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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

22
Mai21

Promotor vampiro: 'Ritual' macabro pode explicar falta de sangue no cadáver da esposa

Talis Andrade

 

A necrópsia do corpo de Lorenza Maria Silva de Pinho, morta em 2 abril deste ano em Belo Horizonte, revelou a presença de muito pouco sangue

247 - O Ministério Público de Minas Gerais diz ter evidências de que o promotor André Luiz Gardia Pinho agiu sozinho para matar a mulher, Lorenza Pinho. Segundo a TV Globo Minas, fontes da investigação explicaram a falta de sangue no corpo da vítima como resultado de um ritual "macabro". A informação é do portal UOL. 

A necrópsia do corpo de Lorenza Maria Silva de Pinho, morta em 2 abril deste ano em Belo Horizonte, revelou a presença de muito pouco sangue. A informação foi revelada pelo Fantástico deste domingo (16). "[Havia] muito pouco sangue, menos do que esperaria encontrar em cadáver normal", disse o médico legista Marcelo Mari de Castro

Segundo o legista, havia apenas 1 litro de sangue no corpo da mulher, que, em condições saudáveis, deveria apresentar cerca de 5 litros. Entre o montante encontrado, apenas 25 ml puderam ser colhidos na necrópsia para testes toxicológicos e de dosagem de álcool.

 

09
Mai21

Deputado bolsonarista de Minas Gerais diz que massacre de Jacarezinho "não foi chacina, foi faxina"

Talis Andrade

 

tubaraoinsta- pescaria.jpg

fabrício queiroz pescaria.jpg

 

Militar Sandro de tal (PSL), deputado por Minas Gerais, defendeu a operação da polícia de Cláudio Castro, responsável pela morte de 29 pessoas

 

O professor universitário e advogado João Gabriel Prates usou o Twitter para mostrar uma postagem criminosa do deputado estadual por Minas Gerais Sandro de tal, do partido só de laranjas (PSL).

O milico disse que o massacre de Jacarezinho “não foi chacina, foi faxina!”.

A desastrosa operação policial foi responsável pela morte de 29 pessoas: 28 civis e um militar repressor. 

Prates fez a postagem e escreveu: “Mais um canalha, que é deputado em Minas Gerais. Que a Assembleia responsabilize o coronel Sandro”.

O bolsonarista respondeu a mensagem e ameaçou o advogado: “Pronto para o processo por injúria! Aguarde”.

Faxina tem os seguintes sinônimos:

 
A polícia, uma operação com 250 militares, executou 28 pobres, 28 negros e mestiços, 28 favelados, moradores de Jacarezinho, na ex-Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, ex-Capital do Samba, que virou Rock in Rio dos turistas da pele branca, branca que nem Branca de Neve & os sete anãos bolsonaristas.
 
Para o fardado deputado, a limpeza racista é necessária porque todo negro fede. É sujo. Precisa de asseio, higiene. A lavagem lembra a anedota eugenista, talvez por milagre torne alva e nobre a pele negra por natureza escrava.
João Gabriel Prates
@jgprates
Mais um canalha, que é Deputado em MG. Que a responsabilize o
ImageO professor não se intimidou: “O deputado estadual bolsonarista chama de ‘faxina’ a chacina do Jacarezinho e ainda quer me processar. Como diriam os jovens: “só vem!”.
 
Antes mesmo de ser empossado no cargo da Assembleia Legislativa, Sandro já denunciava abertamente sua posição ideológica tendo dito, inclusive, em entrevista ao jornal Super Notícias, no dia 4 de dezembro de 2018, que quer exterminar a esquerda no Brasil.
 
Que fique o lembrete: o legislativo não é lugar para exibir, ostentar farda, batina, toga etc. O legislativo - importante lembrar nestes tempos fascistas - é a casa do povo. O povo que clama por Liberdade, Democracia, Justiça, Fraternidade e Pão, por um Brasil sem chacina, sem massacre, sem peste, sem extermínio, sem morte por falta de vacina, sem guerra entre milícias e traficantes. 
 
04
Abr21

Indícios apontam que morte de mulher de promotor pode ter sido feminicídio

Talis Andrade

Fotomontagem reprodução/internet

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) sobre a morte de Lorenza Maria Silva Pinho, de 41 anos, aponta para indícios de violência física, segundo fontes ouvidas por O TEMPO. Ela é mulher do promotor de Justiça André Luis Garcia de Pinho. 

Lorenza foi encontrada morta na sexta-feira (2). O marido alegou que ela teria se engasgado. Porém, familiares relataram que o casal vivia um relacionamento conturbado e logo suspeitaram do motivo do óbito. O corpo segue no IML de Belo Horizonte e não deve ser liberado para enterro antes de segunda-feira (5). 

Mais cedo, a Polícia Civil informou que acompanhava o caso. "Os exames de necropsia foram concluídos na madrugada deste sábado (3/4), no Instituto Médico-Legal Dr. André Roquette (IML), acompanhados das autoridades competentes, e todos os elementos de investigação estão sendo compartilhados com o MPMG. Outras informações serão prestadas em momento oportuno", informou a corporação, em nota.

