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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

07
Set23

O beijo

Talis Andrade

 

por Gustavo Krause

- - -

Trata-se de um dos mais expressivos gestos da espécie humana. Envolve enorme carga de afetos simbólicos e reais assim como revela múltiplos sentimentos desde suave demonstração de carinho à arrebatada manifestação de paixão carnal.

Na cultura ocidental predomina a estética do respeitoso beijo no rosto à erotização do beijo na boca ou a criativa simplificação do “selinho”, um toque labial, cujo sentido real somente a ocasião e o desdobramento da eventual relação podem desvendar.

Como fonte de inspiração, o beijo é objeto de consagradas obras de arte, a exemplo da escultura de Rodin (1840-1917) que remete ao final trágico: Francesca da Rimini (Círculo 2, Canto 50, Inferno de Dante), seu cunhado e amante Paolo, apaixonados e influenciados pela história de amor de Lancelot e Guinevere, são assassinados pelo marido Giovanni Malatesta. Detalhe: embora abraçados, os lábios dos amantes não se tocam o que sugere, interrompidos pela morte, jamais se beijaram.

Retratando, também, o beijo, é escandalosamente belo o quadro do pintor simbolista austríaco, Gustav Klimt (1862-1918). Nele, o gesto de beijar sugere uma fusão de corpos e permite identificar uma mensagem ambígua: a cumplicidade de um casal apaixonado ou a agressiva dominação masculina sobre a mulher.

No teatro e no cinema, “O beijo no asfalto” (1960) foi o tema de consagrada peça de Nelson Rodrigues e de dois excelentes filmes (1981 e 2017). Com a percepção genial para as misérias da “vida como ela é”, o autor transforma a cena de um atropelamento numa trama trágica: a vítima moribunda pede e recebe o beijo de um desconhecido – o personagem Arandir – que, por conta de uma manchete sensacionalista, passa ser acusado de assassino e homossexual. No entanto, seu maior acusador, o sogro Aprigio, ao final, se revela o verdadeiro homossexual e assassina o genro inocente por quem era apaixonado.

Narrada pelos evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, a identificação de Jesus no Getsêmani, após a última ceia, pela força policial do Sinédrio, decorreu do beijo dado por Judas. A expressão “beijo de Judas” passou a significar um ato, um gesto aparente de amizade que esconde o terrível pecado da traição.

A vasta tipologia de “beijos” foi, recentemente, acrescida por uma novidade: “o beijo padrão FIFA”, a poderosa entidade que manda e desmanda no futebol mundial. Na cerimônia de premiação das jogadoras da seleção espanhola, campeãs da nona edição da Copa do Mundo FIFA de Futebol Feminino, Luis Rubiales, Presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, em atitude imprópria, desrespeitosa e condenável beija a boca da atleta Jennifer Hermoso.

Não faltarão misóginos, enrustidos ou assumidos, que considerem as reações indignadas como “chiliques feministas”. Certamente, joga nesse time o Sr. Rubiales, que não enxerga ou não quer enxergar as conquistas das mulheres no enfrentamento da mais antiga e cruel dominação. A Hermoso jogou e venceu a Copa Feminina de Futebol (jogo de macho): é símbolo, ao lado de todas a jogadoras, exemplo de bravura na superação das desigualdades de uma luta que não terminou.

Para compensar, existe o beijo romântico que perdoa o “pecado quase crime de um beijo sem permissão”, licença poética na voz inesquecível de

Como fonte de inspiração, o beijo é objeto de consagradas obras de arte, a exemplo da escultura de Rodin (1840-1917) que remete ao final trágico: Francesca da Rimini (Círculo 2, Canto 50, Inferno de Dante), seu cunhado e amante Paolo, apaixonados e influenciados pela história de amor de Lancelot e Guinevere, são assassinados pelo marido Giovanni Malatesta. Detalhe: embora abraçados, os lábios dos amantes não se tocam o que sugere, interrompidos pela morte, jamais se beijaram.

Retratando, também, o beijo, é escandalosamente belo o quadro do pintor simbolista austríaco, Gustav Klimt (1862-1918). Nele, o gesto de beijar sugere uma fusão de corpos e permite identificar uma mensagem ambígua: a cumplicidade de um casal apaixonado ou a agressiva dominação masculina sobre a mulher.

