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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Nov18

Bolsonaro existe? Foi esfaqueado mesmo, ou é tudo ‘fake news’?

Talis Andrade

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Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado

 

Talvez a História nunca tenha estado tão insegura entre a verdade e a mentira. Nunca, nem mesmo o presente foi posto tanto em dúvida. Será que descobrimos, de repente, que a verdade no estado puro não existe e que tudo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo?

Vejamos o Brasil. Tudo parece ser uma coisa e o contrário. Há até quem chegue a perguntar a si mesmo se o capitão Jair Bolsonaro, que conseguiu 57 milhões de votos nas urnas não se sabe como, existe realmente ou é uma miragem. Coloca-se em dúvida até mesmo que tenha sido esfaqueado.

 

Em um mundo no qual até intelectuais chegam a pôr em dúvida a existência do Holocausto judeu, com um saldo seis milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças — exterminadas nos campos de concentração, podemos ter a impressão de que a verdade não existe e não será possível conhecê-la.

 

Isso é positivo ou negativo? É verdade que dessa forma todos nos sentimos mais vulneráveis e inseguros ao não ser capazes de distinguir entre verdade e mentira. E, ao mesmo tempo, talvez tenhamos de nos acostumar a conviver em uma realidade mais complexa do que pensávamos, que nos obriga a estar mais vigilantes, já que os limites entre realidade e aparência, entre notícia e fake news, estão ficando cada vez mais tornam-se se fazem cada dia mais tênues e indefinidos.

 

O que sentimos hoje como uma inquietação, talvez porque estivemos séculos sentados tranquilos sobre nossas certezas, pode acabar sendo uma importante purificação. Durante séculos vivemos alimentados pelos dogmas que poder civil ou religioso nos impôs. Tudo era, sem que precisássemos nos preocupar em descobrir, branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, justo ou injusto. Era assim mesmo, ou será que tínhamos nos acostumado a conviver com a verdade imposta, o que nos dispensava da dúvida? As coisas eram como eram, porque sempre tinham nos ensinado assim. Teria dado muito trabalho colocá-las em discussão.

 

Sempre acreditamos nos livros de História, como se fossem textos sagrados que não pudessem ser discutidos. E se, na verdade, os livros de História nos quais bebemos durante séculos fossem, em sua maioria, uma grande fake news? Nós nos esquecemos de que, em grande parte, a História foi escrita pelos vencedores, nunca pelos perdedores. Como teriam escrito os mesmos fatos aqueles que perderam as guerras, as vítimas, os analfabetos que não podiam escrevê-la, mas que a sofreram em sua pele?

 

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram

 

Será que estaria a salvo da contaminação das fake news o grande livro da Humanidade, a Bíblia, escrita no espaço de mil anos por autores desconhecidos, que as Igrejas cristãs consideram ter sido inspirada por Deus e, portanto, verdadeira? E se descobríssemos que historicamente a Bíblia não resistiria a uma crítica séria? Ou será que alguém pode acreditar que existiram seus personagens mais famosos, como Abraão, Noé, Matusalém e Moisés?

 

E analisando apenas os quatro evangelhos canônicos que os católicos consideram inspirados por Deus, quanto neles há de histórico e quanto há de catequese religiosa ou política? Qual é a versão verdadeira sobre o julgamento e condenação à morte do profeta Jesus se entre as versões dos quatro evangelistas há inúmeras diferenças bem visíveis? Qual é a figura real de Jesus, a que é apresentada aos judeus da época, cuja morte é totalmente atribuída aos romanos, ou aquela narrada aos gentios e pagãos, em que se carrega nas tintas contra os judeus e fariseus?

 

Talvez a inquietude que todos sentimos hoje, na nova era em que a Humanidade entrou ao não saber se estamos lidando com notícias verdadeiras ou falsas nem o quanto isso pode condicionar a convivência política e social, se deva, no fim das contas, a algo positivo, embora seja preciso se recompor e recuperar a serenidade para entender que vivemos em um mar agitado, no qual é difícil distinguir um peixe vivo de um pedaço de plástico.

 

Essa positividade que alguns pensadores começam a farejar na situação angustiante que vivemos, na qual verdade e mentira convivem abraçadas, talvez nasça de algo novo e ao mesmo tempo positivo que não existia no passado. Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado. Não é narrada pelos que se consideravam donos da verdade e a impunham com a espada na mão, se fosse necessário. Todos os poderes, civis e religiosos, fizeram isso. Hoje, a crônica começa a ser escrita e filtrada também pelos de baixo, pela periferia, por aqueles que não têm mais poder do que o oferecido pelas redes sociais.

