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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

07
Out22

Upresidente, memórias de um doente de fascismo

Talis Andrade
Imagem: Varvara Stepanova

 

Carta ficcional sobre áudios de um suposto presidente que finge enlouquecer durante as eleições de um país real chamado Brasil

 

por Pedro Paulo Rocha /A Terra É Redonda

- - -

Que dia é hoje? Ainda é hoje? Faz quanto tempo que estou preso? Dia…

O cheiro do Chorume Nacional entra em minhas narinas e ouvidos zunindo. Estou nos Buracos dos muros.

O fedor arde na pele, exalando dos ternos dos neofascistas da pátria; brilha a cruz, brilha o capital. A pele queima do que me olha: vejo de longe muito perto a paisagem de um Esgoto de pólvora em piscinas de mansões; meu corpo fica paralisado até que tudo acontece de repente! Escuto som de tiros vindos da rua. Gritos inumanos e pessoas correndo. Pretos apanhando e brancos consumindo. E se rebelam. Quilombos, favelas. Subterrâneos. Corpos de sons. Sei bem que não é um sonho. Milicianos nadam nas favelas e moram em Torres.

A Tortura nunca acabou. Pastores chovem dinheiro. Rezas. Mijo. Roda de investidores. Quartéis de viagras e pau de borracha queimada. Sala vermelha de Tortura. Rua, morro. Morro e escapo. Vivo e não morro, desço num salto até uma constelação acesa. Eles matam, continuam matando. Igrejas e empresas. Os terreiros nas florestas, onde se escondem.

A vida no beco. Ora ternura, ora terror. Amor, memórias vivas, memórias enterradas e desenterradas. Exploração, sexos comercializados. Amor proibido. Indígenas, pretos, mulheres e crianças trafegadas. Desterrados. Fluxo sanguíneo e ficção. Na boca da guerra. Cruz e arma. Nunca acaba de passar. Bancos em navios com tubarões atrás do rastro de sangue no mar. Choro e chorume. Banho de Esgotos. Água Santa. Animal. Pão de Terra. Sangue azul. Corpo petróleos. Vírus.

É uma tempestade de ferro e pedras de uma ilha roubada. Amontoados. Presídios. Shopping. A piscina transborda. Muitos não sabem nadar. Indígenas refletem na vidraça rachada do planalto central. Nome de rio. Cara de peixe. Fronteira de fogo. A foto de uma flecha lançada fora do tempo acertou o hoje. Inventam nossos olhos.

Vou relatar aqui fatos quase reais de um presidente que enlouqueceu. Enlouqueceu? Na real ele finge que está louco. E esse presidente todos sabemos quem é e o que fez. Não vi com meus próprios olhos, mas posso afirmar que ouvi com meus próprios ouvidos… Desgraçado quanta desgraça de graça? A mente perdeu o controle ou o controle dominou a mente?

As frases ultrapassaram o acontecido, depois preciso voltar ao começo que imaginei…

Tudo aconteceu hoje pela madrugada. Soube logo pela manhã que Upresidente enlouqueceu…

Já aviso que ele não tem mais apenas um nome. Se tornou tanto ele mesmo que seu eu perdeu a cisão consigo. Muitas cabeças estão nascendo de sua voz –metamorfose. O monstro que ele foi vive uma mutação. Isso aconteceu exatamente nesse momento em que estou escrevendo esta frase sem futuro, mensagem de uma carta roubada, sem remetente. Espero que a carta chegue…

Se eu parecer também louco é devido a emoção que isto que te escrevo me causa. É a realidade que é insuportável. Soube que tudo começou nesta manhã assim que recebi algumas mensagens de áudio do UPresidente de um número desconhecido. Levei um susto e estou angustiado até agora com o que escutei de viva voz do Capetão da Nação.

Gostaria, não consigo, gostaria de fugir do que ouvi, não consigo! Se escrevo agora o ocorrido é porque é urgente dizer de alguma maneira o que é a doença do Messias.

O fato dela se confundir com o que é dito normal é o mais assustador e estranho – como é possível misturar duas coisas pensadas como opostas – o normal e a loucura?

Foi nesta manhã lá pelas 6 hs quando eu estava na rua caminhando em direção ao centro dividido da necrocidade – e de repente – o som do celular começou a tocar indicando o nome “a pátria armada”: olhei sem olhos e dei uma risada abafada e desliguei na hora depois de cuspir na tela. Depois que cuspi. Senti uma dor no estômago, acho. Cuspi mais uma vez na tela.

O sol queimou as minhas íris quando vi uma pessoa na rua com uma ferida viva. Ela percebeu que a vi chorar uma lágrima seca e ficou com raiva de mim. Tive que desaparecer rapidamente para não morrer por ver na flor da pele a dor de alguém queimando o ar.

Nesse lapso, no mesmo momento, chegou no meu WhatsApp uma série de mensagens com códigos sem significados por mais de um minuto sem cessar.

Logo depois veio um áudio de uns 10 minutos, 10 minutos e 37 segundos para ser mais preciso ( não importa ) com essa mensagem: “Upresidente enlouqueceu completamente. Por favor não envie para ninguém os áudios, ainda é possível salvar o país! Seus assessores estão procurando alguém que possa curá-lo urgentemente. É muito perigoso o que pode acontecer. Se descobrirem será tarde demais. Não sabemos mais como controlá-lo de hoje em diante. Os empresários ainda estão nos apoiando. Temos muito dinheiro, muito, muito mesmo. Além de armas, muitas… caixas de armamento pesado”.

