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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

17
Jul20

8.450 militares da reserva trabalham em ministérios, comandos e tribunais

Talis Andrade

 

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* Ganham 30% sobre salário

* Levantamento é inédito

* E contou com Lei de Acesso

* Número da ativa é de 2.930

por LEONARDO CAVALCANTI 


Oficiais e praças aposentados das Forças Armadas trabalham em ministérios, comandos e tribunais militares. São 8.450 ao todo, segundo levantamento exclusivo do Poder360.

“TAREFA POR TEMPO CERTO”

Esse é o nome da modalidade de contratação de militares da reserva. Ao assumir a função, eles ganham bônus de 30% sobre o salário. A “tarefa por tempo certo” pode durar até 10 anos.

As informações publicadas nesta reportagem são parte do 1º levantamento sobre os militares da reserva nessa modalidade de contratação. Não existe, portanto, comparação com anos e governos anteriores.

O dado não inclui inativos recontratados em cargos de comissão (DAS). O TCU (Tribunal de Contas da União) prepara 1 levantamento desses casos. O pedido foi aprovado depois de reportagem do Poder360.

Uma portaria do comandante do Exército publicada em abril de 2019 autoriza que até 7.000 militares inativos prestem tarefa por tempo certo.

NA ATIVA: 2.930

Poder360 já mostrou a distribuição dos militares da ativa nos Três Poderes: 92,6% deles estão no governo Bolsonaro, e 7,2%, no Judiciário. Só 1 trabalha no Congresso (0,03%).

Dos militares da ativa, a reportagem identificou pelo menos 300 estão em ministérios exclusivamente civis. É nessa conta que o TCU quer chegar para saber a real necessidade desse deslocamento.

Um dos desdobramentos é o desvio de função, quando o titular de 1 cargo exerce a atividade de outro. Em conversa com o Poder360, 1 dos integrantes da Corte questionou:

A tese de desvio de função de ser desenvolvida sem muita dificuldades, a partir do detalhamento das tarefas. E mais, esse pessoal todo não faz falta nas Forças Armadas? Se não faz, o que esses militares faziam antes?

DUAS FRENTES DE APURAÇÃO

Poder360 conseguiu os números dos inativos da Marinha a partir da LAI (Lei de Acesso à Informação). Os da Aeronáutica e do Exército foram remetidos pelas assessorias dos comandos.

SIGILO NA FÁBRICA

Dos militares que atuam fora dos quartéis, 129 estão cedidos à Imbel, a fábrica de armamentos do governo. Denúncia do MP considera o ato irregular.

14
Jul20

Os genocidas

Talis Andrade

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A verdade é dura e, talvez por isso, fere! Mas, ao menos desta vez, está do lado do ministro Gilmar Mendes!

por Leônidas Mendes

- - -

Os dicionaristas definem “genocídio” como “aniquilamento de grupos humanos, o qual, (...), inclui diversas formas de extermínio, como a prevenção de nascimentos, o sequestro sistemático de crianças dentro de um determinado grupo étnico, a submissão a condições insuportáveis de vida, etc.”.

Começo chamando a atenção para o termo por conta do fato de que iniciamos a semana sob intenso debate em torno das declarações do ministro do STF Gilmar Mendes que, em entrevistas, alertou que o Exército vem sendo cúmplice das práticas genocidas do governo Bolsonaro, agora, às claras por conta da pandemia do novo coronavírus.

Mendes também lembrou que a cumplicidade ao genocídio bolsonarista, evidenciado, em sua opinião, pela “ocupação militar do Ministério da Saúde”, está prejudicando a imagem das forças armadas como um todo, completando sua fala com um: “Não me furto (...) a criticar a opção de ocupar o Ministério da Saúde (...) com militares. (...). Que isso seja revisto, para o bem (...) da saúde do Brasil”.

Desde então, através de notas e declarações, ora mais ora menos agressivas, de militares da ativa ou da reserva, dos comandos das respectivas forças ou do Ministério da Defesa, diversas respostas foram direcionadas ao ministro e, como tem virado uma constante, sob ameaça de crise institucional.

