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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Nov20

Entidades do movimento negro lançam manifesto em apoio a Boulos

Talis Andrade

Entidades do movimento negro como Educafro, Uneafro Brasil, Movimento Negro Unificado e Marcha de Mulheres Negras de São Paulo, lançaram o manifesto "SP Antirracista com Boulos", em apoio à candidatura do psolista que disputa o segundo turno das eleições em São Paulo.

"Nós, população negra organizada, mulheres negras, pessoas faveladas, periféricas, LGBTQIA+, que professam religiões de matriz africana, quilombolas, pretos e pretas com distintas confissões de fé, moradoras e moradores da cidade de SP, manifestamos nosso apoio à candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina e à urgência em derrotar o PSDB genocida e o bolsonarismo na cidade de São Paulo", diz trecho do manifesto.

Para derrotar o PSDB e o Bolsonarismo em São Paulo

 eleger Boulos e Erundinaactivists including members of Black Lives Matter march against the kiling of Black man Joao Alberto Silveira Freitas. (AP Photo/Andre Penner)

Nós, população negra organizada, mulheres negras, pessoas faveladas, periféricas, LGBTQIA+, que professam religiões de matriz africana, quilombolas, pretos e pretas com distintas confissões de fé, moradoras e moradores da cidade de SP, manifestamos nosso apoio à candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina e à urgência em derrotar o PSDB genocida e o bolsonarismo na cidade de São Paulo.

2020 é um ano que ficará marcado na história como aquele da avassaladora pandemia de corona vírus, que até agora custou 170 mil vidas brasileiras e que em São Paulo, sob a gestão de Covas, matou mais de 14 mil pessoas, grande maioria nas periferias desassistidas da cidade. Mas é preciso lembrar que este ano também será lembrado como aquele em que milhões de pessoas ao redor do mundo forçaram um aprofundamento do debate público sobre o combate ao racismo sistêmico e suas consequências sociais. Um caminho sem volta foi aberto e futuros governos terão que diversificar racialmente secretariados e ministérios, reconhecer a competência política e profissional de lideranças negras e femininas para atuação em diversos níveis.

O PSDB de Bruno Covas representa o projeto político genocida praticado há décadas por governos tucanos seja no nível municipal, seja nos momentos de dobradinha com governos estaduais, como é o caso agora, com Covas-Dória. Foi nesta gestão de Covas que a cidade de São Paulo presenciou, silenciosamente, o assassinato de 12 adolescentes vitimados pela ação violenta da polícia em repressão ao um baile Funk em Paraisópolis, há um ano. A aliança macabra entre Covas e Dória faz nosso povo sofrer, seja no espelhamento das políticas de segurança pública que fazem da guarda municipal tão violenta quanto a PM, sobretudo covarde no trato com pessoas em situação de rua e trabalhadores ambulantes, seja também nas políticas da assistência social, na precarização e terceirização de serviços públicos, na desvalorização do funcionalismo, nas politicas privatistas e de diminuição do estado de direito. O PSDB é germe do bolsonarismo que contaminou o país e que fez da população negra, mais uma vez, o principal alvo. Precisamos derrotá-los!

Neste segundo turno das eleições municipais em São Paulo, temos em Boulos e Erundina a possibilidade de virar o jogo e eleger uma gestão municipal comprometida com a vida do povo negro, que estabeleça como prioridade o enfrentamento ao racismo em suas mais diferentes expressões e intersecções. Para tanto, Boulos e Erundina devem caminhar lado a lado com os movimentos negros e periféricos, e reconhecer o movimento negro de São Paulo como força política consistente que é. É muito importante a criação de canais de diálogo, participação e construção real e por dentro, do próximo governo. A população negra organizada deve compor a gestão dos serviços públicos e da máquina pública a partir de pessoas negras orgânicas desses movimentos e suas pautas e reivindicações devem ser acolhidas.

A partir deste compromisso público junto às pautas dos movimentos negros, também sinalizadas em documentos orientadores da Coalizão Negra por Direitos e da Convergência Negra, convocamos todos aqueles que estão comprometidos com a luta antirracista, periférica, e de valorização da cultura popular a eleger Boulos e Erundina 50, e construir um amanhã preto, periférico e popular para a cidade de São Paulo!Image

 

20
Nov20

Primeira mulher negra eleita vereadora em Curitiba, Carol Dartora (PT)

Talis Andrade

Carol Dartora (PT)

"Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação", diz Carol Dartora. Foto Joka Madruga

 

"A eleição de uma mulher negra parecia um muro intransponível". Carol Dartora fala sobre o racismo na cidade, o exemplo de Marielle e a necessidade de a esquerda abraçar lideranças negras e mulheres

 

Nascida e criada em Curitiba, a professora Carol Dartora, de 37 anos, sempre precisou responder a uma pergunta incômoda: de onde você veio? Entre praças e monumentos que homenageiam países europeus, suas tranças e turbantes afro faziam dela uma estrangeira em sua própria terra.

A sensação de não pertencimento serviu de combustível para Carol entrar na política e tentar, assim, construir uma cidade mais democrática. No último domingo (15/11), ela se tornou a primeira mulher negra eleita para a Câmara dos Vereadores de Curitiba, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Foram mais de 8 mil votos, a terceira maior votação entre os vereadores eleitos na cidade.

