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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

03
Out22

Evitar notícias é uma questão jornalística?

Talis Andrade

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Dados do Reuters Institute fortalecem a percepção de que cada vez mais pessoas estão evitando consumir notícias. O relatório de 2022 contrasta com os dados de 2021, que apontavam para o crescente número de consumo e percepção sobre a credibilidade da informação jornalística.

O relato de 54% dos entrevistados brasileiros afirmando que, frequentemente ou às vezes, fez pausas no consumo de notícias, coloca o Brasil na 3ª colocação mundial no que o Reuters Institute chamou de “evitação seletiva de notícias”.

Este comportamento foi acentuado pela continuidade da pandemia de Covid-19, mas a crise sanitária não é o único tema que gera a evasão da audiência. No contexto mundial, a guerra na Ucrânia e a crise climática foram sinalizadas como temas sensíveis. Já no Brasil, a inflação e a atuação do governo Bolsonaro foram listados como os mais evitados pelo público.

Se por um lado evitar notícias pode ser visto como comportamento diante de uma situação estressante (crises sanitária, política e climática), por outro pode dar pistas sobre o efeito cumulativo da produção noticiosa massiva no meio digital, atrelado a uma conscientização do público sobre a saúde mental.

Lançar luz sobre a questão pode fazer emergir percepções importantes sobre o trabalho do jornalista, para repensar a construção de pautas, a escolha de fontes e a relação com público, favorecendo, até mesmo, a saúde mental dos jornalistas.

 

Quem lê tanta notícia?

 

A pergunta de Caetano Veloso não foi pensada para um contexto de produção noticiosa digital, atualizada 24 horas por dia, 7 dias por semana, acessível a um toque de distância. Mas bem que poderia ser feita em uma das reuniões estratégicas dos grandes empresários da mídia. A sede pelos cliques, além de abarrotar os bancos de dados dos veículos, está, de fato, gerando consequências no modo que o público se relaciona com a produção jornalística.

Vale se questionar: quais os ganhos de um modelo de negócios com grande produção de notícias, enquanto a “demanda”, ou seja, o interesse do público pelo produto está diminuindo?

Se a pergunta anterior for feita de maneira séria, vem acompanhada de um segundo questionamento: o que estamos fazendo para contribuir com este cenário e para responder a ele?

Evidente que não é apenas o fator jornalístico que está em cena. O primeiro ano da pandemia provou que não é o produto jornalístico ou o modelo de negócios que são decisivos para o comportamento do público. Com a alta do consumo e da credibilidade jornalística em 2020, ficou perceptível que o público considera os veículos de comunicação como fonte de informação confiável.

Porém, passados alguns meses de entendimento da pandemia e o retorno para uma “normalidade”, os índices de evasão voltaram a aumentar (no Brasil a evasão duplicou em 5 anos, saindo de 27%, em 2017, e alcançando os 54%, em 2022).

A relação da evitação de notícias com a saúde mental pode ser identificada pelos motivos listados pelos entrevistados, em que:

  • 36% dizem que as notícias têm efeito negativo sobre o humor;
  • 29% dizem que estão desgastados pela quantidade de notícias e
  • 16% dizem que não há nada que possa ser feito com as informações.

É oportuno citarmos, também, que o índice de evitadores de notícia é maior entre pessoas com menos de 35 anos. Os dados apontam que a evitação de notícias faz parte de um comportamento geracional, em que os mais jovens dão espaço para as mídias sociais em detrimento dos veículos de comunicação. Entre os motivos para evasão de notícias entre os jovens, 15% diz que é difícil acompanhar notícias.

Assim, ainda que a evasão de notícias esteja dentro de um cenário amplo, há pistas do que jornalistas e veículos de comunicação podem fazer para responder uma transformação no modo de consumo de informação.

 

Ingredientes de notícias para humanos

 

O incômodo que a jornalista Amanda Repley sentia por estar consumindo cada vez menos notícias serviu como ponto de partida para sua coluna no Washington Post, sobre possibilidades para notícias mais alinhadas a um contexto de crescimento de evitadores de notícia.

Repley defende que as notícias, mesmo as impressas, não são mais projetadas para humanos, mas para vender. A influência das métricas na produção de notícias já reúne estudos e reflexões importantes, seus efeitos a curto prazo podem funcionar, mas estamos vendo que a longo prazo não há sustentabilidade.

No seu trabalho de investigação sobre produções jornalísticas mais conectadas com as necessidades humanas, a jornalista focou em elementos para além do interesse público (e interesse do público) para entrevistar médicos, cientistas comportamentais e psicólogos.

Ao analisar o fator humano e psicológico que contribuem com o “transtorno de estresse das manchetes” (tradução livre para “headline stress disorder”), a jornalista sugere três ingredientes que podem contribuir com notícias que causam menos fadiga e, consequentemente, diminuir a evitação de notícias: 

  • a esperança – biologicamente relacionada a baixos índices de depressão e ansiedade, a possibilidade de mudança é importante fisiologicamente para o ser humano; 
  • a “agência” – a possibilidade de ação diante de um cenário noticiado está relacionada à esperança e é mais evidente em produções sobre as mudanças climáticas e 
  • a dignidade – considerar o valor da vida, seja da fonte entrevistada ou do público, vistos como humanos e não, apenas, como parte do trabalho.

Apesar de conflitarem com gatilhos de interesse público que já estão em nosso imaginário, como a morbidez e a catástrofe, as perspectivas de Repley não parecem excludentes, mas sim complementares para as produções jornalísticas da atualidade.

