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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

O CORRESPONDENTE

23
Fev24

Mídia vira-latas vive de mentiras no Brasil

Talis Andrade

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Entenda por que o presidente Lula venceu o embate com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu

 

Por Tiago Barbosa, no X

A mídia inventou que Lula estava isolado – errou: a chefe da diplomacia da UE e o secretário dos EUA destacaram papel do Brasil.

A mídia apostou nas críticas à fala sobre Gaza – errou: nenhum chefe de estado relevante repreendeu o presidente.

A mídia aventou a imposição de sanções contra o Brasil – errou: nenhum país sugeriu esse absurdo.

A mídia repudiou a hipótese de analogia com nazismo – errou: estudiosa de genocídios deu razão a Lula.

A mídia delirou para atribuir a Lula antissemitismo – errou: intelectuais e jornalistas judeus derrubam essa tese.

A mídia apontou banalização do holocausto por Lula – errou: quem usou em chacota foi o chanceler israelense.

A mídia temeu represália dos EUA por fala de Lula – errou: Biden manifestou solidariedade (tímida) aos palestinos.

Na fantasia criada pela mídia vira-lata e iludida, a única verdade é viver de mentiras.

O ex-chanceler e assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, classificou como “absurda” a decisão de Israel que considerou o presidente Lula como “persona non grata” devido a fala em que ele comparou Netanyahu a Hitler, pelos ataques israelenses contra os palestinos em Gaza. À jornalista Andreia Sadi, do G1, Celso Amorim afirmou: “Isso é coisa absurda. Só aumenta o isolamento de Israel. Lula é procurado no mundo inteiro e no momento quem é persona non grata é Israel”. Confira.

Após conversar por duas horas com o presidente Lula (PT), o secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, disse que as relações com o Brasil estão "mais fortes que nunca".

O alto representante da União Europeia para Política Externa, Josep Borrell, disse nesta quinta-feira (22) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparou a guerra de Israel na Faixa de Gaza com o Holocausto. E sim os crimes de guerra de Netanyahu e Hitler. As declarações foram dadas em entrevista a um restrito grupo de veículos de imprensa internacionais, incluindo a ANSA, à margem da reunião de ministros das Relações Exteriores do G20 no Rio de Janeiro.

Reunidos no Rio de Janeiro, ministros do exterior do G20 defenderam a criação do Estado Palestino como forma de acabar com o conflito na Faixa de Gaza. O chanceler Mauro Vieira, anfitrião do encontro, voltou a defender a ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas

22
Fev24

Brasil denuncia Israel em Haia e diz que ocupação é ‘inaceitável e ilegal’

Talis Andrade

israel gaza brandan-reynolds.jpg

 

Lula faz duras críticas às interrupções na ajuda humanitária em Gaza por países da elite global

 

 

Por Agência Brasil /Ninja

O Brasil pediu nesta terça-feira (20) à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, nos Países Baixos, que declare como ilegal a ocupação dos territórios palestinos por forças militares de Israel. Para o Brasil, a ocupação, que dura desde 1967, viola as leis internacionais e o direito à autodeterminação do povo palestino.

“O Brasil espera que o tribunal reafirme que a ocupação israelense dos territórios palestinos é ilegal e viola obrigações internacionais por meio de uma série de ações e omissões de Israel”, afirmou a representante do Brasil em Haia, Maria Clara de Paula Tusco.

A diplomata brasileira acrescentou que práticas persistentes da ocupação de Israel nas terras palestinas “equivalem à anexação” daqueles territórios e pediu que a Corte leve em conta medidas tomadas por Israel, como o confisco de terras palestinas, a destruição de casas dos palestinos, a construção de colônias israelenses e do muro na Cisjordânia, além da adoção de medidas que alteram a composição demográfica dos territórios ocupados.

O governo brasileiro se manifestou em audiência pública na CIJ, principal órgão judicial das Nações Unidas (ONU). A Corte realiza audiências públicas até a próxima segunda-feira (26) para ouvir 52 países sobre a consulta que a Assembleia geral da ONU fez aos juízes do tribunal internacional.

Em resolução aprovada em dezembro de 2022, a Assembleia-Geral da ONU questionou a CIJ sobre as “Consequências Jurídicas decorrentes das Políticas e Práticas de Israel no Território Palestino Ocupado”. Os países querem saber, entre outras informações, o que Israel pode sofrer por supostamente violar o direito do povo palestino à autodeterminação.

Segundo a representante do Brasil na ONU, a decisão do país de participar dessa consulta é devido ao “compromisso histórico do país de respeitar o direito internacional, de fomentar o multilateralismo e de promover a solução pacífica de controvérsias”.

Ainda segundo o Brasil, a violação do direito dos palestinos à autodeterminação “não pode ser aceita, muito menos normalizada pela comunidade internacional”. Maria Clara lembrou ainda que a Resolução do Conselho de Segurança da ONU 242, de 1967, enfatizou a proibição da aquisição de território pela força e instruiu Israel a retirar as suas tropas das terras então recentemente ocupadas.

“No entanto, a ocupação persiste até hoje e foi agravada pela construção do muro de separação do território palestino, pela construção de colônias ilegais na Cisjordânia e pela anexação de Jerusalém Oriental”, acrescentou.

 

Discriminação

O governo brasileiro ainda destacou que o estabelecimento de dois sistemas jurídicos distintos, um para os colonos israelenses e outro para os palestinos na Cisjordânia ocupada, representa uma discriminação contra o povo palestino.

“Este tratamento diferenciado é evidente e bem documentado e também deve ser abordado pelo tribunal”, acrescentou a representante brasileira.

O regime político-jurídico na Cisjordânia ocupada tem sido denunciado como um regime de apartheid por organizações internacionais de direitos humanos, como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, e por relatores independentes da ONU. As autoridades israelenses rejeitam essa avaliação.

 

Medidas

Ao final da manifestação, o Brasil enumerou as medidas que espera que sejam tomadas para pôr fim a ocupação. Entre elas, estão o fim da ocupação de Israel e a reparação ao povo palestino pelas violações cometidas. Além disso, o Brasil pede que nenhum Estado reconheça a ocupação e que não adotem ações ou medidas que colaborem com a ocupação desses territórios.

Por fim, a diplomata Maria Clara de Paula Tusco reforçou que o Brasil defende a solução de dois Estados para o encerramento do conflito. “A criação de um Estado palestino independente, soberano e economicamente viável, coexistindo com Israel em paz e segurança, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e internacionalmente reconhecidas, que incluem a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental como sua capital”.

 

Israel

O governo de Israel não vai participar das audiências públicas para discutir a ocupação dos territórios palestinos. Em documento de cinco páginas enviado à CIJ, Israel condenou a resolução que determinou a análise do caso, dizendo que a decisão representa uma “distorção da história e da realidade atual do conflito israelense-palestino” e que, por isso, prejudica a construção da paz.

“Ao apontar o dedo apenas para um lado, as questões ignoram milhares de israelenses mortos e feridos que foram vítimas de atos assassinos de ódio palestinos e do terrorismo – atos que continuam a pôr em perigo diariamente os civis e a segurança nacional de Israel”, afirma o documento.

 

Entenda

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha transferiu para as Nações Unidas a responsabilidade pelo território que hoje é ocupado por Israel e pela Palestina. Desde o final da Primeira Guerra Mundial, a chamada Palestina histórica era controlada pelos ingleses.

Com a Resolução 181, de 1947, a Assembleia-Geral da ONU recomendou a partilha da Palestina entre judeus e árabes. Porém, apenas o Estado de Israel foi criado. Em 1967, após mais uma guerra na região, Israel ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e a Jerusalém Oriental, que então estavam sob o controle do Egito e da Jordânia.

Após esse conflito, a Assembleia da ONU aprovou a Resolução 242, de 1967, que determinou “a retirada das forças armadas israelitas dos territórios que ocuparam”.

Apesar dessa resolução, a construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia continuou e hoje são 300 colônias consideradas ilegais, segundo a ONU, dentro da Cisjordânia, onde vivem cerca de 700 mil colonos israelenses.

Em 2005, Israel deixou a Faixa de Gaza, apesar de manter um cerco ao enclave controlando a saída e a entrada de pessoas e mercadorias.