Em entrevista à DW Brasil, ela fala sobre a decisão de ingressar na política, o exemplo da vereadora carioca assassinada Marielle Franco, o debate sobre racismo em sala de aula, o preconceito dentro do próprio campo progressista e questiona o mito do "Sul civilizado". Nesta quinta-feira, véspera do Dia da Consciência Negra, um homem negro morreu após ser espancado por seguranças de um supermercado no Rio Grande do Sul. Em Joinville (SC), a professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira mulher negra eleita na cidade, recebeu ameaças de morte nas redes sociais após a vitória nas urnas.

"O racismo está no Brasil inteiro, mas aqui em Curitiba realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa", diz ela, apontando que o fato de a cidade nunca ter elegido uma mulher negra parecia ser um "muro intransponível".

João Pedro Soares entrevista Carol DartoraCarol Dartora VOTE 13133 on Twitter: "Partiu beber a bera que cuida da  gente #SextaFeira13… "

DW: Como veio a decisão de entrar para a política?

Carol Dartora: Por ser historiadora, fui convidada para dar uma aula de história da mulher na política brasileira num curso de formação política para mulheres. Eu vim mostrando todas as ondas do feminismo, o quanto as mulheres foram galgando esses passos com muita dificuldade, por toda a dificuldade de gênero, chegando à questão racial, com as mulheres negras ainda mais excluídas desse processo. Eu falava especificamente de como as mulheres fazem muita política na base, sobretudo as negras, mas não são vistas como lideranças para ocupar esses cargo e têm dificuldade nos partidos, que também são atravessados pelo racismo e machismo estruturais. Essas disputas são feitas inclusive internamente, com muita dificuldade.

Falaram, então: "Nossa, Carol, você faz todos esses debates, atua há tanto tempo, e quantas vezes já se candidatou?" Aí foi o estopim: de que adianta ficar a vida inteira sem botar o pé na porta e sem falar "não, agora é nossa vez"? O coletivo político que eu integro entendeu também que era hora de fazer essa disputa.

 

Como primeira mulher negra eleita em Curitiba, você sente que o racismo é mais forte no Sul do Brasil?

O racismo está no Brasil inteiro, mas já estive no Rio de Janeiro e em São Paulo, e sinto que estas e outras capitais são mais democráticas, com menor hostilidade. Aqui em Curitiba, realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa. No meu cotidiano, indo para a escola dar aula, já começa quando você pisa na rua, e as pessoas vêm perguntar: "De onde você veio?" O mesmo acontece entre colegas de trabalho. Essa pergunta pressupõe a ideia de que, se você é negro, com certeza não deve ser daqui.

Acontece mesmo isso, e a cidade tem umas assimetrias muito grandes. Há bairros em que os índices de qualidade de vida se comparam aos da Europa, enquanto outros apresentam uma precariedade grande, com IDH super baixo. Curitiba tem essas desigualdades e tenta esconder isso, desde a forma como o território da cidade é ocupado.

A população pobre e negra é empurrada para as periferias e outras cidades da região metropolitana. A região norte é mais valorizada, então um imóvel é muito mais caro, embora não tenha o mesmo tamanho que outro da região sul. Curitiba é segregada racialmente. Aqui, todo mundo sabe em que lugares você encontra os negros e onde não encontra.

Quem vem de fora para fazer turismo na cidade fica com a impressão de que não tem negros e é uma cidade europeia. Na volta turística, a pessoa vai ver a Praça da Espanha, a Praça da Ucrânia e o Bosque Alemão, vai sair com essa impressão que a cidade causa e cria. Eu sinto arrepios quando ouço esse discurso de que Curitiba é "civilizada”. A gente sabe o que está por trás disso. É uma política higienista que se empreende aqui. Tentam esconder a população em situação de rua, e dizem que Curitiba é "limpa”. É uma cidade pesada mesmo nesse sentido.

Minha campanha foi trazendo todas essas denúncias da falta de direito à cidade, democratização dessa vida urbana tão complicada, da violência policial contra a juventude negra e o apagamento das expressões culturais.

O Carnaval em Curitiba sempre foi muito atacado. É uma festa com pouco aporte e muita organização popular, que sempre precisou resistir muito para existir. É pequeno perto das outras capitais, mas justamente por essa razão. Curitiba é tudo isso.

Foi fazendo essas denúncias que atingi tantas pessoas, e elas se sentiram representadas. Na campanha, usei a mensagem de que deveríamos ter uma vida urbana que nos faça sentir pertencentes e felizes. Esse sentimento é uma linguagem que a cidade constrói, é como ela se organiza e nos impõe esse sentimento de não sermos acolhidos pela cidade em que nascemos. Eu sou uma mulher preta curitibana, como vina (salsicha), falo "leitE quentE”, e espera-se que eu me sinta parte da cidade. Muitas pessoas se viram nessa construção — ou desconstrução, na verdade.

 

Como você leva essas questões para sala de aula?

Eu sempre fiz todos os debates que achava que tinha que fazer em sala de aula, e acredito totalmente no poder da educação. A minha principal proposta de campanha é promover a educação social. No fazer político, informando e politizando a sociedade, uso muito da prática que já tenho em sala de aula.

As pessoas me perguntam muito se é possível superar o racismo e o machismo. Pela minha experiência em sala de aula, eu digo que sim. Tive muitos alunos entrando em sala sem entender por que políticas de cotas e reparação são importantes. Construindo novas consciências e trazendo a realidade histórica, é possível mudar muita coisa. Tive a grata satisfação de ter visto isso nos meus alunos. Além de dar aula, palestras e formações que faço pela cidade em coletivos universitários e feministas.