Ameaças, aliás, que cada vez mais explicitamente se fazem em defesa dos bolsos dos oficiais pendurados em cargos de utilidade e competência duvidosas, conforme atesta o ministro, com suas gratificações e penduricalhos, do que da “honra” das forças armadas, pois não!

Inclusive porque, por maiores que sejam as tentativas de revisionismo, as forças armadas brasileiras não podem apagar seu passado, que não lhes dá trégua: é um passado genocida. E não precisamos muito: basta um olhar rápido nos livros de história!

Veja-se, por exemplo, o massacre da Cabanagem, entre 1835 e 1840, no Pará: até os estudos mais pessimistas falam de algo entre 35 mil e 40 mil mortos, de um terço à metade da população da província na época. E na Balaiada, no Maranhão, entre 1838 e 1841, algo em torno de 20 mil mortos. Como será que deveríamos chamar isso?

E Canudos, na Bahia, entre 1895 e 1897, não menos que 30 mil mortos; afora a brutalidade, o sadismo, a barbárie impulsionadas pela ideologia do “branqueamento da raça”, até hoje tão cara às forças armadas, a pretexto de combate “ao fanatismo monarquista dos sertanejos”?

E o Contestado, entre o Paraná e Santa Catarina, nos anos de 1912 a 1916, com seus mais de 10 mil mortos e de novo os mais diversos episódios de violência e covardia de nossos militares contra nosso povo, com sanha sem qualquer parâmetro na História? Como os senhores generais e que tais classificam? “Missão civilizatória”? “Salvação das almas”?

Outros tempos?! Então, como classificar a mortandade dos povos originários durante a ditadura, de 1964 a 1985, com quase 10 mil mortos e denunciado ainda em seu início pelo Relatório Figueiredo de 1975, que mantiveram escondido por mais 40 anos? 

A verdade é dura e, talvez por isso, fere! Mas, ao menos desta vez, está do lado do ministro Gilmar Mendes!

22
Jun20

Acossado por investigações contra filho e vínculos com milícia, presidente avalia estratégia para se manter no cargo

Talis Andrade

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II - Prisão de Queiroz deixa militares reticentes sobre Bolsonaro enquanto Centrão aumenta preço de apoio

Entre os militares, a avaliação é de que ainda é preciso esperar qual será a reação prática do mandatário à prisão de Fabrício Queiroz. “Já foi pedido para o presidente não radicalizar mais. Vamos ver como ele vai se mexer”, afirmou um dos militares com acesso ao Palácio do Planalto. A principal preocupação de Bolsonaro é que Queiroz faça um acordo de delação premiada no qual aponte eventuais elos entre sua família e milicianos do Rio de Janeiro com os quais o ex-assessor possui vínculos.

Dois especialistas consultados pela reportagem se dividiram quanto ao apoio do generalato ao Governo. “Na minha percepção, os militares estão esperando um golpe de misericórdia. A base da árvore está apodrecendo e basta um empurrãozinho para ela cair”, disse o doutor em relações internacionais David Almstadter Magalhães, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC) em São Paulo.

“A não ser que ocorra algo, extremamente catastrófico com algum escândalo relacionado às Forças Armadas, acho muito difícil que os militares mudem de opinião sobre o apoio ao Governo”, afirmou o doutor em ciência política Lucas Rezende, professor na Universidade Federal de Santa Catarina. Rezende ressalta, porém, que a movimentação dos militares também é calculada porque em uma eventual destituição o ocupante do Palácio do Planalto será outro militar, o general da reserva do Exército Hamilton Mourão (PRTB).

O que tanto Rezende quanto Magalhães coincidem é que Bolsonaro nunca foi uma unanimidade entre os militares. Desde o início de sua gestão, ele tem se dividido entre os fardados mais pragmáticos e legalistas e os que aceitaram se aproximar do braço ideológico influenciado pelo escritor Olavo de Carvalho. A estratégia para comprar esse apoio é parecida com a usada junto aos políticos do centrão: ceder espaços. Dos 23 ministérios, 10 são ocupados por militares ou ex-militares. Levantamento do site Poder 360 publicado nesta semana mostra que há 2.930 militares cedidas ao Poder Público. É o maior número desde a ditadura militar.

