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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

13
Mai21

O aumento das milícias expõe a ausência do Estado

Talis Andrade

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Violência policial é histórica no Brasil

por José Dirceu

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Em 6 de maio, ao ver as cenas da chacina de 28 jovens da comunidade de Jacarezinho pela Polícia Civil do Rio de Janeiro às ordens do governador Cláudio Castro (PSC), me veio à memória nossa longa e tenebrosa história de chacinas e suas origens num Brasil remoto e bem próximo a nós. No passado tínhamos os jagunços e os pistoleiros de aluguel, que sobrevivem até hoje alugando suas mãos e armas para assassinar líderes rurais e ambientalistas, sindicalistas e políticos.

Lembro aqui 3 líderes, vítimas de pistoleiros de aluguel em pleno vigor da vida e da militância: Margarida Alves, líder dos camponeses e trabalhadores rurais da Paraíba; Chico Mendes, destacado ambientalista e defensor da Amazônia; e Marielle Franco, vereadora do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), assassinada pelas milícias.

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Nosso Brasil escravocrata, quando ainda colônia, conviveu com as bandeiras e com os capitães do mato. Na República Velha e mesmo durante os anos da Constituição de 1946, o latifúndio impunha no campo sua lei e vontade pelas mãos de jagunços e pistoleiros de aluguel sob as vistas de uma Justiça cúmplice. Nada muito diferente dos dias de hoje, em que assassinatos de representantes dos trabalhadores rurais continuam impunes.

ESQUADRÕES DA MORTE

Também é preciso lembrar da prática da tortura como política de Estado e do assassinato de opositores no Estado Novo (1937-1945) e durante a longa Ditadura Militar (1964-1985). Nos porões da Operação Bandeirantes —financiada por empresários e organizada por policiais civis e militares das Forças Armadas, com pleno conhecimento de seus estados-maiores e dos presidentes militares de plantão—, surgiram facções criminosas que passaram a controlar o jogo do bicho e o tráfico de drogas. Essas facções muitas vezes usavam dinheiro e propriedade dos presos torturados ou assassinados para financiar suas atividades. Um exemplo dos expoentes dessa prática odiosa foi o capitão Guimarães, famoso no Rio de Janeiro e nos carnavais da Unidos de Viradouro.

Quando cheguei em São Paulo, em 1961, ainda bem jovem, era comum se ouvir sobre as práticas violentas e criminosas da polícia mineira e também sobre esquadrões da morte, grupos de extermínio que atuavam à sombra dos governos e da Justiça. O mais famoso era o comandado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, de São Paulo.

Esses esquadrões, além de assassinar “suspeitos” e desovar “presuntos”, vendiam proteção para comerciantes e ficavam com os despojos e bens dos assassinados ou extorquidos. Como é sabido, esses mesmos policiais civis e militares serviram depois à ditadura e se associaram aos Doi- Codi na repressão criminosa às oposições em geral, e não só aos guerrilheiros, como provam os covardes assassinatos do deputado Rubens Paiva e do jornalista Vladimir Herzog, entre tantos outros.

HERANÇA DOS PORÕES

As práticas criminosas que pareciam ter sido enterradas no processo de redemocratização do país começaram a ressurgir pela conivência de governantes com o crime organizado e a violência policial e pela falência das políticas públicas —não só a de segurança— nas grandes cidades brasileiras. O nome no século 21 dos que foram os esquadrões da morte que extorquiam e matavam é milícia. As milícias, que se espalham pelo país, de Belém a Porto Alegre, já controlam 27,7% dos bairros do Rio de Janeiro, onde vivem 2,178 milhões de pessoas, ou seja, 33,8% da população da cidade, segundo o relatório “Expansão das Milícias no Rio de Janeiro” (íntegra – 1 MB), de janeiro deste ano, produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF) e Observatório das Metrópoles (Ippur/UFRJ).

Apresentadas por alguns governantes e muito especialmente pela família Bolsonaro como solução para combater o controle de territórios pelo tráfico organizado e trazer segurança à população, as milícias não passam de bandos de criminosos. A pretexto de vender proteção às famílias e empresas, essas organizações, compostas geralmente por ex-policiais militares, controlam a economia das comunidades onde atuam e a vida de seus moradores. Vendem, ilegalmente, serviços como os de energia, gás, TV.

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Também atuam no mercado imobiliário, no de transporte, vendem produtos roubados e até controlam alguns órgãos públicos. E se impõem pelo terror, por ameaças e pela chantagem, quando não pelo assassinato de “inimigos” na disputa de territórios com o tráfico de drogas.

