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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

08
Jan22

Peça 2 – o remédio para crianças com câncer

Talis Andrade

Nani Humor: PARA MINISTRO RICARDO BARROS, PACIENTES IMAGINAM DOENÇAS.

 

Xadrez do mais escabroso crime de corrupção

04
Jan22

Bolsonaro e sua “vitimização”

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Bem, ficamos de novo de “alarme falso” de uma complicação séria de saúde do sr. Jair Bolsonaro e de mais um caso de Lactopurga mais caro do planeta.

A essa altura, já pouco importa se há problemas reais – e certamente há, com o histórico de cirurgias e a vida loca das farras praiana do ex-capitão, regadas a pão com leite Moça e frituras de toda espécie – o mais importante é observar a saída pela via hospitalar nos maus momentos políticos em que Bolsonaro se mete.

Vai para um leito, posa de pijama e sonda nasogástrica e alivia a pressão política.

E sobra a brasa da facada – fake ou faca mesmo – e retoma a cantilena de que a esquerda “quer sua morte”, ajudada pela irritação de alguns que vão para as redes dizer isto.

É bom lembrar que tudo – inclusive o que possa parecer ser mais desmiolado – é planejado, quando se trata de Jair Bolsonaro. Até as bombas nas latrinas do quartel com que pensou iniciar sua carreira política tinham croquis para serem colocadas.

Não acha que exista contradição em dançar um animado funk ou desfilar com um jet ski e, em seguida, ficar gemebundo em um leito hospitalar.

O papel de vítima, porém, tem duração limitada e efeitos cada vez menores.

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27
Dez21

Dinheiro do combate à Covid pagou comida boa e farta de militares

Talis Andrade

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Enquanto isso, 116 milhões de pessoas vivem com algum grau de insegurança alimentar e ao menos 19 milhões passam fome

 
 
Filé mignon, picanha, bacalhau, camarão, salmão e bebidas alcóolicas não frequentam a boia servida a soldados e militares de baixa patente. É comida para generais e oficiais graduados.
 

Da rubrica do Orçamento “Enfrentamento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional decorrente da Covid”, só deveria sair dinheiro para compra de itens essenciais.

E daí? Daí que não foi assim no Ministério da Defesa em 2020, informa levantamento sigiloso feito pela Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas do Tribunal de Contas da União.

Segundo a repórter Constança Rezende, da Folha de São Paulo, a Secretaria constatou que, dentre os órgãos superiores dos três Poderes, a Defesa foi o que mais gastou com itens não essenciais.

 

Capa do jornal Folha de S.Paulo 27/12/2021

 

Resposta do Ministério da Defesa por meio de sua assessoria de imprensa: as atividades militares foram mantidas na pandemia e faz parte delas a alimentação das tropas. Resposta capenga.

Os auditores esperavam que, em consequência do regime telepresencial de trabalho, houvesse redução de gastos com alimentação, como houve nos ministérios da Educação e da Saúde.

Trechos do relatório dos auditores:

“Não parece razoável alocar os escassos recursos públicos na compra de itens não essenciais, especialmente durante a crise sanitária, econômica e social pela qual o país está passando, decorrente da pandemia”.

“Ressalte-se que, dos recursos destinados ao combate à pandemia Covid-19 utilizados indevidamente para aquisição de itens não essenciais (aproximadamente R$ 557 mil), 96% foram despendidos pelo Ministério da Defesa”.

“Além de não servir à finalidade a que se destina, a contratação desse tipo de insumo fere o princípio da moralidade previsto no art. 37 da Constituição Federal de 1988, o qual está diretamente relacionado à integridade nas compras públicas”.

Diz ainda o relatório que a aquisição de comida por órgãos públicos “deve ter por finalidade o fornecimento de alimentação saudável, balanceada e adequada para suprir as necessidades nutricionais básicas de seu público-alvo”.

Mais da metade da população brasileira — 116 milhões de pessoas — vive com algum grau de insegurança alimentar. Ao menos 19 milhões passam fome, situação agravada pela pandemia e pela crise econômica do país.

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13
Dez21

A destruição da cultura brasileira é a destruição do país

Talis Andrade

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por Juca Ferreira

- - -

Uma das estratégias usadas pelos militares na guerra é a que os especialistas chamam de cerco e aniquilamento. Como o nome já anuncia, essa estratégia é usada quando a missão é destruir os inimigos, não deixar pedra sobre pedra no território. Para chegar a esse objetivo final cercam, enfraquecem, acossam, perseguem, machucam e atormentam até o aniquilamento total.

É essa estratégia que está sendo posta em prática pelo atual governo em sua relação com a cultura brasileira.

Bolsonaro e os que apoiam o governo abertamente, ou desde as sombras, querem “passar a cultura brasileira a limpo”, como se toda a dimensão simbólica do país fosse uma mancha a ser removida com uma água sanitária ideológica, com mecanismos de censura, perseguição e asfixia financeira.

Todo o setor cultural já sente os efeitos dessa belicosidade. Uma tragédia, em meio à barbárie geral que estão tentando implantar no país.