No teatro e no cinema, “O beijo no asfalto” (1960) foi o tema de consagrada peça de Nelson Rodrigues e de dois excelentes filmes (1981 e 2017). Com a percepção genial para as misérias da “vida como ela é”, o autor transforma a cena de um atropelamento numa trama trágica: a vítima moribunda pede e recebe o beijo de um desconhecido – o personagem Arandir – que, por conta de uma manchete sensacionalista, passa ser acusado de assassino e homossexual. No entanto, seu maior acusador, o sogro Aprigio, ao final, se revela o verdadeiro homossexual e assassina o genro inocente por quem era apaixonado.

A vasta tipologia de “beijos” foi, recentemente, acrescida por uma novidade: “o beijo padrão FIFA”, a poderosa entidade que manda e desmanda no futebol mundial. Na cerimônia de premiação das jogadoras da seleção espanhola, campeãs da nona edição da Copa do Mundo FIFA de Futebol Feminino, Luis Rubiales, Presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, em atitude imprópria, desrespeitosa e condenável beija a boca da atleta Jennifer Hermoso.

Não faltarão misóginos, enrustidos ou assumidos, que considerem as reações indignadas como “chiliques feministas”. Certamente, joga nesse time o Sr. Rubiales, que não enxerga ou não quer enxergar as conquistas das mulheres no enfrentamento da mais antiga e cruel dominação. A Hermoso jogou e venceu a Copa Feminina de Futebol (jogo de macho): é símbolo, ao lado de todas a jogadoras, exemplo de bravura na superação das desigualdades de uma luta que não terminou.

23
Mar23

Roberto Campos Neto, o vassalo do mercado

Talis Andrade
 
 
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Inimigo do povo, presidente do Banco Central não tem compromisso com o desenvolvimento econômico e social, com o combate da desigualdade, nem com o Brasil

Toda a unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar” - Nelson Rodrigues

Taxa de juros no Brasil distorce situação fiscal e espanta investimentos” - Jeffrey Sachs

 

por Pedro Maciel

Introdução – A unanimidade e a certeza são vizinhas da estupidez, por isso, tentando oferecer uma outra perspectiva aos temas: (a) desenvolvimento econômico e social e (b) coordenação de políticas fiscal e monetária, o BNDES, a FIESP e o CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) realizaram um seminário; o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, dentre outras autoridades dos setores público, privado e da academia, estavam lá.  

Mediados pelo ex-presidente do BNDES, André Lara Resende, o ganhador do prêmio Nobel, Joseph Stiglitz e o prof. James Gailbraith - da Lyndon B Johnson School of Public Affairs -, expuseram sua visão sobre a coordenação de políticas fiscal e monetária como estratégias para o desenvolvimento sustentável e falaram sobre a experiência internacional e sobre os efeitos causados por diferentes formas de enfrentamento da inflação e do crescimento econômico. 

 Joseph Stiglitz lembrou que hoje há consenso nos EUA entre os partidos Democrata e Republicano, sobre a necessidade de uma política industrial capaz de fazer frente à necessidade de (a) se estabelecer o desenvolvimento da indústria e (b) promover a transição para uma economia verde; lembrou que durante a pandemia do coronavírus, os EUA lançaram mão do War Act, para induzir a fabricação de produtos impactados pela escassez ocorrida no período de lockdowns no mundo.

 Segundo Stiglitz, “As ideias econômicas centrais nos últimos 40 anos [neoliberalismo] estão sendo revistas e desacreditadas. A razão é que o crescimento esteve lento na era neoliberal e todos os benefícios gerados foram para as elites econômicas. Há 40 anos de evidências de que o neoliberalismo é segregador de riqueza. O crescimento da desigualdade torna óbvio que é necessário alternativas às políticas monetárias”, ou seja, Lula não está errado quando diz, metaforicamente, que livros de economia não servem mais, ele se refere àqueles de defendem, com perigosa certeza, o neoliberalismo.

 O ganhador do Nobel, numa educada crítica ao nosso BC, disse que se o Brasil tivesse uma política de juros racional estaria em melhor estado macroeconômico, pois, segundo ele “... juros altos afastam investimento e reduzem produtividade. O país é muito dependente de commodities e precisa de transição para uma economia (industrial) verde. (...) Juros altos são contraproducentes pois podem levar a mais inflação, aumentam o custo da dívida pública e reduzem os recursos do governo para investimentos necessários ao crescimento econômico” e concluiu dizendo que “Juros altos e austeridade aumentam o problema fiscal enquanto taxas mais baixas podem aumentar a resiliência”.  

