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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

27
Abr22

A extrema direita é a bala perdida da política brasileira

Talis Andrade

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O episódio da bala disparada pela arma de Milton Ribeiro seria algo banal se não estivesse encaixado no contexto das aparentes alucinações da realidade

 

 

por Moisés Mendes

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O episódio da bala disparada pela arma do ex-ministro Milton Ribeiro seria algo banal, da periferia dos assuntos considerados sérios, se não estivesse encaixado no contexto das aparentes alucinações da realidade brasileira.

Um pastor entra armado no aeroporto da capital do país, por onde circulam as figuras mais importantes da República, manuseia uma pistola dentro de uma pasta, toca onde não deveria tocar e provoca um incidente com a marca do bolsonarismo.

O episódio tem uma arma, a imprudência, tem a inabilidade, o desrespeito às normas legais de segurança e ainda tem o desprezo pelo bom senso e pelos outros. É um caso terrivelmente bolsonarista.

Se o presidente da República, um armamentista, não consegue efetuar um tiro por esquecer de destravar a arma, um pastor-educador não deve ter a obrigação de saber como travar uma pistola.

E assim o caso passa a frequentar só os cantinhos dos grandes jornais, como um fato esdrúxulo, quando é parte do roteiro escrito pela extrema direita. É um incidente coerente com o que vivemos por imposição do fascismo.

Ninguém morreu, ninguém se queixou de nada, a Polícia Federal devolveu o revólver ao seu dono e ninguém ficou sabendo por que um pastor tem porte de arma. 

Que situação excepcional garante a Milton Ribeiro o direito de andar armado em áreas públicas e fechadas com grande circulação de pessoas?

Se o pastor entrou no aeroporto com a arma, não se dirigiu ao posto da Polícia Federal, se foi ao balcão da empresa e só ali decidiu retirar a munição, é porque estava preparado até aquele momento para imprevistos. Dentro do aeroporto.

Se não estivesse, teria se dirigido ao check-in com tudo resolvido antes com as autoridades policiais que devem fazer valer os protocolos nessas situações.

Com a arma carregada, é possível supor que, se fosse acossado pelos sentimentos de medo e de violenta emoção, o ex-ministro poderia reagir atirando. Dentro do aeroporto.

O bolsonarismo nos oferece personagens e situações inimagináveis em circunstâncias consideradas normais, mesmo que não se saiba mais o que possa ser normal no Brasil.

É razoável supor, a partir do caso de Ribeiro, que muitos brasileiros se sintam no direito de circular armados em toda parte. Ou só em aeroportos?

Não circulam também em rodoviárias, shoppings, nas ruas e em festas do agronegócio? Em motociatas?

Noticiam que Ribeiro estaria registrado como colecionador e como caçador. Um colecionador que carrega parte da coleção para onde vai.

Um caçador que põe a pistola na pasta e entra no aeroporto, com a armada pronta para uso, para caçar o quê? Parece tema de pauta policial, mas não é.

Foram registradas no ano passado no Brasil 204 mil novas armas, mais do que o dobro de 2019. Bolsonaro mandou o país se armar.

Quase 80% dos registros são de cidadãos comuns, colecionadores e caçadores do time do ex-ministro, que acaba de criar e normalizar a bala perdida de aeroporto.

O professor que cuidava da Educação, um pastor presbiteriano, um homem de Deus, anda armado e se envolve em incidente típico de zonas de conflito e violência urbana. E estava no aeroporto de Brasília.

Não é um mero incidente de plantão policial, é mais um fato dos costumes bolsonaristas para a compreensão do estágio a que chegou o país controlado pela família no poder.

O tiro de Ribeiro deveria estar nos cantinhos dos sites da grande imprensa, como está, se tivesse partido da pasta de um contraventor. Mas o protagonista é um homem da Bíblia.

O tiro no aeroporto traz, para quem vê significado em quase tudo, o prenúncio de que algumas coisas podem sair do controle, porque estão mexendo em pastas e enfiando as mãos em cumbucas de alto risco.

Dá para imaginar o que pode acontecer no país armado por Bolsonaro, com a intenção explícita de formar milícias, com tanta gente sem competência para fazer o que deve ser o abc de qualquer manual de caçador.

Bolsonaro e líderes do bolsonarismo não sabem destravar e travar armas. A extrema direita é a bala perdida da política brasileira.Image

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talisandrade
Membros de gabinete paralelo, pastores foram 127 vezes ao MEC e ao FNDE no governo Bolsonaro. Sempre para rezar, rezar o venha a nós o dinheiro dos negócios da educação
 
13
Abr22

General Braga Netto interventor militar de Michel Temer e vice de Bolsonaro

Talis Andrade

 

General Braga Netto um vocacionado para ser ditador. Foi interventor militar de Michel Temer no Rio de Janeiro, quando Marielle Franco foi metralhada. Uma interventoria que jamais prestou contas dos gastos mirabolantes. Jota A bem que representou esse mando supremo (charge acima).  