Depois de ler isso passei a escutar os áudios. A sua voz estava trêmula e grave de um jeito animalesco. Por minutos senti falta de ar lembrando aquela imagem dele imitando alguém quase morrendo dos pulmões. Quando olhei para o chão da cidade cheio de lixo e por segundos me esqueci, por segundos quase me esqueci, o que tinha achado de ocorrer. Acabado, quis dizer, que tinha acabado de ocorrer. Pode ser que as vezes eu troque as palavras sem querer… por querer, quis dizer… isso vai se repetir… as palavras não têm controle… Aconteceu antes, aconteceu depois, fui golpeado por uma memória sem imagem muito pesada que evaporou na curva fantasma. Tentei na descida sufocar o esquecimento momentâneo, não deu – a coisa voltou – vomitei o agora com uma gosma viva no chão da fome, uma gosma de cor branca com algumas notas de dinheiro queimado, real, dólar, e uma cruz enrolada em uma corrente enferrujada. Rachadura de pedra, pensei, rios – como assim? ? Achei que vi também algumas balas gastas de 38.

Isso seria muito real para ser tão irreal. Fui me arrastando até o primeiro bar na encruzilhada de Brasília e pedi um copo de água viva com raízes. Bebi, fui bebido. Pensei que eu fosse água. Meu organismo absorveu até o vapor. Encostei para retornar a mim mesmo em algum lugar na parede esburacada e assim que recuperei um pouco meus sentidos continuei a caminhada na rua vazada, até que uma nova curva me reviveu.

Fui voltando ao normal e lembrei sem vulto algum que o U presidente entrou em um delírio tão absurdo que nada seria mais normal do que sua loucura; tive que escutar com atenção novamente para acreditar em viva voz naquela mensagem irretratável!

Ele crê que está se transformando em um super-eu. Relatou que hoje não dormiu e que a partir das 3 hs da manhã ganhou novos poderes – “Os raios de deus são balas a partir de agora! Darei meus nervos por vocês. Sou mais forte que o super-homem americano, mais forte que o super-homem de Deus. Existem muitas maneiras de converter a derrota eleitoral em uma oportunidade de tomar o poder, e demostrar de uma vez por todas que o voto é inútil. Eleições só de século em século. Muda os ministérios, mas o presidente é divino. Nunca deixamos de mostrar o que somos e o que buscamos. Não enganamos ninguém. Sempre falamos em voz alta nossos planos. Amém? Amém… pega a arma 09… liga para o quartel… ok? Em nome da lei! Voltando para o tema das eleições… imagine uma coisa simples… sempre um lance a frente… supor que se aconteça isso, nós podemos fazer aquilo… a pergunta é: quem tem mais lances para dar? Vai fazer o que?? vai fazer o que agora?? Se eu for preso como herói! Eu quero a coroa da injustiça! Levar o jogo ao limite até o inimigo perder a possibilidade de reagir… a tomada dos territórios através das subjetividades mortais de uma guerra civil permanente, o modelo é a milícia mesmo! Qual é o problema?… O Rio-Haiti é aqui – Floresta Amazônia Brasil favela do rio… kkkkkkkkkkkk …sou o novo rei do império, mas não sou ladrão… kkkkkkkk”.

Ele está ameaçando enviar um comando de Guerra civil para toda a sua rede com mais de 20 milhões de pessoas, ou mais ainda, nem sei mais quantas…

Muito rapidamente, senti que o asfalto estava quente, muito quente, as pessoas dormiam no chão com fome. Eu derretendo a cada segundo. O sol caía, o céu caía, as nuvens eram florestas em chamas, ouvia o grito dos animais queimando. Povos queimando dentro da noite dos massacres. Eu corria… caía e corria… vocês estavam comigo dentro de uma tela, dentro de uma tela sem fundo que emergia.

Não poderei ainda transcrever diretamente tudo que ouvi abismado da paranóia do herói do fascismo nacional, o Fas Star. Tentarei pelo menos transpor pedaços em uma espécie de zona de encontro entre ficção e realidade.

Acredito que esses áudios são reveladores do que vem acontecendo em nosso país, porque Upresidente realmente já estava fingindo enlouquecido antes desses áudios; por isso a veracidade de seus delírios recentes nos coloca a pergunta: se esses delírios não são simplesmente mais nada do que a nossa redundante normalidade?

Uma estranha loucura ocultada em normalidade quando explicitada através de um absurdo violento se legitima como um novo normal possível de ser aceito e simbolizado. O que ouvi nesses áudios do presidente são delírios de pura realidade, é a verdade mais absurda!

Juro que pode ser algo muito terrível de imaginar e contar. O estranho é ele não parecer tão louco depois de tantas formas de tornar normal sua loucura de poder fascista.

Porém, posso supor que ele atravessou uma fronteira teatral no que está falando agora. O medo fez ele liberar como nunca seu inconsciente fascistóide. Estão correndo atrás da chamada cura porque o seu estado de delírio atual tornaria mais explícito ainda seu desejo de morte pelo poder. Perdeu toda a autocensura porque o super eu e o inconsciente se tornaram a própria fissura que dá vida ao desejo de vingança.

Seu delírio tem agora muito de teatral, se antes ele citava seus heróis, agora ele os encarna. Nos áudios o Upresidente diz não ser mais ele mesmo! Não sei se ele já conseguiu parar de falar como se fosse seu pai Ustra, o torturador.

A partir de agora todos podem ser ele, seu nome é de um Deus chamado Comandante Ustra (que está apaixonado pelo super eu do Messias). Ele falou que está indo para uma sala secreta do centro da cidade para encontrar o Upresidente; quer amá-lo! Não quer interromper seu trabalho de torturador – ele tem muito medo, percebe-se, ele tem medo de estragar tudo com sua presença amada.

Vocês sabem que terei que contar o que ouvi por cortes misturados com realidades que se confundem com uma ficção que está quase virando outro real.

Posso dizer pouca coisa por hora – por isso mesmo não devo também deixar de dizer coisas que não se pode calar porque falar tudo é praticamente impossível.

Usarei uma estratégia de comunicação com fragmentos para montar quase uma história sem fim, esse delírio fascista não se sabe onde vai dar….

Voltando lembro novamente que é sinistro que o que acaba de se revelar de forma mais nua, a loucura mais normal do fascismo, na mente do presidente, faz da normalidade a loucura de Deus pela violência.

