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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

21
Mai21

O ‘tiozão do churrasco’ tirou a carne dos brasileiros

Talis Andrade

Carne por ovo | Humor Político – Rir pra não chorar

por Fernando Brito

A Folha, em matéria da agência Reuters, e a BBC noticiam esta semana o que já é conhecido por qualquer pessoa que faça compras para a casa: o brasileiro come cada vez menos carne bovina e, para muitos, a dieta de reduziu – e olhe lá – a ovos.

Do consumo recorde dos tempos do Governo Lula (42,8 quilos por habitante, em 2006), o consumo per capita veio caindo e chegou em 2020 a 29,3 quilos por brasileiro, quase um terço a menos.

E, como sabemos todos, vai cair mais ainda em 2021, porque os preços seguem subindo, acumulando alta de 29,5% em 12 meses, quase seis vezes mais que a inflação oficial. E, como a exportação é o que determina o preço interno, a manutenção do dólar alto mantém o preço lá em cima.

Nossos vizinhos argentinos, que têm o mesmo perfil exportador (três quartos da carne que produz é vendida para a China), esta metida numa crise com os ruralistas por ter imposto limites às vendas externas para segurar o preço interno. Aqui, como se viu, os produtores estão em festa com Bolsonaro, o “tiozão do churrasco”, o da picanha de R$ 1.800 o quilo.

O que as reportagens mostram é que o ovo quem, em geral, substitui a carne como proteína na mesa dos brasileiros.

Por enquanto.

Charge do Dia: Charge do Dia: Ovo vira substituto da carne | Tribuna Online

13
Nov17

Comida futurista de Doria

Talis Andrade

 

 

Doria-farinata..jpg

 

 

DO homem comum

o prazer de comer

mastigando salivando

 

Quanto lambaz

morre pela boca

Tanto que a gula

um vício capital

 

Desnatural

Dória adora

se alimentar

via supositório

 

Vai colocando

a ração granulada

grão por grão

no furico

 

até ficar entupido

de tanta comida

 

ração.jpg

 

14
Set17

Se Come Muito Bem na Literatura Portuguesa de Eça de Queiroz (Parte 2)

Talis Andrade

se ccome muito bem portugal .jpg


por Manoel Onofre Jr.


O romance Os Maias é considerado por muitos estudiosos a obra-prima de Eça. Alguns críticos, em menor número, dão a primazia a O Primo Basílio, e ainda outros, encantados com os primores estilísticos do autor, preferem A Cidade e as Serras. Certo é que Os Maias constitui-se no trabalho mais ambicioso do grande ficcionista – a obra que mais exigiu da sua capacidade de fabulação e do seu engenho na construção da narrativa e dos personagens.

 

Um vasto painel da alta-sociedade lisboeta em determinados períodos do século XIX, tendo, no enredo, como piéce de resistence, um caso de incesto: Carlos da Maia, jovem e diletante médico, neto querido do fidalgo Afonso da Maia, senhor do “Ramalhete”, apaixona-se por uma bela mulher, Maria Eduarda, mas vem a descobrir, tardiamente, que ela é sua irmã. E em tudo se faz presente o espírito crítico, por vezes irreverente e cáustico, do autor.

 

Assim se define, de modo simplista, essa obra inigualável, verdadeira culminância do Realismo em língua portuguesa.

 

Curiosamente, não é nas suas páginas que se encontra o Eça gastrônomo por excelência. Ao longo dos dois alentados volumes, que compõem o livro, surgem apenas sete referências à culinária portuguesa típica, além do mencionado na primeira parte deste escrito a respeito dos ovos moles de Aveiro. Não é muita coisa se comparada à fartura de acepipes descritos em A Cidade e as Serras, obra bem menos extensa.

 

De saída há em Os Maias uma passagem bem humorada, em que se destacam duas especialidades da cozinha lusitana: as queijadas e o bacalhau.

 

São famosas as queijadas de Sintra. Ainda hoje, turistas que visitam aquela serra paradisíaca, nos arredores de Lisboa, não deixam de se deliciar com essa guloseima feita com farinha de trigo, leite, ovos, queijo e açúcar.