Acredito muito mesmo no poder da educação e que o professor deve ter a perspectiva da superação e da esperança. Sem isso, a gente também não alcança nada. Não adianta você trabalhar sem achar que determinadas situações podem ser superadas. Se você não tiver essa perspectiva da superação, perde o sentido. Foi isso que me trouxe até aqui.

Eu fiz a denúncia de que Curitiba nunca tinha eleito uma mulher negra, um muro que parecia intransponível. Todo mundo que olhava para a campanha no início dela pensava: nossa, como fazer para superar essa barreira? Pensando que sou uma mulher do Partido dos Trabalhadores (PT), feminista, negra, e que Curitiba nunca elegeu uma mulher negra, pareciam barreiras intransponíveis.

Mas o que a gente tinha era a superação, sem perder a esperança, fazendo essa denúncia e construindo a possibilidade. Porque aí a gente falava: Curitiba nunca teve uma vereadora negra, vamos mudar essa história. E no fim da campanha, quando a gente sentiu que ela estava grande, crescendo, as pessoas me viam na rua e falavam: "Carol, vou votar em você, a gente vai fazer história".

Eu já promovi reeducação social na campanha. Acredito totalmente no poder da educação. Sou professora e sempre defendi a educação pública. Estudei em escola pública, fiz faculdade e mestrado em universidade pública, e agora sou doutoranda. É este o poder do professor, da palavra, o poder de ensinar. São estes os nossos mecanismos, nossos canais.

 

Para o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, o debate de ideias deve ficar de fora da sala de aula, que deve ser um espaço livre de "doutrinação". Como você reage a isso?

Com esse tipo de coisa, a gente não conversa. Como conversar com o ódio? Tem que haver minimamente uma abertura para estabelecer um diálogo. Não tem como dialogar com esse tipo de postura, de alguém que está fechado para aprender. Tem uma coisa maravilhosa que vejo na infância e juventude, que é o lugar de semear a transformação, por conta da mente aberta para a possibilidade de aprender novas coisas. Quando você tem uma criatura fechada para qualquer coisa, não adianta insistir.

E acho que o Bolsonaro tem sido pedagógico, ele também ensina. Por incrível que pareça, muitas pessoas vieram falar comigo na rua dizendo que iam votar em mim, mas tinham votado no Bolsonaro. Elas diziam ter consciência do erro que cometeram, sem saber o que estavam fazendo, por estarem cansadas da política. Não foram nem uma, nem duas pessoas que falaram isso, dizendo ter percebido a importância de olhar para o projeto político da pessoa.

Tudo aquilo do Bolsonaro parecia brincadeira, mas não existe nada da boca pra fora, né? As pessoas se iludiam pensando que era assim. Tanto não era, que ele está empreendendo essa política de morte, de deixar morrer e não fazer nada. Vimos isso na pandemia. A gente está batendo números altíssimos de desemprego e voltando para o Mapa da Fome, com a juventude negra sendo exterminada. E ele falando que não está nem aí, tem que matar mesmo, armar a população.

As pessoas estão vendo, então ele é pedagógico. É claro que ele deu voz a esses discursos de ódio, mas a gente está nesse momento de conflito social e de valores na sociedade brasileira. Temos esses discursos e contra-discursos postos na sociedade. É um momento de transformação, e por isso vemos coisas como Curitiba me elegendo a primeira vereadora negra da cidade, ao mesmo tempo que reelege o prefeito que representa tudo o que estou tentando desconstruir. O conflito está posto, e sem ele a gente não avança.

As eleições municipais já mostraram uma maior compreensão das pessoas quanto à necessidade de superar algumas exclusões, tanto que tivemos mulheres, inclusive trans, eleitas pela primeira vez em várias cidades. Foi um show, e acredito que isso vá avançar para as eleições presidenciais.

 

Após essa onda de mulheres negras eleitas, como é possível aumentar a capilaridade de novas candidaturas? No Rio de Marielle Franco, apenas duas mulheres negras foram eleitas.

Acho que esse movimento tende a se fortalecer. A partir do momento que se quebram algumas barreiras, as próximas mulheres não vão ter que quebrar esse muro tão grande que eu enfrentei, por exemplo, essa pecha de que nunca teve alguém antes. É uma porta que já foi aberta. O movimento tende a crescer, mas ainda encontra muita resistência.

A professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra eleita em Joinville, já sofreu uma série de ameaças e ataques racistas. Como já falei, a gente tem esse conflito social, essa crise de valores no Brasil. Porém, precisamos avançar. Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação, tantas pessoas excluídas desse processo. Isso não é democracia. Se a gente tem como perspectiva buscar a igualdade no país, com cidades melhores para todos viverem, vamos ter que superar essa barreira.

Acho uma pena que o Rio não tenha eleito mais que uma mulher. É possível que a violência policial e o medo do crime político contra a Marielle desestimule candidaturas.

 

Nesse contexto, você sente medo?

Eu sou muito otimista e corajosa, e já estou recebendo mensagens para eu parar de falar o que estou falando devido a esse caso de Joinville. Eu falei: não quero nem pensar nisso, porque não me passa pela cabeça que alguma coisa ruim vá acontecer, e espero que não.

 

A Marielle foi uma inspiração para você entrar na política?

A Marielle é um exemplo em muitos sentidos. Começa pelo fato de que eu não sabia quem era ela. Foi um sinal para mim ela ser a potência que era, quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, e eu só ficar sabendo quando ela foi assassinada. É a amostra de tudo o que a gente diz sobre a invisibilidade da nossa atuação, das mulheres negras e tudo o que a gente constrói.