Se, cada vez mais, a importância da saúde mental está sendo evidenciada, é natural pensar que ela deve ser considerada em nossas produções. Muitos desafios devem ser levados em conta, desde os conflitos organizacionais até a práxis jornalística, mas o fato é que não podemos continuar insistindo em um modo de produção se o modo de consumir está, evidentemente, mudando.

 

 

24
Mar22

Violência contra jornalistas: E se a imprensa fosse mais transparente?

Talis Andrade

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por Álisson Coelho /ObjETHOS

Os números são inegavelmente altos e batem recordes a cada ano. A violência e os ataques contra jornalistas estão nas mídias digitais, nas ruas, nos palácios governamentais. Casos que se repetem e têm ganhado repercussão, especialmente quando atingem profissionais que estão na mídia tradicional. Alguns indícios, que coletei nas pesquisas que desenvolvo, ainda apontam para uma subnotificação nesses dados. O poço é ainda mais profundo do que se apresenta.

Os dados mais recentes vêm da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). O relatório Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, divulgado pela Fenaj considerando os dados de 2021, registra 430 casos de agressão contra profissionais e ataques à categoria e veículos de imprensa no Brasil. É o maior número desde 1998, quando a entidade começou a coletar as informações.

A Abraji ainda não publicou seus números gerais, mas confirma que o total é parecido com o coletado pela Fenaj. A entidade, no entanto, divulgou seu relatório com números da violência de gênero contra mulheres jornalistas. Ao longo de 2021, foi registrado um total de 119 ataques contra jornalistas mulheres ou ataques de gênero. Esse número representa uma média de um ataque a cada três dias. Novamente, os números são expressivos e colocam a categoria em alerta.

Em A máquina do ódio, livro no qual que narra parte das violências que sofreu após as eleições de 2018, a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, faz uma breve análise que me chamou bastante a atenção. Em um dado momento (na página 49) ela diz:

“Cabe aqui uma autocrítica. (…) Mais do que nunca, não basta se apoiar na ‘autoridade’ do jornalista, ou do veículo de imprensa para respaldar uma reportagem – é preciso descrever da forma mais transparente possível como foram obtidas as informações”

A jornalista fazia uma reflexão sobre o que viveu após a publicação da reportagem na qual narrava como empresários estavam bancando o disparo em massa de mensagens via WhatsApp em favor do então candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro. Chama a atenção o fato de que, antes do maremoto de ataques que colocaram em risco inclusive a família da jornalista, a primeira reportagem sobre o tema vinha sendo criticada, inclusive na coluna da então ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa.

As críticas se perderam em meio aos ataques, em um processo sobre o qual venho refletindo e que comentei nesse texto aqui no ObjETHOS. A própria Patrícia Campos Mello viria a aprofundar os dados da reportagem em outras matérias, tornando o esquema ilegal mobilizado pelos apoiadores de Bolsonaro mais claro. A reflexão da ombudsman, no entanto, parece ter feito sentido para a repórter. No livro ela segue a sua autocrítica:

“Mesmo em uma apuração sensível como aquela, que supunha fontes em off porque se tratava de participantes de esquemas ilegais de financiamento em plena campanha eleitoral, deveríamos ter explicado de forma detalhada quem eram essas fontes e mostrado as trocas de mensagem na medida do possível, tomando cuidado para não violar o anonimato pedido por essas pessoas”.

Transparência

Como reflete a jornalista, um jornalismo mais transparente é possível. Mesmo que, por vezes, as publicações sejam resistentes em implementar mecanismos que auxiliem o público no entendimento dos processos editoriais que resultam nas reportagens, é possível que as próprias matérias situem o leitor quanto aos processos realizados para que aquela versão da realidade chegasse às suas mãos. O processo de apuração é o que diferencia o jornalismo do boato, a notícia da opinião. A informação exaustivamente apurada é o que de mais importante temos a oferecer à sociedade. Por que então nós não explicamos o processo ao público?

Patrícia Campos Mello continua:

“Se tivéssemos descrito com pormenores como foi feita a reportagem, e explicitado como um jornalista trabalha para obter informações, a campanha para descredibilizar a matéria e a autora não teria ganhado tanta tração (…)”.

Veja, não trata-se aqui de culpar a vítima. Não é sobre isso que estamos falando, Patrícia e eu. Os ataques e a violência contra jornalistas é inaceitável e injustificável sob qualquer ponto de vista. Essa realidade, no entanto, existe e precisamos evoluir nos mecanismos de combate a essa situação. E nesse contexto, é importante considerarmos a transparência jornalística, os mecanismos de accountability, como aliados.

Um publico que entende o que diferencia o jornalismo do boato tende a conseguir elaborar uma crítica (sim, crítica, não ataque) mais assertiva. Hoje já está claro que parte dos ataques que sofrem os jornalistas, especialmente os que atuam no jornalismo político, vem de campanhas orquestradas. A situação vivida pela repórter da Folha parece ter sido exatamente essa. Mesmo assim, quantas pessoas acabam dando engajamento a campanhas difamatórias por não entender o básico sobre como uma notícia é produzida?

Explicitar o processo de apuração, a consulta a fontes, mostrar o caminho de onde a informação vem, todo o trabalho de checagem que um jornalista sério executa para construir uma reportagem, é um mecanismo também de defesa contra os ataques. Mais do que isso, é uma ação educativa em um país com altas taxas de analfabetismo funcional e com pouquíssimas ações e educação para a mídia.

Esse texto é uma provocação. E se o jornalismo for mais transparente?por 

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