De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, André Pinho estava morando em um apartamento de dois quartos no bairro Carmo, com os cinco filhos, a esposa e duas babás. Ele estaria se escondendo de cobradores por enfrentar problemas financeiros.

Embora não confirme oficialmente, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) instaurou um procedimento interno para averiguar o caso, já que promotores têm foro privilegiado.

Diante do desdobramento, a expectativa é que os filhos sejam entregues à família da mãe e que o pai não poderá ter contato com eles, pelo menos neste momento inicial das investigações.

Histórico contraditório

No fim de 2016, o promotor e a esposa chegaram a sofrer uma tentativa de atentado. Na época, Garcia atuava na Promotoria de Combate ao Crime Organizado. Câmeras de segurança revelaram que um homem efetuou pelo menos três disparos contra a fachada do edifício e a Lorenza chegou a relatar que não podia nem sair na rua por conta das constantes ameaças ao magistrado. 

Desde 2010, o promotor sofreu tentativas de homicídio e ainda teve o carro incendiado há cerca de cinco anos. Por conta das ameaças, ele só saia de casa escoltado. Porém,  André Luiz Garcia também foi alvo de ação civil do próprio Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) entre os anos de 2014 e 2016 por suspeita de diversas irregularidades.

Pressa para cremação

A morte de Lorenza foi reportada pelo marido à polícia na sexta-feira. 

A cremação do corpo chegou a ser marcada para ocorrer neste domingo, no Cemitério Parque Renascer, em Contagem, na Grande BH, mas a polícia teria demandado mais exames. O corpo seguiu então para exame de necropsia no Insituto Médico-Legal (IML), mas os resultados não foram divulgados. A Polícia Civil afirma, apenas, que tem prazo legal de 30 dias para chegar a um resultado.

 

21
Dez20

Libertada mineira que viveu 38 anos em regime de escravidão (vídeo)

Talis Andrade

escravocrata rigueira.jpgDalton Rigueira não pagava o salário de empregada doméstica e roubava a pensão de Madalena, no valor de R$8 mil, e repassava para ela apenas R$200

 

Madalena Gordiano relatou em entrevista ao "Fantástico", da Rede Globo, que começou a trabalhar como doméstica para a família aos oito anos de idade

O Ministério Público do Trabalho e a Polícia Federal libertaram Madalena Gordiano, de 46 anos, que vivia há 38 em situação análoga à escravidão, em Patos de Minas, no Alto Paranaíba.

Madalena estava em um apartamento no centro da cidade e foi resgatada no dia 28 de novembro, em um quartinho sem janelas e sem ventilação. A notícia foi divulgada neste domingo (20), pelo Fantástico, da TV Globo.

Aos oito anos de idade, Madalena bateu na porta da casa da professora Maria das Graças Milagres Rigueira para pedir um pão, porque estava com fome. Segundo o relato de Madalena, a resposta que recebeu de Maria das Graças foi: “Não vou te dar não. Você vai morar comigo.”

Durante todo esse tempo, ela trabalhou sem carteira assinada e sem receber nenhum direito trabalhista. A professora Maria das Graças disse à mãe de Madalena que iria adotá-la. Com dificuldade para criar nove filhos, a mulher concordou, mas a adoção nunca foi formalizada.

Ao contrário, Madalena foi tirada da escola e era responsável por realizar trabalhos domésticos, sem direito a uma infância verdadeira. “Não brincava. Não tinha nem uma boneca”.

Com o passar dos anos, Madalena foi rejeitada pelo marido de Maria das Graças e a professora resolveu “doá-la” para Dalton Cesar Milagres Rigueira, também professor universitário.

Na nova casa, nada mudou. Trabalho sem folga, de segunda a segunda, começando, normalmente às 4h da manhã, segundo relato de vizinhos.

Em depoimento à polícia, Dalton Rigueira disse que foi ela quem optou por largar os estudos e que ele não a incentivava a retonar porque “acredita que ela não se beneficiaria de receber educação”. 

Sem dinheiro

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Madalena Gordiano relatou em entrevista ao "Fantástico", da Rede Globo, que começou a trabalhar como doméstica para a família aos oito anos de idade

 

Segundo a reportagem, Madalena se casou em 2001 com um tio de Valdilene Rigueira, esposa de Dalton Rigueira. Mas eles não chegaram a morar juntos. Ele era ex-combatente e deixou pensões para Madalena de, aproximadamente, R$ 8 mil.

Ela conta que ia ao banco com Dalton para sacar o dinheiro, mas que o “patrão” ficava com quase tudo. “Ele me dava duzentos, trezentos reais”.

A situação de Madalena só veio à tona quando ela começou a enviar bilhetes aos vizinhos em pedaços de guardanapo e folhas de caderno, pedindo pequenas quantias em dinheiro e produtos básicos de higiene pessoal. “Me empresta um sabonete para tomar banho. Você recebe minha oração. Madalena”, dizia um dos bilhetes.

bilhete.jpgEm um dos bilhetes, Madalena pedia um sabonete para tomar banho

 

Nos últimos 14 anos em que morou com Dalton Rigueira, Madalena não teve nenhum contato com a família.

No início deste mês, após ser resgatada, ela pôde conversar com as irmãs por chamada de vídeo. Um encontro pessoal está adiado, por causa da pandemia de COVID-19.