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21
Fev24

Netanyahu é alvo de criticas e chacotas em Israel após dizer que Holocausto foi ideia palestina

Talis Andrade
Protesto contra Netanyahu

 

por BBC News

O premiê israelense Binyamin Netanyahu recebeu uma onda de críticas dentro do próprio país após dizer que Hitler inicialmente não queria exterminar os judeus, mas foi convencido por um líder religioso palestino.

Em discurso durante o 37º Congresso Sionista Mundial, em Jerusalém (em 2015), Netanyahu afirmou que a ideia de Hitler era apenas expulsar os judeus da Europa, e que o ditador alemão teria mudado os planos após orientação de Haj Amin al-Husseini, grão-mufti de Jerusalém entre 1921 e 1937.

"Haj Amin al-Husseini foi até Hitler (em 1941) e disse: 'Se você expulsá-los, eles virão todos para cá.'", disse o premiê. "'Então o que devo fazer com eles?', ele (Hitler) perguntou. Ele (Husseini) disse: 'Queime-os'", completou Netanyahu.

A descrição do Holocausto como sugestão palestina gerou reações imediatas, dentro e fora de Israel.

A chefe do memorial de Israel para as vítimas do Holocausto, Dina Porat, disse que Netanyahu cometeu erros factuais.

"Você não pode dizer que foi o mufti quem deu a ideia a Hitler para matar ou queimar judeus", afirmou a historiadora ao jornal Yedioth Ahronoth. Ao jornal Jerusalem Post, a professora sugeriu que o líder israelense se retrate das declarações.

O líder de oposição israelense Isaac Herzog escreveu em sua página no Facebook que a versão do premiê "minimiza o Holocausto, o nazismo e o papel de Hitler no terrível desastre de nosso povo".

O jornal Haaretz registrou como Netanyahu foi ridicularizado em vídeos e imagens que se espalharam pela internet - a publicação diz que a repercussão foi tamanha que "quebrou a rede". [Transcrevi trechos. Leia mais.]

 

Judeus ortodoxos dizem que Netanyahu é nazista e que o mundo deve parar seu genocídio

 

247 – O grupo de judeus ortodoxos Torah Judaism fez uma de suas mais duras postagens contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que já assassinou mais de 27 mil palestinos durante o genocídio que vem promovendo contra o povo palestino em Gaza.

"Netanyahu é um líder nazista sionista assassino e genocida. Os sionistas são os nazistas de hoje. Israel não é o estado dos judeus. O mundo inteiro deveria conhecer bem estes sionistas genocidas e mentirosos", postou o coletivo."O mundo deve agora intervir a nível nacional contra Israel, caso contrário o genocídio continuará. Os israelenses sofrem uma lavagem cerebral e vivem em mentiras, longe da verdade", acrescentou. [ Confira aqui]

 

 

17
Nov23

Apagar a Palestina

Talis Andrade
Ao final, Gaza, como o Gueto de Varsóvia, será inabitável. Mas “exterminar todos os bárbaros” vai além de Hitler e de Netanyahu. Sua origem está nas guerras coloniais que o Ocidente faz há cinco séculos, em nome de sua “civilização”

 

Por Chris Hedges para Mint Press News | Tradução: Maurício Ayer | Imagem: Hannibal Hanschke/EPA

Eu era repórter do New York Times, durante o cerco a Sarajevo. Nunca enfrentamos o nível de bombardeamento de saturação e o bloqueio quase total de alimentos, água, combustível e medicamentos que Israel impôs a Gaza. Nunca tivemos de suportar centenas de mortos e feridos por dia. Nunca enfrentamos a cumplicidade da comunidade internacional com a campanha sérvia de genocídio. Nunca suportamos a intervenção de Washington para bloquear resoluções de cessar-fogo. Nunca enfrentamos carregamentos maciços de armas dos EUA e de outros países ocidentais para sustentar o cerco. Nunca enfrentamos que notícias provenientes de Sarajevo fossem sistematicamente desacreditadas e rejeitadas pela comunidade internacional, embora 25 jornalistas tenham sido mortos na guerra pelas forças sérvias sitiantes. Nunca toleramos que os governos ocidentais justificassem o cerco como o direito dos sérvios de se defenderem, embora as forças de manutenção da paz da ONU enviadas para a Bósnia tenham sido em grande parte um gesto de relações públicas, ineficazes para travar a matança até serem forçadas a responder aos massacres que tiraram a vida de 8 mil homens e meninos bósnios em Srebrenica.

Não pretendo minimizar o horror do cerco de Sarajevo, que me dá pesadelos quase três décadas depois. Mas o que sofremos – trezentos a quatrocentos bombardeamentos por dia, quatro a cinco mortos por dia e duas dúzias de feridos por dia – é uma pequena fração da morte e destruição em massa em Gaza. O cerco israelense a Gaza assemelha-se mais ao ataque da Wehrmacht [as forças armadas alemães durante o cerco nazista] a Stalingrado, em que mais de 90% dos edifícios da cidade foram destruídos, do que a Sarajevo.

Na sexta-feira, a Faixa de Gaza teve toda a sua comunicação cortada. Ficaram sem internet. Sem serviço telefônico. Sem eletricidade. O objetivo de Israel é perpetrar o assassinato de dezenas, provavelmente centenas de milhares de palestinos e fazer a limpeza étnica daqueles que sobreviverem em campos de refugiados no Egito. Trata-se de uma tentativa de Israel de apagar não apenas o povo, mas a ideia da Palestina. É um cópia das campanhas maciças de massacre racializado levadas a cabo por outros projetos de colonização que acreditavam que a violência indiscriminada e generalizada poderia fazer desaparecer as aspirações de um povo oprimido, cujas terras roubaram. E tal como outros autores de genocídio, Israel pretende mantê-lo escondido.

A campanha de bombardeamento de Israel matou mais de 7.300 palestinos, quase metade dos quais crianças, juntamente com 26 jornalistas, profissionais de saúde, professores e funcionários das Nações Unidas. Cerca de 1,4 milhão de palestinos em Gaza foram deslocados, e cerca de 600 mil estão desabrigados. Mesquitas, 120 instalações de saúde, ambulâncias, escolas, blocos de apartamentos, supermercados, estações de tratamento de água e esgoto e centrais elétricas foram reduzidos a escombros. Hospitais e clínicas, sem combustível, medicamentos e eletricidade, foram bombardeadas ou estão fechadas. A água limpa está acabando. Gaza, no final da campanha de terra arrasada de Israel, será inabitável, uma tática que os nazistas empregavam regularmente quando enfrentavam a resistência armada, incluindo no Gueto de Varsóvia e, mais tarde, na própria Varsóvia. Quando Israel terminar, Gaza, ou pelo menos Gaza como a conhecíamos, não existirá.

Não só as táticas são as mesmas, também a retórica é igual. Os palestinos são chamados de animais, bestas e nazistas. Eles não têm o direito de existir. Seus filhos não têm o direito de existir. Eles devem ser extirpados da terra.

O extermínio daqueles cujas terras roubamos, cujos recursos saqueamos e cujo trabalho exploramos está codificado no nosso DNA. Pergunte aos nativos americanos. Pergunte aos indígenas. Pergunte aos congoleses. Pergunte aos Kikuyu no Quênia. Pergunte aos Herero na Namíbia que, tal como os Palestinos em Gaza, foram baleados e levados para campos de concentração no deserto, onde morreram de fome e doenças. Oitenta mil deles. Pergunte aos iraquianos. Pergunte aos afegãos. Pergunte aos sírios. Pergunte aos curdos. Pergunte aos líbios. Pergunte aos povos indígenas em todo o mundo. Eles sabem quem somos.

A face distorcida da invasão colonial de Israel pertence a nós. Nós fingimos ser outra coisa. Atribuímos a nós próprios virtudes e qualidades civilizatórias que são, como em Israel, justificativas frágeis para privar um povo ocupado e sitiado dos seus direitos, confiscando as suas terras e recorrendo à prisão prolongada, à tortura, à humilhação, à pobreza forçada e ao assassinato para mantê-los subjugados.

