Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Jun21

Carta de pesquisadoras: o que o Brasil precisa fazer para controlar a pandemia

Talis Andrade

 

Na Nature Medicine, Ester Sabino, Lorena Barberia e Silvia Figueiredo Costa pedem uma abordagem cooperativa e coordenada para lidar com a crise sanitária que se prolonga em altos índices de casos e mortes

 
por Jornal da Usp
 

As professoras da USP Lorena Barberia , Silvia Figueiredo Costa e Ester Sabino assinam uma carta publicada na revista Nature Medicine nesta segunda-feira, 21 de junho.

Dando um panorama do cenário brasileiro na pandemia, após mais de 14 meses de seu início, as cientistas lembram que os brasileiros ainda sofrem com milhares de mortes todos os dias, aumento de casos, superlotação de hospitais e alta letalidade do vírus. “Quem está na linha de frente entende que o Brasil está em guerra com a covid-19”, declaram. 

Entre os muitos fatores que explicam por que o número de vítimas da pandemia no Brasil é tão alto, elas incluem sua estreita conexão com os mercados mundiais, a vulnerabilidade socioeconômica de grande parte da população e a desigualdade persistente no País.

Mas um dos fatores mais cruciais da crise sanitária no Brasil, argumentam, é a falta de comando centralizado, planejamento estratégico e recomendações claras baseadas em evidências desde o começo.

Enquanto o quarto ministro da Saúde a ser nomeado desde o início da pandemia tenta orientar a resposta à crise, o Brasil continua sendo o epicentro da pandemia na América Latina. “A batalha contra o sars-cov-2 será perdida sem um comando central e deixará para trás um país terrivelmente dividido”, alertam.

Elas sugerem que o plano deve começar reconhecendo as ações, fora e dentro do próprio país, que estão dando certo. “Nos poucos casos em que foram impostos bloqueios mais rígidos, como em Araraquara (SP), e adotadas estratégias de vigilância voltadas para a atenção básica, como em São Caetano do Sul (SP), essas medidas se mostraram extremamente eficazes.”

As cientistas ressaltam o papel de líderes que possam construir consensos, e que uma comunicação clara e concisa com a população, mas sempre com base em evidências, é crucial. Para elas, os governantes precisam agir com o objetivo de construir confiança e cooperação, valorizando a ciência. “Não há mais espaço para os governantes priorizarem o oportunismo político e a divulgação de notícias falsas.”

Além disso, reafirmam que o Brasil precisa adotar medidas mais rígidas de distanciamento físico e, em alguns Estados, lockdown. Intervenções não farmacêuticas devem ser coordenadas entre os Estados, e os programas de assistência social devem ser direcionados para atender às necessidades das populações vulneráveis.

Sem essas políticas mais rígidas, argumentam, “o nível de adesão ao distanciamento social é baixo, em parte porque a maioria das pessoas no Brasil não pode trabalhar em casa”. 

Elas defendem, entretanto, que um lockdown estrito só será eficaz se a capacidade do País de prever e responder à transmissão do sars-cov-2 for melhorada. E isso deve feito com testagem acelerada e em massa, “focada na identificação de pessoas que estão transmitindo o vírus a outras, além do rastreamento e testagem de seus contatos”. Como solução para as regiões com menor infraestrutura para testagem, sugerem como alternativa o uso generalizado de testes rápidos de antígenos. O sequenciamento genético para detectar variantes existentes e novas de interesse também é necessário. 

Quanto à vacinação, as autoras dizem que a velocidade precisa ser ainda maior. A produção no Brasil sofre com “atrasos na importação de insumos farmacêuticos ativos e entregas abaixo dos níveis combinados”. E enquanto isso não se resolve, num contexto de “fornecimento global de vacinas limitado”, os líderes nacionais precisam preparar a população para outras intervenções que reduzam a disseminação.

Por fim, elas defendem que esforços para conter a pandemia no Brasil também precisam da participação da comunidade internacional.

Por exemplo, “em vez de concentrar esforços na introdução de passaportes de vacinas e na propagação do nacionalismo de vacinas, a Europa e os Estados Unidos devem liderar esforços para garantir que os custos de testes, medicamentos, equipamentos médicos e vacinas sejam acessíveis para garantir um suprimento adequado no Sul Global”, declaram.

E cobram: “Não há desculpa para atrasos na entrega de reagentes de vacinas previstos em contratos, especialmente porque os ensaios das vacinas Sinovac [CoronaVac] e ChAdOx1 [Oxford-AstraZeneca] foram conduzidos e parcialmente pagos pelo Brasil.”

(Trechos em aspas em tradução livre)

03
Jun21

Discutir cloroquina é 'escolher de que borda da Terra plana a gente vai pular'

Talis Andrade

Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (CPIPANDEMIA) realiza oitiva de médica infectologista e ex-secretária de enfrentamento à Covid do Ministério da Saúde. No início de maio, o nome da médica chegou a ser anunciado pelo ministro da Saúde, mas a nomeação foi cancelada dez dias depois. O objetivo então, é saber as razões pela desistência de sua nomeação no Ministério da Saúde.  Mesa:  médica infectologista Luana Araújo - em pronunciamento; presidente da CPIPANDEMIA, senador Omar Aziz (PSD-AM);  relator da CPIPANDEMIA, senador Renan Calheiros (MDB-AL).  Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Foto Waldemir Barreto

Com posição notória contrária ao uso de cloroquina e hidroxicloroquina como tratamento contra a covid-19, a médica infectologista e epidemiologista Luana Araújo, que chegou a ser anunciada em 12 de maio pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para assumir o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, afirmou em depoimento à CPI da Pandemia, nesta quarta-feira (2), ter sido informada pelo próprio Queiroga, após dez dias de trabalho no ministério, que seu nome não teria aval da Casa Civil.

Graduada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e epidemiologista mestra em saúde pública pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, a consultora em saúde pública para organizações internacionais garantiu que não lhe foi explicado o motivo da não aprovação de seu nome para a pasta.

A médica explicou que essa secretaria faz parte de uma estrutura e foi criada para coordenar os esforços do governo federal relativos à pandemia, auxiliar na interlocução com estados e municípios, além de concatenar as sociedades científicas nacionais e internacionais no suporte aos esforços brasileiros no combate à covid-19.

— A secretaria tem por objetivo maior dar agilidade e precisão às informações sobre a pandemia para que os gestores tenham condição de lidar melhor com o que está acontecendo. Então, a minha função e o meu desejo naquela secretaria era que ela funcionasse como um antecipador de problemas.

Ao destacar em sua apresentação que de "ontem para hoje" 12 grandes aviões lotados caíram no país, em referência às mortes pela covid-19, Luana enfatizou que saúde pública é muito mais que médicos e hospitais, e que a discussão sobre o que chamou de “pseudo tratamento precoce” é “esdrúxula”. Ela afirmou ainda que não se pode imputar sofrimento e morte a uma população para se alcançar a imunidade de rebanho.

Luana negou ter conversado com Queiroga ou qualquer outra pessoa no ministério sobre cloroquina e outros medicamentos.