Logo no primeiro segundo desses áudios com essas palavras ele abre o discurso mais real que já fez: “Não sou mais mito, não sou mais humano, agora sou Deus, sou o grande U, quero encontrar o Messias para penetrá-lo com meu cano 38 na torre do STF. Já disse, o raio é bala! O Capitão é Rei, Sou Upresidente Ustra. Sou o filho do pai que virou pai. Podem me prender. Me levem, sou um herói!

Está tudo aqui nesses áudios que vou revelar em cartas. A paranoia fascista que desde do primeiro sinal já estava nascida. Agora temos isso em detalhes precisos, quase literários, de alguém que fez da fé razão da verdade para conseguir salvar uma nação do seu diabo inventado.

Muito do que ouvi, apesar de seu novo grau de normalidade alcançado de um fascismo sem limites, já foi tudo dito antes. Quando diziam ele é um louco – quando ele era tão normal que hoje sua chamada loucura não é nada mais do que a mais rigorosa normalidade nova se impondo como lei de uma realidade simbólica. O imaginário se dissolveu no real.

O simbólico não existe (não seria o real?) a não ser nesse instante de seu uso abusivo que pode mudar conforme for o interesse do operador. É notável que o que ele fala em delírio agora se parece com o que ele dizia normalmente; todos os dias sem parar ele explicitou o normal – e nós todos espantados – “ nossa como ele é um…” querendo dizer ele é normal e o normal é isso mesmo, e agora o que vamos fazer?

É depois de ouvir esses áudios, acredito que perdemos a fronteira da loucura e da realidade, quando a violência media. Do dia a dia ferindo em tortura. Esse estado de coisas que sempre foi um retrato fiel absurdado da paranoia da violência vivida como lei natural. Império da violência. Sempre foi essa a doença da violência colonial transformada em progresso, que se impôs contra a maioria do povo sangrado, explorado.

A realidade violenta forjada como ei do mundo.

Não posso deixar de acabar sem essas frases do que ouvi: “ Eu não vou perder ! Eu não vou perder!” gritou quase no final dos áudios…

O real parece insuportável para o salvador, o Messias, alucinado com sua super verdade, está ferido, sangrando! Incrivelmente está alegre com o martírio! “Vou fazer do país pedaços arrancados de mim mesmo U! Meu nome é U! Eu arranquei a faca de dentro da minha barriga. Eu sobrevivi, foi um milagre, eu sobrevivi! Nunca vou… morrer ! Deus morreu em cima de mim com uma arma na mão, acima de todos mais de 740 mil mortos, eu renasci. Eu renasço. Vou matar esses fantasmas em sonho que me invadem o dia. Comunistas! Meu patrimônio, minha família, meus negócios. Eu juro, eu juro que vi dentro das malas de dinheiro, eu vi, eu vi que existem serpentes, muitas serpentes de Deus… o ministro da economia no paraíso me enviou fotos delas; ele vai me levar para o jardim dos investidores. Se eu precisar abandonar a política, eu seria um grande empresário no ramo de armas. Óbvio, vocês sabem disso, minha paixão por armamentos. Sou pela famílicia. Sou pelo negócio. Amém! Rachadinha de ossos. Quem não fez? Não sou diferente de ninguém. Pastores te amo, empresários te amo! Por isso, e por muito mais, que não vou poder me explicar, eu vou dizer, pode acontecer o que for, nem eu, nem minha família vai abandonar a missão em nome do Brasil. Preciso de vocês! Porque é pelo povo. Pelo povo eu luto até a morte. Pelo povo eu mato o povo! A morte me conduz. A morte é nossa glória. E se Jesus voltou armado é para nos mostrar a importância da luta pela nossa liberdade. Eu vou contar tudo para vocês… vão me chamar de louco… mas podem xingar…”

Corta… Vou ter que parar aqui, já escrevi demais por hoje… talvez amanhã cheguem novos áudios… encerro entre cortes e lapsos… faltou muita coisa para lembrar… aos poucos mais fissuras vão surgir…

Essa é a primeira de muitas cartas que envio e enviarei; ontem não sei que dia foi, amanhã desistiu e para hoje só basta um dia… a segunda, a terceira, a quarta carta com mais detalhes eu já comecei… em breve já chega, amanhã até meia noite ou dia… que nunca para de não escrever…

Assinado X

06
Ago22

A mais completa investigação sobre as origens do patrimônio político e financeiro de Jair Bolsonaro e sua família.

Talis Andrade

O Negócio do Jair - Juliana Dal Piva - Grupo Companhia das LetrasJornalista fala sobre entrevista exclusiva com militar que ocultou o corpo  de Rubens Paiva - Portal IMPRENSA - Notícias, Jornalismo, Comunicação

Resultado de mais de três anos de apuração, O Negócio do Jair: A história proibida do clã Bolsonaro desvenda o passado secreto da família que hoje comanda o Brasil.

A jornalista Juliana Dal Piva parte do escândalo das rachadinhas, exposto pelo caso Queiroz, a partir de dezembro de 2018, para contar uma história que remonta à entrada de Jair Bolsonaro na política na década de 1990.

No centro do passado que o clã tenta abafar, está um esquema de corrupção conhecido entre os participantes como o "Negócio do Jair".

O arranjo ocorria nos gabinetes funcionais ocupados pela família de Bolsonaro em seus mandatos políticos, seja de vereador, deputado estadual ou federal, e envolvia seus três filhos mais velhos, as duas ex-esposas e a atual, amigos, familiares – muitos deles atuando como funcionários fantasmas –, além de advogados e milicianos.

Com base em depoimentos exclusivos, cópias sigilosas dos autos judiciais, mais de cinquenta entrevistas, mil páginas em documentos, vídeos e gravações de áudio, Juliana Dal Piva demonstra como, à sombra dos grandes esquemas partidários, o clã acumulou milhões de reais e construiu o projeto político autoritário e regressivo que conduziria o chefe da família ao posto mais alto da República.

