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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

08
Jan21

Viva La Muerte

Talis Andrade

brincando com a morte.jpg

 

 

Notas sobre máscaras no queixo, pancadões na periferia, raves no Leblon, festanças em iates e a saltitante correria brasileira rumo ao suicídio coletivo.

por Marilia Pacheco Fiorillo /A Terra é Redonda

No dia 4 de janeiro de 2021, o internacionalmente respeitado cientista Miguel Nicolelis, coordenador do comitê de combate ao coronavírus do Consorcio Nordeste, resumiu a situação agônica que vivemos: “a equação brasileira é a seguinte: ou o país entra num lockdown imediatamente, ou não daremos conta de enterrar nossos mortos em 2021”.

Não daremos conta, provável e infelizmente. Enquanto médicos, profissionais da saúde e a grande mídia alertam, explicam, repetem à exaustão, insistem, imploram e mesmo suplicam à população para tomar os cuidados básicos para não se infectar com a SARS-Cov-2 (e suas novas variantes), o negacionismo do brasileiro cresce ainda mais vertiginosamente que os novos casos de Covid e a letalidade (as mortes aumentaram 64% só no mês de dezembro, brindando o Brasil como o vice campeão nesse ranking macabro).

Todos sabem, mas ninguém quer saber.

Os brasileiros, em sua maioria, viraram dois dos três macaquinhos chineses: não veem e não ouvem. Mas falam, e como escandem estultices  – a vacina vai implantar um chip de controle (mas o google já fez isso!) ou transformar-nos em comunistas (um milagre histórico de ressurreição dos mortos).

Todos sabem, mas o chip do WhatsApp, twitter e congêneres , já instalado, manda fazer ouvidos moucos.

Delírio coletivo? Algumas tentativas de elucidar este paradoxo – sei que não quero saber – recorrem à psicologia: cansaço, ansiedade, depressão. Outras invocam o estapafúrdio e atroz exemplo que vem de cima (tomar um caldo no mar, sem virar nem pegar  jacaré) e que, dada a estável popularidade do Mito, dá uma mãozinha para disseminar serenamente a peste.

Os dados estão aí, para todos lerem. Mas por que ninguém, mesmo lendo, quer ver? O fabuloso deste negacionismo generalizado, que intoxica todas as classes, gêneros e raças, é que ele não é privilégio de bolsonaristas terraplanistas. Tornou-se um negacionismo unânime, apartidário. Se antes da explosão do vírus em dezembro ainda víamos uma boa parcela da população usando máscara no nariz e boca, hoje aquele incauto que pertence a um grupo de risco e sai rapidamente para a farmácia com máscara e face shield é alvo de zombaria, quando não xingado com o rosnado “tá maluco, tio”. O negacionismo inicial, da gripezinha, deu lugar  ao negacionismo colérico, irritado com os que ousam manter o isolamento social, para não falar dos 2 metros de distância , recomendação da OMS.

Sim, seria um insulto apontar o dedo para o trabalhador brasileiro, forçado a se apinhar em ônibus, metrôs, e filas por uma vaga de emprego porque eles não cumprem à risca as recomendações sanitárias. Mas o trabalho (para quem tem a sorte de mantê-lo) que exige sair de casa não é uma escolha, como ir a bares ou às compras, mas é uma coerção, e coerção inescapável para quem precisa botar feijão na mesa. Outra coisa é a rua 25 de Março lotada de desmascarados para as lembrancinhas de Natal, idem nos shoppings refrigerados, idem nas praias amontoadas de fios dentais e sungas (desmascarados) a poucos centímetros uns dos outros.

Sim, prefeituras desobedecem  ordens de interdição de governos, governos não controlam suas polícias, não há multas nem punições para os organizadores e/ou participantes das festas da morte. A França recentemente mobilizou 100 mil policiais e o toque de recolher para persuadir seus cidadãos a ficarem em casa. A Catalunha multou os desobedientes anticivis. No Chile, 1.400 pessoas foram detidas por desrespeitar as normas de contenção da pandemia. A chanceler Angela Merkel quase perdeu a compostura ao emocionar-se no ultimo discurso… implorando isolamento social.

No Brasil, dá-se um jeitinho. Em São Paulo ocorreu um caso fabuloso em uma casa de espetáculos, na qual 1.500 pessoas pulavam juntinhas, grudadinhas, ao som do funk.  Um vizinho denunciou. Horas depois, chegam dois policiais. O gerente sai (sem máscara), leva um lero e fica elas por elas. O episódio viralizou, e alguém se sentiu no dever de chamar um batalhão da PM, que estacionou nas imediações. O repórter perguntou: e agora? O comandante da operação: “Temos que esperar a vigilância sanitária”. Outras horas depois, chegam duas esguias jovens da vigilância (mascaradas!), que mal tem coragem de entrar no covidário. Entram escoltadas, conversam com o desmascarado gerente. Os frequentadores mais espertos vão deixando o local. Após uma eternidade, acaba o festim diabólico. Houve multa? De quanto? Foi paga? Aconteceu de novo no dia seguinte? No Leblon, houve duas covid-parties sucessivas e concorridas, na praia, dias 30 e 31.

Todos sabem, mas ninguém quer saber. Será que a sociologia pode nos socorrer, mesmo tentativamente? Pode, e na pessoa do fundador desta disciplina, Émile Durkheim, execrado como positivista, lançado à lata de lixo da história pelos progressistas dos anos rebeldes, e, como todo clássico, recém-resgatado.