— Quando eu disse que um ano atrás nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos, porque nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular, não tem lógica — declarou ela, que, além disso, elogiou o posicionamento do ministro Queiroga por ter atendido seu pedido de autonomia.

Questionada pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), se haveria relação entre a sua não nomeação no ministério e o seu posicionamento contrário ao uso desses medicamentos, notoriamente defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro, Luana disse que, “se isso aconteceu, é extremamente lamentável, trágico” e que há no país uma "politização criminosa".

— Eu abri mão de muitas coisas pela chance de ajudar o meu país. Não precisava ter feito isso. Os senhores [senadores] acham que as pessoas, de fato, que têm interesse em ajudar o país e têm competência para fazer isso, neste momento, se sentem muito compelidas a aceitar esse desafio? Não se sentem. Então, infelizmente, a gente está perdendo.

A médica, que disse sofrer diversas ameaças, afirmou haver estudos randomizados e controlados que mostram aumento de mortalidade com o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, e que é preciso haver responsabilização por quem o propaga.

— Quando a gente transforma isso em uma decisão pessoal é uma coisa, quando você transforma isso numa política pública é outra. A autonomia médica faz parte da nossa prática, mas não é licença para experimentação. A autonomia precisa ser defendida, sim, mas ela precisa ser defendida com base em alguns pilares: no pilar do conhecimento, da plausibilidade teórica do uso daquela medicação, do volume de conhecimento científico acumulado até aquele momento sobre aquele assunto, no pilar da ética e no pilar da responsabilização. 

Para o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), a não nomeação de Luana foi uma questão política, por ela não compactuar com o uso da cloroquina no tratamento da covid-19.

— É inacreditável que alguém formada por uma das melhores universidades do mundo seja vetada. O ministro Queiroga disse aqui para nós que teria autonomia para nomear quem ele quisesse. Já está provado que não é verdade; ele mentiu aqui para a gente — declarou o presidente.

O senador Marcos Rogério (DEM-RO) questionou a “histeria no âmbito do Parlamento” sobre nomeações.

— É inquestionável a qualificação técnica da doutora Luana. Apesar da estranheza, todos sabem que em nenhum poder Executivo existem nomeações automáticas. Nos municípios elas são feitas pelos prefeitos e nos estados e no governo federal pela Casa Civil. Não é razoável querer criminalizar isso. Há uma liberdade plena para nomear — afirmou.

Desinformação

Única infectologista em nível de secretariado no Ministério da Saúde, ao ser questionada pelos senadores sobre declarações e atos do presidente da República — após exibição de vídeos — que incentivam o uso da cloroquina, o não uso da máscara, as aglomerações e as desconfianças quanto às vacinas, Luana Araújo afirmou que, “a partir do momento em que se vulnerabiliza a população com informações incorretas, não se pode esperar resultado positivo”.

— Eu entendo que existam consequências de determinadas políticas públicas. Não é possível ouvir uma declaração, de quem quer que seja, sem sofrer um impacto quase que emocional, além do racional. Como médica e infectologista, isso me suscita a ideia de que preciso trabalhar mais.

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) disse que a Presidência da República é a liderança máxima e referência para aquilo que deve ser guiado pela ciência.

— Se há o contraditório entre a ciência e o Presidente da República, que, publicamente e ostensivamente, faz essa contradição com a ciência, nós estamos diante de uma encruzilhada, porque não dão certo as duas coisas.

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) declarou que não há comprovação a favor ou contra o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina, apresentando estudos que contrariam a afirmação de maior número de mortes pelo uso desses medicamentos. Ele disse estar muito claro que a ciência está dividida e questionou sobre a restrição na atuação dos médicos na prescrição.

Para a médica, não há que se demonizar qualquer medicamento.

— Medicação só tem valor quando bem indicada. Uso off label tem que estar limitado a fatores claros.

Luana afirmou que a distribuição de “kits anticovid” aconteceu fartamente em território nacional e que, se tivessem surtido efeito, o país não teria os atuais números de infectados e mortos. Para ela, os gestores não agiram de má-fé, mas precisam de mais preparo.

Os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Luis Carlos Heinze (PP-RS) divergiram sobre informações que apontariam menor número de casos e mortes no estado do Amapá pelo uso do protocolo cloroquina-hidroxicloroquina. Randolfe garantiu serem dados "mentirosos", enquanto Heinze afirmou serem oficiais.

Heinze defendeu pesquisadores que recomendariam o “tratamento precoce”, entre eles o francês Didier Raoul. A infectologista contestou as posições desses cientistas e afirmou que o pesquisador francês recebeu o prêmio Rusty Razor, entregue a promotores da "pseudociência".

Depoimentos anteriores

Divergências sobre o uso da cloroquina em pacientes com covid-19, amplamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, também pesaram na decisão de saída do Ministério da Saúde dos ex-titulares da pasta Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, conforme depoimentos que eles prestaram à CPI nos dias 4 e 5 de maio, respectivamente.

Teich explicou que a cloroquina é uma droga com efeitos colaterais de risco, sem dados concretos sobre seus reais benefícios no tratamento da covid-19, e que havia ainda preocupação com o uso indiscriminado e indevido por parte da população. 

Em depoimento à CPI no dia 6 de maio, Marcelo Queiroga — que foi reconvocado pela CPI da Pandemia e deve ser ouvido na próxima terça-feira (8) — não respondeu se concorda ou não com o uso de cloroquina como "tratamento precoce” contra a covid-19, mas reconheceu que o uso indiscriminado do medicamento pode causar arritmia cardíaca. 

Queiroga alegou que, como integrante da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), precisará se manifestar futuramente sobre o assunto, após ouvir a opinião de diversas sociedades científicas sobre o tema para se chegar em um consenso.

A utilização de cloroquina como tratamento inicial foi amplamente defendida na terça-feira (1º) na CPI pela oncologista e imunologista Nise Hitomi Yamaguchi. Para ela, o tratamento "rápido e prematuro" dos pacientes pode impedir que a doença evolua e não compete com as vacinas.

Durante a audiência com Nise, o senador Humberto Costa (PT-PE) lembrou que, de março de 2020 a março de 2021, foram vendidos 52 milhões de comprimidos de quatro medicamentos integrantes do chamado kit anticovid, sendo 32 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina. Diante desses números, segundo ele, seria esperado que houvesse menos mortes no Brasil, que tem 2,7% da população mundial e 13% dos óbitos, caso o medicamento fosse efetivo. 

—  Para mim ficou evidente que ela [Nise] foi voz importante para essa concepção equivocada do presidente Bolsonaro, que conduziu o Brasil para essa tragédia econômica e social — declarou Humberto.