O nosso passado, incluindo o nosso passado recente no Oriente Médio, baseia-se na ideia de subjugar ou exterminar as raças “inferiores” da terra. Damos a essas raças “inferiores” nomes que personificam o mal. Estado Islâmico. Al Qaeda. Hezbolá. Hamas. Usamos insultos racistas para desumanizá-los. “Haji” “Sand Nigger” “Camel Jockey”, “Ali Baba”, “Dung Shoveler”. E então, porque eles personificam o mal, porque eles são menos que humanos, sentimos ter uma licença para – como disse Nissim Vaturi, membro do parlamento israelense pelo Likud, partido do governo – apagar “a Faixa de Gaza da face da terra”.

Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro de Israel, em entrevista à Sky Newsem 12 de outubro, disse, “Estamos lutando contra os nazistas” – em outras palavras, contra o mal absoluto.

Para não ficar atrás, primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, numa coletiva de imprensa com o chanceler alemão Olaf Scholz, descreveu o Hamas como “os novos nazistas”.

Pense sobre isso. Um povo, preso no maior campo de concentração do mundo durante 16 anos, a quem foi negada comida, água, combustível e medicamentos. Sem exército, força aérea, marinha, unidades mecanizadas, artilharia, comando e controle e baterias de mísseis, que está sendo massacrado e submetido à fome por uma das forças militares mais avançadas do planeta – e eles são os nazistas?

Há uma analogia histórica aqui. Mas não é algo que Bennett, Netanyahu ou qualquer outro líder israelita queira reconhecer.

Quando aqueles que estão ocupados se recusam a se submeter, quando continuam a resistir, abandonamos toda a pretensão da nossa missão “civilizadora” e desencadeamos, como em Gaza, uma orgia de massacre e destruição. Ficamos bêbados de violência. Essa violência nos deixa loucos. Matamos com ferocidade sem limites. Tornamo-nos as feras que acusamos os oprimidos de serem. Expomos a mentira da nossa alardeada superioridade moral. Expomos a verdade fundamental sobre a civilização ocidental: somos os assassinos mais implacáveis ​​e eficientes do planeta. Só por isso dominamos os “miseráveis ​​da terra”. Não tem nada a ver com democracia ou liberdade. Estes são direitos que nunca pretendemos conceder aos oprimidos.

“Honra, justiça, compaixão e liberdade são ideias que não têm adeptos”, lembra-nos Joseph Conrad, autor de No coração das trevas. “Só existem pessoas, sem conhecimento, compreensão ou sentimentos, que se intoxicam com palavras, repetem palavras, gritam-nas, imaginando que acreditam nelas sem acreditar em mais nada senão no lucro, na vantagem pessoal e na própria satisfação.”

O genocídio está no cerne do imperialismo ocidental. Não é exclusivo de Israel. Não é exclusivo dos nazistas. É o alicerce da dominação ocidental. Os partidários do “intervencionismo humanitário” que insistem que devemos bombardear e ocupar outras nações porque somos a encarnação da bondade – embora promovam a intervenção militar apenas quando esta é percebida como sendo do nosso interesse nacional – são idiotas úteis da máquina de guerra e do imperialismo global. Eles vivem em um conto de fadas de Alice no País das Maravilhas, onde os rios de sangue que geramos tornam o mundo um lugar melhor e mais feliz. Eles são os rostos sorridentes do genocídio. Você pode assisti-los em suas telas. Você pode ouvi-los proclamar sua pseudomoralidade na Casa Branca e no Congresso. Eles estão sempre errados. E eles nunca vão embora.

Talvez sejamos enganados pelas nossas próprias mentiras, mas a maior parte do mundo nos vê – a nós e a Israel – com clareza. Eles entendem nossas tendências genocidas, classificam a hipocrisia e a justiça própria. Eles veem que os palestinos – em grande parte sem amigos, sem poder, forçados a viver em campos de refugiados miseráveis ​​ou na diáspora, privados da sua pátria e eternamente perseguidos – sofrem o tipo de destino outrora reservado aos judeus. Esta, talvez, seja a ironia trágica final. Aqueles que anteriormente necessitaram de proteção contra o genocídio, agora, cometem-no.

14
Nov23

Israelenses não confiam nas falas de Netanyahu sobre o conflito com o Hamas, mostra pesquisa

Talis Andrade
 
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"Netanyahu merece ser condenado à morte por enforcamento", diz Breno Altman

 

247 – "O governo de Israel é formado por bandidos. Seu final deveria ser em um tribunal como o de Nuremberg, que condenou chefes nazistas. Benjamin Netanyahu merece ser processado, julgado e condenado à morte por enforcamento, como corresponde aos mais pérfidos criminosos de guerra", postou o jornalista Breno Altman, em seu X.

Pesquisa da Universidade Bar Ilan, divulgada pelo jornal Haaretz, aponta que apenas 4% dos israelenses confiam nas declarações do primeiro-ministro

SPUTNIK - A credibilidade do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, está em baixa, apontou uma pesquisa da Universidade Bar Ilan. Apenas 4% dos israelenses confiam nas declarações do primeiro-ministro sobre o conflito com o movimento palestino Hamas.

A pesquisa foi divulgada pelo jornal israelense Haaretz nesta terça-feira (14).

Esse é o menor grau de credibilidade já atingido pelo político, que nos últimos anos já vinha batalhando contra uma onda de impopularidade causada pelo desejo de passar reformas judiciais que lhe dariam maior controle sobre o Judiciário israelense. Há anos o primeiro-ministro enfrenta acusações de corrupção.

Por outro lado, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI), brigadeiro-general Daniel Hagari, goza de maior credibilidade do público, com 73,7% dos entrevistados afirmando que o militar é a figura "mais confiável" para se obter informações do conflito.

Benjamin Netanyahu, além de ter passado por uma série de protestos e manifestações internas nos últimos anos, também é visto como um dos culpados pela recente escalada no conflito com o Hamas.

Cerca de 86% dos israelenses veem uma falha na conduta do premiê em impedir o ataque do grupo militante, e mais da metade (56%) acredita que ele deva renunciar após o fim dos confrontos, apontou outra pesquisa, do Dialog Center, conforme noticiado pelo The Jerusalem Post. Yoav Gallant, ministro da Defesa, também é visto com maus olhos pelo público, com 52% dos israelenses acreditando que ele também deva renunciar.

 
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Vídeo: Como parar a mão assassina de Israel? Veja a análise do jornalista e fundador de Opera Mundi, Breno Altman, no 20 MINUTOS ANÁLISE desta terça-feira (14/11): 
 

Vídeo: A ADUFO - Seção Sindica, gestão Florescer nas Lutas, realiza Aula Pública intitulada: “Palestina – consequências nefastas do sionismo e imperialismo”, ministrada pelo jornalista Breno Altman. Breno Altman é um comunicador progressista, jornalista, fundador do portal Opera Mundi e tem realizado debates sobre a temática, assim como contribuído com inúmeros textos e conteúdos analíticos acerca da resistência do povo palestino:

 

10
Nov23

“Não há dúvidas de crime humanitário nos bombardeios na Faixa de Gaza”

Talis Andrade

Vídeos: Em uma entrevista exclusiva à NINJA, o jornalista internacional Jamil Chade, trouxe à tona preocupações cruciais sobre a atual crise humanitária na Palestina ocupada. Economia de Israel pode entrar em colapso com a guerra, informa Eduardo Moreira. Brasileiros em Gaza: Fala de embaixador mostra que é Netanyahu quem decide lista, diz Reinaldo Azevedo

Foto: UN Photo/Jean Marc Ferré

 

Em uma entrevista exclusiva à NINJA, o jornalista internacional Jamil Chade, trouxe à tona preocupações cruciais sobre a atual crise humanitária na Faixa de Gaza, destacando desafios significativos da diplomacia internacional nos pedidos para que Israel pare os bombardeios e autorize ajuda humanitária chegar até Gaza.

Em meio ao conflito em andamento entre Israel e Gaza, Chade deixou claro que não há espaço para dúvidas em relação às violações das leis internacionais humanitárias e dos direitos humanos por parte de Israel. Ele enfatizou que essa é uma questão inegociável e que as ações de Israel estão em flagrante desacordo com o direito internacional.

Na última semana, mais de 150 países, incluindo o Brasil, condenaram as ações de Israel contra a Faixa de Gaza, e, em um documento oficial, pediram o imediato cessar fogo e a abertura de corredor humanitário. Israel ignorou este pedido, o que foi duramente criticado pela comunidade internacional.

