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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

17
Set22

Precisamos voltar a falar dos criminosos e das vítimas da ditadura

Talis Andrade

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Brasil terá de voltar a falar de ditadura, de ditadores e de torturadores, ou assumir que é um país resignado, alienado e acovardado

 

por Moisés Mendes

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O presidente Gabriel Boric é apresentado como o grande perdedor do referendo que rejeitou a nova Constituição do Chile.

A mobilização contra a Constituição acordou direita e extrema direita, quietas desde as manifestações de rua iniciadas em outubro de 2019, que levaram à Constituinte e agora à frustração.

Tanto acordou que grupos pinochetistas foram às ruas, em 11 de setembro, no aniversário do início da ditadura, para enfrentar manifestantes de esquerda.

E o que fez o presidente? Anunciou que, ao contrário do que os fascistas pensam, eles não terão paz. E que o Chile continuará avivando a memória do que aconteceu na era Pinochet.

Como parte do que está sendo planejado para o aniversário do 50º ano do golpe, em setembro do ano que vem, Boric informou que desde agora o governo participa de uma nova empreitada.

O Chile vai em busca de pistas que esclareçam o que aconteceu com os 1.192 cidadãos e cidadãs até hoje identificados como desaparecidos em algum momento a partir de 1973. Mais de 500 eram crianças.

O Chile teve mais de 3 mil mortes e desaparecimentos. Na Argentina, foram mais de 30 mil, mesmo que esse número seja sempre questionado.

No Brasil, o saldo macabro é oferecido quase como um consolo por fascistas e historiadores condescendentes: 434 pessoas mortas e desaparecidas. .

Mas Argentina, Chile e Uruguai conseguiram, uns mais, outros menos, avançar na punição dos criminosos das suas ditaduras. O Brasil nada fez, por conta da anistia de 1979.

O ambiente que se vislumbra, com uma vitória de Lula, nada assegura de mudança na área da reparação judicial.

O Supremo já fechou todas as portas que poderiam levar à punição criminal de torturadores e assassinos ainda vivos.

Mas o futuro governo poderá oferecer, por gesto político, suporte para que se retome o que foi levado adiante pela Comissão da Verdade e outras iniciativas, para que os horrores da ditadura não sejam esquecidos.

Boric está assumindo com os chilenos, em circunstâncias desfavoráveis ao seu governo, um compromisso com a História.

Um novo governo democrático no Brasil, em substituição ao poder fascista de Bolsonaro, também terá que assumir compromissos.

Pela reabilitação do debate em torno do que foi a ditadura. Pelo fortalecimento de lutas esparsas que ainda resgatam essa memória.

Pelo apoio às energias e aos afetos de todos os familiares e amigos que persistem e pelo respeito a torturados, mortos e desaparecidos.

Um novo governo democrata terá de dar conta de demandas desprezadas e perdidas desde 2016.

O Brasil terá que voltar a dizer, sem medo, todos os anos e de forma permanente, como fazem os chilenos e outros vizinhos, que aqui houve uma ditadura sanguinária.

E reconhecer que a impunidade ajuda a explicar o horror que ainda enfrentamos até hoje.

O esquecimento sustentou a vida tranquila de ditadores e de 377 agentes públicos (militares, policiais e outros) envolvidos em crimes de lesa humanidade entre 1964 e 1985, como torturas, assassinatos e ocultação de cadáveres.

O esquecimento nos levou às crueldades e aos crimes do bolsonarismo e à estrutura militar que tutela e sustenta um genocida.

O Brasil terá de voltar a falar de ditadura, de ditadores e de torturadores, ou assumir que é um país resignado, alienado e acovardado.

O ditador Pinochet na visão de Chico Caruso | Acervo

21
Ago22

Sonhar com um milionário fascista na cadeia

Talis Andrade

 

 
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O alvoroço da semana é provocado pela possibilidade de ver um dos milionários tios golpistas do zap na cadeia.

É uma ilusão que vai e volta e enfeita os sonhos das esquerdas. Tem que chegar a hora de ver mais do que Sarah Winter e Zé Trovão nas grades.

Precisamos de um ricaço delinquente encarcerado, para que se cumpra uma etapa sempre adiada de reparação.

As esquerdas sonham com o momento em que um desses sujeitos graúdos que saíram do bueiro destampado por Bolsonaro entrarão num camburão.

É uma miragem recorrente. Mas dizem agora os juristas formados pelo lavajatismo que golpistas podem se articular em seus grupos de zap e conversar sobre a tomada do poder.

Eles teriam o direito de falar em voz alta entre eles. É o que dizem os justiceiros da direita, que desejam ferro e fogo para as esquerdas e moderação para a abordagem dos delitos de suas turmas.

De acordo com tese já disseminada, é preciso respeitar a privacidade dos golpistas descobertos pelo jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles.

É como se um delegado de Sorocaba, Barbacena ou Alegrete descobrisse que uma quadrilha se prepara para tomar e saquear um banco da cidade, mas respeitasse a privacidade dos bandidos.

Porque, de acordo com esse raciocínio, a conversa fechada no grupo tem efeitos naquela bolha. O delegado só iria intervir se o plano fosse tornado público pelo Twitter.