 

Isso sem dúvida levará, como já está ocorrendo, a crises de identidade e à quebra de velhos paradigmas de segurança, como o que os dogmas e as verdades oficiais ofereciam antes. Era tudo mais cômodo e causava menos angústia. Mas não éramos também mais escravos do pensamento único do poder? O fato de não termos de nos preocupar em saber se o que nos ofereciam como história era verdade ou não, ou se era só a verdade de uma parte e não da outra, dava-nos tranquilidade. Hoje, estamos no meio de um ciclone que parece arrastar tudo e não é estranho que nos sintamos inseguros, irritados e até com medo.

 

Tão inseguros que ainda há quem não saiba realmente quem é Bolsonaro ou se ele é uma invenção, ou se os médicos de dois hospitais de prestígio inventaram a história da facada. E Lula? E Moro? Como se escreverá amanhã a história atual do Brasil? Será que os historiadores de hoje conseguirão nos contar no futuro a verdade ou a fake news sobre o que está vivendo uma sociedade que se sente presa entre a verdade e o boato, entre o que ela gostaria que fosse e o que efetivamente é a realidade — que, afinal, tem possivelmente tem tantas caras e nuances quanto as cores do arco-íris.

 

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram. E essa sim é uma verdade. Se opressora ou libertadora, só poderemos saber quando baixar a poeira dessa agitação em torno de verdade e falsidade ou de meias verdades e meias mentiras. O famoso filósofo espanhol Fernando Savater me lembrava de que “se o mundo parasse de mentir, acabaria despedaçado em poucos dias”. Às vezes, uma meia verdade pode salvar o mundo de uma catástrofe. Até a Igreja católica, com seus séculos de experiência em conduzir o poder, cunhou as famosas “mentiras piedosas”.

 

Para terminar, é verdade que Bolsonaro existe, com mais sombras do que luzes e mais incógnitas do que realidades. E também existe Lula, com toda sua história e todas suas contradições. O que não sabemos é como a História nos contará um dia este momento, que em outras colunas em já chamei de dor de parto, mais do que de funeral e morte. E em todo parto existe, ao mesmo tempo, dor e felicidade, ansiedade e esperança.

 

E, acima de tudo, a certeza de que a vida, com todas suas amarguras e crueldades, verdades e mentiras, é o único e o melhor que temos. Que no Brasil predomine, apesar de tudo, a cultura da vida e não a da morte. Essa é a grande aposta e a grande resistência. Para isso, todos deveríamos andar de mãos dadas.

 

20
Out18

Brasil: seguidor de Bolsonaro assassina a transexual de 25 años a cuchillazos

Talis Andrade

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Nodal - A transexual identificada como Laysa Fortuna, de 25 anos, esfaqueada na noite desta quinta-feira (18) na região do tórax, no Centro de Aracaju (SE), morreu na tarde desta sexta-feira (19) no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), onde estava internada. O corpo já seguiu para o Instituto Médico Legal (IML).

 

Laysa Fortuna foi atacada por um apoiador do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), segundo informações de Linda Brasil, amiga da jovem e que a socorreu.

 

O homem foi preso e encaminhado à 4ª Delegacia Metropolitana, no Conjunto Augusto Franco, zona Sul da capital. Ele assinou Termo Circunstanciado e foi liberado pelo entendimento do delegado plantonista que entendeu lesão corporal leve. As informações são do Fan F1 (SE).

 

“Estamos aqui para prestar solidariedade”, diz a professora e a ativista LGBT, Adriana Lohana, que recebeu a notícia da morte de Laysa com muita tristeza. Para ela, acontecimentos como esse só reforçam a onda violenta de preconceito que os transexuais sofrem no Brasil.

 

Para a melhor amiga de Laysa, Bruna Medeiros, será difícil imaginar viver sem a convivência de Laysa. “Está sendo muito difícil pra mim saber que a minha amiga foi embora”, conta. Ainda de acordo ela, que estava com Laysa no momento do crime, a cena que ela presenciou será difícil de esquecer. “A polícia conseguiu pegar ele [o agressor] enquanto minha amiga chorava no chão e nos meus braços”, relembra.

 

O corpo de Laysa será velado na residência da mãe da jovem no bairro Porto Dantas.

 

 

13
Out18

Quem tem o voto não precisa de arma

Talis Andrade

 

 

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A cada dia, 30 crianças e adolescentes são assassinados no Brasil 

Relatório da Abrinq revela que número de mortos mais do que dobrou 

 

Sete de cada 10 homicídios são provocados por arma de fogo

As armas são a principal forma de assassinato. De cada 10 vítimas, sete foram mortas por arma de fogo, em 2016.

 

"A maior difusão de armas de fogo jogou mais lenha na fogueira da violência. O crescimento dos homicídios no país desde os anos 1980 foi basicamente devido às mortes com o uso das armas de fogo, ao passo que as mortes por outros meios permaneceram constantes desde o início dos anos 1990", afirma o Atlas da Violência.