 

Livro traz relatos de caixas de dinheiro na casa de Bolsonaro: leia trecho

 

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por Chico Alves /UOL

O livro "O negócio do Jair: A história proibida do clã Bolsonaro", da jornalista Juliana Dal Piva, colunista do UOL, chega às livrarias com novas revelações e detalhes sobre a relação de Jair Bolsonaro com André Siqueira Valle, o ex-cunhado demitido de seu gabinete na época em que era deputado. André foi dispensado por não devolver a parcela de seu salário que Bolsonaro exigia.

No ano passado, a autora mostrou no podcast "UOL Investiga - A vida secreta de Jair" gravações em que uma irmã de André contava a história da demissão do rapaz.

No livro, a autora vai retratar o incômodo do ex-assessor com caixas de dinheiro vivo que via dentro da mansão de Jair Bolsonaro, na Barra da Tijuca, no período em que conviveu com o agora presidente e sua irmã Ana Cristina Valle enquanto eram casados.

O livro mostra que André se ressentia de ficar só com 10% do salário e que outros funcionários também viram altas quantias em espécie na residência do casal.

A coluna antecipa o trecho do livro:

André seguia a rotina combinada, mas não gostava de entregar tanto dinheiro ao cunhado. Passou a desabafar com amigos, em sigilo, que aquilo era errado. E observou com atenção algumas caixas de dinheiro vivo que o casal guardava em casa.

Certa ocasião, contou: "Pô, você não tem ideia como que é. Chega dinheiro? Você só vê o Jair destruindo pacotão de dinheiro. 'Toma, toma, toma'. Um monte de caixa de dinheiro lá [na casa]. Você fica doidinho".

Quem frequentava aquela casa não conseguia ignorar tanta grana. Marcelo Nogueira também viu muitas notas por lá. O casal mantinha um cofre no quarto, bem abastecido quando das campanhas eleitorais.

 

Juliana Dal Piva conta os bastidores do podcast 'A Vida Secreta de Jair'

 

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No "Jornalistas e Etc.", Dal Piva conta a Thaís Oyama os bastidores da investigação, os percalços da apuração e a reação dos Bolsonaro à reportagem que mostra o presidente como "o Zero Um" do esquema de rachadinha da família.

 

 

05
Jun22

Nunes Marques, capacho de Bolsonaro no STF

Talis Andrade

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Por Altamiro Borges

Primeiro indicado por Jair Bolsonaro para compor o Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Kassio Nunes Marques vai se mostrando um autêntico capacho do fascista. Nesta quinta-feira (2), ele garantiu a devolução do mandato do deputado estadual bolsonarista Fernando Francischini (União Brasil do Paraná), que havia sido cassado em outubro do ano passado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por difundir fake news contra as urnas eletrônicas. 

A decisão nem chegou a surpreender seus pares no STF. Em várias outras ocasiões – como no julgamento que condenou o deputado miliciano Daniel Silveira (PL-RJ) ou na aplicação de penas contra o blogueiro foragido Allan dos Santos –, Nunes Marques já havia votado para agradar o “capetão” que o nomeou. Por essas e outras posturas subservientes, o sinistro já andava totalmente isolado no Supremo e até já virou motivo de chacotas e humilhações. 

"Um teleguiado do bolsonarismo"

 
A devolução do mandato do deputado paranaense só reforça essa desmoralização. Como afirma o jornalista Kennedy Alencar no site UOL, o ministro presta mais um desserviço à democracia brasileira. “É uma decisão monocrática e Nunes Marques tem sido um ministro muito afinado com o bolsonarismo. Ele age mais como um teleguiado do bolsonarismo dentro do STF do que como um ministro da Suprema Corte”. 

Conforme enfatiza, “Fernando Francischini está na raiz dessa mentira que o presidente da República espalha a respeito da confiabilidade da urna eletrônica” e merecia ser punido. O colunista, porém, avalia que a decisão será revertida. “Não acredito que o STF vai endossar a desautorização de uma decisão do TSE, ainda mais em um ano eleitoral”. Para ele, a decisão monocrática só servirá para desgastar, ridicularizar e isolar ainda mais Nunes Marques no Supremo. 


Bolsonaro e filhote 01 festejam


Essa não é avaliação das hordas bolsonaristas, que até agora festejam a decisão do seu ministro. O próprio “capetão” veio a público para manifestar sua alegria com o voto de seu capacho no STF. Como registrou o site Metrópoles, “o presidente Jair Bolsonaro elogiou o ministro Nunes Marques, que suspendeu a decisão de cassar o mandato do deputado Fernando Francischini”. O fascista ainda aproveitou o episódio para atacar novamente o Tribunal Superior Eleitoral. “Nós sabemos que o TSE está tendo medidas arbitrárias e não quer transparência no sistema eleitoral”, esbravejou. 

Outro animadinho com o ministro-servil e o deputado das fake news foi o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Pelo Twitter, o filhote 01 do presidente, também apelidado de Flávio Rachadinha, postou: "Parabéns ao deputado @Francischini (o mais votado da história do PR) pela vitória e ao ministro Kassio Nunes Marques por fazer justiça. Neste caso, a decisão do TSE era a própria desmoralização do tribunal, que serviu de vergonhoso palco político para ‘mandar recado’ a Bolsonaro”.
Kássio Nunes Marques, vergonha nacional - O CORRESPONDENTE

13
Mai22

Para pm armada Bolsonaro faz discurso da barbárie

Talis Andrade

 

 

 
 
 
 

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Reinaldo Azevedo
Em formatura de PMs em SP, Bolsonaro faz discurso da barbárie. Comparou ministros do STF a marginais e defendeu excludente de ilicitude: licença para polícia matar pretos e pobres. É conversa q milicianos costumam ter. Em O É da Coisa, esfregarei números na cara de suas mentiras.