 James Gailbraith, afirmou que uma política de juros excessivos tende a represar investimentos privados e aumentar o desemprego, o que acaba por desestimular o consumo; disse que o desenvolvimento socioeconômico deve ser promovido no médio prazo com juros mais baixos; que o Brasil poderia ter avançado mais com juros baixos, investimento alto e tributação mais justa, pois, o Brasil é um dos lugares mais seguros do mundo para o investimento estar; que nosso país está melhor que muitos países da Europa, pois tem uma estrutura financeira sólida e que protegeu bem o país na crise de 2008; que a política atual de juros altos precisa ser abandonada pois é insustentável.

 

 Sobre Bancos Centrais - Stiglitz afirmou que bancos centrais independentes não podem operar afastados de seus compromissos democráticos com a sociedade, nem vinculados apenas aos interesses do mercado financeiro; bancos centrais independentes precisam representar a sociedade, não o mercado financeiro apenas (na Suécia, por exemplo, o BC tem um membro representante dos trabalhadores).

 E isso não é conversa da “petralhada”, nem da “esquerdalha, trata-se de reflexão de gente séria e comprometida com o desenvolvimento social e econômico.

 

 

 Até o FMI – O ano era 2020, quando a presidenta do FMI defendeu o aumento do gasto social para aumentar a inclusão e a coesão social e, nas palavras da economista-chefe do organismo, Gita Gopinath: “É importante reconhecer que o gasto social está bem orientado, que os mais vulneráveis devem estar protegidos, e que os Governos devem assegurar que o crescimento e a recuperação sejam compartilhados por todos”, ou seja, está cada vez mais longe os tempos em que o FMI aviava apenas receitas de austeridade, pois sabem que a consequência é uma forte deterioração de todos os indicadores sociais, mas Campos Neto parece viver num mundo paralelo.  

 

 A vassalagem de Roberto Campos Neto – Enquanto economistas do quilate de Joseph Stiglitz, James Gailbraith e André Lara Resende são tratados como alucinados por parte dos “especialistas da mídia”, Roberto Campos Neto e sua diretoria, são tratados como garantidores da estabilidade monetária, mas são apenas vassalos do mercado financeiro.  

 

 

 Conclusão (minha) – Presidente do Banco Central, menino rico, que não conhece a realidade, bolsonarista e ultraliberal, não é um imbecil, mas vassalo e vil; trabalha para o mercado financeiro, não tem compromisso com o desenvolvimento econômico e social, com o combate da desigualdade, nem com o Brasil.

 O Brasil, tem a maior taxa de juros do mundo, por isso não vai crescer sem reduzi-la; a taxa é alta não porque a inflação esteja alta - já que a inflação no país está em índices comparáveis aos dos Estados Unidos e Europa, nada explica a taxa Selic em 13,75% - cerca de 140% a.a. acima de inflação -, mas porque o BC trabalha para o mercado.  

 Essas são as reflexões.  

 e.t. Esse artigo ofereço aos meus amigos liberais convictos, especialmente ao Daniel Medeiros e ao Carlinhos Barreto

 
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03
Dez22

Quantas músicas foram censuradas na ditadura militar?

Talis Andrade

torturador ultra brilhante.jpg

Ditadura militar e zoofilia de serial killers (sadismo sexual)

 

Quais são as músicas censuradas na ditadura militar?

7 músicas censuradas durante a ditadura militar

  • Apesar de Você (Chico Buarque)
  • Tiro ao Álvaro (Adoniran Barbosa)
  • Vaca Profana (Caetano Veloso)
  • Cálice (Gilberto Gil/Chico Buarque)
  • Milagre dos Peixes (Álbum – Milton Nascimento)
  • Pra Não Dizer que Não Falei das Flores (Geraldo Vandré)
  • Acender as Velas (Zé Keti)

 

Quantas músicas de Chico Buarque foram censuradas?

Os principais cantores censurados pela Ditadura Militar foram: Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Kid Abelha, Milton Nascimento, Raul Seixas, Paulo Coelho, Toquinho, Vinícius de Morais, Odair José e Torquato Neto. Chico Buarque de Hollanda, por sua vez, teve pelo menos 10 canções censuradas.