É este militar perdulário que passou pela Casa Civil, cujo orçamento paralelo se encontra hoje terceirizado, secreto, nas mãos macias do parceiro do Centrão Ciro Nogueira.

No Ministério da Defesa, o general Braga fez passar o carrinho de compras recheado de vinhos, licores, filé, picanha, leite condensado, viagra, próteses penianas, botox. 

É o Brasil dos coronéis do Ministério da Saúde e dos pastores dos negócios do Ministério da Educação. 

Eta vida fácil. Vida boa, enquanto o povo sofre a vida e morte severina, sem comida, sem terra, sem teto, sem nada.

Para Janio de Freitas:

Nenhum presidente legítimo, desde o fim da ditadura de Getúlio em 1945 —e passando sem respirar sobre a ditadura militar— deu tantos motivos para ser investigado com rigor, exonerado por impeachment e processado, nem contou com tamanha proteção e tolerância a seus indícios criminais, quanto Jair Bolsonaro. Também na história entre o nascer da República e o da era getulista inexiste algo semelhante à atualidade. Não há polícia, não há Judiciário, não há Congresso, não há Ministério Público, não há lei que submeta Bolsonaro ao devido".

O tenente Bolsonaro, o general Braga ameaçam uma guerra civil se perderem o governo  nas urnas do povo sem medo, nas eleições livres, democráticas, que podem ser decididas logo no primeiro turno, no dia 2 de outubro próximo.

Com os novos meios de comunicação de massa, não se faz mais golpe sem povo nas ruas, prisões, tortura, assassinatos, centenas, milhares de refugiados e cidades destruídas e o país divido para todo sempre. 

 

O que fazer com Braga Netto

 

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por Moisés Mendes

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A curiosidade geral, dentro e fora do governo, mobiliza atenções em direção a uma hipótese que hoje se apresenta como improvável.

Bolsonaro poderia se livrar do general Braga Netto, por causa dos escândalos das compras de mercadorias da área sexual para as Forças Armadas?

Será que pode se livrar? Não no sentido de dispensar o general como membro do governo, o que de fato é quase impossível, mas como seu vice-presidente praticamente já escolhido.

Braga Netto pode cair antes de ser formalmente anunciado como futuro substituto de Hamilton Mourão e ser dispensado da parceria na eleição, para que a imagem das Forças Armadas seja preservada?

O risco real é o da exploração das compras numa campanha em que o vice deve ser apontado como o homem que sabia ou deveria saber, como então ministro da Defesa, da aquisição de próteses penianas e de Viagra durante sua gestão.

Braga Netto estaria exposto como um general poderoso omisso diante de aquisições tecnicamente inexplicáveis e moralmente insustentáveis. 

Vamos a um exercício sobre o conhecimento da realidade de Brasília e do poder, para ajudar na reflexão sobre o possível destino do futuro candidato a vice.

Pensem nesses nomes. Lauro Luís Pires, João Carlos Corrêa, Franklimberg Freitas, Antônio Carlos Moretti Bermudez e Eduardo Camerini.

São personagens escolhidos aleatoriamente entre ex-ocupantes de altos cargos que foram dispensados do governo por Bolsonaro. Todos são militares das mais altas patentes.

Os três primeiros são generais, o quarto é almirante e o último é brigadeiro. Só alguém com destreza e aptidão por assuntos militares sabe quem são eles. E meia dúzia deve saber o que eles faziam no governo.

Desde que assumiu, em janeiro de 2019, Bolsonaro demitiu 18 generais. O mais recente foi Joaquim Silva e Luna, que presidia a Petrobras.

Também demitiu cinco brigadeiros e mais dois almirantes. Entre os militares que Bolsonaro mandou embora, mesmo que formalmente tenham pedido para sair, estão os chefes das três armas e o ministro da Defesa, que saíram em março do ano passado.

Ganha um kit com uma caixa de Viagra, uma prótese peniana de bom tamanho e cinco quilos de filé quem souber dizer, sem pensar muito, os nomes desses quatro militares.

É provável que, fora do meio militar e da política, o brasileiro médio também não saiba direito quem é Walter Souza Braga Netto. Mas cada vez vai saber mais, por notícia boa ou notícia ruim.

Braga Netto é talvez o único general que Bolsonaro não pode mandar embora. Porque foi fortalecido como o seu general preferido, mais do que Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, porque é o mais impetuoso, conhece a realidade do Rio, deve saber tudo da família e porque já foi 90% anunciado como vice.

Afastá-lo da chance de vir a ser o vice-presidente, com a ampliação do seu poder político, num governo que seria ainda mais militarizado no segundo mandato, é condená-lo à estagnação e ao ostracismo.

Braga Netto é assessor especial de Bolsonaro, desde que saiu do Ministério da Defesa no fim de março para ser o vice.

Pode ser substituído, por pressão de aliados, por Tereza Cristina ou Damares Alves, que para alguns agregam mais do que o general?

Poderia, se descartado, voltar a ser ministro da mesma área? É improvável, porque seria andar para trás.