O avanço das milícias é proporcional à ausência do Estado nesses territórios, onde fracassou mais do que a política de segurança. Nesses locais também faltam educação, saúde, atividades culturais, saneamento, transporte público e emprego para os jovens. Carências crônicas, fruto da desigualdade social e da concentração de renda, o problema mais agudo do país que emerge em toda sua dimensão nas periferias das grandes cidades brasileiras e nas comunidades.

A pretexto de combater o tráfico, as milícias vão expulsando, no caso do Rio de Janeiro, os grupos de traficantes do Comando Vermelho, Amigos dos Amigos, Terceiro Comando Puro para assumir seu lugar. Hoje, já respondem por 58,6% dos territórios sob controle do crime organizado, de acordo com o relatório já citado. Da Barra da Tijuca a Jacarepaguá temos um arco dominado pelas milícias, inclusive em bairro de classe média, revelando uma coincidência entre a votação de Bolsonaro e seus candidatos e esse território. Essa falência do Estado foi, em parte, camuflada pela atuação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), que fracassaram, em grande medida, pela corrupção, cooptação e colaboração de amplos setores da Polícia Militar com o crime organizado.

Do controle de territórios as milícias passaram ao controle político de eleitorados, com a eleição de vereadores e deputados ligados a elas, o que também se verifica em menor grau com o tráfico. Foi um salto rápido. Hoje temos representantes das milícias não só nos legislativos, mas em governos e nas máquinas públicas, como decorrência da corrupção e da cooptação de funcionários públicos. Políticas de segurança, nomeações e promoções, legislação urbana, de transporte, são hoje, em muitas câmaras municipais e assembleias legislativas, determinadas pelas milícias.

A bárbara e covarde chacina de Jacarezinho é mais um capítulo da falência da segurança pública, que infelizmente não conseguiu ser detida nem pelas UPPs, nem pelas operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem). A pura e simples eliminação, assassinato, execução, como nos tempos dos esquadrões da morte de triste histórico no Rio de Janeiro —as tragédias de Vigário Geral, Alemão e Calendária não nos deixam esquecer— é a opção pela guerra como solução.

Como revelam fotos e vídeos da chacina e depoimentos de moradores, 28 jovens, 13 dos quais sequer eram investigados, foram assassinados a sangue frio, executados, quando se entregavam ou quando encontrados em casas onde se esconderam. Tudo isso na frente de famílias e crianças. E levanta-se suspeita sobre a morte do policial civil André Frias, pois foi baleado quando descia de um veículo policial e não em confronto.

Estamos falando de um ato de barbárie pela mão do Estado por meio de sua Polícia Civil. E não se trata de um caso isolado. Infelizmente, trata-se de um padrão, de uma política planejada que substitui a prevenção, a inteligência, a presença do Estado com políticas públicas para as favelas e bairros, e para os jovens pela guerra e extermínio de grupos e organizações criminosas. Uma guerra sem nenhum efeito prático na diminuição do tráfico ou do aliciamento de menores, razão apresentada para a operação.

DEBATE NACIONAL

A opção do povo não pode ser escolher entre o tráfico e as milícias. E o país não pode aceitar a pena de morte para suspeitos. Suspeitos que o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, chamou de “bandidos” e o delegado Felipe Curi, do Departamento Geral de Polícia Especializada do Rio de Janeiro, considera criminosos como se condenados fossem, sem o devido processo legal, substituindo a Justiça e instituindo, na prática, a pena de morte, proibida pela Constituição Federal.

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Gravíssimo é o fato de a operação da Polícia Civil em Jacarezinho ter sido feita à revelia da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), de junho de 2020, que proibiu operações em favelas do Rio durante a pandemia. E mais grave ainda o que disse o presidente Jair Bolsonaro ao dar parabéns, no Twitter, à Polícia do Rio de Janeiro pela operação: “Ao tratar como vítimas traficantes que roubam, matam e destroem famílias, a mídia e a esquerda os igualam ao cidadão comum, honesto, que respeita a lei e o próximo. É uma grave ofensa ao povo que há muito é refém da criminalidade”.

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A letalidade trágica da política de segurança no Rio de Janeiro e em todo país, expressa no altíssimo número de mortos (944, incluindo policiais, desde a decisão do STF) exige uma imediata e radical mudança em toda a estrutura policial e na política de segurança pública. As medidas precisam passar, também, pela reforma do sistema penitenciário, pela mudança na legislação sobre drogas que trata o usuário como traficante e pela revogação de toda legislação, via decretos de Bolsonaro, de liberalização de armas promovida à revelia do Estatuto do Desarmamento e das decisões judiciais.