O primeiro sinal foi este: como eu não sabia dessa mulher e fico sabendo só agora, com este crime horrível? Ela também foi um fator de indignação. Então, quando a gente consegue chegar lá, com muito esforço, a gente tem que ser apagada e, nossa voz, silenciada, para não falar o que precisa ser dito.

Para todas as mulheres negras e todos que, no mundo, têm esse entendimento, causou muita indignação. Nesse sentido, a gente se uniu, conseguimos fazer conexões e criar uma rede para sustentar essas candidaturas de mulheres que estão se colocando em um espaço tão violento que é a política.

Aqui em Curitiba, a gente tem um movimento de mulheres negras, e todo mês de julho a gente faz debates a respeito do que é a vida da mulher negra, do quanto a gente é sub-representado e precisa estar nesses espaços. É uma construção que vem sendo feita há quatro anos e, depois da morte da Marielle, intensificou-se mais ainda. Sem dúvidas, ela é um exemplo e tem uma influência em vários sentidos. Essa ligação mal explicada do governo Bolsonaro com a morte da Marielle causa muita indignação e nos coloca em movimento.

 

Você foi a candidata mais votada do PT e puxou outros dois nomes do partido. Apesar desse desempenho, você recebeu a menor verba de campanha entre os três. Como você sente o racismo dentro do campo progressista?

Eu tenho dito que o campo progressista tem que abraçar a pauta racial e as lideranças negras. O machismo e o racismo também passam pelo interior dos partidos. É claro que a minha candidatura não era tida como a mais viável, e não fui vista como a aposta. Por isso que minha verba era menor e não era acreditada por todas as dificuldades que apresentei aqui. Foi preciso muita estratégia para construir minha campanha. E a esquerda vai ter que entender que, se a gente não falar daquilo que toca a vida das pessoas e não oferecer a elas o que as pessoas querem, colocando legitimidade em nosso discurso, a esquerda vai morrer. É preciso abraçar as lideranças negras e mulheres. Somos nós que estamos na base.

Eu falo na importância da legitimidade, porque quantos anos mais a esquerda vai ficar falando na boca de um homem branco, com mais de 45 anos, que é preciso superar o racismo e o machismo? É diferente eu falar que a gente tem que superar o racismo, construir políticas antirracistas, superar desigualdades. O discurso fica mais forte, ganha legitimidade. O anseio das pessoas é este, ver a transformação acontecendo. É o que acontece quando elas me veem nesse lugar.

Se a esquerda quiser continuar com seus caciques históricos, sem nunca se mover, querendo falar de desigualdade, sem promover de fato a transformação, para que as pessoas possam ver isso esteticamente, fica complicado. Esses 8 mil votos na terra da Lava Jato mostram que eu consegui superar o antipetismo e não tive voto só de pessoas que se declaram de esquerda. É a transformação que as pessoas querem ver.

 

Você está sempre sorridente. É possível encontrar leveza em meio a tantas lutas?

A luta é para ser feliz. É muito simples. A luta é para se sentir bem, e é isso que venho trazendo em minha trajetória. O meu sentimento de infelicidade, de não pertencimento a essa cidade, foi me levando em busca de ser feliz, me sentir bem, e política serve para isso, promover o bem-estar das pessoas. Se não é este o objetivo, qual é? Política é muito simples, é basicamente isso.

O problema é que a gente tem a não promoção do bem viver, do bem-estar. Isso é a antipolítica, a necropolítica, a política do deixar morrer. Eu quero ser feliz e compreendi que essa minha busca por felicidade é a de várias outras pessoas. Porém, temos que construir instrumentos e mecanismos, como a administração pública. Foi isso que eu compreendi e tento mostrar para as outras pessoas.

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20
Nov20

Juízes para Democracia repudiam ataque racista contra primeira vereadora negra em Joinville

Talis Andrade

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A Associação Juízes para a Democracia divulgou nota em que repudia os ataques racistas sofridos pela primeira negra eleita vereadora em Joinville, Ana Lúcia Martins (PT). 

Desde domingo (15) ela recebeu ataques em redes sociais e ameaças de morte.

Associação Juízes pela Democracia

Núcleo Lédio Rosa da Associação Juízes para a Democracia vem manifestar solidariedade à Ana Lúcia Martins, primeira vereadora negra eleita na cidade de Joinville que, desde a publicação dos resultados das eleições, sofreu e vem sofrendo ataques racistas.

Inicialmente, sofreu uma reação violenta por parte de um radialista da imprensa local. Posteriormente, passou a sofrer ataques nas redes sociais e até mesmo ameaças de morte.

Tais ataques, por materializarem expressões de ódio racial, merecem o mais veemente repúdio, pois não se limitam a ofender a dignidade pessoal da vereadora, o que já seria suficientemente grave, mas atingem toda a coletividade e, em especial, as pessoas negras, na dimensão do igual respeito a seus direitos humanos e às garantias constitucionais de que são titulares. Não é por outra razão que a prática do racismo é considerada como crime inafiançável e imprescritível pelo texto Constitucional e igualmente reprovada por Tratados Internacionais de Direitos Humanos.

Cabe ainda registrar a importância que a eleição de mulheres negras assume no contexto brasileiro, em que apesar de 27% da população feminina se declarar negra, mulheres negras representam apenas 2% do Congresso Nacional e menos de 1% na Câmara dos Deputados. Sabe-se de todos os obstáculos e entraves à plena participação política de mulheres negras, não apenas em razão de situações de discriminação direta, mas igualmente, dos efeitos e impactos discriminatórios decorrentes de racismo estrutural que está na base do Estado brasileiro.