Ela também retomou os estudos.

Maria das Graças Rigueira, Dalton Rigueira e Valdilene Rigueira são investigados pelo crime de redução à condição análoga à de escravo. Os dois últimos ainda podem responder por tráfico de pessoas e apropriação indébita.

 

27
Ago20

Mais de 4.000 pessoas com covid-19 morreram à espera por um leito de UTI em seis Estados brasileiros

Talis Andrade

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Dados levantados pelo EL PAÍS mostram como a pressão no SUS alijou pacientes no Rio, Minas, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão durante a crise sanitária

por Beatriz Jucá

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Ao menos 4.132 pessoas morreram antes de conseguir chegar a um leito de terapia intensiva para o tratamento de covid-19 durante a pandemia do novo coronavírus em seis Estados brasileiros: Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Maranhão. O número, levantado pelo EL PAÍS com dados das secretarias estaduais da saúde, tenta dar pistas sobre o tamanho da pressão sofrida pelo SUS desde fevereiro, quando começou a crise sanitária no Brasil. O jornal procurou as 27 unidades da federação para saber quantas solicitações por uma UTI com perfil de covid-19 foram canceladas por morte do paciente em suas centrais de regulação ― setor que recebe todos os pedidos das unidades de saúde da rede estadual e os distribui conforme vários critérios, incluindo a gravidade do paciente. Essas mais de 4.000 mortes à espera por um leito retratam a situação em menos de um terço do país, já que apenas seis Estados informaram este dado, que pode incluir tanto os casos de desassistência por conta do colapso do sistema de saúde, quanto situações em que pacientes já chegaram tão graves que não houve tempo para colocá-los na terapia intensiva.

Em um país de proporções continentais como o Brasil, a epidemia se desenha em diferentes velocidades ao longo dos últimos seis meses. Os impactos observados até agora são muito distintos entre os Estados, historicamente marcados pela desigualdade que permeia o sistema de saúde. Nos primeiros meses da crise ―especialmente em abril e maio―, Amazonas, Ceará e Rio de Janeiro protagonizaram histórias duras da pandemia, com hospitais superlotados. Registraram longas filas de espera por um leito de UTI, onde são tratados os pacientes com a manifestação mais grave da covid-19. Em alguns locais, unidades de pronto atendimento chegaram a funcionar praticamente como hospitais, improvisaram leitos de estabilização para pacientes que precisavam ser entubados e instalaram até contêineres frigoríficos para armazenar corpos. Simplesmente não havia leitos de UTI suficientes para atender à demanda, embora gestores locais afirmassem que trabalhavam para expandir o sistema de saúde. Desde então, taxas de ocupação hospitalares têm caído, seja por sinais de arrefecimento de casos graves que demandam internação ou pelas vagas de UTI criadas durante a crise. (Continua)

13
Dez19

‘Engenharia de um crime’ aponta negligência da Vale em Brumadinho

Talis Andrade

Livro traça paralelo entre os dois rompimentos de barragens: ‘É imperdoável ter existido Brumadinho após Mariana’, diz um dos autores

 

por Ana D'Angelo

especial para Ponte

 

Uma das imagens que ilustram o livro mostra bombeiro procurando sobrevivente na lama em Brumadinho | Foto Cristiane Mattos

 

Baseado nas investigações da Polícia Federal, o livro-reportagem “Brumadinho, a Engenharia de um Crime”, dos jornalistas Murilo Rocha e Lucas Ragazzi, traz uma contextualização inédita e minuciosa sobre a maior tragédia socioambiental do país: o rompimento da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, que provocou a morte de 270 pessoas.

O livro já foi lançado em Belo Horizonte, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro e traz detalhes da investigação que passaram batido pela imprensa, com reprodução de documentos e registro de depoimentos que comprovam a negligência da mineradora. Além disso, faz um paralelo entre as duas tragédias-crimes, Mariana e Brumadinho. “É impossível entender a sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, sem voltar até a quinta-feira, 5 de novembro de 2015. É imperdoável ter existido Brumadinho após ter ocorrido Mariana”, dizem os autores logo na apresentação. 

Outro aspecto fundamental é mostrar como é a dependência econômica dos municípios e do estado de Minas Gerais da mineração –  7,5% do PIB do estado está ligado à atividade mineradora – levou a fiscalizações duvidosas e deu uma espécie de carta branca para a Vale atuar da maneira que fosse mais rentável e não necessariamente a mais segura. 

Confira a entrevista com o jornalista Murilo Rocha, um dos autores do livro.

 

Ponte – Vocês chegaram ao crime cometido pela Vale mas não colocaram o nome da empresa no título. Por quê?