O que parece ter arrefecido, por enquanto, é uma espécie de autogolpe que o presidente vinha estimulando nas últimas semanas. “O prestígio social do presidente entra em processo de decomposição. Daqui pra frente, qualquer tentativa dele se valer dos militares para fazer chantagem golpista é blefe”, avaliou Magalhães. Na avaliação de Rezende, no entanto, ainda não estaria descartada um confronto civil armado entre apoiadores e opositores do presidente. Tudo a depender dos próximos movimentos das peças nesse tabuleiro político-jurídico-militar.

20
Jun20

Para ministro do STF, militares estão fazendo autocrítica em meio a "desgastante" crise de saúde e podem vir a se distanciar publicamente de Bolsonaro

Talis Andrade

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III - "As Forças Armadas não são milícias do presidente da República"  

Bruno Lupion entrevista Gilmar

- - -

O sr. se encontrou na semana passada com o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol. Como foi a conversa?

Me preocupei porque há versões entre os militares de que as instituições impedem o presidente de governar. Me preocupei em explicar as decisões e por que têm sido tomadas. Temos uma relação com os militares há muitos anos, e era importante explicar, por exemplo, sobre a questão federativa, e abrir um canal de conversa nesse sentido. Muitas das interpretações que foram dadas pelo Ministério da Defesa não parecem que são subscritas pelas Forças Armadas.

 

Essa foi a impressão do sr. dessa conversa?

A impressão geral é essa. O governo tem dificuldade de dialogar, não só conosco, mas com o próprio Congresso Nacional. E gostaria que as coisas funcionassem a partir de uma certa atemorização. Mas isso não funciona. O país é muito complexo e tem uma economia muito diversificada. E tem instituições fortes que vêm funcionando ao longo de anos, de uma maneira normal.

 

Há cerca de três mil militares atuando no governo. Como o senhor avalia essa aproximação das Forças Armadas com o Executivo?

Num primeiro momento, isso era um pouco natural, porque o Bolsonaro vocalizava os pleitos corporativos dos militares, era natural que fosse buscar nos quadros das Forças Armadas pessoas para ajudar a compor o governo. Em todos os governos temos tido militares, mas não nessa dimensão, como hoje na cúpula do Ministério da Saúde. Isso obviamente passa a ser um problema e traduz um tipo de identidade. No caso do Ministério da Saúde há uma questão muito séria, o presidente teve dois ministros substituídos, tem este que é provisório, general da ativa, que estava cumprindo ordens como a de retirar as informações básicas sobre o número de mortes a cada dia, que acabaram tendo que ser restabelecidas, por ordem judicial do Supremo.

 

Além do ministro interino da Saúde, o general Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, também é da ativa. Nos Estados Unidos, o chefe do Estado Maior, general Mark Milley, pediu na semana passada desculpas por ter participado de um ato com Donald Trump, e deixou claro que as Forças Armadas não devem se envolver na política interna daquele país. Devemos esperar que os generais da ativa no Brasil façam o mesmo?

Acho que isso vai ocorrer, acho que que os próprios militares estão percebendo isso. Estão fazendo uma autocrítica. Recentemente saíram pesquisas que indicam que está havendo uma identificação entre as Forças Armadas e o governo Bolsonaro, em tom negativo. Acho que isso vai se perceber. No caso da Saúde, está sendo altamente desgastante. O governo federal está tendo uma atuação claudicante no que diz respeito ao combate à covid-19, e a responsabilidade irá para quem tem a gestão, para o próprio presidente da República e para os militares que lá estão. Certamente aqueles que têm a preocupação com o papel das Forças Armadas, com seu papel institucional, estão vendo criticamente esse desenvolvimento.

 

O cientista político Christian Lynch, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirmou em entrevista ao jornal O Globo publicada nesta terça-feira (16/06) que os militares no governo em breve se darão conta de que o projeto que defendem só será viável sem Bolsonaro, e que, quando isso acontecer, negociarão com parlamentares e juízes uma saída que passará pelo vice Mourão. O sr. acha que isso pode acontecer?