 

Em 2003, entrou em vigor no Brasil o Estatuto do Desarmamento, que dispõe sobre registro, posse e comercialização de armas de fogo e munição. Se não fosse essa lei, os homicídios teriam crescido 12% a mais, segundo o estudo.

 

"O enfoque no controle responsável e na retirada de armas de fogo de circulação nas cidades deve, portanto, ser objetivo prioritário das políticas de segurança pública", completa a publicação.

 

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30
Set18

Crime institucionalizado dos nazistas: Meninas pobres da periferia do RS são usadas como cobaias humanas

Talis Andrade

 

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Adolescentes que vivem em abrigos de  Porto Alegre estavam sendo testadas como cobaias pela empresa farmacêutica Bayer com consentimento  da Prefeitura, do Estado e de hospitais da Capital. Os testes consistiam na aplicação de dispositivos diretamente no útero das meninas que gradualmente liberam um hormônio para impedir a gravidez.

 

O termo de cooperação foi firmado entre Ministério Público Estadual, Bayer, Prefeitura de Porto Alegre, Hospital de Clínicas e Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas [Talvez entre eles algum aprendiz do médico nazista, conhecido como 'Anjo da Morte', que viveu escondido no Brasil na década de 60. Com certeza, todos eleitores d'Ele sim]

 

Segundo o acordo, a única responsabilidade da empresa era ‘doar’ 100 unidades do SIU-LNG (Sistema Intra-Uterino). O medicamento foi rejeitado pelo SUS – (Sistema Único de Saúde) em 2016. O defensor público, Felipe Kirchner, que participou do caso divulgou em sua rede social o seguinte depoimento:  “As adolescentes em situação de vulnerabilidade serviam como cobaias humanas para treinamento de profissionais na aplicação de método contraceptivo desenvolvido pela Bayer”.

 

O termo foi assinado no dia 6 de junho deste ano pelo próprio Ministério Público em parceria com os abrigos, que se comprometeu a selecionar as adolescentes e encaminhar para receber os dispositivos.

 

O acordo foi suspenso nessa semana pela Defensoria Pública da União, Defensoria Pública do Estado do RS e a ONG Themis. Diversas falhas foram apontadas no caso entre elas, o fato de que a bula do medicamento recomenda que as usuárias recebam acompanhamento anual de um ginecologista. Além disso o dispositivo vence após 5 anos, e não há nenhuma garantia de acompanhamento das jovens durante ou após esse período.

 

Para justificar a ação, o Ministério Público alegou que o método já foi testado e é eficaz, e que as meninas eram livres para escolher usar ou não o dispositivo.  A Bayer disse que agiu de boa fé “cumprindo seu papel social” ao fornecer os medicamentos gratuitamente. A prefeitura de Porto Alegre afirmou que as meninas receberiam acompanhamento médico, apesar de não haver nada a respeito disso no documento assinado.

 

Com esse caso fica claro entender os interesses de quem o Estado burguês defende. Para não se indispor com a indústria farmacêutica, o poder público colocou em risco a saúde de meninas pobres, sem orientação. As adolescentes estavam colocando a sua saúde em risco sem receber nada em troca! Enquanto a Bayer se preparava para aumentar a lucratividade assim que comprovasse que o remédio era eficiente para ser fornecido pelo SUS. Texto de Lark Lapato. Faltam os nomes dos safados, dos animais predadores do Judiciário, da Prefeitura de Porto Alegre, dos diretores de abrigos e de hospitais, e dos mercadores da Bayer, que assinaram esse acordo nazista. 

 

 

09
Set18

Coronel Ustra, o "herói" dos Bolsonaro e general Mourão

Talis Andrade

Para os Bolsonaro candidatos a presidente, senador e deputado federal, e o general Mourão, o torturador e assassino coronel Ustra é um "herói".

 

 "Os heróis matam", disse o general. Para matar um preso político, amarrado em uma cadeira de dragão, não é preciso coragem. Basta a frieza dos psicopatas. 

 

“Eu fui espancada por ele [Coronel Ustra] ainda no pátio do Doi-Codi. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando ‘sua terrorista’. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura.” Assim descreveu Amelinha Teles, ex-militante do PcdoB, seu encontro com Ustra.

 

“Tiraram a minha roupa e me obrigaram a subir em duas latas. Conectaram fios ao meu corpo e me jogaram água com sal. Enquanto me dava choques, Ustra me batia com um cipó e gritava me pedindo informações”, relembrou Gilberto Natalini, hoje médico, na época, com 19 anos.

 

Em 2012, o coronel Ustra foi condenado pela Justiça de São Paulo a pagar uma indenização de R$ 100 mil à família do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, morto sob tortura em 19 de julho de 1971 nas dependências do DOI-Codi.