A eleição de mulheres negras, nesse sentido, representa passo decisivo no tardio processo de reparação histórica de nosso passado escravocrata, além de necessário mecanismo de promoção da democracia e do pluralismo nos espaços políticos de tomada de decisão.

Dessa forma, a participação política das mulheres negras deve ser celebrada, estimulada e reconhecida pela sociedade e pelas instituições. A violência contra as mulheres negras na política vai na contramão desses avanços e deve merecer repúdio por todos os segmentos da sociedade civil, além da aplicação das sanções legais cabíveis, observado o devido processo legal, por parte das instituições do sistema de justiça, encarregadas que são de proteger sua vida, sua integridade física e seu mandato.

Assim, a Associação Juízes para a Democracia, por sua NúcleA Lédio Rosa, se une aos vários movimentos de apoio à Vereadora Ana Lúcia. Ao tempo em que repudia os ataques racistas à sua pessoa, manifesta solidariedade e votos de que cumpra seu mandato, outorgado pelas urnas, em clima de respeito e paz.

NUCLEA LÉDIO ROSA DE ANDRADE DA ASSOCIAÇÃO JUÍZES PARA A DEMOCRACIA – AJD

19
Nov20

Quem é o pai de governadora de SC, professor de história que negava holocausto

Talis Andrade

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e textoA imagem pode conter: texto que diz "DENÚNCIA Não é uma simples opinião quando encoraja Racismo e Ameaças 2IR5 petiata no novamente Em resposta agora só falta gente m4t4r el4 e entrar o suplente que branco OPT nie deverie fizeram com e nOsse mais Por tudo que ANA LÚCIA MARTINS VEREADORA Não compartilhe publicações racistas,machistas οU ameaças DENUNCIE!"

Os sindicatos em solidariedade a primeira mulher negra, eleita vereadora de Joinville, professora Ana Lúcia Martins, que vem sofrendo ameaças de morte, denunciou:

Mais um desses crimes no Paraíso Nazista, que Santa Catarina se transformou: Lugar de inseguranças físicas e morais, para as vidas das pessoas negras

Santa Catarina era macabra, exótica e humilhantemente conhecida pelos movimentos nazistas e racistas que, como erva daninha, parasita, sempre reaparece, como acontece hoje no governo de Daniela Reinehr, eleita pelo PSL, que abandonou.Daniela aparece de perfil, com painel atrás dizendo 'Governo de Santa Catarina'

Governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr (sem partido) titubeou ao ser perguntada por jornalista sobre passado do pai. Foto Mauricio Vieira

 

Escreve Hyury Potter, de Florianópolis para a BBC News:

O passado do pai entrou na agenda da atual governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr (sem partido), fazendo com que ela emitisse uma nota à imprensa, (29/10), afirmando ser "contrária ao nazismo".

O posicionamento veio depois de a governadora se recusar a responder a um jornalista, (27/10), se concordava com a visão de seu pai, Altair Reinehr, professor aposentado que tinha sido colaborador de uma editora especializada em livros de teor antissemita que negavam o holocausto e outros crimes da Alemanha nazista.

Era a primeira entrevista coletiva concedida por Daniela, que acabara de assumir o governo após o Tribunal Especial de Julgamento afastar o governador Carlos Moisés (PSL) por até 180 dias, para que este responda por crime de responsabilidade no caso do reajuste salarial dos procuradores do Estado. Arrolada no mesmo processo, Daniela foi absolvida.

Altair é conhecido em Maravilha, pequeno município do extremo oeste catarinense, por defender ideias nazistas. Ele também defendeu na Justiça o diretor da editora Revisão, que publicava livros antissemitas nos anos 1980 e 1990.

Até se aposentar em 1998, Altair Reinehr lecionava história para crianças da escola estadual Nossa Senhora da Salete, em Maravilha, cidade catarinense com 26 mil habitantes, onde indicava a seus alunos livros de conteúdo antissemita da editora Revisão, aponta a antropóloga doutora pela Unicamp, Adriana Dias, que pesquisa sobre nazismo no Brasil há mais de 20 anos.

"Altair indicava livros da editora Revisão em sala de aula para crianças, isso é muito grave. Durante a minha pesquisa, conversei com alguns alunos que confirmaram que os exemplares eram de negação do holocausto, algo que ele mesmo mencionava nas aulas", disse a pesquisadora.

Ex-sindicalista da categoria, Reinehr chegou até a atuar na organização de greves dos professores na década de 1980. Em 1985, foi presidente da Associação de Professores de Maravilha. Ao mesmo tempo que defendia melhores condições de trabalho para os professores, o catarinense negava crimes da Alemanha nazista.

Para o professor de história, tudo não passou de uma "lenda" criada para ocultar crimes de guerra dos Aliados, de acordo com texto assinado pelo próprio Reinher e publicado no jornal A Notícia, de Joinville, em 2005.

A pesquisa da antropóloga Adriana Dias mostra que Reinehr chegou a colaborar com textos para a editora, criada em 1987 e que pertencia ao antissemita confesso Siegfried Ellwanger Castan (1928-2010). A publicação de livros que afirmavam que "quem sofreu com o holocausto foi o povo alemão" resultou em uma condenação por crime de racismo no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. A decisão foi depois confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2002, quando teve grande repercussão na imprensa.