Murilo Rocha – Pensamos em alguns títulos com o nome da Vale, logicamente. Mas não desistimos em razão de eventuais complicações judiciais. Se essa fosse uma questão, nem teríamos escrito o livro, pois da primeira à última página a empresa e muitos dos seus funcionários são citados. A questão foi mesmo editorial. A ideia de “Brumadinho: A Engenharia de um Crime” agradou a todos quando surgiu. Mesmo não tendo o nome da companhia, esse título remete sobre qual tragédia estamos falando logo de cara e ainda há um subtítulo explicitando a existência de práticas criminosas, como negligência e falsidade ideológica, por trás do rompimento da barragem I do Córrego do Feijão, da Vale. Se a empresa adota Tragédia de Brumadinho para construir uma narrativa clean, sem culpados, algo como uma fatalidade. O livro não vai neste sentido, muito pelo contrário. Há o detalhamento de empresas e funcionários envolvidos na administração da mina do Feijão e da barragem. Mesmo não sendo o objetivo do livro demonizar ninguém nem criar vilões, ele é uma clara denúncia sobre a mineração e todos os seus agentes no país. Incluindo a Vale, logicamente.

 

Ponte – Qual foi o momento mais tenso na apuração e escrita?

Murilo Rocha – Todo o processo de produção e escrita sobre uma tragédia com a morte de 270 pessoas, a maior tragédia socioambiental da história do país, é muito tenso. Há uma carga emocional envolvida desde o primeiro dia e ela ainda paira sobre nós. E vai continuar. Não é fácil entrevistar familiares de vítimas do rompimento da barragem da Vale e relatar seus dramas. Há uma enorme responsabilidade sobre os nossos ombros, acrescida pelo fato de também estarmos nos propondo a desvendar os bastidores desse episódio. Estamos falando da Vale, uma das três maiores mineradoras do mundo. Mesmo a empresa não tendo exercido nenhum tipo de pressão ou colocado obstáculos para a produção do livro – a não ser a demora de dois meses para responder as perguntas -, há uma pressão natural pela natureza do tema e os personagens envolvidos, muitos deles peixes grandes.  E tudo isso num curto espaço de tempo, foram cinco meses entre a ideia de fazer o livro e a publicação.

 

Ponte – A imprensa pouco cuidou de fazer uma ponte entre as duas tragédias-crimes Mariana e Brumadinho. Esse seria um dos trunfos do livro?  

Murilo Rocha – Sim, talvez esse seja um dos méritos do livro, fazer uma ponte entre os rompimentos da barragem de Fundão, em Mariana, em novembro de 2015, e o da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, em janeiro de 2019. E o objetivo ao fazer esse link é justamente explicitar a autoregulação do setor minerário em Minas Gerais diante de um poder público precário e omisso no seu papel de licenciar, regular, fiscalizar e. se necessário, punir eventuais descumprimentos da legislação. Para além dessa questão, ao aproximar Mariana e Brumadinho, pudemos verificar a reincidência de erros, negligências e desculpas por trás das duas tragédias. Há também atores repetidos nesses dois episódios. É importante lembrar: a Vale é uma das controladoras da Samarco, protagonista do desastre de Fundão.

Murilo Rocha e Lucas Ragazzi | Foto Mariela Guimarães

 

Ponte – A dependência de Minas Gerais e do Brasil, de forma geral, da mineração, bem como as campanhas de todos os partidos abastecidas pela Vale quando ainda era possível este tipo de doação, seria um fator fundamental para a fiscalização frouxa, leis ambientais insuficientes e tragédias como essas? Qual a solução?

Murilo Rocha – Sem dúvida, a dependência econômica dos cofres de prefeituras, governos estaduais e a relação estreita de muitos parlamentares com as mineradoras são o pano de fundo dessas tragédias. Essa relação cria distorções nas legislações, omissões na hora de fiscalizar e uma enorme boa vontade para licenciar atividades mineradoras. Um mês antes da barragem da Vale em Brumadinho romper, ela havia obtido, no dia 11 de dezembro de 2018, três licenças junto ao Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam). A barragem I estava autorizada a funcionar por mais dez anos. Sobre possíveis soluções, elas existem, sabemos disso. O processo do tratamento a seco do rejeito do minério de ferro é uma delas. É um processo mais caro, mas põe fim a essas enormes barragens, verdadeiros lixões da mineração. Um maior rigor do poder público também é fundamental. Mas, neste momento, quando há um incentivo do governo federal ao descumprimento de legislações ambientais de norte a sul do país, fica difícil ser otimista em relação há soluções. Continuamos reféns dos interesses econômicos. Essa é a triste realidade de hoje no Brasil, mesmo com o saldo trágico de mortes e devastação ambiental de Mariana e Brumadinho.

 

Ponte – A Samarco voltou a operar em Mariana sem que tenha reparado todo o dano causado em 2015. O que acham que acontecerá e como acontecerá com as operações da Vale, possíveis punições e o ressarcimento de todos os afetados por Brumadinho?

Murilo Rocha – O ressarcimento dos afetados é o mínimo que deveria ocorrer. E por incrível que pareça talvez ocorra primeiro em Brumadinho do que em Mariana, onde passados quatro anos o processo de reconstrução das casas destruídas do antigo distrito de Bento Rodrigues ainda engatinha e as indenizações ainda não foram pagas em sua totalidade. Um descaso completo. Sobre a volta das operações, o ideal é que ocorressem em um novo cenário do setor privado e do poder público. Mas não estamos vendo isso. Pouca coisa parece ter mudado. Minas Gerais está hoje em alerta, com a população em suspense sob o risco de novos rompimentos ocorrerem. Uma situação absurda. Temos de denunciar diariamente essa situação.