 

Uma porrada de filmes sobre a ditadura. Pra que nunca se repita

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por Carlos Carvalho

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Recentemente, embora isso seja frequente, passamos por uma situação bastante constrangedora (e revoltante) na nossa política, que foi a votação na Câmara dos Deputados pela aprovação do pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Independente das questões envolvendo a legitimidade ou não desse processo, houve um discurso em específico que ganhou notoriedade, o do deputado Jair Bolsonaro que, entre outras bizarrices, homenageou o coronel do exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores do período da ditadura militar que se iniciou após o Golpe de 1964. Como se não bastasse a homenagem a um torturador, Bolsonaro foi explícito no recado direto que enviou ao citar Brilhante Ustra como “o terror de Dilma Rousseff”, já que ele era chefe do DOI-CODI onde Dilma ficou presa e foi barbaramente torturada.



Não foram poucas as pessoas que demonstraram apoio ao deputado e isso reacendeu novamente um pequeno debate sobre a ditadura militar. E como acho que essa é uma questão importante e que jamais deveria ser negligenciada por nós, decidi fazer uma lista com alguns filmes que tratam de temas relacionados à ditadura, ou com personagens que foram importantes durante esse período, para que jamais nos esqueçamos da barbárie que ela foi. Da mancha negra que ela deixou em nossa história e que nunca conseguiremos apagar, embora haja um esforço gigantesco para que ela não seja enxergada. Esforço, inclusive, que já aponta para debates revisionistas dessa história, com o intuito de reescrevê-la para que se faça parecer que a ditadura militar não foi tão ruim quanto parece. O que é um absurdo e uma canalhice atroz.



É fato que não damos a devida atenção a esse período da nossa história e muito disso é herança da tenebrosa lei de anistia, que perdoou não apenas aqueles que lutaram contra a ditadura, esses com toda justiça, mas também os militares que praticaram os mais imperdoáveis crimes contra a humanidade. Gente que sequestrou, torturou e matou civis, artistas, intelectuais, políticos e toda e qualquer pessoa que se opunha contra o regime militar implantado a partir de 1964. Aliás, muitas vezes, até quem sequer se posicionava contra o regime era preso, torturado e morto, como mostra um dos filmes dessa lista.

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Portanto, deixo aqui uma pequena contribuição para que a gente possa aprender um pouco mais sobre esse período terrível. Vale dizer que, para esta lista, abri mão em vários momentos da qualidade cinematográfica em troca da importância do tema. Nem todos os filmes são otimamente bem realizados. Alguns, inclusive, do ponto de vista artístico, são bastante ruins. Mas são registros importantes para que possamos entender a complexidade desse período. Suspeito que alguns deles sequer tenham sido lançados no cinema. E vários dessa lista podem, inclusive, ser encontrados completos no YouTube.

Não há desculpas para não conhecermos nossa história. Inclusive, aproveito a deixa para recomendar duas obras essenciais e públicas para se entender melhor esse período: o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que investigou a fundo o período (embora não tenha tido acesso a muitos dos arquivos que ainda permanecem em segredo de Estado) e o livro “Infância Roubada”, da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, que fala especificamente sobre as crianças que foram torturadas pela ditadura militar. São relatos muitas vezes de revirar o estômago, mas que nem de perto podem ser comparados com o sofrimento que deve ser vivenciar uma ditadura militar.

Pra que nenhum canalha torturador volte a ser homenageado por outros canalhas que apoiam essa prática, é preciso que a gente saiba quem essas pessoas foram, o que elas fizeram e quem foram suas vítimas. Se posso dar alguma contribuição, aqui está.

 

 

 

 

08
Jul18

DITADURA E ABUSO DE AUTORIDADE Família de jovem assassinada por PM recebe ameaças após denúncia à Ouvidoria

Talis Andrade

 

 

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Na última segunda-feira (2), Brenda Lima de Oliveira, de 20 anos, e seu namorado Rhuan Carlos dos Santos, de 19 anos, voltavam de moto de uma lanchonete quando resolveram passar em frente à casa que pretendiam alugar para morar juntos. Poucos metros depois de entrarem na rua, os jovens foram atingidos por um tiro.

 

Os disparos partiram da arma do policial Jonathas Almeida Lima e Lima, de 21 anos, que estava à paisana e atirou da varanda de sua casa. Atingida pelas costas, Brenda morreu no local. A mesma bala atingiu Rhunan, que ficou ferido.

 

A família, indignada com a violência gratuita, denunciou o caso à Ouvidoria Geral da Polícia Militar. No documento lavrado pela Ouvidoria, Rhunan conta que, assim que foi abordado pelo policial, foi questionado se tinha passagem pela polícia, tatuagens e se estava armado. Ainda segundo o relato do namorado de Brenda, ao invés de chamarem a ambulância, mais viaturas policiais foram direcionados ao local, e apenas meia hora depois do disparo o socorro médico foi acionado.

 

A denúncia, porém, atraiu ainda mais problemas às suas vidas, na forma de intimidação por parte de outros PMs. Segundo Adnaldo Silva de Oliveira, pai de Brenda, policiais militares passaram a fazer uma "ronda" diária em frente às residências de amigos e familiares das vítimas.

 

"Eles estão passando na residência da avó da minha filha. As viaturas de polícia ficam passando e encarando, todos os dias. Revistam as pessoas de lá de perto, os amigos dele, e pedem o celular para ver se tem alguma filmagem", revela.

 

Além disso, quando a família foi buscar os pertences de Brenda no Instituto Médico Legal, não os encontrou. Segundo funcionários, o material teria sido incinerado. Ariel de Castro Alves, advogado e coordenador da Comissão da Infância e da Juventude do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe), aponta que o procedimento é irregular.

 

"O ouvidor-geral de Polícia, Benedito Mariano, está encaminhando pedido de instauração de inquérito na corregedoria para que o caso não seja apenas investigado pelos colegas do batalhão que ele [Jonathas] faz parte, mas sim na corregedoria geral da PM", explica.

 

Castro acrescenta que o ouvidor solicitou ao Ministério Público que acompanhe também as investigações.

 

Outro lado

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública não respondeu aos questionamentos feitos pelo Brasil de Fato até o fechamento desta reportagem.

 

Em relatos feitos à imprensa, a polícia contou que horas antes da moto onde estavam Brenda e Rhunan passarem na rua do PM Jonathas, uma pessoa havia atirado uma bomba caseira na casa do militar. O PM, por ter se sentindo ameaçado, teria efetuado o disparo.

 

A versão não convence Castro. "Ele diz que estava sendo ameaçado, mas um policial que está amedrontado tem que pedir reforço, escolta, e não ficar de tocaia efetuando disparos em pessoas que passam em frente de sua residência", explica.

 

A família pede justiça e não acredita na inocência do policial. "Ele não é um inexperiente, ele é um assassino, um policial assassino", desabafa o pai de Brenda.

 

 

Violência policial

Castro acredita que o caso que levou à morte de Brenda se enquadra na escalada da violência policial do estado de São Paulo. "Temos policiais agindo com carta branca, licença para matar, e sendo apoiados pelo próprio governador e a secretaria de segurança", lamenta.

 

O estado de São Paulo tem a maior proporção de mortes em decorrência de intervenção policial do Brasil, segundo o 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Do total de homicídios no último período, 17,4% foram causadas por policias. A proporção no Brasil é de 6,9%.

 

 

28
Jun18

Bahia assiste a onda de assassinatos após morte de policiais

Talis Andrade

Investigador aponta indícios de ação deliberada de agentes do Estado contra a população no caso de 45 mortes. Todas as vítimas, incluindo o PM, são negras

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Caixas para colocar corpos em Feira de Santana, no final de semana de 16 e 17 de junho.

 

 

 

Uma chacina, três duplos homicídios, duas mortes em supostos confrontos com a polícia, um total de 26 pessoas mortas e medo. O cenário é Salvador, capital da Bahia, os dias são 9 e 10 de junho, logo após o policial militar Gustavo Gonzada da Silva ser morto e ter o corpo mutilado. Na região metropolitana, foram mais cinco assassinatos. No final de semana seguinte, o soldado da PM Wagner Silva Araújo, 28 anos, foi morto em Feira de Santana, também na Bahia, e o mesmo roteiro se repetiu: 19 assassinatos em dois dias.

Ouvido pela Ponte, o investigador da Polícia Civil baiana Kleber Rosa, integrante do movimento Policiais Antifascismo, levanta a possibilidade de que várias dessas mortes tenham sido praticadas por policiais como uma retaliação aos moradores das periferias pelas mortes dos colegas. Para ele, a narrativa não deixa dúvida: os homicídios são uma resposta do Estado, a partir da polícia – para ele, “instituição moldada no racismo” – e baseada na vingança e na demonstração de poder.

 

“É o Estado dizendo assim: ‘tenho que mostrar que sou mais forte’. É uma disputa ilógica. Um comportamento medonho do Estado de tentar medir forças sem usar a Justiça, os meios legais. Não existe legítima defesa aí. O Estado não pode arrogar pra si o direito de matar, sobretudo de uma forma sumária, em nome de uma vingança”, critica.

 

Todas as execuções seguidas da morte do policial na capital baiana foram praticadas com armas de fogo contra homens jovens e sua maioria em bairros periféricos – apenas 4 na região central da capital baiana, segundo levantamento recebido pela Ponte.

 

Das mortes na capital baiana, 18 aconteceram ainda em 8 de junho, dia em que a ocorrência da execução do cabo Gonzada foi registrada. O policial estava bebendo com amigos em um bar entre Santa Cruz e Nordeste de Amaralina, onde vivia, quando foi abordado. Após tentar reagir, foi morto. Os assassinos cortaram partes do corpo do PM. A brutalidade gerou revolta em outros policiais.

 

 

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Soldado Araújo, morto após tentativa de evitar um assalto.

 

Kleber Rosa conhecia Gustavo e não soube de qualquer tipo de ameaça que pudesse estar sofrendo. “Eu sou do mesmo bairro, minhas relações estão localizadas lá, ele estudou comigo na mesma escola. Era bem conhecido na região, uma pessoa querida e, antes de ser policial, era morador do bairro, então isso é um elemento problematizador. Tanto é que isso indignou todo mundo, inclusive moradores do bairro que sofrem com a violência policial, porque ele era um morador, foi assassinado próximo da casa dele, num lugar que ele frequentava”, explica.

 

Um áudio atribuído ao deputado soldado Prisco (PSDB) demonstra a reação da tropa. “A morte do nosso colega Gonzada nos causou muita dor, muita revolta e muita indignação. A resposta tem que ser dada e tem que ser dada à altura. O bandido não pode dominar o nosso Estado”, diz a suposta mensagem do parlamentar. “O colega foi assassinado, humilhado, esbagaçado por esses marginais. E essa resposta tem que ser dada à altura. Estou aqui à disposição para ajudar vocês a caçar esses marginais e dar essa resposta”, segue.

 

Ponte questionou o soldado Prisco sobre se, de fato, é ele quem gravou o áudio propagado pelo WhatsApp, mas o político não respondeu ao e-mail da reportagem.

 

O investigador Rosa conta que a polícia fez “literalmente um cerco” no Nordeste de Amaralina depois do assassinado do PM Gonzaga. “O bairro foi sitiado. Eu recebi uma série de ligações de pessoas preocupadas, sem saber como agir, sem saber o que fazer com familiares, que podiam ou não ter antecedentes [criminais]. Pessoas, por exemplo, não tinham nem como sair do bairro, porque se fossem parados por uma blitz poderiam acabar em um fim trágico [por terem passagem]. Foi o final de semana mais violento do ano, com certeza”, afirma Rosa.

 

Medo coletivo

 

O resultado é uma sensação coletiva de medo nas regiões pobres da capital baiana. Há duas semanas, a Ponte busca familiares de vítimas dos homicídios nestes dois dias. Nenhuma pessoa aceita falar. Até mesmo movimentos e associações que denunciam violência de Estado têm preferido se preservar. Nos registros das ocorrências, há casos de números de telefone incorretos dados pelos parentes de pessoas mortas, outro indicativo do medo. A reação de uma familiar a um telefonema da reportagem deixa claro o alcance desse temor. “Como você conseguiu o meu contato?”, questiona. “Só falei o que precisava para a polícia e os movimentos, não autorizei mais nada. Não quero falar sobre esta história”, encerra.

 

Para Kleber Rosa, que tem experiência de quase duas décadas na Polícia Civil, o episódio desnuda uma política de segurança que passa pela dita “guerra às drogas”, mas que, no final das contas, “é um salvo conduto para matar”. “A política de segurança de Estado sempre esteve voltada para controlar, exterminar, combater a população negra, isso tudo com o objetivo de viabilizar a sociedade branca pós-escravista. O modelo que permanece se estendendo até hoje faz com que a estrutura da polícia esteja montada para um determinado tipo de crime, que acontece em determinada região e que coloca, portanto, todo o morador daquela região como inimigo”, avalia.

 

O problema não é só da Bahia, mas no Brasil como um todo, explica Rosa. “É uma política racista que encarcera em massa, que mata em massa a população e que controla mesmo em condição de liberdade, porque o que acontece nos bairros onde se concentra população negra é o que podemos considerar encarceramento ao ar livre. Ou seja, as pessoas estão vivendo em uma condição de permanente de vigilância e violência mesmo a céu aberto. O que aconteceu há duas semanas? As pessoas ficaram presas, sitiadas, não tiveram coragem de sair de casa, de sair do bairro. O clima ainda é tenso, as pessoas não estão falando”, diz.

 

A ouvidora da Defensoria Pública da Bahia, Vilma Reis, critica o banho de sangue e a rotina de pavor desde os crimes. “No bairro Nordeste, está todo mundo apavorado. Foram cinco assassinatos lá motivados pela morte desse policial. Não se pode admitir uma sociedade de vingança, é uma barbárie”, conta.

 

Um pesquisador sobre a violência na Bahia comparou a reação à execução do cabo Gonzada como “a versão baiana dos crimes de maio” de 2006 em São Paulo, quando houve uma resposta do Estado aos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) com uma matança indiscriminada nas periferias. Nos números oficiais, 493 pessoas morreram na reação aos ataques da facção criminosa. “Cobraram geral pela morte do cabo, a periferia está com muito medo. Nessa onda de mortes, muitos não tinham passagem pela polícia. São fortes indícios de que ocorreu a pratica de extermínio”, explica o profissional, sob a condição de anonimato, temendo represálias.

 

Os mortos em Salvador

 

A chacina registrada no dia 9 ocorreu no bairro Ceasa. Já os bairros I.A.P.I., Cosme de Farias e Saboeiro tiveram, cada um deles, um duplo homicídio registrado. O cabo Gustavo foi a primeira vítima do fim de semana, seguido por Mario Souza Santos, Lucas Puig Maia Mesquita, Rafael Lucas Franco Matos, Caique Leonardo Santana de Souza, Flavio Reis dos Santos Júnior, Paulo Ricardo Ramos da Silva, Flávio Lucas Souza Penas dos Santos, Josué da Cruz, Samuel da Cruz Batista, Eliomar da Cunha Rosa, Evandro Silva Santos, Uenderson Gabriel de Oliveira, Diego de Jesus, Genilson de Freitas Santana, Jean Carlos dos Santos, Emerson de Santana Santos, Renivan Barbosa dos Santos, Eduardo de Jesus Santos, Yuri Oliveira da Cruz, Icaro Caio Oliveira Mendes, Alípio Pinheiro de Almeida, Rainer Bispo de Araújo e de outras quatro vítimas não reconhecidas – duas delas vítimas de suposto confronto com a polícia. Todas as vítimas, incluindo o PM, são negras.

Essa reportagem foi publicada originalmente no site Ponte.

 

 

28
Jun18

O Brasil que escreve sua história com sangue de crianças

Talis Andrade

Já são oito crianças e adolescentes mortos no Rio só neste ano, por disparos aleatórios.
Marcos Vinicius, de 14, do Complexo da Maré, foi alvejado pelas costas por um blindado da PM

 

por CARLA JIMÉNEZ

 

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Velório de Marcus Vinicius, de 14 anos, morto na Maré M.PIMENTEL AFP

 

Há algo que despedaça dentro da gente quando uma criança morre, e uma mãe precisa enterrá-lo. Mas a dor é incalculável (ou deveria) quando se sabe que o pequeno ou a pequena são indefesos alvejados brutalmente por obra de uma política de segurança assassina que cobiça ainda mais poder para matar inadvertidamente. “Ele não meu viu com a roupa de escola, mãe?”, disse Marcos Vinicius da Silva, de 14 anos, enquanto sangrava pela barriga, pela bala que o atravessou vindo de um blindado da polícia. Vinicius recebeu o tiro pelas costas. Definhou nos braços da mãe, Bruna. Uma doméstica, parda, do Complexo da Maré, no Rio. Seguiu até o hospital, depois de esperar uma hora pela ambulância. Não resistiu.

O país que se solidarizava na última quinta com as fotos de crianças chorando, separadas dos pais sob a política insensível de Donald Trump para os imigrantes nos EUA, não percebia que mais uma criança brasileira também era apartada, para sempre, dos seus. Assassinada, vítima impotente da indiferença geral. Do Governo brasileiro, que fomenta uma política violenta, classista e mambembe de segurança pública, e a indiferença de uma enorme parcela da população que finge não enxergar esse massacre.

 

Como não sentir revolta contra este sistema apodrecido? Ninguém teme o que vem depois? A situação é grave, gravíssima, não só pela morte de mais um adolescente. Só neste ano foram oito crianças vítimas de balas perdidas, como levantou o jornal O Dia, sendo duas delas de apenas dois anos. No mesmo dia em que Marcos morreu, Guilherme Henrique, também de 14, foi vítima de balas disparadas de um veículo no Realengo, zona Norte do Rio. Também estava de uniforme escolar. Queria ser engenheiro. Um menino estudioso, que não saía de casa, segundo seu pai, Roberto. A trágica realidade é a quantidade de mártires mirins que este país multiplica ano a ano. Em março do ano passado, foi Maria Eduarda, de 13 anos, assassinada dentro da escola, na Zona Norte do Rio. No final de 2015, cinco jovens covardemente mortos com 50 tiros de fuzil.

 

É inacreditável que o Brasil continue escrevendo sua história violenta de desigualdade com sangue de crianças e adolescentes. E que uma parte da população dê de ombros para estas notícias, querendo eleger um candidato a presidente que quer mais sangue ainda com a liberação de armas e autorização para que a polícia mate sem ser questionada. Jair Bolsonaro postou na sexta-feira em seu twitter um elogio à polícia militar do Rio de Janeiro com cenas de pessoas sendo presas, enquanto Bruna ainda devia ouvir as últimas frases do seu filho “era um blindado” – antes de morrer. Nenhuma palavra sobre Vinicius e Guilherme Henrique que morreram em sua cidade. Bolsonaro ainda anunciou, no mesmo dia, que não vai a debates nas eleições para explicar suas propostas que reforçam e pioram as diretrizes para esta masmorra humana a céu aberto.

 

Marcos Vinicius ia para a escola quando recebeu o tiro. Ia tentar furar o bloqueio da desgraçada pobreza deste país, que precisa de nove gerações para que alguém supere sua condição de sobrevivência financeira. Isso, se não morrer assassinado antes por ter nascido com o ‘erro’ de origem de vir ao mundo em uma família simples. A foto dos amigos dele segurando sua camiseta ensanguentada é para ser esfregada na nossa memória. No mesmo dia de seu assassinato, uma manchete da Folha contava que o Governo fazia planos de tirar recursos que seriam destinados ao Fundo de financiamento estudantil (FIES) para repassar à segurança. Até quando vamos ter de escrever textos e mais textos para falar o óbvio, repetir Darcy Ribeiro sobre as nações que não investem em escolas gastam mais dinheiro com presídio, e que, por favor, crianças morrerem assassinadas não é miopia, mas psicopatia social?

 

Marcos vivia na Favela da Maré. A mesma onde cresceu Marielle Franco, cuja execução sumária continua protegendo assassinos que se alimentam do sangue de pessoas como ela ou este novo mártir involuntário que não teve a chance de ver a vida além de seus 14 anos. Não viu a vitória da seleção. Não teve a oportunidade de terminar a escola, de sonhar além dessa breve existência. Seus colegas não foram à aula nesta sexta, temendo a presença de outros blindados. No ano passado, eles faltaram 38 vezes pelo mesmo motivo, segundo o jornal o Globo. É o risco de ser assassinado como estímulo para fraquejar na educação. A taxa de evasão escolar ali é de quase 20%, maior que a média nacional, ainda segundo o Globo.

 

É uma dinâmica horrenda e interminável neste país, que finge alívio com uma intervenção militar no Rio de Janeiro e suas ridículas cifras que só mostraram aumento de mortes violentas e zero de solução. Bola cantada mil vezes pelos moradores de comunidades, e por todos os estudiosos da violência no Rio quando a intervenção foi anunciada. Marcos Vinicius entra nessa conta. De quem vamos cobrar o que não tem volta? Um Estado que não se importa com a morte de uma criança não é doente, como disse a admirável Bruna, mãe do adolescente, que dentro de sua incomensurável dor, logrou ser elegante para falar do assassino de seu anjo. Um Estado que mata insistentemente crianças e inocentes em franjas desassistidas como a do complexo da Maré é cruel, perverso, assassino.

 

Nunca o Brasil pediu tanta atenção para tratar a doença, esta sim, da sua indiferença com a morte de inocentes. Nunca foi tão necessário assumir o papel de civilizador com quem se nega a entender o óbvio, e pior, não entende que é conivente com esta chacina de menores.

 

27
Jun18

TJ-RJ condena estado a pagar R$ 900 mil à família de morto em tiroteio

Talis Andrade

 

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Pela vez primeira a Justiça renconhece um pouco o valor de uma vida

 

 

Pelo sofrimento “imensurável”, a 25ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça fluminense aumentou de R$ 300 mil para R$ 900 mil o valor da indenização que o estado do Rio de Janeiro terá de pagar à família de Fabiano Maciel da Costa. Ele foi morto após ser atingido por bala perdida durante confronto entre policiais militares e assaltantes em outubro de 2012, na Vila Valqueire, zona oeste da cidade. 

 

Talvez pela multa, a polícia que mata termina expulsa. Que o povo, através dos impostos, não deve pagar os salários de assassinos fardados. E que seja arquivado o criminoso slogan "Bandido bom é bandido morto". 

 

No caso Fabiano Maciel da Costa, os magistrados acompanharam, por unanimidade, o voto da relatora, a juíza designada desembargadora Isabela Pessanha Chagas, que estipulou o valor de R$ 200 mil para o filho, o mesmo valor para o pai e outros R$ 200 mil para a mãe da vítima, além de R$ 100 mil para cada um dos três irmãos.

 

Em seu voto, a relatora considerou que, mesmo que não tenha sido provado que o tiro partiu da Polícia Militar, o Estado é responsável pela operação que colocou em risco os cidadãos.

 

“Torna-se desnecessária a comprovação dos danos morais, eis que estamos diante de uma família que teve o convívio com um dos seus parentes interrompido de maneira trágica. Não restam dúvidas do sofrimento do primeiro autor, menor impúbere, que vai crescer sem a companhia do seu genitor, pessoa esta insubstituível.”

 

“Da mesma forma, o sofrimento dos pais da vítima é imensurável e os demais autores, na qualidade de irmãos, também fazem jus à indenização por danos morais”, destacou a relatora em seu voto. Com informações da Assessoria de Imprensa do TJ-RJ.

Transcrito do ConJur. Processo 0416529-36.2014.8.19.0001