Bolsonaro não deve correr o risco de mexer com o humor do líder maior entre todos os generais que tutelam seu governo e tudo o que eles representam.

Mas Braga Netto passa a ser testado por sobressaltos diários, a cada descoberta das listas de compras dos militares.

O general pode, se as listas se avolumarem e ficarem mais assustadoras, transformar-se num fardo fardado a ser carregado por Bolsonaro.

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04
Abr22

Bolsonaro precisa fazer o PowerPoint do golpe

Talis Andrade

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Por Moisés Mendes /Jornalistas pela Democracia 

Bolsonaro retomou, mais por desespero do que por método, o blefe do golpe. A escolha de Braga Netto para vice e as festas para o 31 de março o inspiraram a fazer declarações em que os militares aparecem de novo como possíveis atores da política, se a extrema direita for derrotada na eleição.

Mas, por mais impulsivas e irracionais que sejam suas falas e atitudes, em algum momento alguém terá de chamá-lo para uma conversa sobre pelo menos cinco pontos. Bolsonaro terá de olhar possíveis cenários com alguma racionalidade. 

Mesmo que seja incapaz de assimilar e compreender os resultados de uma avaliação de riscos, as seguintes questões, elementares para alunos da 5ª Série da política, deverão ser levadas em conta.

1 - Qual é sua influência real e sua capacidade de mobilização de setores que podem viabilizar um golpe impondo terror, medo e “ordem” já nos primeiros dias? 

Que liderança Bolsonaro tem de fato entre comandos de cima e de níveis intermediários das três armas e entre policiais militares, mesmo que esses estejam sob as ordens dos governadores? 

Bolsonaro tem mesmo milícias organizadas à espera do golpe? 

2 - Que tamanho teria hoje sua base social, considerando-se que a maioria das estimativas calcula esse lastro em no máximo 20% da população? 

Qual seria o nível de engajamento da base civil num momento de ruptura e como isso se traduziria em contribuição para a sustentação do golpe? 

O contingente bolsonarista, considerado mais feroz do que o lastro civil de 64, está pronto para as sequelas de um golpe num país com famílias divididas desde 2016? 

3 – Os militares estão mesmo incondicionalmente com Bolsonaro? Consagrou-se, muito antes do golpe de 64, que militares podem dormir governistas ou legalistas e acordar golpistas. 

Mas nesse caso o raciocínio leva em conta eventuais golpes contra quem está no poder, como aconteceu em 64.

Bolsonaro daria um golpe como perdedor, porque como eventual vencedor apenas aprofundaria o golpe cotidiano que vem sendo dado desde o início do governo.

Os militares cometeriam gestos de radicalidade para ficar ao lado de um sujeito que nunca liderou nada na vida e que só se impõe no governo pelo próprio suporte militar e pelos negócios com o centrão, e não pela capacidade de liderar? E os militares legalistas que se negariam a entrar na aventura?

4 - Qual seria a capacidade de enfrentamento de um golpe por parte das instituições – Congresso, Supremo, TSE e outros pilares da democracia? 

O Supremo, hoje acossado até por milicianos e robôs do mundo digital, teria força institucional que o Congresso não tem há muito tempo, no caso de um golpe? Em 64, o STF foi logo amordaçado.

Como o STF poderia expressar sua força hoje, se nunca foi contestada com vigor a tese segundo a qual um jipe com um cabo e um soldado (ou os soldados sem jipe mesmo) seria suficiente para fechar suas portas?

5 - Que poder de organização e reação teria a sociedade civil, ao lado dos vitoriosos na eleição e com as trincheiras das instituições da democracia – partidos, universidades e sindicatos (mesmo que fragilizados), OAB, entidades de defesa das liberdades, associações? 

Um país resignado, que em seis anos desde o golpe de 2016 se mostrou incapaz de reagir ao avanço do fascismo, que vê jovens e estudantes sem força, teria como reagir só com seus veteranos de outras guerras a um golpe? E a imprensa sempre golpista, como se iria se comportar?

Golpes, guerras, tapas na cara e jogos de futebol têm desdobramentos imprevisíveis. Mas Bolsonaro terá de lidar com alguma previsibilidade, se quiser seguir em frente. 

E deve pensar que todos esses cenários, com ou sem PowerPoint, contariam com um protagonista chamado Luiz Inácio Lula da Silva.

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05
Mar22

As facções, os machos, os eleitores e todos os cúmplices fáceis do fascismo brasileiro

Talis Andrade

 

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Mamãe Falei troca ataques com Eduardo Bolsonaro nas redes: "Frouxo" -  CartaCapital

DIREITA VOLVER Mamãe Falei e o parceiro de arma Eduardo Bolsonaro

 

Por Moisés Mendes /Jornalistas pela Democracia 

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A viagem do deputado Mamãe Falei à Ucrânia ficaria na antologia do folclore da guerra, se não fosse a ostentação do macho incontrolável.

A viagem não foi a farra macabra de um sujeito que se revela farsante até como mercenário. A excursão e seus desdobramentos são da essência da degradação da política brasileira. 