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 Queijadas portuguesas

 

Quando o personagem Cruges vai a Sintra, em companhia de Carlos da Maia, na hora da partida, “uma voz esganiçada de mulher gritou-lhe de cima” (do primeiro andar de sua casa):

 

“- Olha, não te esqueçam as queijadas.”

 

Em Sintra os dois amigos passeiam, conversam, desfrutam as belezas serranas, mas, em dado momento, Cruges exclama:

 

“- Diabo! É necessário que não me esqueçam as queijadas!”

 

Mais passeios, mais conversas, e encontram o amigo Alencar, festejado poeta da velha guarda, romântico empedernido, que, após cumprimentá-los com efusão, convida-os:

 

“…vou-me entender lá abaixo à cozinha da velha Lawrence, e preparar-vos um ‘Bacalhau à Alencar’, récipe meu… E vocês verão o que é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outro melhor; bacalhau, não!”

 

E fartam-se de bacalhau e de Sintra.

 

Na volta, já dentro do break (carro de tração animal) (1), que os levaria a Lisboa.

 

“- Com mil raios! – exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário (2).

 

“O break parara, todos olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou!

 

“- Esqueceram-me as queijadas!”

 

Páginas adiante, João da Ega, o amigo e confidente de Carlos da Maia, vindo de Sintra, depara-se, numa das salas do “Ramalhete”, com Carlos e sua amada Maria Eduarda. Surpreso com a presença da mulher, ali, no solar dos Maias.

 

“Ega ia largar atarantadamente o embrulho, para apertar a mão que Maria Eduarda lhe estendia, corada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Sintra rolou, esmagando-se, sobre as flores do tapete. Então todo o embaraço findou através de uma risada alegre – enquanto o Ega, desolado, abria os braços sobre as ruínas do seu doce.

 

“- Tu já jantaste?” – perguntou Carlos.

 

“Não, não tinha jantado. E via já ali uns ovos moles nacionais que o encantavam, enfastiado como vinha da horrível cozinha do Vítor. Oh ! que cozinha! Pratos, traduzidos do francês em calão como as comédias do Ginásio!”

 

Note-se que, embora citando, ao longo do seu romance, vários pratos da culinária francesa (3), Eça gostava mesmo era das comidas da sua terra.

 

Em outra passagem de Os Maias, quando Ega diz que, talvez, vá a Sintra, Carlos recomenda-lhe:

 

“…E tu, se fores, traz-me umas queijadas para a Rosa, que ela gosta!…”

 

————

 

Num restaurante de Lisboa, Ega foi almoçar, ainda abalado com a revelação do parentesco entre Carlos e Maria Eduarda.

 

“O bife era excelente – e depois de uma perdiz fria, de um pouco de doce de ananás, de um café forte, Ega sentiu adelgaçar-se, enfim, aquele negrume que desde a véspera lhe pesava na alma.”

 

Esta é, aliás, a segunda alusão ao ananás (abacaxi), que, à época da ação romanesca, devia ser fruta exótica, rara e cara.

 

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 Doce de ananás

 

Na quinta dos Olivais, junto a Maria e Ega, “Carlos ria, preparando numa travessa o ananás com sumo de laranja e vinho da Madeira” (…) Conversavam animadamente.

 

“Mas o Domingos servia o ananás. E o Ega provou e rompeu em clamores de entusiasmo. Oh! que maravilha! Oh! que delicia!”

 

————

 

Encontrando-se, tempos depois, no Chiado (4), com os amigos Alencar e Cruges, Carlos convida-os a jantar.

 

“Tenho um jantarzinho à portuguesa que encomendei de manhã, com cozido, arroz de forno, grão-de-bico, etc., para matar saudades…”

 

Um dos pratos mais afamados da cozinha típica portuguesa – o cozido. Nele entram, em profusão, carnes bovina e suína, legumes, verduras, e especialmente, embutidos – chouriço, paio, etc. -; isto o diferencia do cozido à brasileira. Diga-se que não vem acompanhado de pirão, como o nosso.