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A repercussão da chacina de Jacarezinho, em nível nacional e internacional, e o repúdio a ela exigem uma resposta do Congresso Nacional: propor e debater uma nova política de segurança pública sob pena de regredirmos à época dos esquadrões da morte e grupos de extermínio agora diretamente pelas mãos do Estado e de suas polícias. Exigem também uma resposta do STF, que teve sua decisão desrespeitada. Não se pode permitir a impunidade dos policiais e superiores responsáveis pela criminosa operação.

É uma urgência nacional que a questão das milícias, do crime organizado, do tráfico e das drogas seja prioridade nos debates da próxima campanha presidencial.

Artigo publicado originalmente no Poder 360 / Grupo Prerrogativas

Humor Político – Rir pra não chorar | Página: 6

10
Out20

A polícia mata

Talis Andrade

 

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O Estado brasileiro foi responsável por quase 40% das mortes ocorridas no Rio de Janeiro em 2019. O convidado desta semana Daniel Hirata, professor de Sociologia da Universidade Federal Fluminense, acaba de lançar uma pesquisa inédita que contribui para elucidar o porquê de tanta letalidade. Ao lado da pesquisadora Carolina Christoph Grillo, ele coordena um levantamento sobre o número de operações policiais realizadas no estado entre 1989 e 2018, uma estatística que simplesmente não era produzida pelos órgãos oficiais.

Além da quantidade, a pesquisa permite descobrir quem foram os responsáveis por essas ações, onde elas ocorreram, por qual razão foram realizadas e quais foram seus resultados. E uma, dentre muitas outras, conclusões: a atuação do Estado na área de segurança pública prioriza a proteção patrimonial em detrimento da defesa da vida.

Acesse as pesquisas Roubos, proteção patrimonial e letalidade no Rio de Janeiro e Operações Policiais no Rio de Janeiro. Artigo Daniel Hirata e Carolina Grillo na edição de fevereiro de 2020 do Diplô

 

20
Jun20

Prisão de Fabrício Queiroz reorganiza o tabuleiro do xadrez político e pressiona o poder central.

Talis Andrade

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Por: João Vitor Santos e Ricardo Machado, em IHU On-Line

A última aparição pública de Fabrício Queiroz havia sido, até ontem, no dia 12 de janeiro de 2019, quando gravou um vídeo dançando num quarto de hospital, que acabou viralizando nas redes sociais. Desaparecido há um ano e meio, foi encontrado e preso ontem, em Atibaia, no litoral paulista. O impacto repercutiu imediatamente em Brasília, tanto que o presidente Bolsonaro, que costuma dar atenção à claque que diariamente se instala na frente do Alvorada, passou direto e não deu nenhuma declaração.

A prisão de Queiroz se dá em um momento de absoluta crise política, em meio às mais de 47 mil mortes por coronavírus no Brasil e no mesmo dia que Weintraub deixa o Ministério da Educação. As tensões ligadas ao amigo íntimo da família Bolsonaro se dão porque ele pode ser o elo principal entre dois crimes, em investigação, dos quais são suspeitos de envolvimento: as “rachadinhas” da Alerj e o assassinato de Marielle Franco.

“Esse é um elemento novo, que acrescenta uma diferenciação e pode trazer uma precipitação desse quadro político que estamos vivendo. De que forma essa precipitação vai ser construída, quais as reações, como a Justiça de fato vai se posicionar diante de informações que possam apontar o comprometimento dos Bolsonaro com a estrutura miliciana, ainda não se sabe claramente”, pondera José Cláudio Alves em entrevista por telefone à IHU On-Line.

O momento de caos vivido no país, segundo o entrevistado, acaba favorecendo o poder central, especialmente o presidente Jair Bolsonaro, que parece se favorecer desse cenário para se manter, ainda que sobre a corda bamba. “Esse cenário e todas essas crises em si mesmas acabam não solucionando essas questões, pelo contrário. Toda essa dissimulação, dispersão, todo esse cenário incontrolável, assustador, acaba fortalecendo e beneficiando a estrutura do poder que está no Planalto Central”, complementa.

José Cláudio Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo – USP. É professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.

 

IHU On-Line – O que significa a prisão de Fabrício Queiroz? Quais as repercussões políticas desse fato?