Bolsonaro, os filhos de Bolsonaro e todos os que estão no entorno do bolsonarismo cometem atitudes só aparentemente absurdas. Porque tudo para eles é fácil. O brasileiro é considerado fácil.

Mamãe Falei foi a Ucrânia mentir que fabricaria coquetéis Molotov para enfrentar os russos, assim como Bolsonaro disse ter ido a Moscou para assegurar para o agro-é-pop que haveria adubo para sempre.

Para garantir o abastecimento de adubo, Bolsonaro levou 32 militares e o filho Carluxo a uma conversa com Putin. E boa parte da imprensa se dedicou a explicar a lógica da viagem de Bolsonaro, assim como Mamãe Falei tentou dar sentido à viagem à Ucrânia.

A barbeiragem cometida pelo amigo de Sergio Moro ao espalhar o áudio entre membros da sua facção é apenas o acidente no roteiro. 

Era previsto que ele sairia a alardear que as mulheres estariam lá aguardando seu retorno, depois da guerra. Aí elas iriam ver o que é o machão brasileiro. 

Mas não era previsto que alguém vacilasse como macho e vazasse o áudio, talvez um macho inseguro, sem as mesmas convicções do restante da turma.

Bolsonaro também acha que o eleitor brasileiro é fácil. Antes do segundo turno de 2018, ele anunciou que mataria os inimigos na ponta da praia. Ele era ali um Mamãe Falei. O eleitor era fácil e o inimigo também.

Bolsonaro já mostrou que faz o que quiser com o eleitor da sua base. Tudo com facilidade. É fácil ser negacionista e sabotar a imunização de velhos e crianças e continuar com 25% de apoio, porque é fácil enganar.

Os brasileiros são fáceis para Bolsonaro, para os militares, o centrão, os milicianos. Não porque sejam pobres, como disse Mamãe Falei das mulheres ucranianas, até porque muitos dos fáceis brasileiros são ricos. Simplesmente porque são fáceis.

Bolsonaro, Mamãe Falei e a extrema direita mundial descobriram que convencer, assumir controles e submeter vastos contingentes à hipnose do fascismo são tarefas fáceis. Pessoas em desalento se tornaram presas fáceis, ou não teriam levado Bolsonaro ao poder.

Se em algum momento a engrenagem falha, é só porque Mamãe Falei faz parte da ala da chinelagem e mexeu com o poder das mulheres. 

Se Bolsonaro tivesse dito algo parecido com o que o deputado amigo do ex-juiz suspeito disse, não aconteceria nada. Seria apenas mais uma fraquejada ou a livre manifestação de quem, segundo o genocida, não estupra mulher que não merece ser estuprada.

Bolsonaro foi eleito como incentivador de estupros. Nada é difícil para o sujeito, em qualquer área. Foi fácil para a estrutura montada por ele levar adiante as quadrilhas da pandemia, que intermediaram os negócios da cloroquina e estavam prontas para vender vacinas.

Nunca foi tão fácil para o fascismo agir com a conivência de setores do empresariado, de um jeito que não existiu nem na ditadura. 

A elite empresarial é dócil e fácil. Os banqueiros são fáceis. O mercado financeiro é facílimo. Os liberais brasileiros nunca foram tão fáceis. E os militares facilitaram tudo. 

Com um Ministério Público fácil, tudo fica ainda mais facilitado para proteger os filhos e os milicianos que protegem os filhos. 

O sistema de Justiça é fácil para o bolsonarismo. Mas as mulheres brasileiras não são fáceis. As mulheres vão derrotar a extrema direita no Brasil.

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27
Jan22

Precisamos saber se o salário de Moro compensava os riscos que ele correu

Talis Andrade

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Ser político com mandato e imunidade é a única chance de Moro sobreviver e não ser preso

 

por Moisés Mendes

A curiosidade em torno do salário de Sergio Moro na Alvarez & Marsal passa por uma questão que vai além dos possíveis crimes cometidos pelo ex-juiz suspeito. Os brasileiros querem saber o salário de Moro porque a dúvida tem uma particularidade.

Quanto ganha um juiz de fama internacional, que abandona a magistratura e vai trabalhar para os que tentam salvar as empresas que ele ajudou a quebrar?

Qual o preço dos serviços de um ex-juiz que, antes de trabalhar para uma consultoria, faz estágio no governo que ele ajudou a eleger depois de encarcerar o candidato que deveria estar no governo?

Há uma curiosidade angustiante em torno do salário de Moro. O ex-juiz recebia o que merecia, não só pela competência, mas pelos riscos envolvidos?

Moro aceitou receber pouco, mesmo sabendo que poderia, com esse muito pouco, ser cercado por todos os lados, como está acontecendo, ou ganhou muito dinheiro

O ex-chefe da Lava-Jato prestou serviços a Bolsonaro porque estava em jogo, mais adiante, uma indicação ao Supremo. Antes, prestara serviços às elites, aos americanos e ao Brasil arcaico, caçando e condenando Lula, para só então ser subalterno de Bolsonaro e proteger (mas não protegeu direito) os filhos do sujeito.

