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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

14
Jun20

A pandemia dissecou a tirania de Bolsonaro

Talis Andrade

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por Guilherme Antonio Fernandes e Sara Toledo

Le Monde

 
O desinteresse que Jair Bolsonaro tem mostrado em relação ao combate à pandemia que devasta e ceifa a vida de tantos brasileiros demonstra a face mais sombria de uma pessoa que não apresenta qualquer conexão com os rumos da sociedade brasileira. Bolsonaro, além de perdido e sem horizonte para oferecer ao país, parece estar cada vez mais desinteressado em tentar, ao menos, disfarçar que governa para seus familiares e amigos, e não para o povo brasileiro. É evidente que seu governo tem apenas uma preocupação particular.
 
O presidente não consegue mais esconder o espírito de quem encara todo o país e toda sociedade como sua propriedade pessoal. Bolsonaro tem governado como se o país fosse seu agregado familiar. Não consegue entender os limites que o cargo lhe coloca e tampouco as próprias atribuições que a Constituição lhe confere. Quando descobre que possui limites, se enerva e não se conforma. Seu distanciamento dos mais urgentes problemas do país ganha contornos de crueldade em meio aos seus rompantes raivosos e descabidos.

A briga de Bolsonaro com a ciência não é por mera ignorância, mas sim por vaidade. Bolsonaro é o líder que quer conduzir e mudar a história. É aquele que, por prepotência, não pode errar e nem estar do lado errado da história. O líder que mistura o poder com sua casa, mas dá à sua personalidade os tons de eternidade. Quer mudar a história do país não para melhorar a vida das pessoas, mas para demonstrar que na sua cruzada pessoal ele sempre teve razão nos valores que tomou como corretos. Parafraseando Antonio Scurati, Bolsonaro é o filho da suposta “revolução brasileira”. Assim funciona sua cabeça. Portanto, não é unicamente porque briga com a ciência, mas porque somente escuta aqueles que falam o que ele quer ouvir. Como todo tirano, Bolsonaro só se circunda de aduladores ideológicos. Dessa forma, alimenta em si mesmo a certeza de que está no caminho certo da sua cruzada.
 
Bolsonaro nos faz lembrar dos antigos tiranos da história, como o imperador Nero e o general Franco, que usavam do poder para satisfazer sua personalidade hedonista. Seduzido pelo prestígio que o poder lhe deu, busca na afirmação diária de que ele, e mais ninguém é o presidente do Brasil, para assim satisfazer o seu narcisismo. O poder claramente proporciona prazer a Bolsonaro. O poder de dizer o que quer, no momento que quer e da forma que quer. Bolsonaro gosta de mandar e quer que todos se alinhem ao que ele pensa e ao que ele quer. É intolerante ao que pensa diferente. Seus conceitos valorativos são todos construídos numa ordem dicotômica onde somente há duas opções: concordar com ele ou discordar. Não há meio termo. Nesse sentido, quem concorda está com ele e quem discorda é seu inimigo. Bolsonaro não tem adversários, ele tem amigos (que o adulam) ou inimigos.

Mas, além de hedonista, Bolsonaro tem delírios de eternidade na linha do que ensina Timothy Snyder. Sua mitificação personalizada nos brados de seus seguidores lhe dá a certeza de que entrará para a história e de que ela lhe garantirá a vitória. Bolsonaro é a mistura do devaneio narcisístico psicológico somado ao histórico.

Se não fosse presidente suas frases isentas de empatia para com as vítimas da Covid-19 fariam com que fosse ignorado ou relegado a alguma zona de penumbra, onde seria esquecido. Mas, como pode ser não empático e mesmo assim estar circundado de aduladores profissionais e ser chamado, ainda, de mito, o presidente sente no espírito a sensação do poder irresistível. Ou seja, a sensação de que sua onipotência é real e que mesmo diante de qualquer bobagem que venha a falar, ou qualquer tragédia que possa vir a acontecer, ainda assim alguém lhe dirá: mito!

Na realidade, o que parece estar acontecendo é um processo de destruição interna do presidente. O poder está destruindo Bolsonaro internamente. Ele parece estar repetindo os erros de tiranos do passado, que quando caminhavam velozmente para a destruição de sua tirania, pareciam pisar no acelerador dos erros e dos confrontos, de modo a intensificar a aparência de indestrutibilidade, mas que já tomava corpo de fantasia e desmoronava-se em público, deixando atônitos seus espectadores. 

O mais grave é que a esse processo de destruição pessoal alia-se um processo de erosão do Brasil. O país, além de se tornar o epicentro da pandemia global, apresenta índice alarmante de devastação ambiental, grilagens de terras indígenas, negligência para com os próprios povos indígenas, incompetência na distribuição de recursos emergenciais para a população mais necessitada, dentre tantos outros problemas e equívocos que evidenciam a desorganização e falta de plano de governo. Acrescenta-se a tudo isso um quadro econômico extremamente preocupante com a saída de capitais superior à crise do real de 1995. Com efeito, a pandemia tem demonstrado a face mais cruel do modus operandis de Bolsonaro, que não governa a nação, mas ao seleto grupo particular de interesse, que envolve, também, um grupo empresarial que o financiou e o financia, como por exemplo, Luciano Hang, dono da rede Havan. 
 