O certo é que a ilusão de ver um fascista grandão na cadeia é um direito de todos e uma possibilidade real.

O jurista Wálter Maierovitch já pulverizou em artigo na Folha a teoria do golpe mantido em conversa privada como galhofa ou liberdade de expressão.

O grupo de tios endinheirados do zap caracteriza, segundo Maierovitch, crime de associação delinquencial, que recebe o nome jurídico de formação de organização criminosa.

E a prisão cautelar é uma hipótese a ser considerada, ensina o jurista. Maierovitch não diz, mas é preciso levar em conta que essa é uma possibilidade improvável às vésperas da eleição.

Mesmo assim, o impasse político não afasta completamente a hipótese, considerando-se que o golpe estaria sendo planejado para evitar a posse de Lula.

Como o plano é dar o bote depois da eleição, é nesse momento, pós-pleito, que iria se configurar a ameaça real.

O que a realidade nos impõe, destruindo sonhos coloridos nesse sentido, é que poderemos ter, com Lula eleito, a acomodação das pacificações.

E o grupo dos tios milionários do zap seria visto com o tempo como uma subturma de gente que não frequenta altas rodas e se contenta com o que, na definição de Maierovitch, são apenas associações delinquenciais.

A força do empresariado fascista em geral é outra, em toda parte. Eles aplicam golpes contra o Fisco e contra concorrentes, mas não têm mais poder para golpes políticos.

Até a ameaça de golpe dos milionários pode ser, como também é o blefe de golpe de Bolsonaro, mais um estelionato do capitalismo brasileiro.
 
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15
Ago22

Gleisi: "Lula governou por 8 anos. Quando é que fechou uma igreja, perseguiu evangélicos, um pastor?"

Talis Andrade

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Presidente do PT também afirmou que o partido "vai estudar as possibilidades" de entrar com uma representação contra o mentiroso Marco Feliciano, que confessou tem propagado a informação falsa de Lula fechar igreja 

 

247 - A presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, saiu em defesa do ex-presidente Lula e afirmou que o partido avalia entrar com representação contra o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP) após ele ter admitido que, enquanto atua como pastor, espalha fake news aos fieis dizendo que o PT pretende fechar igrejas se voltar ao poder.

"Lula governou esse país por oito anos. Quando é que fechou uma igreja, perseguiu evangélicos, um pastor?", questionou Gleisi à coluna da Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo. "Foi dele a sanção da lei da liberdade religiosa, já em dezembro de 2003, e foi do Lula também em setembro de 2009 a sanção da lei que marcou o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Sempre respeitou todas as religiões. Então vamos enfrentar esse debate com muita tranquilidade e clareza, mostrando para o povo que eles (os bolsonaristas) querem ganhar com mentira, com medo sobre a população", complementou.

Sobre a possibilidade de entrar com uma ação contra Feliciano, a deputada federal afirmou: "Vamos estudar todas as possibilidades. O que não pode é deixar que a campanha vá para fake news, para mentira, eles não têm o que debater com povo brasileiro. Essa não é uma disputa religiosa, tem que deixar isso claro. É disputa política. Você disputa projeto para o país. Mas obviamente que nesse bojo a gente tem que esclarecer as mentiras e as fake news."

Mais cedo, Gleisi já havia publicamente cobrado uma atitude do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a confissão do crime cometido por Feliciano. O PT iniciou uma contraofensiva nas redes para desmentir as alegações falsas relacionadas ao ex-presidente e as religiões. À coluna da Mônica Bergamo, a presidente do partido também revela que, se necessário, Lula se manifestará pessoalmente sobre as fake news: "Se precisar, vamos fazer fala específica, não há problema nesse sentido. Estão entrando nessa seara porque não têm proposta para o Brasil."
 
 

O PT intensificou os comunicados para desmentir rumores de que Lula vai fechar igrejas evangélicas no país. O partido lembra que o ex-presidente sancionou a lei da liberdade religiosa, em 2003, e a lei que criou o Dia da Marcha para Jesus, em 2009, proposta pelo então senador Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus. A plataforma "Verdade na Rede", criada pelo PT, divulgou uma peça que mostra o ex-presidente com as mãos unidas sob o título "Lula é cristão e governa para todos".

 

Michelle é hoje a figura mais perigosa

 
 
25
Jul22

O bolo da matança

Talis Andrade

O bolo da matançaFoto: Reprodução/Redes Sociais

 

por Moisés Mendes /Extra Classe

O gesto mais forte, mais incisivo, mais afirmativo de uma posição, depois do assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda em Foz do Iguaçu, não veio de instituições, da OAB, da Igreja, de políticos ou de celebridades que dizem frases de combate à brutalização do país.

O gesto de maior impacto, que mereceu as capas dos jornais, veio de onde sempre vem a reação a esse tipo de episódio. Partiu da própria extrema direita.

Foi o gesto de Eduardo Bolsonaro ao apresentar um bolo com uma arma dentro, no dia do seu aniversário. Uma ideia pronta para quem fez 38 anos: é só mostrar um revólver calibre 38 como decoração.

Um gesto simbólico que os democratas não conseguem ter, mas a extrema direita sempre apresenta nos momentos em que parece acuada.