Ninguém sabe até hoje o que Moro fazia no governo e na consultoria, mesmo que, no caso da empresa, ele diga que trabalhava com ensinamentos para que as grandes corporações tenham bons modos, no que chamam nesse mundo do dinheiro de compliance.

Onde estão as provas de que Moro trabalhou mesmo para a Alvarez & Marsal, ou será que o ex-juiz suspeito fez apenas encenação como garoto-propaganda da empresa?

Então, a maior curiosidade hoje, com apostas disseminadas pela internet, é saber o valor do salário de Moro na consultoria. Se for muito, a confusão será amplificada.

Se for pouco, Moro estará depreciado no mercado como um ex-juiz que arriscou sua fama e ainda foi trabalhar por quase nada para quem presta serviços a empresas que a Lava-Jato destruiu.

O que ele recebeu de Bolsonaro não pagou o custo de ter sido exposto como um magistrado contratado não por um governante conservador, mas por um extremista de direita ligado a milicianos.

Sabe-se que Moro, antes de qualquer outro defeito ou virtude, é um simplório. Fala platitudes, não sabe se leu mesmo a biografia de alguém, defendeu o armamentismo para todos e disseminou como ministro a tese da violenta emoção para que as polícias possam atirar para matar.

O ex-juiz tinha obsessão até por um programa de defesa do cigarro nacional, que nunca ninguém entendeu direito. Como candidato, não diz nada com nada.

Moro foi longe demais por ter sido tomado pela soberba que contagiou toda a Lava-Jato. Um simplório soberbático pode ser inofensivo se não estiver sob os impulsos do instinto de sobrevivência em situação de emergência.

Moro é um sujeito assustado com a perspectiva de não ser nada, antes mesmo do fim da campanha. Ser político com mandato e imunidade é sua única chance de sobreviver e não ser preso.

Sua proteção precária hoje é a dos políticos que o acolheram porque ele poderia significar alguma coisa. Os chefes do Podemos já se deram conta de que não serve para nada.

O ex-juiz não tem mais a proteção de antigos colegas da magistratura, a elite empresarial desistiu de defendê-lo, exatamente por ter se tornado inútil, e o povo se deu conta de que tudo era uma farsa. Sobrou o tiozão do Zap, mas as turmas do tiozão não são suficientes para salvá-lo.

Por tudo isso, precisamos saber quanto ganhava, para avaliar se essa última empreitada era bem paga. As respostas dele e da consultoria serão enrolativas, com valores variáveis e outros adereços, para que não se descubra o que ele recebia de fato por mês.

Mas terão de informar um valor total pago ao ex-juiz durante o período em que ele andou de um lado para outro dizendo que estava a serviço da consultoria.

Eu chuto que esse valor era equivalente a uns R$ 400 mil mensais. É o salário de um lateral reserva do Palmeiras. Mesmo que não tenha jogado nada, é pouco para a confusão em que o ex-juiz se meteu.

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17
Nov21

Estátuas de plástico da Havan são mais grotescas do que o touro dourado

Talis Andrade

 

Por Moisés Mendes /Jornalistas pela Democracia

O touro dourado da Bolsa de Valores, plantado sobre a calçada, no centro de São Paulo, é a expressão rococó do bolsonarismo financeiro que pretende produzir “arte simbólica”, mesmo que muito mal copiada.

Mas o touro não é mais ofensivo nem mais bizarro do que as réplicas de plástico da estátua da liberdade das lojas do véio da Havan espalhadas pelo Brasil.

O touro é uma agressão a um espaço público. O poder do dinheiro pode o que os sem-dinheiro nunca poderiam. Joga na calçada, com naturalidade, uma figura imposta pelo que pretende representar, mas nada representa,

O touro dourado da Bolsa é um deboche com a própria Bolsa. Há muito tempo não é nesse reduto que o capitalismo brasileiro se expressa. A Bolsa não significa nada como forma de captação de recursos, potencialização de negócios e partilha de ganhos.

A Bolsa só partilha blefes. O capitalismo de empresas abertas no Brasil é um boi castrado alquebrado, não é um touro. As bolsas de outros países prosperam, aqui a Bolsa definha.

O touro dourado está no contexto de um país destruído pelo subcapitalismo miliciano bolsonarista. Mas, em relação à réplica da estátua da liberdade, há um atenuante. O touro pode ficar ali na calçada só por três meses, conforme concessão da prefeitura.

As réplicas grotescas da estátua da liberdade poderão ficar até o fim dos tempos. São reproduções permanentes, algumas desproporcionais em relação à original, sem qualquer vínculo e sem sentido em relação ao ambiente em que apareceram como assombrações.

O touro pode, por imitação, dizer que está ali tentando jogar as ações brasileiras para o alto, mesmo que seja sobre a cabeça de Paulo Guedes.

Há uma intenção de falar de interesse coletivo no touro dourado. Mas as estátuas do véio da Havan significam o quê? A imposição do marketing e do gosto do véio da Havan.