 

————

 

Já numa das páginas finais de Os Maias , Carlos, havendo retornado a Lisboa, após longa ausência,revê a sua cidade em companhia do amigo Ega. Trocam ideias, formulam “ teorias” sobre o sentido da vida, falam de Portugal e dos seus males, e tudo veem com um olhar extremamente crítico. “ De repente, Carlos teve um largo gesto de contrariedade:

 

“- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite ! Esqueci-me de mandar fazer hoje, para o jantar, um grande prato de paio com ervilhas”.

 

Esse anseio pela culinária típica talvez fosse, também, do próprio Eça, que morou, longos anos, em Paris, mas nunca cortou os laços com a sua terra.

 

NOTAS.

1- Break (breque). “Carruagem de quatro rodas com um assento alto adiante e ordinariamente dois bancos atrás longitudinais e fronteiros um ao outro” (Lello Universal – Dicionário Enciclopédico Luso- brasileiro. Vol. I – p.387- Porto: Lello & Irmão Editores, sem data).


2 -Trintanário. “ Criado que senta na carruagem ao lado do cocheiro e que abre a portinhola, entrega bilhetes de visita, etc.” ( Ob. cit. Vol. IV,p. 1076).


3 - Sole normande, jambom aux épinards, poulet aux champignons, galantine.


4 - Chiado – bairro de Lisboa; um dos recantos mais elegantes da cidade à época da ação romanesca    ( e ainda hoje).

 

 

 

 

 

 

19
Ago17

Se Come Muito Bem na Literatura Portuguesa de Eça de Queiroz (Parte I)

Talis Andrade

por Manoel Onofre Jr.

 

Em seu livro “As Amargas, não…”, Alvaro Moreyra diz a certa altura:

– “Come-se mal nos livros de Machado de Assis…”

Pois, digo eu: come-se muito bem nos livros de Eça de Queiroz.

Eça, ao que tudo indica, era um gastrônomo de primeira, haja vista a descrição que faz de inúmeras especialidades, sobretudo da cozinha portuguesa, de modo a deixar o leitor com água na boca.

Dia desses, dei-me ao trabalho de selecionar alguns trechos dessa riqueza culinária contida em cinco dos seus romances: “O Crime do Padre Amaro”, “O Primo Basílio”, “A Cidade e as Serras”, “A Relíquia” e “A Capital”. Transcrevo-os a seguir, sem maiores pretensões.

Bom apetite, leitor.

 

I

 

Em “O Crime do Padre Amaro”, o personagem Cônego Dias, referindo-se aos dons culinários de sua outonal amada, a S. Joaneira, afirma:

“Não há dia que me não mande o seu presente. É o covilhete de geléia, é o pratinho de arroz-doce, é a bela morcela de Arouca! Ontem me mandou ela uma torta de maçã. Ora, havia de você ver aquilo! A maçã parecia um creme! Até a mana Josefa

disse: ‘Está tão boa que parece que foi cozida em água benta.'”

Morcela, diga-se de passagem, é uma espécie de embutido à base de sangue de porco; tinha fama a que era feita na cidade de Arouca, situada na região das Beiras, Portugal.

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                                                             Morcela

 

————

No primeiro jantar do Padre Amaro em casa da S. Joaneira:

“Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo, e na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz húmido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência suculenta de prato morgado.”

Num sarau em casa da S. Joaneira, os convivas tomam chá e se deliciam com torradas:

“Vai um docinho, senhor pároco? – disse Amélia, apresentando-lhe o prato. – São da Encarnação. Muito fresquinhos.

– Obrigado.

– Aquele ali. É toucinho do céu.”

“Encarnação” deve ser o nome de algum convento. Toucinho do céu: um dos mais apreciados doces conventuais, feito com gemas de ovos, amêndoas e açúcar.

————

“Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu almoço de açorda, caiu de repente morto com uma apoplexia.”

Açorda, prato tradicional da cozinha portuguesa, é um caldo engrossado com miolo de pão, em que entram, como temperos, alho, coentro e azeite.

————

“O abade da Cortegaça, ‘passava por ser o melhor cozinheiro da diocese’. Todo o clero das vizinhanças conhecia a sua famosa ‘cabidela de caça’. (…)’ Vivia tão absorvido pela sua ‘arte’ que lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fiéis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do sarrabulho.”