A extinção do Ministério da Cultura, a tentativa de substituir o Iphan por uma superintendência, o escárnio na Palmares, o esvaziamento de todas as instituições culturais, o etnocentrismo doentio em relação aos povos indígenas, a suspensão ou esvaziamento das políticas culturais, dos serviços e mecanismos de financiamento, estímulo e apoio à produção cultural, as tentativas de perseguição e censura, o escárnio e a sistemática banalização do mal etc…

A estratégia de cerco e aniquilamento só é posta em prática quando os comandantes das forças de ocupação desejam atingir o cenário de terra arrasada. E, em geral, a destruição é acompanhada de uma alternativa para ocupar o terreno alvo da destruição. O problema é que o projeto neoliberal/autoritário de direita não tem o que por no lugar da nossa música, do nosso cinema, das artes cênicas, das manifestações culturais tradicionais, da nossa literatura, da nossa dança e de toda a rica e complexa diversidade cultural brasileira.

A ignorância, a mediocridade, a burrice e o vazio distópico está dando as cartas no Brasil, mas não são capazes de produzir um projeto de nação, de propor um futuro, de produzir uma outra cultura.

O resultado é destruição, demolição, desconstrução, tristeza, pessimismo e desalento.

Quem poderá herdar esse cenário, caso ele permaneça por mais tempo, é a indústria cultural globalizada e suas megaempresas supranacionais. Somos um grande mercado cultural, temos talento de sobra, criatividade e uma certa infraestrutura cultural instalada.

E já começa a se desenhar um cenário – no cinema por exemplo- de transformar nossos artistas, técnicos e toda a infraestrutura construída com muito sacrifício pelo setor, por décadas, com o apoio dos nossos governos, em meros prestadores de serviços para a indústria cultural globalizada.

Nossa soberania como nação, nosso futuro como povo, nossa singularidade e grandeza cultural está ameaçada. A guerra cultural não é um capítulo à parte da tragédia que estamos vivendo. É a mãe de todas as batalhas!

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25
Out21

A 3ª via e o projeto salvacionista e antinacional do lavajatismo

Talis Andrade

 

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por Milton Alves

Na última quarta-feira (20), o plenário da Câmara dos Deputados rejeitou a ampliação do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) de 14 para 17 vagas. Um substitutivo apresentado pelo deputado Paulo Magalhães (PSD-BA) à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 5/21, originada do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), obteve 297 votos favoráveis contra 182 e 4 abstenções, mas faltaram 11 votos para obter o mínimo de apoio necessário –, de 308 deputados.

O placar apertado é revelador da confusão que o tema gera entre os parlamentares, inclusive os de esquerda, que foram bombardeados por uma campanha midiática qualificando a PEC-521, de "PEC da vingança" contra o Ministério Público.

A Rede Globo mobilizou artistas e celebridades para condenar a proposta, abusando do discurso contra a interferência dos políticos e da necessidade da independência do Ministério Público.

Os 11 votos que faltaram para aprovação do substitutivo foram de parlamentares de esquerda. A bancada do PSOL e a maioria dos deputados do PDT e PSB votaram contra a PEC. PT e PCdoB fecharam questão a favor do substitutivo, que defendia maior controle e transparência do MP.

Sem dúvida o fogo de barragem das organizações corporativas vinculadas ao MP e mais a campanha midiática criaram um clima para a rejeição da PEC. É o que explica a posição adotada pela totalidade da bancada do PSOL e as abstenções de duas parlamentares do PCdoB e da única abstenção do PT.

A PEC formulada originalmente pelo deputado Paulo Teixeira visa conter os abusos e promove uma maior transparência no funcionamento do CNMP, que se transformou num aparelho corporativo e de autoproteção dos promotores, acobertando os delitos ocorridos nas diversas instâncias do MP. O caso mais lembrado pelo autor da PEC foi a atuação da força-tarefa da operação Lava Jato.

O texto original da PEC-5 ainda será objeto de apreciação na Câmara dos Deputados e, mais uma vez, será alvo de intensa pressão por parte do lavajatismo, que tenta ganhar algum fôlego político no momento.

A 3ª via e o lavajatismo

Em crise e fragmentada, a direita tradicional – ou velha direita neoliberal – ainda patina na busca de uma candidatura para unificar o baronato da Faria Lima. O pífio desempenho nas últimas pesquisas eleitorais de Doria (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Eduardo Leite (PSDB) e Mandetta (DEM) animou as viúvas da Lava Jato, que defendem a candidatura do ex-juiz Sergio Moro. Ele até fez um anúncio de filiação ao Podemos em 10 de novembro.

No vácuo entre a anemia eleitoral dos candidatos da velha direita e o desgaste gradual do bolsonarismo, a 3ª via aposta na ressurreição da cruzada da Lava Jato contra Lula e o presidente Bolsonaro, agitando a surrada bandeira do “combate” à corrupção, ao sistema político corrompido e prometendo privatizar o que restou da estrutura estatal e pública no país após o golpe de 2016. O conteúdo da mensagem da virtual candidatura de Moro é a mesma da República de Curitiba: punitivismo judicial classista e neoliberalismo.

