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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

12
Set23

Quem pode ler as notícias sobre a tragédia no Rio Grande do Sul?

Talis Andrade

Menos de uma semana após o ciclone, jornais nacionais não dão destaque ao assunto e matérias de portais são inacessíveis para não-assinantes. Foto: Marinha do Brasil/RS

 

Por Natália Huf

objETHOS

Neste domingo, 10 de setembro, buscando matérias sobre a tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul nos principais jornais do país, duas coisas me chamaram a atenção: a ausência do tema nas páginas iniciais dos portais que se pretendem nacionais e a barreira do paywall em grande parte dos textos, até mesmo no maior portal digital gaúcho. Por diversos motivos, não sou assinante destes veículos, o que me deixa “do lado de fora” de muitas matérias no dia a dia; mas, em uma situação como a do ciclone que matou cerca de 40 pessoas até o momento e deixou inúmeros desabrigados, seria de se esperar que os jornais mantivessem o acesso aberto às informações.

Esta não é apenas a reclamação de uma pessoa que mora na região Sul e tem familiares que habitam próximo a cidades atingidas. Para além destes vieses, o questionamento sobre o paywall que impede a leitura das notícias sobre o ciclone perpassa o olhar sobre acesso à informação de interesse público, critérios de noticiabilidade e modelo de negócio adotado pelos veículos. Vamos por partes.

Repercussão

Em capítulo no livro Critérios de noticiabilidade – Problemas conceituais e aplicações (Insular, 2014), a pesquisadora Gislene Silva elenca 13 autores e as categorias de valor-notícia que cada um deles apresenta em sua obra (p. 62). Destes, absolutamente todos possuem ao menos uma categoria que justifica a repercussão do ciclone enquanto fato jornalístico: para Stieler, o fator proeminência; Lippman, impacto; Bond, catástrofe, drama e número de pessoas afetadas; Galtung e Ruge, amplitude e negativismo; Golding-Elliot, drama, importância e atualidade; Gans, importância; Warren, atualidade e conflito; Hetherington, importância, drama, número de pessoas envolvidas; Shoemaker e colegas, impacto; Wolf, número de pessoas envolvidas; Erbolato, impacto e interesse humano; Chaparro, atualidade e dramaticidade; e Lage, intensidade. Com uma análise mais detalhada de cada um dos conceitos apresentados por cada autor, talvez seja possível encaixar esse fato em ainda mais categorias. Portanto, o que justifica a ausência de matérias sobre o ciclone nas capas (virtuais e impressas) dos quality papers brasileiros no fim de semana após a tragédia?

O ciclo das notícias é cada vez mais rápido, especialmente considerando a circulação nas redes sociais. Embora tenha sido destaque nos dias imediatamente seguintes ao ciclone, causa espanto que um evento de tamanha proporção não tenha sido sequer  mencionado na capa da Folha de S. Paulo deste domingo, nem d’O Estado de S. Paulo ou d’O Globo, enquanto todos os três dão destaque à tragédia no Marrocos, que é manchete da Folha e a foto de capa dos outros dois. A intenção aqui não é, de forma alguma, “comparar” eventos catastróficos e tentar determinar qual deles é mais ou menos importante. Mas é curioso que, quando situações de impacto ocorrem fora do eixo Rio-São Paulo, elas ganhem destaque por pouco tempo nos veículos de maior abrangência do país. Não foi diferente com o apagão que atingiu 13 das 16 cidades do Amapá em 2020, por exemplo, que gerou discussão em torno do porquê o caos no estado nortista teve menos espaço no noticiário nacional do que as eleições americanas, que ocorreram na mesma época.

Modelo de negócio

Em relação ao paywall, cito a pesquisadora e colega do objETHOS Lívia Vieira, que escreveu em comentário publicado em março deste ano sobre como essa ferramenta vem sendo bem-sucedida desde sua implementação pelos pioneiros The New York Times e Financial Times, no início da década passada. O modelo foi adotado por grande parte dos veículos, mas segue com questões éticas que precisam ser observadas pelas empresas, como destaca Lívia: a impossibilidade dos leitores de assinar todos os veículos, as dificuldades impostas ao jornalismo local, a desinformação que circula livremente (e sem paywall) e, em especial, a restrição a informações de interesse público.

