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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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26
Ago19

Morismo prova que pode ser pior e mais reacionário do que bolsonarismo

Talis Andrade

Morismo nas ruas: supostos defensores da lei não têm pejo nenhum em atacar as instituições 

(Foto: Leonardo Augusto/Estadão)

 

A extrema-direita voltou às ruas neste domingo. Desta feita, sem o apoio de parte dos grupos que dão suporte a Jair Bolsonaro nas redes sociais, embora seja legítimo apostar que praticamente a totalidade dos que se manifestaram tenha votado no agora presidente, merecendo, pois, a qualificação de "bolsonarista". A pauta? Contra alguns ministros do STF e os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, respectivamente; contra o texto que muda a lei que pune abuso de autoridade; em defesa da Lava Jato e de Sergio Moro e em apoio, pasmem!, ao nome de Deltan Dallagnol para a Procuradoria Geral da República.

Vários grupos convocaram as manifestações, bastante acanhadas (leia post), mas os que mais se destacam são o Vem Pra Rua — sempre mais à direita, depois da aproximação com o Partido Novo — e o Nas Ruas, cuja principal integrante é a deputada Carla Zambelli (PSL-SP). Vocês já devem ter percebido que o condomínio do bolsonarismo-morismo rachou. Ainda que os manifestantes deste domingo professem as duas crenças, a verdade é que os sacerdotes das duas religiões já não se entendem.

Conforme antevi há tempos, as duas concepções de Estado policial acabariam se chocando. Bolsonaro não é um gênio, mas não é besta. E percebeu que o aparato que Sergio Moro começou a montar desde o início da Lava Jato, unindo num único aparelho, a operação em si, Polícia Federal, MPF, Receita e Coaf, ameaçava o seu próprio governo e o fazia refém de um subordinado.

Aqui, caros leitores, algo importante precisa ser dito: ainda que esse estado paralelo que Moro e a Lava Jato tentaram montar não interesse a Bolsonaro, cumpre dizer que nem tudo o que é ruim para o presidente é bom para o Brasil, os brasileiros e a democracia. Um Estado policial não interessa a ninguém que defende valores compatíveis com a civilização democrática.

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A transferência do antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), rebatizado de Unidade de Inteligência Financeira (UIF) para o Banco Central está correta. A determinação de apurar uma lista de investigados, definida previamente pela Receita, ao arrepio de indícios de irregularidades, está correta. A proibição da quebra de sigilos bancários sem autorização judicial está correta. E pouco me importa se isso é bom ou ruim para Bolsonaro e um de seus filhos — no caso, Flávio Bolsonaro. Não são eles que decidem as minhas escolhas. Eles passam. A institucionalidade fica.

Sim, Bolsonaro também resolveu se meter na Superintendência da PF no Rio e nas chefias da Receita da Barra da Tijuca e do Porto de Itaguaí, principal porta de entrada de armas ilegais no país. Ninguém sabe por quê. Mas isso nada tem a ver com o eventual diálogo do presidente com os demais Poderes.

Sim, é certo que a totalidade dos manifestantes integra a base popular de apoio ao governo — em São Paulo, os palanqueiros fizeram questão de deixar isso claro, hostilizando, por exemplo, jornalistas independentes, mas não é menos verdade que o bolsonarismo de raiz, o mais sectário, o mais ideológico e, como posso dizer?, o mais preparado para perceber os riscos que corre o presidente evitou dar suporte à manifestação.

Ou por outra: ainda que fosse elevadíssima a concentração de bolsonarismo nos protestos, a manifestação acanhada deste domingo foi, antes de mais nada, moro-lava-jatista. A fala de Rogério Chequer, fundador do Vem Pra Rua e candidato do Novo ao governo de São Paulo, não deixa dúvida:

Existem alguns políticos que a gente torce para que mudem o Brasil que estão caindo nesta roubada. Bolsonaro não pode continuar se aproximando de (Davi) Alcolumbre (presidente do Senado, do DEM-AP) e do (Dias) Toffoli (presidente do STF). As atitudes recentes indicam um descolamento [de Bolsonaro em relação ao combate à corrupção]. Há ingerências na Receita Federal, na Polícia Federal, no Coaf. Estamos vivendo o momento de maior ameaça ao combate à corrupção. Maior até do que em outros governos."

Sabem o que isso quer dizer? A agenda moro-lava-jatista, que estava em bem poucas ruas neste domingo, consegue ser ainda mais reacionária, atrasada e perigosa do que a do próprio bolsonarismo-raiz, que, por seu turno, decidiu investir no ramo do humor. Os profissionais da área que se cuidem.

 

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