Apesar do desgaste de Moro, a experiência de outros países já demonstrou a possibilidade real do surgimento de uma candidatura reacionária de negação da política — pretensamente contra todos. Bolsonaro mesmo surfou nessa onda em 2018.

Além disso, o lavajatismo é também uma corrente de opinião de extrema direita, que apela para um discurso de caráter salvacionista e autoritário, atraindo o apoio dos segmentos mais abastados da classe média e a escória militante desgarrada do bolsonarismo, agrupados em movimentos como MBL, Vem Pra Rua, Laços pelo Brasil, Movimento Contra a Corrupção e das entidades de representação do aparato judicial e da alta burocracia federal.

Discurso reciclado sobre o legado da Lava Jato

Órgãos da mídia corporativa – principalmente a Rede Globo e Folha de São Paulo – apresentam os crimes da Lava Jato como simples desvios da “rota positiva” da operação no combate à corrupção no interior do estado brasileiro. Segundo a mídia pró-Lava Jato, a experiência foi positiva e que um balanço da operação não pode abrir caminho para a volta da impunidade dos agentes públicos. Ou seja, o mesmo discurso favorável ao lavajatismo, reciclado por um tom mais suave após as revelações dos métodos criminosos praticados por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

Vale lembrar que as ações da Lava Jato desembocaram na criminalização de partidos e lideranças políticas, que teve como maior expressão a campanha inédita de lawfare contra um líder político brasileiro – o ex-presidente Lula -, condenado e preso sem provas por 580 dias. O encarceramento “preventivo” de executivos de empresas privadas e públicas, as delações forjadas, as conduções coercitivas ilegais, as prisões filmadas, os vazamentos seletivos para a Rede Globo, a falsificação de documentos e a espionagem de advogados de defesa dos acusados foram alguns dos mecanismos criminosos utilizados pela operação.

A Lava Jato legou ainda um enorme passivo na economia do país: sob o pretexto do combate à corrupção, provocou a implosão de setores econômicos inteiros, afetando a indústria da construção civil e de infraestrutura pesada, a indústria naval, o setor químico e a cadeia produtiva de petróleo e gás.

O enfrentamento ao lavajatismo é uma componente do esforço político da esquerda e dos trabalhadores para derrotar o projeto de recolonização neoliberal aplicado pela velha direita e pelo bolsonarismo.

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18
Out21

Beato Salu, vítima da hipocrisia nacional

Talis Andrade

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por Paulo Nogueira Batista Jr

O colunista, mesmo o quinzenal, se vê às voltas, de vez em quando, com o espectro da falta de assunto. Sobre o quê, meu Deus, escrever hoje? Indagamos, aflitos. Quase todos os assuntos parecem esgotados, exaustos e exauridos. E dos que sobram alguns parecem arriscados demais. 

No tempo do Nelson Rodrigues, e antes no do Eça de Queiroz, era muito diferente, leitor. Sempre havia, em Túnis, um Bei, obeso, obsceno e impopular. E o cronista tinha o recurso de arrasar o Bei, sem cerimônia. E era uma delícia desancá-lo, sem qualquer risco, na certeza prévia da total impunidade. O Bei morava longe, e ele e seus assessores eram completamente analfabetos na nossa querida língua portuguesa. 

Mas há solução para tudo. Temos aqui à mão o Paulo Guedes, o pitoresco ministro da Economia do nosso país. Verdade que não é gordo, nem propriamente obsceno, e fala português fluentemente (sem sotaque físico, só espiritual). Tem, entretanto, alguns pontos em comum com o Bei de Túnis – é impopular e obsceno (figurativamente, falando). A impopularidade decorre, por assim dizer, da indecência, das suas ideias e das suas políticas; e podemos, portanto, tratar esses dois aspectos de uma só vez. 

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Ultraliberalismo, um ponto fora da curva

Em pleno século 21, coube ao Brasil a infelicidade inesperada de ter no comando da sua economia um economista ultraliberal. Quem poderia prever? O brasileiro não era dado a extremismos. Os ultraliberais sempre foram raros entre nós. Os economistas brasileiros, tanto à esquerda como à direita, tendiam a certo ecletismo. Faziam as suas combinações e sincretismos, misturando meio a esmo liberalismo, keynesianismo e, às vezes, pitadas de socialismo. Segundo os nossos poucos ultraliberais, era por isso mesmo que a economia brasileira não decolava.

Eis que de repente aparece, triunfante, Paulo Guedes, um Chicago oldie, como ele mesmo se autoqualificou em momento de bom humor. Formado anos 1970 na Universidade de Chicago, Guedes é um doutrinário. Talvez deva dizer “era”, e já explico por quê. Na década de 1980, quando começou a tomar parte ativa e exaltada do debate público brasileiro, recebeu a alcunha de “Beato Salu”, personagem de novela da TV da época, um fanático que vagava pelas ruas anunciando o fim do mundo. Se não me falha a memória, foi o Belluzzo quem lhe pespegou o apelido certeiro.