O jornalista, que mantém uma coluna no UOL, também ressaltou a importância de manter relações diplomáticas com todas as partes envolvidas no conflito. Ele argumentou que, para desempenhar um papel significativo na cena internacional, o Brasil deve manter diálogo com todos os atores, independentemente de concordância ou simpatia.

Mediação não significa concordar. Se o Brasil quer ser um ator que pode dialogar com todos, ele precisa manter relação com todos”, afirma Jamil Chade.

O jornalista apontou as limitações dos Estados Unidos e da Rússia como mediadores no conflito entre Israel e Palestina. Segundo Chade, outros países, como o Brasil, têm um papel a desempenhar na mediação, mesmo que isso envolva críticas a ações específicas. Ele destacou que a paz é uma necessidade urgente, e a comunidade internacional não pode depender apenas das superpotências tradicionais para facilitar o diálogo.

“No fundo, o Brasil fez a mesma coisa na Ucrânia. O Brasil manteve relações com a Rússia, mas nunca deixou de votar na ONU uma resolução que condenava a invasão. O Brasil votou a favor da resolução que condena a invasão da Ucrânia e, ao mesmo tempo, mantém relações diplomáticas com ambos. Essa é uma tentativa de equilíbrio que não é fácil”, disse Chade para NINJA.

Além disso, Chade observou a grave deterioração da situação humanitária em Gaza devido ao conflito. Ele expressou preocupações sobre o trauma psicológico enfrentado pelas crianças palestinas, que crescem em um ambiente de medo e perda constante.

Na última semana, o sociólogo e ativista palestino Baha Hilo concedeu uma entrevista para NINJA, e ofereceu uma visão intensa sobre a atual crise em Gaza, onde as pessoas estão enfrentando ataques implacáveis de Israel e a comunidade internacional está se mobilizando em apoio à Palestina, sob pressão de protestos. Até o momento, mais de 10 mil palestinos foram mortos. 

Foto: Motaz Azaiza

 

A discussão também incluiu o contexto geopolítico, destacando que a atual situação é complexa e desafiadora. Israel ignora tradicionalmente as resoluções da ONU, sabendo que conta com o apoio dos Estados Unidos, um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Chade alertou para o impasse no Conselho de Segurança, que muitas vezes fica imobilizado devido a vetos.

“Existe uma pressão muito grande hoje, inclusive na Europa. Isso não é uma questão só dos países em desenvolvimento. Não é só uma questão dos aliados da causa palestina. Você tem vários governos, inclusive os europeus, muito preocupados com o nível de violência de Israel em Gaza. Esse nível de violência obviamente cria uma situação de muito risco internacional”, afirma Chade.

O jornalista levantou questões sobre a viabilidade de uma solução de dois estados, citando desafios práticos, como o deslocamento de colonos israelenses. Ele também mencionou a importância do Tribunal Penal Internacional em investigar potenciais crimes de guerra.

“Eles [Governo Israelense] vão ser, pelo menos pré-investigados. Agora a gente vive aquela outra situação anterior, mesmo condenados, qual vai ser o impacto real disso, sendo que a gente tem um governo americano ainda em apoio ao governo israelense? Então é um grande teste, no fundo, para a própria credibilidade do Tribunal Penal Internacional”, conclui Chade.

10
Nov23

‘É preciso que Israel inicie a descolonização da Palestina’, afirma liderança judaica - II

Talis Andrade

Foto: Debbie Hill/ UPI

Vídeo entrevista: Liderança de movimento judaico em defesa da libertação palestina critica o modelo sionista ampliado pelas ocupações lideradas por Netanyahu

 

NINJA: O que é antissionismo?

Shajar Goldwaser: Para entender o sionismo, é muito importante fazer uma distinção entre o que é o sionismo que foi idealizado pelos pensadores sionistas lá atrás e o que é o sionismo real, o que de fato aconteceu. O sionismo foi uma ideologia que surgiu lá atrás, no início do século 20, com a intenção de buscar um espaço no qual os judeus pudessem viver em segurança e não correrem risco de extermínio.

Essa foi a ideia original. Isso foi o que motivou os judeus a colonizarem a Palestina. Isso não é necessariamente o que aconteceu; na verdade, muito pelo contrário.

O sionismo, quando se expressou de forma concreta, manifestou-se como uma colonização europeia em um território árabe, palestino, no Oriente Médio. A primeira coisa para entender o sionismo, para muitas pessoas da comunidade judaica, pode representar um movimento de autodeterminação, um movimento de libertação, um movimento de combate ao antissemitismo. Porém, do ponto de vista concreto e dos palestinos, esse movimento significa a colonização de sua terra, de seu modo de vida, a destruição de sua cultura, a destruição de suas tradições.

Então, o que procuramos trazer de inovador para o debate é tentar entender que sim, existe uma intenção por parte dos judeus de combater o antissemitismo, de buscar criar um lugar seguro para conviver no planeta, junto a todas as outras pessoas, mas que isso não deve necessariamente acontecer pagando o preço da colonização de outro povo. E como podemos não só reverter essa situação, mas também contribuir com a descolonização desse povo perante o Estado de Israel, que se demonstrou, obviamente, como um projeto político, econômico e que representa interesses geopolíticos da Europa e dos Estados Unidos, e, portanto, acaba por si só a essência do projeto, a própria judaicidade desse projeto.

O judaísmo é uma cultura que busca solidariedade, que busca se adequar a diferentes contextos, conseguiu, inclusive, participar e contribuir culturalmente, cientificamente e economicamente. Então, na verdade, nosso coletivo tem como objetivo primário ser solidário à causa palestina, ser solidário ao processo de descolonização da Palestina. Ao mesmo tempo, vemos que é importante reconhecer que talvez, lá atrás, tenha havido alguma intenção positiva por parte daquelas pessoas que saíram de suas casas porque estavam sendo perseguidas. Essas pessoas talvez não fossem mal intencionadas, mas de fato cometeram um crime, e esse crime vem se perpetuando por mais de 78 anos. Está na hora de dizer chega, pois esse crime acaba manchando o próprio judaísmo, deixando-o refém desses interesses geopolíticos de grandes potências.

 

NINJA: Uma pesquisa recente do Instituto Laza revelou que 73% da população não vê mais Netanyahu como a pessoa certa para liderar Israel. Outra pesquisa conduzida pelo Canal 13 de Israel mostrou que 76% dos entrevistados acreditam que Netanyahu deveria renunciar e 64% da mesma pesquisa apoiam a realização de eleições imediatamente após o conflito. Como você analisa isso?

Shajar Goldwaser: Fico feliz com essa notícia, porque de fato ele é uma pessoa abertamente racista. Ele é abertamente islamofóbico. Ele deu declarações horríveis nos últimos tempos, deixando clara sua intenção pelo extermínio do povo palestino e pela destruição total de Gaza.

Mas há um ponto importante, que é justamente a virada de perspectiva que, por exemplo, nosso coletivo propõe. Porque quando falamos em eleições em Israel, estamos falando de eleições em que participa apenas a população do território considerado, os palestinos chamam de “Territórios de 48”, onde a maioria da população é judaica. A maioria do parlamento é judaica. Nunca houve um primeiro-ministro que não fosse judeu, e há uma pequena minoria árabe, de palestinos, que habitam dentro de Israel, que tem direito a voto, mas uma mera bancada parlamentar que não consegue atuar politicamente, porque nunca é colocada nem nas coalizões de direita, nem nas coalizões de esquerda. Porém, o estado israelense legisla, ele controla uma população muito maior, que não tem a possibilidade de votar contra Netanyahu. Por exemplo, a população na Faixa de Gaza.

 

NINJA: Sabemos que a resolução 194 da ONU nunca foi cumprida efetivamente. Então, na visão de vocês, qual seria uma resolução justa?

Shajar Goldwaser: Um dos principais pontos do nosso coletivo é entender que uma resolução justa para esse conflito, que na verdade é uma colonização, será uma resolução escolhida pela população palestina. Não cabe a nós, judeus, decidir qual é o caminho correto a ser tomado. Afinal, a partir do momento que propomos uma resolução, mantemos a colonização dos palestinos. É muito importante dar oportunidade aos palestinos de viverem uma descolonização completa. A resolução partirá dos palestinos.