Sarrabulho: ensopado feito com o sangue coagulado do porco, carne, fígado, banha e condimentos, especialmente cominho.

————

Padre Amaro, Cônego Dias, Padre Natário e outros da roda de conversa discutiam assuntos de religião.

“Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa de arroz-doce.

– Não falemos nessas coisas, não falemos nessas coisas – disse logo prudentemente o abade. – Viemos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!”

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Porto, vinho do Porto, o mais famoso vinho de Portugal. A elaboração deste precioso néctar segue processo sui generis: ao mosto (suco fermentado) de uvas selecionadas do Vale do Douro adiciona-se aguardente vínica, que suspende a fermentação, aumentando o teor alcoólico e conservando o açúcar da uva. Há comumente três qualidades de vinho do porto: ruby, encorpado e frutado, de coloração vermelha; tawny, menos doce e mais leve; branco, de dois tipos: seco e doce. Servido após as refeições, como digestivo, o vinho do Porto também é muito apreciado como aperitivo, especialmente o branco. À mesa, acompanha queijos, doces, etc.

 

II


Em “A Cidade e as Serras”, romance da sua última fase, tido e havido como obra-prima, Eça reconcilia-se com Portugal. Até então toda a sua obra de ficção, retratando a sociedade portuguesa da sua época, tinha o espírito do ridendo castigat mores. Com “A Cidade e as Serras” ele muda, transforma-se; já não é o ironista ferrenho, o crítico social implacável, mas reencontra, desarmado, sua terra e sua gente, e exalta os seus valores, inclusive a culinária típica.

O personagem/narrador, Zé Fernandes, diz a certa altura:

“Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia

Vicência. Há quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa casa!”

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No palacete do amigo Jacinto, em Paris:

“…chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz-doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim onde no 202 se escreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor a ideia patriarcal:

– Arroz-doce! Está escrito com dois “ss”, mas não tem dúvida… Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz-doce! Desde a morte da avó.”

Vivente de Paris, habituado aos luxos e confortos da “civilização”, o amigo Jacinto retorna a Portugal em busca de sua terra, a bucólica herdade de Tormes, na região do Baixo Douro: pouco a pouco ele se deixa cativar pela simplicidade da vida campesina.

No primeiro jantar em Tormes:

“Jacinto (…) desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia (…) Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.”


(………)

 

“… e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas.”

Jacinto, entusiasmado, não se contém e diz:

“– Deste arroz com favas nem em Paris, Melchior amigo!”


(……….)

 

“Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: – divino!”

Jacinto conversando com Zé Fernandes:

“- E também me parece que andamos léguas. Estou derreado. E que fome!

– Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos espera.

– Bravo! Quem te cozinha?

– Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás de ver a canja! Hás de ver a cabidela!


(……….)

 

Com efeito! Horácio dedicaria uma ode àquele cabrito assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho do Melchior; e a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos pusera inspirações que não são da terra (…)”

 

————

 

Num jantar em casa de Zé Fernandes, para apresentar Jacinto aos amigos do anfitrião:

“…à mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos da Madeira e do Porto, na suas pesadas garrafas de cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes (…)

E a sopa, que era de galinha com macarrão, foi comida num tão largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois de tanto tempo e em minha própria casa:

– Deliciosa, esta sopa!

Jacinto ecoou:

– Divina!”


(………..)

 

“Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir conversação, ataquei com desabrida alegria a Sra. D. Luiza por ela assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional!” (o arroz-doce).


(…………)

 

“…no desabado daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa até aos frangos guisados.”


(…….)

 

“Todos os olhares se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas (…)”


(…….)

 

“…todos (…) se lançaram nas conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava mais viveza.”

Terminado o banquete, com os convivas já na sala de visitas:

“…a tia Vivência apressara o chá, que o Manuel, seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às senhoras.”

 

III


O “grande acepipe nacional” também aparece no romance “A Relíquia”, duas vezes servido em jantares na casa da sra. D. Patrocínio das Neves, a titi do Raposo, o personagem principal:

“A Vicência ofereceu o arroz-doce. Nós rezamos as graças.”