 

Em pauta, enfrentamento à violência contra a juventude negra e pobre |  Portal CMBH

Não aceitaremos o genocídio da população negra, seja por covid-19 ou  violência | Alexandre Padilha
 

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13 de maio, uma data para não comemorar
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10
Fev22

PSOL cobra que Damares detalhe ações tomadas no caso do assassinato de Moïse Kabagambe pela milícia na Barra da Tijuca RJ

Talis Andrade

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O linchamento ocorreu em um quiosque nas proximades do Condomínio Vivendas da Barra onde o presidente Bolsonaro tem residência 

 

A bancada do PSOL na Câmara dos Deputados protocolou nesta sexta-feira (4) um requerimento de informações endereçado à ministra Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, para que sejam divulgadas informações e documentos sobre as providências em relação ao brutal assassinato do refugiado congolês Moïse Kabagambe no Rio de Janeiro. 

Moïse trabalhava no quiosque Tropicália propriedade da milícia Lucio Costers. Todos os quiosques da Barra da Tijuca são concessões do prefeito Eduardo Paes, para milicianos Lucio Costers que têm a proteção da polícia do governador Cláudio Castro. 

Milícia que Damares muito teme ou respeita e muito.Image

Em seu Twitter, a ministra afirmou que “não dá pra vir pra rede social o tempo todo falar tudo o que estamos fazendo. Trabalhamos em silêncio, mas trabalhamos”, ao responder às pressões da sociedade para que o governo federal se manifeste sobre o caso de brutal violência, que envolve milicianos, e acompanhe de perto as investigações.

Os parlamentares do PSOL, portanto, cobram formalmente que a pasta detalhe quais ações estão sendo tomadas. “No requerimento protocolado, pedimos explicações de Damares sobre como sua pasta pretende lidar com o caso e o que pretende fazer para evitar que novos episódios como esse ocorram”, afirma a líder da bancada do PSOL, Sâmia Bomfim.

“Não se trata de uma resposta apenas a um Requerimento de Informação, mas sim uma necessária posição ao Brasil diante dessa brutalidade que chocou a todos nós”, conclui a deputada.

No Condomínio Vivendas da Barra eram vizinhos Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, e Ronnie Lessa preso por puxar o gatilho que matou a vereadora Marielle Franco do Psol. 

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10
Fev22

PSOL cobra que Damares detalhe ações tomadas no caso do assassinato de Moïse Kabagambe pela milícia na Barra da Tijuca RJ

Talis Andrade

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O linchamento ocorreu em um quiosque nas proximades do Condomínio Vivendas da Barra onde o presidente Bolsonaro tem residência 

 

A bancada do PSOL na Câmara dos Deputados protocolou nesta sexta-feira (4) um requerimento de informações endereçado à ministra Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, para que sejam divulgadas informações e documentos sobre as providências em relação ao brutal assassinato do refugiado congolês Moïse Kabagambe no Rio de Janeiro. 

Moïse trabalhava no quiosque Tropicália propriedade da milícia Lucio Costers. Todos os quiosques da Barra da Tijuca são concessões do prefeito Eduardo Paes, para milicianos Lucio Costers que têm a proteção da polícia do governador Cláudio Castro. 

Milícia que Damares muito teme ou respeita e muito.Image

Em seu Twitter, a ministra afirmou que “não dá pra vir pra rede social o tempo todo falar tudo o que estamos fazendo. Trabalhamos em silêncio, mas trabalhamos”, ao responder às pressões da sociedade para que o governo federal se manifeste sobre o caso de brutal violência, que envolve milicianos, e acompanhe de perto as investigações.

Os parlamentares do PSOL, portanto, cobram formalmente que a pasta detalhe quais ações estão sendo tomadas. “No requerimento protocolado, pedimos explicações de Damares sobre como sua pasta pretende lidar com o caso e o que pretende fazer para evitar que novos episódios como esse ocorram”, afirma a líder da bancada do PSOL, Sâmia Bomfim.

“Não se trata de uma resposta apenas a um Requerimento de Informação, mas sim uma necessária posição ao Brasil diante dessa brutalidade que chocou a todos nós”, conclui a deputada.

No Condomínio Vivendas da Barra eram vizinhos Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, e Ronnie Lessa preso por puxar o gatilho que matou a vereadora Marielle Franco do Psol. 

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09
Fev22

‘Lucio Costers’: os milicianos radicados na avenida onde Moïse foi espancado até a morte

Talis Andrade

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São vários, os mafiosos ou com fortes ligações com a máfia. O mais famoso já defendeu na tribuna da Câmara o uso da “vara de correção” para salvar jovens do inferno

 

 

por Hugo Souza

É tanta barbárie, desgraça e comoção – e confusão – envolvendo o espancamento até a morte do congolês Moïse Kabagambe num quiosque da Barra da Tijuca, que certos fatos direta ou indiretamente ligados ao cruento episódio vêm assim passando batidos, por mais que altamente indiciários das possíveis conexões por trás do assassinato.

Um deles é o relato dando conta de que o dono do quiosque Tropicália, que a polícia do Rio faz tanta questão de preservar, foi quem teria acionado os dois policiais militares que passaram os dias subsequentes ao crime tentando intimidar a família de Moïse, quando a família de Moïse correu atrás de explicações.

No dia seguinte ao assassinato, familiares de Moïse foram até o Tropicália tentar mobilizar o dono do quiosque para ir à polícia falar sobre o crime, já que a polícia parecia – e estava – quase que totalmente inerte.

O dono do Tropicália, segundo a família do morto, pareceu concordar e disse que ia ali buscar o carro, mas demorou-se, e neste meio tempo apareceram o cabo Leandro de Oliveira Vigaldi e o soldado Cleiton Lamonica Senra – “um cabo e um soldado”, mas estes da PM – pedindo documentos e fazendo sermão sobre como são bem-aventurados os que não fazem perguntas demais.