Eu vou aproveitar para fazer uma crítica ao porquê não acreditamos em um modelo de dois estados. Se for ver de fato a composição do território geográfico e ver o que de fato está acontecendo hoje na Palestina, é possível observar que não há essa possibilidade, porque o processo de colonização israelense gerou uma situação na qual está completamente misturada a população judaica e a população palestina. Segregada, mas entrelaçada. Para construir os dois estados naquilo, teria que ter uma engenharia de Estado, que nos faz perguntar qual é o real sentido de uma dessas populações estar segregada.

07
Nov23

Gaza está se tornando "cemitério para crianças", diz secretário-geral da ONU

Talis Andrade
Um padre realiza uma cerimônia na véspera de Natal enquanto as pessoas rezam em frente a uma parede decorada com cores vivas que retrata cenas cristãs dentro da Igreja Católica da Sagrada Família, na cidade de Gaza, em 24 de dezembro de 2018

ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES.  Fiéis participam de missa de Natal na Igreja Católica da Sagrada Família, na cidade de Gaza, em 24 de dezembro de 2018

 

O brutal impacto do conflito entre Israel e Hamas nas crianças de Gaza

Netanyahu vai parar o massacre dos inocentes antes do Natal, dia que os cristãos festejam o nascimento do Messias? De Jesus?

Com imagens pertubadoras, BBC News publica reportagem que informa:

Crianças da Faixa de Gaza têm sido as principais vítimas do conflito entre Israel e o grupo palestino Hamas.

As crianças são cerca de 40% do total de mortos no território. Leia aqui 

Reportagem de Dalia Haidar, no BBC Newz, apresenta "Quem são os cristãos de Gaza, agora abrigados em duas igrejas, uma delas já bombardeada. Leia aqui 

 

 

Netanyahu o rei Herodes e a matança

dos pequenos inocentes

Antes do Natal 

 

Por Oussama El Ghaouri - Rádio Nacional - Brasília

O secretário-geral das Nações Unidas, Antônio Guterres, disse nesta segunda-feira (6) que a Faixa de Gaza está se tornando um cemitério para crianças.

A madrugada foi de fortes bombardeios em Gaza. O território passou a noite sem internet. Mas os poucos relatos que chegaram são de que foi o ataque mais intenso desde o início da guerra.

Na manhã desta segunda-feira, sobreviventes procuravam por mortos e feridos nos escombros no campo de refugiados de Maghazi. O hospital Al-Shifa, o maior da Faixa de Gaza também foi atingido. Segundo um funcionário das Nações Unidas, 200 pessoas morreram na noite de domingo no ataque ao hospital.

O Al-Shifa abriga no momento cerca de 50 mil civis que foram desalojados. Israel ordenou a evacuação do local. Mas a população diz que não tem pra onde ir.

O exército de Israel anunciou que concluiu o cerco à cidade de Gaza, no norte. E que dividiu a Faixa de Gaza em duas. Há agora apenas um corredor que separa o norte do sul do território. Por ele, civis podem ir em direção ao sul. O lado norte é onde os ataques estão mais intensos. Mas o sul também não é seguro. A cidade de Khan Younis, onde estão muitos dos que aguardam para sair de Gaza, também foi atingida hoje.

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, mais de 10 mil civis foram mortos desde o início do conflito. Israel e os Estados Unidos contestam os números. Mas a Organização Mundial de Saúde diz que é provável que ele seja real. Hoje o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, voltou a pedir cessar- fogo. Ele afirmou que as operações terrestres das Forças de Defesa de Israel atingem civis, hospitais, campos de refugiados, igrejas e instalações da ONU - incluindo abrigos. E que Gaza se tornou um cemitério para crianças.

Guterres também criticou o Hamas e disse que o grupo usa civis como escudo e segue lançando foguetes contra Israel.

Herodes, o Grande, e a matança dos pequenos inocentes: quem é grande e quem é pequeno?

 

Aleteia Brasil

“Mas ele não consegue matar Jesus”

Na juventude, ele matou Malic, o homem que tinha envenenado o seu pai. Ele prendeu o próprio irmão, Fasael, que, levado pelo desespero, acabou se suicidando. Ele matou a própria esposa, Mariamne I, e, alguns anos mais tarde, matou também os dois filhos que tinha tido com ela, Alexandre e Aristóbulo. Cinco dias antes de morrer, ele ainda mandou executar mais um filho, Antípatro, nascido de Dóris, que tinha sido outra das suas esposas.

Ele mandou construir obras à altura do que considerava a sua “grandeza”. Dedicou dez anos à reconstrução do Templo de Jerusalém, aquele mesmo templo a respeito do qual, certa vez, disseram fascinados os discípulos de Cristo: “Olha, Mestre, que pedras e que construções!” (Mc 13,1). Mas nenhuma pedra restou sobre pedra quando o templo, feito por mãos humanas, foi destruído na guerra judaica de 67-70 d.C.

E não foi só o templo ao Deus dos judeus que ele mandou construir. Ele também ordenou a edificação de templos pagãos, inclusive em honra do “divino Augusto”, o imperador romano. Ele fez em Jerusalém um teatro e um anfiteatro. Depois de reformar a fortaleza dos macabeus, ele mudou seu nome para Fortaleza Antônia, em bajulação ao seu protetor romano, Marco Antônio. Ele mandou edificar um magnífico palácio real ao noroeste da cidade. Ele revitalizou a cidade de Samaria, que rebatizou como Sebaste em bajulação a Augusto – porque Sebastos é o termo original grego para o latinizado Augustus. Ele mandou construir o palácio-fortaleza Haerodium, ao sul de Belém. Ele fez levantar Cesareia Marítima, a nova capital, na costa do Mar Mediterrâneo.

Ele se sentava ao trono de uma corte pagã que em muito sobrepujava todas as outras do Oriente em podridão e obscenidade.

Ele queria ser um dos “grandes” da história.

E a história, sempre disposta a bajular de alguma forma os humanamente poderosos, lhe concedeu o título tão obsessivamente desejado.

 

Ele é Herodes, o Grande.

Mas Herodes, o Grande, ficou, certo dia, profundamente perturbado (cf. Mt 2,3).

É que alguns magos lhe tinham anunciado que havia nascido o “Rei dos judeus”. E a suposta “grandeza” de Herodes, daquele momento em diante, se apequenou ainda mais até ficar do tamanho de uma única e determinante preocupação: “Quem era esse que poderia derrubá-lo do trono?”.

O grito de alarme latejava em sua mente doentia e fez a sua desumanidade conceber mais um monstro: se o “Rei dos judeus” tinha nascido havia pouco tempo, não poderia ter mais de um ano de idade. Talvez um ano e meio. Como identificá-lo? Não precisava identificá-lo. Bastava destruí-lo, quem quer que fosse. Bastava exterminar todas as crianças de até dois anos de idade.

E Herodes, o Grande, o fez.

***

Passou-se o tempo.

Depois de seis meses de uma enfermidade cruel e devastadora, imune às “grandezas” dos homens e acompanhada por um cortejo de vermes que já em vida lhe corroíam o corpo, morre em Jericó o rei Herodes, o Grande.

Flávio Josefo, o célebre historiador daqueles tempos, relata que o funeral do “grande” rei foi do máximo esplendor: seu cadáver, apodrecido em todos os sentidos, jazia sobre uma liteira de ouro, cravejada de pérolas e pedras preciosas de várias cores, recoberta de um manto púrpura; também o morto vestia púrpura e uma tiara à qual se sobrepunha uma coroa de ouro; à sua direita jazia o cetro.

Mas os seis meses de agonia dolorosa não tinham acendido na alma cruel daquele rei nenhuma centelha de consciência. Longe disso: Herodes, o Grande, ainda maquinou sua barbaridade derradeira e deu ordens à irmã, Salomé, para prender todos os nobres do reino em Jericó para serem executados no mesmo instante em que ele morresse.

Segundo Flávio Josefo, Herodes teria dito a Salomé: “Sei que os judeus festejarão a minha morte. No entanto, ainda posso ser chorado por outras razões e ter um funeral esplêndido se vós seguirdes minhas orientações. Esses homens que estão presos, quando eu expirar, matai-os todos, depois de rodeá-los de soldados, para que todos na Judeia e todas as famílias, mesmo não querendo, derramem lágrimas por mim”.