 

Quem censurava as músicas na ditadura militar?

As músicas da ditadura militar expressavam o descontentamento dos artistas com as barbáries cometidas durante esse período da história brasileira. E assim como as peças de teatro, filmes, poesias e outras obras elaboradas nesse período, a produção musical estava susceptível à censura por parte dos militares.

 

Quantos livros foram censurados na ditadura militar?

A quantidade exata de livros censurados na ditadura ainda é desconhecida. Desde 1970, o Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP) do Ministério da Justiça tornou-se responsável pela censura a livros. Entre 1970 e 1982, o órgão analisou oficialmente pelo menos 492 livros, dos quais 313 foram vetados.

Quais foram os cantores que foram exilados na época da ditadura?

 

Artistas brasileiros que foram exilados na Ditadura Militar

  • Caetano Veloso
  • Gilberto Gil
  • Oscar Niemeyer 
  • Chico Buarque
  • Raul Seixas
  • Geraldo Vandré

 

Quais foram os principais cantores que se opuseram à ditadura militar?

Em 1979, João Bosco e Aldir Blanc compuseram “O bêbado e a equilibrista”, que fala sobre os exilados. É um retrato do Brasil no final do período ditatorial, com mães chorando (Choram Marias e Clarisses) pela falta de seus filhos, os “Carlitos” tentando sobreviver (alusão a um personagem de Charles Chaplin.

 

O que é o AI-5?

O AI5 é uma norma legal instituída pelo governo militar que estabelecia prerrogativas para que os militares pudessem perseguir os opositores do regime. Consistia basicamente em uma ferramenta que dava legalidade jurídica para o autoritarismo e a repressão impostos pelos militares desde 1964.

 

Porque a música Jorge Maravilha foi censurada?

Em Jorge Maravilha, Chico cantava: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, o que gerou a especulação de que Amália Lucy, fã declarada dele e filha de outro presidente militar, o general Geisel, tinha sido ahomenageada da canção. Chico sempre negou que tenha composto a música para Amália.

 

Quem lutou contra a ditadura militar?

Neste cenário, lançaram-se à luta armada dezenas de organizações, das quais destacaram-se a Ação Libertadora Nacional (ALN), o Comando de Libertação Nacional (COLINA), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e a Vanguarda Armada …

 

Porque a música Tiro ao Álvaro foi censurada?

O documento oficial que veta “Tiro Ao Álvaro” (canção de 1960) dá a justificativa de “falta de gosto”. A letra brinca com a oralidade do povo de São Paulo ao contar com as palavras “tauba”, “automorve” e “revorve”.

 

Quais livros foram censurados?

Censurado: 6 livros que foram tirados de circulação

  • O casamento, de Nelson Rodrigues. …
  • Feliz ano novo, de Rubem Fonseca. …
  • A crucificação rosada, de Henry Miller. …
  • Lolita, de Vladimir Nabokov. …
  • Madame Bovary, de Gustave Flaubert. …
  • O crime do padre Amaro, de Eça De Queiroz.

 

Quais os livros proibidos no Brasil?

Confira abaixo os títulos e onde foram censurados:

  • 1984, de George Orwell.
  • Lolita, de Vladimir Nabokov.
  • O crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós.
  • Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca.
  • Tessa: A gata, de Cassandra Rios.

 

Quem era os exilados?

Significado de Exilado substantivo masculino Pessoa que, por razões políticas, foi obrigada a deixar sua pátria, seu país; expatriado, desterrado: os exilado voltarão ao Brasil. … Etimologia (origem da palavra exilado). A palavra exilado deriva como particípio do verbo exilar, pela junção de exílio-, e -ar.

 

Quem eram as pessoas torturadas na ditadura militar?

A casa dos horrores torturou até a morte jovens opositores do regime militar. Outros viveram a perversidade de serem torturados na frente de filhos crianças, como Amélia e Cesar Teles. O casal, de pouco mais de 20 anos, foi preso em dezembro de 1972, e apanhou seguidamente. Geraldo Vandré enloqueceu na tortura. Ficou atoleimado. Virou um farrapo humano. Ficou viciado em drogas para aliviar as dores da tortura. Exilado no Chile passou a ser informante em troca de cocaína. Vandré virou a soma de tortura + dor + droga + loucura + leseira. A ditadura torturou bebês, crianças. Vários serial killers foram forturadores. Torturadores que praticavam todo tipo de sadismo sexual, usando inclusive diferentes animais. 

paulo coelho tortura.jpg

23
Set22

E da costela de Bolsonaro foi criado o pior canalha brasileiro

Talis Andrade

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Ilustração: Victor Vilela para o Intercept Brasil

 

Nem mesmo o doutor Werneck, o cafajeste maior de Nelson Rodrigues, imaginaria o canalha forjado e recriado sob a organização e influência bolsonarista.