Outra informação das mais relevantes, crucial mesmo, é que dias antes de Moïse Kabagambe ser assassinado apareceram nas imediações do crime os corpos de outros dois homens mortos por “ação contundente”, ou seja, espancados.

Um deles foi encontrado boiando no mar na altura do número 2.630 da avenida Lucio Costa. Ele tinha as mãos amarradas, como Moïse teve as dele antes de morrer. O outro jazia na faixa de areia na altura do número 3.300 da antiga avenida Sernambetiba, transformada em avenida Lucio Costa em 1998 por decreto do então prefeito Luis Paulo Conde, após a morte do arquiteto responsável pelo plano urbanístico da Barra.

Mais um fato sinalizador é que a Lucio Costa, a avenida, reduto carioca de espancamentos neste início de 2022, é ou foi até recentemente endereço de vários grão-mafiosos, “milicianos” do Rio de Janeiro, ou figuras diretamente ligadas à milícia, algumas com prerrogativa de foro e quase todos com histórico de relações, digamos, B2B – business to business.

Come Ananás levantou as localizações dos imóveis em processos judiciais, denúncias do Ministério Público e imagens de prisões de milicianos divulgadas pela mídia. À exceção de um, no Recreio dos Bandeirantes, todos os imóveis ficam entre o posto 3 e o posto 5 da Barra da Tijuca. O condomínio Vivendas da Barra fica no meio, no posto 4. E todos são apartamentos, exceto os imóveis em questão que ficam no Vivendas, as casas 55 e 66.

Comecemos, então, pela casa 66 do número 3.100 da avenida Lucio Costa, que até há pouco era habitada pelo apertador de gatilho do assassinato de Marielle Franco, o ex-PM Ronnie Lessa. Lessa é apontado como integrante do grupo de matadores de aluguel “Escritório do Crime”, que, como talvez dissessem os “Faria Limers”, é um player do ramo de fazer turnover de targets; uma subsidiary da parent company Milícia de Rio das Pedras, Muzema e Gardênia Azul.

O “Escritório do Crime” era chefiado pelo também ex-PM Adriano da Nóbrega. Adriano foi morto há dois anos na Bahia. Conhecido como “Capitão Adriano”, Nóbrega tinha laços com outro capitão – este, mais famoso, do Exército de Caxias – e com seus filhos, especialmente o mais velho, o 01.

Residencial-hotelFórum: “Vivendas da Barra Pesada”, lar dos Bolsonaro, tem mais um bandido  preso – Onze de Maio

A 350 metros do Vivendas da Barra fica o prédio onde um dos chefes da milícia na Gardênia Azul, o ex-vereador carioca Cristiano Girão, comprou em 2002 um apartamento que valia R$ 500 mil, mas pagando apenas 12% deste valor, R$ 60 mil.

Girão foi preso em julho do ano passado. Antes, quando Ronnie Lessa foi preso pelo assassinato de Marielle, a polícia achou na casa 66 do Vivendas da Barra anotações com o nome de Girão, que anos antes teria acionado Lessa para matar o ex-policial conhecido como André Zoio, porque Zoio teria se arriscado como concorrente do ex-vereador no ramo de aluguéis na Gardênia. Zoio e sua namorada foram mortos em 2014, em Jacarepaguá. O carro onde estavam foi crivado com mais de 40 tiros – de fuzil.

Do mesmo prédio onde Girão “investiu” em 2002, saiu algemado em 2017 um homem chamado Cleber de Oliveira Silva, vulgo “Clebinho”. Ele guardava um tesouro em joias no apartamento de quatro quartos com vista para o mar e tinha R$ 168 mil em espécie malocados no porta-malas de um Chevrolet Camaro. Cleber foi preso acusado de ser “agente financeiro”, lavador de dinheiro de uma outra milícia da Zona Oeste, esta atuante no bairro de Santa Cruz.

Outro miliciano da Zona Oeste, um dos chefes da milícia de Rio das Pedras, o ex-sargento da PM Dalmir Pereira Barbosa foi preso em 2011 em casa, ou melhor, num loft de um residencial-hotel da avenida Lucio Costa, a 500 metros do Vivendas da Barra.

Dalmir, ligado à máfia dos transportes, é acusado de matar, em 2003, o então chefe de gabinete da extinta Superintendência Municipal de Transportes Urbanos do Rio (SMTU), Paulo Roberto da Costa Paiva. É outro que construía prédios mambembes nos subúrbios proletários do Rio enquanto acordava todos os dias com vista para o Atlântico.

Está registrado no loft de Dalmir Pereira Barbosa no residencial-hotel da Lucio Costa, e tendo Dalmir como administrador, um CNPJ ativo de uma empresa aberta em 2018 e que tem como finalidades principal e secundária no CNAE, respectivamente, aluguel e loteamento de imóveis…

Uma spin-off do ‘Escritório do Crime’

O ex-major da PM Dilo Pereira Soares Júnior é mais um mafioso da Zona Oeste proprietário de imóvel na Lucio Costa, este no Recreio dos Bandeirantes. Dilo foi denunciado pelo Ministério Público junto com Dalmir Pereira Barbosa por formação de milícia em Rio das Pedras.

Na denúncia, dizia-se que “o grupo criminoso, inclusive, para a manutenção de suas atividades ilícitas, utilizava de seu domínio armado sobre a população, criando ‘currais eleitorais’ nas comunidades que controlavam, tentava introduzir seus membros na administração pública e nos cargos eletivos de vereadores e deputados”.

E mais um “Lucio Coster”: preso em julho de 2019 em seu apartamento na antiga Sernambetiba, e que fica a pouco mais de 700 metros do Vivendas da Barra, o advogado Leonardo Igrejas Esteves Borges movimentou R$ 25 milhões ao longo de quatro anos em dinheiro engatado a empreendimentos miliciano-imobiliários na Muzema.