Salomé, felizmente, desobedeceu e libertou os prisioneiros após a morte do “Grande” irmão.

A tragédia arquitetada pelos “Grandes” da história, porém, nunca terminou. De “Grande” em “Grande”, a chacina dos inocentes continua até o nosso tempo, muito embora também prossigam as grandiosas construções voltadas a aumentar a aparência de grandeza da nossa civilização e do seu poderio material. Entre as faraônicas e mirabolantes obras que a grandeza humana não cessa de incrementar, permanece vivo Herodes, o Grande, na violência, na corrupção, na promiscuidade, no assassinato, na guerra, na exploração, na fome e, muito significativamente, no extermínio voluntário e implacável dos pequenos inocentes. Herodes vive.

 

Mas ele não consegue matar Jesus.

Não consegue porque, hoje como ontem, mesmo no meio da mais densa das noites, Deus sempre manda anjos a milhares de Josés que ainda ouvem seus conselhos e se dispõem, com prontidão, a renunciar a tudo a fim de salvar a vida dos pequenos e inocentes.

Josés sonhadores, talvez, aos olhos dos homens. Mas muito despertos aos olhos de Deus.

05
Nov23

O suicídio de uma nação e o extermínio de um povo

Talis Andrade
 
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O Hamas não será destruído porque tem um sócio que precisa dele para sobreviver, e é Benjamin Netanyahu

 

por Vladimir Safatle 

 

Existe um filme de Luis Buñuel que se chama O anjo exterminador. Nele, vemos um grupo de burgueses que vai para uma espécie de salão de recepção e simplesmente não consegue mais sair. Não há nenhum impedimento físico, nenhuma restrição, a não ser aquela vinda de suas próprias vontades. Quando tentam sair eles subitamente param, perdem a força de vontade e permanecem paralisados. A impotência vai até o desespero, cenas de violência e degradação aparecem, até que, da mesma forma como foi natural entrarem no salão, eles saem.

Existe um sintoma fundamental na ordem geopolítica mundial. Trata-se do conflito palestino. Ele é como o filme de Buñuel: diante dele todos param e preferem nada fazer, até que explode algo terrível, como os ataques perpetrados pelo Hamas semana passada, e seguem-se ações que têm, no fundo, um só objetivo, a saber, continuar a não fazer nada de real, continuar a não procurar abrir caminho algum para resolver o conflito. A reação consiste apenas em mobilizar porta-aviões, exército, discursos de força, catástrofes humanitárias para esconder o dado elementar: a comunidade internacional não está disposta a resolver problema algum na Palestina.

Façamos um exercício elementar de projeção. O que acontecerá depois das ditas “ações militares” israelense em Gaza? O Hamas será destruído? Mas o que significa exatamente “destruição” aqui? Ao contrário, não foi exatamente assim que o Hamas cresceu, a saber, depois das ações inaceitáveis de punição coletiva e de indiferença internacional? E mesmo se os líderes do Hamas forem mortos, não aparecerão outros grupos alimentados pela espiral cada vez mais brutal de violência?

Seria importante partir do dado histórico de que todas as tentativas de aniquilar militarmente o Hamas só aumentaram sua força, pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos de grande parte dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação. Quer dizer, só há uma maneira de vencer o Hamas e esta maneira não passa pela vitória militar, seja lá o que isso possa significar.

Permitam-me colocar claramente o que penso e que venho escrevendo há quase vinte anos na imprensa nacional: o Hamas não será destruído porque ele tem um sócio que precisa dele para sobreviver, e esse sócio é Benjamin Netanyahu. As ações feitas por Benjamin Netanyahu e seu governo de extrema direita, com o beneplácito de potências internacionais, só têm um efeito possível: fortalecer os sentimentos que alimentam o Hamas. Um pouco de sensatez e de análise histórica do conflito nos levaria rapidamente a essa conclusão. A solução está em outro lugar.

E, bem, aqui escreve alguém (e isto é fácil de checar via internet) que nunca deixou de criticar o Hamas e seu projeto. Não tenho ilusão alguma a respeito do que são os interesses de grupos fundamentalistas religiosos. Falei em mais de uma vez que os palestinos têm dois problemas para resolver: um é a política colonial do Estado de Israel, o outro é o Hamas. Continuo pensando o mesmo. Mas, como no filme de Buñuel, a saída desertou da vontade de quem pode resolver o conflito, a saber, a comunidade internacional com seu sistema de pressão.

 

Um problema extremamente complexo?

Durante anos fomos massacrados com a eterna ideia de que este era um conflito “extremamente complexo” ou de que suas causas deveriam ser procuradas em alguma espécie de “ódio milenar entre povos semitas” e coisas do gênero. No entanto, não há nada de complexo no conflito palestino. O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de “território ocupado”, ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de cinquenta anos.

Ou seja, Israel deve respeitar a lei internacional e devolver os territórios ocupados. Como se não bastasse, há os Acordos de Oslo, que definem um caminho claro para a paz e a resolução do conflito. Israel deve respeitar tais acordos internacionais, o que até agora não ocorreu. Inclusive, o atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nunca escondeu sua recusa em aceitá-lo.

No entanto, os palestinos efetivamente se engajaram nessa via. Durante décadas, a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) levou a cabo ações diretas, inclusive ataques a civis, e manteve um discurso claramente contrário à partilha que criaria dois Estados na Palestina histórica. E, no entanto, há mais de 30 anos, a OLP abriu mão das ações armadas, mostrando a disposição dos palestinos a uma solução negociada para o conflito. Há de se entender esse ponto: os palestinos que se engajaram em um processo pacífico de negociação foram traídos. Se os Acordos de Oslo fossem respeitados, não haveria Hamas. Qualquer solução começaria por mostrar aos palestinos que a via diplomática pode trazer resultados efetivos.

E aqui seria importante recuperar a verdadeira razão pela qual esse processo de paz fracassou. Ele fracassou porque o então primeiro-ministro de Israel, Itzak Rabin, foi assassinado, não por um membro do Hamas, não por um palestino, mas por um colono judeu. Enquanto Itzak Rabin e o então líder da OLP, Yasser Arafat, tentavam colocar em prática o plano, colonos afrontavam o exército israelense em processos de desocupação de assentamentos, rabinos ultraconservadores faziam discursos incendiários contra o governo e víamos na televisão campanhas publicitárias feitas por organizações judaicas fundamentalistas que conclamavam os judeus do mundo, com armas em punho, a impedirem a entrega de terras aos palestinos. O final deste processo foi o assassinato de Itzak Rabin.

Desde então o processo de paz acabou. Pois havia um problema de difícil resolução, esse sim um problema extremamente complexo. Há uma ambiguidade maior no cerne da concepção israelense de nação. Por um lado, ela é assentada na criação de um Estado moderno e laico onde haveria espaço inclusive para os árabes (embora em número controlado).

Mas, de outro lado, a concepção israelense de nação é assombrada por fantasmas religiosos e comunitaristas no interior dos quais um messianismo redentor se mistura perigosamente com a tentativa de criar vínculos orgânicos entre nação, Estado e povo. O resultado é o paradoxo gritante de um Estado que se pretende moderno e tem um bizantino Ministério das Questões Religiosas, com suas cortes rabínicas, seu Departamento de banhos rituais e sua Divisão de assuntos sobre enterros. Na verdade, um espectro ronda o Estado de Israel: o espectro do teológico-político.

Do lado de Israel, ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível por meio de uma confrontação com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação. No entanto, isso seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos. Para ela, continuar o processo de paz seria levar o país a uma guerra civil. Tratava-se então de adiar o processo de paz ad infinitum. E a melhor maneira para isso era alimentando a popularidade de um grupo fundamentalista islâmico. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo de Itzak Rabin. Um precisa do outro para existir.

