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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

24
Nov20

PLANO VIDA E RENDA SÃO PAULO

Talis Andrade

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Combate de verdade à pandemia

A gestão Bruno Covas fracassou no combate à pandemia e seus efeitos na vida das pessoas.

A Prefeitura se limitou a atuar à sombra do governo João Doria sem tomar medidas que pudessem reduzir o impacto da doença nos bairros mais pobres.

São Paulo falhou na hora que as pessoas mais precisavam. Fracasso que custou milhares de vidas. Fracasso que deixou o futuro ainda mais incerto.

Descolada da realidade do povo, a gestão municipal se resumiu à hashtag FiqueEmCasa. Uma tentativa de impor o distanciamento social, porém sem ver que a maior parte da população nunca teve a escolha de fazer a quarentena.

Enquanto a Prefeitura tentava tapar o sol com a peneira, muitos foram perdendo emprego e renda. A maioria precisava sair para trabalhar, enfrentando ônibus lotados e toda sorte de risco de contaminação. O mais grave: levando o novo coronavírus para casa e expondo familiares do grupo de risco.

O novo normal, na periferia, era conviver com duas ameaças: a doença e a fome. Realidade ignorada pela Prefeitura e sua estratégia ineficaz e irresponsável de apostar no cômodo #FiqueEmCasa.

O resultado é desastroso. A cidade mais rica da América Latina também está entre aquelas com os maiores indicadores de contaminação e mortes.

Fracasso de gestão que não ficou restrito à saúde pública e se espalhou para a falta de perspectiva e futuro, queda na renda familiar e a precarização ainda mais aguda das condições de trabalho.Image

A cidade precisa reagir e virar o jogo

São Paulo tem a missão de combater, de verdade, a pandemia. Preparar-se para a segunda onda – e eventual terceira - da doença.

Para isso, colocaremos em prática, a partir de primeiro de janeiro, o Plano Vida e Renda São Paulo. Porque só hashtag não salva vidas, não dá um teto para morar e nem coloca comida na mesa de ninguém.

O Plano, desenhado para ser executado nos primeiros 180 dias de gestão, reúne uma série de ações e investimentos - na saúde pública, na geração de emprego e renda e na moradia e cidadania.

Pela primeira vez em muitos anos, a prioridade é cuidar de toda cidade, proporcionando a mesma dignidade para todas e todos.

O Renda e Vida São Paulo está dividido em três eixos, descritos a seguir.

1. Saúde Pública 

• Contratação emergencial e abertura de concurso para médicos especialistas e de família.

• Intensificar os atendimentos não presenciais por Centrais de Teleatendimento, com identificação de caso, orientações emergenciais e assistência remota para garantir consultas virtuais ou domiciliares;

• Abertura de novos leitos hospitalares e de UTI nas unidades hospitalares já existentes. • Caso a taxa de ocupação de leitos volte a subir, instituir a fila única do SUS para administração das vagas de UTI, unindo redes pública e privada da cidade.

• Ampliar o programa de testes do tipo PCR e sorologias para o novo coronavírus.

• Com a criação da vacina, implementar programa de vacinação gerido pelo município, dando prioridade aos cidadãos que se enquadram nos grupos de risco, trabalhadores de serviços essenciais e população de baixa renda.

• Se necessário, abrir novos hospitais de campanha na periferia, descentralizando o atendimento à população.

• Distribuir cestas de higiene nos bairros menos assistidos pela Prefeitura.

• Reverter o desmonte da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA) do município para maior controle e ação frente à pandemia.

2. Trabalho e Renda

• Criar o Programa de Renda Solidária, reestruturando e ampliando o programa existente para garantir que nenhuma família vulnerável em São Paulo fique sem uma renda mínima;

• Implementar Frentes de Trabalho com contratação de mão-de-obra direta ou por meio de cooperativas, visando:

• Serviços de limpeza urbana;

• Serviços de saneamento básico;

• Cuidado a idosos;

• Reflorestamento e reparação de danos ambientais, como conservação de jardins e de áreas verdes públicas de pequena extensão;

• Serviços de zeladoria a partir das subprefeituras;

• Obras de moradia e infraestrutura; Produção agrícola orgânica para merenda escolar e outras políticas públicas de segurança alimentar;

• Confecção de uniformes escolares e outros uniformes de serviço público, como equipamentos de proteção individual (EPIs para hospitais) e Guarda Civil Metropolitana.