“Longas horas nos detivemos à mesa – onde a travessa de arroz-doce ostentava as minhas iniciais, debaixo de um coração e de uma cruz, desenhadas a canela pela titi.”

 

IV


A trama do romance “O Primo Basílio” é um caso de adultério: Luisa trai o marido Jorge, tornando-se amante do primo Basílio. Dois outros personagens, embora secundários, ganharam relevo – a criada Juliana e o conselheiro Acácio – magistralmente caracterizados. Obra realista por excelência, “O Primo Basílio” figura ao lado de “Os Maias” e “A Cidade e as Serras”, como um dos melhores romances de Eça.

No chá em casa de Jorge e Luísa, a criada

“Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoitos de Oeiras, os bolos do Cocó.”

Leopoldina (a dissoluta amiga de Luísa)

“Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro (o marido) punha-se à mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a coisa mais estúpida!”

Leopoldina, em casa de Luísa, ao jantar:

“E como Juliana (a criada) entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação:

– Bravo! Está soberbo!

‘Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, abrindo em lascas.

– Tu verás – dizia ela. – Não te tentas? Fazes mal!

Teve então um movimento decidido de bravura, disse:

– Traga-me um alho, senhora Juliana! Traga-me um bom alho!”

O bacalhau parece ser o prato número um da culinária portuguesa. Preparado de várias maneiras – à Gomes Sá, com rodelas de batata ou à lagareiro, regado de azeite, por exemplo – come-se muito bacalhau em Portugal.

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                             Bacalhau assado com batatas 

————

O Conselheiro Acácio talvez seja o mais famoso personagem criado por Eça: tornou-se, com o passar do tempo, uma espécie de estereótipo: quando se quer designar pessoa medíocre, conservadora e formalista, de retórica oca, cita-se o conselheiro Acácio. Num jantar em casa dele:

“…o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundância das travessas de doce; havia creme crestado a ferro de engomar; um prato de ovos queimados, aletria com as iniciais do conselheiro desenhadas a canela.”


(……)

 

“As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam os longos canudos brancos e moles de macarrão.”

E o conselheiro Acácio diz:

“- Pode ir trazendo o cozido, senhora Filomena… – Mas detendo-a, com um gesto grave: – Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um pargo.”


(……..)

 

“Acácio, aflito, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate (…)”


(……)

 

O conselheiro

“Ia fulminar a doutrina ultramontana – mas a senhora Filomena colocou-lhe diante a travessa com a perna de vitela assada.”


(……)

 

“O Alves Coutinho (…) discutia gulodices. Indicava as especialidades. Para os folhados, o Cocó! Para as natas, o Baltreschi! Para as gelatinas, o largo de São Domingos!”

“O café foi servido na sala.”

“E a senhora Adelaide pode trazer os licores – disse à Filomena.”

Duas especialidades feitas com natas, muito apreciadas: pastel de Belém e bacalhau com natas. O pastel à base de massa folhada e creme, tem a forma das nossas empadas.

 

V


O romance “A Capital”, obra póstuma, contém apenas três referências à cozinha portuguesa, mas só menciona uma iguaria típica.

O personagem Meirinho planeja o jantar, em que o personagem principal, Artur, terá oportunidade de ler suas criações literárias para algumas das mais influentes personalidades de Lisboa.

“- Uma coisa elegante – dizia – duas sopas, hors-d’oeuvres, duas entradas, assado, caça, entremets, um jantarzinho para quinze libras…”

“O jantar no Cruz foi triste (…) E Melchior, lúgubre, só repetiu o paio com ervilhas, porque, disse – “era um prato que lhe fazia bem à alma.”

“…as raparigas vozeavam também, oferecendo mexilhões e ovos moles de Aveiro.”

Gema de ovo e açúcar são os ingredientes dos ovos moles. No romance “Os Maias”, diz Eça: É um doce muito célebre, mesmo lá fora. Só o de Aveiro é que tem “chic”.