José Claudio Alves – A prisão de Fabrício Queiroz era uma questão já dimensionada há muito tempo como determinante nas investigações em duas grandes questões no Rio de Janeiro: na operação que envolve as investigações relacionadas ao comprometimento de verbas de gabinetes parlamentares de deputados estaduais do Rio de Janeiro, entre eles o próprio Flávio Bolsonaro, com o esquema de construção e venda de imóveis ilegais pela milícia na zona oeste do Rio de Janeiro; e nas investigações sobre o crime de assassinato de Marielle Franco. Fabrício Queiroz era um elemento de ligação, por conta do relacionamento próximo que mantinha com Adriano Magalhães da Nóbrega, assassinado pela polícia numa operação na Bahia em fevereiro deste ano, como também era próximo ao Ronnie Lessa, que está preso como um dos envolvidos no assassinato da Marielle. Parece que havia uma proximidade entre esses personagens vinculados à milícia de Rio das Pedras e, assim, Fabrício Queiroz era uma figura chave, porque com a morte de Adriano Magalhães da Nóbrega, houve uma perda significativa de, talvez, um dos nomes mais importantes envolvidos nesses crimes que comentei.

Queiroz também participava de um esquema de altíssima movimentação financeira, que foi identificado na época pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras – Coaf. O Coaf identificou essas movimentações de milhões, que estavam completamente fora do padrão de rendimentos que Fabrício Queiroz possuía. Assim ele se tornou uma figura chave vinculada à família Bolsonaro, especialmente a Flávio, um dos filhos de Jair Bolsonaro. E, além disso, a prisão se deu no sítio do advogado que está atuando tanto para Flávio como para Jair Bolsonaro. Há uma conexão entre esses elementos.

Claro, não sabemos se, de fato, as investigações, os depoimentos, o processo judicial chegarão a ampliar e aprofundar todos esses elementos de unidade. Seria determinante para o Rio de Janeiro, para o Brasil e para o mundo trazer à baila os crimes que envolvem as milícias e que as fazem muito próximas da estrutura do poder central hoje no Brasil. Até agora, essas investigações não avançaram, pois houve muita obstrução judicial. Pode ser que agora o momento político faça com que o Judiciário efetivamente cumpra seu papel, o qual não vem cumprindo e que vem tratando de uma forma escamoteada e distendida.

Tudo isso leva a crer que a prisão dele é determinante, fundamental, e a obtenção de informações, talvez não tanto dele próprio, mas de celulares, dos computadores, dos arquivos, do material que foi apreendido, possa trazer elucidações importantes para a compreensão de tudo isso que estamos vivendo. De fato, percebo isso como muito muito importante. Vamos ver, agora, os desdobramentos dessa operação. (Continua)

14
Abr20

Braga Netto conhece as milícias do Rio e sabe o que os Bolsonaro fizeram no verão passado

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

O repórter do jornal Zero Hora Humberto Trezzi fez uma reportagem semi-biográfica e elogiosa ao general Braga Netto, que é tratado no título da matéria como “o novo conciliador do Planalto” [aqui].

Trezzi destaca o papel do general na administração da crise derivada da conspiração fracassada do Onyx Lorenzoni e do Osmar Terra para derrubar o ministro Luiz Mandetta.

O repórter afirma que Mandetta não procurou nem os conspiradores nem Bolsonaro para se queixar do ataque, mas recorreu a um dos integrantes da junta militar que comanda o governo, o general Braga Netto.

Para o repórter, o apaziguamento momentâneo foi “mais uma vitória de Braga Netto, o novo oráculo do Planalto. Mineiro, ouve muito e fala pouco”.

Braga Netto “abraçou com fervor a nova missão: colocar ‘ordem na casa’, nas palavras de Mourão”, discorre Trezzi.

Na reportagem, um nostálgico Trezzi faz uma série de floreios elogiosos ao método e à atuação do general que “escorrega bilhetinhos aos ministros durante reuniões, como o presidente Jânio Quadros fazia nos anos 1960” [sic].

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Mais além dos elogios a um general que, paradoxalmente, chefia justamente a Casa Civil de um governo que deveria ser civil [sic], a informação mais valiosa da reportagem é aquela que diz que “Braga Netto ganhou dos amigos a reputação de ter o CPF, nome e endereço de cada miliciano no Rio”.

O repórter diz que durante a intervenção federal no Rio, que durou de fevereiro a dezembro de 2018,

o Exército conseguiu usufruir dos bancos de dados das polícias Civil e Militar fluminenses e também montou um mapa das ações criminais no Rio. Isso vale tanto para facções criminais convencionais (Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Primeiro Comando) como para as milícias paramilitares formadas por ex-policiais. Não à toa, Braga Netto ganhou dos amigos a reputação de ter o CPF, nome e endereço de cada miliciano no Rio”.

Se Braga Netto conhece “o CPF, nome e endereço de cada miliciano no Rio, por certo ele sabe tudo a respeito do miliciano Adriano da Nóbrega, o chefe da milícia Escritório do Crime.