Depois da festa de aniversário interrompida por um extremista com uma arma, outra festa de aniversário com um bolo e uma arma.

A alegoria do garoto quase quarentão é a resposta do fascismo ao crime em Foz. Com mais deboche, agressividade, mais armas e mais incitação à matança.

Não há nada equivalente do lado dos democratas ou dos chamados genericamente de progressistas e/ou de esquerda.

Eduardo Bolsonaro produziu o gesto de impacto que sempre falta aos que tentam conter a fúria da extrema direita. E sem muito esforço.

O fascismo transmite mensagens que alcançam o seu público sem volteios. É tudo direto, sem a necessidade de frases explicativas.

A extrema direita passa hoje, com meia dúzia de palavras e alguns objetos, principalmente armas, recados destruidores dos esforços humanistas.

E as esquerdas brasileiras há muito tempo não têm como passar nenhuma síntese do que desejam e do que combatem, mesmo que tenham sido vitoriosas em eleições em países da vizinhança.

Perderam força os slogans libertários que vieram dos anos 60 e as mensagens do século passado com pombas da paz.

Uma pomba da paz hoje não significa nada mais para os que vieram do século 20 e tampouco para os jovens do século 21.

Nenhuma palavra de ordem das esquerdas funciona mais ou funciona pouco. É proibido proibir. Abaixo a ditadura. Tortura nunca mais. Sejam realistas, exijam o impossível. A política está nas ruas, não nas urnas. Democracia já.

Democracia, diferenças, liberdades, direitos humanos. Quase nada funciona. Nem as ruas funcionam mais no Brasil. Nem o apelo ambientalista sensibiliza, mesmo que a Amazônia seja nossa.

Enquanto isso, a extrema direita vai se divertindo com a descoberta de que as pessoas assimilam com mais facilidade mensagens que transmitam ódio, violência, desavença, ruptura e morte.

Um dia depois do assassinato em Foz do Iguaçu, quem conseguiu produzir a mensagem mais poderosa foi o filho mais bélico de Bolsonaro, porque tem poder de síntese para falar com os 30% que apoiam seu pai e o fascismo.

Ninguém sabe o que disseram a Igreja, a OAB, as autoridades, os líderes da oposição, nem mesmo o que Lula disse. As mensagens de condenação do assassinato são levadas por qualquer vento.

O que fica é o bolo do sujeito que já havia produzido a mais lembrada imagem do golpe, a de que um cabo e um soldado, mesmo sem jipe, podem fechar o Supremo.

É a realidade. A democracia não tem força para criar algo com o impacto de um bolo com uma arma e com uma vela sendo assoprada por uma criança.

É aterrador, mas é o que temos para o momento. E com o apoio de um terço da população brasileira. A mensagem da matança está vencendo.

Editorial - Bangue-Bangue bolsonarista: indicações e primeiras baixas -  Jovens Cronistas

05
Jul22

Lula desafia Bolsonaro e os militares

Talis Andrade

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por Moisés Mendes


O alerta que Lula fez na Bahia, de que os autores das ameaças de golpe podem se dar mal, serve também para que se insista com uma pergunta que ninguém do governo, incluindo civis e militares, deve querer ou saber responder.

Essa é a dúvida que atormenta os pretensos golpistas: quem entre eles teria coragem de levar adiante um golpe, num momento em que Bolsonaro é um traste em decomposição?

Não é uma pergunta retórica. É um questionamento concreto, a partir das ameaças feitas até agora. O general Braga Netto, na condição de vice de Bolsonaro e ex-ministro da Defesa, assumiria o risco de ser o comandante militar do golpe?

O trio de chefes das três armas, que substituiu três colegas legalistas, em março do ano passado, teria como dar suporte militar a um golpe comandado por Bolsonaro, ao lado dos filhos dele com a assessoria de milicianos?

É complicada a situação dos líderes militares. Porque a ameaça de golpe feita por Bolsonaro depende da garantia de que os comandantes fardados ou apijamados estarão com ele.

E, se estiverem, estarão juntos também com a base operacional golpista que Bolsonaro pretende acionar, com polícias militares, população civil armada e milícias.

No entrevero do que seria o caos provocado por Bolsonaro, antes ou durante ou depois da eleição, que papel seria o das Forças Armadas, na pretensão de ser a mediadora de um conflito grave que está ajudando a fomentar?

A melhor frase de Lula, no discurso desse sábado em Salvador, depois do alerta aos militares, é a que adverte para que os brasileiros não embarquem na conversa do golpe:
 
“Não aceitem o terrorismo, não acreditem no terrorismo que é feito na televisão de que vai ter golpe”.

É um recado para parte da própria esquerda, que vem se encarregando de passar adiante o medo disseminado por Bolsonaro, por Braga Netto, naquela reunião com empresários no Rio, e pelos filhos de Bolsonaro.

Vamos parar com o medo de que vai ter golpe. Inspirem-se na sabedoria de Lula, que recomendou aos militares golpistas para parem de blefar.

E também para que os militares legalistas comecem a se manifestar em favor da eleição, do sistema de votação e apuração e das instituições.