• Abertura de canais de financiamento e crédito para pequenos comerciantes, indústrias e cooperativas da economia solidária.

• Apoiar a manutenção de postos de trabalho através da recuperação de empresas em crise por seus trabalhadores organizados em autogestão.

• Criar Centros Públicos de Economia Solidária em cada subprefeitura para apoio direto a cooperativas e trabalhadores informais.

• Ampliar e fortalecer cooperativas de catadoras e catadores de material reciclável.

3. Moradia e cidadania

* Retomada dos Mutirões da Erundina para moradia popular.

• Implementar o programa de locação social para abrigar famílias em situação de rua em unidades hoteleiras ou moradias nas regiões onde vivem.

• Construção de Casas Solidárias integradas à política de geração de trabalho e renda e de assistência social, ampliando o atendimento à adolescentes e jovens;

• Adequar os centros de acolhida para pessoas em situação de rua conforme tipificação nacional do SUAS, atendendo às diversas demandas dos setores que vivem nas ruas;

• Criar o cartão de cidadania para identificação de migrantes residentes na cidade, reduzindo vulnerabilidades advindas da ausência de documentação nacional e facilitando o acesso a serviços públicos.

• Incluir os migrantes nos planos municipais emergenciais de enfrentamento às consequências socioeconômicas da pandemia de Covid-19.

• Ampliar os equipamentos e equipes dos Consultórios na Rua.

• Ampliar o acesso à internet banda larga para alcançar o percentual de 40% de domicílios, garantindo que nenhuma subprefeitura possua percentual inferior a 17%.

(Transcrevi a segunda parte do "Programa de Governo Boulos Erundina 2020. Hora de Virar o Jogo em São Paulo". Continua )

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14
Jul20

Há reação, todos os dias

Talis Andrade

 

mariano  mito.jpg

 

por Enio Verri

- - -

Sobre quase dois milhões de infectados e mais de 70 mil mortos, Bolsonaro e Guedes seguem firmes no objetivo de promover o maior número de mortos e de submeter uma das 10 maiores economias do mundo aos interesses do mercado financeiro, entregando a ele as fontes energéticas e as empresas estratégicas, imprescindíveis para o Brasil superar as crises sanitária, econômica e social, na e no pós pandemia. Com esses recursos em poder de outros países, os brasileiros estarão sempre à mercê dos investimentos que eles queiram, ou não, fazer no País, com as empresas que eram dos brasileiros. Porém, seja qual for o aporte no Brasil, será única e exclusivamente com a transferência dos lucros para o desenvolvimento de seus respectivos povos. O sucesso do projeto de supressão da soberania jamais seria alcançado sem prestimosa parceria da imprensa comercial.

A conjuntura é fato dado, não causa surpresa e há mais do que fazer do que para se lamentar e analisar. A sucessão de absurdos produzidos pelo desgoverno Bolsonaro, ao longo de 1 ano e sete meses, foi nos tirando a capacidade de expressar o horror causado pelas ostensivas políticas ultraliberais, recessivas, fiscalistas e pelo profundo atraso cultural imposto ao País, que levará mais tempo para ser superado que a crise financeira. Nesse cenário de terra arrasada, de uma nação abandonada pelo presidente da República, é necessário trazer à luz o que a imprensa comercial omite, que é a produção da esquerda, no enfrentamento à pandemia. Não se combate a crise com orações, como sugeriu Bolsonaro, mas com política. Sem ela, a UTI, o respirador, o antibiótico, a máscara, a luva, a comida, o auxílio emergencial, o crédito ao micro e pequeno empresário não chegam aos seus devidos destinos.

A pandemia oferece à sociedade a mais clara visão da divisão dos interesses que atuam no Congresso Nacional. Basta acompanhar uma única sessão para saber quem está de que lado, fazendo o quê. As medidas enviadas pelo governo ou apresentadas pelos parlamentares da sua base, representantes do ultraliberalismo são, invariavelmente, no sentido de dilapidar o patrimônio público e de suprimir direitos conquistados a duras penas pela classe trabalhadora. Os projetos mais progressistas foram apresentados pela esquerda. O Partido dos Trabalhadores apresentou mais de 460 projetos de lei, 18% das matérias tramitadas na Câmara, referentes ao combate da pandemia. Todos eles, invariavelmente, voltados aos interesses do Brasil e dos trabalhadores.