Não sei se isso é cogitável. O nosso esforço é no sentido de uma normalização institucional, redução dos conflitos. Vários autores que estudam a ciência política dizem que Bolsonaro substituiu o chamado presidencialismo de coalizão por um presidencialismo de colisão, de conflito. E isso tem que ser reduzido. (Continua)

 

 

08
Jun20

O poder bélico do bolsonarismo

Talis Andrade

 

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por Jeferson Miola

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O poder político do Bolsonaro se origina em estruturas armadas e violentas. E se vincula ao fanatismo/charlatanismo religioso. O poder da facção extremista é resultado de um amálgama que condensa uma base religiosa, miliciana e militar assim representada:


1- praças e a imensa maioria de subalternos e oficiais intermediários das Forças Armadas, além de inúmeros comandantes [incluindo da reserva] das 3 Armas, mas em especial do Exército;

2- polícias militares estaduais, altamente bolsonarizadas. Em muitos Estados, encontram-se PMs radicalizadas, fora de controle, obedientes a lideranças bolsonaristas e insubordinadas ao comando de governadores [Ceará, SP, RJ, BA …];

3- milícias e grupos paramilitares abastecidos com armamentos e munições contrabandeadas e/ou roubadas de quartéis do Exército e das polícias militares estaduais;

4- segmentos evangélicos midiatizados e dominados por charlatães que pregam crenças reacionárias e odiosas e estimulam o conflito social; e
 

5- milícias cibernéticas propagadoras de mentiras, ódio, injúrias, racismo e supremacismo branco, que têm interface com o mundo militar/guerra híbrida.

A penetração do Bolsonaro nas Forças Armadas é produto do trabalho de politização e ideologização das tropas durante décadas; realidade que expõe o comando do Exército ao risco de insubordinações.

No último período, Bolsonaro promoveu mudanças normativas que contrariam o estatuto do desarmamento e a legislação e que favorecem o armamento das milícias e da criminalidade.

Por ordem direta dele, o Comando Logístico do Exército revogou portarias de monitoramento e rastreabilidade de armas e munições. Com isso, o Exército perdeu capacidade de rastrear armas e munições contrabandeadas e/ou roubadas de quartéis do Exército e das PMs.

Reportagem do Estadão [10/5] concluiu que “o desvio de armas e munições dos quartéis das polícias e do Exército para facções criminosas, clubes de tiro e milícias virou rotina”.

O jornal alerta que este “mercado ilegal de armamento vem se sofisticando cada vez mais”. Um mercado que abarca “de granadas de luz e som da Presidência, como as utilizadas para dispersar multidões, a fuzis da Polícia Federal”.

Este armamento é receptado por bandos de assaltantes de bancos, milícias, organizações criminosas, narcotraficantes. Ou seja, abastece as estruturas de poder do bolsonarismo.

Na grotesca reunião ministerial de 22/4, que entrou para a história como uma assembléia da sociedade do crime no Palácio do Planalto, Bolsonaro foi taxativo: “Eu quero todo mundo armado!”. Em 2 de junho, Bolsonaro anunciou que planeja liberar irrestritamente o uso de armas no Brasil!

Num dos seus últimos atos como integrante da “sociedade do crime”, Moro assinou portaria [23/4] que triplica a quantidade de munições que brasileiros podem comprar. Com a portaria, cerca de 218 milhões de projéteis poderão ser comercializados por ano no país – o suficiente para alvejar, com razoável folga, cada brasileiro com um tiro!

presidente da Taurus reconheceu [31/3] que “o país está se transformando num balcão de negócios de armas. As empresas que vierem para cá vão apenas importar ou montar aqui. Hoje, compensa mais importar da nossa fábrica na Geórgia do que produzir aqui”.

Bolsonaro, sintomaticamente, prometeu em entrevista na CNN [5/6] “que brevemente nós vamos poder importar armas a uso individual sem imposto de importação”. A justificativa dele para esta decisão é assombrosa: o fim dos impostos de importação é “uma boa medida que vai ajudar todo o pessoal do artigo 142 e 144 da nossa Constituição”, ele disse.