Numerosas confeitarias, no centro da cidade de Aveiro, fabricam e vendem ovos moles, nas duas formas tradicionais: em pequenas barricas, adornadas com ingênuos desenhos, e como recheio de doces em formatos variados (conchas marinhas, búzios, peixinhos) feitos com massa de hóstia.

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                                        Ovos moles de Aveiro

————

Está visto de relance algo do Eça de Queiroz gastrônomo, apreciador da culinária da sua terra. Voltaremos ao assunto, tendo em mira os romances “A Ilustre Casa de Ramires” e “Os Maias”, para uma releitura anotada.

 

 

 

 

15
Jul17

Como proteger o cérebro

Talis Andrade

 

Síntese sobre Longetividade Cerebral

 

por Karina Cerqueira de Andrade Lima 

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Ilustração Ranses Morales Izquierdo 

 

Estima-se que o ser humano tenha um ciclo de vida, a nível celular, programado para viver entre 110 e 120 anos.

 

 

Há uma deterioração genética, um envelhecimento celular. As células deixam de dividir-se e regenerar-se. Há perda das capacidades e de suas potencialidades. É inevitável. Isto ocorre devido às regras biológicas. Como os processos primários (Como e quando começa o envelhecimento) e secundários (qualidade de vida, dieta calórica, atividades físicas), vinculados ao aumento da idade e ao controle pessoal (Palácios, 2004, como referido em Santos et al., 2009).

 

 

Défices físicos, cognitivos e comportamentais, observados no envelhecimento, ocasionam a apoptose (tipo de morte celular programada), mudanças proteicas e outros danos secundários. Um outro prejuízo, devido ao envelhecimento, a redução do tamanho e do peso cerebral.

 

 

Fatores neuropsiquiátricos como depressão e demência estão entre os transtornos médicos que mais comprometem a qualidade de vida dos idosos.

 

 

Estudos realizados identificaram que são preservadas habilidades na memória de procedimento e a pré-ativação, expressas pela capacidade de dirigir, ler, executar tarefas de completar palavras e leitura de palavras invertidas, assim como a memória semântica (lembrar-se do sabor de uma fruta) e a alça fonológica, medida pela recordação imediata de uma sequência de dígitos ou letras. Por outro lado, encontram-se comprometidas as memórias: episódica (lembrar-se de um evento pessoal e suas circunstâncias), prospectiva (lembrar-se de desligar o forno em meia hora) e operacional, caracterizada pela capacidade de reter e manipular informações por um curto período de tempo (Bueno e Oliveira, 2004, como referido em Santos et al., 2009).

 

 

Crescente a busca de fatores de proteção, como o desenvolvimento de atividades físicas, para amenizar e prevenir os distúrbios emocionais, e uma dieta balanceada para promover melhora na circulação sanguínea cerebral, e aumentar a produção de neurotransmissores. Consequentemente melhora na longevidade cerebral.

 

 

Fatores de Proteção ao Envelhecimento

 

 

É notório que indivíduos, que tenham tido um cuidado com a saúde ao longo de sua vida, tenham um envelhecimento mais saudável que os que não tenham tido a preocupação em fazer uma dieta adequada, exercício físico, não se tornar dependente químico ou ter alto nível de estresse físico e mental. A qualidade de vida é primordial para um bom envelhecimento normativo.

 

Não só atividades físicas, como ser independente, gerir uma casa e as finanças também trazem benefícios cognitivos. Um estudo canadense, com 5.874 pessoas acima de 65 anos, demonstrou que o comprometimento cognitivo progressivo está associado a um padrão específico de perdas em tarefas funcionais hierárquicas, o que revela uma associação entre o limiar cognitivo e a autonomia. As escalas de qualidade de vida e de atividades diárias mostram idosos ativos, independentes e capazes (e.g., fazer compras, pagamento de contas em bancos, cozinhar, cuidar das finanças) com menor comprometimento nas funções cognitivas. Diferente dos idosos dependentes que responderam que eram capazes de comer, vestir-se e caminhar. Para cada item funcional, o escore de pessoas que perderam a autonomia foi maior do que para o grupo que permaneceu independente (Njegovan et al., 2001).