O pesquisador Alexandro Mota, em capítulo do livro Covid-19 e a comunicação (Cegraf UFG, 2021), destaca o momento da pandemia em que 15 veículos brasileiros suspenderam o paywall das notícias sobre Covid-19: “Os valores sociais acima dos de mercado no contexto de uma pandemia nos ajudam a pensar como, em algumas situações, o espírito jornalístico ‘clássico’, aquele mais amplamente propagandeado pelo campo como legítimo, tem oportunidade de se alinhar à prática, encontra terreno propício para o jornalismo ser o que ele costuma prometer – sem aqui anular ou hierarquizar outras formas de ser e de poder ser do jornalismo” (p. 425).

Até mesmo o portal Gaúcha ZH, da RBS, limita o acesso às matérias sobre as enchentes no estado. Imagem: GaúchaZH/Reprodução

 

É certo que a pandemia teve uma proporção muito maior, afetando todos os países do mundo. No entanto, aquele foi um momento em que diversos veículos deixaram de diferenciar a categoria leitor assinante da “subcategoria” de não-assinante e permitiu acesso livre a uma maior parcela de conteúdo, que foi consumida e disseminada pelas pessoas: em 2020, primeiro ano da pandemia, em meio ao que muitos afirmam ser uma grande crise de credibilidade das instituições, TVs e jornais lideravam o índice de confiança em relação a informações sobre o vírus.

Situações de interesse público, catástrofes e com um grande número de pessoas afetadas, para retomar os critérios de noticiabilidade, demonstram que o jornalismo continua ocupando uma posição de referência para grande parte do público. Além de investir em jornalismo de qualidade, é importante também que as empresas jornalísticas revisitem suas estratégias de modelo de negócio e identifiquem momentos em que o interesse humano deve estar à frente da lógica de mercado.

Referências

MOTA, A. O discurso metajornalístico como regulador do modelo paywall na pandemia. In: OLIVEIRA, R. C.; CHRISTINO, D.; MACHADO JÚNIOR, E. V. (Orgs.). Covid-19 e a Comunicação. Goiânia: Cegraf UFG, 2021. p. 404-430. Disponível em: https://www.academia.edu/50414483/O_discurso_metajornal%C3%ADstico_como_regulador_do_modelo_paywall_na_pandemia. Acesso em: 10 set. 2023.

SILVA, G. Para pensar critérios de noticiabilidade. In: SILVA, G.; SILVA, M. P.; FERNANDES, M. L. (Orgs.). Critérios de noticiabilidade: Problemas conceituais e aplicações. Florianópolis: Insular, 2014. p. 51-70.

27
Jun22

Colunas de fofoca e a irresponsabilidade com a vida privada: Leo Dias e Klara Castanho

Talis Andrade

 

klara.png

Em carta aberta divulgada em seu perfil no Instagram na noite de sábado (25), Klara faz o relato sobre a violência que sofreu

 

por Natália Huf /objETHOS

Uma menina de 11 anos grávida de um estuprador, o fim do direito ao aborto nos Estados Unidos após uma decisão da Suprema Corte do país, o direito à privacidade e sigilo de justiça da atriz Klara Castanho violados: ser mulher não é fácil, mas a última semana provou que sempre pode piorar.

Em meio a tantos acontecimentos amplamente noticiados pela mídia brasileira, quero me ater ao último: a história de Klara Castanho, atriz de 21 anos que descobriu uma gravidez resultante de um estupro e tomou a decisão de entregar voluntariamente a criança para adoção. Em carta aberta divulgada em seu perfil no Instagram na noite de sábado (25), Klara faz o relato sobre a violência que sofreu e a descoberta da gestação: “Meu ciclo menstrual estava normal, meu corpo também. Eu não tinha ganhado peso nem barriga”. 