Fonte: Agência Senado

07
Mai21

A história secreta da cloroquina, o novo documentário da TV 247

Talis Andrade

 

Documentário de Joaquim de Carvalho, na TV 247, revelará os interesses bilionários por trás do uso de um remédio ineficaz, que já matou milhares de brasileiros

Enquanto o mundo inteiro correu atrás de vacina, o governo brasileiro, sob a gestão de Jair Bolsonaro, apostou em cloroquina, um remédio ineficaz contra a Covid-19, que foi distribuído a milhares de pacientes como “tratamento precoce”. Em razão desta política desastrosa, o Brasil registrava, no dia 5 de maio de 2021, nada menos do que 12,8% das mortes por coronavírus no mundo (414 mil de um total de 3,2 milhões), muito embora tenha menos de 3% da população mundial.

O Brasil foi, portanto, o epicentro da segunda onda da Covid-19 no mundo, que se alastrou a partir da cidade de Manaus, capital do Amazonas. Distribuir cloroquina, quando já se sabia que era um remédio ineficaz contra a covid-19, foi uma política oficial do Ministério da Saúde, conforme já foi até confessado pela médica Mayra Pinheiro, secretária de gestão de Trabalho da pasta, curiosamente batizada como “capitã cloroquina”.

A cloroquina é o tema central da CPI da Pandemia, que já fez descobertas importantes. Dois ex-ministros da Saúde, Henrique Mandetta e Nelson Teich, revelaram que deixaram seus cargos porque se negaram a ceder às pressões do presidente Jair Bolsonaro, e também de seus filhos, para prescrever a cloroquina. Mais grave do que isso, a CPI também revelou a existência de um decreto para alterar a bula da cloroquina. O que explica o grande interesse pelo tema de Jair Bolsonaro, que chegou até a propagandear o remédio, mesmo sem ser médico? Promover a “imunidade de rebanho”, para que o comércio fosse aberto mais rapidamente? Ou defender interesses privados na produção e na comercialização deste remédio? Por que o Exército brasileiro foi obrigado a produzir cloroquina, enquanto as forças armadas de outros países dedicaram-se a produzir máscaras e Equipamentos de Proteção Individual? Por que o governo brasileiro recebeu do governo de Donald Trump doações de comprimidos de cloroquina, que não foram utilizados nos Estados Unidos?

Para responder a estas questões, o jornalista Joaquim de Carvalho, um dos maiores repórteres investigativos do País, irá a campo para produzir uma grande reportagem sobre o tema. Joaquim entrevistará cientistas, técnicos em saúde, parlamentares e representantes da indústria farmacêutica, envolvidos na produção de cloroquina e também de vacinas, que seriam a saída mais eficiente no combate à Covid-19. Representantes dos conselhos de medicina também serão ouvidos. O documentário entrevistará ainda familiares de vítimas do tratamento precoce, ou seja, pessoas que perderam seus entes queridos após a ingestão de remédios ineficazes.

Os interesses econômicos em torno da cloroquina serão também desvendados. Ao mesmo tempo em que Jair Bolsonaro mentia sobre a cloroquina (ou hidroxicloroquina), um dos fabricantes do remédio no Brasil, a Apsen, que obteve empréstimos do BNDES, aumentava o seu faturamento. As vendas de cloroquina ajudaram o laboratório a alcançar uma receita recorde em 2020, em torno de R$ 1 bilhão, o que representou alta de 18% em relação ao ano anterior. Bolsonaro correu atrás de um ema, no Palácio da Alvorada, com cápsulas de cloroquina por ser incapaz ou porque defendia interesses privados?

No caso do laboratório, o dono da empresa, Renato Spallicci, é militante bolsonarista na rede social. E Bolsonaro apareceu em mais de uma oportunidade exibindo caixa do medicamento com a marca da empresa, inclusive num encontro com líderes do G-20. Outros laboratórios que produzem o medicamento também tiveram aumento expressivo em suas vendas, como a EMS. Um fabricante francês de cloroquina, o laboratório Sanofi-Aventis, autorizado pela Anvisa a vender o remédio no Brasil, também foi prestigiado pela família Bolsonaro. O filho Eduardo publicou uma foto em que Donald Trump, então presidente dos EUA, segurava uma caixa do medicamento. Detalhe: Trump é acionista da empresa.

Orçamento do financiamento coletivo

Joaquim de Carvalho, que realizou o documentário da TV 247 sobre Walter Delgatti, terá em sua equipe a experiente jornalista Denise Assis, que já atuou na produção de diversas reportagens investigativas, e do cinegrafista Eric Monteiro. Os recursos arrecadados serão utilizados para custear as viagens, o deslocamento para as entrevistas e todo o trabalho de edição do documentário, que não terá fins lucrativos. Em nome da TV 247, agradecemos antecipadamente pelo apoio de todos os internautas, que terão seus nomes divulgados como patrocinadores do filme. Apoie neste link: catarse.me/cloroquina.

 

06
Mai21

Renan Calheiros quer "Capitã Cloroquina" na CPI da Covid

Talis Andrade

A secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro

 

247 - O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), apresentou um requerimento para convocar a secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como "Capitã Cloroquina".

O parlamentar anunciou o requerimento quando o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, respondia perguntas sobre cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra a Covid-19 defendido por Jair Bolsonaro.

Em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF-AM), a dirigente afirmou ter sido responsável pelo planejamento e organização de viagem a Manaus para difundir o uso do remédio.

Na sessão, Calheiros perguntou a Queiroga se o ministro foi pressionado a adotar protocolo de uso da cloroquina em estados e municípios. 

"Eu não autorizei distribuição de cloroquina na minha gestão. Eu não tenho conhecimento de distribuição de cloroquina na minha gestão", repetiu.

Documentos públicos apontaram que Pazuello sabia do cenário crítico sobre o sistema de saúde em Manaus oito meses antes de ser constatada a falta de oxigênio em hospitais da capital.

Mayra Pinheiro confessou ao Ministério Público Federal (MPF)  ter sido a responsável pelo planejamento e organização de viagem a Manaus para difundir o uso de remédios sem eficácia científica comprovada contra a Covid-19. A visita de médicos e técnicos comandados pela Capitã Cloroquina aconteceu dias antes de o sistema de saúde amazonense entrar em colapso, no mês de janeiro. A informação foi publicada pelo jornal O Globo

"Todas as atividades que foram demandadas inicialmente foram feitas por mim porque foi delegada essa competência pelo ministro da Saúde (Eduardo Pazuello). Nós fizemos uma série de ações que foram planejadas inicialmente por mim. Uma delas foi de levar os médicos voluntários (às unidades de saúde)", disse ela ao Ministério Público no Amazonas. 

Além do MPF-AM, a CPI da Covid, no Senado, apura a promoção de medicamentos sem eficácia e as ações do Ministério da Saúde antes e durante o colapso em Manaus. Um requerimento pediu a convocação de Mayra para testemunha na CPI da Covid.

Nessa quarta-feira (5), o ex-ministro Nelson Teich disse na Comissão Parlamentar de Inquérito que membros do governo Jair Bolsonaro faziam lobby pelo uso da cloroquina contra a Covid-19.