 

por Xico Sá /The Intercept

- - -

O MILITAR Jair Messias Bolsonaro não criou o canalha nacional no laboratório do ódio do Palácio do Planalto. Isso é obra de séculos. O cafajeste “imbrochável” do palanque do 7 de setembro tampouco é uma criação original – a patente, óbvio, é da pornochanchada, o ciclo da sacanagem com humor do cinema brasileiro.

O presidente, no entanto, é pioneiro ao organizar e influenciar a canalhice para ataques contra as mulheres durante o seu mandato no governo. Haja covardia e perversidade, embora os seus seguidores fundamentalistas jurem (ajoelhados no milho do cinismo) que se trata apenas do combate ao “politicamente correto”, promessa de campanha de 2018.

Nem mesmo na galeria dos canalhas criados pelo cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues é possível encontrar um personagem que se compare, em atrocidade machista, à figura presidencial. Reli agora quase todos os episódios da série “A vida como ela é” e repassei as principais peças rodriguianas. Nem o doutor Werneck, no seu moralismo religioso de araque, alcança esse patamar bolsonarista no texto de “Bonitinha, mas ordinária”.  O Peixoto, no mesmo drama, também não é páreo. Muito menos o pobre Edgard diante daquele cheque de 5 mil cruzeiros que o sogro usa para testar o seu caráter.

Não há um só canalha de véspera ou canalha do dia seguinte – como Nelson definia o homem brasileiro na sua tragédia – capaz de imitar um paciente de covid-19 morrendo por falta de oxigênio. E olhe que o Peixoto topava qualquer tarefa degradante de um “cidadão de bem” da sua época. O Peixoto seria capaz de negar uma marmita a uma dona de casa faminta. Duvido, porém, que o Peixoto zombasse de uma vítima de tuberculose – era um sujeito cerimonioso diante da morte.

Bolsonaro imitou pessoas sem ar em live em março de 2021

Bolsonaro imitou pessoas sem ar em live em março de 2021

 

No critério de ataque direto às mulheres, a gestão do presidente se estabeleceu com as agressões provocadas por ele mesmo ou pelos seus  dublês que se multiplicaram como gremlins na água suja que escorreu da goteira bolsonarista. Somente na última quinzena, a prática banalizada e autorizada por Bolsonaro teve como alvo uma mesma jornalista, Vera Magalhães.

No primeiro ato de violência, o próprio capitão da extrema direita agrediu a colunista de “O Globo” ao falar da sua intimidade sexual e chamá-la de “vergonha para o jornalismo brasileiro”, em debate na TV Bandeirantes. O discípulo Douglas Garcia, deputado estadual do Republicanos de São Paulo, fez o bis do ataque, copiando as mesmas palavras, na TV Cultura – o parlamentar estava na claque do candidato a governador Tarcísio de Freitas, seu colega de partido.

Douglas Garcia - 1070 Dep Federal on Twitter: "Hoje mais cedo recebemos o  PR Bolsonaro em agenda oficial na cidade de SP. https://t.co/5mQ1SPqHKk" /  Twitter

Ameaças e patadas nas mulheres se tornaram rotina no mandato de Bolsonaro. Um dos mais prestigiados homens do clube dos cafajestes bolsonaristas, Pedro Guimarães foi obrigado a deixar o cargo de presidente da Caixa ao acumular dezenas de acusações de assédio sexual de funcionárias do banco.

 

Nem mesmo na galeria dos canalhas criados pelo cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues é possível encontrar um personagem que se compare, em atrocidade machista, à figura presidencial.
 