 

 

 

30
Mai19

Bispo de BH estuprou fiel, obrigou a fazer aborto e comer material abortado

Talis Andrade

bispo Marcos Aurélio de Freitas estuprador ladrã

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A polícia civil prendeu o sádico estuprador Marco Aurélio de Freitas, 42 anos, bispo presidente da Igreja Internacional Plena Paz, com sede em Belo Horizonte. Conheça a operação batizada de Falso Profeta aqui

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Veja vídeo do predador sexual :

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Os prejuízos cometidos pela quadrilha estão em torno de R$ 1 milhão, podendo chegar a quase R$ 2 milhões.

As primeiras prisões foram feitas na sexta-feira passada. O bispo e a esposa estavam em Goiás, quando ficaram sabendo da ação da polícia. A dupla chegou a negociar uma apresentação espontânea do delegado. Mas fugiu para Brasília. Os dois foram presos com apoio da polícia civil do Distrito Federal e trazidos para Belo Horizonte nesta quarta-feira (29).

Entre os crimes, o grupo pode responder por estelionato. O bispo Marco Aurélio de Freitas ainda é investigado por estupro, estupro de vulnerável e aborto de mulheres e crianças que frequentavam a igreja. Até agora, são pelo menos dez vítimas.

De acordo com a Polícia Civil, outras vítimas devem ser ouvidas nos próximos dias.

 

02
Abr19

Para polícia, não há negociação, o trem vai passar, mesmo que custe vidas

Talis Andrade

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por Maria Júlia Gomes Andrade

 

A escolha da jornada da luta de mulheres deste ano inspirou muitas perguntas, na reflexão sobre Brumadinho: Quantas trabalhadoras morreram? Quantas mães morreram? Quantas filhas morreram? Quantas viúvas ficaram? Quantos órfãos ficaram? Quem vai cuidar desses filhos e filhas, agora órfãos?

No dia 14 de março de 2019 completou-se um ano do assassinato de Marielle Franco. Atos ecoaram em todo o Brasil e, também, em muitos outros países. Da madrugada até as últimas horas do dia aconteceram manifestações, debates, marchas, assembleias, saraus em todas as partes. Era óbvio para as mulheres militantes que precisávamos fazer alguma coisa nesse dia. Porque não aceitamos naturalizar a execução de Marielle. Porque lutar para que não se esqueça e perguntar "Quem mandou matar?" nos move para muitas outras batalhas. A jornada de luta das mulheres este ano começou no dia 08 de março e foi até o dia 14. Marielle é inspiração e fogo no pavio.

Em Minas Gerais muita coisa aconteceu também. E as mulheres do MST e do MAM decidiram honrar a memória de Marielle denunciando outro crime: o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Mais de 300 pessoas morreram nesse dia. Mais de 70 eram mulheres. Soterradas, sufocadas, arrastadas e partidas pela lama de rejeitos da Vale. A maioria das pessoas eram trabalhadores da Vale ou de empresas terceirizadas, que estavam ali, trabalhando como um dia qualquer. Muitas das vítimas fatais estavam nos espaços dos escritórios, laboratórios, oficinais, vestuário ou refeitório. A Vale escolheu construir todas estas estruturas logo abaixo da barragem de rejeitos B1, a que se rompeu no dia 25 de janeiro. Com o detalhe revoltante de que quando o complexo minerário era da mineradora Ferteco (de quem a Vale comprou em 2001), várias destas estruturas se localizavam em outra parte do empreendimento, e que não foram atingidas pela lama. Inclusive o refeitório, onde muitos infelizmente estavam por ter sido horário de almoço o momento do rompimento. Quais corpos são descartáveis? Os trabalhadores são mais descartáveis? Os corpos negros, maioria da população em muitas das comunidades de Brumadinho, são descartáveis?

As mulheres do MST representavam ali as mulheres do campo que têm os seus territórios invadidos por projetos de mineração e que, em muitas regiões, têm a sua forma de vida e de renda alterada profundamente em consequência dos impactos: pela contaminação ou assoreamento das águas e pelo confinamento da terra gerada pela disputa do território quando chegam os empreendimentos de mineração. Estes impactos têm consequências diretas: é bastante comum a diminuição ou mesmo inviabilização da agricultura onde a mineração se instala.

As mulheres do MAM, as atingidas pela mineração, representavam aquele dia todas aquelas que estão em conflito com o atual modelo mineral. As mulheres que precisam cuidar dos seus filhos e familiares doentes por causa da poeira das explosões das minas ou pelo pó que é espalhado dos trens que levam todo o dia nossos bens minerais para os portos. As mulheres que precisam varrer e lavar roupas muitas vezes, não raro mais do que uma vez, já que a poeira do minério suja muito mais os lugares atingidos pela mineração. Quem é mesmo na nossa sociedade a quem a dimensão do cuidado com a família e com a casa é atribuído como algo "natural"?

A mineração atualiza, onde chega, as relações machistas e patriarcais que já existem na nossa sociedade.

A escolha da jornada da luta de mulheres deste ano inspirou muitas perguntas, na reflexão sobre Brumadinho: Quantas trabalhadoras morreram? Quantas mães morreram? Quantas filhas morreram? Quantas viúvas ficaram? Quantos órfãos ficaram? Quem vai cuidar desses filhos e filhas, agora órfãos?