Em cidades com códigos de postura razoáveis, conquistados depois de décadas de arbitrariedades em terras sem lei, a estátua é uma agressão ao espaço urbano. Não apenas estética, mas cultural e política.

Uma réplica da estátua da liberdade não deveria onde foi colocada em nome de presumidas liberdades dos moradores. Liberdades de quem?

Ninguém mais, sem poder econômico, conseguiria erguer estátuas ou totens semelhantes em lugar algum, por que as leis e as regras do bom senso urbano não permitiriam.

É inimaginável que, na maioria das cidades brasileiras, algum comerciante consiga erguer réplicas de Batman, Mickey, Shrek, mesmo no mais privado dos espaços.

As réplicas erguidas pelo véio da Havan estão fora do lugar e não têm outro significado se não o da imposição de uma ideia econômica. Conviver sem reação com as estátuas é mais do que aceitar que as cidades assumam um jeito jeca de ser.

É se submeter ao olhar de fora que invade os costumes, os espaços e a história locais em nome de uma marca, apenas isso. Ou alguém imagina que as estátuas verdes de até 50 metros de altura sejam capazes de inspirar consciências cívicas e mensagens e ações edificantes? Até o touro dourado sabe que não.

06
Nov21

Maríia Mendonça: Ele não

Talis Andrade

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O jornalista Moisés Mendes explica

"Por que a morte de Marília Mendonça nos comove

É frouxo o artista que fica à sombra dos distanciamentos, como se nada fosse com ele. Marília Mendonça desafiou a ira da extrema direita com apenas 23 anos, quando disse que não votaria no sujeito por uma questão de bom senso. 

Não era e nunca foi uma artista engajada, nem uma militante, era apenas uma artista dizendo o que pensava ali naquela hora. 

Ela disse em 2018 que era impensável votar naquele que todos sabiam (uns fingiam não saber) de quem se tratava. Participou da campanha do Ele, não, e foi o que bastou. 

Posicionou-se sobre uma questão crucial, foi perseguida e ameaçada e teve de recuar, como muitos recuaram para sobreviver. Por isso mesmo, pela perseguição e pela urgência do recuo, a breve história de Marília nos comove".

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Ele, não, em São Paulo

Ele , Não, o posicionamento da maioria dos compositores, cantores, poetas. Escute Ele, não, com Khalil Magno:

Ele é a faca que matou kantendê
Ele é a bala em marielle
Ele é o ódio à flor da pele
Ele é o sangue na favela
Ele é o mal

Onde nos quero livre ele é a jaula
A hipocrisia em ditos cidadãos de bem
Que se escondem num discurso isento
Ele é você que não se vê ao lado
De quem goza da coragem de dizer

Pro fascismo: Não mais!
Pro machismo: Não mais!
Homofobia: Não mais!
Pra transfobia: Não mais!
Para o nazismo: Não mais!
Para o racismo: Não mais!
Xenofobia: Não mais!
Qualquer fobia: Não mais!
Intolerância: Não mais!
Não mais! Não mais!
Não!

Ele não!

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18
Out21

A CPI vai amarelar diante de Braga Netto?

Talis Andrade

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por Moisés Mendes
 
Uma figura da República, recolhida à discrição desde o 7 de setembro, pode reaparecer nos próximos dias. Mas só se estiver na lista da CPI do Genocídio, entre os acusados de envolvimento nos crimes da pandemia.

É o general Braga Netto, ministro da Defesa, considerado o mais poderoso e fiel militar ao lado de Bolsonaro. Braga Netto aparece e desaparece nas listas especulativas entre os nomes que a CPI entende que devam ser indiciados.

O nome do general é dado mais como incerto do que certo, porque integrantes da CPI teriam dúvidas sobre as motivações para o pedido de indiciamento.

Devem ter dúvidas e devem ter medos, sentimentos que o senador Alessandro Vieira, do Cidadania de Sergipe, parece não ter.

Em relatório paralelo, que poderá ter apenas valor político, Vieira vai apontar Braga Netto como incurso em crimes de responsabilidade, de epidemia e contra a humanidade.

Muitos querem esquecer que Braga Netto foi, no começo da pandemia, o poderoso chefe do Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19.

Sentava-se ao lado do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, nas entrevistas coletivas, e não dizia coisa com coisa. Mandetta usava o colete do SUS, e o general aparecia de terno e gravata.

Ninguém sabia ao certo o que ele fazia e do que entendia. Mais tarde, o próprio Mandetta deu informações decisivas para a compreensão da tarefa do general.

Braga Netto, pelos relatos de Mandetta, pode ter sido o primeiro grande lobista da cloroquina no governo. Era a voz escalada por Bolsonaro para desencadear o milagre do tratamento precoce.

Foi ele quem chamou Mandetta para a famosa reunião de 6 de abril do ano passado, em que um grupo tentou empurrar a minuta de decreto do governo que mudaria a bula da cloroquina, para que o remédio fosse indicado para a Covid.

Braga Netto era o coordenador dessa reunião, quando começava a se formar o gabinete paralelo dentro do Ministério da Saúde. Estava lá a médica negacionista Nise Yamaguchi.