Todas as informações que constam no relato de Klara – o medo, a violência obstétrica sofrida no atendimento médico, a decisão de dar a criança para adoção, o que ela sentiu e como lidou com tudo isso – se tornaram públicos não por escolha da atriz, mas como uma forma de “se explicar” perante os ataques que passou a sofrer após o colunista Leo Dias, do portal Metrópoles, e a youtuber e pré-candidata a deputada federal pelo Republicanos/RJ Antonia Fontenelle exporem publicamente a gravidez e a decisão de Klara.

Em sua coluna no portal Metrópoles, Leo Dias publicou um texto intitulado “Estupro, gravidez indesejada e adoção: a verdade sobre Klara Castanho”, que foi excluído após a repercussão negativa nas redes sociais. Mas, cerca de dez dias antes de expor Klara, o colunista disse, em entrevista ao The Noite – programa de entrevistas do SBT comandado por Danilo Gentili – que sabia de informações “inacreditáveis” sobre uma atriz (sem citar nomes) e que “a conta dela iria chegar, pois envolve mexer com vidas”. Então, na última semana, divulgou a matéria no espaço da coluna.Klara Castanho? Leo Dias disse que atriz teria 'carma' por 'maldade'

Leo Dias no programa The Noite. Foto: Reprodução/YouTube

 

Uma gravidez indesejada resultado de estupro e a decisão de fazer a entrega voluntária do bebê para adoção são parte da vida privada, e não da vida pública da atriz. Inclusive, o processo de entrega voluntária, previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é sigiloso e protege a privacidade tanto da mulher quanto da criança. No caso de Klara Castanho, o primeiro “desvio ético”, para usar um eufemismo, foi de uma profissional da saúde – a enfermeira que a abordou após o parto, fazendo perguntas e ameaças, como ela relata na carta aberta: “Imagina se tal colunista descobre essa história”. O hospital divulgou o nome de Klara, o local e o horário de nascimento da criança, todas informações que deveriam estar sob proteção legal. Mais uma para a série de violências que uma jovem de 21 anos vem sofrendo.

Assim como o texto da coluna, as publicações promovendo a história publicada no portal também foram removidas do perfil no Instagram do colunista. No Twitter, a diretora de redação do Metrópoles, Lilian Tahan, se pronunciou na noite de sábado (na imagem abaixo), mas foi questionada por colegas por ter curtido comentários críticos à matéria, como mostra a Revista Fórum.

Tweets da diretora de redação do portal Metrópoles. Foto: Reprodução/Twitter

 

A youtuber Antonia Fontenelle, em post no Instagram, escreveu: “Meus B.Os eu assumo, meus filhos também. Parir uma criança e não querer ver e mandar desovar pro acaso É CRIME SIM, só acha bonitinho essa história de adoçao quem nunca foi em um abrigo, ademais quando se trata de uma criança negra. O nome disso é ABANDONO DE INCAPAZ” [sic]. Uma hora depois, Klara Castanho divulgou a carta aberta com seu relato. Em meio ao entretenimento, a cultura de celebridades, a busca por likes e engajamento, onde fica a ética profissional e o cuidado com a vida privada das pessoas?

Afinal, e é absurdo que ainda seja necessário explicar isso a essa altura, não é por uma pessoa ter uma vida pública que tudo sobre ela precisa ser noticiado e virar assunto na internet, na televisão e nos jornais. A repercussão do caso está em diversos portais de notícias – Estadão, G1, Terra, entre outros -, e o que se tornou o “Caso Klara Castanho” (cartola utilizada pelo site Revista Fórum) tomou proporções colossais. O que deveria ser algo da vida privada se tornou parte do debate público após ter sido publicado por um colunista, expondo a dor de uma violência sofrida e questionando a decisão da entrega voluntária, processo que é feito legalmente e com acompanhamento psicológico, técnico e jurídico.