Por isso, não há outra forma de descrever o que o governo de Benjamin Netanyahu faz agora a não ser como um experimento suicida. Pois ele acredita que a única coisa capaz de unificar o país é a guerra. Mas para funcionar, essa guerra deve ser infinita, sem fim, criando uma situação de exceção permanente. Uma sociedade fraturada como a israelense encontra na guerra um ponto forçado de união. Através da guerra permanente, toda voz contestadora é constrangida, a crítica dura ao apartheid de fato, à política tipicamente colonial do Estado israelense para com os palestinos é associada, de forma desonesta, ao antissemitismo. O que não significa ignorar expressões de antissemitismo real que aparecem em situações de guerra e que devem ser combatidas.

Eu insistiria que estamos diante de um experimento suicida porque guerras dessa natureza não podem ser vencidas, elas servem apenas para militarizar a sociedade em todos seus poros (como denunciou de forma precisa a socióloga israelense Eva Illouz no caso de sua sociedade), destruindo sua substancialidade. A única possibilidade de realmente vencer a guerra seria através do puro, simples e impensável extermínio de fato dos palestinos. Pois eles simplesmente nunca aceitarão serem tratados como um povo inexistente ou que deve ser deslocado completamente para o leste do Rio Jordão.

Tentar aprofundar nessa via significará colocar o mundo inteiro em risco, levar as populações dos países árabes à ebulição, com o aumento generalizado da insegurança mundial. Há uma ilusão colonial típica que está sendo mais uma vez atualizada aqui. Terra e liberdade são elementos completamente conjugados. Os povos sabem que não há autonomia sem autoctonia. Não há comunidade humana que aceite seu próprio desterro de maneira passiva.

Pode-se dizer que o conflito palestino é mais complexo que uma situação colonial clássica, porque há uma contestação sobre quem tem direito à autoctonia. No entanto, o direito internacional, mais uma vez vale a pena lembrar, é claro: a autoctonia dos palestinos na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental não tem nenhuma possibilidade de ser contestada e a comunidade internacional tem a obrigação de defendê-la e pressionar para sua efetivação imediata.

No entanto, não me escapa o fato de que o mundo caminha para uma situação na qual só se governa através da generalização de situações de crise. Uma verdadeira vontade de resolução do conflito passaria por uma intervenção da ONU e o uso de força militar internacional como elemento mediador, mas sequer um comunicado conjunto o Conselho de Segurança é capaz de aprovar. A tentativa do governo brasileiro foi louvável, embora serviu apenas para mostrar o fim de fato da ONU. Desde a invasão norte-americana no Iraque, feita sem acordo da ONU, a única instituição capaz de mediar conflitos bélicos deixou de existir.

Cada vez mais, entramos na era do medo como afeto político central. Estados procuram, na verdade, perpetuar as ditas ameaças terroristas como forma de consolidar uma política de contínua vigilância, de intervenção policial extensa e de bloqueio de contestações efetivas. Isto é um fenômeno mundial de mudança de paradigma de governo que vem sendo denunciado há pelo menos duas décadas de forma sistemática por todos os lados. Com esse conflito e seus desdobramentos, ele poderá ainda ser mais aprofundado.

05
Nov23

Israel na Palestina - 1

Talis Andrade
 
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Uma guerra entre os que defendem sua terra e os que lha querem tirar

 

“Já ouço como ajustam seus instrumentos de morte. Por favor. Façam o que puderem. Isto não pode continuar”
(Dr. Mads Gilbert).

 

por Gilberto Lopes

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“A última noite foi extrema. Já ouço os instrumentos de morte. Os rios de sangue continuarão a correr na próxima noite”, disse o Dr. Mads Gilbert, do Hospital Al-Shifa, em Gaza, em 24 de julho de 2014. Esse hospital ainda existe? Terá acontecido algo melhor para ele do que para o Hospital Al-Ahli, destruído por um bombardeio na semana passada. Fui verificar. Sim, segue existindo. É o maior hospital de Gaza. Com capacidade para atender 700 pessoas por dia, recebe atualmente 5.000. Estava à beira do colapso. “Quando chega o bombardeio, o inferno inteiro se desmorona sobre Al-Shifa”, disse Alejandra Pataro, jornalista do Clarín.

A voz do Dr. Gilbert continua ressoando, mas as razões dessa tragédia continuam por esclarecer. Temos que tentar compreender…

A guerra na Faixa de Gaza desviou a atenção da Cisjordânia, o outro território com o qual deveria ser formado um Estado palestino. “Esta falta de atenção”, afirma a jornalista israelense Amira Haas, no jornal Haaretz, “permitiu que os colonos judeus, apoiados pelo exército, pela polícia e pelas forças paramilitares, atacassem novamente os agricultores e pastores palestinos da Cisjordânia, com um objetivo claro: expulsar as comunidades de suas terras e de suas casas.

O Haaretz ilumina aspectos de uma realidade que passou a segundo plano em Israel e que o resto do mundo praticamente ignora. A frente militar desta guerra está sendo travada novamente em Gaza, com suas consequências dramáticas, mas, mesmo assim, é difícil decidir qual dos dois cenários – Gaza ou Cisjordânia – é o mais cruel.

Há pouco mais de dez anos, em maio de 2013, o colunista do Haaretz Bradley Burston escreveu sobre o “verdadeiro segredo” de Israel. “Não é a bomba atômica”, afirmava, mas o orçamento que o Estado destinava aos assentamentos judeus na Cisjordânia. Ninguém sabe quanto dinheiro é distribuído para os assentamentos. Ninguém! Nunca! Bradley Burston referia-se a uma reportagem da rádio do exército israelense sobre os recursos destinados a legalizar estes assentamentos e a criar incentivos para atrair milhares de novos moradores para além das fronteiras da Cisjordânia, estabelecidas pela “Linha Verde”. “A pobreza em Israel é boa para os assentamentos e ótima para a ocupação”, acrescentou. Quando a construção dos assentamentos começou na década de 1980, diz Bradley Burston, os governos do partido conservador Likud de Benjamin Netanyahu “já tinham começado a desmantelar as redes de seguridade e bem-estar social”, base da economia e da sociedade de Israel desde a sua fundação em 1948. À medida que as privatizações avançavam, muitas pessoas dos povoados e bairros periféricos de Israel eram deixadas para trás. O governo financiou então a criação de subúrbios com moradia a preços acessíveis, que atraíram milhares de compradores. Financiou escolas e transporte, de modo que a ocupação do território palestino se tornou uma realidade, fileira após fileira. Depois, surgiram bases militares em todas as direções “para proteger os colonos”.

Dez anos depois do artigo de Bradley Burston, Ofer Aderet publicou, também no Haaretz, outros detalhes do plano, revelados em documentos dos arquivos estatais, graças a um projeto do Taub Center para estudos israelenses, da Universidade de Nova Iorque, que mostram como a ocupação dos territórios palestinos na Judeia e Samaria foi cuidadosamente planejada. “O estabelecimento de assentamentos judeus nos territórios ocupados foi o maior empreendimento nacional do último meio século, mas atraiu muito pouca pesquisa acadêmica”, lê-se no site do Taub Center.

Os documentos tornados públicos revelavam que, primeiro, tentaram expropriar as terras agrícolas dos palestinos, sob o pretexto de que as transformariam numa zona de treinamento militar. Se os habitantes se recusavam a sair, os soldados sabotavam suas ferramentas ou utilizavam seus veículos para destruir as plantações. Como último recurso, envenenavam as terras, pulverizando-as com produtos químicos tóxicos, letais para os animais e perigosos para os seres humanos. Essas medidas, aplicadas na cidade de Aqraba em 1972, durante o governo da primeira-ministra Golda Meir, são um exemplo de como, nessa questão, a mesma política foi promovida de forma semelhante pelos diversos partidos israelenses.

Em 21 de setembro, um relatório da ONU denunciou um êxodo sem precedentes de colonos palestinos na Cisjordânia. Mais de 1.100 foram obrigados a abandonar suas propriedades desde 2022 devido à violência dos colonos judeus, que obrigaram os palestinos a desalojar completamente cinco comunidades. Outras seis viram metade de seus habitantes partir, e, em algumas outras, partes menores de sua população. “Sinto-me como se fosse um refugiado aqui e os colonos são donos de nossa terra”, disse Ali Abu Kbash, um pastor que deixou sua propriedade na aldeia de Al-Qabun, na Cisjordânia, com seus quatro filhos e 60 ovelhas para se instalar nas encostas rochosas de uma aldeia vizinha.