Por incrível que pareça, antes de concentrar em suas mãos, todas as rédeas da política econômica, Guedes nunca tivera uma passagem pelo serviço público! Saíra da academia para o mercado financeiro. E, depois de décadas no mercado, seguiu impávido para Brasília. Direto da Faria Lima para o ministério mais complicado do planeta – com o agravante de que passou a deter mais poderes e responsabilidade do que os seus antecessores, uma vez que ao Ministério da Fazenda foram incorporados Planejamento, Indústria e Comércio e, inicialmente, Trabalho. Um superministro, portanto, sem experiência de setor público! Episódio digno dos capítulos mais descabelados do realismo fantástico latino-americano. 

Mas vamos deixar a sua trajetória profissional de lado e tratar, primeiro, do aspecto estritamente doutrinário. Nem sempre se percebe, fora dos meios acadêmicos, que o departamento econômico da Universidade de Chicago, pátria mãe do ultraliberalismo, é um ponto fora da curva em termos do establishment econômico internacional. Na maioria das principais universidades dos EUA, ensina-se uma versão da economia em que predomina, sim, o liberalismo, mas sem exclusão de elementos keynesianos. Em outras palavras, aceita-se alguma presença do Estado na economia para mitigar tendências que o mercado exibe quando deixado à própria sorte, especialmente instabilidade macroeconômica e concentração da renda. A defesa do Estado mínimo, a rigor, circunscreve-se a Chicago e algumas de suas subsidiárias acadêmicas.

O ultraliberalismo de Chicago, conhecido também como “fundamentalismo de mercado”, teve o seu auge em termos de influência na década de 1970, ainda na época de Milton Friedman, mas colheu derrotas sucessivas desde então. As primeiras e mais fragorosas, no início da década de 1980, na implementação do modelo de política monetária propugnado pelos monetaristas. Tendo fracassado justamente nesse assunto – moeda! – os monetaristas, ficaram um pouco desmoralizados e inseguros. Foram tantas as decepções que alguns dos seus mais destacados teóricos – Robert Lucas e Thomas Sargent, inclusive – se refugiaram na torre acadêmica de marfim, dando a entender, ou até dizendo, que a teoria nada tinha a dizer de seguro ou útil sobre a realidade da economia. Esse purismo contribuiu para que os economistas de Chicago tenham tido papel modesto no debate público sobre economia nas décadas recentes. Desfecho irônico para uma escola que se consagrara com o ativismo prático de um Milton Friedman.

Brasil na contramão das tendências internacionais

No plano da política econômica e em organismos internacionais como o FMI, passaram a desempenhar mais influência, nas décadas recentes, escolas como as de Harvard e do MIT– que pregam um liberalismo não tão puro e que aceitam alguma presença do Estado, embora concedendo centralidade à ação dos agentes privados e ao funcionamento dos mercados. O chamado Consenso de Washington e a agenda neoliberal que dominaram desde a década de 1980 até a primeira década do século atual, estão muito mais próximos desse liberalismo mitigado do que do ultraliberalismo ensinado em Chicago.

Ironicamente, nos últimos anos, o liberalismo econômico mitigado de Harvard e MIT também entrou em crise. Mais do que crise: sofreu uma sucessão de choques que praticamente o liquidaram. Já não é mais aceito nem nos EUA, seu país de origem. A derrocada começou em 2008, quando estourou a crise do Lehman, provocando o fim da crença na viabilidade de um sistema financeiro privado autorregulado e submetido apenas a controle e supervisão leves das autoridades públicas. Em paralelo, a concentração da renda e da riqueza, que resultou em grande parte, da aplicação da agenda neoliberal levou a uma crise da democracia, contribuindo para a eleição nos EUA e em outros países desenvolvidos de líderes autoritários como Donald Trump, sem qualquer compromisso com o liberalismo econômico e propensos à improvisação e ao pragmatismo selvagem. Em 2020, veio o choque da pandemia da Covid-19, uma dramática demonstração adicional de que as economias não podem prescindir de um Estado forte, atuante, com instrumentos variados, inclusive em termos de políticas industriais nacionais. Finalmente, em 2021, Joe Biden enterrou de vez o neoliberalismo, ao assumir com um programa econômico intervencionista e distributivista, de corte keynesiano e rooseveltiano. Se cruzar na rua com o neoliberalismo, Biden nem cumprimenta. 

Pois bem, justo neste contexto, é que chega a Brasília o nosso Beato Salu. O timing não poderia ser pior. Com ele, o Brasil colocou-se na contramão das tendências econômicas internacionais, adotando como superministro da Economia um economista que professava o ultraliberalismo bem no momento em que até mesmo o liberalismo econômico eclético e mitigado batia em constrangedora retirada mundo afora! Passamos à condição de curiosidade de museu. Em Washington, os economistas do FMI – até do FMI! – olhavam para cá, levantavam os braços para o céu e clamavam: “Como pode! Como pode!”.