Mayra é uma das seis pessoas que respondem a uma ação por improbidade administrativa movida pelo MPF-AM por conta da ação dos governos estadual e federal durante a crise no sistema de saúde do estado. Também são alvos da ação o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o ex-secretário-executivo da pasta Élcio Franco, entre outros. 

Colapso na capital amazonense

Documentos públicos apontaram que Pazuello sabia do cenário crítico sobre o sistema de saúde em Manaus oito meses antes de ser constatada a falta de oxigênio em hospitais da capital.

A Advocacia-Geral da União (AGU) também havia informado ao Supremo Tribunal Federal que o governo federal sabia do iminente colapso do sistema de saúde no Amazonas 10 dias antes da crise

Em outra manifestação, o procurador da República Igor Spindo disse que a causa principal para que o oxigênio faltasse para pacientes de coronavírus em Manaus na última semana foi a interrupção do transporte deste insumo pela Força Aérea Brasileira (FAB)

06
Mai21

Os sete pecados capitais do governo Bolsonaro que a CPI já confirmou, segundo parlamentares da oposição

Talis Andrade

por Octavio Guedes /GloboNews
 
- - -

Os depoimentos dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich deram a certeza a senadores da CPI da Covid de que o governo Bolsonaro tinha um Ministério da Saúde paralelo que boicotava as ações de distanciamento e o uso de máscaras. Além, obviamente, de sabotar a autoridade dos dois ministros.

A principal meta desse ministério, que agia nas sombras, era acelerar a contaminação, explica o ex-ministro Mandetta. "O objetivo era alcançar a sonhada imunidade de rebanho o mais rapidamente possível. Daí, o incentivo a aglomerações", explica Mandetta.

pzuello caiu fora.jpg

Os parlamentares de oposição apontaram ao blog os sete pecados capitais já confirmados pelos depoimentos:

  1. O Ministério "Paralelo" de Saúde não era um mero órgão de aconselhamento. Produzia documentos, como a proposta de alteração da bula da cloroquina, e determinava a produção da droga pelo Exército, sem passar pelo ministro de direito, Nelson Teich.
  2. O presidente Bolsonaro teve acesso a todas as informações sobre o os cuidados que deveriam ser tomados, foi alertado mais de uma vez sobre a gravidade da pandemia e do perigo de seguir o caminho que havia decidido. Ignorou todos os alertas. Preferiu ouvir o ministério paralelo. Não foi ignorância. Foi decisão. Foi projeto.
  3. O ministério paralelo virou, finalmente, o ministério oficial com a posse de Pazuello.
  4. O governo Bolsonaro teve três ministros (está no quarto) e apenas uma vacina para chamar de sua: a da AstraZeneca. Mandetta nada podia fazer porque não havia vacina no tempo em que foi ministro. Teich revelou que, na sua curta gestão, autorizou a AstraZeneca a fazer testes no Brasil em troca de prioridade em uma futura compra. A CPI quer entender o que aconteceu depois disso. Uma pista: a gestão Pazuello recusou oficialmente 11 ofertas de vacinas.
  5. Não é só birra ou guerra ideológica com a China. Existe um ato de ofício. Mandetta foi avisado que o embaixador da China não poderia pisar no Palácio para tentar destravar a importação de equipamentos e de medicamentos.
  6. O Brasil vive no regime da "filhocracia". Os zeros à esquerda de Bolsonaro participam de reuniões onde são tomadas importante decisões.
  7. A tropa de choque do governo é uma espécie de "zap da família" . Tá cheio de "tiozão da cloroquina", aquele que fala bobagem com pose de donos da verdade.
04
Mai21

Pazuello vai passear sem máscara no shopping e não pode vir à CPI?

Talis Andrade

Senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) e o ex-ministro Eduardo Pazuello

 

247 - A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) ironizou a fuga do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que afirmou ter tido contato com pessoas suspeitas de Covid-19 e, por isso, não vai depor na CPI da Covid. O depoimento estava marcado para esta quarta-feira (5). 

"Anda sem máscara e não pode vir à CPI", disse a parlamentar, pedindo a palavra. "Presidente Omar (Aziz), só lembrando exatamente isso, né? Vai sem máscara pro shopping e não pode vir à CPI", acrescentou.

A Comissão Parlamentar de Inquérito ouve nesta terça-feira (4) os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. 

Pazuello havia dito ao atual ministro, Marcelo Queiroga, na passagem do cargo no dia 24 de março, que parlamentares pediram “um pixulé” (dinheiro) na pasta no fim de 2020. O ex-ministro afirmou que uma “carreata de gente pedindo dinheiro politicamente” teria batido às portas do Ministério. Um dos objetivos da CPI seria revelar quem pediu dinheiro.
 

pazuello com mascara.jpg

30
Abr21

Falta alguém em Nuremberg

Talis Andrade

mortos  covid.jpg

 

 

por Alex Solnik

- - -

O título do conhecido livro do jornalista David Nasser – “Falta alguém em Nuremberg” - me veio à cabeça depois de assistir à sessão de hoje da CPI da Covid.

O subtítulo “Torturas da Polícia de Filinto Strubling Muller” também vem a calhar.

O caso é que, como foi anunciado hoje, as oitivas da CPI vão começar na semana que vem: terça-feira, Mandetta e Teich; quarta, Pazuello; quinta, Queiroga e Antônio Barra Torres. Todos como testemunhas, não investigados.

O presidente da CPI, Omar Aziz, gosta de repetir que não serão investigadas pessoas, e sim fatos, mas isso é impossível, porque os fatos não acontecem por vontade própria, as pessoas é que os produzem.

Mas ele tem razão ao dizer que não é a CPI que julga os responsáveis, não se trata de um tribunal.

É ela, porém, que fornece os fatos potencialmente criminosos, por meio de informações de vários órgãos do governo e dos depoimentos das testemunhas.

As testemunhas não são investigadas, mas podem ser até presas em flagrante se faltarem com a verdade.

Eu sei que a constituição não permite à CPI convocar para depor presidente da República, mas nesse caso seria imprescindível porque por trás de cada depoimento de cada ministro da Saúde há uma pessoa em comum: Bolsonaro.

O governo só teve ministro da Saúde enquanto Mandetta comandava; quando foi demitido quem assumiu foi o próprio Bolsonaro, porque a condição para ser ministro era obedecer às suas diretrizes e não às da OMS. Teich rejeitou a cloroquina e caiu. A exceção foi Pazuello: obedecia a Bolsonaro de olhos fechados (“um manda, outro obedece”), mas foi derrubado pelo escândalo da falta de oxigênio em Manaus.

bolsonaro mais de 400 mil mortos.jpg

 

Bolsonaro deveria ser convocado a depor como testemunha. Se prestasse falso testemunho – o que costuma fazer dia sim, outro também – sairia algemado.

A CPI vai, de qualquer modo, redundar num julgamento no final.

Se estivesse vivo, David Nasser poderia escrever um novo livro com o mesmo nome: “Falta alguém em Nuremberg”.