No julgamento do STF, ministros leram trechos de livros da editora de Castan, que também era autor de obras favoráveis ao regime hitlerista. O ministro Maurício Corrêa chegou a citar o livro Holocausto Judeu ou Alemão? Nos Bastidores da Mentira, onde Castan escreveu que "os únicos gananciosos da Grande Guerra foram de fato os judeus".

Mesmo assim, o pai da governadora interina de Santa Catarina considerou que não havia qualquer indício de discurso racista, como ele afirmou em depoimento como testemunha de defesa de Castan. Na transcrição, é relatado que "Altair Reinehr, ao ser inquirido, declara ter lido todas as obras descritas na inicial, informando que nunca vislumbrou qualquer resquício de racismo a quem quer que seja. Diz nunca ter observado qualquer conduta racista do acusado".

Em 1998, a Justiça do Rio de Janeiro determinou o recolhimento de livros da editora Revisão na Bienal do Livro por conta do conteúdo antissemita. Dois anos depois, a participação de Castan na Feira do Livro de Porto Alegre também gerou protestos e um embate judicial.

Foto colorida desbotada mostra policiais e manifestantes em estande de bienal

Protesto da organização nuances - Grupo pela Livre Expressão Sexual contra a editora Revisão na Feira do Livro de Porto Alegre, em 2000

 
 

As sucessivas derrotas na Justiça brasileira, em diferentes instâncias, geraram a proibição dos livros antissemitas da editora Revisão. Mas até hoje é possível comprar exemplares em sites de livrarias virtuais.

"Em 2004, pouco depois do julgamento, lembro que vi livros da editora Revisão na banca no aeroporto de Salvador", conta Adriana Dias. "Avisei a Polícia Federal, o dono da banca foi detido, obrigado a retirar os livros e a pagar uma multa. São livros com conteúdo falso sobre a história e não deveriam ser vendidos, mas qualquer pessoa pode achar hoje em livrarias na internet, infelizmente."

Governadora muda discurso

Na coletiva realizada na manhã de terça-feira, o repórter Fábio Bispo, do The Intercept Brasil, perguntou à governadora interina Daniela Reinehr se esta concordava "com as ideias neonazistas e negacionistas sobre o holocausto" de seu pai.

Daniela evitou responder diretamente à pergunta e disse que "me cabe, como filha, manter a relação familiar em harmonia, independente das diferenças de pensamento".

O caso ganhou as manchetes de vários veículos de imprensa e também comentários em redes sociais, criticando o que consideraram uma "passada de pano" em ideias nazistas. A repercussão negativa fez Daniela se pronunciar novamente na quinta-feira (29/10), desta vez em nota*, onde diz ser "contrária ao nazismo, assim como sou contrária a qualquer regime, sistema, conduta ou posicionamento que vá contra os direitos individuais, garantias de segurança ou contra a vida das pessoas".

A reportagem da BBC News Brasil questionou a governadora interina, através da assessoria de imprensa, se ela teria lido as obras da editora Revisão que o pai indicava aos alunos, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Foto no Instagram mostra Daniela ao lado de várias pessoas dentro de sala de aula, entre adultos e crianças, todos enfileirados olhando para foto

Postagem de março na conta de Daniela no Instagram mostra a governadora aparentemente ao lado do pai em visita à escola Nossa Senhora da Salete

 

'O Brasil não passou por uma desnazificação', diz pesquisadora

O assunto nazismo não chega ser novidade no Brasil, muito menos em Santa Catarina. Em sua pesquisa, Dias encontrou 334 células nazistas em atividade no Brasil, sendo 69 delas em Santa Catarina. A antropóloga diz que a eleição do presidente Jair Bolsonaro deu ainda mais espaço a esses grupos, que apregoam supremacia racial e religiosa.

"Há grandes semelhanças na forma como o nazismo usava a religião para controlar o povo e como o governo Bolsonaro usa as igrejas aqui. É inegável também que muitos grupos e pessoas perderam qualquer pudor em expor pensamentos antissemitas e preconceituosos. Há uma permissividade maior com esses atos", afirmou a pesquisadora.

Com 84% dos moradores se autodeclarando de cor branca, segundo o Censo 2010 — maior percentual do país — e com uma fatia significativa de descendentes de alemães vivendo em várias cidades —, partes de Santa Catarina parecem ser um terreno fértil para a circulação de ideais simpáticos ao nazismo.

Contatado pela BBC News Brasil via whatsapp, Odair Batistello, diretor da escola estadual Nossa Senhora da Salete, onde Reinehr lecionou, não quis dar entrevista, mas enviou um áudio dizendo que o professor Reinehr é "um dos ícones da escola e que mais se identificaram com a [escola] Salete".

Em Blumenau, cidade do Vale catarinense que se orgulha de suas origens germânicas, um dos candidatos a vereador nestas eleições é Wandercy Pugliesi, professor de história conhecido por ter uma suástica pintada na piscina de casa e por ter dado o nome de Adolf ao filho.

Para Adriana Dias, o país inteiro possui células nazistas por conta da falta de uma divulgação adequada dos crimes praticados pelo regime liderado por Hitler.

"A Alemanha passou por um processo de desnazificação após a guerra, mas o Brasil não. Aqui alguns jornais falavam bem do nazismo até o governo Vargas determinar a mudança de posição. Então, do dia pra noite, os brasileiros mudaram de lado. É por isso que o nazismo é punido com rigor na Alemanha e aqui é algo aceitável", afirma Dias.

A reportagem da BBC News Brasil não conseguiu contato com o professor aposentado Altair Reinehr.