Bolsonaro e os militares sabem que não há como aplicar e manter um golpe. Sabem que Bolsonaro não consegue nem organizar uma motociata na Bahia.

Os militares estão sabendo que a Marcha para Jesus, sábado passado em Balneário Camboriú, teria sido um sucesso como evento religioso se não tivesse a presença de Bolsonaro. Foi um fracasso da extrema direita catarinense.

Eles sabem bem que não vai ter golpe. E que essa não é uma frase ou um grito de guerra desmoralizado pelos fracassos das tentativas de resistência em 2016 e 2018.

As frases da resistência continuam vivas e ainda funcionam. O que se depreciou e deixou de funcionar foi a coragem das elites e da classe média acovardada, que poderiam estar enfrentando o golpismo.

O bolsonarismo conseguiu a façanha de encorajar os covardes a serem ainda mais covardes, e essa é a inércia explorada pelos blefes do golpe.

Mas agora chegou. Parem com as ameaças que depois são desmentidas pelos próprios ameaçadores, ou enfrentem suas consequências logo adiante.

O recado de Lula, esse sim em nome da Constituição e da democracia, está dado. E Lula é o único que pode mandar recados hoje. Eles sabem.
 

Lula peita as Forças Armadas

 
 
13
Jun22

Golpistas, prestem atenção no que aconteceu na Bolívia

Talis Andrade

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O que a Bolívia nos ensina é que lá a democracia soube reagir. O golpe boliviano expôs comandantes militares acovardados

 

por Moisés Mendes /Jornalistas pela Democracia /Brasil 247

A ex-senadora Jeanine Añez, agora condenada a 10 anos de cadeia, é a gaiata que teve inesperado  protagonismo no golpe boliviano, quando não deveria ter sido nem figurante.

Por isso Bolsonaro força a barra quando tenta se comparar a Jeanine, como fez nos Estados Unidos ao dizer que ela e ele são perseguidos pelo Judiciário. Jeanine foi a laranja do golpe. Bolsonaro apresenta-se como chefe da articulação de uma trama golpista.

A coincidência entre o golpe de 2019 na Bolívia e o golpe que se anuncia aqui, por enquanto como blefe, é que também lá a desculpa foi a de que as eleições não eram confiáveis.

Essa foi a sequência do golpe. O uruguaio Luis Almagro, secretário da Organização dos Estados Americanos, avaliza a estratégia dos golpistas e anuncia que a reeleição de Evo Morales, no dia 24 de outubro, estava sob suspeita.

O golpista Almagro pôs fogo na Bolívia ao sugerir que havia fraude. Luis Camacho, o Bolsonaro deles, articula-se com a OEA e atiça uma revolta militar. A Polícia Nacional, a PM ostensiva boliviana, sob comando federal, inicia um motim contra Evo.

No dia 10 de novembro, Evo deixa o governo. E aqui começam os recados aos golpistas brasileiros. Naquele dia, os chefes militares haviam anunciado que estavam com o golpe.

A sequência é um desastre. O chefe das Forças Armadas, general Williams Kaliman, lê um comunicado pedindo que Evo renuncie, com todos os chefes militares e da Polícia Nacional sentados ou em pé em torno dele.

Mas logo depois foge para os Estados Unidos, porque não daria conta da confusão. O covarde Kaliman sabia que ninguém iria querer assumir a cadeira de Evo.

Mas Jeanine, segunda vice-presidente do Senado e quinta na sucessão, encara a bronca. O que se tem logo depois é uma série de massacres contra o povo que se rebela com a queda de Evo.

Jeanine e os militares das três armas e da Polícia Nacional ordenam repressões que resultam em 36 mortes, com chacinas em La Paz, Senkata e Sacaba.

Um ano depois, em outubro de 2020, os golpistas perdem a eleição convocada depois do golpe. O golpismo estava certo de que, convocada a eleição, tomaria o governo pelo voto.

O Movimento ao Socialismo, de Evo, venceu e elegeu Luis Arce. Jeanine achou que iria se 
habilitar a continuar no poder, mas, sem força política, havia desistido de concorrer.

Desde março do ano passado o Ministério Público e a Justiça estão prendendo os golpistas preventivamente, os civis e os militares.

Jeanine, os chefes das três armas, o chefe da Polícia Nacional e subordinados e mais ministros que assumiram depois do golpe foram presos. Milicianos armados também foram alcançados pela Justiça e encarcerados.

Os militares foram agora condenados junto com Jeanine, com exceção de três que já haviam confessado participação no golpe e sofreram penas mais brandas, com três anos de cadeia.

Mas duas figuras continuam escapando. O general covarde Williams Kaliman, que pode estar no Brasil, e o líder do reduto fascista de Santa Cruz de la Sierra, Luis Camacho, o verdadeiro líder civil do golpe.

Kaliman escapou porque abandonou os comparsas, e Camacho porque ganhou imunidade ao ser eleito logo depois governador de Santa Cruz de la Sierra. Especulações de que o Ministério Público poderia pegá-lo nunca se confirmaram.

Então, Bolsonaro não é, como pensa ser, uma imitação de Jeanine. A ex-senadora medíocre é a coitada do golpe. Incapaz de compreender a guerra, seguiu em frente na ilusão de que seria uma heroína.