Adriano, deliberadamente executado no interior da Bahia, em vida havia recebido troféu de Flávio Bolsonaro na cadeia e, até dezembro de 2018, quando estourou o escândalos da “rachadinha”, o miliciano garantia o emprego da mãe e da esposa no gabinete do Flávio na ALERJ.

E o general Braga Netto, super-bem informado como é, deve saber, inclusive, onde está escondido o Fabrício Queiroz, o elo do clã com a milícia do Rio das Pedras chefiada pelo agora finado Adriano da Nóbrega.

Braga Netto provavelmente também sabe tudo a respeito de Ronnie Lessa, quem compartilhava vizinhança com Carlos e Jair Bolsonaro no condomínio Vivendas da Barra, e quem é suspeito de tráfico internacional de armas e está em prisão preventiva, acusado do assassinato de Marielle e Anderson.

É preciso saber de onde vem tamanha “ascendência” do Braga Netto e a junta militar sobre Bolsonaro.

Tal ascendência parece se originar menos da capacidade persuasiva dos “bilhetinhos” do general e seus parceiros do Alto-comando, e mais do fato de Braga Netto saber muito sobre o que os Bolsonaro fizeram no verão passado.

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10
Abr20

Declaração de Mandetta de que vai dialogar com tráfico e milícia 'irrita' policiais federais

Talis Andrade

 

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A declaração do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de que vai dialogar com o tráfico e com a milícia na luta contra o avanço da covid-19 no Brasil irritou as melindrosas policiais federais da Liga da Justiça comandada por Moro.

De acordo com a coluna Painel, da Folha de S. Paulo, policiais afirmam que o ministro Mandetta cometeu um erro histórico ao reconhecer a existência de poderes paralelos.

"Em mensagens trocadas em um grupo de WhatsApp, policiais federais disseram que a atitude do ministro não tinha precedentes na história do Brasil", diz a coluna Painel. Que exagero. Que gaiato revelou conversa tão importante para a Grande Imprensa? 

Por que a verdade ofende os policiais? Como fazer quarentena nos morros e nas periferias das principais cidades brasileiras sem conversar com as milícias e os comandos do tráfico, citados pelo ministro da Justiça e da Segurança Pública no seu pacote anticrime? 

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O general Braga, interventor de Michel Temer no Rio de Janeiro, jamais atravessou com suas tropas os limites territoriais das milícias. Não será agora, como chefe da Casa Civil de Bolsonaro, que o general passará a ordem de confronto para Moro. Para combater a máfia libanesa chefiada por Alberto Youssef. Para combater a máfia judia comandada por Dario Messer. A partir de um comentário do portal 247. 

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04
Mar20

Crivella é recebido em comunidade por lama jogada por moradores

Talis Andrade

No mesmo fim de semana em que quatro pessoas morreram em decorrência das fortes chuvas que atingiram o Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) afirmou que cariocas gostam de morar perto de áreas de risco para 'se verem livres dos esgotos' e gastarem 'menos tubos para colocar cocô e xixi'.

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As declarações de Crivella foram dadas no domingo (1º) durante uma reunião no Centro de Operações Rio, que foi transmitida ao vivo por uma rede social. O prefeito afirmou que os moradores da cidade escolhem viver em áreas de talvegues, caminhos por onde passam as águas das chuvas, considerados de risco.

Todas as encostas lá são perigosas, mas aonde descem as águas, predominantemente chamado talvegues, e as pessoas gostam de morar ali perto porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo, essas áreas são muito perigosas", disse Crivella.

Falando sobre prevenções às ocorrências causadas pelas chuvas, o prefeito afirma, ainda, que há coisas que "cada cidadão tem que fazer por si mesmo", como "não morar perto dos canais" ou encostas.

"Os galhos das árvores, o lixo que é deixado no chão, eles são levados pelas chuvas para aqueles pontos predominantes de descida das águas e as pessoas moram ali perto porque é uma maneira de se verem livres dos esgotos e do seu lixo, morando perto do rio, joga tudo ali", afirma o prefeito, que foi hostilizado por moradores do bairro do Barata, em Realengo, na manhã desta segunda-feira, quando visitava o local. Populares chegaram a arremessar uma bola de lama no rosto do prefeito quando ele dava uma entrevista para a imprensa. Desde o início, o prefeito ouviu reclamações de moradores, mas os ânimos se acirraram após ele afirmar que grande parte da população é a culpada.

— A culpa é de grande parte da população, que joga lixo nos rios frequentemente — afirmou Crivella, que repetiu esse discurso várias vezes durante a entrevista.