 

Escolha do território

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Optou-se por um ato simbólico, na cidade de Sarzedo, vizinha A Brumadinho. O complexo Paraopeba, de onde rompeu a barragem em janeiro, abrange dois municípios: Brumadinho (onde fica a mina Córrego do Feijão) e Sarzedo (local da mina Jangada). O complexo abarca minas, barragens, estradas internas e plantas de beneficiamento. Pela ferrovia que passa pelo centro de Sarzedo é escoado parte do minério do Complexo Paraopeba e de vários empreendimentos minerários na região.

E o município de Sarzedo é ainda ameaçado pelo empreendimento da mineradora Itaminas, barragem que apresentou recentemente problemas na estrutura, e que em caso de rompimento tomaria vários bairros da cidade, na área urbana. Isso tem gerado um verdadeiro terror na população, eles sabem bem o que a lama de rejeitos pode causar. Inclusive várias vítimas fatais do crime da Vale em Brumadinho eram moradores de Sarzedo, e eram trabalhadores do complexo Paraopeba.

Durante o ato, as mulheres liam os nomes completos de cada uma das trabalhadoras que foram assassinadas pela Vale no dia 25 de janeiro. E nesse exato momento a Polícia Militar de Minas Gerais começou a jogar bombas de efeito moral. Mirando as pessoas. Mais assustador ainda: muitos deles riam enquanto jogavam bombas. Muitos riam ao passarem as mulheres carregadas, machucadas. Nesse momento da bomba houve correria, tombos, sangue nos corpos machucados pela violência.

Dez pessoas ficaram mais machucadas e tiveram que ser levadas ao hospital: nove mulheres e um homem, jornalista cobrindo a manifestação. Dezenas de outras mulheres ficaram também machucadas no pânico. Não houve negociação para a liberação da ferrovia, houve um aviso: saiam agora ou sairão à força. Os policiais no comando sequer aceitaram dialogar com as advogadas que estavam acompanhando a ação. E as mulheres responderam: vamos terminar a cerimônia de homenagem a Marielle e em homenagem às mulheres que morreram na lama de rejeitos da Vale, e em seguida saímos. Ato simbólico e com previsão de ser breve. Mas a urgência se explica, na lógica deles: está vindo um trem da mineração e ele vai passar. Não há negociação, o trem vai passar. Não importa quantas pessoas morreram do município, quantas morreram em Brumadinho, sequer importa se há acima das cabeças da população uma barragem de rejeitos que pode romper. O trem vai passar. Por cima das mulheres, que estavam ali homenageando outras mulheres. O trem vai passar.

Os cães do Estado em Minas Gerais são, em muitas partes, também os cães das mineradoras. Mas que eles não se esqueçam: onde tem mulheres na mineração, tem luta. E apesar de toda a fumaça das bombas malditas, e de tantas pessoas machucadas, a cerimônia de homenagem não parou: as mulheres leram até o final a lista daquelas mulheres que a Vale assassinou no dia 25 de janeiro de 2019.

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31
Mar19

Saiba como está o Rio Doce três anos após lama da Samarco empresa Vale e BHP Billiton

Talis Andrade

Rejeito da barragem da mineradora, que rompeu em Mariana-MG, seguiu pelo curso do Rio Doce até chegar em Regência, no ES

rio_doce_lama_baixo_regencia_linhares_mosaico_.jpgLama mais densa de rejeitos da barragem da Samarco que se rompeu em MG e que chegou no Oceano Atlântico. Foto: Vitor Nogueira/Mosaico Imagem

 

Por Caio Santana 

 

“O sertão vai virar mar // É o mar virando lama // Gosto amargo do Rio Doce // De Regência a Mariana.” A letra da música “Cacimba de mágoa” escrita por Tato Cruz, da banda Falamansa, e por Gabriel O Pensador, evidencia um sentimento que muita gente teve quando houve o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana. O trágico episódio aconteceu há exatos três anos, na tarde do dia 5 de novembro de 2015, destruindo quase que por completo o distrito de Bento Rodrigues, seguindo até o Rio Gualaxo do Norte. No mesmo dia, a lama seguiu o curso do Rio do Carmo até encontrar o Rio Doce.

Laboratório foi em busca de respostas sobre o estado das águas do Rio Doce, após receber grande parte do rejeito de minério proveniente da barragem da mineradora Samarco. Os rejeitos são resíduos provenientes da mineração e que devem ficar armazenados, por exemplo, em barragens. O Doce é um dos principais rios do eixo leste do Brasil, situado na Região Sudeste do país. Nosso repórter também passou pelo Rio Doce lado a lado, de Colatina-ES à Ipatinga-MG, em julho de 2018, e pôde perceber alguns aspectos do rio.

Esse rio é de extrema importância para cidades de referência regional, como Governador Valadares-MG, Colatina-ES e Linhares-ES. Contudo, esses centros viram sua principal fonte de abastecimento ser tomada por um mar de lama.

