intelectuais, estudantes, meios de comunicação vão ficar olhando jovens de periferia serem assassinados assim? Vão ficar esperando que a galera se vire sozinha?

É esta a nossa noção de solidariedade, de fraternidade e de defesa dos Direitos Humanos e de Justiça Social?

Cadê a galera chamando atos? Cadê artistas fechando teatros em protesto? Cadê a Paulista toda usando preto e gritando Luto por Paraisópolis? Cadê sindicatos parando o trânsito no Morumbi pra chamar a atenção daqueles que ali do lado podem fazer muito mais por esses meninos e meninas?

Vai passar batido? Não é com a gente? Não são nossos filhos, sobrinhos, primos?

Ou vamos esperar um movimento que exploda de forma desorganizada e complique ainda mais a complicada situação democrática?

Paraisópolis é a nossa vergonha e o rosto escroto das opções que o país tem feito, mas também é a cara da nossa covardia. Nós continuamos calados. Pasmados.

Não deveria ser assim. Não deveria ser assim.

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02
Dez19

A lista dos mortos na chacina da polícia de Doria, que considera o baile funk "um cancro que destrói a sociedade"

Talis Andrade

Nove pessoas morreram pisoteadas na ação da polícia na comunidade da Zona Sul de São Paulo na madrugada deste domingo (1º)

 

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Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos


Famílias começaram a reconhecer os corpos das nove vítimas que participaram de um baile funk na comunidade de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, na madrugada deste domingo (1º), depois de uma perseguição policial, segundo a Polícia Civil.
A primeira vítima a ser reconhecida é Marcos Paulo Oliveira dos Santos. Tinha 16 anos, era estudante e morava no Jaraguá, Zona Norte de São Paulo. De acordo com a família, foi a primeira vez que Marcos foi ao baile funk de Paraisópolis. A família não sabia que tinha ido ao baile. Ele disse para a avó que ia comer uma pizza com os amigos. O mais jovem tem apenas 14 anos, Gustavo Cruz Xavier. 

 

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Denys  Henrique Quirino da Silva, 16 anos 


Segundo o Corpo de Bombeiros, os nomes dos jovens mortos:

Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos
Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos
Eduardo Silva, 21 anos
Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos
Mateus dos Santos Costa, 23 anos
Gustavo Cruz Xavier, 14 anos
Dennys Guilherme dos Santos Franca,16 anos                                                                                              Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos
Luara Victoria de Oliveira, 18 anos

As vítimas que estão internadas são:
Miryan de Araújo Macario (lesão na perna)
Giovanna Ferraz da Silva (lesão no rosto)

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Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos

Dennys Guilherme postou em rede social que estava no baile. "Hoje eu tô inspirado, vou mandar o magrão de esquina a esquina e dar um tapa na cabeça da sua vó, não quero saber de nada, meninas hj o pai vai tá online, vou surfar mais que o Medina."

Terrorismo policial

Gustavo Cruz Xavier 14 anos paraiso.jpg

 

Gustavo Cruz Xavier, 14 anos

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha publica hoje que em dezembro de 2016, quando venceu a disputa para a Prefeitura de São Paulo, Doria, definiu o pancadão (baile funk)  como  "um cancro que destrói a sociedade".

"A cidade é um lixo vivo. O pancadão [baile funk] é um cancro que destrói a sociedade. O pancadão é administrado pelo PCC  [Primeiro Comando da Capital]", disse o então prefeito eleito em evento na Fecomercio-SP.

Paraisópolis é a segunda maior comunidade da cidade, com 100 mil habitantes. De acordo com a polícia, agentes do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) realizavam a Operação Pancadão.
O baile tinha cerca de 5 mil pessoas.

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Luara Victoria de Oliveira, 18 anos


A mãe de uma adolescente de 17 anos que estava no local, e que foi agredida com uma garrafa, disse que os policiais fizeram uma emboscada para as pessoas que estavam no baile.
A jovem descreveu o momento em que foi atingida. "Eu não sei o que aconteceu, só vi correria, e várias viaturas fecharam a gente. Minha amiga caiu, e eu abaixei pra ajudá-la. Quando me levantei, um policial me deu uma garrafada na cabeça. Os policiais falaram que era para colocar a mão na cabeça."

 

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