Com novo subtítulo: “Torturas da Política de Bolsonaro"Capa do jornal Folha de Pernambuco 30/04/2021

Capa do jornal Jornal do Commercio 30/04/2021
 
Capa do jornal O Povo 30/04/2021
Capa do jornal Metro Jornal São Paulo 30/04/2021
29
Abr21

Brasil chega a 400 mil mortes por Covid-19

Talis Andrade
Vista aérea de cemitério em Manaus
Vista aérea de cemitério em Manaus (Foto REUTERS /Bruno Kelly)

 

O Brasil, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, é o segundo país com mais óbitos causados pela Covid-19 e, para piorar, não consegue acelerar o processo de imunização da população: somente 14,52% da população recebeu ao menos a primeira dose

16
Mar21

Caos, omissão e explosão de mortes: o legado de Pazuello na Saúde

Talis Andrade

tirinha pazuelo bode.png

 

 

Em dez meses à frente do ministério, general obedeceu cegamente ordens de Bolsonaro que contrariavam a ciência, tentou esconder número de óbitos pela covid-19 e falhou em garantir vacinas suficientes para o país

 

por Jean-Philip Struck /DW

"Senhores, é simples assim: um manda e o outro obedece", sintetizou o general Eduardo Pazuello em outubro de 2020 sobre seu papel, após ser desautorizado publicamente por Jair Bolsonaro numa rara ocasião em que tomou uma iniciativa que contrariava a visão do presidente sobre a pandemia. No caso, um anúncio de compra pelo Ministério da Saúde de doses da Coronavac, vacina contra a covid-19 promovida pelo governo de São Paulo, que foi tratada inicialmente com desprezo por Bolsonaro.

Nos dez meses à frente da pasta – quatro como interino, seis como efetivado –, Pazuello, um general da ativa, acabou se destacando mesmo por obedecer ordens sem apresentar questionamentos – incluindo ordens que contrariavam o consenso científico e boas práticas de gestão.

Sem qualquer experiência na Saúde, Pazuello chegou a afirmar em outubro que "nem sabia o que era SUS". Sua gestão também acabaria por ser marcada por omissões trágicas durante a pandemia, inabilidade e erros básicos de administração, apesar de o general ter sido inicialmente promovido pela máquina de propaganda do governo como um "especialista em logística".

Mas um técnico experiente não era o que Bolsonaro procurava para ocupar o cargo em maio de 2020, quando a pandemia já avançava com força no país. Antes mesmo de assumir a pasta, Pazuello atuava como secretário-executivo do ministério. Na prática, era um representante político de Bolsonaro na Saúde.

Depois, na chefia da pasta, o general não fez questão de se cercar de especialistas, preferindo entregar dezenas de cargos-chave para outros militares e ser aconselhado por figuras como o dono de uma rede de cursinhos de inglês e um marqueteiro que se apresenta como "palestrante motivacional e hipnólogo".

O resultado: quando Pazuello assumiu o ministério em 16 de maio, o Brasil acumulava 233 mil casos e 15.633 mortes associadas à covid-19. Na segunda-feira (15/03), quando o substituto do general foi anunciado, o número de casos passava de 11,5 milhões, e o de mortes se aproximava de 280 mil, com o país ocupando o segundo lugar entre as nações com mais óbitos na pandemia.

Na última semana, o país começou a registrar marcas diárias de mortes superiores a 2 mil. A expansão da testagem há muito tempo foi deixada de lado. Recomendações de distanciamento social despareceram das propagandas do ministério.

Já a principal ferramenta para superar a crise, a vacinação, caminha a passos lentos. Por meses, Pazuello e sua equipe ignoraram ofertas de laboratórios, preferindo apostar numa arriscada estratégia de produção local de apenas um tipo de vacina, desenvolvida pela AstraZeneca, que vem sendo envasada em ritmo lento e se deparando com problemas de importação de insumos. Sem vacinação ou estratégia unificada de combate à pandemia, o Brasil virou nos últimos meses um celeiro para novas variantes mais contagiosas do vírus, levando especialistas a afirmarem que o país é uma ameaça global.

pazuello_demissao.jpg

 

Expansão da cloroquina

Após a queda de dois ministros em sequência – Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, dois médicos que resistiram a adotar as orientações negacionistas –, Pazuello assumiu o posto colocando imediatamente em prática aquela que era então a principal bandeira do governo: a expansão do chamado "tratamento precoce", especialmente a cloroquina.

O remédio foi apontado em estudos como ineficaz contra a covid-19, e mesmo assim foi adotado por Bolsonaro como instrumento para tranquilizar a população e incentivar a volta ao trabalho, com o bônus de servir de ferramenta para atacar críticos da estratégia negacionista do governo, que poderiam ser pintados falsamente como "torcedores do vírus" quando apontassem a ineficácia do tratamento.

Quatro dias após a saída de Teich, o ministério, já sob a caneta de Pazuello, publicou um novo protocolo de expansão do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com covid-19. Era só o início.

Com Pazuello, o Brasil recebeu 3 milhões de comprimidos de cloroquina dos Estados Unidos. Recursos do SUS foram alocados para distribuir outras doses do remédio pelo país. Nesse período, o Exército brasileiro já era sócio na empreitada, produzindo mais de 3 milhões de comprimidos ao longo de 2020. Em outubro, Pazuello também se tornou pessoalmente um garoto-propaganda da cloroquina, ao afirmar que estava tomando o remédio após ser infectado com o coronavírus.

Em janeiro de 2021, enquanto os hospitais de Manaus enfrentavam mais um colapso, Pazuello viajou à capital do Amazonas para lançar um aplicativo que estimulava o consumo de cloroquina e de outros itens do tratamento bolsonarista. Batizado como TrateCov, o app recomendava altas doses de cloroquina até mesmo para bebês. Diante da má repercussão, o aplicativo foi tirado do ar. Ainda assim, a fé na cloroquina persistiu. Em fevereiro, o ministério abriu um novo edital para comprar mais doses do remédio.

Mesmo tendo incentivado o uso do medicamento por mais de sete meses, Pazuello disse agressivamente para uma jornalista que nunca havia recomendado a cloroquina. A mentira coincidiu com um pedido de explicações do Tribunal de Contas da União, que apontou indícios de ilegalidade na utilização de recursos do SUS para distribuir um tratamento ineficaz.

Colapso em Manaus

Ainda em janeiro, ao mesmo tempo em que os hospitais de Manaus estavam sobrecarregados, Pazuello e outros membros do ministério pressionaram a prefeitura local a distribuir mais medicamentos ineficazes. Paralelamente, a pasta ignorou sinais de que a cidade estava sofrendo com desabastecimento de oxigênio nos hospitais. A omissão resultaria na morte de dezenas de pacientes por asfixia.

O caso acabou rendendo uma investigação contra Pazuello no Supremo Tribunal Federal (STF). O general apresentou diferentes versões para o caso, dando declarações contraditórias sobre quando a pasta teria tomado conhecimento dos problemas em Manaus. Pazuello chegou a informar três diferentes datas sobre quando teria sido informado sobre a escassez de oxigênio. Na primeira versão, apontou que foi em 8 de janeiro. Na última, 17 de janeiro, convenientemente depois do colapso, que ocorreu a partir do dia 14.