O presidente, ao cada vez mais se distanciar dos reais problemas do país, tem escancarado suas idiossincrasias, suas contradições e suas fragilidades. Quanto mais tenta se afirmar como o poder indestrutível, mais abre os flancos de suas fraquezas. A crise de saúde somada à crise política decorrente da saída do ex-ministro da justiça, Sérgio Moro, tem agravado cada vez mais a sua situação. Enfrenta, portanto, a somatória de uma crise política, econômica e sanitária. 
 
Todavia, não somente a saída do seu ex-ministro da Justiça abriu porta para as suas fraquezas. Suas constantes participações nas manifestações antidemocráticas em frente ao Planalto lhe trouxeram o repúdio de grande parcela da população brasileira e a reação dos demais Poderes da República. Isso lhe conferiu uma investigação para se verificar até que ponto está envolvido nessas manifestações. Além disso, há a investigação que corre sobre as fake news, que pode demonstrar a íntima ligação entre o presidente, seus filhos e uma rede de apoiadores, envolvendo, inclusive, empresários, para difundir notícias falsas e contaminar a política brasileira de ódio às instituições republicanas.

Assim, é no contexto gravíssimo de uma pandemia, cujo epicentro se torna o Brasil, que Bolsonaro sofre esse processo interno de destruição pelo poder, mas que vem erodindo também as instituições democráticas do país. Sem ministro da Saúde, após a saída de dois ministros que não concordaram com o alinhamento integral às suas ideias, e, portanto, não foram aduladores e coniventes com sua missão delirante, em sua jornada no poder, Bolsonaro definitivamente se desconectou da sociedade brasileira e se perdeu em sua personalidade.

A situação cada vez mais caótica do país, com mais de meio milhão de casos confirmados de Covid-19 e 40 mil mortes, aponta para uma linha progressivamente crescente da doença. Nessa tragédia delirante de poder de um homem, o mais grave, contudo, é a tragédia da inexistência de um plano consistente, conectado com a realidade, que possa reduzir o número de vítimas desse grave vírus. Enquanto Bolsonaro se perde dentro de si, nós, brasileiros, perdemos a chance de um futuro. A destruição de uma personalidade tirânica tem custado muito caro para o Brasil.
 
27
Abr20

Sergio Moro: O paladino dos pés de barro

Talis Andrade

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A rede de televisão com maior popularidade no país, alcançada através de telenovelas que ocupam mais de 60% da grade de programação, tem completo know-how de como transformar atores medíocres em ídolos populares

por Marcio Tenenbaum

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A passagem bíblica da Torre de Babel comporta algumas interpretações acerca do comportamento humano. Após o Dilúvio, Deus determinou que as mulheres e os homens povoassem toda a terra, o que não foi cumprido pelos habitantes de Babel. Ao contrário da determinação divina, os sobreviventes do Dilúvio decidiram permanecer em uma mesma região de forma concentrada, falando uma mesma língua até que, tomados por grande força coletiva, resolveram construir uma torre que chegaria aos céus. A leitura tradicional desta passagem é que Deus, discordando da soberba humana que pretendia chegar tão alto, espalha diversos idiomas entre todos fazendo com que os habitantes daquele local não mais se entendessem e se dispersassem.  Outra interpretação aponta para a possibilidade de que os habitantes de Babel concentraram tanto poder que se aventuraram a construir algo grandioso, mas acima de suas reais capacidades, o que acabou por gerar os conflitos que resultaram na desunião e na dispersão.

A pitoresca passagem bíblica nos ajuda a compreender o processo da demissão de Sergio Moro do governo Bolsonaro, cujos fatos também podem ser interpretados a partir das famosas frases populares: “muito barulho por nada” ou ainda “uma tempestade em copo d’água”. Se Freud nos ensinou que somos muitos menores do que pensamos ser, ou, melhor, somos muito menos do ideal que fazemos de nós mesmos, o pé na realidade é fundamental para o caminho que desejamos trilhar. E, neste caminho, é saudável a aspiração de nos transformamos, de nos reinventarmos no processo de criação que fazemos desde o dia em que nascemos. No entanto, para que um processo da saudável criação ou recriação de nós mesmos seja levado a um bom destino, é fundamental conhecermos não só a estrada por onde caminhamos, mas qual tijolo dessa construção existencial é de fato genuinamente nosso, e qual tijolo é contrabandeado das forças que nos cercam e que nos dão uma sensação ilusória de que somos mais poderosos do que de fato somos. O erro de Moro foi não identificar que os tijolos que o sustentavam eram fruto de uma criação midiática da imprensa brasileira.