Já Bolsonaro considera-se líder do golpe anunciado, mesmo que os verdadeiros chefes sejam os militares. Não há no Brasil uma figura equivalente a Camacho.

Ainda não há também como comparar os militares, porque lá eles foram empurrados para o golpe pelo motim da Polícia Nacional. Aqui, eles são protagonistas das ameaças ao TSE, repetindo quase tudo o que Bolsonaro diz.

O golpe na Bolívia foi a última tentativa de tomada do poder por forças fardadas na região, mesmo que induzidas a agir pela ação de civis que depois saltaram fora.

O que a Bolívia nos ensina é que lá a democracia soube reagir. A população deu a senha para que as instituições funcionassem na plenitude. Devolveu pelo voto o poder ao partido golpeado e exigiu que a Justiça fosse feita.

Não ocorreram, como tentaram fazer no Brasil com o lavajatismo, ações justiceiras. Houve a reação a um golpe e às ações criminosas de grupos que atentaram contra a democracia e cometeram desmandos e assassinatos.

As suspeitas de fraude levantadas pela OEA foram derrubadas por auditorias independentes, entre as quais uma encomendada pelo jornal The New York Times e outra realizada por cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

A farsa montada pelos golpistas, de que Evo não havia sido derrubado, mas sim renunciado, foi desmentida pelos fatos. Evo deixou o governo para evitar uma guerra civil que quase aconteceu.

O golpe boliviano expôs comandantes militares acovardados, que se acusaram entre si, depois de presos preventivamente, e nos conduz a uma pergunta inevitável: é possível que os chefes militares segurem no Brasil um levante comandado por Bolsonaro?

Governo da Bolívia quer 30 anos de prisão para ex-presidente interinaBolivia: la ex presidenta Jeanine Áñez inicia una huelga de hambre antes  del juicio por el "golpe de Estado"Bolivia: aplazan inicio de juicio a expresidenta Áñez - San Diego  Union-Tribune en EspañolEx-presidente da Bolívia é condenada a 10 anos de prisão por golpe

27
Abr22

A extrema direita é a bala perdida da política brasileira

Talis Andrade

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O episódio da bala disparada pela arma de Milton Ribeiro seria algo banal se não estivesse encaixado no contexto das aparentes alucinações da realidade

 

 

por Moisés Mendes

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O episódio da bala disparada pela arma do ex-ministro Milton Ribeiro seria algo banal, da periferia dos assuntos considerados sérios, se não estivesse encaixado no contexto das aparentes alucinações da realidade brasileira.

Um pastor entra armado no aeroporto da capital do país, por onde circulam as figuras mais importantes da República, manuseia uma pistola dentro de uma pasta, toca onde não deveria tocar e provoca um incidente com a marca do bolsonarismo.

O episódio tem uma arma, a imprudência, tem a inabilidade, o desrespeito às normas legais de segurança e ainda tem o desprezo pelo bom senso e pelos outros. É um caso terrivelmente bolsonarista.

Se o presidente da República, um armamentista, não consegue efetuar um tiro por esquecer de destravar a arma, um pastor-educador não deve ter a obrigação de saber como travar uma pistola.

E assim o caso passa a frequentar só os cantinhos dos grandes jornais, como um fato esdrúxulo, quando é parte do roteiro escrito pela extrema direita. É um incidente coerente com o que vivemos por imposição do fascismo.

Ninguém morreu, ninguém se queixou de nada, a Polícia Federal devolveu o revólver ao seu dono e ninguém ficou sabendo por que um pastor tem porte de arma. 

Que situação excepcional garante a Milton Ribeiro o direito de andar armado em áreas públicas e fechadas com grande circulação de pessoas?

Se o pastor entrou no aeroporto com a arma, não se dirigiu ao posto da Polícia Federal, se foi ao balcão da empresa e só ali decidiu retirar a munição, é porque estava preparado até aquele momento para imprevistos. Dentro do aeroporto.

Se não estivesse, teria se dirigido ao check-in com tudo resolvido antes com as autoridades policiais que devem fazer valer os protocolos nessas situações.

Com a arma carregada, é possível supor que, se fosse acossado pelos sentimentos de medo e de violenta emoção, o ex-ministro poderia reagir atirando. Dentro do aeroporto.

O bolsonarismo nos oferece personagens e situações inimagináveis em circunstâncias consideradas normais, mesmo que não se saiba mais o que possa ser normal no Brasil.

É razoável supor, a partir do caso de Ribeiro, que muitos brasileiros se sintam no direito de circular armados em toda parte. Ou só em aeroportos?

Não circulam também em rodoviárias, shoppings, nas ruas e em festas do agronegócio? Em motociatas?

Noticiam que Ribeiro estaria registrado como colecionador e como caçador. Um colecionador que carrega parte da coleção para onde vai.

Um caçador que põe a pistola na pasta e entra no aeroporto, com a armada pronta para uso, para caçar o quê? Parece tema de pauta policial, mas não é.

Foram registradas no ano passado no Brasil 204 mil novas armas, mais do que o dobro de 2019. Bolsonaro mandou o país se armar.