A governadora do Estado, Daniela Reinehr, disse que deve realinhar sua gestão ao governo do presidente Jair Bolsonaro e que revisará decretos sobre a pandemia, focando na retomada econômica. "Minha fala sempre foi de prevenção, de cuidado, mas sem prejudicar o setor econômico", disse. "Nunca fui a favor da generalização do fecha tudo. Eu acredito que precisamos cuidar dos doentes de acordo com o quadro clínico de cada um."

ÍNTEGRA DA NOTA DA GOVERNADORA INTERINA DANIELA REINEHR:

Antes de mais nada é preciso declarar que sou contrária ao nazismo, assim como sou contrária a qualquer regime, sistema, conduta ou posicionamento que vá contra os direitos individuais, garantias de segurança ou contra a vida das pessoas, e sinceramente, pensei ter deixado isso claro quando fui questionada durante entrevista coletiva concedida na terça-feira (27/10), independente das palavras usadas. Consigo entender a reação das pessoas ante o posicionamento que me imputaram, e principalmente porque isso aconteceu de forma injusta, a partir de uma atitude antiética, que apresentou um vídeo editado, com uma pergunta alterada. Sou amiga de Israel e dos Judeus, e qualquer ilação contrária não corresponde com a verdade.

Daniela Cristina Reinehr Governadora Interina do Estado de Santa Catarina

Florianópolis, 29 de outubro de 2020.

19
Nov20

Nota de Solidariedade a Vereadora eleita de Joinville Ana Lúcia Martins que sofre ataques e ameaças racistas nas redes

Talis Andrade

O SINTE vem a público manifestar sua integral solidariedade, à Professora Ana Lúcia Martins, eleita no último dia 15/11, para o cargo de Vereadora no Município de Joinville.

A Professora Ana Lúcia é a Primeira Mulher Negra eleita para a Câmara Municipal. E ao longo de toda a Campanha, foi alvo de manifestações Racistas, com base em intimidações violentas, feitas pelas mídias sociais conforme registros apresentados.

Por essa ordem, de elevada violência simbólica, que procura segregar a População Negra, o SINTE apela para que a Sociedade reaja com indignação.

Assim como também, exija rapidez e rigor das autoridades diante deste crime de ameaça de morte, motivada por Ódio Racial.

Mais um desses crimes no Paraíso Nazista, que Santa Catarina se transformou: Lugar de inseguranças físicas e morais, para as vidas das pessoas negras.

A imagem pode conter: 1 pessoa, texto que diz "Vai ter mulher negra na câmara! Vereadora Ana Lúcia Martins 13180 e 10 தade"

19
Nov20

Nota de Solidariedade a Vereadora eleita de Joinville Ana Lúcia Martins que sofre ataques e ameaças racistas nas redes

Talis Andrade

O SINTE vem a público manifestar sua integral solidariedade, à Professora Ana Lúcia Martins, eleita no último dia 15/11, para o cargo de Vereadora no Município de Joinville.

A Professora Ana Lúcia é a Primeira Mulher Negra eleita para a Câmara Municipal. E ao longo de toda a Campanha, foi alvo de manifestações Racistas, com base em intimidações violentas, feitas pelas mídias sociais conforme registros apresentados.

Por essa ordem, de elevada violência simbólica, que procura segregar a População Negra, o SINTE apela para que a Sociedade reaja com indignação.

Assim como também, exija rapidez e rigor das autoridades diante deste crime de ameaça de morte, motivada por Ódio Racial.

Mais um desses crimes no Paraíso Nazista, que Santa Catarina se transformou: Lugar de inseguranças físicas e morais, para as vidas das pessoas negras.

A imagem pode conter: 1 pessoa, texto que diz "Vai ter mulher negra na câmara! Vereadora Ana Lúcia Martins 13180 e 10 தade"

19
Nov20

Primeira vereadora negra eleita em Joinville é vítima de racismo e ameaças de morte

Talis Andrade

Ana Lúcia Martins é a primeira vereadora negra eleita em Joinville

 

Professora e vereadora eleita Ana Lúcia Martins (PT) tem sofrido ameaças nas redes sociais de grupo ligado à Juventude Hitlerista. "A gente mata ela e entra o suplente, que é branco”

 

por Igor Carvalho /Brasil de Fato 

Depois de tornar-se a primeira vereadora negra eleita da história de Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, no último domingo (15), a professora Ana Lúcia Martins tem sofrido ameaças nas redes sociais. Em uma das mensagens, uma pessoa afirma: “Agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco (sic)".

“Sabia que não seria fácil. Estava ciente de que enfrentaria uma certa resistência em uma cidade que elegeu apenas na segunda década do século 21 a primeira mulher negra. Só não esperava ataques tão violentos”, afirmou Martins, em suas redes sociais.

“Por meio de um perfil fake, recebi, por duas vezes, ameaças de morte, evidenciando que o problema central era eu ser a primeira mulher negra eleita da cidade. Esse perfil fake destila no Twitter todos os tipos de preconceitos e discriminações possíveis e, em diversas situações, deixa claro estar organizado com outras pessoas de Santa Catarina, em uma denominada ‘Juventude Hitlerista’”, denuncia Martins.

Ainda de acordo com a vereadora eleita, na noite de domingo (15), após a divulgação do resultado, suas redes sociais foram invadidas. Mais tarde, sua equipe recuperou as contas de Martins.