Com a saída de Pazuello, a investigação deve ser remetida para a primeira instância, já que o general não vai mais contar com foro especial.

Mesmo após a tragédia em Manaus, Pazuello seguiu na mesma linha de negar problemas. Na quarta-feira passada, ele afirmou que "o sistema de saúde está muito impactado, mas não colapsou, nem vai colapsar", mesmo diante dos sinais de estrangulamento da rede de UTIs em dezenas de capitais e grandes cidades.

Falta de transparência

Em um dos lances mais graves da gestão Pazuello, o Ministério da Saúde passou a esconder os números da pandemia em junho de 2020. Em maio, o Ministério da Saúde já havia deixado de publicar nas redes sociais os boletins diários. O último foi publicado um dia antes de o país superar pela primeira vez a marca de mil mortes em 24 horas. Pouco depois, os boletins publicados no site da pasta e disponibilizados para a imprensa começaram a sair cada vez mais tarde. Os releases também passaram a usar uma linguagem otimista, destacando supostos números de curados, e empurrando os dados negativos para parágrafos posteriores.

O próximo passo foi vandalizar a página que concentra os dados da pandemia, promovendo um sumiço dos números totais de mortes e casos, e destacando um número de curados em caracteres garrafais. O caso provocou um escândalo e a intervenção do STF, que ordenou que todos os dados voltassem ao ar. O ministério obedeceu, mas continuou a usar a linguagem otimista em sua comunicação, passando a replicar nas redes sociais publicações do Planalto que exibiam um "Placar da Vida", que incluía apenas o número de infectados, recuperados e "em recuperação", sem mencionar o número de mortos pela doença.

Com Pazuello, as coletivas de imprensa, que eram diárias na época de Mandetta, também se tornaram uma raridade. O general passou a somente convocar a imprensa quando queria fazer um anúncio positivo, especialmente sobre as tratativas da pasta para comprar vacinas, ignorando por completo esclarecimentos sobre o avanço da doença.

Vacinas: promessas não cumpridas e previsões furadas

Em junho, o governador de São Paulo, João Doria, um desafeto do presidente, anunciou uma parceria com a empresa chinesa Sinovac para produzir a vacina que mais tarde seria batizada de Coronavac. Pouco mais de um mês depois, seria a vez de Bolsonaro assinar um acordo com a empresa anglo-sueca AstraZeneca para a produção de vacinas, em parceria com a Fiocruz.

Na contramão de quase todos os países do mundo, o Ministério da Saúde se comprometeu inicialmente com apenas uma vacina, e não com um leque diversificado como ocorreu, por exemplo, nos Estados Unidos, país que conta atualmente com o maior número de vacinados do mundo.

Contatos com a americana Pfizer no segundo semestre não despertaram o interesse de Pazuello. Desde o primeiro momento, o general e outros militares da pasta deixaram claro que desejavam apenas fazer negócios com laboratórios que permitissem a fabricação de vacinas em território brasileiro, com transferência de tecnologia, seguindo um antigo modelo que foi bastante difundido durante o regime militar (1964-1985).

Propostas da Pfizer e outros laboratórios não incluíam essas cláusulas. No entanto, no caso do laboratório americano, a entrega poderia ter começado já em dezembro. Uma das propostas, apresentada em setembro, previa a oferta de 70 milhões de doses, sendo que três milhões poderiam ter chegado até fevereiro. Até o momento, nem uma dose da vacina AstraZeneca produzida no Brasil foi entregue.

Após fechar apenas com a AstraZeneca, o ministério não selou novos contratos para a aquisição de vacinas por cinco meses.

No período, Bolsonaro passou a alimentar temores infundados sobre o uso de imunizantes, especialmente a Coronavac, e continuou a promover a cloroquina. Em agosto e setembro, mesmo com a pandemia avançando, o ministério de Pazuello direcionou esforços para a implementar temas caros aos apoiadores de Bolsonaro, como a publicação de uma portaria para dificultar procedimento de aborto nos casos em que a gravidez ocorre em decorrência de estupro. 

No segundo semestre: houve apenas uma ocasião em que o ministro e o presidente se estranharam. Em outubro, Pazuello, aparentemente por iniciativa própria, anunciou um acordo com São Paulo para adquirir 46 milhões de doses da Coronavac. No dia seguinte, foi obrigado a voltar atrás por ordem de Bolsonaro. "Um manda e o outro obedece." Mesmo com a humilhação pública, ele decidiu permanecer no posto.

Pressão

A letargia só começou a ser rompida em dezembro, diante do progresso na elaboração do plano de imunização paulista. Pazuello finalmente manifestou interesse pela vacina da Pfizer, mas logo criaria problemas com a farmacêutica, afirmando que as cláusulas do contrato eram "leoninas", ainda que dezenas de países tenham aceitado os termos. Em janeiro, o ministério chegou a atacar publicamente a empresa, após a Pfizer divulgar que o governo havia ignorado suas propostas anteriores.

Com a pressão aumentando, Pazuello também começou a multiplicar anúncios contraditórios e promessas que logo eram desmentidas. Afirmou que a vacinação poderia começar em dezembro com doses da Pfizer, mesmo depois de a empresa dizer que não poderia mais fornecer nenhuma dose naquele mês. Em um espaço de dias, ele ainda lançou datas como janeiro, fevereiro ou março para o início da vacinação. "A vacina vai começar no dia D, na hora H no Brasil", disse, no início de janeiro, numa fala que acabaria simbolizando a falta de organização da sua gestão.

Ainda em dezembro, Pazuello finalmente apresentou um plano nacional de imunização, após pressão do STF. Mas o documento era vago, sem datas e com informações incompletas sobre protocolos de segurança, e contabilizava vacinas que nunca seriam compradas. Cientistas que foram citados como colaboradores reclamaram que nunca tinham visto o documento.

Paralelamente, a única aposta do governo, a produção de doses da vacina da AstraZeneca no Brasil, passou a sofrer com atrasos. Mesmo assim, Pazuello continuou a apresentar números otimistas. Em dezembro, afirmou que o Brasil teria 15 milhões de doses da AstraZeneca, mesmo com a Fiocruz apontando um dia antes que a entrega só ocorreria a partir de fevereiro – e elas acabariam por ficar para a segunda metade de março. "Para que essa ansiedade, essa angústia?", disse, após críticas pela lentidão.

Mas seria Pazuello que começaria a ficar angustiado diante da pressão por vacinas. No final de 2020, o general e outros membros do governo lançaram uma atrapalhada operação para importar algumas doses prontas da Índia, um golpe publicitário para tentar superar o governo paulista. Mas a carga acabou atrasando e, no final, a corrida pela vacina foi vencida por Doria, que iniciou a vacinação em São Paulo no dia 17 de janeiro. No mesmo mês, o governo finalmente capitulou e fechou acordo para comprar a Coronavac. Até o momento, 13 milhões de doses foram aplicadas no Brasil, a maior parte consiste em vacinas da Sinovac.

mascara no rambo.jpg

 

A queda

Mesmo passando a liderar uma campanha mínima de vacinação graças à iniciativa de São Paulo, a pasta de Pazuello continuou a errar por conta própria. Em fevereiro, o ministério liderado pelo "especialista em logística" cometeu um engano que também se tornaria um símbolo de desorganização.