Quem também empreende neste ramo na Muzema é o “Escritório do Crime”, que usou dinheiro da rachadinha de Flavio Bolsonaro para financiar, vamos dizer assim, sua spin-off de construção civil. Foi, aliás, movimentando dinheiro de maneira heterodoxa que Flavio Bolsonaro comprou em 2014 um apartamento no número 3.600 da avenida Lucio Costa, pagando parte do acertado, R$ 30 mil, em espécie.

O apê de Flávio fica pertinho do condomínio de seu pai, como se o Vivendas da Barra não terminasse em muros, espalhando ramas pela Barra da Tijuca, pelo Brasil.

Quebra-chamas

E, portanto, voltamos ao Vivendas da Barra. Neste país, nos últimos anos, tudo volta ao Vivendas da Barra. Temos então, como grande expoente dos “Lucio Costers”, o homem da casa 58, o vizinho do apertador de gatilho da casa 66 do condomínio localizado ao número 3100 da avenida dos Espancamentos.

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As últimas notícias em que o homem da casa 58 e o da 66 aparecem dividindo as mesmas linhas na imprensa dão conta de que um dos decretos armamentistas assinados por Jair Bolsonaro pode beneficiar Ronnie Lessa num processo que Lessa enfrenta por importação ilegal de um lote de um acessório para fuzil chamado quebra-chamas.

O quebra-chamas é inútil para praticantes de tiro ao prato e para colecionadores de fuzis de assalto, mas pode ser muito útil para assassinos profissionais, porque “camufla” o atirador ao reduzir em até 85% o clarão provocado pelo disparo.

O 16 quebra-chamas importados por Lessa em 2017 tinham como destino a República de Rio das Pedras, mas foram interceptados pela Receita Federal do Brasil. Em um decreto assinado no ano passado, Bolsonaro excluiu o quebra-chamas da lista de Produtos Controlados pelo Exército (PCE), “legalizando”, na prática, o comércio do apetrecho.

Assim atua “o cara da casa de vidro”, para quem comparsas de Adriano da Nóbrega telefonaram após a execução do miliciano pela polícia da Bahia. A “casa de vidro”, registre-se, não é o número 55 do Vivendas da Barra, mas sim o Palácio do Planalto – ou o da Alvorada. E há duas décadas o futuro “cara da casa de vidro” e o verbo “espancar” já dividiam as mesmas linhas de reportagens da imprensa carioca:

A ‘vara de correção’

Isso foi há duas décadas. Há uma, Jair Bolsonaro foi o deputado federal que mais se manifestou na tribuna da Câmara, com quatro discursos, sobre a chamada “Lei da Palmada”, que apesar dos latidos foi aprovada prevendo punição para castigos físicos e tratamentos degradantes contra crianças e adolescentes. Bolsonaro, qualquer um pode inferir, foi contra o então projeto de lei, e lançou mão de todos os artifícios regimentais para impedir a votação da matéria.

Em um dos discursos que fez na época na tribuna da Câmara dos Deputados, Bolsonaro esgrimiu o seguinte argumento para fundamentar sua posição: “existem passagens bíblicas que dizem, dentre outras coisas, que, quando um pai usa a vara de correção, está salvando o filho do inferno”.

Testemunhas disseram que os empunhadores de varas de pau que mataram Moïse Kabagambe anunciavam a quem passava que “queriam dar um corretivo” no congolês, acusando-o de comportar-se muito mal.

Está certo que no Rio a chapa é quente e o bagulho é doido. Mas quem é que mata alguém em plena Lucio Costa a golpes de varas de correção, com a desenvoltura de quem usa um fura-coco, e depois se vira sobre os calcanhares para voltar aos prosaicos afazeres – dois latões saindo, um refrigerante para o freguês – largando o corpo à vista de todos, amarrado, arrebentado, esfriando junto ao freezer de cervejas estalando a zero grau, a dez passos do quiosque operado por um policial militar?

Só mesmo quem se fia nalgum belo tipo de anteparo.

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08
Fev22

Rio, 40 graus de barbárie

Talis Andrade

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por Cristina Serra

O bárbaro assassinato de Moise Kabagambe faz a ponte entre dois fracassos civilizacionais. Aperta o nó entre Brasil e Congo, enredados há séculos na violência escravista que moldou os dois países. Atualiza a encruzilhada em que a selvageria se impõe e a humanidade se esvai no precipício.

Moise e sua família fugiram da guerra e da fome, mas depositaram suas esperanças na cidade errada. No Rio de Janeiro, a bestialidade se alastra como metástase, por fora e por dentro do aparelho de estado. Indícios apontam o envolvimento de milicianos e seus bate-paus no suplício do refugiado congolês.

Na sua gênese, essas máfias impunham a lei do mais forte em lugares esquecidos, inclusive (ou principalmente) pelas autoridades. O tumor foi cevado, as células cancerígenas se desprenderam do foco original e chegaram às areias do cartão postal. Já se nota um padrão: Moise é a terceira pessoa morta por espancamento em menos de um mês na orla da Barra da Tijuca.

Um policial militar “opera” irregularmente o quiosque onde Moise trabalhava em troca de migalhas; a família do rapaz diz ter sido intimidada por dois PMs; uma testemunha da execução conta ter pedido ajuda a dois guardas municipais, que a ignoraram. A polícia levou mais de uma semana para prender os criminosos, mesmo tempo que demorou para o quiosque do crime ser interditado.

Prefeito e governador só se manifestaram quando já pegava mal ficar calado. Autoridades federais continuam em silêncio, ainda que a tragédia tenha ocorrido na rua onde o presidente da República tem uma casa. Talvez por isso mesmo.

No livro “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, sobre a brutalidade colonial no Congo sob domínio belga, tornou-se célebre a frase de um personagem para definir as atrocidades que presenciou contra os congoleses: “O horror, o horror…”. A expressão se encaixa de maneira trágica no martírio de Moise e no que o Rio de Janeiro e o Brasil se transformaram: “O horror, o horror…”

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12
Jan22

Fracotes e furiosos

Talis Andrade

por Fernando Brito

- - -

A Folha mostra o espetáculo ridículo, mas revelador, a rentrée de Fabrício Queiroz na campanha de Jair Bolsonaro, apontando armas e fazendo o papel de “machos dinamite” em poses na praia.