Quase 80% dos registros são de cidadãos comuns, colecionadores e caçadores do time do ex-ministro, que acaba de criar e normalizar a bala perdida de aeroporto.

O professor que cuidava da Educação, um pastor presbiteriano, um homem de Deus, anda armado e se envolve em incidente típico de zonas de conflito e violência urbana. E estava no aeroporto de Brasília.

Não é um mero incidente de plantão policial, é mais um fato dos costumes bolsonaristas para a compreensão do estágio a que chegou o país controlado pela família no poder.

O tiro de Ribeiro deveria estar nos cantinhos dos sites da grande imprensa, como está, se tivesse partido da pasta de um contraventor. Mas o protagonista é um homem da Bíblia.

O tiro no aeroporto traz, para quem vê significado em quase tudo, o prenúncio de que algumas coisas podem sair do controle, porque estão mexendo em pastas e enfiando as mãos em cumbucas de alto risco.

Dá para imaginar o que pode acontecer no país armado por Bolsonaro, com a intenção explícita de formar milícias, com tanta gente sem competência para fazer o que deve ser o abc de qualquer manual de caçador.

Bolsonaro e líderes do bolsonarismo não sabem destravar e travar armas. A extrema direita é a bala perdida da política brasileira.Image

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Membros de gabinete paralelo, pastores foram 127 vezes ao MEC e ao FNDE no governo Bolsonaro. Sempre para rezar, rezar o venha a nós o dinheiro dos negócios da educação
 
13
Abr22

General Braga Netto interventor militar de Michel Temer e vice de Bolsonaro

Talis Andrade

 

General Braga Netto um vocacionado para ser ditador. Foi interventor militar de Michel Temer no Rio de Janeiro, quando Marielle Franco foi metralhada. Uma interventoria que jamais prestou contas dos gastos mirabolantes. Jota A bem que representou esse mando supremo (charge acima).  

É este militar perdulário que passou pela Casa Civil, cujo orçamento paralelo se encontra hoje terceirizado, secreto, nas mãos macias do parceiro do Centrão Ciro Nogueira.

No Ministério da Defesa, o general Braga fez passar o carrinho de compras recheado de vinhos, licores, filé, picanha, leite condensado, viagra, próteses penianas, botox. 

É o Brasil dos coronéis do Ministério da Saúde e dos pastores dos negócios do Ministério da Educação. 

Eta vida fácil. Vida boa, enquanto o povo sofre a vida e morte severina, sem comida, sem terra, sem teto, sem nada.

Para Janio de Freitas:

Nenhum presidente legítimo, desde o fim da ditadura de Getúlio em 1945 —e passando sem respirar sobre a ditadura militar— deu tantos motivos para ser investigado com rigor, exonerado por impeachment e processado, nem contou com tamanha proteção e tolerância a seus indícios criminais, quanto Jair Bolsonaro. Também na história entre o nascer da República e o da era getulista inexiste algo semelhante à atualidade. Não há polícia, não há Judiciário, não há Congresso, não há Ministério Público, não há lei que submeta Bolsonaro ao devido".

O tenente Bolsonaro, o general Braga ameaçam uma guerra civil se perderem o governo  nas urnas do povo sem medo, nas eleições livres, democráticas, que podem ser decididas logo no primeiro turno, no dia 2 de outubro próximo.

Com os novos meios de comunicação de massa, não se faz mais golpe sem povo nas ruas, prisões, tortura, assassinatos, centenas, milhares de refugiados e cidades destruídas e o país divido para todo sempre. 

 

O que fazer com Braga Netto

 

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por Moisés Mendes

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A curiosidade geral, dentro e fora do governo, mobiliza atenções em direção a uma hipótese que hoje se apresenta como improvável.

Bolsonaro poderia se livrar do general Braga Netto, por causa dos escândalos das compras de mercadorias da área sexual para as Forças Armadas?

Será que pode se livrar? Não no sentido de dispensar o general como membro do governo, o que de fato é quase impossível, mas como seu vice-presidente praticamente já escolhido.

Braga Netto pode cair antes de ser formalmente anunciado como futuro substituto de Hamilton Mourão e ser dispensado da parceria na eleição, para que a imagem das Forças Armadas seja preservada?

O risco real é o da exploração das compras numa campanha em que o vice deve ser apontado como o homem que sabia ou deveria saber, como então ministro da Defesa, da aquisição de próteses penianas e de Viagra durante sua gestão.

Braga Netto estaria exposto como um general poderoso omisso diante de aquisições tecnicamente inexplicáveis e moralmente insustentáveis. 

Vamos a um exercício sobre o conhecimento da realidade de Brasília e do poder, para ajudar na reflexão sobre o possível destino do futuro candidato a vice.

Pensem nesses nomes. Lauro Luís Pires, João Carlos Corrêa, Franklimberg Freitas, Antônio Carlos Moretti Bermudez e Eduardo Camerini.

São personagens escolhidos aleatoriamente entre ex-ocupantes de altos cargos que foram dispensados do governo por Bolsonaro. Todos são militares das mais altas patentes.

Os três primeiros são generais, o quarto é almirante e o último é brigadeiro. Só alguém com destreza e aptidão por assuntos militares sabe quem são eles. E meia dúzia deve saber o que eles faziam no governo.