Na ocasião, o estado do Amazonas esperava receber 78 mil vacinas, mas chegaram apenas 2 mil. Já o Amapá, com população bem menor, deveria receber 2 mil, mas obteve 78 mil, escancarando que o ministério havia confundido os dois estados do Norte.

Antes disso, Pazuello já havia sido criticado por não comprar seringas com antecedência e deixar milhões de testes não utilizados perderem a validade em depósitos. Pressionado por seus aliados do Centrão e finalmente adotando uma postura pró-vacina em reação à volta do ex-presidente Lula ao cenário político, Bolsonaro acabou entregando a cabeça de Pazuello no último fim de semana.Na segunda-feira, em uma espécie de coletiva de imprensa de despedida, Pazuello fez um balanço da sua gestão e disse: "Hoje, o Brasil pode se orgulhar de ter um governo que apresenta, com transparência e em tempo real, todas as ações com detalhamento". Na mesma noite, o número total de mortes chegou a 279.286. Ainda na coletiva, numa fala que lembrou sua previsão vaga sobre o "Dia D" da vacinação, o general disse que poderia sair do cargo "em médio, curto ou longo prazo". Poucas horas depois, Bolsonaro anunciou seu substituto.

novo ministro.jpg

 

15
Mar21

O descarte do general Pazuello

Talis Andrade

 

por Maíra Mathias e Raquel Torres /Outra Saúde

 

Quando o general da ativa Eduardo Pazuello assumiu interinamente o Ministério da Saúde, no dia 15 de maio, o Brasil registrava pouco menos de 15 mil mortes na pandemia. Dez meses depois, estamos chegando à marca das 280 mil vidas perdidas para o coronavírus. O pano de fundo da saída de Nelson Teich e da demissão de Luiz Henrique Mandetta foi basicamente o mesmo: a pressão de Jair Bolsonaro em prol da defesa de uma panaceia, a cloroquina, e da livre circulação de vírus e pessoas. O general assumiu o cargo para cumprir essas ordens. Ao longo da gestão, cumpriu outras mais, sendo o episódio da volta atrás na aquisição da CoronaVac o mais humilhante. Justamente porque obedeceu aos desmandos do presidente, Pazuello agora será descartado por um Bolsonaro em busca de um novo figurino político que o dissocie do caos sanitário que ele ativamente promoveu.

E neste novo figurino as vacinas ganharam centralidade. A postura vacilante de Pazuello nunca foi segredo, mas a mudança de cronograma cinco vezes em uma semana – e, principalmente, o ofício entregue ao Congresso onde ainda constava um número desatualizado de doses de vacina para março e sua afirmativa de que não havia alteração na previsão – foi a brecha que faltava para que o Planalto fosse convencido a fazer a substituição. 

A movimentação partiu do Centrão e ganhou corpo ainda na sexta-feira. No sábado, o assunto foi tratado entre Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), no Palácio do Alvorada. A partir da reunião, Lira fez chegar à imprensa sua avaliação: Pazuello teria ‘perdido o rumo’ – e também a “confiança mínima” da sociedade para liderar a pasta. Bolsonaro, é claro, não tinha nada com isso.

Naquela noite, Bolsonaro se reuniu com o próprio Pazuello no hotel de Trânsito do Exército, onde o general mora. Acompanharam a conversa outros militares do primeiro escalão: Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Fernando Azevedo (Defesa).  Eles deixaram o local sem dar declarações à imprensa.

No domingo, porém, começaram a pipocar as reportagens com ‘fontes próximas ao Planalto’ que tentavam emplacar uma mentira tão descarada que só pode ter saído da cabeça de um militar. Segunda essa história ouvida por O Globoo próprio Pazuello teria pedido para deixar o cargo para tratar da saúde – de modo que sua substituição não tinha nada a ver com a pressão do Centrão ou com o grau de deterioração na condução da pandemia. Ao Valor, um militar com mais respeito à inteligência alheia afirmou que a saída do general se daria “em prol da unidade com o Legislativo”.

O zum-zum-zum provocou uma resposta engraçada do Ministério da Saúde. Em nota divulgada à imprensa na tarde de domingo, a pasta afirmou que “até o presente momento” Pazuello seguia no comando do ministério. Partiu de Markinho Show, o marqueteiro de Pazuello, uma declaração menos vaga. “Não estou doente, não entreguei o meu cargo e o presidente não o pediu, mas o entregarei assim que o presidente solicitar. Sigo como ministro da saúde no combate ao coronavírus e salvando mais vidas”, escreveu o assessor no Twitter, atribuindo as aspas ao general.

A aliados, Jair Bolsonaro informou que pretende escolher o substituto de Pazuello na manhã de hoje.

QUEM SERÁ?

No domingo, o presidente recebeu uma candidata à ministra: a cardiologista Ludhmila Abrahão Hajjar. Atendendo na rede de hospitais Vila Nova Star, ela tratou das infecções de covid-19 de uma longa lista de autoridades: o procurador-geral da República, Augusto Aras, o ministro Fábio Faria, das Comunicações, o ministro Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, o ministro Dias Toffoli quando presidia o Supremo, e também os ex-presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. Além disso, ela foi médica do próprio Eduardo Pazuello e… atendeu o atual presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira.

Segundo diversos veículos, o líder do Centrão teria apontado nomes do seu próprio partido, o PP, mas estaria fazendo campanha em favor de Ludhmila, tendo sido responsável por essa sugestão ainda na manhã de sábado.

“O enfrentamento da pandemia exige competência técnica, sem dúvida nenhuma. Mas exige ainda mais uma ampla e experiente capacidade de diálogo político, pois envolve todos os entes federativos, o Congresso, o Judiciário, além do complexo e multifacetado Sistema Único de Saúde”, escreveu Lira no Twitter, dando a entender que preferia a indicação de Ricardo Barros (PP-PR), Hiran Gonçalves (PP-RR) ou de seu amigo pessoal Dr. Luizinho (PP-RJ) – os políticos cotados. Depois, ele usou seu perfil para elogiar a médica e dizer que “torce” para que, “caso nomeada ministra, consiga desempenhar bem as novas funções”.

Não dá para saber se a aposta de Lira no nome da médica faz parte de uma estratégia para não parecer que o partido está indo com muita sede ao pote. O fato é que depois de conversar por três horas com Bolsonaro, Ludhmila Abrahão passou a ser atacada pelos apoiadores do presidente nas redes sociais.