— Chuva no Rio é sempre um problema, mas o pior é o lixo. Temos excesso de lixo nos rios, bueiros e encostas, e quando vem a chuva, tudo desce.

Durante a entrevista, um morador pegou uma bolinha de lama e arremessou no prefeito. A lama acertou o lado direito de seu rosto, e sua testa ficou suja de terra, assim como sua jaqueta. Seguranças ainda tentaram cobrir Marceo Crivella com um guarda chuva, mas ele recusou.

Ao final, seguranças do prefeito chegaram a intimidar e a agredir moradores que estavam no local e gritavam contra Crivella. Já a secretaria municipal de assistência social, Tia Ju, hostilizou a equipe da TV Globo e do O Globo. Na entrevista, Crivella afirmou que a repórter Beth Luquese, da TV Globo, “é paga para fazer escândalo”.

O prefeito justificou a demora no atendimento àquele local pelos carros abandonados que estavam na calha do Rio Grande. Eram oito, e a prefeitura já retirou quatro, o que atrasou a chegada da Comlurb, Rio Águas e Secretaria municipal de Conservação, segundo Crivella. Em relação aos falecidos, ele respondeu que a prefeitura está prestando atendimento, assim como às 600 pessoas desabrigadas.

Questionado sobre as obras irregulares em encostas, porém, o prefeito minimizou o problema. E novamente culpou o excesso de lixo.

— Temos que agir preventivamente para não jogar lixo nas encostas. Olha a grande quantidade, esse é o problema. Se não jogarem lixo no bueiro e beira dos rios, melhora — afirmou Crivella, que culpou ainda a judicialização dos casos de demolições de construções. — As obras irregulares estamos tentando, amanhã vamos derrubar série de prédios na Muzema, o que a justiça não permitia.

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19
Fev20

Flávio Bolsonaro divulga suposta autopsia do capitão Adriano, morto pela polícia petista da Bahia

Talis Andrade

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O senador Flávio Bolsonaro (sem partido), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), postou nesta terça-feira (18/02/2020) o vídeo da autópsia do miliciano Adriano da Nóbregamorto na semana passada, na Bahia. Na gravação, o cadáver do ex-policial militar aparece na maca do Instituto Médico Legal (IML). As imagens são fortes.

Na legenda da publicação, o parlamentar ressaltou, de forma irônica, que a perícia da Bahia diz não ser possível afirmar se Adriano foi torturado. “Foram 7 costelas quebradas, coronhada na cabeça, queimadura com ferro quente no peito, dois tiros à queima-roupa (um na garganta de baixo p/cima e outro no tórax, que perfurou coração e pulmões)”, escreveu.

As imagens foram divulgadas no Twitter do senador. Nenhum aviso prévio de imagens fortes foi divulgado. O perfil do congressista é aberto e qualquer pessoa pode acessá-lo. Veja vídeo

 

 
 
17
Fev20

Tudo uma coisa só: Bolsonaro, Sergio Moro, Flávio Dino e Rui Costa

Talis Andrade

Polícia é polícia contra o povo em geral

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Qual a diferença entre a direita de Bolsonaro e a esquerda do comunista Flávio Dino e do petista Rui Costa? Considerando as ações policiais, é tudo uma coisa só, como bem definiu Rosângela Moro ao comparar o marido, ministro da Segurança Pública, com o presidente da República.

O Moro tirou o capitão miliciano Adriano da Nóbrega da lista dos criminosos mais procurados, que foi executado pela polícia do governador da Bahia. "Adriano levou para o túmulo os segredos do submundo do Rio". Os segredos dos negócios imobiliários em Muzema e Rio das Pedras, que enriqueceram o senador Flávio Bolsonaro, o deputado das rachadinhas, com sua legião de funcionários fantasmas.

Até Dino faz: Quase toda a mobília da casa onde Maria da Glória morava com o marido e o neto, na comunidade tradicional Cajueiro, zona rural de São Luís, Maranhão, havia sido colocada em um caminhão de mudança por dezenas de homens pagos pela empresa Terminal de Uso Privado Porto São Luís, a TUP – antiga WPR São Luís Gestão de Portos e Terminais S/A, comandada pelo mesmo presidente do grupo WTorre. A empresa alega ser dona do terreno, onde pretende construir um porto privado com a transnacional chinesa de infraestrutura China Communications Construction Company, a CCCCsócia majoritária do empreendimento.

Acompanhada pelo neto e vigiada por homens do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Maranhão, a então moradora do Cajueiro chorou silenciosamente ao assistir a uma retroescavadeira demolir sua casa em menos de cinco minutos. Foi uma das 22 casas destruídas no dia.