No texto em que ameaça a petista de morte, um fanático afirma, também, que "não há como comemorar uma petista no poder novamente em Joinville" e que o "PT não deveria existir mais". 

Histórico

Com 3.126 votos, a professora e servidora pública aposentada Ana Lúcia Martins foi eleita a primeira vereadora negra da história de Joinville. A eleição de Ana Lúcia também marca o retorno do PT de Joinville à Câmara de Vereadores, que não havia eleito parlamentares nas eleições municipais de 2016.

Ela foi a única vereadora eleita pelo PT na cidade. O partido disputou também a eleição majoritária com o candidato Francisco de Assis, que fez 10.495 votos. A cidade terá segundo turno, disputado entre o deputado federal Darci de Matos (PSD) e o empresário Adriano Silva (Novo).

CuritibaImage

Nota deste correspondente: Curitiba também elegeu sua primeira vereadora negra, a historiadora e ativista Ana Carolina Dartora, do PT. A candidata foi a terceira mais bem votada na capital do Paraná.

 

18
Nov20

La Croix evoca "sementes" de Marielle para falar do aumento de candidatas negras no Brasil

Talis Andrade

casa das pretas marielle.jpg

Demonstração de indignação após a morte de Marielle Franco. Rio de Janeiro, 22 de março de 2018.

REUTERS /Ricardo Moraes

 

por RFI
 

Com o título “Brasil: prefeituras confirmam avanço de candidatas negras e mulheres” , o jornal católico La Croix faz um balanço das eleições de 15 de novembro no Brasil para o público francês. O jornal, que tem uma correspondente em São Paulo, dá destaque também ao que chama de isolamento político de Bolsonaro.

La Croix abre a matéria dizendo que “os candidatos apoiados pelo presidente de extrema direita Jair Bolsonaro não conseguiram convencer os eleitores no primeiro turno das eleições municipais brasileiras em 15 de novembro. Por outro lado, candidatos negros e mulheres, herdeiros da ex-vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, compareceram durante a votação”.

“Os resultados das urnas, que caíram tarde da noite devido a um ataque informático, refletem o isolamento político do presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro. De outro lado, os partidos tradicionais de centro e de direita conservadora saem fortalecidos”, analisa La Croix.

O jornal fala ainda da perda de hegemonia do PT e das disputas no Rio e em São Paulo. “Apelidado de ‘bolo’, por um trocadilho inteligente, Guilherme Boulos eclipsou o candidato do PT a prefeito de São Paulo, assim como o do ‘filhote’ de Bolsonaro, o astro da televisão Celso Russomanno”, escreve La Croix.

“No Rio de Janeiro, o ex-pastor evangélico e prefeito em fim de mandato Marcelo Crivella estará presente no segundo turno, mas recebeu apenas 22% dos votos. Uma pontuação que não apaga o fato de a maioria dos candidatos apoiados pelo chefe de Estado ter perdido”, prossegue.

 

Mais e mais vozes negras

Outro destaque desta eleição municipal, constata o jornal, foi a forte presença de candidatos negros. Cerca de 277 mil candidatos se identificaram como negros, quase 50% do total. As mulheres afro-brasileiras se apresentaram 23% a mais este ano do que há quatro anos.

“Num país onde mais da metade dos habitantes se declara preto ou pardo, isso ainda é pouco”, escreve. Mas, relembra o La Croix,  uma lei do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aprovada em agosto, revisou para cima a distribuição de verbas de campanha a favor dos candidatos negros.

“Essa medida influenciou o debate público, mas não veremos realmente os efeitos até as próximas eleições”, acredita Marcelle Decothe, do Instituto Marielle Franco, criado em janeiro de 2020 para dar vida ao legado político desta vereadora e ativista dos direitos humanos e LGBT, assassinada em março de 2018 aos 38 anos, e que promove candidatos negros às eleições.

 

Sementes de Marielle Franco

marielle-e- pistoleiros.png

 

A morte de Marielle Franco deu origem a candidaturas de mulheres negras, poeticamente chamadas aqui de “sementes” de Marielle.

“Acabamos de publicar o resultado de um estudo sobre a violência política no Brasil contra as mulheres negras”, acrescenta Marcelle Decothe, em entrevista ao La Croix.

A violência institucional é também a da falta de recursos para se candidatar, explica. Quando essas mulheres não podem pagar para fazer campanha, isso mantém a desigualdade, continua.

"No primeiro turno, Monica Benício, que compartilhava a vida de Marielle Franco, foi eleita vereadora do Rio "por um mandato feminista e antifascista", escreve, citando Decothe.

 
16
Nov20

Carol Dartora, do PT, a primeira vereadora negra da história de Curitiba

Talis Andrade

Image

A historiadora e ativista Ana Carolina Dartora, do PT, a primeira mulher negra vereadora da história de Curitiba. A candidata foi a terceira mais bem votada na capital do Paraná.

Carol Dartora VOTE 13133
@caroldartora13
Elegemos a primeira vereadora negra em Curitiba, uma cidade que rejeita sua negritude e que agora irá escurecer sua Câmara!
 
Carol Dartora VOTE 13133
@caroldartora13
Fizemos história! Sou muito grata por cada um e cada uma que acreditaram nessa campanha e vamos transformar uma Curitiba de todas e todos
Mídia NINJA
@MidiaNINJA
 
Com mais de 300 anos da Câmara Municipal de Curitiba, a cidade elege sua primeira vereadora mulher negra. Professora e historiadora, @caroldartora13 foi candidata pelo PT e fez história nas eleições de 2020. Parabéns, Carol!

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