Em uma das primeiras entrevistas sobre esse encontro pró-cloroquina, ao site Poder 360, Mandetta disse:

“Não conhecia essa médica. Talvez se ela tivesse ido ao meu gabinete para se apresentar. Perguntei o nome dela e qual a formação. Tinha um outro médico do lado que eu nunca o vi antes e nem depois, esse aí nem guardei o nome […] E tinha mais pessoas lá [na reunião]… tinha o ministro Braga Netto, pessoas fardadas também”.

Tinha o ministro Braga Netto? Era mais do que isso. Braga Netto, como comandante do gabinete da pandemia, era o chefe da reunião. Naquele momento, não poderia ser subordinado a ninguém, nem a Mandetta.

A reunião era dele, de Braga Netto. O que Mandetta sugere é que Nise, alguns subalternos, inclusive fardados, e outros infiltrados foram usados como laranjas para empurrar o decreto, que o então ministro rejeitou.

Ficaram suspeitas, depois dessa reunião, de que Braga Netto seria pelo menos o inspirador do gabinete paralelo, para que Mandetta fosse esvaziado, como acabou acontecendo.

A ascensão de Eduardo Pazuello militariza a Saúde, com sua turma de coronéis, e abre a porta também para as facções negociantes de vacinas que não existiam. 

Em julho, Braga Netto foi protagonista de um embate com o senador Omar Aziz. Aziz disse, referindo-se aos intermediários de vacinas, que “membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua dentro do governo”.

O general largou uma nota: “Essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável”.

E fez uma advertência: “As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”.

As Forças Armadas teriam mesmo a prerrogativa de defender a democracia de pretensos ataques de senadores? Que poder seria esse das Forças Armadas?

Pois Braga Netto é de novo candidato a personagem da pandemia. Talvez seja citado na lista dos que devem ser indiciados. Talvez não. 

A CPI pode amarelar e tirar o nome do general que peitou Aziz e o Senado? Saberemos no dia 19, quando sairá o relatório de Renan Calheiros.

É possível que fique de fora do relatório o primeiro comandante da estrutura montada por Bolsonaro para escantear Mandetta e abrir caminho para o gabinete da cloroquina, do negacionismo e da sabotagem à vacinação?

É uma dúvida que pode ser resumida numa interrogação de meia linha: a CPI tem medo de Braga Netto?

Quem tem medo das Forças Armadas?

 
 

A extrema-direita e as redes sociais

 
 
13
Out21

As 'empresas' dos empreendedores Paulo Guedes e Bob Fields Neto

Talis Andrade

 

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por Moisés Mendes

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Paulo Guedes e Roberto Campos Neto repetem que se afastaram há muito tempo da gestão das suas "empresas" em paraísos fiscais. E que por isso tudo deveria ser aceito como normal, legal e moral.

A imprensa embarca na explicação e trata as contas como se fossem de fato de empresas. Há no tratamento a tentativa de ratificar como empresa o que não é empresa.

Não há empresa, não há uma atividade que se envolva na compra e na venda de produtos ou serviços. Nesses casos, não é nada parecido com uma empresa, por mais atípica que sejam as tais empresas em paraísos fiscais.

Não existem em uma offshore como essas dos nossos empreendedores as atividades mais elementares do que possa ser uma empresa.

Então, por que falam de gestão de empresa, se o que existe é uma conta, um caixa, ou um cofre que funcionam como uma espécie de entreposto e movimentam uma dinheirama na maioria das vezes sem origem comprovada?

Guedes e Bob Fields Neto vão depor na Câmara, em data a ser ainda definida, o primeiro como convocado e o segundo como convidado.

Terão de dizer o que fabricam, vendem e compram, ou que serviços prestam nas empresas que têm como offshore. Quantas pessoas empregam? Têm pelo menos uma secretária? Que operações realizam envolvendo seus negócios no Brasil? Que negócios?

Os mais metidos a espertos podem alegar que a pejotização criou empresas de uma pessoa só. Sim, criou. Mas essas PJs brasileiras entregam produtos e serviços. O profissional pejotizado, muitas vezes pela precarização das relações de trabalho, é alguém que produz algo, e não um movimentador de dinheiro.

A grande imprensa conivente com a existência das empresas que não são empresas divulgou à exaustão a partir de 2017 que Lula e Dilma tinham contas de US$ 150 milhões no Exterior, conforme delação de Joesley Batista.

Era preciso delatar Lula e Dilma de qualquer jeito. As contas nunca existiram. Joesley nunca conseguiu provar ao Ministério Público que havia mesmo aberto contas para favorecer os ex-presidentes.

Mas no dia 10 de maio de 2017, William Bonner anunciou no Jornal Nacional:

“Joesley revela contas correntes no exterior para Lula e Dilma”.

Assim, na maior naturalidade, como se fosse coisa consumada. Tentaram, e se sabe que ainda tentam muito, plantar contas em nome de Lula e Dilma. Nunca tiveram êxito. Mas não desistem.