A que descaminhos foi conduzida nossa querida nação! Mas doutrina não é tudo, leitor, nunca e jamais. O pensamento do nosso Beato Salu foi imediatamente submetido ao efeito corrosivo da realidade política e social. E quando a doutrina se choca com a realidade (alguma dúvida?), a primeira soçobra rapidamente. 

Para além disso, há um problema fundamental, já destacado por diversos estudiosos da história e do pensamento econômico: o ultraliberalismo é incompatível com a democracia. Os seus exageros, os seus radicalismos não se coadunam com liberdade, eleições periódicas, divisão de poderes. O liberalismo econômico, levado ao extremo, corrói o liberalismo político. Só sobrevive com a destruição da democracia. Não é por acaso que o ultraliberalismo de Friedman e Chicago praticamente só teve sobrevida no Chile de Pinochet! É suprimindo os condicionantes e direitos democráticos, que se torna possível desencadear o liberalismo econômico puro e duro. 

Releio o parágrafo anterior. Carrega um certo tom de “teoria política” incompatível, a rigor, com o estilo da crônica. Paciência. Vai assim mesmo. Mas há, na verdade, um conflito mais simples, mais pedestre entre a figura folclórica do ministro da Economia e o sistema político nacional. Como se sabe, este último é dominado, hoje como nunca, pelo famoso “Centrão”, aquele vasto conjunto político sem ideologia, sem doutrina e até sem ideias. Quando viram o Beato Salu, os políticos do “Centrão” não acreditaram. De que planeta teria saído esse ministro? De que zoológico fugiu? Indagaram, perplexos. Mas passada a surpresa inicial, domesticaram o novato, como seria de prever.   

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Descaminhos do ultraliberalismo no Brasil 

Assim, o ministro Guedes guarda atualmente relação apenas remota com o ideólogo que chegou a Brasília em 2019. Acomodou-se descaradamente às circunstâncias do governo, do seu chefe e do Parlamento. Para desespero de alguns membros menos realistas da turma da bufunfa, pouco sobrou da agenda liberal. O que se tem atualmente é uma caricatura, e bem grotesca. Por exemplo, privatização virou pirataria pura e simples, ou seja, tentativas de comprar ativos públicos na bacia das almas. Reforma administrativa virou uma oportunidade de retirar direitos básicos dos servidores e abrir espaço para a transferência de responsabilidades públicas para a esfera privada. Reforma tributária virou ocasião para arrancar concessões fiscais e proteger privilégios inconfessáveis, inclusive as brechas da legislação que permitem evadir tributos em paraísos fiscais. 

Chego assim ao tema que mais tem mobilizado os críticos impiedosos do ministro da Economia – os chamados Pandora Papers, com a descoberta, por jornalistas investigativos estrangeiros, de que Guedes faz parte de uma lista de figurões que mantêm vultosas aplicações offshore nas Ilhas Virgens no Caribe.  

Longe de mim pretender esgotar o tema, nesta coluna. Vamos aguardar as explicações que o ministro dará ao Congresso e à opinião pública. Salta aos olhos, porém, a injustiça de algumas críticas. Convenhamos, o chamado planejamento tributário (nome sofisticado para a evasão fiscal dos super-ricos) é generalizado. Os super-ricos não sonegam. Sonegação é coisa de pobre, é coisa no máximo para a classe média remediada. Os super-ricos contratam especialistas, advogados, contadores etc., para explorar as brechas da legislação e escapar incólumes à tributação. E, se por acaso, a Receita Federal tenta fechar algumas dessas brechas, inclusive os paraísos, aí estão os lobbies para retirar esses dispositivos de projetos de lei. 

Foi exatamente o que aconteceu há não muito tempo. A Receita tentou fazer algumas correções, fechar algumas brechas, meio de contrabando, na reforma do Imposto de Renda. As propostas passaram pelo crivo desatento do Ministro e da sua assessoria, mas foram derrubadas no Congresso. Com a concordância, segundo se noticiou, do próprio Guedes. 

Conflito de interesse? Vamos largar de ser puristas e hipócritas! Por que exigir que Guedes seja luminosa exceção? Afinal, como esperar que ele não recorra a paraísos fiscais e outros mecanismos que permitem escapar da opressiva tributação – a opressiva tributação que todo liberal que se preza detesta desde criancinha? 

Atire a primeira pedra, aí da Faria Lima, quem nunca teve alguns míseros milhões estacionados num paraíso fiscal!

Uma versão resumida deste artigo foi publicada na revista “Carta Capital” em 15 de outubro de 2021.

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09
Out21

Donos da mídia escondem contas em offshores

Talis Andrade

por Altamiro Borges 

Os vazamentos do Pandora Papers não foram manchete nos jornalões e nem destaque nas TVs. A presença dos barões da mídia nessas operações talvez ajude a explicar a timidez no trato de assunto tão grave. "Da família Marinho aos donos da JP, empresários de mídia estão ligados a offshores", destaca o título da postagem no site Poder-360 nesta quinta-feira (7). 