Desde que assumiu, em janeiro de 2019, Bolsonaro demitiu 18 generais. O mais recente foi Joaquim Silva e Luna, que presidia a Petrobras.

Também demitiu cinco brigadeiros e mais dois almirantes. Entre os militares que Bolsonaro mandou embora, mesmo que formalmente tenham pedido para sair, estão os chefes das três armas e o ministro da Defesa, que saíram em março do ano passado.

Ganha um kit com uma caixa de Viagra, uma prótese peniana de bom tamanho e cinco quilos de filé quem souber dizer, sem pensar muito, os nomes desses quatro militares.

É provável que, fora do meio militar e da política, o brasileiro médio também não saiba direito quem é Walter Souza Braga Netto. Mas cada vez vai saber mais, por notícia boa ou notícia ruim.

Braga Netto é talvez o único general que Bolsonaro não pode mandar embora. Porque foi fortalecido como o seu general preferido, mais do que Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, porque é o mais impetuoso, conhece a realidade do Rio, deve saber tudo da família e porque já foi 90% anunciado como vice.

Afastá-lo da chance de vir a ser o vice-presidente, com a ampliação do seu poder político, num governo que seria ainda mais militarizado no segundo mandato, é condená-lo à estagnação e ao ostracismo.

Braga Netto é assessor especial de Bolsonaro, desde que saiu do Ministério da Defesa no fim de março para ser o vice.

Pode ser substituído, por pressão de aliados, por Tereza Cristina ou Damares Alves, que para alguns agregam mais do que o general?

Poderia, se descartado, voltar a ser ministro da mesma área? É improvável, porque seria andar para trás.

Bolsonaro não deve correr o risco de mexer com o humor do líder maior entre todos os generais que tutelam seu governo e tudo o que eles representam.

Mas Braga Netto passa a ser testado por sobressaltos diários, a cada descoberta das listas de compras dos militares.

O general pode, se as listas se avolumarem e ficarem mais assustadoras, transformar-se num fardo fardado a ser carregado por Bolsonaro.

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04
Abr22

Bolsonaro precisa fazer o PowerPoint do golpe

Talis Andrade

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Por Moisés Mendes /Jornalistas pela Democracia 

Bolsonaro retomou, mais por desespero do que por método, o blefe do golpe. A escolha de Braga Netto para vice e as festas para o 31 de março o inspiraram a fazer declarações em que os militares aparecem de novo como possíveis atores da política, se a extrema direita for derrotada na eleição.

Mas, por mais impulsivas e irracionais que sejam suas falas e atitudes, em algum momento alguém terá de chamá-lo para uma conversa sobre pelo menos cinco pontos. Bolsonaro terá de olhar possíveis cenários com alguma racionalidade. 

Mesmo que seja incapaz de assimilar e compreender os resultados de uma avaliação de riscos, as seguintes questões, elementares para alunos da 5ª Série da política, deverão ser levadas em conta.

1 - Qual é sua influência real e sua capacidade de mobilização de setores que podem viabilizar um golpe impondo terror, medo e “ordem” já nos primeiros dias? 

Que liderança Bolsonaro tem de fato entre comandos de cima e de níveis intermediários das três armas e entre policiais militares, mesmo que esses estejam sob as ordens dos governadores? 

Bolsonaro tem mesmo milícias organizadas à espera do golpe? 

2 - Que tamanho teria hoje sua base social, considerando-se que a maioria das estimativas calcula esse lastro em no máximo 20% da população? 

Qual seria o nível de engajamento da base civil num momento de ruptura e como isso se traduziria em contribuição para a sustentação do golpe? 

O contingente bolsonarista, considerado mais feroz do que o lastro civil de 64, está pronto para as sequelas de um golpe num país com famílias divididas desde 2016? 

3 – Os militares estão mesmo incondicionalmente com Bolsonaro? Consagrou-se, muito antes do golpe de 64, que militares podem dormir governistas ou legalistas e acordar golpistas. 

Mas nesse caso o raciocínio leva em conta eventuais golpes contra quem está no poder, como aconteceu em 64.

Bolsonaro daria um golpe como perdedor, porque como eventual vencedor apenas aprofundaria o golpe cotidiano que vem sendo dado desde o início do governo.

Os militares cometeriam gestos de radicalidade para ficar ao lado de um sujeito que nunca liderou nada na vida e que só se impõe no governo pelo próprio suporte militar e pelos negócios com o centrão, e não pela capacidade de liderar? E os militares legalistas que se negariam a entrar na aventura?

4 - Qual seria a capacidade de enfrentamento de um golpe por parte das instituições – Congresso, Supremo, TSE e outros pilares da democracia? 

O Supremo, hoje acossado até por milicianos e robôs do mundo digital, teria força institucional que o Congresso não tem há muito tempo, no caso de um golpe? Em 64, o STF foi logo amordaçado.

Como o STF poderia expressar sua força hoje, se nunca foi contestada com vigor a tese segundo a qual um jipe com um cabo e um soldado (ou os soldados sem jipe mesmo) seria suficiente para fechar suas portas?