Numa coisa há razão: ali estão os “amigos para sempre” do presidente da República: os achacadores, os milicianos, a enorme banda podre do país que acha que calibres das armas são calibres de homens.

A volta de Queiroz “à ativa”, porém, é um indicador da fraqueza a que chegou o bolsonarismo, que vai se reduzindo à mancha, à nódoa moral que sempre representou, desde que o seu chefe era apenas um curioso e nojento representante de desajustados sociais, espécie de carrapatos dos medos e angústias que uma sociedade desigual gera no campo da segurança pública.

Queiroz está, por uma série de vacilações e vaivéns judiciais, até agora livre de punições por sua função de coletor de vantagens para a família presidencial. Mas todos sabem que isso é questão de tempo, assim como todos sabem que é uma questão de tempo que o Palácio do Planalto seja desinfetado do chefe de Queiroz.

A mesma Folha diz que Bolsonaro perdeu a liderança até na sua praça forte, as redes sociais, para Lula, sem que avancem os aspirantes a substituir o “Mito” como alternativa a uma vitória anunciada da centro esquerda liderada pelo petista.

E isso implicará em maior violência e agressividade vindas do grupo de apoiadores e fanáticos do neofascismo brasileiro.

Não reagir na mesma moeda é recusar o debate com milicianos e arruaceiros que o compõem.

 

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11
Jan22

O Judiciário que trata bem os poderosos

Talis Andrade

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Por Moisés Mendes /Jornalistas pela Democracia 

Anthony Kelly, um juiz australiano, decidiu que o tenista Novak Djokovic entre e jogue na Austrália, e se quiser que circule sem máscara, mesmo sem ter sido vacinado e mesmo que tenha participado de eventos com crianças quando estava infectado.

Timothy Holroyde, um juiz de Londres, decidiu que Julian Assange seja extraditado para os Estados Unidos, mesmo correndo o risco de morrer na prisão do país por ele exposto por seus crimes de guerra.

Sergio Moro, um juiz paranaense, decidiu caçar, condenar e encarcerar Lula e agora tem a pretensão de disputar a eleição e de enfrentar Lula e o fascista para o qual trabalhou.

Luciana Menezes Scorza, uma juíza paulista, determinou, com respaldo de um pedido do Ministério Público, que uma mulher que furtou um pacote de Miojo fosse encarcerada por praticar “crime patrimonial”.

Wilson Witzel, um ex-juiz carioca, eleito governador do Rio como nome nacional do moralismo de extrema direita, foi afastado do cargo por impeachment por suspeita de corrupção.

Na Alemanha da pós-guerra e pós-Nuremberg, juízes nazistas julgavam comparsas nazistas, determinando que todos deveriam ser absolvidos da acusação de que ajudaram a perseguir e matar judeus, porque eram nazistas comuns e sem o direito de dizer não.

Juízes são protagonistas, desde a Bíblia, de decisões que favorecem os poderosos, os criminosos endinheirados, os fascistas, os nazistas. Sim, há o outro lado, mas não é deste que estamos tratando aqui.

Estamos falando de uma Justiça protagonista, como nunca existiu antes no Brasil e em muitos lugares no mundo, que examina, delibera e sentencia em favor de quem tem algum poder, por mais despótico que seja. 

A Justiça orienta a política e dela se serve e a ela serve como serva. Até o ir e vir, com máscara, depende de garantias da Justiça.

Situações inversas, de juízes que desafiam e impõem medos ao poder, são raras hoje e uma dessas raridades é a da juíza argentina María Eugenia Capuchetti.

A juíza declarou-se impedida de participar dos processos sobre a espionagem contra inimigos de Mauricio Macri, comandada pelo governo do mafioso, de 2015 a 2019.

María Eugenia descobriu que também ela era espionada pelos arapongas de um governo liderado por um grupo de direita hoje alinhado à extrema direita.

María Eugenia era considerada inimiga das facções macristas e de todos os fascistas argentinos. Era perigosa, como são perigosos muitos juízes do Brasil por não se submeterem às ordens e ao terror de golpistas e militaristas. bolsonaristas, negacionistas e neonazistas.

A Argentina exibe hoje um mural tenebroso do aparelhamento da Justiça pela direita, com a descoberta da articulação de macristas com juízes e membros do Ministério Público para perseguir sindicalistas e adversários políticos e interferir em processos judiciais, com o apoio das corporações de mídia.

A Argentina pelo menos enfia as mãos nas sujeiras do Judiciário. Emergem todos os dias por lá informações sobre o esquema que o próprio macrismo chamava de Gestapo.

Era uma estrutura de poder paralelo para destruir inimigos com a ajuda de um Judiciário que o governo de Alberto Fernández tenta reformar para que não continue sendo usado na perseguição às esquerdas.

E no Brasil? Aqui, todos ainda fingem normalidade, enquanto Bolsonaro aparelha as instituições, e as reações mais visíveis do Judiciário são as do Supremo e quase pessoalizadas em torno do ministro Alexandre de Moraes.

Aqui, o lavajatismo é um moribundo que perambula à noite pelas ruas, sendo amparado pelos poucos que ainda se dispõem a mantê-lo com vida. 

O Judiciário espetaculoso está avariado. Mas um Judiciário mais discreto ainda dá guarida aos que perseguem, censuram e tentam amordaçar jornalistas e interditar e calar quem se atreve a mexer em podridões de grileiros, contrabandistas, grandes sonegadores, milicianos e famílias mafiosas.  

O Judiciário brasileiro, uma miragem para pobres, negros e índios e um oásis para os Bolsonaros e seus parceiros, é incapaz até de assegurar a vacina das crianças.

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