 

A recuperação de funções cognitivas depende tanto da plasticidade neural, que é a habilidade do cérebro em recuperar uma função através de proliferação neural, migração e interações sinápticas, quanto de plasticidade funcional, que é o grau de recuperação possível de uma função por meio de estratégias de comportamento alteradas (McCoy et al., 1997, como referido em Santos et al., 2009). Tal recuperação é primeiramente determinada pela idade, localização neural e função envolvida, mas também por fatores como comprometimento cerebral bilateral, funcionamento cognitivo, entre outros. Igualmente importantes são os fatores sociais, econômicos e culturais. Entretanto, exercícios de aprendizagem evidenciaram aumento de matéria cinzenta e mudanças estruturais relacionadas ao desempenho do cérebro adulto e nas áreas motoras. Um estudo realizado com 25 participantes, onde tinham que realizar malabares com três bolas durante 60 segundos. Durante três meses, através de imagem cerebral, percebeu aumento de massa cinzenta. Os participantes que deixaram de realizar os treinos e exercícios com as bolas, tiveram redução da massa cinzenta, enquanto os participantes que continuaram a realizar os malabares não. (Draganski et al., 2004).

 

A terapia nutricional também é um fator para regeneração do cérebro (Khalsa, 1997). E de forma mais rápida de execução, podendo iniciar imediatamente na próxima refeição. Uma dieta balanceada e equilibrada ajuda a reparar os danos causados pelo cortisol (e.g., prejudica o suprimento de glicose ao cérebro, interfere na função dosneurotransmissores e provoca a morte subsequente de neurónios). Uma dieta funcional também ajuda a reparar a má circulação sanguínea. Assim, o cérebro pode produzir novos dendritos e formar novas conexões sinápticas. A má circulação sanguínea provoca perdas de memória, problemas de equilíbrio, convulsões e derrames.

 

Dieta Nutricional

 

Basicamente a dieta nutricional é ingerir alimentos nutritivos e não ingerir alimentos ricos em gorduras. A dieta consiste em:

 

- Baixo teor de gordura: O que é bom para o coração é bom para o cérebro. A gordura prejudica a circulação sanguínea e “apodrece o cérebro”. Exclua das refeições gorduras saturadas (carnes vermelhas, manteiga, leite gordo e alimentos já preparados). As gorduras insaturadas em quantidades moderadas são consideradas boas (linhaça, soja, azeite, peixe);

 

- Não ter hipoglicemia: O único combustível do cérebro a glicose. Quando a taxa de glicose baixa demais, os neurónios morrem. Uma dieta de “fome” deixa o cérebro com inanição, chegando até a definhar. Faça pequenas refeições a cada 3 horas;

 

- Dieta balanceada e rica em nutrientes: A ingestão de todos os tipos de fibras (cereais e pães), feijões, e consumir vegetais, frutas, soja, carne magra e lacticínios magros;

 

- Elimine comidas em conserva ou processada: Alimentos processados e industrializados, na maioria dos casos, são compostos de gordura e açúcar. Os vegetais congelados são compostos por pesticidas, corantes, conservantes, herbicidas e agrotóxicos. Estes tipos de alimentos não são saudáveis ao organismo.

 

Suplementos Vitamínicos

 

Além de exercício, dieta nutricional e controle de estresse, o uso de medicação farmacêutica também ajuda na regeneração cerebral (Khalsa, 1997). A ingestão de fosfatidilcolina (400mg), ginkgo biloba e complexo vitamínico B (100mg) auxilia a mente a trabalhar com maior clareza, aguçando as funções executivas (Khalsa, 1997). A fosfatidilcolina fornece colina para que se produza acetilcolina, um neurotransmissor essencial para a memória e aprendizagem. A suplementação com este fosfolípido tem o objetivo de melhorar os níveis de acetilcolina e assim influenciar positivamente a performance cognitiva e rapidez de raciocínio. Há muito que se testa o efeito da fosfatidilcolina na performance cerebral e continuam a encontrar-se estudos recentes que corroboram a esta conclusão. Mapstone et al. (2014) demonstraram que a utilização de fosfolipídios (fosfatidilcolinas e acilcarnitinas) acarretou uma acurácia acima de 90% na predição, com dois a três anos de antecedência, em indivíduos idosos normais que se converteriam em Défice Cognitivo Ligeiro ou na patologia da doença de Alzheimer. A junção destes 3 medicamentos (fosfatidilcolina, ginkgo biloba e o complexo vitamínico B) permitem que o organismo produza um pouco mais do neurotransmissor acetilcolina, do que costuma produzir. E isto causa uma sensação de melhor clareza cognitiva (Khalsa, 1997).