O candidato a Hitler brasileiro adota uma série de medidas de estímulo ao armamento, inclusive de armas pesadas e, ao mesmo tempo, desregulamenta e elimina os controles sobre o comércio, a posse, o uso e circulação de armas e munições.

Tal como na Alemanha dos anos 1930 e na Itália dos anos 1920, aqui as milícias também desempenham papel essencial na estrutura de poder da extrema-direita bolsonarista. Por isso Bolsonaro acelera e amplia o poder militar da sua facção.

O poder político do Bolsonaro advém desta combinação perigosa: subalternidade e oficialato intermediário das Forças Armadas + polícias estaduais + milícias paramilitares + segmentos evangélicos bolsonarizados + milícias cibernéticas. Para lembrar: o artigo 144 da CF diz que as polícias militares são forças auxiliares e de reserva do Exército.

É com esta fonte de poder que Bolsonaro gera temor e se impõe na vida institucional do país em condições de afrontar os demais Poderes e de ser acatado como Comandante Supremo das FFAA.

Bolsonaro radicaliza o confronto para criar um ambiente de caos e de violência aberta e mortal aos opositores do fascismo.

Bolsonaro representa o estágio nunca antes visto de militarização e de para-militarização da política no Brasil. Com o agravante de que a guerra civil para liquidar os opositores ao fascismo frequenta o imaginário lunático do bolsonarismo.
 
05
Jun20

"Militares não mudaram modo de pensar depois da ditadura"

Talis Andrade

 

bolsonaro revista.jpg"Quanto mais baixa a hierarquia militar, mais apoio a Bolsonaro"

 

Estudioso das Forças Armadas afirma que militares ainda estão presos na lógica da Guerra Fria e creem na ameaça de um "marxismo cultural". Mourão, porta-voz desse conservadorismo, é "lobo em pele de cordeiro"

 

Bruno Lupion entrevista João Roberto Martins Filho

A maioria dos militares brasileiros, de alta e baixa patentes, está hoje engajada numa versão renovada da luta contra o comunismo que guiava a ditadura militar (1964-1985). Em vez de defender o país da influência da União Soviética, extinta em 1991, caberia agora às Forças Armadas proteger a nação do marxismo cultural, que seria uma nova forma de ação do comunismo, expressa em movimentos por direito de minorias, contra o racismo e em defesa das mulheres. É o que aponta o sociólogo João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) que pesquisa as Forças Armadas há quatro décadas.

Essa ideologia começou a fazer a cabeça de militares nos anos 1990, mas eles se mantiveram relativamente silenciosos até o governo Dilma Rousseff, enquanto aparentavam se adaptar aos novos limites da democracia. Quando veio a crise de 2015, porém, "começou a brotar aquilo que estava recalcado", e em 2018 os militares aproveitaram a vitória de Jair Bolsonaro para voltar ao poder e implementar seu projeto, afirma Martins Filho em entrevista à DW Brasil.

O sociólogo aponta que um dos maiores porta-vozes desse novo conservadorismo militar é o vice-presidente, general Hamilton Mourão, que, na visão do pesquisador é "um lobo em pele de cordeiro" e não representa garantia de que, se vier a ocupar a Presidência da República, fará um governo diferente do de Bolsonaro.

Martin Filho cita um artigo do vice-presidente publicado nesta quarta-feira (03/06) no jornal O Estado de S. Paulo, no qual Mourão afirma que as manifestações do último fim de semana contra o governo não eram democráticas, mas compostas por "deliquentes" ligados ao "extremismo internacional" que deveriam ser reprimidos pelas polícias.

A tese bolsonarista de que o Supremo Tribunal Federal (STF) estaria realizando uma intervenção indevida no Poder Executivo tem apoio "quase unânime" nas Forças Armadas, diz Martins Filho. E há entre os militares simpatia à interpretação do presidente sobre o artigo 142 da Constituição, que o autorizaria a usar as Forças Armadas para "restabelecer a ordem" no país, inclusive contra o Poder Judiciário – tese rechaçada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e em um manifesto assinado por cerca de 700 juristas e advogados.