5 - Que poder de organização e reação teria a sociedade civil, ao lado dos vitoriosos na eleição e com as trincheiras das instituições da democracia – partidos, universidades e sindicatos (mesmo que fragilizados), OAB, entidades de defesa das liberdades, associações? 

Um país resignado, que em seis anos desde o golpe de 2016 se mostrou incapaz de reagir ao avanço do fascismo, que vê jovens e estudantes sem força, teria como reagir só com seus veteranos de outras guerras a um golpe? E a imprensa sempre golpista, como se iria se comportar?

Golpes, guerras, tapas na cara e jogos de futebol têm desdobramentos imprevisíveis. Mas Bolsonaro terá de lidar com alguma previsibilidade, se quiser seguir em frente. 

E deve pensar que todos esses cenários, com ou sem PowerPoint, contariam com um protagonista chamado Luiz Inácio Lula da Silva.

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05
Mar22

As facções, os machos, os eleitores e todos os cúmplices fáceis do fascismo brasileiro

Talis Andrade

 

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Mamãe Falei troca ataques com Eduardo Bolsonaro nas redes: "Frouxo" -  CartaCapital

DIREITA VOLVER Mamãe Falei e o parceiro de arma Eduardo Bolsonaro

 

Por Moisés Mendes /Jornalistas pela Democracia 

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A viagem do deputado Mamãe Falei à Ucrânia ficaria na antologia do folclore da guerra, se não fosse a ostentação do macho incontrolável.

A viagem não foi a farra macabra de um sujeito que se revela farsante até como mercenário. A excursão e seus desdobramentos são da essência da degradação da política brasileira. 

Bolsonaro, os filhos de Bolsonaro e todos os que estão no entorno do bolsonarismo cometem atitudes só aparentemente absurdas. Porque tudo para eles é fácil. O brasileiro é considerado fácil.

Mamãe Falei foi a Ucrânia mentir que fabricaria coquetéis Molotov para enfrentar os russos, assim como Bolsonaro disse ter ido a Moscou para assegurar para o agro-é-pop que haveria adubo para sempre.

Para garantir o abastecimento de adubo, Bolsonaro levou 32 militares e o filho Carluxo a uma conversa com Putin. E boa parte da imprensa se dedicou a explicar a lógica da viagem de Bolsonaro, assim como Mamãe Falei tentou dar sentido à viagem à Ucrânia.

A barbeiragem cometida pelo amigo de Sergio Moro ao espalhar o áudio entre membros da sua facção é apenas o acidente no roteiro. 

Era previsto que ele sairia a alardear que as mulheres estariam lá aguardando seu retorno, depois da guerra. Aí elas iriam ver o que é o machão brasileiro. 

Mas não era previsto que alguém vacilasse como macho e vazasse o áudio, talvez um macho inseguro, sem as mesmas convicções do restante da turma.

Bolsonaro também acha que o eleitor brasileiro é fácil. Antes do segundo turno de 2018, ele anunciou que mataria os inimigos na ponta da praia. Ele era ali um Mamãe Falei. O eleitor era fácil e o inimigo também.

Bolsonaro já mostrou que faz o que quiser com o eleitor da sua base. Tudo com facilidade. É fácil ser negacionista e sabotar a imunização de velhos e crianças e continuar com 25% de apoio, porque é fácil enganar.

Os brasileiros são fáceis para Bolsonaro, para os militares, o centrão, os milicianos. Não porque sejam pobres, como disse Mamãe Falei das mulheres ucranianas, até porque muitos dos fáceis brasileiros são ricos. Simplesmente porque são fáceis.

Bolsonaro, Mamãe Falei e a extrema direita mundial descobriram que convencer, assumir controles e submeter vastos contingentes à hipnose do fascismo são tarefas fáceis. Pessoas em desalento se tornaram presas fáceis, ou não teriam levado Bolsonaro ao poder.

Se em algum momento a engrenagem falha, é só porque Mamãe Falei faz parte da ala da chinelagem e mexeu com o poder das mulheres. 

Se Bolsonaro tivesse dito algo parecido com o que o deputado amigo do ex-juiz suspeito disse, não aconteceria nada. Seria apenas mais uma fraquejada ou a livre manifestação de quem, segundo o genocida, não estupra mulher que não merece ser estuprada.

Bolsonaro foi eleito como incentivador de estupros. Nada é difícil para o sujeito, em qualquer área. Foi fácil para a estrutura montada por ele levar adiante as quadrilhas da pandemia, que intermediaram os negócios da cloroquina e estavam prontas para vender vacinas.

Nunca foi tão fácil para o fascismo agir com a conivência de setores do empresariado, de um jeito que não existiu nem na ditadura. 

A elite empresarial é dócil e fácil. Os banqueiros são fáceis. O mercado financeiro é facílimo. Os liberais brasileiros nunca foram tão fáceis. E os militares facilitaram tudo. 

Com um Ministério Público fácil, tudo fica ainda mais facilitado para proteger os filhos e os milicianos que protegem os filhos. 

O sistema de Justiça é fácil para o bolsonarismo. Mas as mulheres brasileiras não são fáceis. As mulheres vão derrotar a extrema direita no Brasil.

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