O que aconteceu

Era uma tarde de quinta-feira, dia 5 de novembro de 2015, quando uma barragem com rejeitos de minério se rompeu, em Mariana-MG. Tratava-se da Barragem de Fundão, de propriedade da Samarco (empresa cujos maiores acionistas são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton). No princípio, acreditavam que duas barragens haviam se rompido: a de Fundão (acima) e a de Santarém (abaixo). Porém, não havia acontecido nada com esta última, exceto amortecer parte do impacto da descida da lama.

Transcrevi trechos. 

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Rio Doce entre Aimorés e Governador Valadares, em Minas Gerais, sete meses após rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco. Foto: Gabriel Lordêllo/Mosaico Imagem

 

 

26
Mar19

Dois meses após tragédia de Brumadinho, atingidos sofrem de doenças físicas e mentais

Talis Andrade

brumadinho marcelo cruz foto.jpg

 

 

Lu Sodré
Saúde Popular

Uma região afetada pela falta de abastecimento de água tratada, moradores apresentando adoecimentos físicos e sofrimentos mentais, e um luto que não tem fim. Essa é a situação na qual se encontra a cidade de Brumadinho e comunidades vizinhas, exatamente dois meses após o rompimento da barragem da Vale, no Córrego do Feijão. De acordo com balanço da Defesa Civil, até sábado (23) estavam confirmadas as mortes de 212 pessoas. Outras 93 continuam soterradas.

Em meio a dor e destruição, uma das principais preocupações dos atingidos é com as consequências que a lama tóxica pode trazer à saúde. Em fevereiro, o governo estadual de Minas Gerais afirmou que quatro bombeiros, que atuavam nas buscas de corpos das vítimas, apresentaram concentração de metais em seus exames de sangue. A notícia agravou o estado de alerta da população.

Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde, explica que a lama contém resíduos tóxicos como níquel, chumbo, ferro e mercúrio, substâncias que podem trazer consequências sérias para aqueles que entraram em contato com os metais pesados.

 

Às margens do Rio Paraopeba

Mesmo o contato indireto com os rejeitos também oferece risco à saúde das pessoas, acrescenta o pesquisador da Fiocruz. Isso pode acontecer, por exemplo, por meio do consumo de água atingida pela lama tóxica.

“O sistema de abastecimento de água da região entrou em colapso, foi interrompido o abastecimento. Muita gente está sem água. Existem notícias que muitas pessoas estão abrindo poços na região, e isso é um perigo porque o poço pode trazer água contaminada pelos rejeitos”, afirma Barcellos.

Segundo ele, a compreensão por atingidos pelo crime da Vale deve se estender a todas as pessoas que vivem às margens do Rio Paraopeba, que teve sua morte constatada por estudo da organização SOS Mata Atlântica, no início do mês. “Ali, no entorno do local onde houve o acidente, moram 3 mil pessoas. Todos eles são afetados de uma maneira ou de outra”, argumenta o pesquisador.

 

Sentindo na pele

Embora não seja moradora de Brumadinho, a vendedora ambulante Chirlene da Silva Souza, de 34 anos, sente na pele, literalmente, o que acredita ser consequência de água contaminada ingerida há alguns dias.

Horas após beber água da torneira, disponibilizada pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), começou a sentir dor no estômago. “Meu braço começou a manchar todo e até hoje estou passando mal. Naquele dia eu bebi quase dois litros de água. Estava com sede, sede mesmo e não tinha outra opção, não tinha outra água. Foi só eu tomar a água que deu isso em mim. Fora o resto que tá acontecendo comigo, minha barriga está inchando, endurecendo”, relata Chirlene.

A moradora do bairro Imperador, em São Joaquim de Bicas – cidade circundada pelo rio Paraopeba – também relata que não é a única a sentir-se mal. “Depois que o povo começou a beber essa água tem um monte de gente passando mal, vomitando, tendo diarreia. Minha mãe está com umas manchas feias no corpo. Minha sobrinha, que mora pra baixo e está bebendo a água [da Copasa], diz que está dando dor de barriga na família toda”.

Chirlene procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade e foi encaminhada para realizar exames de sangue e urina com a finalidade de investigar a possibilidade de intoxicação. “No braço que está manchado, parece que a carne está morta. Do jeito que o povo fala, tenho medo. Falam que se a gente beber pode dar muitos danos. Falam que prejudica a saúde depois de anos e a minha já tá prejudicando”, conta preocupada.

José Geraldo Martins, farmacêutico e integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), confirma a situação relatada por moradores. “Temos casos esparsos de problema de pele, em sua maior parte manchas, feridas, algumas coceiras, em crianças, jovens. Isso está sendo observado de uma maneira qualitativa, não temos um levantamento quantitativo disso, mas, qualitativamente, nós que estamos no território temos observado isso”.

Em posicionamento enviado ao Brasil de Fato, a Copasa informa que água distribuída no município atende aos padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde, e que a captação do rio Paraopeba está desligada desde o dia 25 de janeiro, quando a barragem da Vale rompeu.

Porém, Geraldo diz que em municípios como Mário Campos e Betim, cresce também a morte de animais. “Animais de grande porte como bovinos, equinos, cães e gatos que morrem do nada, porque certamente foram lá, na beira do rio, beberam da água e acabam morrendo”, conta.