Na obra pioneira “O Suicídio” (1897) Durkheim trata o fenômeno como um fato social, não um ímpeto existencial ou individual, e busca delinear que predisposições sociais e coletivas estão em jogo em sua ocorrência. Resumidamente, haveria três modalidades de suicídio, tratadas em capítulos destacados do livro: o egoísta, o altruísta e o anômico.

O suicídio egoísta é disparado quando o(s) indivíduo(s) perde(m) qualquer senso de pertencimento à sociedade (deixam de se identificar e introjetar família, grupos, religiões), e, ao matar-se, traçam um epílogo coerente. Talvez alguns exemplos sejam o suicídio dos soldados rasos de grupos terroristas como a Al Qaeda (enquanto os mandantes se poupam), ou os games juvenis suicidas contemporâneos , ou o exibicionismo virulento de muitos atentados  recentes, de lobos solitários, como se convencionou chamar, cujo maior propósito é o reality show da própria morte.

O suicídio altruísta nem sempre faz jus à nobreza do termo. É cometido em nome de uma causa, com C maiúsculo. O exemplo clássico é o dos kamikazes japoneses da II Guerra Mundial. Sua versão contemporânea seria a auto-imolação de afiliados a grupos combatentes, que se explodem em território inimigo pela simples razão de não terem qualquer arma senão o próprio corpo. Há um filme palestino de 2005, Paradise Now, que ilustra com maestria ( e nuances) este conceito de suicídio altruísta. Sem esquecer  o suicídio dos bonzos, monges budistas que incendiavam-se em praça pública em protesto contra a Guerra do Vietnã .

Finalmente, Durkheim refere-se ao “suicídio anômico”, típico de períodos em que se perderam todas as bússolas sociais e morais, as instituições estão em processo de desintegração, habituais regras e normas se esfacelam, a lei não rege mais nada. O desemprego prospera e a confiança nos sistemas políticos despenca.

O conceito de anomia é fundamental para entender este fenômeno. Se nas sociedades simples, segundo Durkheim, imperava uma solidariedade fruto do apego de cada um ao grupo, e de cada um às tarefas necessárias para a funcionalidade da coletividade, com o advento do capitalismo, da divisão social do trabalho e da especialização e segmentação,  a ‘consciência coletiva’ se debilita e desaparece a solidariedade calcada no consenso moral e no apreço ao grupo, surge a carência de convivência , laços, vínculos costumeiros.  Já em sua época, Durkheim considerava que o suicídio anômico era o mais frequente e presente. O fármaco de Durkheim para reativar a coesão e minimizar a anomia provavelmente desagradará  gregos e troianos. Mas vale ler.

O caso brasileiro é a quintessência do suicídio anômico durkheimiano. Em um país desgovernado em todos os níveis, graus e latitudes, em que inexiste a saudável divisão dos poderes ou uma democracia de fato e de direito, país de uma desigualdade aterradora, da criminalidade canônica, em que o espírito e a letra da lei se volatilizaram, a anomia é a Norma.

A controversa expressão ‘novo normal’, aqui, fica à vontade. Não está fora de lugar e  reflete em esplendor a absoluta ausência de referenciais e um caos diariamente reposto que envenena tudo e todos. Não há onde se amparar (exceto na ignorância). Ninguém estranha .Não se estranha porque o negacionismo anômico  suicida é a versão pejorativa e obscena daquela cordialidade de que falava Sergio Buarque: o descaso simpático com a norma, com as recomendações sanitárias, com o sujeito que está ao lado e não chega a ser um  “ente querido” (expressão meio fantasmagórica, pois divide a humanidade entre queridos e outros entes). O desprezo pela lei, norma e regra , que não é privilégio brasileiro, mas aqui alcança seu auge, é bem o nosso jeitinho, o jeitinho brasileiro do suicídio coletivo, sem som ou fúria.

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08
Mar20

Na Baixada Santista 42 mortos, 36 desaparecidos, e Bolsonaro foi beijar a mão de Trump

Talis Andrade

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante jantar na Flórida - Jim Watson/AFP

É muita trabalheira. Eita vida cansada

 

Mais um corpo foi encontrado hoje (8) no sexto dia de buscas por pessoas que foram soterradas após deslizamentos na região da Baixada Santista, no temporal da última segunda-feira (2). Com isso, já são 42 as vítimas encontradas sob os escombros. Há ainda 36 desaparecidos. As buscas, neste domingo, ocorrem somente na cidade do Guarujá, pois não há mais desaparecidos em Santos e em São Vicente.

Como nenhuma autoridade liga para os pobres mortos pobres, o governador estava de passeio na Oropa, e Bolsonaro pegou o avião presidencial e danou-se para as bandas dos Estados Unidos,  e com as bênçãos de Trump foi tratar de negociatas de cassino, a último esperança para levantar o pibinho lá dele, do governo dele e de Paulo Guedes, de Moro e dos generais de pijama.

O que se sabe do encontro dos dois guerreiros é que trataram da política de entrega do petróleo venezuelano. E como sempre, Trump prometeu vender armas sucateadas para o Brasil entrar na guerra, e derrubar Maduro. "O Brasil está realmente fazendo as coisas bem, deu uma virada", uma bunda canastra disse Trump.

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