Naquele 12 de agosto de 2019, o Batalhão de Choque foi ao Cajueiro cumprir uma ação de reintegração de posse autorizada pelo juiz Marcelo Oka a pedido da TUP Porto São Luís. Os moradores registraram a violência: spray de pimenta foi usado pelos policiais contra as famílias do local, incluindo crianças, idosos e uma mulher grávida.

Em protesto contra as remoções, cerca de 40 moradores da comunidade acamparam pacificamente em frente ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual. A nova manifestação também foi violentamente reprimida com gás lacrimogêneo e balas de borracha. O secretário de Segurança Pública do Estado, Jefferson Portela, estava junto aos policiais acompanhando pessoalmente a operação.

Pressionado nas redes sociais, o governador Flávio Dino, do PCdoB, justificou: “sobre reintegrações de posse: a polícia militar não pode simplesmente se recusar a cumprir ordem judicial. Houve várias tentativas de mediação, infelizmente frustradas. Não cabe ao governador cassar ou suspender decisão de outro Poder. Já expliquei isso em outros momentos”.Com este argumento jurídico, o ex-juiz federal Flávio Dino procurava isentar seu governo de qualquer responsabilidade. O que não coube no tuíte foi dizer que, graças a uma série de decisões tomadas por ele durante quase cinco anos de gestão, construiu-se o cenário que levou à violência contra moradores do Cajueiro. Transcrevi trechos de uma reportagem de Sabrina Felipe. Continue lendo

17
Fev20

Adriano da Nóbrega, o policial que levou para o túmulo os segredos do submundo do Rio

Talis Andrade

Vista área da região de Muzema

 

Em 2005, a cadeia para policiais militares do Rio de Janeiro viu a entrega da maior condecoração do Estado. No entanto, o homenageado não era um guarda, mas um preso. Um agente acusado de assassinato recebeu a medalha Tiradentes —um reconhecimento pela prestação de serviços relevantes ao Estado— proposta de um deputado carioca de vinte e poucos anos, Flavio Bolsonaro. Seu pai, Jair Bolsonaro, então um irrelevante deputado que se tornaria presidente do Brasil, compareceu ao julgamento do prisioneiro condecorado e dedicou-lhe, inclusive, um discurso no plenário da Câmara dos Deputados. Ele o considerou um corajoso injustamente perseguido depois de matar durante uma operação policial “um elemento que, apesar de estar envolvido com o tráfico de drogas, era considerado pela imprensa como um simples flanelinha”. Neste sábado, Jair Bolsonaro voltou a falar sobre o miliciano. “Não tem nenhuma sentença transitada em julgado condenando capitão Adriano por nada, sem querer defendê-lo. Naquele ano ele era um herói da Polícia Militar”, afirmou em entrevista à imprensa

Adriano Magalhães da Nóbrega foi um policial excepcional e depois um delinquente excepcional. Instrutor da corporação que protagonizou o filme Tropa de Elite, ele se tornou criminoso anos atrás, depois de sair a prisão em 2006. Em 2018 foi interrogado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e no domingo passado morreu abatido em uma operação policial. Tinha 43 anos.

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O capitão Adriano estava escondido havia menos de um dia na casa em que foi abatido por ex-colegas. Seu advogado diz que estava nervoso, que tinha medo de ser assassinado. Não se sabe se alguém o avisou que estavam atrás dele. O que foi confirmado é que a casa isolada que usou como último esconderijo pertence a um vereador do partido com o qual o chefe do clã Bolsonaro ganhou as eleições presidenciais.

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O repórter de O Globo explica que os negócios mais lucrativos do capitão Adriano nos últimos tempos eram empréstimos e construção ilegal em Rio das Pedras, favela construída para abrigar babás, jardineiros ou motoristas dos moradores ricos dos condomínios da Barra da Tijuca, onde Bolsonaro tem a casa da família. Entre seus vizinhos de condomínio estava o policial militar acusado de disparar quatro tiros no rosto da vereadora Marielle Franco em um carro em movimento. Chamado Ronnie Lessa, sua trajetória é semelhante à do capitão Adriano. O repórter conta que a habilidade exigida para esse ataque foi a razão pela qual Adriano acabou sendo interrogado sobre o assassinato da vereadora. O desabamento de um prédio construído ilegalmente em Rio das Pedras matou 24 pessoas no ano passado.