Enquanto Bolsonaro e Paulo Guedes se empenham em entregar o País à dilapidação pela classe dominante, o PT apresenta projetos, por exemplo, que dá 72 horas para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizar o uso de produtos de combate ao coronavírus, validados por agências internacionais, como as Food and Droug Administration – FDA; European Medicine Agency – EMA; Pharmaceuticals and Medical Devices Agency - PMDA e a National Medical Products Administration – NMPA. Aos que acusam o PT de intolerante e individualista, o projeto de lei que autoriza determinados tipos de consultas médicas por teleconferência é assinado em conjunto com o partido Novo, antagônico ideologicamente. Aliás, esse e outros projetos do partido foram assinados com o DEM, o MDB, o PL, que são de campos ideológicos absolutamente opostos.

Um dos setores da economia que mais rapidamente parou e será um dos últimos a voltar é o da cultura, cuja cadeia produtiva é extensa e complexa. Desde o artista, passando pelo produtor, técnicos de som, de luz, de imagem, até o divulgador com panfletos, entre outros trabalhadores que ficaram sem trabalho com a suspensão de eventos que possam gerar aglomeração, estão sem trabalho e renda. Quem assina o projeto que destinou R$ 3 bilhões para proteger minimamente os profissionais da área cultural é o PT. Da mesma forma, foi o PT quem apresentou um projeto que dá prioridade e urgência no atendimento aos chamados policiais de denúncia de violência doméstica. Assim como foi o PT quem apresentou projeto que suspende obrigações financeiras de estudantes com o FIES, durante o período que durar a pandemia.

A sociedade não tem conhecimento das ações da esquerda e das derrotas das Medidas Provisórias do governo. A comunicação hegemônica no Brasil está sob o controle de uma imprensa comercial, submetida aos interesses do mercado financeiro, principalmente. Enquanto a grande maioria da população vive a incerteza de sobreviver à crise sanitária, devido à sua histórica condição social e pela proposital negligência do presidente Bolsonaro, a classe dominante suprime direitos, é indiferente aos ataques à democracia e atua ostensivamente para destruir a soberania brasileira. Já a esquerda, defende a classe trabalhadora e os interesses do Brasil. Bolsonaro nos roubou a capacidade de acreditar que possa haver absurdo maior que os que ele já proferiu ou cometeu. Porém, ao mesmo tempo, sua ação nos enche de razão e entusiasmo para reagir aos vorazes capatazes dos endinheirados. A resistência a essa política ultraliberal está eminentemente no campo da esquerda e é feita, todos os dias, pelos progressistas do País.

18
Abr20

Periferia de Curitiba muda rotina diante da pandemia

Talis Andrade
 

Para moradores e especialistas, esses bairros não serão os primeiros, mas podem ser os mais afetados durante a disseminação do novo coronavírus

10
Abr20

Com medo da penúria e da morte? Bem-vindos ao mundo real

Talis Andrade

um estranho no ninho.jpg

 

A pandemia de covid-19 democratizou a insegurança e o receio do futuro que já afligia milhões de brasileiros. Resta saber se os abastados aprenderão alguma coisa com isso

 

por J.P. Cuenca

DW Deutsche Welle   

1.

Você vai até a janela, olha para o céu, estica o braço apontando o telefone para cima, fecha o olho esquerdo, olha o céu no quadro do telefone – é o mesmo. Você tira uma fotografia, a examina, volta a olhar para o céu: as nuvens desembestaram a mudar de lugar, o sol talvez agora lhe cegue um pouco.

Mas você estava lá, e por isso publica um instantâneo daquele céu onde não havia nada de especial, apenas o panorama difuso do círculo solar por trás de nuvens em contraluz, visto por uma nesga entre edifícios e antenas de São Paulo. As pessoas vão olhar sua fotografia, cada uma dentro de cada apartamento, e ler seu nome impresso no canto esquerdo sobre a imagem do céu nos cristais dos telefones, e pensar em você, talvez olhando pela janela – talvez sentindo o mesmo pavor.