Segundo a matéria, "pelo menos 8 empresários de mídia no Brasil ou seus parentes têm relação com 8 empresas offshore em paraísos fiscais. A lista tem pessoas da família Marinho (Rede Globo), Jovem Pan, Editora Três, além dos filhos gêmeos do apresentador Carlos Massa, o Ratinho". O texto dá detalhes sobre cada um dos ricaços da mídia. 

Uma herdeira do império da Globo

Nos papéis obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), o império da Globo volta a figurar na sinistra lista de offshores através da neta de Roberto Marinho (1904-2003). Paula Marinho surge como proprietária de duas empresas nas Ilhas Virgens Britânicas: Limozina Investing Limited e Ravello Holding Limited. 

De acordo com a reportagem, “a constituição das offshores teve como objetivo comprar aeronaves nos Estados Unidos. Na sua ficha de abertura de 2011, a Limozina diz que comprará um helicóptero Grand Agusta. Não está claro se a compra foi efetuada. Nessa empresa, Paula é sócia de Alexandre Chiappetta de Azevedo, seu ex-marido”. 

Já a empresa Ravello informou que também teria como objetivo a compra de uma aeronave. “Não cita o modelo, mas menciona o valor: US$ 5 milhões. Foi aberta em 15 de junho de 2016, após a separação, e foi identificada pelo nome de solteira da neta de Roberto Marinho: Paula Mesquita Marinho. A empresa foi registrada nas Bahamas”. 


Jovem Pan e revista IstoÉ
 
Já os irmãos Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, e Marcelo Leopoldo e Silva de Carvalho, donos da fascistoide Rádio Jovem Pan – também apelidada de Ku Klux Pan – surgem na Pandora Papers com a offshore Myddleton Investments Limited. Ambos são diretores na empresa aberta nas Ilhas Virgens Britânicas em março de 2005. “Os donos da Jovem Pan foram procurados. Não disseram se a empresa é ou não declarada à Receita Federal”, relata o site. 

Outro clã midiático citado é proprietário da Editora Três, que publica as revistas IstoÉ e Planeta. Os irmãos Carlos e Paula, filhos do fundador da empresa, o argentino Domingo Cecílio Alzugaray, e a matriarca da família, Catia Alzugaray, mantêm a offshore Hideo Corporation, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. “Na ficha de abertura, é dito que ela tem um capital de US$ 4 milhões. O propósito declarado é investimento financeiro. A empresa foi aberta em 20 de julho de 2017”. 


A famiglia do Ratinho

A reportagem do Poder-360 também dá detalhes sobre a grana em paraíso fiscal da família do falso moralista Ratinho, apresentador do SBT. “Gabriel Martinez Massa e Rafael Martinez Massa, os dois filhos gêmeos do apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, são sócios em duas offshores nas Ilhas Virgens Britânicas. Eles são irmãos do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD). 

“Eis os nomes das empresas: GRM2 Holdings Ltd e SMM Holding. No Brasil, os dois são sócios no Grupo Massa de Comunicação. Eles representam o SBT e a rádio Massa FM no Paraná... Na declaração de propósitos da empresa, os gêmeos dizem que o empreendimento é para investir no mercado imobiliário da Flórida. A estimativa é de ganhos de até US$ 250 mil anuais”.

Doria, Aécio e bicadas nas prévias tucanas

 
 
08
Out21

Nani fez charges com a Velha Senhora

Talis Andrade

Chargista Nani critica a virtude de ser politicamente correto | Arte do  Artista | TV Brasil | Cultura

Nani Humor: PENA DE MORTE NO BRASIL

Charge – Angelo Rigon

AINDA ESPANTADO: A Charge do Dias - Solidariedade à morte

Nani Humor: Dr. Alzheimer

Nani Humor - Página inicial | Facebook

 

Nani é um dos maiores nomes do humor brasileiroNani é um dos maiores nomes do humor brasileiro

 

por Lê

Ei, você conhece essa pessoa aí da foto? O nome dele é Ernani Diniz Lucas, mais conhecido como Nani. Ele é um dos maiores cartunistas da história do país, com trabalhos publicados em jornais, revistas e na TV.

Os cartuns de Nani marcaram presença em diversos locais. Só para citar alguns: Última HoraJornal da GloboO DiaO PasquimEstado de MinasO PingenteDiário de Notícias,Tribuna da ImprensaO Cartoon e revista MAD.

Ao longo da carreira, foi reconhecido por autoridades do humor, no Brasil e no exterior. Entre seus prêmios, estão os dos salões do humor de Niterói, Piracicaba e Montreal.

Sabe de onde ele é? Esmeraldas, uma cidade que fica pertinho de Belo Horizonte. Sabe qual é sua idade? Bem, ele nasceu em 1951. Então, ele tem… ah, você faz as contas por aí.

Como Nani se tornou um dos maiores do cartum?

Nani é um defensor da independência do artista. Para ele, o humor não pode ser partidário. “Quando você faz humor dirigido, vira cartilha”, disse, em entrevista.