A onda de abandono da chamada “Área C” da Cisjordânia (com 60% do território sob controle do exército israelense, de acordo com os acordos de paz de Oslo dos anos 90) intensificou-se. “A expulsão de palestinos em meio à crescente violência dos colonos atinge uma magnitude nunca antes documentada”, segundo Andrea de Domenico, coordenadora do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários no Território Palestino Ocupado. Os colonos instalam postos avançados em terras palestinas, soltam suas ovelhas nas terras de pastores palestinos e queimam suas casas, com o apoio das autoridades e dos militares.

Em setembro de 2020, os tribunais israelenses ordenaram a expulsão de uma dúzia de palestinos de suas terras em dois casos distintos: num deles, para entregar as terras a uma associação de colonos; no outro, a uma empresa de propriedade de ativistas de extrema-direita.

Netanyahu, lutando por sua sobrevivência política nas eleições de setembro de 2019, anunciou sua disposição para apropriar-se de até um terço da Cisjordânia. Ministros árabes das relações exteriores, reunidos no Cairo, consideraram isso um “plano perigoso” que viola o direito internacional. O ministro das relações exteriores turco considerou-o “racista e incendiário”. A ilegalidade destas ações foi reiterada pelas mais diversas instâncias. A política de construção e expansão dos assentamentos, incluindo Jerusalém Oriental, é ilegal de acordo com o direito internacional. A União Europeia afirmou que não reconhecerá qualquer anexação unilateral do Vale do Jordão por parte de Israel, segundo a porta-voz do serviço diplomático europeu, Maja Kocijancic, em resposta ao plano anunciado por Benjamin Netanyahu.

 

Pobreza endémica

É impossível, num artigo de jornal, contar a história de sete décadas. Mas há inúmeras notas, de várias fontes, que resumem a situação que tentamos descrever. Em dezembro de 2004, a BBCentrevistou Peter Hansen, diretor da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio, também conhecida pela sigla UNRWA. A entrevista pode ser vista aqui. “As estatísticas de morte, destruição e pobreza não conseguem transmitir o verdadeiro sofrimento das pessoas nos territórios ocupados. Bairros inteiros (…) foram arrasados. Nas nossas escolas, toda uma geração está crescendo num ambiente de violência aterradora. A maldição da pobreza endêmica atinge agora dois terços da população”, disse Peter Hansen à BBC.

Em novembro (2004), a UNRWA pediu fundos para alimentar 1,6 milhões de palestinos nos territórios ocupados. “São pessoas que, não fosse a UNRWA, não teriam nada para comer?”, pergunta o jornalista. “Isso mesmo”, disse Hansen. “Desde o início da Intifada (setembro de 2000), quase todas as possibilidades de emprego para os palestinos em Israel desapareceram. Antes da Intifada, havia 130.000 palestinos trabalhando em Israel. Estamos falando de 130.000 famílias, quase um milhão de pessoas, porque as famílias são numerosas”, explica.

“Um relatório do Banco Mundial de novembro de 2004 afirma que 50% dos palestinos vivem na pobreza, com menos de dois dólares por dia. A UNRWA denunciou que uma em cada cinco crianças nos territórios ocupados sofre de desnutrição”, afirma o jornalista. “Estamos neste programa de emergência há quatro anos. Devido à falta de recursos, tivemos que baixar o nível da ajuda alimentar de 80% das necessidades de uma família para 60% e, atualmente, para 40%, porque simplesmente não temos dinheiro suficiente para fazer melhor”. “Quer dizer”, perguntaram-lhe novamente, “que as famílias recebem apenas 40% dos alimentos de que necessitam para sobreviver?”. “Isso mesmo. Terão que encontrar o resto em outro lugar”.

As relações de Washington com os palestinos tinham-se tornado difíceis. Em 6 de dezembro de 2017, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos reconheciam Jerusalém como a capital de Israel. O secretário de estado Mike Pompeo e a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas Nikki Haley (atualmente pré-candidata presidencial pelo Partido Republicano) defenderam a medida, argumentando que o programa era responsável pela pobreza na Palestina.

O líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Mahmoud Abbas, condenou a decisão. “Esta medida deplorável e inaceitável compromete deliberadamente todos os esforços de paz”, afirmou Mahmoud Abbas. Para o Hamas, a decisão “abria as portas do inferno para os interesses dos Estados Unidos na região”. Em agosto de 2018, Donald Trump cancelou os recursos destinados pelos Estados Unidos ao programa de ajuda aos palestinos. Uma medida que Joe Biden reverteu em abril de 2021, anunciando 150 milhões de dólares para a UNRWA e outros 75 milhões de dólares para assistência econômica e humanitária na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

 

O muro

A UNRWA também denunciou o muro que estava sendo construído por Israel na Cisjordânia. Apesar de sua importância, a grande imprensa pouco (ou nada) diz sobre este muro. Ainda que não esteja totalmente concluído (e, por razões políticas, talvez nunca venha a sê-lo), suas consequências são devastadoras para os palestinos, como indicava Hansen. “O muro passa por alguns lugares que separam a população das instalações que temos para educação e saúde”. “Há problemas para que cheguem aos hospitais, porque a maioria dos hospitais fica em Jerusalém, que está sendo totalmente fechada”.

Uma estrutura complexa que se estende por mais de 500 km, com cerca de 30 km de muros de concreto de até sete metros de altura e quatro metros de profundidade, complementada por barreiras, grades e torres de vigilância que circundam a Cisjordânia e Gaza. Barreiras que os palestinos têm que cruzar através de postos de controle, dos quais, até o ano passado, onze estavam abertos diariamente, enquanto outros estavam abertos em determinados dias da semana ou apenas em determinadas épocas de colheita. E onde a passagem era sempre uma decisão arbitrária, e muitas vezes humilhante, dos agentes de segurança.

Uma pessoa que vive perto de Jerusalém e tem que ir ao hospital, em vez dos quinze minutos que levava antes, agora são três horas. Tem que fazer um percurso muito longo até o sul de Jerusalém e voltar pelo norte. Para pessoas idosas e doentes, isto está longe de ser o ideal. “Um obstáculo que vai muito além do impacto físico óbvio: é a dor da família separada, o desamparo diante da casa confiscada ou demolida, a angústia do agricultor que não irriga sua terra e perde seu sustento, a fúria das viagens prolongadas para percorrer o desvio, a humilhação dos postos de controle militar para atravessar, a expectativa dos fiéis que anseiam por rezar em Jerusalém, a melancolia de um pôr do sol roubado”, contou a jornalista Carmen Rangel num artigo publicado no Huffington Postem 26 de junho do ano passado.

Israel começou a construir um muro em junho de 2002 e previu estendê-lo posteriormente por cerca de 700 km, a um custo de mais de 3,5 bilhões de dólares. Os palestinos denunciaram a expropriação de novos territórios com a construção do muro, que não segue a fronteira da Linha Verde. O Tribunal Internacional de Justiça de Haia decidiu, em 2004, que a estrutura é ilegal porque grande parte de seu traçado atravessa os territórios autônomos palestinos.

Em 23 de dezembro de 2016, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 2.334, reafirmando que “o estabelecimento de assentamentos por Israel nos territórios palestinos ocupados desde 1967, incluindo Jerusalém Oriental, não tem validade legal e constitui uma violação flagrante do direito internacional”. Reiterou sua exigência para que Israel cessasse “imediata e completamente” todas as atividades de assentamento nos territórios palestinos ocupados e apelou à adoção de medidas para prevenir quaisquer atos de violência contra civis. Como sabemos, nada disto aconteceu.

A Autoridade Palestina, o organismo palestino que administra parte do território ocupado e que surgiu nos Acordos de Oslo em 1993, viu sua autoridade diminuída pela divisão do território da Cisjordânia em três áreas: A, B e C. Os Acordos de Oslo deixaram nas mãos de Israel o controle total da economia palestina, bem como dos assuntos civis e de segurança em mais de 60% da Cisjordânia, designada por Área C.

Insatisfeitos com esta situação, desde 2005, os palestinos elegeram o Hamas e sua política de resistência armada à ocupação como seu representante em Gaza, cujo ataque à população no sul de Israel, no início de outubro, deu início à mais grave escalada militar do conflito israelo-palestino.

 
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