 

Fundamental nutrir os neurotransmissores. São importantes para a memória, concentração, aprendizado, energia e coordenação motora. As substâncias que compõem os mais importantes neurotransmissores são (e.g., acetilcolina, noradrenalina e dopamina). A acetilcolina é o principal transportador do pensamento e da memória. A ingestão de suplementos com colina (fosfatidilcolina) ou lecitina ajudam a melhorar os níveis de acetilcolina e previnem a deterioração do cérebro. A noradrenalina e dopamina são neurotransmissores da energia. A noradrenalina auxilia as lembranças duradouras de momentos vividos, além de ser uma das principais substâncias químicas da felicidade que residem no cérebro. Também eleva o humor e o otimismo. A dopamina é o transmissor principal que controla o movimento do corpo. O seu declínio é responsável pela perda da coordenação e do controle muscular. A ingestão de suplementos de tirosina e fenilalanina promove melhora destas funções motoras.

 

Conquista da longetividade cerebral

 

Há múltiplos fatores associados ao processo de envelhecimento, que regulam tanto o funcionamento típico quanto o atípico do indivíduo que envelhece (e.g., fatores moleculares, celulares, sistêmicos, comportamentais, cognitivos e sociais). Fundamental que o profissional, assim como os próprios idosos, seus familiares e cuidadores tenham uma visão integrada destes fenômenos. Muitos avanços têm sido feitos no sentido de apoiar medidas que propiciem um funcionamento saudável nesta faixa etária, inclusive o de retardar os fenómenos associados ao envelhecimento patológico, nutrindo os neurotransmissores adequadamente. Com o planeamento precoce desta época da vida, levando em consideração a qualidade e o estilo de vida - dietas de baixa caloria, atividades físicas e mentais -, possível conquistar longevidade cerebral e saúde.

 

Referências Bibliográficas

 

 

Draganski, B., Gaser, C., Busch, V., Schuierer, G., Bogdahn, U., & May, A. (2004). Neuroplasticity: chang matter induced by training. Nature, 427(6972), 311–312. http://doi.org/10.1038/427311a/

 

 

Forlenza, O. V., & Almeida, O. P. (1997). Depressäo e demência no idoso: tratamento psicológico e farmacológico. In Depressäo e demência no idoso: tratamento psicológico e farmacológico.

 

 

Lima, R. R. D. (2015). O uso de biomarcadores sanguíneos e do líquido cefalorraquidiano nos estágios pré-clínico e prodrômico da Doença de Alzheimer.

 

 

Mapstone, M., Cheema, A. K., Fiandaca, M. S., Zhong, X., Mhyre, T. R., MacArthur, L. H., ... & Nazar, M. D. (2014). Plasma phospholipids identify antecedent memory impairment in older adults. Nature medicine, 20(4), 415-418.

 

 

Njegovan, V., Man-Son-Hing, M., Mitchell, S. L., & Molnar, F. J. (2001). The hierarchy of functional loss associated with cognitive decline in older persons. The Journals of Gerontology Series A: Biological Sciences and Medical Sciences, 56(10), M638-M643.

 

Santos, F. H. D., Andrade, V. M., & Bueno, O. F. A. (2009). Envelhecimento: um processo multifatorial. Psicologia em estudo, 3-10.

 

 

Santos, H. (2012). Fosfolípidos: essenciais ao funcionamento do cérebro. Recuperado em Novembro, 28, 2012, através da EsmeraldAzul. Revista online de Cristina Sales Medicina funcional integrativa em 03 de maio de 2017 através de http://www.esmeraldazul.com/pt/blog/fosfolipidos-essenciais-ao-funcionamento-do-cerebro/

 

 

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