Com cerca de 3 mil militares cedidos ao governo federal e generais ocupando cinco cargos de primeiro escalão da gestão Bolsonaro (Secretaria de Governo, Gabinete de Segurança Institucional e ministérios da Casa Civil, Defesa e Saúde), os integrantes das Forças Armadas costumam dizer que foram convocados para uma missão e, por sua formação militar, devem obediência ao seu chefe, o presidente da República. Esse argumento é falacioso, e oculta uma identidade de propósito entre a caserna e Bolsonaro, diz Martins Filho.

Ele lembra que, no governo Dilma, houve casos de insubordinação à presidente, como do próprio Mourão – que na época era comandante militar do Sul e fez críticas ao governo e convocou oficiais da reserva a um "despertar de uma luta patriótica", sendo em seguida punido com a transferência para um cargo burocrático.

Questionado sobre os protestos de rua contrários ao governo convocados para o próximo final de semana, o professor da Ufscar diz ver risco de que as polícias militares – consideradas forças auxiliares das Forças Armadas, mas com um maior efetivo e ainda mais bolsonaristas – ajam com violência desproporcional contra os manifestantes. (Continua)

01
Jun20

Bolsonaro não é uma anomalia das Forças Armadas, mas sim seu fiel produto

Talis Andrade

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II - Brasil sofre de fetiche da farda

EL PAÍS
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Tenho escrito desde o início do Governo, e mesmo antes, que Bolsonaro não é uma anomalia das Forças Armadas, algo que deu errado e que nega a sua origem. Ao contrário. Desde sua gênese, ele é tanto o produto quanto a expressão daquilo que os militares representam no Brasil das últimas décadas ― ou possivelmente em toda a história republicana do país. Bolsonaro contém toda a deformação do papel e do lugar dos militares numa democracia. (Leia em Mourão, o Moderado).

Bolsonaro é o garoto de classe média baixa que adorava fardas e viu no Exército uma possibilidade de ganhar posição e importância. Como a história mostrou, entendeu tudo certinho. Sua trajetória é muito bem contada no livro O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel (Todavia), do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, morto por câncer em 16 de maio. Na obra, o repórter mostra, a partir de rigorosa pesquisa nos autos, como o julgamento de Bolsonaro por planejar colocar bombas em quartéis ignorou provas inequívocas. O Superior Tribunal Militar absolveu-o num julgamento constrangedor, desde que ele deixasse a corporação. Bolsonaro assim o fez, já eleito vereador do Rio de Janeiro com o voto de seus colegas, que depois o reelegeriam também como deputado federal durante os quase 30 anos que passou no Congresso. (Leia em Por que Bolsonaro tem problemas com furos).

Bolsonaro existe politicamente e está no poder porque a cúpula militar absolveu um membro da corporação que trabalhava na execução de um plano terrorista para chamar a atenção para uma reivindicação salarial. Tivesse sido condenado pelo que de fato era e fez, a história seria outra. Foi a impunidade que os militares seguiram autorizados a cultivar, em função de seus interesses corporativos, mesmo após a redemocratização, que gestou o personagem Bolsonaro.

Ele, que tanto fala em impunidade, é produto da impunidade que supostamente critica. Já está mais do que claro que, para Bolsonaro, seus filhos e seus amigos, a impunidade é a própria razão de ser do poder. Responsabilização é para os outros. Não tenho informação para afirmar que aprendeu essa lição com seus pais, mas há informação suficiente para afirmar que a aprimorou com seus superiores. Se um plano terrorista não é motivo suficiente para condenar alguém, então nada é.

Durante todos os seus anos como parlamentar, Bolsonaro sempre defendeu a ditadura (1964-1985), não só normalizando o sequestro, a tortura e a morte de civis, mas defendendo que os militares deveriam ter matado “pelo menos uns 30 mil”. Votou pelo impeachment de Dilma Rousseff homenageando o único torturador reconhecido pela Justiça como torturador, o coronel facínora Carlos Alberto Brilhante Ustra. E naquele momento lançou simbolicamente a sua candidatura ― e mais uma vez foi beneficiado pela impunidade garantida tanto pelos seus pares como pelo judiciário brasileiro.