Pelo mesmo motivo, reconhece a irreverência no trabalho do chargista: “A gente vota um dia num candidato… Ele tomou posse, a gente tá fazendo charge contra no outro dia”, brinca.

Ele começou a carreira em 1971, fazendo charges para o jornal O Diário, de Belo Horizonte. A sua forma de humor ácido chamou a atenção de vários editores, inclusive de outros estados.

Com isso, se mudou para o Rio de Janeiro, cidade pela qual já era apaixonado. No Rio, fez parte de uma turma que só tinha “gente pequena”. Olha só: Henfil, Jaguar, Adail, Tarso de Castro, entre outros.

Desde que começou a desenhar, Nani sonhava em trabalhar nO Pasquim, que publicava as charges de seus ídolos. O que conseguiu, fazendo mais de 30 cartuns por dia no jornal (claro que a maior parte não era publicada).

É dele a tirinha Vereda Tropical, publicada em diversos jornais pelo Brasil. Criada na década de 1980, a tira satirizava a situação política e social brasileira da época e (infelizmente) permanece atual.

Livros de Nani para crianças e jovens

 

Além das charges, cartuns e tirinhas, Nani é roteirista de TV. Ele já escreveu para os programas Escolinha do Professor Raimundo,Casseta & PlanetaZorra Total e Sai de Baixo.

Aliás, seus desenhos já apareceram em forma animada nos plim plins dos filmes e séries da TV Globo. Entre seus livros, há títulos para o público adulto e infantil. Confira algumas obras infantojuvenis de Nani.

Abecedário hilário

Antologia de poemas leves e bem-humorados, seguindo a ordem alfabética. Cada trecho contém versos que começam com a mesma letra: “Yara, a sereia, dança no / YouTube o / Yê, yê, yê.” Já imaginou uma cena dessas?

A bruxinha do bem

Como seria o cotidiano de uma pequena bruxa que ainda está aprendendo a fazer feitiços? A bruxinha desse livro se empenha em desenvolver sua arte e, enquanto isso, sempre ajuda alguém e faz magia de mentirinha.

Feliz e orgulhoso, envaidecido mesmo

Coletânea com 32 contos curtos sobre vários assuntos. Claro, todos eles têm boas doses de humor, sagacidade e nonsense. Os desenhos dão sacadas interessantíssimas para os textos.

Gabriel da Conceição Bicicleta

Titã é um cachorro que não gosta da forma que se chama. Para seu novo nome, junta as palavras que mais ouve, o que explica o título esquisito do livro. Depois de tanto andar, ele se torna prefeito da Cidade dos Cachorros.

O espírito de porco

O espírito de porco adora atazanar o dia a dia das crianças e dos adultos. O texto é uma forma de incentivo ao leitor. Dessa forma, ele fica atento e não se deixar levar pelos conselhos absurdos do espírito de porco.

O que dizem as palavras

O livro apresenta a escrita como uma espécie de jogo, que estimula a imaginação e a criatividade do leitor. As palavras se transformam em cartuns, propondo uma brincadeira inteligente e carregada de sentidos.

Tem outra palavra na palavra

Esse é o livro mais recente de Nani, que sempre brinca com as palavras e convida o leitor a fazer o mesmo. Aqui, no entanto, a brincadeira vai além e mexe com as letras que compõem cada palavra.

Como você viu, Nani é um ícone do humor nacional, em suas diversas formas, produzindo conteúdo para todas as idades. Em seus livros infantojuvenis, traduz temas importantes com uma leveza que atrai jovens e crianças.

 
08
Out21

Cartunista Nani morre aos 70 anos vítima da Covid-19 em Belo Horizonte

Talis Andrade

Cartunista Nani morre em Belo Horizonte — Foto: Reprodução/TV Globo

 

 

por Carine Tavares, TV Globo — Belo Horizonte

O cartunista Nani, criador da tira Vereda Tropical, morreu nesta sexta-feira (8), em Belo Horizonte. Aos 70 anos, ele foi vítima da Covid-19, segundo informações da família.

Nani deixa dois filhos, Juliano e Danilo, uma neta, a Manuela, e a mulher, Inez.

Ainda não há informações sobre enterro e velório.

Mineiro de Esmeraldas, na Região Metropolitana, ele estava fazendo isolamento em sua cidade natal desde o início deste ano, quando se mudou do Rio, mas foi infectado pelo coronavírus.

De acordo com a família, Nani estava internado havia uma semana na capital mineira.

Nani fazia parte do grupo de risco para a Covid-19. Ele ficou conhecido na medicina brasileira por ter passado por três transplantes de fígado em apenas um mês.

A carreira

 

Nani ao lado de Chico Anysio, com quem trabalhou por 20 anos. — Foto: Arquivo pessoal

Nani ao lado de Chico Anysio, com quem trabalhou por 20 anos. — Foto: Arquivo pessoal

 

Conhecido em todo o país pelo apelido, Ernani Diniz Lucas nasceu em 27 de fevereiro de 1951. Aos 20 anos, começou a carreira em Belo Horizonte, publicando charges. Pouco depois, em 1973, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Ao longo da trajetória profissional, colaborou com O Pasquim e foi chargista de O Globo. Também publicou em veículos como Jornal dos Sports, Última Hora e O Dia.