Em notas divulgadas na tarde de domingo (26), tanto o portal Metrópoles quanto Leo Dias pedem perdão à Klara Castanho. No texto assinado por Lilian Tahan, Priscilla Borges, Otto Valle e Márcia Delgado, consta a explicação formal do veículo: “A matéria foi ao ar por volta das 21h e retirada duas horas depois. (…) Em um veículo que publica em torno de 400 conteúdos por dia, erros, lamentavelmente, podem ocorrer. Tanto de informação, quanto de avaliação.”. Já o colunista se defende dizendo que a publicação foi feita após a divulgação da carta aberta de Klara e pede desculpas dizendo que não entende a dor que ela sentiu com todo o ocorrido. Infelizmente, o estrago já foi feito. Como dizem os editores do Metrópoles, o espaço da coluna tem autonomia, mas o veículo precisa se responsabilizar pelo que é publicado no portal. 

metrópoles.png

 

Nota divulgada pelo portal Metrópoles no domingo (26). Foto: Metrópoles/Reprodução

 

Hoje, é inegável que a cultura de celebridades permeia o dia a dia de todos aqueles que estão conectados à internet. A possibilidade de acompanhar de perto o dia a dia de famosos, interagir com ídolos nas mesma plataformas em que interagimos com os nossos amigos e o sentimento de proximidade com aqueles que Edgar Morin uma vez definiu como “olimpianos” fazem com que muita gente esqueça que o que vemos nas redes é apenas um fragmento muito bem curado do que é a verdadeira “vida real”. Nada mais sintomático disso do que a proliferação de perfis de fofoca nas redes sociais, como Twitter e Instagram, que publicam informações nem sempre verdadeiras sobre os famosos e as sub-celebridades. Mas, quando um portal de notícias dá espaço para que um colunista escreva sobre aspectos da vida privada de alguém, isso é levado para um outro patamar: se torna mais do que essa relação entre fã e ídolo, passando a fazer parte do debate público.

O que motiva um site de notícias a publicar esse tipo de conteúdo? Quais valores-notícia validam essas pautas? O objetivo aqui não é condenar e crucificar o jornalismo de entretenimento e de celebridades, e sim questionar se, em casos como esse, é possível mesmo chamar de jornalismo esse tipo de atuação de colunistas, apresentadores e outras figuras da mídia. Quando a informação não passa de uma fofoca, é simplesmente lógico que não deve ter espaço nos jornais. Quando essa fofoca impacta diretamente a vida das pessoas envolvidas, muito menos. A publicação irresponsável de informações legalmente protegidas afeta diretamente a vida da mulher e da criança em questão; essa quebra de sigilo configura muito mais do que apenas uma “exposição”. Se, como diz Fontenelle, a entrega voluntária para adoção é “abandono de incapaz”, do que podemos chamar o que o colunista da Metrópoles fez ao expor a intimidade de uma mulher de 21 anos que teve uma gravidez indesejada após um estupro?

Na mesma semana da revogação pela Suprema Corte dos EUA da decisão do caso Roe vs. Wade, que, em 1973, garantiu às mulheres grávidas a liberdade e autonomia para interromper a gestação sem interferência do Estado, situações como a exposição da vida privada de Klara Castanho e a gravidez da menina de 11 anos mostram claramente que nenhum direito é, de fato, garantido. Como bem atestou Simone de Beauvoir, “basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. A decisão da mulher – seja de abortar, entregar à adoção, ou mesmo de seguir com a gestação – parece ser sempre a escolha errada, independentemente de qual seja.

Além disso, a preocupação com a “vida” é bastante relativa. Quando a vida em questão é a de uma mulher, o discurso pró-vida muda, seja uma jovem de 21 anos ou uma criança de 11. O jornalismo, que tem espaço privilegiado no debate público, tem também o poder de colocar certos temas em debate; no entanto, a responsabilidade de apurar bem a informação, ouvir as partes envolvidas e avaliar criteriosamente as pautas muitas vezes são deixados de lado na busca por cliques, comentários, retweets e burburinho. Quando um jornal como o Metrópoles autoriza a publicação de um texto como o do colunista, expondo uma informação sigilosa, irresponsabilidade é uma palavra que parece pequena para definir a situação. E quem paga o preço?

 

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