A candidatura de Bolsonaro tinha por vice um general, Hamilton Mourão, que em várias ocasiões expressou sua vocação golpista, inclusive durante a campanha. Não é possível afirmar ou não que Bolsonaro foi eleito devido ao apoio de uma parcela estrelada de militares à sua campanha, mas é possível afirmar que esse apoio foi importante e deu legitimidade a Bolsonaro. Em troca, ele militarizou o Governo, que hoje tem nove ministros militares e quase 3 mil militares ocupando o segundo escalão. E crescendo. Bolsonaro tornou possível que os militares voltassem ao poder num país em que ainda há mais de duas centenas de corpos de pessoas desaparecidas pela ação criminosa do Governo dos generais durante o regime de exceção.

Bolsonaro e os generais que o sustentam não são feitos de matéria diferente. Não há uma e outra coisa. É a mesma coisa e o mesmo projeto de poder. Por que razão foi feita essa dissociação mental é tema para historiadores e sociólogos. Talvez mais ainda para a psiquiatria e para a psicanálise. Bolsonaro é criatura do militarismo brasileiro. E não como o monstro de Frankenstein, que na obra de ficção de Mary Shelley foi renegado pelo criador. Não. Bolsonaro é o rebento bem sucedido que foi estimulado e apoiado para virar o presidente do Brasil e então redimir seus pais inconformados, que queriam não só voltar ao poder, mas também eliminar a mancha histórica de assassinos e ditadores.

 

 
01
Jun20

Bolsonaro usa o Exército como a milícia usa a PM

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Não duvide que, daqui a alguns dias, que Bolsonaro, em lugar de um helicóptero do Exército e um cavalo da Polícia Militar, apareça desfilando em um veículo militar diante de seu eleitorado caninamente fiel e feroz.

É a maneira dele mostrar ao país que tem outras feras, mais bem armadas do que com a Glock de Carluxo e Dudu e a Winchester de Olavo de Carvalho.

É exatamente como fazem as organizações milicianas – no Rio de Janeiro e já em outras partes do país – com as forças policiais. Embora nem todos os comandos sejam seus cúmplices, há farto apoio policial a ação destes grupos, o que inibe protestos e oposição de qualquer um que queira confrontar o poder da milícia.

Exatamente como faz Bolsonaro para intimidar a reação política e judicial ao seus abusos e garantir a impunidade dos grupos subversivos que o apoiam: fazer com que todos tenhamos medo de uma ação militar que imponha a obediência geral ao seu poder abusivo e a implantação de seu desejado modelo autoritário.

A questão é, como bem destacou hoje Luís Nassif, é que só há uma maneira de sabermos se Bolsonaro conta de fato, ou não, com suporte militar para deslanchar definitivamente seu projeto de sufocamento das liberdades e das instituições: enfrentá-lo.

Se não o fizer, ele vai levando, como até agora levou, “no grito”.

A conduta passiva do Legislativo – gaguejante com Rodrigo Maia e muda com Davi Alcolumbre – só o ajuda e deixa os ministros do STF, que não são propriamente talhados para a luta política.

Pode ser que Bolsonaro esteja mesmo apostando numa escalada, sabendo que lhe é fácil usar a polícia para usar a imagem de um movimento desordeiro a justificar sua estratégia autoritária.

Pode ser, mas se – de olho aberto e juízo na cabeça – não externarmos a oposição à implantação de uma ditadura, uma ditadura, então, já está implantada.

19
Mai20

Peça 4 – o avanço do militarismo

Talis Andrade

 

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Xadrez da incógnita Hamilton Mourão

por Luis Nassif

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Há uma dinâmica corporativa por trás da ocupação de espaço civil pelos militares. A história comprova. Castello Branco assumiu a presidência em 1964 prometendo eleições presidenciais para dali a dois anos. Abriu espaço para o poder militar. No final do seu governo, o Ministro do Exército, Costa e Silva, não admitiu a devolução do poder aos civis. E, com a Junta Militar, inaugurou-se o mais sangrento regime brasileiro, superando até a violência do Estado Novo.