Agora há pouco, em maio, a agência Lupa teve de checar e desmentir mais uma “notícia” na mesma linha, que circula nas redes sociais da extrema direita.

Um banco suíço teria informado que há uma conta com meio bilhão de reais em nome de Lula e Dilma. A Lupa se deu ao trabalho de sair atrás da bobagem.

Claro que as contas não existem. Lula e Dilma não têm dinheiro no Exterior. Se tivessem, já teria aparecido. Mas Guedes e Bob Fields Neto têm. São contas, não são empresas. É apenas um entra-e-sai de dinheiro.

Pelo que se sabe, pelas declarações dos dois, nos últimos anos nada entrou e nada saiu. São contas não movimentadas.

Se fossem empresas, estariam inertes, hibernando, sem nada produzir, à espera de alguma primavera.

Mas são apenas contas que eles decidiram abrir fora do Brasil. Paradas, quietas, só contabilizando os ganhos com a disparada do dólar. Essas são as “empresas” que prosperam no bolsonarismo dolarizado.

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19
Set21

Por que a fakeada incomoda a Folha

Talis Andrade

 

por Moisés Mendes

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Os ataques da Folha ao documentário de Joaquim de Carvalho sobre a fakeada de Bolsonaro podem parecer apenas uma manifestação de inveja com o trabalho do Brasil 247.

A Folha olha para o que sua redação tem feito e enfrenta o constrangimento do imobilismo de um jornal que nem perguntas faz mais. Mas a reação ao documentário é mais do que inveja.

A Folha comeu nos últimos anos pela mão de Sergio Moro e de Deltan Dallagnol. Liderou o consórcio da grande imprensa lavajatista que fingia produzir jornalismo investigativo publicando vazamentos seletivos contra Lula.

Os jornalões ficaram viciados na vida boa dos vazamentos liberados sem muito esforço. Agora, como não “investiga” mais nada há muito tempo, a Folha ataca o jornalismo dos outros.

O texto em que a Folha tenta desqualificar o trabalho do Brasil 247 é um esforço para ficar bem na foto da pacificação liderada por Michel Temer.

A Folha age como ombudsman do trabalho alheio e tenta fazer parte da turma que acalma e amarra Bolsonaro, com o argumento de que assim poderão salvar o Brasil.

Mexer de novo com a facada é criar um ruído que os pacificadores consideram arriscado, no momento em que submetem Bolsonaro a uma overdose de água de melissa. Esqueçam a facada, e nós manteremos Bolsonaro acovardado.

Não é surpreendente para quem conhece o histórico do jornal. A Folha não se dedica com muito entusiasmo ao jornalismo investigativo digno do nome. E pouco fez em torno de atentados supostos ou verdadeiros.

O mais traumático dos atentados da ditadura, o do Riocentro, mobilizou os grandes jornais. Pesquisem em trabalhos acadêmicos e da própria imprensa sobre o que aconteceu depois daquele 30 de abril de 1981.

Aparecerão referências ao Jornal do Brasil, ao Estadão e ao Jornal da Tarde. A Folha nunca esteve entre os jornais que, pelos comandos da direção, apressaram-se para tentar desmascarar as farsas do atentado do Riocentro.

O que a Folha e os jornalões fazem, desde muito antes do golpe de 2016, é passar adiante o que interessa a quem é autoridade e investiga, acusa ou julga alguém ou alguns, de preferência se o investigado é das esquerdas.

Isso não é jornalismo investigativo. É o que o jornalista e professor Solano Nascimento, estudioso do assunto, já definiu, em livros e em tese defendida na Universidade de Brasília, como jornalismo sobre investigações.

Quem investiga e se oferece como fonte é, invariavelmente, do Ministério Público. E quem disputa o material oferecido pelos investigadores do MP é da grande imprensa, desde que o material contemple demandas e interesses dos jornais.

Seria aceitável, como é em toda parte, se esses vazamentos não fossem sempre seletivamente filtrados, para que chegue aos jornais apenas o que importa aos investigadores e aos donos das corporações.

Foi o que aconteceu de forma sistemática, como caso exemplar, na Lava-Jato que caçou Lula e depois embarcou Moro, como herói nacional criado pela mídia, na janelinha do governo de extrema direita de Bolsonaro.

A Folha já não consegue fazer, como o Brasil 247 está tentando, o jornalismo que pergunta para continuar em busca de respostas escondidas no caso decisivo para a compreensão e o desmonte do fenômeno do bolsonarismo.

O texto publicado na Folha transfere para o Brasil 247 as perguntas que a Folha nunca fez com a insistência que o episódio merece.

A Folha quer saber do 247 o que nunca procurou saber nem mesmo das fontes que têm algo a dizer sobre a fakeada.

Mas o jornal soube fazer perguntas, insinuações e afirmações enquanto Lula era caçado pela República de Curitiba.

Agora, para fingir que faz jornalismo, a Folha envia sua listinha burocrática de perguntas ao jornalista que teima em perguntar: que fakeada foi essa?

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