Juiz de uma vara Criminal de Curitiba, Moro é alçado a ídolo nacional do combate à corrupção, cuja origem remonta à investigação de esquema de lavagem de dinheiro em uma rede de postos de combustível. Surge, aí, o nome de um doleiro conhecido seu, também de Curitiba, Alberto Youssef, fazendo com que a investigação fosse levada àquela cidade. Por intermédio de escutas telefônicas, são reveladas ligações do doleiro com um diretor da Petrobrás e o fio da meada se desenrola. A maior rede de televisão do país, a Rede Globo, percebe a oportunidade de mais uma vez, à semelhança do mensalão alguns anos antes, vincular o Partido dos Trabalhadores, que estava no poder, a um esquema de corrupção. Ainda que nos desdobramentos das investigações tenham surgido fatos que poderiam levar o processo para outras comarcas, ficava cada vez mais claro que para a imprensa era fundamental a manutenção do processo nas mãos do juiz paladino. Fortalecendo esse objetivo,  a Rede Globo apresentava diariamente em horário nobre, durante o Jornal Nacional, matérias sensacionalistas das investigações determinadas pelo juiz que vinham associadas à imagens de dinheiro saindo de dutos de petróleo: prisões preventivas de empresários e políticos próximos ao governo – todas previamente comunicadas aos repórteres para serem filmadas e transmitidas no jornal da noite; áudios de escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal, também vazados e ilegalmente encaminhados à televisão; áudios de conversas entre o ex-Presidente Lula e a Presidenta Dilma, também ilegalmente divulgados e obtidos em horário cuja autorização judicial já havia expirado; imagens de depoimentos na sala de audiência da Vara de Curitiba com a presença do juiz intimidando os depoentes. Tudo isso era o caldo de cultura necessário para colar a imagem de paladino e justiceiro em um juiz desconhecido da grande maioria do povo brasileiro.

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A rede de televisão com maior popularidade no país, alcançada através de telenovelas que ocupam mais de 60% da grade de programação, tem completo know-how de como transformar atores medíocres em ídolos populares. Afinal, esta é a sua atividade principal há mais de 50 anos. Um dos diretores da televisão Globo disse em uma entrevista que o meio de fazer com que o povo fixasse o enredo e os diversos personagens da novela era repetir diariamente os mesmos diálogos, mas em cenários diferentes. Se alguém deixar de ver a novela por alguns dias ou mesmo semanas, retornando posteriormente, pode, sem dificuldade, recuperar o desenrolar da história. A repetição, dia após dia, das operações da Lava Jato com os mesmos enredos de prisões previamente avisadas à televisão, áudios, delações, fixou nos corações e mentes do povo brasileiro a imagem de Sergio Moro como o herói solitário da luta contra a corrupção, travada exclusivamente por ele sem nenhum outro concorrente. E, o mais importante: apenas ele seria capaz de manter essa luta até o final. A imagem que se construía do juiz paladino é que não havia nenhum outro magistrado no país tão corajoso diante da corrupção. Mas, na realidade, o receio da Rede Globo, principal braço midiático da direita e da extrema-direita, era que a hipótese de divisão das investigações com outros juízes, que eventualmente pudessem ter uma visão mais garantista dos processos judiciais – respeitassem os trâmites legais, os direitos individuais dos presos, não aceitassem prisões preventivas ad infinitum ou até que o detido fizesse alguma delação com relatos que incriminassem seus opositores políticos –  acabasse por enfraquecer a grande luta que estava por trás deste roteiro de filme B: destruir o maior partido político de esquerda e sua maior liderança, Luiz Inácio Lula da Silva. Na realidade, nada muito diferente do que a emissora de televisão tenha feito nos últimos 70 anos da história brasileira, sempre se aliando aos setores nacionais e estrangeiros no intuito de destruir qualquer líder popular que tivesse um projeto de soberania nacional. Sergio Moro foi um instrumento dessa destruição, um instrumento consciente, lúcido, que sabia exatamente o que estava fazendo. Não tinha nenhuma dúvida, principalmente como juiz criminal por 22 anos, que quase todos os procedimentos que adotou na Lava jato eram ilegais. Sabia exatamente que a criminalização de Lula e sua prisão ilegal por absoluta falta de provas retirariam o maior líder das esquerdas das eleições presidenciais de 2018, abrindo caminho para a direita e para a extrema-direita. O erro de Moro foi acreditar que tinha voo próprio, que não era uma criação midiática, que o apoio popular não era fruto de uma construção televisiva, mas de um trabalho cujo mérito era exclusivamente seu. A onipotência do paladino o impediu de perceber a armadilha que Bolsonaro lhe armou ao propor a saída do diretor-geral da Polícia Federal. A real intenção do presidente era se livrar do seu Ministro da Justiça, enfraquecendo um possível concorrente nas eleições presidenciais de 2022. À semelhança dos habitantes de Babel, que decidiram dar passos maiores do que suas próprias pernas, Sergio Moro perceberá, bem mais cedo do que imaginávamos, que seus pés estão apoiados no barro e, como a Torre, ruirá e cairá no esquecimento. O papel de vítima que o ex-ministro tenta agora construir, esquecendo de todas as ilegalidades por ele perpetradas nos julgamentos da Lava-Jato, nos lembra um outro ditado popular: quem com porcos se mistura, farelos come.

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