A abertura para o poder militar teve início com o governo Temer, com a entrega do Ministério de Defesa a um militar, a convocação do general Sérgio Etchgoyen para o Gabinete de Segurança Institucional e, no abuso final, o GLO (Garantia da Lei e da Ordem) no Rio de Janeiro, transformando-a ilegalmente em uma intervenção militar. Não houve nenhuma reação da Procuradora Geral da República Raquel Dodge.

Com Bolsonaro, de cara militares assumiram 7 mil cargos na máquina pública. Gradativamente foram assumindo novas posições, culminando com o controle das operações do Ministério da Saúde na batalha contra o coronavirus.

Agora, entra-se em uma fase crítica, na qual há grande possibilidade de Mourão assumir a presidência. E aí, a Peça 1, a anomia das instituiçoes, passa a ser relevante.

Dois pontos provocam resistências a essa saída.

O primeiro, o risco da militarização definitiva, com o governo sendo conduzido por um militar racional e estrategista – e não um sub-oficial estabanado com mais vinculações com as milícias do que com as Forças armadas.

O segundo, a resistência de Mourão em negociar com grupos políticos. Ele tem resistido aos apelos de seus aliados militares, afirmando que não pretende assumir a presidência com amarras.

De qualquer modo... 

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14
Mai20

História destroça imagem de incorruptível das Forças Armadas

Talis Andrade

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por Bepe Damasco

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Estarrecidos, tomamos conhecimento de que quase 200 mil militares, com soldo em dia, gratificações, estabilidade, paridade salarial na aposentadoria e integralidade receberam indevidamente o auxílio emergencial de R$ 600 reais.

Abocanharam uma ajuda criada pelo Congresso Nacional para socorrer os trabalhadores informais entregues à própria sorte depois que a pandemia suspendeu grande parte da atividade econômica do país. Asco e revolta são sentimentos inevitáveis diante de tamanho absurdo.

Enquanto isso, mais de 13 milhões de trabalhadores não conseguem ver a cor do dinheiro, enredados pelas exigências, pela burocracia e má vontade de um governo neofascista que odeia visceralmente os pobres. Já os que venceram a corrida de obstáculos imposta por Guedes-Bolsonaro e obtiveram o benefício não têm a menor ideia de quando terão acesso à segunda parcela.

Na ponta da língua de qualquer golpista que se preze, dos analfabetos políticos em geral e de parte da mídia e da classe média está a falácia de que a Forças Armadas são impermeáveis à corrupção . Nada mais falso. Existem civis e militares honestos ou desonestos.

Preceder com lisura no trato da coisa pública ou enveredar pelos descaminhos da corrupção não são prerrogativas da condição de militar ou de civil. Tem a ver, isto sim, com o caráter, a formação familiar e a educação de cada um.

Recorrendo à história recente do país, veremos que durante a ditadura militar, a longa noite que durou 21 anos, não faltaram episódios escabrosos de corrupção. Se é verdade que parcela considerável das falcatruas acabou encoberta pela censura imposta aos meios de comunicação, outras vieram à tona, seja por ações corajosas da imprensa alternativa ou mesmo através de reportagens da mídia comercial, quando conseguia ludibriar os censores e desafiar os generais.

Casos como Coroa-Brastel, Delfim e Capemi são exemplos de crimes financeiros que lesaram dezenas de milhares de brasileiros. A montanha de dinheiro público drenada pelas obras intermináveis da Transamazônica e da Ponte Rio-Niterói, o contrabando dentro da Polícia do Exército no Rio e o caso Luftalla foram outros escândalos que ganharam as manchetes dos jornais, embora os governos militares tudo tenham feito para varrê-los para debaixo do tapete.

Voltando ao desvio dos R$ 600 de quem está praticamente na miséria, a banda democrática da sociedade tem que exigir a imediata devolução do dinheiro e a responsabilização criminal tanto dos que se locupletaram como daqueles que, no comando da burocracia, escancararam as portas do erário para essa patifaria.
 

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