Andamos assim, silenciando no meio das frases.

Especialmente, os privilegiados que hoje podem isolar-se em cápsulas domésticas. Nas últimas semanas, nossas horas foram ocupadas por tentativas de trabalho remoto, aulas online, ativismo de internet, drinks via zoom e houseparty – e uma enevoada sensação de luto antecipado. Até que percamos o emprego, enterremos nossos mortos ou, na melhor das hipóteses, tenhamos que nos confrontar com um mundo que ainda desconhecemos do outro lado desta quarentena.

São tempos estranhos? Talvez não mais que há três semanas – a diferença é que agora todos sabemos disso.

2.

Nas últimas décadas, o capitalismo tardio promoveu mudanças climáticas irreversíveis e um aumento exponencial na concentração de renda mundial. Pouco importava aos detentores dos meios de produção e do capital financeiro – e às classes médias que votam nos representantes daqueles no governo – que a política econômica de seus países causasse desigualdade, doenças e morte aos menos favorecidos.

No Brasil, o 1% mais rico hoje concentra 28,3% da renda total do país, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da ONU divulgado em dezembro do ano passado. É a segunda maior concentração de renda do mundo, apenas atrás do Catar, um emirado absolutista sem eleições legislativas desde os anos 1970 que usa a charia como sistema legal, onde mulheres supostamente adúlteras são punidas com chibatadas e relações homossexuais, com a pena de morte.

Essa combinação nefasta de concentração de renda e ameaças aos direitos humanos também encontra-se por aqui.

Ainda que, durante o recente ciclo do Partido dos Trabalhadores no poder, tal desigualdade tenha sido mitigada via programas de distribuição de renda e uma economia aquecida, os brasileiros moradores de periferias e favelas seguiram tendo direitos desrespeitados pelas polícias militares de todo o país, assim como os povos indígenas originários ameaçados por ruralistas, grileiros, milícias e superfaturadas obras de infraestrutura. E, se nossas favelas são guetificadas pelo Estado, o que dizer dos presídios brasileiros, verdadeiros campos de concentração para negros e pobres?

Abrindo o panorama, pesquisas do IBGE em 2017 e 2018 apontaram que 64,9% da população brasileira não têm pelo menos um dos seguintes direitos garantidos: educação, proteção social, moradia adequada, serviços de saneamento básico e comunicação (internet). A realidade é certamente pior: o relatório usa o conceito de autodeclaração e só inclui os brasileiros que tenham domicílios, excluindo moradores de rua. Entre mulheres negras ou pardas, sozinhas, e com filhos pequenos, o número é ainda maior: 81,3% . Entre idosos, são 80%.

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O Estado Democrático de Direito, garantido pela Constituição de 1988 e ameaçado pelo bolsonarismo, nunca foi democratizado no Brasil pós abertura – jamais chegou plenamente aos cantos menos favorecidos do país, mesmo sob governos supostamente de esquerda. E, com a guinada abertamente fascista da política brasileira depois do golpe de 2016, a situação, que já era trágica, piorou.

Em tempos de pandemia, talvez um pouco – apenas um pouco – do pesadelo distópico no qual já viviam milhões de brasileiros pareça agora democratizado. Insegurança financeira e ameaça constante à vida: antes tão normalizados quando no andar de baixo, agora motivos para ansiedade generalizada.

3.

A grande novidade não é a pandemia. É o fato de que as classes mais abastadas brasileiras possam enfrentar, pela primeira vez em gerações, circunstâncias em que sua casta superior não lhes oferece grande vantagem de sobrevivência.

No Brasil, hospitais particulares já sofrem estrangulamento semelhante ao SUS – e mal começamos a escalar a curva de casos e mortes. Tragédia com horizontalidade semelhante, talvez apenas durante guerras, sob bombardeio. O que nunca tivemos por aqui.

Quando isso tudo acabar, talvez a espera e o testemunho da catástrofe, a implosão do que entendíamos como vida normal, faça os abastados da Zona Sul do Rio de Janeiro e da Zona Oeste de São Paulo mais empáticos com quem convive com o medo de ver o chão abrindo sob seus pés desde que nasceu.

Mas não sei se eu apostaria nisso.

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