Seria injusto, porém, dizer que o militar só começou a agredir jornalistas depois de abastecido da testosterona presidencial. Em 1987, fez o gesto de arminha com os dedos e ameaçou de morte a repórter Cássia Maria: “Você vai se dar mal”. Ela havia publicado na revista Veja, um plano terrorista do então capitão do Exército para jogar bombas em quartéis e caixas d´águas do sistema de abastecimento do Rio de Janeiro. O objetivo seria um protesto contra a baixa remuneração da tropa. A reportagem rendeu um castigo de 15 dias de prisão para Jair Messias.

Em 2003, o então deputado federal da bancada carioca seguiu amplificando em Brasília sua brutalidade com as mulheres: “Só não te estupro porque você não merece”, atacou a colega de parlamento Maria do Rosário, do PT gaúcho. Nos ensaios preparativos para a disputa à Presidência, em 2016, elaborou “melhor” a fala criminosa, ao dizer os motivos pelos quais não estupraria a deputada: “Porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece”. A torcida da macharada misógina vibrou como um gol de final de campeonato.

No mesmo ano, ainda teve o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Ali o machismo brabo desceu e chafurdou nos porões da ditadura. Bolsonaro dedicou a sua decisão ao coronel Brilhante Ustra, torturador da ex-presidente, o maior carrasco das mulheres entre os militares assassinos. Pra frente, Brasil.

Nem mesmo o doutor Werneck – o cafajeste maior de “Bonitinha, mas ordinária” – imaginaria o canalha forjado e recriado sob a organização e influência bolsonarista. É o canalha que odeia as mulheres, ataca jornalistas nos cercadinhos de Brasília ou nos debates, tira onda de playboy de clube de tiro e humilha donas de casa famintas com lacrações gravadas para o grupo de WhatsApp da motociata. Até o Peixoto cancelaria esse tipo.

22
Mai22

A resistência da democracia (por Gustavo Krause)

Talis Andrade

democracia thiago.jpg

 

por Gustavo Krause

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A irreverência de Nelson Rodrigues definiu o prazer da releitura: “Deve se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três a quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obstinada pertinácia”.

Carinhosamente, retirei da biblioteca um livro com as marcas de frequentes consultas – O Tempo da Memória – De senectute e outros escritos autobiográficos – do admirável pensador Italiano (Turim), Noberto Bobbio (1909-2004).

“A velhice é um tema não-acadêmico. Sou um velho professor. Permitam-me falar, desta feita, não como professor, mas como velho”, à época, com 84 anos, dizia que ultrapassara a terceira se encontrava na quarta idade.

O livro é um emocionante tratado de sabedoria humana. Filósofo da Política e do Direito, Bobbio foi, também, “um filósofo militante” no enfrentamento à monstruosidade das ditaduras, a exemplo do fascismo que assassinou Carlo Rosselli, jovem autor de: “O socialismo liberal”.

Paradoxal, era um “dualista impenitente”; declarava fervorosa afeição pelos clássicos; pertencia a linhagem dos que acreditam que “a virtude está no meio”; exerceu, sempre, a moderação na função mediadora do intelectual diante de dogmatismos opostos; rejeitava os “ismos”, porque “os ismos fecham”, o que conferiu a Bobbio a singularidade de ser moralmente liberal, radicalmente democrata e teleologicamente socialista.

Ao longo da releitura, fiquei a imaginá-lo, defensor da democracia, dos direitos humanos e da paz, testemunhando as graves ameaças da sedução populista, do desrespeito aos direitos do indivíduo e à paz mundial.

Os índices que medem o estado da democracia no mundo não são animadores. O relatório do Instituto V-DEM sobre a variação das democracias, ligado à Universidade de Gotemburgo num ranking de 202 países, 450 indicadores, revelou que a população mundial, sob regimes ditatoriais, subiu, na última década de 49% para 70%. O Brasil foi o quarto que mais se afastou da democracia.

Por sua vez, o Índice de Democracia, criado pela revista The Economist, avalia 167 países, com base em cinco critérios, para definir democracia plena, democracia imperfeita, regimes híbridos e regimes autoritários. O Brasil se enquadra na categoria imperfeita em 52% lugar.

É preciso resistir às reiteradas tentativas de retrocesso democrático.

Com a experiência de “filho do século XX”, Bobbio diria: “Prefiro falar de transformação e não de crise, porque ‘crise’ nos faz pensar num colapso iminente. A democracia não goza no mundo de ótima saúde, como de resto jamais gozou no passado, mas não está à beira do túmulo”.

Charge: tribunadainternet.com.br

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