O cartunista de humor ficou conhecido por ser o criador da tirinha Vereda Tropical, publicada em diversos jornais pelo brasil na década de 1980. A tira satirizava a situação política e social brasileira da época.

O crachá de Nani na TV Globo. Ao relembrá-lo em um post recente no Instagram, ele escreveu: "Aqui meu crachá de Bozó", referindo-se ao personagem de Chico Anysio, com quem trabalhou por 20 anos. — Foto: Reprodução

O crachá de Nani na TV Globo. Ao relembrá-lo em um post recente no Instagram, ele escreveu: "Aqui meu crachá de Bozó", referindo-se ao personagem de Chico Anysio, com quem trabalhou por 20 anos. — Foto: Reprodução

 

Na TV Globo, Nani trabalhou ao lado de Chico Anysio como roteirista em Chico Total e Escolinha do Professor Raimundo (relembre os programas nos vídeos abaixo).

Ele também escreveu textos para os programas Casseta & Planeta, Sai de Baixo e no Zorra.

Ao longo da carreira, Nani foi reconhecido por autoridades do humor e reconhecido por premiações internacionais.

É ainda autor de diversos livros. Entre eles, estão “Batom na cueca”, “É grave, doutor?” e “Humor politicamente incorreto”.

Seu mais recente livro, "Tem outra palavra na palavra", foi lançado em 31 de agosto deste ano.O cartunista Nani — Foto: Arquivo pessoal

Segundo os amigos, era nos bares de Esmeraldas que ele se inspirava para os roteiros que escrevia para a Globo. Ao ouvir os amigos nos barzinhos, ele criava bordões que seriam usados, por exemplo, nos episódios com o Chico Anysio.

25
Ago21

O Capitólio paramilitar de Bolsonaro

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

- - -

O editorial do Estadão é preciso: o que está sendo feito por paramilitares – oficiais da reserva e da ativa das PM que rasgam as proibições legais de politização – é, de fato, uma “convocação do golpe“, com a chamada explícita que se invada o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, tal como os adoradores de Donald Trump invadiram o Capitólio, para subverter os resultados das eleições presidenciais dos EUA.

Perante esse quadro, não basta a existência de um inquérito no STF para investigar organizações criminosas de ataque à democracia. É urgente que o Congresso reaja e que o Ministério Público acione a Justiça, de forma a impedir a ação criminosa contra as instituições.

Impõe-se o realismo. Depois de tudo o que já foi divulgado, eventual tentativa de golpe no dia 7 de setembro não será nenhuma surpresa. Será a estrita realização das táticas e objetivos anunciados, repetidas vezes, por bolsonaristas.

A quem reclama de falta de liberdade de expressão, caberia sugerir que experimente fazer na Alemanha ou na Inglaterra o que os bolsonaristas estão fazendo aqui, anunciando a invasão e o fechamento da Corte Constitucional e do Legislativo.

A comparação seria perfeita se, como em Washington, Londres ou Berlim, houvesse dúvidas sobre a fidelidade do Exército à lei.

É claro que as ameaças fazem parte da guerra psicológica do golpismo mas também é bom lembrar que chega um momento que o terror virtual põe os chifres de búfalo à cabeça investe contra as instituições. E os pronunciamentos bélicos de vários oficiais bandidos das PM são preditores mais que evidente de que este risco é real.

E que não tem daquelas instituições, respostas à altura, altivas, mas apenas balbucios fracos e abstratos, que fingem que as feras estão quase à sua porta e chamam o chefe das matilhas ao diálogo, como se rendas e dentes pudessem ter um encontro suave.

O que cabia a elas – aos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e do STF, Luiz Fux – era dirigir-se ao Ministro da Defesa e ao Presidente da República para, nos termos das atribuições da Inspetoria Geral das Polícias Militares, o primeiro, e do artigo 142, tomar as providências para o cumprimento dos regulamentos pelos policiais militares e ao chefe do Executivo nos termos do Artigo 142, tão invocado pelos bolsonaristas, garantir com as Forças Armadas a incolumidade dos prédios diante das ameaças explícitas que estão sofrendo.

A hora é agora, porque aquelas turbas não têm apoio algum: nem o da imprensa, nem o do poder econômico, nem da sociedade civil e, ao menos formalmente, ainda não têm o apoio das cúpulas das Forças Armadas, ainda que uma camada de ambiciosos as usem como cacife palaciano.

É preciso lancetar este tumor enquanto ele não toma totalmente o ambiente militar e fazer as Forças Armadas protegerem também os dois outros poderes da República.

Exigir o respeito, antes de qualquer conversa, aliás, inócua, pois as atribuições de cada poder estão descritas na Lei e não nos arranjos que seus chefes possam fazer.

Do contrário, aceitaremos que seja um coronel de Sorocaba ou um bombeiro do Ceará, no delírio de seus fanatismos, sejam de fato os comandantes das armas no Brasil.

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