Isso porque a médica criticou a condução do governo federal da pandemia em entrevista ao jornal Opção, de Goiás, afirmando que o país fez tudo errado, que a cloroquina não funciona, que deveríamos ter comprado uma variedade maior de vacinas e que faltou coordenação para a adoção de medidas que pudessem frear as transmissões. Além disso, desenterraram um vídeo em que ela elogia Dilma Rousseff e a chama de “presidenta”. Por fim, Bolsonaro teria recebido um áudio atribuído a Ludhmila no qual ela o teria chamado de “psicopata”

Diante de toda essa campanha, Lira manteve a sinalização em apoio à indicação da cardiologista, dizendo que ela “vai ser ponte de todos os Poderes e setores” e “contará 100 %” com ele. Segundo a coluna Painel, outros líderes partidários também estavam incidindo no Planalto para defendê-la dos ataques.

Outro médico aparece cotado para o Ministério da Saúde: Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia que foi indicado por Jair Bolsonaro para assumir um cargo de diretor na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Queiroga participou da transição do governo. Em entrevista à Folhaele disse que o presidente conhece seu trabalho.

COMO FICA?

Com a saída do Ministério da Saúde, Pazuello vai perder o foro privilegiado. Com isso, o inquérito que apura sua responsabilidade na crise da falta de oxigênio em Manaus deixará o Supremo. Segundo a Folhaa tendência é que seja remetido à Justiça Federal do DF

DÉJÀ VU

Há exatos dois meses, a crise do oxigênio levava o sistema de saúde de Manaus ao seu segundo colapso na pandemia. O problema foi muito pior do que em abril e maio. Na primeira onda, o dia 15 de maio foi o que teve maior número de óbitos, com 79 registros. É verdade que cerca de 200 mortes ocorridas ao longo desses dois meses foram não-especificadas inicialmente e depois reclassificadas para covid-19 – mas, mesmo assim, o total não chega nem perto do pico de 183 óbitos registrados apenas no dia 30 de janeiro. 

Agora, a chance de o mesmo acontecer em outras partes do Brasil é cada vez mais palpável. Na sexta-feira, representantes da indústria química se reuniram com a Anvisa e definiram como “preocupante” a oferta de oxigênio em todo o país. A Anvisa determinou que os fabricantes de oxigênio medicinal devem mantê-la informada sobre estoques, enviando semanalmente informações sobre capacidade de produção, envase e distribuição.

A região mais complicada continua sendo a Norte: Acre e Rondônia são os estados com maior risco de desabastecimento. Mas, no Sul, o Paraná já está enfrentando problemas. Segundo a secretaria de saúde do estado, o problema não está na produção, mas na disponibilidade de cilindros para que a reposição seja feita no tempo necessário. 

AGORA MESMO

Uma falta generalizada de oxigênio agravaria a crise, mas de todo modo ela segue recrudescendo sem alívio no país. A Folha analisou municípios com mais de cem mil habitantes e comparou a semana com mais mortes em dois períodos: entre março e outubro; e entre novembro e agora. Em 190 das cidades (mais de metade delas), a segunda onda está mais letal do que a primeira. E, em 50 (ou 15% do total), o pico agora é pelo menos 80% maior que o anterior. Tem mais: quase 70% dessas grandes cidades estão em estágio acelerado (com rápido crescimento nos casos) ou estável (com crescimento estagnado, mas em um patamar alto). 

Ontem houve registro de 1.111 novas mortes e uma média móvel que, pelo 16º dia consecutivo, bateu recorde: está em 1.832. O número representa um crescimento de 50% em relação a duas semanas atrás, e os três estados com pior aumento são Goiás (197%), Rio Grande do Sul (132%) e Tocantins (104%). Goiás e Rio Grande do Sul estão com todas as UTIs ocupadas e com filas de espera – no RS, aliás, isso já dura mais de dez dias. Goiás está quase lá, com 93% de ocupação.

Ainda segundo a Folha, nove em cada dez grandes cidades da região Sul bateram recorde de óbitos em uma única semana, e a diferença entre os picos é brutal. Em Chapecó (SC), exemplo extremo, o recorde anterior da média móvel era de um óbito por dia em setembro. Na última semana de fevereiro, a média diária passou para 13.

O Hospital de Clínicas de Porto Alegre informou ontem o fechamento de sua emergência para covid-19, com 132% de ocupação. Neste fim de semana a cidade teve fila até em um cartório, com pessoas em busca de certidões de óbito

Mas, ontem, apoiadores de Jair Bolsonaro se reuniram em várias capitais para protestar contra medidas restritivas em várias capitais, inclusive na região Sul. Em Curitiba, houve ameaças de invasão e de “fogo na prefeitura”, e as manifestações em espaços públicos acabaram sendo proibidas pela Justiça. Mesmo assim, teve carreata. Em São Paulo, os gritos eram contra as restrições, contra o governador João Doria (PSDB), contra o ex-presidente Lula e, claro, pela intervenção militar. “São Paulo está sendo governado por um psicopata”, dizia uma faixa carregada pela Avenida Paulista… Também houve manifestações em Brasília, Rio, Niterói, Belo Horizonte, Campinas e Teresina.Image

Em tempo: desde o começo da pandemia, pelo menos 72 pessoas morreram por covid-19 antes de conseguirem transferência para um leito de UTI, segundo a Folha. Isso é mais de um quarto de todos os mortos pela doença. 

JOVENS E IDOSOS

Embora as hospitalizações tenham crescido 10% no país desde o fim de janeiro, elas caíram 20% para os idosos acima de 90 anos. Os números, calculados pelo Estadão, vêm acompanhados de uma pergunta: poderíamos estar diante do primeiro impacto da campanha de imunização? É cedo para dizer – na reportagem, especialistas lembram que são necessárias de três a seis semanas para conferir a proteção total demonstrada pelos ensaios clínicos. Porém, antes desse prazo, é possível que alguma proteção seja alcançada. 

“Esse dado, ainda que preliminar, confirma estudos de efetividade feitos em países com vacinação mais acelerada e que viram quedas nas mortes e hospitalizações. São resultados da vida real que mostram que a vacina funciona”, diz Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.

Seja como for, os números confirmam que os mais jovens estão puxando as novas internações para cima. Considerando idosos de todas as idades (isto é, acima de 60 anos), houve queda de 2,7% no período. Enquanto isso, as hospitalizações de pessoas entre 30 e 39 anos subiu 50%.

Algumas reportagens têm citado médicos que, de maneira informal, sugerem uma possível relação entre esse fenômeno e o espalhamento de novas variantes, como a P.1: elas poderiam oferecer maior risco para crianças, adolescentes e jovens adultos. Mas é preciso lembrar que não há, ainda, evidências que apontem para isso, porque não parece ter havido mutações que interfiram na atuação do vírus no organismo. Assim, se houver maior agressividade, ela deverá se manifestar globalmente, e não apenas em determinadas faixas etárias. A alta nas internações de jovens pode ser apenas efeito da enorme circulação dessas pessoas, muitas vezes sem proteção. Mesmo que eles sejam menos afetados pela doença, quando o número de contaminados é muito alto, consequentemente os casos graves e as mortes crescem também.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub