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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Abr19

Bombeiros encontram 15 corpos nos escombros do desabamento na Muzema

Talis Andrade

Continuam as buscas nos prédios na Muzema, Zona Oeste do Rio. Os imóveis caíram na sexta-feira (12). Já são 15 mortos e os bombeiros trabalham com o número de pelo menos 9 desaparecidos.

 

A Polícia Civil ainda não revelou os nomes dos responsáveis pela construção dos dois prédios que desabaram na Muzema, Zona Oeste do Rio, na última sexta-feira (13).

 

De acordo com a delegada titular da 16ª DP (Adriana Belem), os responsáveis serão identificados e responsabilizados, tanto pelas mortes, quanto pelas lesões e também pelas construções irregulares.

Major Ronald Paulo Alves Pereira, um dos alvos da operação Os Intocáveis

 

fim de semana, peritos da Polícia Civil voltaram ao local e fizeram uma perícia complementar. Os investigadores ainda não conseguiram ouvir testemunhas, moradores e vítimas da tragédia. Ainda segundo a polícia, assim que tiverem condições de prestarem depoimento, elas serão ouvidas.

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13
Abr19

Escutas revelam ameaças de milicianos a moradores dos prédios que desabaram no Rio

Talis Andrade

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Triunvirato miliciano do Rio das Pedras: os capos 'Capitão Alexandre', 'Maurição' e major da PM Ronald Paulo Alves Pereira

 

 

Rio - Escutas telefônicas autorizadas pela justiça e presentes na denúncia feita pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) revelam a rotina de cobrança, ameaças, negociação de imóveis irregulares, agiotagem, entre outras atividades criminosas dos milicianos de Rio das Pedras, alvos da operação "Os Intocáveis". A ação com a Polícia Civil prendeu cinco acusados de milícia, dois deles suspeitos das execuções de Marielle Franco e Anderson Gomes.

A denúncia divulgada pelo MP mostra a transcrição das gravações. Nas conversas, milicianos ameaçam moradores da comunidade que não pagaram o aluguel de seus imóveis irregulares. Uma gravação de um dos integrantes, identificado como Manoel Batista, o Cabelo, mostra a liderança do ex-cabo da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, o "Capitão Adriano" ou "Gordinho", e Maurício Silva da Costa, o "Maurição", além do major da ativa da PM Ronald Paulo Alves Pereira.  

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"Eu tenho oito apartamentos naquele prédio, o resto é tudo do Adriano e do Mauricio entendeu, você procura ele e fala com ele entendeu, não adianta ficar me mandando mensagem, e você fala pro João que o Aurélio acabou de me falar aqui que ele falou que vai cortar os cabos lá no Pinheiro, se ele cortar, eu vou cortar os dois braços dele e as duas pernas", diz Manoel, na ligação de 15 de novembro de 2018.

Na mesma conversa, ele reforça a liderança de Maurição, dizendo que ele manda em tudo: "Ele manda em tudo, como ele não vai mandar no prédio entendeu? (...) Agora eu não posso passar por cima da ordem do homem pô", conclui.

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Manoel de Brito Alves, vulgo 'Cabelo'

 

Cabelo participa ativamente das "negociações" e ameaças dentro do ramo imobiliário. Em uma chamada do dia 5 de novembro de 2018, Cabelo conversa com um homem sobre uma moradora que poderia não pagar o aluguel no dia. "Se não pagar o aluguel hoje, amanhã é pra travar não deixar ela entrar não tá", sentencia.

Entre as provas juntadas na denúncia contra o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira estão inúmeras plantas de imóveis, documentação de loteamento de terrenos, "restando evidenciada a sua participação ativa no ramo imobiliário", diz o Ministério Público do Rio.  

Cabelo é apontado como integrante de "destaque" na milícia de Rio das Pedras e espécie de gerente armado da quadrilha. "Ainda é o braço financeiro da quadrilha, responsável pelo acompanhamento da construção dos empreendimentos, bem como negociação, supervisão da cobrança, arrecadação e posterior repasse dos lucros auferidos ilegalmente, além da ocultação dos patrimônios pertencentes à malta (grupo), todas essas funções sob a constante vigilância dos denunciados Adriano e Maurício".

 

Outro integrante da quadrilha, Júlio César Veloso Serra, apontado como responsável pela contabilidade da quadrilha e homem de confiança do major Ronald e Manoel, destaca a chefia do capitão Adriano em outra escuta, de outubro do ano passado, na qual o chama de "patrãozão".

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Adriano Magalhães da Nóbrega

 

Ligações de luz e água irregulares e informações privilegiadas

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A denúncia do MP também aponta que os criminosos faziam ligações clandestinas de água e energia em seus empreendimentos imobiliários irregulares. Em conversa com um interessado em alugar um apartamento no condomínio Bosque das Pedras, no Anil, Cabelo fala que os serviços não são pagos. 

"Eu tenho um aí (apartamento), dois quartos, sala, cozinha e banheiro, Mil e Trezentos Reais. Não paga luz, não paga condomínio, não paga água, não paga nada", diz Manoel para a mulher interessada no imóvel. 

O grupo também recebia informações sobre operações tanto de órgãos municipais quando da polícia, inclusive com pagamento de propina para exercerem suas atividades sem serem incomodados. "Eu que levo o negócio pro homem, eu sei quando vem pô", diz Manoel sobre a presença da PM. Em outra conversa com um homem chamado Bruno, uma fiscalização é motivo de preocupação para Manoel.

MANOEL: Tá sabendo que tem alguma coisa amanhã?

BRUNO: Não, não to sabendo não.

MANOEL: Acabou de me ligar aqui que vai ter.

BRUNO: Aonde?

MANOEL: Muzema e Rio das Pedras, falou que não é, é pica heim.

BRUNO: O quê?

MANOEL: Falou que é INEA e Prefeitura.

BRUNO: Eu não aguento não mano.

MANOEL: INEA e Prefeitura, falou que os cara são do caralho.

BRUNO: É?

MANOEL: Hum, hum, eu nem sei o que eu faço.

BRUNO: Não aguenta o coração mais não, na moral

MANOEL: E aí, procura ver se é verdade mesmo.

Por meio da transcrição de áudios foi verificada as relações estabelecidas entre os criminosos e as funções desempenhadas por cada um deles na organização, tais como segurança (ou 'braço armado'), agente de cobrança de taxas, lavagem de dinheiro (na figura de 'laranjas'), agiotagem e forte atuação no ramo ilegal imobiliário.

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Dois alvos do 'Escritório do Crime'

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Maurício Silva da Costa, o 'Maurição'

 

 

Dois dos alvos de prisão, o major Ronald e o capitão Adriano, comandariam o "Escritório do Crime", braço armado da organização especializado em assassinatos por encomenda. Os principais clientes do grupo de matadores profissionais são contraventores e políticos. Há uma suspeita de que o "Escritório" esteja envolvido no assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Tanto Ronald quanto Adriano chegaram a ser ouvidos na condição de testemunhas no caso Marielle. "O caso Marielle corre em segredo de justiça. São investigações que não se confundem. Não podemos, nesse momento, nem afirmar e nem descartar a participação de todos ou de alguns desses integrantes no caso", disse Simone Sibilio, outra das promotoras que investiga as execuções da vereadora e do motorista. "É possível sim que eles façam parte do escritório do crime e as investigações serão aprofundadas nesse sentido", concluiu.

Foram denunciados Adriano Magalhães da Nóbrega, mais conhecido como "capitão Adriano" ou "Gordinho"; Ronald Paulo Alves Pereira, o major Ronald ou "Tartaruga"; Maurício Silva da Costa, conhecido como "Maurição", "Careca", "Coroa' ou "Velho"; Marcus Vinicius Reis dos Santos, "Fininho"; Manoel de Brito Batista, "Cabelo"; Júlio Cesar Veloso Serra; Daniel Alves de Souza; Laerte Silva de Lima; Gerardo Alves Mascarenhas, o "Pirata"; Benedito Aurélio Ferreira Carvalho, "Aurélio"; Jorge Alberto Moreth, o "Beto Bomba"; Fabiano Cordeiro Ferreira, o "Mágico" e Fábio Campelo Lima. [Reportagem de Adriano Araújo, publicada no jornal O Dia, em 23 de janeiro último.

 

05
Abr19

Ao determinar a comemoração do golpe militar de 1964, o antipresidente busca manter o ódio ativo e barrar qualquer possibilidade de justiça

Talis Andrade

Festejar o crime

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A memória da ditadura está sob ataque. E uma tentativa de fraudar a história, apagando os crimes cometidos pelos agentes do Estado, está em curso. Não mais como uma ofensiva pelos subterrâneos, que nunca cessou de existir, mas como ato de governo, o que faz toda a diferença. Toda.

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El País 
 
 

Sim, o atual presidente defende que a tomada do poder pela força pelos militares, deixando o Brasil sem eleições diretas para presidente de 1964 a 1989; rasgando a Constituição e estabelecendo a censura; obrigando alguns dos melhores quadros do Brasil a amargar o exílio; prendendo, sequestrando e torturando, inclusive crianças, e matando opositores é motivo de comemoração. E, como presidente da República, determinou que os crimes contra a humanidade, portanto imprescritíveis, que já deveriam ter sido devidamente punidos, sejam agora comemorados oficialmente pelas Forças Armadas.

Parem de ler agora. E pensem no que significa para um país comemorar o sequestro, a tortura e o assassinato de civis por agentes do Estado, assim como o que significa comemorar um golpe infligido por parte das Forças Armadas. É possível isso acontecer, como ato de Governo, e o Brasil seguir reconhecido como uma democracia?

Não. Simplesmente não é possível. Bolsonaro, é preciso dizer, nunca fingiu ser o que não é. Há vídeos dele dizendo que os militares mataram foi pouco. “Tinham que ter matado pelo menos uns 30 mil” e “se morrerem inocentes tudo bem”, afirma num deles. Seu herói declarado, Carlos Alberto Brilhante Ustra, é um torturador, reconhecido pela justiça brasileira como torturador, que chegou a levar crianças para ver os pais nus e arrebentados. Bolsonaro, quando candidato, ameaçou mandar opositores para a “ponta da praia”, referindo-se a uma base da Marinha usada como local de tortura e desova de cadáveres pelo regime de exceção. Disse também que faria uma “faxina” e que os opositores de seu Governo ou “vão para fora ou vão para a cadeia”.

Pelo menos três opositores já afirmaram publicamente que foram obrigados a deixar o Brasil por ameaças de morte. Polícia, Ministério Público e judiciário se mostraram incapazes de protegê-los e garantir a sua segurança. Nesta área, Bolsonaro está fazendo exatamente o que disse que faria. Ele nunca deu motivos para que a população duvide do que diz que fará com os opositores.

A questão, agora, é o que as instituições vão fazer com o anúncio de Bolsonaro, apresentado pelo seu porta-voz, general Otávio Rêgo Barros. É possível ainda esperar algo das instituições amedrontadas, quando não coniventes? Como esperar algo quando o Supremo Tribunal Federal é presidido por Dias Toffoli, que no ano passado corrompeu a história ao declarar que o que aconteceu em 1964 e cassou os direitos da população brasileira foi um “movimento”, não um golpe?

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A Defensoria Pública da União e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão já se manifestaram. Mas ainda é pouco. E ainda é tímido, diante da enormidade do que significa comemorar o crime como ato de Governo. Não apenas um crime comum, mas aquele que é considerado crime contra a humanidade. A Comissão da Verdade concluiu que a ditadura matou ou desapareceu com 434 suspeitos de dissidência política e com mais de 8.000 indígenas. Entre 30 e 50 mil pessoas foram torturadas.

Uma pesquisa do Ibope mostrou que Bolsonaro já é o presidente mais impopular em início de primeiro mandato desde 1995. Os 89 milhões de brasileiros que não votaram em Bolsonaro, seja porque votaram no candidato de oposição, seja porque se abstiveram de votar ou votaram branco ou nulo, somados ao expressivo contingente que já se arrependeu do voto no capitão reformado, terá que compreender que a luta pela democracia é difícil – e não pode ser terceirizada. É isso. Ou aceitar que a exceção, que já se infiltrou no cotidiano e avança rapidamente, siga tomando conta da vida até o ponto em que já se tenha perdido inclusive o direito aos fatos, como Bolsonaro e os militares pretendem neste 31 de Março.

Não queiram viver num país em que a autoverdade, aquela que dá a cada um a prerrogativa de inventar seus próprios fatos, impere. Bolsonaro e suas milícias digitais criaram a autoverdade, mas ela só será imposta a um país inteiro se a população brasileira se submeter a ela. Afirmar que o golpe de 1964 não foi um golpe é mentira de quem ainda teme responder pelos crimes que cometeu, como seus colegas responderam em países que construíram democracias mais fortes e onde a população conhece a sua história. Não há terror maior do que ser submetido a uma realidade sem lastro nos fatos, uma narrativa construída por perversos. O corpo de cada um passa a pertencer inteiramente aos carcereiros.

Bolsonaro precisa manter o país queimando em ódio. Essa foi sua estratégia para ser eleito, essa segue sendo a sua estratégia para se manter no poder. Ele não tem outra. Se deixar de ser o incendiário que é e virar presidente, ele se arrisca a perder sua popularidade. Sua estratégia é governar apenas para as suas milícias, capazes de manter o terror, parte delas somente por diversão.

Bolsonaro tornou-se o antipresidente: aquele que boicota seu próprio programa e enfraquece seu próprio ministério

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Depois de ser o candidato “antissistema”, Bolsonaro é agora o antipresidente. Esta novidade, a do antipresidente, é inédita no Brasil. O antipresidente Bolsonaro é aquele que boicota seu próprio programa e enfraquece seu próprio ministério, mantendo, também dentro do Governo, como definiu o jornalista Afonso Benites, a guerra do todos contra todos.

Bolsonaro só pode existir num país mergulhado numa guerra interna. Então, trata de alimentar essa guerra. A determinação oficial de comemorar o golpe de 1964 é parte dessa estratégia. Vamos ver o quanto os generais estrelados do seu governo são capazes de enxergar a casca de banana. Ou se, ao contrário, escolherão deslizar por ela apenas como desagravo aos anos em que ficaram acuados, temendo que o Brasil finalmente fizesse justiça, julgando os crimes da ditadura como fizeram os países vizinhos.

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O atual presidente do Brasil é o mesmo político que, em 2009, botou um cartaz na porta do seu gabinete: “Desaparecidos do Araguaia. Quem procura osso é cachorro”. A imagem era a de um cachorro com um osso atravessado entre os dentes. Na época, uma década atrás, o ato de Bolsonaro era noticiado com o aposto: “o único parlamentar do Congresso que defende abertamente a ditadura”. Não mais, como é possível constatar.

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A parcela dos brasileiros que se declara “antiesquerdista” precisa compreender algo com urgência. O ponto do bolsonarismo não é ser de esquerda ou ser de direita. O que Bolsonaro faz seguidamente é apologia ao crime e incitação à violência. Isso não tem nada a ver com ser de esquerda ou ser de direita. Uma pessoa de direita, mas com decência e respeito à lei, não faz apologia ao crime nem incitação à violência. Uma pessoa de esquerda, mas com decência e respeito à lei, também não faz apologia ao crime nem incitação à violência.

Os brasileiros não se ofendem. Convivem. À direita e à esquerda, a população tem se submetido à administração do ódio praticada pelo bolsonarismo. É esta a maior derrota. Não para a direita ou para a esquerda, mas para a civilização, para que qualquer um possa dar bom dia para o vizinho sem temer ser agredido. Ou para que um estudante possa ir à escola e ter certeza que vai sair dela vivo.

Bolsonaro é tão tosco que até mesmo a ultradireitista Fox News achou melhor tornar explícito que não compactuava com o pensamento do antipresidente brasileiro: afirmou que os comentários de Bolsonaro sobre a comunidade LGBTQI eram “incompatíveis com os valores americanos”. Ao entrevistar o antipresidente brasileiro, perguntou diretamente sobre o assassinato de Marielle Franco e a ligação da bolsomonarquia com as milícias cariocas. Ou seja: Bolsonaro é um constrangimento mesmo nos redutos mais direitistas do país que mais ama, os Estados Unidos. Seu suposto nacionalismo, como a visita aos Estados Unidos provou, é de chorar de rir.Brasileiros de todas as idades precisam aprender, pra ontem, com as gerações mais novas. É isso ou seguir condenado a assistir à queda de braço entre Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia. Sério que é este o ponto alto do debate nacional, antes de vir outro do mesmo nível ou pior? É este mesmo o nosso destino? Sério mesmo que o maior crítico da militarização do governo é Olavo de Carvalho, por motivos bem outros em sua calculada disputa de poder? E é ele o maior crítico porque parte dos que poderiam criticar a militarização do governo por motivos legítimos e urgentes começam a achar que Hamilton Mourão, o vice general, é uma graça? É assim mesmo que vamos viver, esperando o que virá depois, caso exista um depois? [Transcrevi trechos]

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04
Abr19

Caetano Veloso interpela 'bispo ratazana'

Talis Andrade

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Por Altamiro Borges

In Blog do Miro

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O cantor e compositor Caetano Veloso já decidiu interpelar judicialmente o bispo auxiliar Dom José Francisco Falcão, do Ordinariado Militar do Brasil – uma circunscrição eclesiástica da Igreja subordinada diretamente à Santa Sé. Conforme revelou o repórter Evandro Éboli, da coluna Radar da Veja, o religioso endemoniado esbravejou em uma missa que “gostaria de dar veneno de rato” para “um imbecil” que “cantou que é proibido proibir”. Agora, o renomado artista, autor da canção de 1968 com esse nome em protesto contra a ditadura militar, exige que o padreco diga judicialmente quem é o “imbecil” que ele gostaria de assassinar.

Diante da repercussão negativa da homilia e temendo represálias da própria Igreja Católica e da Justiça, o valentão de batina logo recuou e divulgou nota jurando que “em nenhum momento do transcurso da Missa fez-se alusão ao nome de qualquer cantor ou compositor”. Ele também garantiu que a missa, realizada na Paróquia Militar de Brasília, na noite de 31 de março – data fictícia do aniversário do golpe militar de 1964, que ocorreu em 1º de abril, no Dia da Mentira –, não teve como objetivo comemorar a quartelada ou homenagear os carrascos do regime militar. A missa, porém, teve a presença de Joseita Brilhante Ustra, viúva do coronel Brilhante Ustra, o facínora do Exército que torturou inúmeros brasileiros nos porões da ditadura.

Os desmentidos de Dom José Falcão não devem encerrar o caso. Nas redes sociais, prosseguem as críticas ao “bispo”. A produtora cultural Paula Lavigne, esposa de Caetano Veloso, foi uma das que reagiu indignada. “Ainda bem que Dona Canô não está viva pra ver isso! Que vergonha pra igreja católica, um Padre querer matar uma pessoa? O que está acontecendo? Coitado de @caetanoveloso ainda ter que passar por isso depois de tudo que viveu na ditadura militar?!!!!! #Chocada”. Já há uma movimentação na internet para pedir ao Papa Francisco uma punição exemplar do “bispo ratazana”.

 

Letra — É proibido proibir (Caetano Veloso)

A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
Estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta
Há o porteiro, sim…

E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo:
É! — proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo:
É! — proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

(falado)
Caí no areal na hora adversa que Deus concede aos seus
para o intervalo em que esteja a alma imersa em sonhos
que são Deus.
Que importa o areal, a morte, a desventura, se com Deus
me guardei
É o que me sonhei, que eterno dura
É esse que regressarei.

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estátuas, as estantes
As vidraças, louças, livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

 

31
Mar19

Saiba como está o Rio Doce três anos após lama da Samarco empresa Vale e BHP Billiton

Talis Andrade

Rejeito da barragem da mineradora, que rompeu em Mariana-MG, seguiu pelo curso do Rio Doce até chegar em Regência, no ES

rio_doce_lama_baixo_regencia_linhares_mosaico_.jpgLama mais densa de rejeitos da barragem da Samarco que se rompeu em MG e que chegou no Oceano Atlântico. Foto: Vitor Nogueira/Mosaico Imagem

 

Por Caio Santana 

 

“O sertão vai virar mar // É o mar virando lama // Gosto amargo do Rio Doce // De Regência a Mariana.” A letra da música “Cacimba de mágoa” escrita por Tato Cruz, da banda Falamansa, e por Gabriel O Pensador, evidencia um sentimento que muita gente teve quando houve o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana. O trágico episódio aconteceu há exatos três anos, na tarde do dia 5 de novembro de 2015, destruindo quase que por completo o distrito de Bento Rodrigues, seguindo até o Rio Gualaxo do Norte. No mesmo dia, a lama seguiu o curso do Rio do Carmo até encontrar o Rio Doce.

Laboratório foi em busca de respostas sobre o estado das águas do Rio Doce, após receber grande parte do rejeito de minério proveniente da barragem da mineradora Samarco. Os rejeitos são resíduos provenientes da mineração e que devem ficar armazenados, por exemplo, em barragens. O Doce é um dos principais rios do eixo leste do Brasil, situado na Região Sudeste do país. Nosso repórter também passou pelo Rio Doce lado a lado, de Colatina-ES à Ipatinga-MG, em julho de 2018, e pôde perceber alguns aspectos do rio.

Esse rio é de extrema importância para cidades de referência regional, como Governador Valadares-MG, Colatina-ES e Linhares-ES. Contudo, esses centros viram sua principal fonte de abastecimento ser tomada por um mar de lama.

O que aconteceu

Era uma tarde de quinta-feira, dia 5 de novembro de 2015, quando uma barragem com rejeitos de minério se rompeu, em Mariana-MG. Tratava-se da Barragem de Fundão, de propriedade da Samarco (empresa cujos maiores acionistas são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton). No princípio, acreditavam que duas barragens haviam se rompido: a de Fundão (acima) e a de Santarém (abaixo). Porém, não havia acontecido nada com esta última, exceto amortecer parte do impacto da descida da lama.

Transcrevi trechos. 

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Rio Doce entre Aimorés e Governador Valadares, em Minas Gerais, sete meses após rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco. Foto: Gabriel Lordêllo/Mosaico Imagem

 

 

13
Mar19

O capitão, o major e o tiroteio em um escola de Suzano

Talis Andrade

 

livro arma polícia pm professor estudante protest

 

O senador Major Olímpio (PSL-SP) se manifestou nesta quarta-feira, 13, no Senado, sobre o ataque de dois atiradores, que deixou 10 mortos em uma escola de Suzano (SP).

Segundo o senador bolsonarista, se os professores estivessem armados na escola, a situação poderia ter sido "minimizada". "Se tivesse um cidadão com uma arma regular, dentro da igreja, da escola, professor, servente, policial aposentado trabalhando lá, poderia ter minimizado o tamanho da tragédia", afirmou Major Olímpio.

Professores armados na sala de aula simbolizam a selvageria do governo paralelo em São Paulo, e das milícias no Rio de Janeiro. 

Apesar da propaganda belicista, o senador não disse como o professor vai arranjar dinheiro para comprar uma arma de fogo. Imagina o senador, que desconhece a realidade brasileira, aonde um servente vai comprar um revólver?  

Um pastor pode, sim, adquirir armamentos e contratar capangas, para pregar o amor cristão. 

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De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, pouco antes da tragédia em Suzano, Bolsonaro, durante um encontro com jornalistas, disse que está preparando um projeto para ser encaminhado ao Congresso flexibilizando o porte de armas pela população.

Segundo ele, a regra sobre o porte de armas não pode ser tão "rígida" como atualmente, embora não tenha fornecido maiores detalhes sobre o texto que pretende encaminhar ao Congresso sobre o assunto.

No encontro, ele também disse dormir com uma arma ao lado da cama porque teme a existência de "riscos" no Palácio do Alvorada, apesar da existência de um forte esquema de segurança no local.

Em janeiro, como um de seus primeiros atos de governo, Bolsonaro fez Sergio Moro editar um decreto flexibilizando a posse de armas pela população sob a alegação de que isso ajudaria a combater a violência.

Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, um dos atiradores - informa o Diário de Notícia de Portugal - costumava partilhar imagens com arma nas redes sociais. No facebook, o adoescente revelava-se um amante de armas, um apoiante do presidente Jair Bolsonaro e um fã da série Walking Dead.

Sobre Marielle Franco, assassinada no ano passado, Guilherme curtiu um post da página do delegado Roberto Monteiro que diz "trate bandidos como vítimas, e um dia a vítima será você".

 

 

16
Fev19

MORTE DE UM JOVEM NEGRO GERA MENOS REVOLTA QUE A DE UM CACHORRO

Talis Andrade

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247 - A chefe de cozinha e apresentadora de TV Paola Carosella usou sua conta no Twitter para questionar a indignação seletiva da sociedade quando se trata da morte de jovens negros e periféricos. Pedro Gonzaga, de 19 anos, foi assassinado na madrugada desta sexta-feira (15), no supermercado Extra, após ser atingido por um golpe de mata-leão por um segurança do local.

"A morte de um jovem negro em mãos de um segurança gera infinitamente menos indignação revolta e raiva que a morte de um cachorro em mãos de um segurança.... #acarnemAisbaratadomercado", disse Carosella, referindo-se ao cachorro que foi morto por um segurança no supermercado Carrefour, no mês de dezembro, e que desencadeou uma onda de comoção nacional.

 
Paola Carosella ⚡️@PaolaCarosella
 

A morte de um jovem negro em mãos de um segurança gera infinitamente menos indignação revolta e raiva que a morte de um cachorro em mãos de um segurança.... ..........

 
 

Além de Carosella, outras figuras públicas também condenaram o assassinato do jovem. A deputada federal Érika Kokay classificou como covarde o ato: "Exigimos apuração e punição do ato de covardia contra jovem de 19 anos no hipermercado Extra, na Barra da Tijuca-RJ. O jovem foi assassinado após ser imobilizado em um "mata-leão". As imagens que circulam pela internet são chocantes. Vidas negras importam!".

 
Erika Kokay@erikakokay
 

Exigimos apuração e punição do ato de covardia contra jovem de 19 anos no hipermercado Extra, na Barra da Tijuca-RJ. O jovem foi ASSASSINADO após ser imobilizado em um "mata-leão". As imagens que circulam pela internet são chocantes. Vidas negras importam!

 

A atriz Leandra Leal também deixou claro em sua postagem que a morte do jovem não foi um acidente: "Legítima defesa? Durante todo o vídeo o jovem está imobilizado, outras pessoas pedem para o segurança parar, alertam que ele está ficando roxo... que conduta é essa permitida pelo hipermercado Extra?", questionou Leandra, referindo-se ao fato do segurança ter alegado legítima defesa ao assassinar o jovem.

 
Leandra Leal@leandraleal
 

Legítima defesa? Durante todo o vídeo o jovem está imobilizado, outras pessoas pedem para o segurança parar, alertam que ele está ficando roxo... que conduta é essa permitida pelo hipermercado ???

UOL Notícias@UOLNoticias
 

Segurança que deu "gravata" que matou jovem alega legítima defesa e é solto https://uol.page.link/t3yo 

 
 

O coordenador do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, também expôs o absurdo da situação. "Cena indignante, prova de que o "guarda da esquina" está solto. O mercado Extra e o segurança têm que ser imediatamente responsabilizados por esse homicídio. Basta de indignação seletiva!", disse. 

Guilherme Boulos@GuilhermeBoulos
 

Cena indignante, prova de que o "guarda da esquina" está solto. O mercado Extra e o segurança têm que ser imediatamente responsabilizados por esse homicídio. Basta de indignação seletiva!https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-morte-de-um-cachorro-no-carrefour-gerou-mais-indignacao-que-a-do-jovem-negro-estrangulado-no-supermercado/ 

 

A morte de um cachorro no Carrefour gerou mais indignação que a do jovem negro estrangulado no...

A cena é dantesca.  Um jovem morreu após ser estrangulado por um segurança do hipermercado Extra na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, na tarde de quinta-feira, dia 14. A alegação é a de que Pedro...

diariodocentrodomundo.com.br
 
 
 

 

11
Fev19

A morte de Boechat, a coragem de uma heroína que salvou o motorista do caminhão que colidiu com o helicóptero

Talis Andrade

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 A vendedora Leiliane Rafael da Silva, de 28 anos, que passava pela

Rodovia Anhanguera no momento da queda do helicóptero que matou o jornalista Ricardo Boechat, contou, em depoimento, ter visto um homem pular da aeronave antes da colisão com o caminhão. Com base em informações obtidas com o Instituto Médico Legal (IML) sobre a localização dos corpos, o delegado Luis Roberto Hellmester acredita a pessoa que pulou da aeronave era Boechat.

Leiliane estava na garupa da moto do marido quando viu o helicóptero voando muito baixo.

— Eu falei para o meu marido: eu acho que ele vai pousar na pista. Quando eu olhei para trás, eu vi uma pessoa pulando. Depois que a pessoa pulou, o helicóptero se chocou com uma carreta que vinha saindo do rodoanel e explociu.

Logo depois de ver o acidente, ela desceu da moto e correu em direção ao veículo.

— Não pensei em nada. Falei para parar a moto e voltei correndo.Fui checar no caminhão para ver se tinha alguém vivo. O moço estava vivo, felizmente.

A vendedora pediu uma faca para um grupo de trabalhadores que estava limpando o mato do canteiro da estrada para cortar o cinto de segurança.

— A gente tirou ele para fora pelo vidro porque a porta estava emperrada e não saia.

Leiliane vive em Pirituba, na Zona Norte de São Paulo, e tem três filhos: uma menina de 8 anos, um menino de 3 anos e um bebê de quatro meses. Prestes a passar por uma cirurgia, Leiliane tinha sido orientada a não passar por situações de estresse.

— No momento, eu queria ajudar e não pensei em mais nada. Leia mais

 

 O jornalista Ricardo Boechat, 66 anos, morreu na queda de helicóptero na manhã desta segunda-feira (11), em São Paulo. A aeronave caiu no quilômetro 7 da Rodovia Anhanguera, por volta das 12h14.

A informação de sua morte foi confirmada pela TV Bandeirantes. Boechat era apresentador do Jornal da Band e da rádio BandNews FM, além de ser colunista da revista IstoÉ. Ele é ganhador de três prêmios Esso. Ele estava voltando de Campinas, onde tinha ido dar uma palestra no Centro de Convenções do Royal Palm Plaza para 2,7 mil pessoas, o evento era promovido pela empresa farmacêutica Libbs, que seria a responsável pelo transporte de Boechat. Procurada, a empresa disse que estava apurando as informações e que se posicionaria em breve.

Segundo o Corpo de Bombeiros, a aeronave caiu em cima de um caminhão que trafegava pela via, no sentido interior, próximo à praça do pedágio. O motorista do caminhão foi socorrido pela concessionária. Leia mais

 

Postagens de evangélicos no Facebook associavam a morte de Ricardo Eugênio Boechat com a resposta dada pelo jornalista ao pastor Silas Malafaia durante uma transmissão ao vivo no programa de rádio BandNewsFM. Leia mais 

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15
Nov18

Bolsonaro existe? Foi esfaqueado mesmo, ou é tudo ‘fake news’?

Talis Andrade

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Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado

 

Talvez a História nunca tenha estado tão insegura entre a verdade e a mentira. Nunca, nem mesmo o presente foi posto tanto em dúvida. Será que descobrimos, de repente, que a verdade no estado puro não existe e que tudo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo?

Vejamos o Brasil. Tudo parece ser uma coisa e o contrário. Há até quem chegue a perguntar a si mesmo se o capitão Jair Bolsonaro, que conseguiu 57 milhões de votos nas urnas não se sabe como, existe realmente ou é uma miragem. Coloca-se em dúvida até mesmo que tenha sido esfaqueado.

 

Em um mundo no qual até intelectuais chegam a pôr em dúvida a existência do Holocausto judeu, com um saldo seis milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças — exterminadas nos campos de concentração, podemos ter a impressão de que a verdade não existe e não será possível conhecê-la.

 

Isso é positivo ou negativo? É verdade que dessa forma todos nos sentimos mais vulneráveis e inseguros ao não ser capazes de distinguir entre verdade e mentira. E, ao mesmo tempo, talvez tenhamos de nos acostumar a conviver em uma realidade mais complexa do que pensávamos, que nos obriga a estar mais vigilantes, já que os limites entre realidade e aparência, entre notícia e fake news, estão ficando cada vez mais tornam-se se fazem cada dia mais tênues e indefinidos.

 

O que sentimos hoje como uma inquietação, talvez porque estivemos séculos sentados tranquilos sobre nossas certezas, pode acabar sendo uma importante purificação. Durante séculos vivemos alimentados pelos dogmas que poder civil ou religioso nos impôs. Tudo era, sem que precisássemos nos preocupar em descobrir, branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, justo ou injusto. Era assim mesmo, ou será que tínhamos nos acostumado a conviver com a verdade imposta, o que nos dispensava da dúvida? As coisas eram como eram, porque sempre tinham nos ensinado assim. Teria dado muito trabalho colocá-las em discussão.

 

Sempre acreditamos nos livros de História, como se fossem textos sagrados que não pudessem ser discutidos. E se, na verdade, os livros de História nos quais bebemos durante séculos fossem, em sua maioria, uma grande fake news? Nós nos esquecemos de que, em grande parte, a História foi escrita pelos vencedores, nunca pelos perdedores. Como teriam escrito os mesmos fatos aqueles que perderam as guerras, as vítimas, os analfabetos que não podiam escrevê-la, mas que a sofreram em sua pele?

 

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram

 

Será que estaria a salvo da contaminação das fake news o grande livro da Humanidade, a Bíblia, escrita no espaço de mil anos por autores desconhecidos, que as Igrejas cristãs consideram ter sido inspirada por Deus e, portanto, verdadeira? E se descobríssemos que historicamente a Bíblia não resistiria a uma crítica séria? Ou será que alguém pode acreditar que existiram seus personagens mais famosos, como Abraão, Noé, Matusalém e Moisés?

 

E analisando apenas os quatro evangelhos canônicos que os católicos consideram inspirados por Deus, quanto neles há de histórico e quanto há de catequese religiosa ou política? Qual é a versão verdadeira sobre o julgamento e condenação à morte do profeta Jesus se entre as versões dos quatro evangelistas há inúmeras diferenças bem visíveis? Qual é a figura real de Jesus, a que é apresentada aos judeus da época, cuja morte é totalmente atribuída aos romanos, ou aquela narrada aos gentios e pagãos, em que se carrega nas tintas contra os judeus e fariseus?

 

Talvez a inquietude que todos sentimos hoje, na nova era em que a Humanidade entrou ao não saber se estamos lidando com notícias verdadeiras ou falsas nem o quanto isso pode condicionar a convivência política e social, se deva, no fim das contas, a algo positivo, embora seja preciso se recompor e recuperar a serenidade para entender que vivemos em um mar agitado, no qual é difícil distinguir um peixe vivo de um pedaço de plástico.

 

Essa positividade que alguns pensadores começam a farejar na situação angustiante que vivemos, na qual verdade e mentira convivem abraçadas, talvez nasça de algo novo e ao mesmo tempo positivo que não existia no passado. Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado. Não é narrada pelos que se consideravam donos da verdade e a impunham com a espada na mão, se fosse necessário. Todos os poderes, civis e religiosos, fizeram isso. Hoje, a crônica começa a ser escrita e filtrada também pelos de baixo, pela periferia, por aqueles que não têm mais poder do que o oferecido pelas redes sociais.

 

Isso sem dúvida levará, como já está ocorrendo, a crises de identidade e à quebra de velhos paradigmas de segurança, como o que os dogmas e as verdades oficiais ofereciam antes. Era tudo mais cômodo e causava menos angústia. Mas não éramos também mais escravos do pensamento único do poder? O fato de não termos de nos preocupar em saber se o que nos ofereciam como história era verdade ou não, ou se era só a verdade de uma parte e não da outra, dava-nos tranquilidade. Hoje, estamos no meio de um ciclone que parece arrastar tudo e não é estranho que nos sintamos inseguros, irritados e até com medo.

 

Tão inseguros que ainda há quem não saiba realmente quem é Bolsonaro ou se ele é uma invenção, ou se os médicos de dois hospitais de prestígio inventaram a história da facada. E Lula? E Moro? Como se escreverá amanhã a história atual do Brasil? Será que os historiadores de hoje conseguirão nos contar no futuro a verdade ou a fake news sobre o que está vivendo uma sociedade que se sente presa entre a verdade e o boato, entre o que ela gostaria que fosse e o que efetivamente é a realidade — que, afinal, tem possivelmente tem tantas caras e nuances quanto as cores do arco-íris.

 

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram. E essa sim é uma verdade. Se opressora ou libertadora, só poderemos saber quando baixar a poeira dessa agitação em torno de verdade e falsidade ou de meias verdades e meias mentiras. O famoso filósofo espanhol Fernando Savater me lembrava de que “se o mundo parasse de mentir, acabaria despedaçado em poucos dias”. Às vezes, uma meia verdade pode salvar o mundo de uma catástrofe. Até a Igreja católica, com seus séculos de experiência em conduzir o poder, cunhou as famosas “mentiras piedosas”.

 

Para terminar, é verdade que Bolsonaro existe, com mais sombras do que luzes e mais incógnitas do que realidades. E também existe Lula, com toda sua história e todas suas contradições. O que não sabemos é como a História nos contará um dia este momento, que em outras colunas em já chamei de dor de parto, mais do que de funeral e morte. E em todo parto existe, ao mesmo tempo, dor e felicidade, ansiedade e esperança.

 

E, acima de tudo, a certeza de que a vida, com todas suas amarguras e crueldades, verdades e mentiras, é o único e o melhor que temos. Que no Brasil predomine, apesar de tudo, a cultura da vida e não a da morte. Essa é a grande aposta e a grande resistência. Para isso, todos deveríamos andar de mãos dadas.

 

20
Out18

Brasil: seguidor de Bolsonaro assassina a transexual de 25 años a cuchillazos

Talis Andrade

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Nodal - A transexual identificada como Laysa Fortuna, de 25 anos, esfaqueada na noite desta quinta-feira (18) na região do tórax, no Centro de Aracaju (SE), morreu na tarde desta sexta-feira (19) no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), onde estava internada. O corpo já seguiu para o Instituto Médico Legal (IML).

 

Laysa Fortuna foi atacada por um apoiador do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), segundo informações de Linda Brasil, amiga da jovem e que a socorreu.

 

O homem foi preso e encaminhado à 4ª Delegacia Metropolitana, no Conjunto Augusto Franco, zona Sul da capital. Ele assinou Termo Circunstanciado e foi liberado pelo entendimento do delegado plantonista que entendeu lesão corporal leve. As informações são do Fan F1 (SE).

 

“Estamos aqui para prestar solidariedade”, diz a professora e a ativista LGBT, Adriana Lohana, que recebeu a notícia da morte de Laysa com muita tristeza. Para ela, acontecimentos como esse só reforçam a onda violenta de preconceito que os transexuais sofrem no Brasil.

 

Para a melhor amiga de Laysa, Bruna Medeiros, será difícil imaginar viver sem a convivência de Laysa. “Está sendo muito difícil pra mim saber que a minha amiga foi embora”, conta. Ainda de acordo ela, que estava com Laysa no momento do crime, a cena que ela presenciou será difícil de esquecer. “A polícia conseguiu pegar ele [o agressor] enquanto minha amiga chorava no chão e nos meus braços”, relembra.

 

O corpo de Laysa será velado na residência da mãe da jovem no bairro Porto Dantas.

 

 

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