“Faz muitos anos que assistimos a uma privatização ilegal perversa da segurança pública no Rio de Janeiro; a polícia não patrulha há muito tempo, é uma polícia de operações: o que faz é tirar criminosos daqui para lá”, diz Muniz. “Fabrica-se uma guerra para poder aumentar o preço dos subornos do aluguel do território”, conclui. Para não serem párias, os senhores desses negócios ilegais presidem escolas de samba, que no fim do mês desfilarão no Carnaval diante do Brasil e do mundo.

O relatório pericial sobre a morte do capitão Adriano ainda não foi divulgado. Mas as fotos publicadas pela revista Veja indicam que recebeu pelo menos um tiro a queima-roupa. O que sabia sobre as cloacas de uma das cidades mais bonitas do mundo levou para o túmulo. Nenhum dos milicianos presos abriu a boca. Tampouco o acusado de liquidar Marielle. [Transcrevi trechos

 

17
Fev20

Veja mostra fortes indícios de execução de miliciano “bomba”

Talis Andrade

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por Fernando Brito

A revista Veja mostra, agora à noite, fotos que sugerem que o ex-capitão e miliciano Adriano da Nóbrega, figura próxima dos Bolsonaro, foi executados com tiros de curta distância e não morto em confronto, como é a versão oficial.

VEJA teve acesso a imagens que revelam que Adriano da Nóbrega foi abatido com tiros disparados a curta distância. As imagens reforçam a acusação feita por sua esposa e por seu advogado de que ele foi executado — e de que as forças policiais nunca quiseram realmente prendê-lo. São fotografias de diversos ângulos, feitas logo depois da autópsia, que devem ajudar a revelar o que aconteceu nos minutos que se sucederam à entrada dos policiais no sítio onde o ex-capitão estava escondido, no município de Esplanada. De acordo com a Secretaria de Segurança da Bahia, Adriano, depois de reagir, foi abatido com dois tiros — um de carabina e outro de fuzil. Um dos projéteis atingiu a região do pescoço. O outro perfurou o tórax. (…) As fotos obtidas pela reportagem sustentam parte dessa versão — mas apenas parte. Os disparos que mataram Adriano da Nóbrega foram feitos a curta distância. Além disso, as imagens revelam um ferimento na cabeça do ex-capitão, logo abaixo do queixo, queimaduras do lado esquerdo do peito e um corte na testa.

Obtidas com exclusividade, as fotos que ilustram esta reportagem foram submetidas à avaliação do médico legista Malthus Fonseca Galvão, professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-diretor do Instituto Médico Legal do Distrito Federal. Ele debruçou-se sobre o material sem saber a identidade do morto. Depois de ressaltar que o ideal seria estudar o próprio corpo e ter conhecimento das armas usadas na operação policial, Galvão citou alguns pontos que lhe chamaram a atenção. O primeiro são as marcas vermelhas localizadas próximas da região do peito, chamadas pelos peritos de “tatuagem”, que indicariam um tiro a curta distância. “É um disparo a uma distância na qual a pólvora ainda tem energia cinética suficiente para adentrar o corpo. Então, foi um disparo a curta distância. O que é a curta distância? Depende da arma e da munição. Seriam 40 centímetros, no máximo, imaginando um revólver ou uma pistola. Mais que isso, não”, declarou Galvão. E acrescentou: “Pode ter sido uma troca de tiros? Pode. Pode ter sido uma execução? Pode. Qual é o mais provável? Com esse disparo tão próximo, o mais provável é que tenha sido uma execução. Mas tem de analisar com mais detalhes”.
O segundo ponto destacado pelo médico legista é uma marca que aparenta ser um tiro na região do pescoço. “Pode ter sido um disparo após a vítima ter caído no chão, porque a imagem me sugere ser de baixo para cima, da direita para a esquerda, em quase 45 graus. Esse disparo pode ser o que o povo chama de ‘confere’”, afirmou. Confere é o famoso tiro de misericórdia, efetuado quando não há a intenção de salvar a pessoa baleada. Galvão também destacou uma marca cilíndrica cravada no peito do corpo. “Tem muita chance de ser a boca de um cano longo após o disparo, quente, sendo encostada com bastante força por mais de uma vez. Nesse momento, ele estava vivo, com certeza, porque está vermelho em volta. É uma reação vital.” O professor observou ainda que o ferimento na cabeça poderia ser um corte provocado por um facão, um machado ou um choque com a quina de uma mesa. Pessoas próximas a Adriano da Nóbrega dizem que ele foi torturado. O machucado na cabeça, por exemplo, teria sido resultado de uma coronhada de pistola.

Os sinais de que foi um assassínio estão cada vez mais fortes.

Adriano é um arquivo morto. Mas ainda não ilegível, apesar de uma máquina policial que gera mais suspeitas que confiança.

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