Segundo o militante, que atua no setor de saúde do MAB, a água potável não está sendo oferecida a toda a população. “Uma boa parte das pessoas, que moram rio abaixo, utilizam cisternas e poços que, de certa forma, se alimentam da água do Paraopeba. Há surtos de diarreia, vômitos, dores abdominais. É um quadro sugestivo de gastroenterite causada, provavelmente, pela má qualidade da água, porque está visivelmente turva, muito mais turva do que os padrões aceitáveis para o consumo humano”.

A Secretaria de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) alega estar realizando o monitoramento da qualidade da água para consumo humano por meio da coleta e análise da água de poços e cisternas situados até 100 metros das margens do rio Paraopeba. As ações foram iniciadas no dia 29 de janeiro e possui periodicidade de 15 dias.

O órgão também declara que, no âmbito da coordenação de Vigilância de Doenças e Agravos Transmissíveis, tem acompanhando o surgimento de casos diarreicos e de doenças imunopreveníveis. A Secretaria aponta, no entanto, que as ocorrências estão dentro do limiar esperado para o período do ano, até o momento.

-brumadinho- foto lu sudré rio paraopeba.jpgRio Paraopeba totalmente contaminado pelos rejeitos da mineração da Vale | Foto: Lu Sudré


Sofrimento mental

Apesar dos sintomas físicos, Zé Geraldo avalia que o grande dano do crime socioambiental da Vale se dá em nível psicológico. “Há um sofrimento mental decorrente da morte de amigos, familiares próximos; muitos corpos não foram resgatados ou identificados. As famílias não puderam nem dar um enterro digno aos seus entes queridos, e houve perda do modo de vida, de projetos de renda. Os agricultores, os pescadores, pessoas que viviam de alguma forma ligadas à exploração do rio.”

De acordo com o representante do MAB, a incerteza no futuro é outro sentimento que atormenta os atingidos de Brumadinho, já que as soluções oferecidas pela Vale são temporárias, como a garantia de caminhões-pipa para os agricultores irrigarem suas hortas.

Sobre o acompanhamento da saúde mental dos atingidos, a Secretaria de Saúde do estado afirma que está em funcionamento o Plano de Ação da Coordenação Estadual de Saúde Mental (CESM), que atua junto aos equipamentos Brumadinho. De acordo com o órgão, medidas específicas para a saúde mental e física dos trabalhadores que atuam no local após o rompimento da barragem também estão sendo oferecidas.

 

Destruição ambiental

A confirmação da inexistência de vida no Paraopeba é outro elemento preocupante, na opinião de Christovam Barcellos, do Observatório de Clima e Saúde. Com a lama tóxica, o ecossistema do rio foi destruído, gerando desequilíbrio ao meio ambiente e proliferação de outras doenças.

“Os peixes são predadores de diversos tipos de animais, inclusive larvas de mosquito. Pode ser que o rio Paraopeba comece a ter transformações ecológicas e surjam novas espécies, porque está faltando peixes, répteis, sapos, lagartos, cobras. Todos esses são predadores de algumas espécies. Isso pode criar um ambiente favorável para a transmissão, por exemplo, da febre amarela e da esquistossomose”, aponta Barcellos.

O especialista acrescenta que aqueles que entram em contato com a lama tóxica podem contrair leptospirose. “Todas essas doenças podem ser consequências indiretas do desastre. Precisamos olhar além da lama de rejeito e do Córrego do Feijão, e sim toda a bacia do rio Paraopeba. Uma perturbação ecológica dessa magnitude, desse tamanho, alcançando vários ciclos naturais, animais e minerais, pode perturbar tanto o ambiente que acabam surgindo doenças novas e aparecendo mosquitos em áreas que não tinham mosquito”, enfatiza.

Procurada, a Secretaria de Saúde de MG diz estar monitorando casos suspeitos de leptospirose e acompanha de forma próxima a ocorrência de febre amarela. Sobre o aumento de doenças como zika, dengue e chikungunya, a SES-MG afirma que o estado se encontra em alerta, já que “certamente existe a possibilidade de aumento de vetores devido à mudança ambiental ocorrida em decorrência do rompimento da barragem.”

 

Estudo por 20 anos

Em resposta à demanda da reportagem, o Ministério da Saúde disse, em nota, que está desenvolvendo um “estudo de coorte [conjunto de pessoas que têm em comum um evento ocorrido no mesmo período] que vai avaliar doenças que estejam relacionadas diretamente ao desastre, como a contaminação por metais pesados e leptospirose”. O estudo deve acompanhar, segundo o ministério, cerca de mil profissionais envolvidos no resgate de vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho pelos próximos 20 anos.

Ainda de acordo com a pasta, “o primeiro passo do monitoramento será a coleta de amostras de sangue e urina, que seguirão para análise no Instituto Evandro Chagas (IEC), primeiro laboratório de referência para essa ação”. Caso seja necessário, completa a nota, “outras instituições referenciadas também poderão ser envolvidas”.

De acordo com o ministério, a ação terá a colaboração de pesquisadores de instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as universidades federais de Minas Gerais (UFMG) e do Rio de Janeiro (UFRJ) e a organização Médicos Sem Fronteiras.

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